quarta-feira, abril 15, 2015

Brasil: um país de discursos e crises... I

O atual momento enfrentado pelo Brasil é bastante complexo. Um país que historicamente foi governado por uma elite pouco preocupada com a construção de um projeto identitário de nação, atravessa uma das suas piores crises institucionais e representativas. Quem seria o responsável por essa crise? Como ela surgiu? Não tenho competência teórica para responder essas duas perguntas. Todavia, possuo algumas intuições. 

Primeiro: é preciso entender a conjuntura mundial e qual o papel do Brasil à luz do todo. O mundo, também, atravessa uma crise. Isso é inegável. Em 2008, Lula, diante do caos econômico que envolveu as principais economias globais, disse que o Brasil sentiu "uma marolinha". À época, o mercado interno brasileiro estava aquecido pela prodigalidade do crédito. Com "dinheiro fácil", os brasileiros saíram às compras. Em meu simplismo, sei que a lógica que fundamenta uma sociedade capitalista é o lucro. Três protagonistas devem estar presentes para que isso exista: a mercadoria, o crédito (dinheiro) e o consumidor. Dos três, aquele que se mostra mais frágil é o consumidor, pois para adquirir a mercadoria, ele precisa de crédito. Mas uma vez que consiga o crédito como resultado do seu trabalho, compulsoriamente, ele se ver dentro de uma obrigação jurídica, pois deve pagar à instituição credora. Comprometido financeiramente, o consumidor não pode adquirir novas mercadorias. Existe um problema: para que o capitalista continue a ter lucro, novas mercadorias mercadorias são produzidas para serem consumidas. Contudo, o que acontece quando há mercadoria, mas não existe consumidor pelo fato de o dinheiro se tornar "curto" e caro? Instala-se a crise e excedente de mercadoria. Ao meu modo de ver, a crise de 2008, está chegando por aqui em decorrência de uma lógica que não muda dentro de uma sociedade capitalista. As crises seguem uma lógica de gangorra. Ora estamos nela, ora saímos dela. Ela está sempre no horizonte. 

A pequena burguesia foi a principal privilegiada desse bum do crédito, tendo a possibilidade de viajar mais, consumindo objetos variados, parecendo ter encontrado o momento definitivo de sua ascensão; trocando de carro etc está endividada neste momento e, com a instabilidade econômica, enxerga no horizonte presságios nebulosos. 

Segundo: é preciso perceber o quanto o Partido dos Trabalhadores contribuiu para o presente momento. Aqui deve se enxergar a realidade de forma dialética. Uma leitura sensata nos permite entender que convivem interesses antagônicos no seio da sociedade brasileira: de um lado estão as elites que não se veem representadas pelo PT e buscam recuperar o palco perdido desde 2002; e do outro lado, estão aqueles que, convulsamente, ainda resistem às investidas do golpismo midiático a favor das elites, mas, que, por causa do PT, foram enfraquecidos e esvaziados de qualquer tática, sem saber como devem reagir. 

Sempre houve na história do Brasil um jogo de cooptação da burguesia. A classe média conservadora compra para si o discurso das elites. Se ver representada institucionalmente por um discurso de estabilidade. O modo como as informações são trabalhadas ajudam a criar determinadas intencionalidades discursivas. É só assistir ao noticiário de qualquer canal aberto para perceber o estratagema discursivo dos detentores do monopólio da informação.  A mídia brasileira é um o principal partido político perante a sociedade. Ela consegue inverter tendências, suplantar interpretações, ocultar pedaços relevantes de acontecimentos. 

De modo que de tanto ouvir notícias negativas com personagens ligados ao governo, o brasileiro médio passou a odiar tudo aquilo que diga respeito à política e ao Governo Federal. O sujeito que trabalha muito, que busca viver a sua vida de forma digna, ao perceber um estado de coisas em que aqueles que foram escolhidos para gerir os negócios do Estado, são tidos por responsáveis por um suposto esquema corruptivo, passa a ser guiado para determinado sentimento. 

A onda fascista por que passa o Brasil atualmente foi construída por certo tipo de discurso. É por conta disso, que enxergamos determinadas incoerências que acabam sendo defendidas pela sociedade civil. A construção de dicotomias é comum no Brasil. Nosso modo de interpretação está baseado no maniqueísmo. Utilizamos sempre categorias duais para julgar o mundo concreto - bom e mal; feio e bonito; branco e preto. Assim, aquilo que diz respeito a mim é bom; mas aquilo que é do outro só pode ser o mal. A minha fé é boa, todavia, a do outro é ruim. Esse fenômeno faz do Brasil uma sociedade altamente violenta. Segundo pesquisas, nos últimos 60 anos, mais de 1 milhão de pessoas participaram de linchamentos públicos. 

O homem médio enfrenta uma espécie de esquizofrenia. Ao mesmo tempo que é contra o aborto, é favorável à redução da maioridade penal e à pena de morte. No tocante a isso, pesquisa feita pelo Datafolha no dia de hoje,  afirma que 87% é favorável à redução da maioridade penal. Ao mesmo tempo em que diz que é um povo pacífico é favorável à suspensão do Estatuto do Desarmamento, como o projeto que tramita no Congresso. Diz que aceita as diferenças, mas é machista e homofóbico. 

Essa dualidade sempre existiu em nossa sociedade. O que acontece é que ela estava adormecida. Os últimos acontecimentos políticos serviram para aquentá-la ou destampar o caldeirão de boçalidades. Como externei acima, essa tendência ao dualismo é algo tão certo que a sociedade não consegue visibilizar os políticos brasileiros, como uma extensão da própria sociedade. Os quadros que fazem as leis ou desmobilizam direitos são uma consequência direta do espectro social. Como foi dito determinado vez: "Cada povo tem o governo que merece". Pretendo continuar essa conversa. 

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