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terça-feira, abril 01, 2025

Um encontro

Cena do filme "Rapsódia em agosto", de Akira Kurozawa
 

               “Não existe morte natural. Nada que acontece a um homem é natural, já que sua presença coloca o mundo em questão”.

Simone de Beauvoir

Nestes dias iniciais de 2025, estou passando alguns dias na minha terra de nascimento; aquilo que os antigos chamavam de “pátria”, “a terra dos pais”. É muito representativo realizar esse tipo de visitação. Ajuda-me a entender certos fenômenos, certos pensamentos; a organizar os sentimentos; a compreender a maneira como ajo; meus silêncios, minhas dúvidas, medos e minha disposição incansável para a casmurrice. Alguns fatos são admitidos ou compreendidos após o trabalho do tempo.

Esta semana, fui com minha mãe visitar aquela que é considerada minha madrinha. Há uma tradição entre os nordestinos e, talvez, em outras regiões do Brasil de, por estimação, dar o filho, quando este nasce, para que alguém seja padrinho ou madrinha. Tal escolha reflete um tipo de honra e potencializa laços de fraternidade. Evidencia-se nessa ação um certo lastro virtuoso, pois certas qualidades precisam ser analisadas. Geralmente, a escolha solidificará ainda mais a amizade entre as partes envolvidas. As gerações mais novas não entendem o significado desse tipo de escolha. O costume tem se perdido ao longo do tempo.

Não atribuo muita relevância a esse tipo de tradição, mas respeito o seu significado. Convocado por minha mãe, fui de maneira cordata. Era uma questão de honra que eu fosse visitar a comadre Bil. Cheguei à casa pequena, no bairro do Cajá, em Vitória de Santo Antão – minha cidade. A casa onde já estivera antes, é pequena, acanhada, despojada de conforto, espremida entre outras casas semelhantes. A rua de pedra irregular é estreita. Ao chegar, os vizinhos ficaram observando quem eram os forasteiros. Suas três filhas nos recepcionaram. Depois das amenidades iniciais, fui conduzido ao quarto para poder falar com ela. Em um espaço pequeno, abafado, sentada sobre uma cama, ela se encontrava. Acometida por uma cegueira, resultante de um glaucoma, comadre Bil aguardava com o seu aspecto pequeno e frágil. Falamos rapidamente. Dei a benção a pedido de minha mãe – um gesto que indicador de respeito. Aquiesci por entender o que o momento representava. Minha mãe – parece que intencionalmente saiu; fiquei sozinho com aquela figura pequena, habitada por memórias e vivências. Fazia um bom tempo que eu não dirigia a palavra àquela pessoa que se encontrava sobre cama, em um espaço exíguo, de aspecto encurvado. Olhei buscando resgatar outras memórias. Imagens dela ainda jovem. A memória não realizou exercício tão promissor.

Narrou-me com sua fala ordeira e contada, uma multidão de fatos. Passeamos pelo passado. Ela contou sobre como se tornou vizinha do meu avô, quando tinha dezenove anos de idade. Descreveu pormenores sobre os meus tios com uma desenvoltura bíblica. Falou sobre as árvores frutíferas que cultivara em seu sítio, antes da mudança para Vitória de Santo Antão, algo que se deu há quase quarenta anos.

Tenho memórias esparsas de como era a sua casa. A sala com plantas. Algumas trepadeiras. Suas filhas costumavam passar óleo de soja nas folhas para que elas brilhassem. O chão limpo. Os sofás rústicos. A imagem dela e do meu padrinho desenhada na parede. O bigode desenhado do meu padrinho. O corredor que levava à cozinha. Na caminhada que se fazia da sala à cozinha, era possível passar por dois ou três quartos. Um pano ordinário fazia o papel de cortina. Não era possível enxergar nada. Eram furnas misteriosas. Minha memória não consegue fixar nenhuma forma naquele espaço. A cozinha também é um espaço, em minha memória, sem móveis; não consigo formular um pedaço da silhueta de qualquer coisa.

A porta era daquelas com dois compartimentos. Era possível abrir a parte de cima e deixar a parte de baixo fechada. Da cozinha, era possível enxergar, do lado direito, uma ampla porção do sítio. Em certa ocasião, em um mês bastante chuvoso, aconteceu um episódio que permanece em minha cabeça. João Severo, meu padrinho, plantou um pé de banana nanica. Com a chuva, o adubo e a boa terra, a planta deu um cacho de banana enorme. A planta inclinava-se para o chão. O pé da planta era sustentado por uma estaca, que foi providenciada para que a planta não viesse abaixo. Em um dia qualquer, uma torrencial chuva, seguida de um vento uivante, ameaçava derrubar o pé de banana. Seria uma grande perda. Estávamos todos na cozinha. João Severo ao constatar o que estava para acontecer, saiu em disparada a fim de remediar o que parecia inevitável. Ele desejava firmar outra estaca. A chuva grossa e o vento vigoroso davam a aparência ao meu padrinho de uma figura pequena que lutava contra forças ancestrais. A camisa aberta e o chapéu de palha conferiam à sua aparência o aspecto de um xógum que enfrentava as forças naturais com bravia inteligência e resistência. Não lembro qual foi o desfecho da luta.

Relaciono a cena de João Severo em sua luta particular, épica, para não permitir que o pé de bananeira viesse a pique, por causa dos golpes lancinantes que tomava das forças naturais, com imagem da senhora pequena e frágil que caminha empunhando um guarda-chuva, em meio à tempestade, do filme “Rapsódia em agosto”, de Akira Kurozawa. A delicada figura curvada avança inexpugnável, decididamente. Tudo é grande para ela. Associo o meu padrinho a essa imagem. Sua teimosia resistente contra o vento rodopiante e a chuva espessa era a luta do pescador de “O velho e o mar”, de Ernest Hemingway. Enquanto conversava com ela, esses temas passavam pela minha cabeça como cenas de um filme.

Com 78 anos de idade, impedida de caminhar (perdeu o movimento das pernas, após uma queda e uma cirurgia sem sucesso), cega, ela depende das filhas. A certeza que me ficou é que há memórias vivas dentro dela. Sua lucidez é um farol na noite escura em que vive. O corpo impôs certos condicionamentos. Impedida de ver, ela lembra; sem possibilidades de locomoção, ela demonstra uma ambivalência entre a necessidade e a suficiência.

Fiquei com sua imagem pequenina. Impactou-me vê-la daquela forma. Daí, volto à frase de Beauvoir: “nada que aconteça ao homem é natural”. Somos mais que os determinismos biológicos do corpo. Todavia, só podemos ser no corpo. Dessa forma, somos a mistura da fragilidade corpórea com a potência dos afetos, ou seja, daquilo que nos faz ser e existir.

Suas filhas disseram à minha mãe que ela chorou bastante quando fomos embora. Disse que gostou de ter conversado comigo. Verbalizou que gostaria de ter me visto, constatado como eu estou fisicamente.

Escrito em janeiro de 2025, em Vitória de Santo Antão-PE

segunda-feira, janeiro 01, 2024

Filmes e documentários vistos em 2024.

Truffaut em ação.
 

Vamos para o quinto ano com a estratégia de escolher doze filmes de um determinado diretor. Cada filme é visto ao longo de um mês. Não é uma tarefa difícil. Com essa estratégia, torna-se possível assistir a clássicos imortais. Ou seja, é possível ver aquelas obras imemoriais que fazem do cinema uma das mais belas dimensões da criatividade humana.  Já escolhi Tarkovsky, Bergman, Kurosawa e Buñuel. No ano de 2024, será a vez do francês François Truffaut.

O diretor foi um figura proeminente do cinema francês. É considerado o fundador da Nouvelle Vague ("Nova Onda"), um movimento do cinema que atualizava as produções ao momento político e social do pós-guerra. Nas produções oriundas desse movimento, as personagens eram contestadoras, insubmissas. Os criadores do movimento, entre eles Godard, Resnais e Rohmer, além do próprio Truffaut, fundaram uma nova estética. Com pouco dinheiro, mais com o desejo de imprimir uma percepção nova sobre o cinema, os diretores queriam fugir dos clichês costumeiros do cinema comercial. O foco passou a ser dado ao psicológico das personagens; em suas impressões sobre o cotidiano e os pequenos eventos nunca antes enquadrados pelo cinema.

Segue a lista dos 12 filmes escolhidos:

1 - Os incompreendidos - Ok!

2 - A noite americana - Ok!

3 - Beijos roubados - Ok!

4 - Antoine e Colette / A noiva estava de preto

5 - Domicílio conjugal - Ok!

6 - Um só pecado Ok!

7 - Atirem no pianista

8 - Na idade da inocência

9 - Fahrenheit 457

10 - O homem que amava as mulheres

11 - A mulher do lado

12 - Uma jovem tão bela como eu


Filmes vistos em 2024:

01 - Os incompreendidos

02 - A grande testemunha

03 - O maestro

04 - Priscila

05 - Boulevard do crime

06 - Roma - cidade aberta

07 - Dias perfeitos

08 - Pobres criaturas

09 - A noite americana

10 - Zona de interesse

11 - Amor à flor da pele

12 - Gosto de cereja

13 - Anatomia de uma queda

14 - Domicílio conjugal

15 - A vida de uma mulher

16 - Pollock

17 - Réquiem para um sonho

18 - Beijos roubados

19 - Duna - parte 2

20 - Napoleão

21 - Minha noite com ela

22 - A vingança está na moda

23 - A fraternidade é vermelha

24 - Pacto de sangue

25 - O homem que fazia chover

26 - Terra Selvagem

27 - O júri

28 - Um homem bom

29 - Lionhart

30 - Spencer

31 - O vingador do futuro

32 - Coco antes de Channel

33 - Pompeia

34 - Divertidamente 2

35 - Pai e Filha

36 - As mães do terceiro Reich

37 - Um só pecado

38 - Inimigos Públicos

39 - Blonde

40 - Vidas passadas

41 - Uma rua chamada pecado

42 - Ratatouille

43 - Marshall - igualdade e justiça

44 - Atirem no pianista. 

45 - Oppenheimer

46 - O clube do imperador

47 - Alien - o oitavo passageito

48 - Filadélfia

49 - Marcas da violência

50 - Amor e tulipas

51 - Fahrenheit 451

52 - Furiosa - uma saga de Mad Max

53 - Mad Max

54 - Barry

55 - Tudo por justiça

56 - Luca

57 - Mad Max 2

58 - Mad Max - além da cúpula do trovão

59 - Tempo esgotado

60 - O terceiro homem

61- O novo mundo

62 - Churchill

63 - Michelangelo - infinito

64 - O homem que amava as mulheres

65 - Contra o gelo

66 - Medo e delírio em Las Vegas

67 - A vítima invísivel - o caso Eliza Samúdio

68 - Amor esquecido

69 - O último metrô

70 - Harry Potter - a câmara secreta

71 - A virgem vermelha

72 - Embriaguez do sucesso

73 - As duas inglesas e o amor

74 - 


segunda-feira, janeiro 16, 2023

Os dez melhores filmes que vi em 2022


Chegamos à terceira semana de janeiro de 2023. Mas ainda penso sobre 2022. Ainda há demandas a serem observadas. Refletidas. No início do ano passado, estabeleci a meta de 70 filmes. Não se tratava de uma tarefa inalcançável. Com disciplina e organização seria possível cumpri-la. Seria necessário assistir, no mínimo, de cinco a seis filmes por mês. Não parecia tão difícil.

O fato é que não consegui. Não fiquei decepcionado. Geralmente, essas coisas provocam uma sensação de frustração. Resolvi não impor uma carga demasiada sobre mim mesmo. Afinal, não é fácil cumprir essas metas com o estilo de vida que tenho. Por isso, dei-me por satisfeito. Repetirei o mesmo número do ano passado este ano.

Com relação ao ano que passou, assisti a 63 filmes. Menos que o ano de 2021, quando tive a oportunidade de ver 80. Entre os filmes que tive a oportunidade de ver, destaquei os dez de que mais gostei. Vale destacar que dos dez filmes, seis são do gênio japonês Akira Kurosawa. Foi um ano dedicado às suas produções. E, quando o que está em jogo é o cinema do diretor japonês, é difícil não se deparar com uma obra-prima. Segue a relação:

01 - Argentina - 1985;

02 - Ran;

03 - Trono manchado de sangue;

04 - Sonhos;

05 - A fortaleza escondida;

06 -Kagemusha - sombra do samurai;

07 - Viver;

08 - Nada de novo no front;

09 - Ataque de cães;

10 - Doutor Gama;

domingo, janeiro 01, 2023

Filmes e documentários vistos em 2023

Posso afirmar que uma das mais felizes experiências que empreendi nos últimos três anos foi a possibilidade de sistematizar a forma como passei a ver algumas obras cinematográficas. O método é o seguinte: escolho o diretor, seleciono os filmes; estabeleço um filme por mês, o que não é uma tarefa complexa, e vejo-os diligentemente. Durante os doze meses do ano, dedico-me à tarefa. O resultado do empreendimento é prolífico e enriquecedor. 

Em 2020, dediquei-me ao mestre russo Andrei Tarkovski. Sua filmografia não é extensa. Foi possível assistir a todos os filmes que eu ainda não havia visto. Não vi "Solaris", por exemplo; mas pude rever "O Espelho". Em 2021, foi a vez do mestre sueco Ingmar Bergman, o homem da psicologia profunda. Dos silêncios desconcertantes; da poesia de alto valor. Em 2022, dedicamo-nos ao mestre Akira Kurosawa. Devo afirmar que foi uma das experiências mais lindas e seminais as quais eu já experimentei com a arte. Kurosawa é um mestre do rigor e da beleza. Um gênio acima de qualquer de qualquer possibilidade de contestação.

Em 2023, vamos nos dedicar às obras do diretor espanhol - naturalizado mexicano - Luis Buñuel. Segue a lista com os 12 filmes:

 1 - janeiro - "Viridiana"; Ok!

2 - fevereiro -  "O discreto charme da burguesia" Ok!

3 - março - "O anjo exterminador"- Ok!

4 - abril - "A bela da tarde" Ok!

5 - maio - "O alucinado" Ok!

6 - junho - "Este obscuro objeto de desejo" Ok!

7 - julho - "Nazarin" OK

8 - agosto - "O fantasma da liberdade" OK

9 - setembro - "O diário de uma camareira" OK

10 - outubro - "Uma mulher sem amor" OK

11 - novembro - "O rio e a morte" OK

12 - dezembro - "Susana, mulher diabólica" OK

Além dos filmes de Buñuel, o objeto é assistir a aproximadamente 70 filmes. Infelizmente, em 2022, eu não consegui cumprir a minha meta, também, de 70 filmes. 


1 - Viridiana

2 - Bardo - falsa crônica

3 - O milagre

4 - Ela disse

5 - Aftersun

6 - Banshees de Inisherin

7 - Do outro lado do Atlântico

8 - Discreto charme da burguesia. 

9 - Noche de fuego

10 - Os homens que pisaram na cauda do tigre

11 - Querida, Alice

12 - O suplente

13 - Racionais

14 - Pureza

15 - Narvik

16 - A qualquer custo

17 - A Baleia

18 - Tudo em todo lugar ao mesmo tempo

19 - Entre mulheres

20 - Dúvida

21 - The Naked Island

22 - O anjo exterminador

23 - Triângulo da tristeza

24 - O pagador de promessas

25 - Toda nudez será castigada

26 - Almas gêmeas

27 - Oscar Wilde

28 - Além das palavras

29 - Retratos de uma obsessão

30 - O padre e a moça

31 - O atalante

32 - A General

33 - Deus e o diabo na terra do sol

34 - A bela da tarde

35 - Close

36 - O acontecimento

37 - Luzes da cidade

38 - O pior vizinho do mundo

39 - Vidas Secas

40 -  Um assunto de mulheres

41 - Cinco semanas num balão

42 - Só dez por cento é mentira

43 - Os fuzis

44 - Corrida contra o destino

45 - El

46 - Já era hora

47 - Rio, 40 graus

48 - O castelo de vidro

49 - A falecida

50 - Cinema Novo - documentário

51 - Os cafajestes

52 - Jules e Jim

53 - Esse obscuro objeto do desejo

54 - The best of enemies

55 - Chavalier

56 - Tempo de despertar -

57 - Tigertail

58 - O ano em que comecei a vibrar por mim

59 - Nazarin -

60 - Eldorado

61 - As irmãs Brontë

62 - Um marido fiel

63 - To end All: Oppenheimer & The Atomic Bomb

64 - No portal da eternidade

65 - Outro Sertão (documentário) -

66 - A antena

67 - A conspiração

68 - Uma lição de esperança

69 - A canção da estrada

70 - As silenciadas

71 - O fantasma da liberdade

72 - O grande golpe

73 - O diário de uma camareira

74 - Saneamento básico

75 - A morte de Stalin

76 - A arca russa

77 - Ilusões perdidas

78 - Cantando na Chuva

79 - Uma mulher sem amor

80 - O assassino

81 - Mar de dentro

82 - O rio e a morte
 
83 - Susana, a mulher diabólica
 
84 - Morte a Pinochet
 

sábado, dezembro 31, 2022

Balanço cinematográfico de 2022

Ao longo do ano de 2022, estabeleci a meta audaciosa de assistir a 70 filmes. Não é uma quantidade absurda. Facilmente poderia ter sido vencida. Mas não consegui. Cheguei ao 62 filmes. Uma quantidade - pelo menos - razoável.

O que me anima é que consegui ver todos os doze - um por mês - filmes do mestre Akira Kurosawa aos quais havia proposto a mim mesmo. Vistos foram 15 no total. Após essa experiência, coloca o diretor japonês como um dos gênios da história da humanidade. Kurosawa é o mais ocidental dos diretores orientais. Um mestre em todos os sentidos. Ele conseguiu por meio de experimentos e inovações técnicas criar uma série de discípulos que vão de Sergio Leone a George Lucas. 

Fiz uma pequena lista - pessoal - com os 10 melhores filmes de Kurosawa vistos ao longo de 2022. 

1 - Trono manchado de sangue (1957)

2 - Ran (1985)

3 - A fortaleza escondida (1958)

4 - Kagemusha, a sombra do samurai (1980)

5 - Viver (1952)

6 - Sonhos (1990)

7 - Escândalo (1950)

8 - Rapsódia em agosto (1991)

9 - Sanjuro (1962)

10 - O barba ruiva (1965)

terça-feira, dezembro 06, 2022

"O Barba Ruiva", de Akira Kurosawa


Domingo, tive o privilégio de assisti ao longa “Barba Ruiva”, de Akira Kurosawa, de 1965. Após ter iniciado em três outras ocasiões – mas sem sucesso -, à tarde, demorei-me por um bom tempo no sofá, acompanhando a bela e delicada obra do mestre japonês. É um trabalho lento, sinuoso, que aposta em planos escuros. Uma fotografia bela e digna de Kuroswa. Exige-se atenção para que se consiga acompanhar os diálogos nas mais de três horas do filme.

No Japão do século XIX, um jovem e ambicioso e altivo médico recém-formado, procura trabalhar para um “shogum”. Isso permitiria tranquilidade e uma possibilidade de ascensão na carreira. Todavia, acaba sendo designado a desenvolver as suas atividades em uma aldeia, num hospital que atende pessoas pobres, exposto às experiências mais dramáticas e desafiadoras. Neste hospital, ele vai trabalhar sob a supervisão do doutor Niide (Toshiro Mifune), conhecido pela alcunha de “barba ruiva”. O médico é respeitado pela firmeza moral e pela postura humanista. Niide procura mostrar ao jovem médico que por trás de todo paciente existe um ser humano, alguém que precisa ser atendido com desprendimento, com carinho, com os rigores de uma solicitude que suprime o preconceito e a indiferença. O filme deveria ser obrigatório para todos aqueles que desempenham uma função de atendimento ao público, principalmente médicos.

“Akahige” (em japonês) é uma obra que aponta para uma crença profunda na humanidade. É o sensível olhar do diretor para a fragilidade da vida; e como ela não pode ser colocada em um segundo plano. A vida é um exercício que desenvolvemos e que, só passa a ter sentido, quando a realizamos com altruísmo e simpatia.

“Barba Ruiva” é a última obra que Kurosawa realizou ao lado do genial ator Toshiro Mifune. O filme demorou dois anos para ficar pronto. Kurosawa levou a paroxismos a dimensão dos detalhes. Prendeu Mifune em um contrato, que não permitia que o ator realizasse outros trabalhos. Isso acabou por gerar contendas recíprocas. Ao final, os dois cindiram as relações. Não mais trabalhariam juntos. Uma perda irreparável.


sexta-feira, janeiro 28, 2022

"Ran", uma verdadeira obra-prima

 

“São os deuses que choram. Nos vêem a matar uns aos outros... vez por outra, desde o início dos tempos. Eles não podem nos salvar de nós mesmos”.

Do filme "Ran". 

 

                A cena final do filme “Ran”, de Akira Kurosawa, é uma das mais belas e pessimistas da história do cinema. O diretor japonês que era um mestre das sutilezas, coloca uma pessoa cega, portando uma pequena fotografia de Buda, caminhando lentamente, arrimada por uma bengala à beira de um abismo. De repente, ela se dá conta de que à frente há apenas o vazio. Assusta-se. A tomada da cena se afasta. A poderosa música de Toru Takamitsu mistura-se marcantemente à cena, criando um belo efeito. O filme termina. A mensagem está dada: o ser humano é uma espécie de cegos à beira do abismo, sustentando-se pelo fio indefectível da religião.

                “Ran” é uma obra soberba; típica do grande diretor nipônico. É grandiosa, magnífica. É épica. Está carregada de simbologias; de uma atordoante reflexão. Um grupo habilidoso de artistas em ação e a mão de Kurosawa, que conduz os detalhes técnicos à perfeição.  

                O filme é baseado na tragédia shakespeareana “Rei Lear”, escrita em 1605. Kurosawa transpõe a história para a tradição japonesa. Hidetora Ichimonji é um venerável e respeitável patriarca de um reino poderoso, construído a partir de batalhas. Ele é respeitado pelos três filhos e por um séquito de súditos. Próximo dos setenta anos, decide dividir o seu reino entre os seus três filhos. O desejo de Hidetora era criar uma sociedade entre os filhos para que eles governassem juntos. Segundo ele, isso tornaria a condução das terras algo que duraria muito tempo. A harmonia dos três fortaleceria ainda mais os domínios conquistados.

                Sem querer contar os detalhes do filme, mas apenas descrevendo os elementos essenciais da obra, importa dizer que após a decisão, os filhos são transformados pela expectativa do poder.  Somente alguém como Kurosawa para pegar uma obra de Shakespeare - que revela tanto sobre a natureza humana - e imprimir-lhe as feições corretas. Kurosawa consegue impressionar com a atuação dos atores, a espetacular trilha sonora e a fotografia, que revela, nas tomadas de câmera, detalhes arrebatadores. As cenas de batalhas estão entre as mais belas da história do cinema, assim como já era comum em sua filmografia. “Em os sete samurais” (1954) o diretor utiliza técnicas que fariam escola; seriam praticamente obrigatórias em filmes de guerra e de ação. Em “Ran” os exércitos parecem bailar. Há uma dança da morte. E o desfecho dessa apoteose é a destruição, o caos e seus aspectos deletérios.

                Essas características são adensadas pela revelação da psicologia dos personagens. “Ran”, que significa “caos”, “tumulto”, “desordem”, é um estudo sobre a natureza humana e suas metamorfoses diante do poder. Nota-se ainda uma preocupação em fazer refletir os efeitos imprevisíveis das escolhas e de suas consequências. Demonstra ainda como certas escolhas ganham proporções inadministráveis.

O filme todo é uma cética poesia que reflete sobre o potencial de beleza, mas, ao mesmo tempo da violência, vingança e ganância pelo poder.

segunda-feira, janeiro 03, 2022

Filmes e documentários vistos em 2022

 

Nos últimos três anos, tenho tentado dedicar o meu ano cinematográfico a alguns diretores. Em 2020, dediquei o ano a assistir a alguns filmes do diretor russo Andrei Tarkovsky. A incursão permitiu que eu revisitasse a alguns filmes e visse, em definitivo, aqueles os quais ainda eu não conhecia. Em 2021, foi a vez do sueco Ingmar Bergman, para mim, outro diretor essencial. Vi menos do que que queria. Ainda pretendo visitar algumas outras obras do diretor este ano. Há filmes que ainda pretendo ver - “Sarabanda”, Sonata de outono” e “Sorrisos de uma noite de amor”.

Para o ano de 2022, resolvi visitar algumas das obras icônicas do diretor japonês Akira Kurosawa. O japonês é uma espécie de mito cinematográfico. Seus filmes foram responsáveis por criar tendências; determinar as marcas criativas para certos diretores. Assisti “somente” a três dos seus filmes pelo que lembro – “Rashomon”, “Os sete samurais” e “Derzu Uzala”. Os três são pérolas inquestionáveis. Revelam a genialidade do japonês. Impossível vê-los e não ser visitado pelo aturdimento. Estão entre os filmes mais importantes que vi na vida.

Para o ano de 2022, escolhi doze filmes - um para cada mês. São eles

1 – janeiro – “Ran” - Ok! - 27/01;

2 – fevereiro – “Escândalo”;  Ok!

3 – março – “Yojimbo – o guarda-costas”;  Ok!

4 – abril – “Trono manchado de sangue”; Ok!

5 – maio – “Sanjuro”; Ok!

6 – junho – “ Kagemusha, a sombra do samurai”; Ok!

7 – julho – “Viver”; Ok!

8 – agosto – “Rapsódia em agosto”; Ok!

9 – setembro – “A fortaleza escondida”; Ok!

10 – outubro – “Céu e inferno”; Ok!

11 – novembro – “O homem mau dorme bem”;  Ok!

12 – dezembro – “O barba ruiva”. Ok!

Ainda elenquei alguns outros filmes com prioridade – “Sonhos”; “Os homens que pisaram na cauda do tigre”; “Duelo silencioso”; “Dodles´Ka-Den – o caminho da vida”; “Kagemusha – A sombra do samurai”.

Lista de filmes vistos em 2022:

1 - Matrix - Ressurreição. dir. Lana Wachowski. Ficção, Drama. EUA. 2021. 148 min. 8,7;

2 - #Nudes. dir. Guily Machovec. Comédia, Drama. Brasil. 2018. 105 min. 8,5;

3 - Cabeça de Nêgo. dir. Déo Cardoso. Drama. Brasil. 2021. 85 min. 7,5;

4 - Os farofeiros. dir. Roberto Santucci. Comédia. Brasil. 2018. 99 min. 8,0;

5 - "Ran". dir. Akira Kurosawa. Ação, Drama. Japão. 1985. 160 min. 27/01. 9,7. 

6 - Duna - dir. Denis Villeneuve. Aventura, Ficção. EUA. 2021. 155 min. 9,6.

7 - A mão de Deus. dir. Paolo Sorrentino. Drama, Biografia. Itália. 2021. 9,3.

8 - Tick... Tick... Boom. dir. Lin-Manuel Miranda. Drama, Biografia. EUA. 2021. 9,0;

9 -  O golpista do Tinder. dir. Felicity Morris.  Documentário. EUA. 2022. 9,7

10 - Ataque de cães - dir. Jane Campion. Drama, Western. Austrália, Nova Zelândia. 2021. 9,6.

11 - No limite da guerra -

12 - Bravura Indômita -

13 - Escândalo -

14 - Munique - No limite da Guerra -

15 - Belfast -

16 - O quinto elemento -

17 - Imperdoável -

18 - Um dia de chuva em Nova York -

19 - A odisseia dos tontos -

20 - Queda Livre - a tragédia do caso Boeing -

21 - O violino do meu pai -

22 - Red - crescer é uma fera -

23 - Doutor Gama -

24 - No ritmo do coração -

25 - Yojimbo, o guarda-costas -

26 - Benedetta -

27 - A filha perdida -

28 - Viajo porque preciso, volto porque te amo -

29  - Meu pai

30 - Três anúncios para um crime

31 - Capitães da areia - 16/06

32 - Os lobo atrás da porta

33 - Zuzu Angel

34 - Trono manchado de sangue

35 - Os miseráveis

36 - Gig - a uberização do trabalho

37 - Medida Provisória

38 - Sanjuro

39 - Notas sobre um escândalo

40 - Não por acaso

41 - O guerreiro Genghis Khan

42 - Sonhos

43 - Viver

44 - Sorrisos de uma noite de amor

45 - Bem-vindo aos 40

46 - O feitiço de Aquila

47 - Céu e inferno

48 - A fortaleza escondida

49 - O substituto

50 - Rapsódia em agosto

51 - A troca

52 - Homem mau dorme bem

53 - Argentina - 1985

54 - A mãe

55 - Conflito silencioso

56 - Festim diabólico

57 - O Barba Ruiva - 

58 - Nada de novo no Front

59 - Eu não sou um homem fácil

60 - Um domingo maravilhoso. Akira Kurosawa. Drama. Japão. 1947. 108 min. 

61 - Kuarup. 

62. Pinóquio. Guilherme del Toro. Animação. EUA, Inglaterra. 2022. 117 min.

63. As linhas tortas de Deus. 

quarta-feira, março 25, 2020

"Rashomon", de Akira Kurozawa

"É inevitável suspeitar dos outros num dia como este". 

Gosto de filmes que me faz pensar; que permite a reflexão, a tentativa de entender seus elementos simbólicos e metafóricos. Daqueles que deixam suas imagens presas em minha mente e inoculam o desejo de visitá-lo mais de uma vez. E, com o tempo, tornam-se referências necessárias a uma boa reflexão. 

Esse fato aconteceu mais uma vez esta semana. Com a decretação da quarentena por causa da pandemia de coronavírus, tive a oportunidade de assistir a Rashomon, umas das experiências mais felizes que já tive com o cinema. Rashomon é uma obra de 1950, dirigida por um dos mais importantes e geniais diretores da história do cinema, o japonês Akira Kurozawa. 

O diretor utilizou-se de dois contos escritos por Ryunosuke Akutagawa. Com elementos simples, Kurozawa dirigiu uma das mais belas, poéticas e misteriosas obras de todos os tempos. Existem basicamente três espaços na história: os portões de Rashomon, a floresta e o tribunal. Não há muitos personagens: um ladrão, um padre, um lenhador, um plebeu, um samurai e a esposa deste.

A história não possui um plano linear. Não existe um plano em que se deixe prevalecer certa impressão sobre os fatos. Na verdade, com exceção do padre e do plebeu, todas os demais personagens são narradores. O filme problematiza os limites para se contar um fato e os seus desdobramentos; consequentemente, as interpretações que são dadas a esse fato.


Nesse sentido, evoca-se Nietzsche que disse certa vez que "não há fatos; apenas interpretações". Um fato não gera fidelidade àquilo que vai ser feito com ele. 

O filme não nos permite ter uma pista do porquê cada personagem personaliza a descrição do assassinato do samurai e do estupro de sua esposa pelo endiabrado Tajomaru. Mas, tanto quanto as personagens que estão no portão, ficamos sem saber qual das quatro versões do evento da floresta é a verdadeira. 

A atuação dos personagens é genial. O padre é a figura que perde a crença no ser humano. Essa perspectiva fica evidente em sua fisionomia, no seu atordoamento. Na última cena do filme, assim como a chuva que cessa (como se ela metaforizasse o aspecto pessimista do anti-humanismo), um lampejo de crença ensolarada brota em seu rosto e esparrama-se em suas palavras, dirigindo-se ao lenhador: "Graças a você acho que posso manter minha fé nos homens". Todavia, com tudo o que se testemunha no filme, questiona-se as próprias intenções do interlocutor do padre. A cena final é bonita, emblemática, insinuadora de pessimismo e, ao mesmo tempo, de uma esperança luminosa. 

Queremos crer, mas gesta-se certa desconfiança. Por que acreditar se os homens são potencialmente mentirosos e egoístas? Este é dilema que resulta da experiência de assistir ao filme. Celebra-se o humano, mas celebra-se a desconfiança, a descrença. Kurozawa genial!