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segunda-feira, setembro 18, 2023

Devaneios sobre Santo Agostinho

 

                Retorno ao belo e dramático texto de “As Confissões”, de Santo Agostinho. A primeira vez que o li, em 2005, eu era um ardoroso cristão. Frequentava a Igreja Presbiteriana. Estudava teologia em um seminário. Derramava-me em preces. Procurava aquecer a minha alma com a luz emanada da fé. Agostinho ajudou-me nisso. Foi um mestre profundo a quem eu li com o coração em chamas.

                Regresso a Agostinho. Dessa vez, já não há crença profusa, mas há respeito. Não há ilusões, mas escuto-o com atenção. Bebo as suas palavras vagarosamente para sentir os efeitos. O grande bispo continua a falar com a típica beleza inegável. Com o jogo retórico. Com as imagens que suscitam uma comovente admiração.

                Agostinho é um dos pensadores que me define. Sua paixão pelo mistério, pela verdade, pela coerência, sempre foi uma orientação e uma paixão para mim. Conecto-me com a resplandecência que deriva do seu pensamento. Leio as suas palavras e sou visitado por uma buliçosa centelha de paixão. O grande teólogo é um mestre da elegância e dono de uma intuição filosófica invejáveis.  Era daquelas pessoas que sempre questionava aquilo que fazia e procurava um propósito pelo qual deveria viver.

Quando analisamos a sua vida, percebemos o quanto, desde pequeno, Agostinho demonstrava uma potência inevitável. A criança que procurava apanhar as goiabas do vizinho por achá-las mais vistosas, o jovem vaidoso, o adulto arrogante, mestre respeitado da retórica, demonstrou ao longo de sua caminhada que algo estava a faltar. Agostinho realizou uma carreira primando pela satisfação dos próprios desejos, até que esbarrou na nulidade, que é o resultado daquele que obedece apenas a si mesmo. A vida de Agostinho pode ser sintetizada na passagem de Eclesiastes 3.11: “Também pôs [Deus] no coração do homem o anseio pela eternidade”.

                Mais tarde, ele proferiria em “As Confissões”: “Tarde te amei, ó beleza tão antiga e tão nova! Tarde demais eu te amei! Eis que habitavas dentro de mim e eu te procurava fora”. Essa noção de que a vida equivocada é aquela que se vive fora da verdade do Deus cristão é a grande máxima de Agostinho. O homem, enquanto caminha, deve estar bem atento, pois a caminhada pode conduzi-lo à verdade e, portanto, à fruição de Deus (a Cidade de Deus) ou ao caminho do equívoco, do mal – a cidade dos homens.

                A caminhada errada leva sempre ao engano, ao choro, à angústia. Sofremos, agonizamos e não experimentamos a verdadeira paz enquanto não repousamos em Deus. E é, justamente nesse ponto, que repousa um dos mais sofisticados e elaborados entendimentos filosóficos do Mundo Ocidental: a noção do mal e do bem. O bem permite folgar, fruir, experimentar Deus. Quem assim o faz, acha a verdadeira felicidade. Tudo o que existe é bom. Não existem verdades que não sejam divinas. Dessa forma, o mal não é uma antítese, uma força contrária como algo em si. O mal não tem substância.  Foge-se, assim, de um maniqueísmo, corrente teológico-filosófica da qual Agostinho fizera parte. Observando de uma força bem superficial, pode-se afirmar que o princípio elementar do maniqueísmo é que mal e bem são forças antagônicas, com a mesma potência – Deus (o bem) e Diabo (o mal).

                Para Agostinho, o mal é a ausência de bem. O mal é um desvio na rota de qualquer indivíduo. Ser mal ou viver no mal é estar longe de Deus; ignorar os seus princípios e, consequentemente, não experimentar a felicidade Dele oriunda. Pode-se comparar a existência do mal como uma escuridão que acomete uma sala quando a porta é fechada. A escuridão está ali, mas pode ser desfeita, uma vez que a posta seja aberta. A escuridão existe onde houve privação da luz. O mundo e todas as coisas que o compõem existem para a luz.

                Esse pensamento é coerente com a sua própria vida. Agostinho entende que no período em que “fechou a porta” experimentou o mal. Somente quando foi redirecionado pela graça divina para o próprio Deus, pôde conhecer o bem para o qual havia sido criado. A compreensão de Agostinho é a de que, enquanto não chegamos à graça, a vida de todo ser humano é acompanhada por uma insofismável sucessão de infelicidades.

                Como o bispo de Hipona revigora. Como seu pensamento é delicado e comovente. Hoje, não me oriento pela sua divindade. Todavia, percebo que há em mim uma sede pelo mistério. E é possível transformar esse seu desejo em contemplação; e a contemplação em matéria para poesia.

“As Confissões” é um texto em que Agostinho se analisa, perscruta os próprios pensamentos e intenções.  Ler “As Confissões” é realizar um exercício de autoconhecimento. Enquanto lemos o texto agostiniano e observamos a maneira como seu autor se enxerga, passamos a nos compreender também. “As Confissões” é uma antropologia; um espelho do próprio ser humano à procura da eternidade; um trabalho arqueológico e ontológico.


domingo, maio 03, 2020

"Feliz ano novo" e algumas impressões sobre Rubem Fonseca

Nunca havia lido Rubem Fonseca. As informações que me chegavam  sobre o escritor eram remotas, repletas de hiatos; ralas em excesso. Sabia que era um grande contista. Escritor de romances consagrados como Agosto (que comprei por volta de 2005 e nunca li). Tinha o conhecimento ainda de que era um escritor com reconhecimento internacional. Conhecido em países da América Latina, Estados Unidos e muitos países europeus. Por ser um escritor da chamada moderna literatura brasileira, havia suspeições sobre o seu estilo.

Senti-me na obrigação de lê-lo, após a sua morte mês passado, já nonagenário. Li artigos sobre ele na Folha de São Paulo, no El Pais, em O Globo, em blogs amigos. Fui à cata de sua produção. Impressionei-me com a quantidade de material escrito. Nos jornais, havia sinalizações de mérito. Ovações àquilo que o escritor produziu. Reconhecimento das suas qualidades. Nos blogs, variações. Críticas. Falas desconfiadas e retraídas. Fonseca era grande, afirmavam alguns, mas nem tanto. Para estes, a biografia do escritor estava manchada pelo apoio ao regime ditatorial instalado aqui no Brasil em 1964. 

Escritores são seres humanos e, potencialmente, capazes de errar. A história nos prova isso. Há casos de nomes importantes que ficaram ao lado de regimes ditatoriais obscurantistas. É o caso de Céline, de Rachel de Queiroz ou de Nelson Rodrigues, que apoiou o Golpe até que este chegou à sua casa. São exemplos ligeiros que me vêm à memória. 

Não estou proibido de visitar a obra de determinado escritor pelo fato de ele ser simpático a determinado movimento. Proceder dessa forma indica liberdade intelectual e maturidade eletiva. 

Após essa pequena digressão, procurei imediatamente uma obra do escritor para ler. Comprei Feliz ano novo e comecei a leitura no Kindle. Li o primeiro conto - que leva o mesmo título do livro - e, de início, já fui golpeado pelo estilo fonsequeano. Trata-se de uma literatura bestial, não no sentido diabólico. Fonseca é um estudioso da alma humana. Sua obra é crua. Sem adereços. Não há penduricalhos. Diz somente aquilo que precisa ser dito para encontrar o efeito desejado. 

Em Feliz ano novo encontramos um cadinho da obra do escritor. Nota-se o quanto o escritor encontrou a fórmula exata. O controle do gênero conto. Sua linguagem despojada preocupa-se em contar o que existe na dimensão misteriosa e imensurável do ser humano. Fonseca narra o insólito. O extremo. O pai de família - insuspeito. Bom burguês. Pega o carro. Vai para a rua. Atropela um transeunte. Compraz-se com isso. Volta para casa. Diz que vai dormir. Despede-se da mulher num cálculo inocente. Ou os assaltantes que provocam uma carnificina em uma festa; que ficam indignados quando percebem o quanto o dono rico da casa demonstrava insensibilidade, desprezando bens materiais, deixando a entender que tinha tantos bens, que perder alguns não faria falta. 

A crítica descuidada que afirma existir uma certa previsibilidade na literatura do escritor, pois esta sempre acaba em violência é rasa. Afirmar isso é lê-lo de forma apressada. O grande crítico literário Alfredo Bosi, uma autoridade inquestionável em literatura, denominou o seu estilo de "brutalista". Trata-se de uma denominação que é exata. Tal denominação aponta para o fato de que a violência é um verniz para denunciar a vida, o estilo burguês, na urbe da sociedade capitalista. Fonseca é escritor que tem a sua literatura radicada na cidade. 

A cidade é o espaço da violência, do medo, do estupro, da desigualdade, da ansiedade, dos dramas psicológicos, do individualismo lancinante; dos gestos imprevisíveis. Há um catastrofismo inerente em seus textos e isso não deixa estar presente Feliz ano novo

P.S. A partir da leitura do livro de Fonseca me bateu uma paixão absurda pelo conto. E o Brasil é um país privilegiado nesse sentido. Há bons escritores do gênero por aqui - Otto Lara Resende, Lygia Fagundes Telles, Dalton Trevisan, Murilo Rubião, Clarice Lispector, Osman Lins, Domingos Pellegrini, Monteiro Lobato, Machado de Assis, Lima Barreto, Guimarães Rosa, apenas para citar alguns. Leiamos os bons!

sexta-feira, agosto 01, 2014

"Max Cavalera - my bloody roots", uma autobiografia

Quando estive em Gramado, no mês de junho, comprei a autobiografia de Max Cavalera, ex-vocalista do Sepultura, e atual líder do Soulfly e Cavalera Conspiracy. Adquiri o livro e li-o com um devotado interesse. É estranho - e parece está longe de minha personalidade - mas gosto do Sepultura e tudo aquilo em que o Max colocou as mãos a fim de construir um projeto musical - até mesmo o Nailbomb. A única coisa que não escutei - e nem ganhei intimidade - foi o Soulfly. Como já deixei claro, algumas pessoas indagam: "como você consegue ouvir o Sepultura?" Respondo: "Sei lá!".

Não escuto qualquer Sepultura. Escuto o Sepultura de Max Cavalera. Aquele que encerrou com o Roots, em 1996. O atual Sepultura é um cover de uma banda que um dia foi uma das maiores bandas de rock da década de 1990. 

Lendo o livro Max Cavalera - my bloody roots (Ed. Agir), eu pude perceber o lado bastante humano do vocalista, originário de Belo Horizonte. Max viveu única e exclusivamente, em toda sua vida, da música. Começou o Sepultura com o seu irmão Igor Cavalera. Mais tarde entrariam Paulo e Andreas. A banda aos poucos foi adquirindo respeito e fama no cenário local; e chegou a ter um relativo respeito em shows feitos no Nordeste e em São Paulo. Gravou o primeiro disco em 1985 (Bestial Devastation), pela Cogumelo Records, algo que se repetiria com os próximos dois álbuns - Morbid Visions (1986), que tem a excelente Troops of Doom e Schizophrenia (1987), que mostra uma banda que viria se tornar um fenômeno mundial. É curioso perceber que a cada novo disco, a banda conseguia se superar fazendo tecnicamente um melhor que o outro.

A partir do quarto disco (Beneath the Remains - 1989), o Sepultura começou a gravar com a poderosa Roadrunner. Beneath the Remains é o disco que notabilizou a banda. A música Inner Self é a música mais poderosa do disco. O disco possui uma pegada à la Metallica - talvez aí residisse o dedo do Andreas, que era um fã inveterado do grupo americano. Em 1991, seria produzido o Arise, ao meu modo de ver, o melhor disco do grupo mineiro. Arise mostra o amadurecimento vocal de Max e a força do riffs poderosos e primitivos.  

Três anos após Arise, sairia o álbum mais bem produzido da banda, o Chaos A.D. Se não estou enganado e li de forma equivocada no livro, o produtor de Nervemind, do Nirvana, foi o sujeito escalado pela Roadrunner para gravar Chaos A.D. A qualidade do som é notável.  Em 1996, sairia, talvez, a obra-prima da banda - Roots - gravado junto aos Chavantes, de Mato Grosso. O disco é sensacional! Para gravar o disco, a banda teve que ir para o meio da floresta. O resultado mostra o quanto a criatividade de Max e dos músicos do grupo estava em alta. Músicas como a bela, lírica(sic.) Jasco ou Itsari são delicadas, ao mesmo tempo em que trazem consigo a força milenar da tradição espiritual dos índios. Ou ainda as pesadas Attitude, Straighthate ou Ambush, que são viscerais.

É possível notar até aí o engajamento político da banda, que falava sobre guerras por territórios, por conflitos (Territory); ou sobre a ganância de sujeitos que queimam e destroem a Amazônia (Ambush). Após o disco e, no auge da carreira dos músicos, Max veio a saí do grupo por causa de desentendimentos com os outros integrantes. Segundo Max, os outros membros estavam insatisfeitos com a visibilidade que ele, Max, tinha. Os outros três músicos alegavam que Glória - esposa de Max e empresária da banda - estava privilegiando o marido. 

Acredito que a partir desse ponto, começa outro Sepultura, um Sepultura caricaturesco com Derick Green. Quem escuta o Sepultura de Max logo percebe a diferença. Eu nem sei quais foram e quantos são os discos da banda lançados após a saída de Max. Não tenho coragem para ouvir. Andreas ainda continua um grande guitarrista e Paulo consegue realizar o trabalho como sempre fez.

O que mais me chamou a atenção no livro foi o quanto a morte do pai marcou a vida do músico. Parece-me que ele passou boa parte da vida procurando por algo que se foi quando o pai morreu. Tornou-se um viciado em medicamentos, vício este, que segundo ele, teve fim em 2009 quando ele esteve internado em uma clínica. Outro ponto curioso é a sua fé em Deus. Ele fala em Deus em boa parte do livro. 

Max atualmente mora no Arizona, Estados Unidos, e segue com vários projetos. É uma lenda do rock mundial. Segundo ele, foi possível ir tão longe por causa de sua família. Na parte final do livro existe uma linda reflexão dele sobre o valor dos filhos e da família. Para ele, de que vale a vida se você não para para ser e viver com gente; se você não para a fim de amar os seus.

sábado, outubro 27, 2012

Graciliano Ramos - 120 anos de literatura

Hoje, o Brasil comemora o nascimento de um dos seus filhos mais ilustres, Graciliano Ramos, o célebre escritor alagoano. O velho Graça (como era conhecido pelos mais íntimos) nasceu em 27 de outubro de 1892, no munícipio de Quebrangulo. Não é minha intenção falar da vida desse escritor fantástico que abriu as portas do mundo da literatura para mim. Quero apenas externalizar a minha devoção ao texto de Graciliano Ramos. 

No final do Ensino Médio, eu estava estudando o Modernismo Brasileiro. Entrei em contato com trechos de livros do escritor alagoano. Li trechos de São Bernardo e de Vidas Secas, principalmente. Acabei seduzido por aquela linguagem econômica, mas profundamente precisa; cortante como uma navalha. Fui à biblioteca da escola. E lá acabei me deparando com os livros as quais eu conhecia somente algumas passagens. Iniciei a leitura de Vidas Secas. Achei aquilo sério demais. Graciliano era capaz de universalizar os dramas humanos. Havia ali mais do que simplesmente um relato regional. Um mundo polifônico estava contido naquela obra. A caminhada cega da  família de retirantes que se arrasta por uma paisagem que acaba se alastrando no interior de cada personagem me impressionou. Depois de algumas leituras acabei percebendo que o mundo interior das personagens é resultado de uma transformação da consciência, como diria Marx em sua A Ideologia Alemã. A consciência do mundo se inseriu na consciência das personagens, Graciliano não queria apenas falar de seca, de privação. Ele queria fazer psicologia com a alma humana.


Os personagens de Vidas Secas são privados da palavra - e a palavra para o escritor possuía uma importância capital. Encontramos em outros textos escritos por ele uma espécie de explicação para o seu ofício. Na crônica "As lavadeiras", ele firma algo emblemático. Diz ele que 'a palavra foi feita para dizer e não deveria brilhar como um ouro falso'. Em seu extraordinário Infância, que conheci mais tarde, encontramos a seguinte afirmação: "Na escuridão percebi o valor enorme das palavras". É por causa dessa preocupação exarcebada com a palavra, que percebemos os seus livros como mosaicos. Não há execessos. Apenas o exato. Uma peça fora da estrutura derruba o restante do todo.

E é justamente munido dessa preocupação, que o velho Graça constrói aquele que um dos maiores romances já escritos em toda a história da tradição literária brasileira. A palavra que era a sua preocupação, torna-se um enigma para as personagens. Cena curiosa é aquela em que a família vai a uma festa de natal e os meninos ficam impressionados com a quantidade de coisas que havia ali. Ficaram bestificados, tentando entender se era possível todas as aquelas coisas terem nomes para que as pessoas dominassem. Como era possível a um ser humano dominar tantos nomes? O mutismo ou a realidade da não-palavra das personagens é um dos elementos mais impressionantes do livro. A palavra que é a porta de entrada para o mundo humano é negada aos personagens. Se as personagens são privadas da palavra, não é necessário  dizer que  elas são privadas de serem, de se comunicarem, de se projetarem; de se afirmarem enquanto sujeitos históricos; são privadas da possibilidade de enfrentar o mundo, de se humanizarem; de reivindicarem direitos perante o Estado (personificado pelo "Soldado Amarelo" que era, no fundo, alguém espoliado de direitos e que se ancorava apenas na farda que dava-lhe uma consciência de poder). 

Mais tarde li São Bernardo e aquilo me deixou com a impressão de que se tratava de uma obra filósofica sobre a natureza humana - novamente, Graciliano universaliza o regional. Os livros de José Lins do Régo ou Jorge Amado também trazem um regionalismo. Uma narrativa memorialística. Eivada de realismo. Mas o que difere Graciliano Ramos desses dois escritores é que ele trabalha perspectivas que amplificam valores por intermédio das personagens. Paulo Honório é uma figura que me fez pensar no quanto a natureza humana pode ser desmantelada pelo poder. Nele notamos a vontade-de-poder nietzscheana, mas que acaba por induzi-lo ao niilismo completo. O desejo fáustico de ser grande, de conquistar o mundo o transforma em monstro. Tudo ele transforma em algo a ser conquistado. Até mesmo Madalena, que acaba se suicidando. Paulo Honório acaba solitário. Com a alma dilacerada. E o último capítulo de São Bernardo é uma das coisas mais lindas que já li em minha vida. Paulo Honório enxerga dentro de si, por meio de uma reflexão amarga, os monstros do orgulho e da ganância. Ele pensa sobre si mesmo: "... a culpa foi desta vida agreste, que me deu uma alma agreste". 

Mais tarde, eu li Memórias do Cárcere. E o turbilhão do testemunho de Graciliano Ramos produziu mais efeitos impressionantes. Vale mencionar que em Graciliano não notamos a criação da fantasia. O autor de Vidas Secas não criava mundos como um Machado de Assis, por exemplo. Sua literatura é resultado da observação. Desde Caetés, um retrato da vida provinciana, até Viagens, que é o seu testemunho sobre impressões colhidas no leste europeu, percebemos essa característica. Quando lemos, por exemplo, os seus relatórios administrativos da prefeitura de Palmeira dos Índios ao governador do estado de Alagoas, notamos que existe em Graciliano uma vocação - a de ter uma capacidade crítica para refletir sobre a realidade em que está inserido. Portanto, é assim que notamos o quanto as Memórias do Cárcere se constituem em um relatório feroz. O modo a qual Graciliano descreve a arbitrariedade de uma força invisível e que avilta, torna os seres humanos em pulgas e ratos. A condição humana, mais uma vez, é diminuída a níveis opressivos. Os presos políticos vivem a humilhão física, da dignidade humana, uma espécie de submissão moral. 

Li os outros livros de Graciliano Ramos (Angústia, Insônia, Infância, Linhas Tortas, Caetés etc) e acabei assimilando uma admiração ímpar pelo homem e pela sua obra. Há alguns meses atrás, li o livro Graciliano - Retrato Fragmentado, escrito pelo seu filho Ricardo Ramos. Pude perceber um pouco da intimidade narrada por Ricardo. Graciliano Ramos era alguém de disciplinado e com forte pendor político. Era um de poucas palavras e sempre dizia o que pensava. Ricardo escreve algumas experiências que aumentam-lhe a mítica de alguém que possuía um largo anedotário. Como este abaixo:

"E no cinquentenário do Correio da Manhã, comemorado com larga programação, transformado em feriado, meu pai ficou em casa de pijama, para no outro dia chegar ao jornal e ouvir de Paulo:
- Graciliano, você me fez uma!
- Quê?
- Não foi à missa.
- Eu sou lá homem de missa?
- Não foi ao banquete.
- Eu não sabia.
- Seu lugar ficou vazio, ao meu lado.
- Bem feito. Eu não me sento ao lado de patrão.
- Mas eu sou um patrão diferente.
- Você que pensa. Todo patrão é filho da puta
Paulo Bittencourt de uma gargalhada. Papai também. Depois, muito provavelmente, foram beber".

O fato é que Graciliano continua sendo para mim a mesma paixão de quando conheci. Sua obra será sempre atual, porque narra questões próprias do ser humano - a dor humana, a incompreensão a determinados fenômenos e a incapacidade de mudar os fatos do mundo exterior, que parecem determinados por uma força coercitiva e invisível. Graciliano transfigura o mundo com a palavra. Ele é um analista contumaz. Existe em seus textos um lirismo que não é música, mas voz calada, represada, uma angústia de seres que não são; um não dinamismo que dissolve o mundo agitado e fixa, estabilizando a realidade, como se fosse um quadro no qual cada detalhe é um mosaico constitutivo e significativo.

Esta semana comprei uma biografia do escritor, escrita por Dênis de Moraes ("O Velho Graça"). Comprei na Livraria Cultura e estou esperando, com certa ansiedade. Quero lê-la no feriado. 

Obrigado, mestre Graça! Você é uma inspiração!

segunda-feira, março 29, 2010

Renato Russo, trovador de uma legião

No último sábado, dia 27 de março, foram comemorados os 50 anos do nascimento de Renato Manfredini Júnior, mais conhecido como Renato Russo. Não gostaria de externar aqui apenas informações ou descrições de cunho generalizante – como tantos fizeram nessa data. Antes de tudo, é necessário afirmar que Renato Russo foi alguém que nutriu as esperanças juvenis de uma geração sonhadora. Durante grande parte de minha adolescência, eu me vi cercado pelas suas letras, que revelavam os melhores dos mundos – poesia de sonhos, amores juvenis, revolta contra a ingerência dos pais, de paixão e respeito ao próximo.
Renato embalou o sonho dos adolescentes e de uma geração de indivíduos conscienciosos de todas as idades. O que me atraía em Renato Russo era sua sensibilidade, sua inteligência. Tal capacidade fora construída por muitas leituras e pela relação apaixonada que nutria pelo o rock inglês (de bandas como Beatles, Sex Pistols, Rolling Stones, Joy Division, The Clash) ou pelo rock folk americano (Neil Young e Bob Dylan). Havia em Renato uma veio apuradíssimo de criticidade, resultado de suas leituras, que muitas vezes ficavam explícitas em suas letras. Música como “Tempo Perdido”, talvez uma referência clara ao livro do escritor alemão Thomas Mann “Em Busca do Tempo Perdido”; ou ainda o nome do álbum “A Tempestade”, quiça aqui, um apontamento para “A Tempestade” de William Shaskepeare; ou ainda, o nome do álbum “As Quatro Estações”, surja como uma referência indireta à famosa peça do compositor italiano Antonio Vivaldi.
Renato era um burguês culto. Apregoava que fazia parte de uma geração onde o que prevalecia era a condição da burguesia moralista sem religião. Que os signos da nova ideologia eram o desmantelamento do bom senso. Éramos filhos de uma geração Coca-Cola. E que fomos programados desde o nascimento para repetirmos fórmulas mecânicas. Uma geração que era alimentada pelo lixo industrial e comercial. Comedores de enlatados produzidos por fast-foods. E que passados 20 anos na escola não era difícil de aprender tais artimanhas. O resultado dessa digestão seria o vômito anárquico e cínico. Leis não obedecidas, alegorias picarescas, referências esdrúxulas. Tudo isso seria posto em cena por uma legião que querendo ou não é “o futuro da nação”. Ou em outras palavras, qual seria o futuro da nação, quando os construtores dessa possibilidade mataram os referencias e se alimentam pelo lixo industrial do capitalismo, quando são apenas uma “geração coca-cola”? É uma letra de gênio, de um poeta fino que faz política com arte. Outras letras como das músicas “Fábrica”, “Perfeição” ou “A Canção do senhor da Guerra”, também possuem traços de grande contundência política e social.
Uma vez ou outra volto às suas músicas, assim como a legião de fãs que ainda continua manter viva a memória de sua capacidade. Ouvi-lo é gestar em nós a possibilidade de sonhar com melhores dias. É voltar a ser adolescente e nutrir aqueles idealismos que preservam e sustentam o fato de acordarmos todas as manhãs e termos esperança. Renato Russo foi o trovador de uma geração que queria/quer se encontrar, mas não sabe onde estava/está. “E há tempos/ Nem os santos têm ao certo/ A medida da maldade/E há tempos são os jovens/ Que adoecem/ E há tempos/O encanto está ausente/ E há ferrugem nos sorrisos/ Só o acaso estende os braços/ A quem procura/
Abrigo e proteção”. Ele cantou para uma legião que tem o grito represado na garganta e o grito é equivalente à imensa dor que sente e, se esse grito vier/viesse à tona, poderia acordar o mundo inteiro.
Parabéns pelos 50 anos do nascimento desse poeta de grande expressão. Sua voz continua a gritar em nossos corações. Suas poesias continuam a serem embaladas pelo vento como grandes bandeiras que dão identidade a uma geração tão perdida em si mesma. E o certo é que o “o nosso dia vai chegar/ teremos nossa vez”. Grande sonho, esperança e utopia.

Por Carlos Antônio M. Albuquerque
Data: segunda-feira, 29 de março de 2010, 11:12:47

terça-feira, julho 31, 2007


Um breve esclarecimento

Os poemas que seguem abaixo foram escritos pelo camarada Luiz Fernando, alguém que encontrei no caminho da vida. Ele se tornou um caminhante ao meu lado. Temos discutido idéias; elucubrado acerca da realidade; nos inquietado com a boca voraz da mediocridade que assola as mentalidades. O camarada Luiz é mineiro e poeta – lá de Inhapim. Insiste em afirmar com muito orgulho que é mineiro e, por isso, o ser “esquerdado”de Drummond. Muitos mineiros, inquestionavelmente, possuem uma licença poética. São figuras que enxergam o mundo e suas serras e flores de modo diferente. Estas figuras acabam escrevendo coisas bonitas que balança a nossa interioridade. É o exemplo de Carlos Drummond de Andrade e Rubem Alves.
Tive oportunidade de receber alguns dos textos poéticos do camarada e decidi colocá-los aqui neste espaço. Os textos estão cheios de nostalgia, de um cheiro doce de tarde na janela; de vento que cisma em desarrumar o cabelo do observador; cheiro de laranjeira florida. Por exemplo, o poema “Chegada Rio Doce” me faz lembrar o poema de Sete Faces do Carlos Drummond. O seu início é eloqüentemente sentimental: “Inhapim está mais perto e mais intenso”/ “Nas ruas de Pedras de Ferro Circula/ Na imensa tarde de setembro”. Drummond diz de forma bem parecida no seu famoso poema: “As casas espiam os homens/ que correm atrás de mulheres/ A tarde talvez fosse azul,/ não houvesse tantos desejos”. É inegável o cheiro de aturdimento, de lembrança insinuante. Como no poema “Um sábado na Coronel Guilherme”, que remete a um passado à margem da BR 116; o encontro que se reencontra 20 anos depois; as manhãs de olhos inchados; a música que se mistura à poeira dos fatos; as portas azuis que se perdem na encruzilhada da memória e que são como escombros no túnel do tempo.
No poema de Carlos Drummond, “Confidências de um Itabirano” há um flerte nas impressões intimas, de um alheamento da vida que é apenas porosidade e comunicação:

Confidências de um Itabirano

Alguns anos vivi em Itabira.
Principalmente nasci em Itabira.
Por isso sou triste, orgulhoso: de ferro.
Noventa por cento de ferro nas calçadas.
Oitenta por cento de ferro nas almas.
E esse alheamento do que na vida é porosidade e comunicação.

A vontade de amar, que me paralisa o trabalho,
vem de Itabira, de suas noites brancas, sem mulheres e sem horizontes.
E o hábito de sofrer, que tanto me diverte,
é doce herança itabirana.

De Itabira trouxe prendas que ora te ofereço:
este São Benedito do velho santeiro Alfredo Duval;
este couro de anta, estendido no sofá da sala de visitas;
este orgulho, esta cabeça baixa...

Tive ouro, tive gado, tive fazendas.
Hoje sou funcionário público.
Itabira é apenas uma fotografia na parede.
Mas como dói!

O poema “Na laje” deixa exposto todo o lirismo que é devido a uma alma que sente, farta, completa pelas inspirações daquilo que foi, mas que ainda é enquanto presença para o ser. Não posso negar que ainda é presença para o eu lírico aquilo que é descrito com suavidade pela pena saudosa e trágica do prazer que se tornou num sonho espectral, num ente fantasmagórico; em algo que no presente é uma mistura de doçura distante e ruptura indesejada. Faz-me lembrar da frase de Kierkegaard: “A vida é vivida para frente, mas entendida quando olhada para trás”. Este é um dos aspectos mais vivos destes poemas aqui reunidos. “Plano Piloto” é uma balada sentimental, que com certeza daria uma ótima letra para fazer um blues. Seguem os poemas de amor, de saudade, de emoção, de presenças que já foram, mas que ainda são como espectros que voejam e trazem consigo o cheiro do passado – lembranças agridoces.


Plano Piloto

A mendinga experimenta todas as roupas que ganhara
Nas tardes quentes de março,
Tardes de painéis retangulares de cima para baixo,
E os raios de sol que embaraçam a minha visão,
É mais uma tarde é mais uma noite,
Duzentos açoites em meu coração,
Orquestras de motores
Fumaças ardores e uma grande amplidão.

Janelas devassas do oscar,
Isso tudo pra mim soa forte
E o não temor da morte,
Pois ainda sou do norte,

Mulheres vestidas
Mulheres desnudas,
Mulheres já mudas,
Em kabul
Iraque e nepal
Na segunda feira de março
Contando o fim dos meus passos.

LF em 2001.


Na laje

Seus olhos mostravam-me outras coisas,
Além das lembranças das casas, das salas,
Das camas, dos cheiros todos,
Seus olhos mostravam outra cidade,
Seus olhos muita novidade.
Seus olhos meu devir ]
Retornar,
onde ir
A montanha que alcançávamos,
Está nua vermelha, casinhas aqui e ali,
De você veio um sorriso de dentro,
imenso
Um beijo intenso,]
Mensagens eletrônicas,
Sinais gráficos, coração atônito,
A viagem longa o retorno
Toda noite e nenhum adeus
Perdi parte do era meu.

II

Ao teu lado na laje,
No alpendre,
Por sobre a cidade,
Podemos ver todas as coisas e casas lá em baixo,
Seu sorriso contido,
A franja a reta o cabelo preto
Escorridos nos ombros,
Quinze anos depois contemplamos
Os dois, a cidade,
Dali vinte anos atrás
Fomos convidados a sair
Ela criança nem percebia.
Aonde eu ia
O Adro a igreja, estão no mesmo aspecto
Circunspectos
Apenas nossos sonhos ainda rondam como espectros.


Um sábado na Coronel Guilherme


Quero voltar pro meu lugar
Contigo ficar
Bonito foi ver
Nossa amizade crescer,
Florescer,
Vinte anos depois te rever,
Aquelas dúvidas já não tenho mais
Já sei,você amou e sonhou
E hoje tem paz,
Mas quero te ver assim mesmo,
Na ponte,
Na rua, no beco
Seu presença insular,
Seu mar,
Soberana está.
A joyce que você ouviu cantou,
Os sorrisos, o túnel do tempo,
Vinte anos,
Quê tempos!
Os ventos na BR 116,
Voam as saias os cabelos,
As manhãs de olhos inchados,
Os livros,
O violão e a poeira dos fatos,
Relatos,
As músicas contidas nos quartos,
Sussurros noturnos,
As altas portas azuis,
Ruínas do tempo,
Os escombros do túnel do tempo.


20 Anos na BR 116

Túnel do tempo,
Sobrado iluminado
Afastado
Na rua de pedras de ferro.
Na exata reta dos anos oitenta
Revejo o zé.
A moça branca segura o álbum do beto
No mês de outono,
Sem querer me desperta
No túnel do tempo.
Minha cara inchada,
As mãos que tremem
A vizinha expõe seu corpo laje
Como uma serpente
Move o seu rosto
Reto ao meu posto

Manhã de domingo,
Beto guedes o primeiro de uns,
Inhapim, belo horizonte
Suores,
Igarapé, tarumirim,
São João asfaltos,
Lugares,
Na reta dos anos oitenta
Não posso mais ver o Zé

Aponta na curva o fim
O fim de mais um decênio,]
O antes redentor milênio,
O astuto nos avisa,
Não tem mais nada
Nem precisa
Sonhos que ele demoniza.


Chegada Rio Doce1
( Exata Nostalgia)

Inhapim está mais perto e mais intenso
As Fronteiras do Gato2 estão limitadas
São Sebastião, São Domingos, nos deixou sós.
Saudades daqueles que ficavam nas esquinas ouvindo canções,
Muitas canções,
Muitas inquietações.
Os zaias, periquitos, eucaliptos,
Morro que tantas vezes alcancei,
Descansei,
Casa do Povo,
Branca Caixa de basculantes estreitos,
Bela casa: de coisas, afetos, mistérios e desejos.

Mercador Barbudo
Está mudo,
Nas ruas de Pedras de Ferro Circula
Na imensa tarde de setembro,
Na imensa tarde de setembro
Na Intensa tarde de setembro,
Os tempos são outros
E as chuvas nos enganam

Porém as grandes narrações voltaram,
E com elas a ferocidade do grande senhor do norte,
E o mercador barbudo que sabe das coisas, que sabe de tudo,
Ficou mudo,
Circula agora pelas ruas de pedras de ferro,
A rua nova, a biblioteca,
O morro do tatu, tudo está presente tão quieto e nu.

Na imensa tarde de setembro
Na intensa tarde de setembro,
O leite tomado,
O leite derramado,
A moça branca estende o disco e me dá um beijo
Intensa a tarde de setembro
Imensa é a tarde de setembro