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quarta-feira, maio 22, 2024

Uma declaração de Todorov sobre os poderes da literatura



"Hoje, se me pergunto por que amo a literatura, a resposta que me vem espontaneamente à cabeça é: porque ela me ajuda a viver. Não é mais o caso de pedir a ela, como ocorria na adolescência, que me preservasse das feridas que eu poderia sofrer nos encontros com pessoas reais; em lugar de excluir as experiências vividas, ela me faz descobrir mundos que se colocam em continuidade com essas experiências e me permite melhor compreendê-las. Não creio ser o único a vê-la assim. Mais densa e mais eloquente que a vida cotidiana, mas não radicalmente diferente, a literatura amplia o nosso universo, incita-nos a imaginar outras maneiras de concebê-lo e organizá-lo. Somos todos feitos do que os outros seres humanos nos dão: primeiro nossos pais, depois aqueles que nos cercam; a literatura abre ao infinito essa possibilidade de interação com os outros e, por isso, nos enriquece infinitamente. Ela nos proporciona sensações insubstituíveis que fazem o mundo real se tornar mais pleno de sentido e mais belo. Longe de ser um simples entretenimento, uma distração reservada às pessoas educadas, ela permite que cada um responda melhor à sua vocação de ser humano" 

Do livro "A literatura em perigo". 


domingo, dezembro 21, 2014

Surpreendido mais uma vez

C.S. Lewis (1898-1963)
O tempo é uma entidade curiosa. Parece que hoje eu tenho uma noção de que ele se pulveriza bem mais rapidamente do que em outras épocas. Dormimos. Acordamos. Realizamos meia dúzia de atividades com completa desconexão, apenas seguindo aquela força maquinal do cotidiano e, de repente, temos que dormir novamente para acordar e reiniciar todo evento circular. 

Constato que tenho lido numa velocidade cada vez menor. Fazendo isso, sigo uma via paradoxal em relação à consciência que tenho do tempo. Estou lendo três livros ao mesmo tempo. No passado, eu já cheguei ler cinco ou seis. Era um frenesi constante. Chegava a vencer nove ou dez em um único mês. Atualmente, tenho lido muito pouco. E isso acaba gerando em mim uma indignação silenciosa, dessas que se alastram como fumaça e deixa a gente com os seus efeitos duradouros. A despeito disso, resolvi iniciar a leitura de um livro que há muito eu procurava. 

Enquanto eu era um estudante de teologia, lá pelos idos de 2003, li Surpreendido pela Alegria, de C.S. Lewis. E, a primeira vez que o li, fui como sugerido pelo título, "surpreendido" por uma estilo agradável e por uma narrativa autobiográfica de grande qualidade. Lewis diz no início da obra que não pretendia escrever um tipo de livro que se assemelhasse às Confissões de Santo Agostinho ou às Confissões de Rousseau. Penso que neste ponto resida uma humildade fingida da parte do inglês, posto que o livro possui uma leveza poética e uma qualidade que nos faz desconfiar que por trás daquelas letras do autor, há alguém saturado dos aromas da literatura. 

Já estava procurando o livro há uns seis anos. Entrei em contato com a Livraria Mundo Cristão, responsável pela publicação em 1998, mas eles me informaram que não havia nenhuma previsão de reimpressão da obra nos próximos anos. O exemplar que li pertencia à biblioteca do Seminário Presbiteriano de Brasília. 

Todavia, os ventos venturosos trazidos pelos deuses vieram até mim e eu o achei na rede. O livro inteiro em uma versão em PDF. Sei. Não é a mesma coisa que o objeto físico. Ler no computador não é uma das melhores coisas. Já li livros na tela, seguindo aquele fluxo de letras miúdas e luminosas - O crime do padre Amaro (Eça de Queirós), A peste (Camus), O Anticristo (Nietzsche) entre outros - e a experiência não é a mesma que ter em mãos o livro. Atualmente, ando lendo O homem desenraizado, de Todorov, também na tela do meu notebook. E tenho planos de ler O descobrimento da América do mesmo autor. É cacete ler no computador. Mas vamos lá...

Li, hoje à noite, as primeiras vinte páginas do livro de Lewis (assim que terminar pretendo fazer uma pequena resenha) e me detive nas palavras abaixo. Ao ler essas palavras, embarquei em uma viagem que me levou ao passado. Recordo-me de que quando li cada uma delas pela primeira vez, tomei as palavras como um valor quintessencial que me seguiria pela vida a fora.  Sempre desejei, desde o dia que li isso, tornar em uma verdade inseparável, inarredável. Ou seja, jurei nunca me afastar dos livros. E, hoje, lendo essas palavras, não deixo abrir os lábios em um sorriso de satisfação por algo que vivi, que descobri - e que foi bom. Ah! o tempo...

"[...] Meu pai comprava todos os livros que lia e jamais se livrou de nenhum deles. Havia livros no escritório, livros na sala de estar, livros no guarda-roupa, livros (duas fileiras) na grande estante ao pé da escada, livros num dos quartos, livros empilhados até a altura do meu ombro no sótão da caixa-d'água, livros de todos os tipos, que refletiam cada efêmero estágio dos interesses dos meus pais-legíveis ou não, uns apropriados para crianças e outros absolutamente não. Nada me era proibido. Nas tardes aparentemente intermináveis de chuva, eu tirava das estantes volume atrás de volume. Encontrar um livro novo era para mim tão certo quanto, para um homem que caminha num campo, é certo encontrar uma nova folha na relva.". (C.S. LEWIS, 1998, 20).


sexta-feira, janeiro 24, 2014

Os rolezinhos nos acusam: somos uma sociedade injusta e segregacionista - por Leonardo Boff

Excelente texto! Vale ser compartilhado para os possíveis leitores incidentais que surgirem por aqui.

O fenômeno dos centenas de rolezinhos que ocuparam shoppings centers no Rio e em  São Paulo suscitou as mais disparatadas interpretações. Algumas, dos acólitos da sociedade neoliberal do consumo que identificam cidadania com capacidade de consumir, geralmente nos jornalões da mídia comercial, nem merecem consideração. São de uma indigência analítica de fazer vergonha.

Mas houve outras análises que foram ao cerne da questão como a do jornalista Mauro Santayana do JB on-line e as de três  especialistas que avaliaram a irrupção dos rolês na visibilidade pública e o elemento explosivo que contém. Refiro-me à Valquíria Padilha, professora de sociologia na USP de Ribeirão Preto:”Shopping Center: a catedral das mercadorias”(Boitempo 2006), ao sociólogo da Universidade Federal de Juiz de Fora, Jessé Souza,”Ralé brasileira: quem é e como vive (UFMG 2009) e  de Rosa Pinheiro Machado, cientista social com um artigo”Etnografia do Rolezinho”no Zero Hora de 18/1/2014. Os três deram entrevistas esclarecedoras. Eu por minha parte interpreto da seguinte forma tal irrupção:

Em primeiro lugar, são jovens pobres, das grandes periferias,  sem espaços de lazer e de cultura, penalizados por serviços públicos ausentes ou muito ruins como saúde, escola, infra-estrutura sanitária, transporte, lazer e segurança. Veem televisão cujas propagandas os seduzem para um consumo que nunca vão poder realizar. E sabem manejar computadores e entrar nas redes sociais para articular encontros. Seria ridículo exigir deles que teoricamente tematizem sua insatisfação. Mas sentem na pele o quanto nossa sociedade é malvada porque exclui, despreza e mantém os filhos e filhas da pobreza na invisibilidade forçada. O que se esconde por trás de sua irrupção? O fato de não serem incluidos no contrato social. Não adianta termos uma “constituição cidadã” que neste aspecto é apenas retórica, pois  implementou muito pouco do que prometeu em vista da inclusão social. Eles estão fora, não contam, nem sequer servem de carvão  para o consumo de nossa fábrica social (Darcy Ribeiro). Estar incluído no contrato social significa ver garantidos os serviços básicos: saúde, educação, moradia, transporte, cultura, lazer e segurança. Quase nada disso funciona nas periferias. O que eles estão dizendo com suas penetrações nos bunkers do consumo? “Oia nóis na fita”; “nois não tamo parado”;”nóis tamo aqui para zoar”(incomodar). Eles estão com seu comportamento rompendo as barreiras do aparheid social. É uma denúncia de um país altamente injusto (eticamente), dos mais desiguais do mundo (socialmente), organizado sobre um grave pecado social pois contradiz o  projeto de Deus (teologicamente). Nossa sociedade é conservadora e nossas elites altamente insensíveis  à paixão de seus semelhantes e por isso cínicas. Continuamos uma Belíndia: uma Bélgica rica dentro de uma India pobre. Tudo isso os rolezinhos denunciam, por atos e menos por palavras.

Em segundo lugar,  eles denunciam a nossa maior chaga: a desigualdade social cujo verdadeiro nome é injustiça histórica e social. Releva, no entanto, constatar que com as políticas sociais do governo do PT a desigualdade diminiui, pois segundo o IPEA os 10% mais pobres tiveram entre 2001-2011 um crescimento de renda acumulado de 91,2% enquanto a parte mais rica cresceu 16,6%. Mas esta diferença não atingiu a raíz do problema pois o que supera a desigualdade é uma infraestrutura social de saúde, escola, transporte, cultura e lazer que funcione e acessível a todos. Não é suficiente transferir renda; tem que criar oportunidades e oferecer serviços, coisa que não foi o foco principal no Ministério de Desenvolvimento Social. O “Atlas da Exclusão Social” de Márcio Poschmann (Cortez 2004) nos mostra que há cerca de 60 milhões de famílias,  das quais cinco mil famílias extensas detém 45% da riqueza nacional. Democracia sem igualdade, que é seu pressuposto, é farsa e retórica. Os rolezinhos denunciam essa contradição. Eles entram no “paraíso das mercadorias” vistas virtualmente na TV para vê-las realmente e senti-las nas mãos. Eis o sacrilégio insuportável pelos donos do shoppings. Eles não sabem dialogar, chamam logo a polícia para bater e fecham as portas a esses bárbaros. Sim, bem o viu T.Todorov em seu livro “Os novos bárbaros”: os marginalizados do mundo inteiro estão saindo da margem e indo rumo ao centro para suscitar a má consciência dos “consumidores felizes” e lhes dizer: esta ordem é ordem na desordem. Ela os faz frustrados e infelizes, tomados de medo, medo dos próprios semelhantes que somos nós.

Por fim, os rolezinhos não querem apenas consumir. Não são animaizinhos famintos. Eles tem fome sim, mas fome de reconhecimento, de acolhida na sociedade, de lazer, de cultura e de mostrar o que sabem: cantar, dançar, criar poemas críticos, celebrar a convivência humana. E querem trabalhar para ganhar sua vida. Tudo isso lhes é negado, porque, por serem pobres, negros, mestiços sem olhos azuis e cabelos loiros, são desprezados e mantidos longe, na margem.

Esse tipo de sociedade pode ser chamada ainda de humana e civilizada? Ou é uma forma travestida de barbárie? Esta última lhe convem mais. Os rolezinhos mexeram numa pedra que começou a rolar. Só parará se houver mudanças.

Daqui

sábado, janeiro 19, 2013

Uma afirmação de Todorov sobre a beleza da Literatura

Ontem à noite, li uma entrevista que saiu na Revista de História da Biblioteca Nacional (edição no. 88, janeiro de 2013) do literato, filósofo, crítico de arte e historiador búlgaro Tzvetan Todorov. Estudou com Roland Barthes e Gerard Genette entre outros trunfos. Todorov já escreveu uns 20 livros em sua bem sucedida carreira de intelectual. Seu forte mesmo é a crítica literária, sendo que Introdução à literatura fantástica, tornou-se um livro de referência nos cursos de Letras aqui no Brasil. O ano passado li A beleza salvará o mundo de sua autoria e pude perceber o seu método de trabalho - belo livro, belo ensaio, belo texto. 

O intelectual fala com a mansidão e com a beleza de quem tem intimidade com o seu objeto de análise. Transcrevo aqui apenas uma parte da entrevista. Sua afirmação sobre a função da literatura como uma poderosa ferramenta humana capaz de dar significado e recriar a existência humana encheu os meus olhos de beleza. 

Tzvetan Todorov: "Quando se pergunta o porquê da Literatura, só resta responder: porque somos seres humanos. A Literatura é uma necessidade humana, vem da própria existência. Somos animais que consomem voluntariamente grande quantidade de relatos e poesia. Todas as populações do globo, de todas as épocas, contam suas histórias e cantam seus poemas. Somos obrigados, por exemplo, a nos recontar histórias para saber sempre o que fizemos, por isso constituímos essa quantidade enorme de impressões. Vivemos o dia a dia, escutamos tudo o que nos acontece, observamos tudo o que está à nossa volta, eo que resta disso é sempre uma história. Eu encontrei um amigo, tomamos café, falávamos disso ou daquilo etc. Essa é a função narrativa, mas ela se encontra condensada, sublimada e magnificada na Literatura. A ficção conta melhor nossas próprias experiências. As palavras me permitem expressar meus sentimentos, mas também enxergam a pluralidade humana. A Literatura é a forma pela qual percebemos que os seres humanos não vivem cada um no seu mundo, mas numa pluralidade infinita. Apesar dos muitos interesses que tenho, ela continua especial". 

Maceió-AL.

quinta-feira, julho 05, 2012

Livros e uma sensação de pequenez

Às vezes fico pensando no fato de que quem gosta de livros possui uma síndrome fáustica. Mas também chego à conclusão que todo sujeito apaixonado por algo tende a fazer qualquer coisa para se aproximar do objeto do seu desejo. É vício. Inevitável. Vamos juntando e acabamos nos acercando do absurdo. Baixamos a cabeça quando percebemos que o caminho é vasto, quase infinito e que nossos esforços resvalam na totalidade, no contingente, achamo-nos pequenos, bestas, por causa disso. Segundo o Google, há mais de 3 trilhões de livros no mundo inteiro. Número surreal. Inimaginável. Seria a "Biblioteca de Babel" de Borges? Salomão disse certa vez que "não há limites para se fazer livros". 

Está aí! Simples. A vida é limitada e as possibilidades de produção são impensáveis. Nossa vida agitada não nos deixa muito espaço para as leituras queridas. Esprememo-nos no bonde. Fixamos o olhar na folha parda enquanto caminhamos. No intervalo do almoço, tentamos nos concentrar, mas o esforço ainda é insuficiente. Segundo informações, o bibliófilo José Mindlin que chegou perto dos cem anos (viveu 95 anos), leu pouco mais de 8 mil livros em sua vida. Parece um número absurdo para um sujeito médio. Diante dessas limitações fico impaciente.

Escrevo isso apenas, pois há alguns instantes atrás comprei 3 livros pela internet. Esse é um exercício para apaziguar a consciência. Que a minha esposa não saiba. Ela faz oposição a essas minhas aquisições. Ela parece personificar o lado mais conservador da minha psiquê. Sobre a minha mesa estão três livros (e tantos outros na estante) - dois que estou lendo (A beleza Salvará o Mundo - Todorov - e O Moleque Ricardo - José Lins do Rego) e um outro (Doutor Fausto - Thomas Mann) que iniciarei neste final de semana próximo.

Acabei comprando três livros que há muito procurava - Middlemarch - Um estudo da vida provincina - George Eliot; A Vida e as Opiniões do Cavalheiro Tristam Shandy - Laurence Sterne (esse eu relutei bastante; preço pouco agradável); e O Som e a Fúria - de William Faulkner. Todo sujeito consciencioso fica com a cabeça povoada pelo cheiro de seu crime. Todavia, esse pecado me torna feliz. Metade de mim é uma baile e, a outra metade, uma noite escura.

Esperemos os livros! A noite é graciosa. A trilha de fundo (Come on Feel - do Lemonheads) é vaga e escandalizante como a luz rala do sol sob o Ártico.

domingo, junho 17, 2012

A beleza que salvará o mundo

Ao chegar à minha casa ontem à noite, por volta de meia-noite, o porteiro do prédio onde moro afirmou que havia uma mercardoria para mim. Tratava-se na verdade de um livro que eu comprara pela internet no início da semana passada - A beleza salvará o mundo, de Tzvetan Todorov, o renomado ensaísta e literato búlgaro, radicado na França. Fui atraído ao livro por causa do título. Não é que eu escolha os livros que leio pela capa. Mas é que ao ler aquele afirmação (A beleza salvará o mundo) imaginei haver ali um forte dose de reflexão estética sobre o belo e a literatura. 

Ando numa fase na qual as minhas mais firmes convicções em torno do absoluto têm sido repensadas, remodeladas. Construo diariamente uma posição que se aproxima cada vez mais da independência da fé institucional. Ou seja, aquela fé cega, não reflexiva, que é resultado de uma moral de rebanho; uma fé infantilizante; que enfeia o mundo e o transforma num espectro desolado, cujas verdades estão prontas e são capazes de silenciar qualquer postura dialética. Aliás, não existe dialeticidade na fé, já que sua base epistemológica é dualista - é e não é. E ao contrário, penso que o mundo é um belo instrumento onde estão adormecidas as mais belas e suaves melodias. Quando li na orelha no livro as palavras abaixo, mais se aguçou a minha vontade de ler a obra:

"Durante milênios, deram ao absoluto o nome de Deus; após a Revolução Francesa, ele foi trazido à Terra sob a forma de nação, depois de Classe ou Raça. Hoje, vários são aqueles que não se reconhecem nessas formas religiosas e políticas sem, no entanto, pretenderem renunciar ao absoluto. Que cada indivíduo, então, faça sua busca, invente seu caminho.

Três grandes artistas do passado recente, Oscar Wilde, Rainer Maria Rilke e Marina Tsvetaeva, situaram essa aventura no íntimo de suas existências. Insatisfeitos em criar obras inesquecíveis, puseram suas vidas a serviço do belo e da perfeição. Essa busca, porém, conduziu o primeiro à decadência física e psíquica, o segundo à profunda depressão e a terceira ao suicídio". Magistral!