sábado, novembro 16, 2013
A contradição
sexta-feira, maio 17, 2013
Jethro Tull no Programa do Jô - 1990 - vídeo raro
domingo, outubro 14, 2012
O UFC e a violência de uma sociedade contraditória
A luta terminou quando um dos contendores encaixou um golpe ("a joelhada devastadora") no queixo do adversário. Naquele instante, ouvi as manifestações de aprovação por parte do meu vizinho. Indago-me que sociedade é essa em que vivemos. Somos vitimados pela violência diária. A mídia sobrevive à custa da violência. Muda perfomaticamente quando anuncia em seus jornalões o último caso nefasto do final de semana. Os seus noticiários estão "ensanguentados". Fechamos hermeticamente as nossas casas. Andamos pelas ruas desconfiados. Fugimos dos estranhos. Mas aprovamos a violência propagandeada numa luta transmitida pela TV. Tal violência é resultado de uma sociedade estratificada, desigual, modelada pelas diferenças sociais. terça-feira, dezembro 20, 2011
Fantoches

"A suprema ironia do capitalismo é que o dominado pensa com a cabeça do dominador". Alberto Tosi Rodrigues.
Vivemos uma época de mortícinios - da natureza, das relações dos homens com os homens; do homem como sujeito histórico e da capacidade de se insurgir. Vivemos em uma época de cinismos, de acomodamentos cegos. Somente somos quando temos condições de consumir. Ontem, enquanto assistia aos jornalões da Tv, que mais deformam do que informam, percebi como foi tratado em tom de chacota a morte do líder da Coreia do Norte - King Jong-il. À sua pessoa estava agregada a "pecha" "tirano comunista".Que não se leia aqui uma defesa ao obscurantista King Jong-il. Por sua vez, vi também o anúncio da morte de Vaclav Havel. E algo assim: "A Europa chora!". "Aquele que ajudou, que resistiu à ditadura comunista!" "Que lutou pela democracia no leste europeu".
O que me deixa estarrecido com esse tipo de informação é a capacidade cínica de deixar mensagens subliminares. Tal discurso é criminoso e voluntarista. A mídia arrivista possui um contrato com a imoralidade e com a mentira. É função dela domesticar. "Amansar", "doutrinar", criar uma ideia de pacifidade. Criminaliza-se todo e qualquer esforço dos trabalhadores. Mas não contam verdadeiramente que vivemos sob uma ditadura. Que a nossa liberdade é falsa. Que somos livres apenas para vender a nossa força de trabalho e consumir, resultando numa ciranda que nos dá uma compreensão a-histórica daquilo que de fato somos. Esquecem que a consciência está ligada aos modos materiais de vida, ao intercâmbio econômico entre os homens e que nos deram a mais criminosa de todas as percepções - a ideia de liberdade.
"À medida que o tempo passa a sociedade capitalista se estabiliza, ela é percebida pelas pessoas, na vida cotidiana, como a única sociedade possível. Assim como em outros, a sociedade feudal, por exemplo, foi percebida pelos homens com a única sociedade possível (durante séculos, num intervalo de tempo, aliás, bem maior do que a duração do capitalismo)". Alberto Tosi Rodrigues, Sociologia da Educação, p. 37
E a barbárie toma conta do mundo. Para aonde estamos indo?
quinta-feira, junho 09, 2011
Caso Cesare Battisti (IV) - ou como enxergamos a subserviência das elites...
Palavras de Leonardo Boff, que podem ser evocadas nesses momentos de tanto alarde e subserviência ao pensamento do Centro. As elites brasileiras, principalmente aqueles respresentados pelos donos dos meios de comunicação desse país, são uma sucursal do Império. Foram escritas há quase dois anos e servem para a ocasião:"...
As palavras acima são oportunsíssimas ao que se assistiu neste dia. Desde a noite de ontem que a mídia nativa está em polvorosa. O resultado não foi aquilo que se esperava que fosse. Era desejo dos jornalões que Cesare Battisti saísse extraditado, derrotado, humilhado, pronto para ir ao patíbulo; que fosse entregue ao governo italiano. A repercussão da libertação de Battisti foi imensa. Li algumas notícias veiculadas para tentar perceber o nível de atarantamento dos jornalões e encontrei raiva, acusões desbragadas e violência. A Folha de São Paulo e os jornais televisivos afirmam que Cesare era um assassino e enfatizam o possível impasse diplomático que o evento geraria para a relação Brasil-Itália. Curiosamente, há menos de dois ou três dias, ouvi uma informação sendo noticiada num "cubículo"(chamo cubículo para enfatizar a desimportância que foi dada ao fato) do Jornal Nacional por William Bonner e Fátima Bernardes, casal modelo para o padrão global, que Daniel Dantas, que estava sendo investigado pela Polícia Federal, acusado de ter se locupletado com "algumas centenas de milhões de reais", poderia continuar a sua vida de banqueiro em paz. O processo que investigava o sr. Dantas foi, simplesmente, "desqualificado", arquivado. A repercussão dada pela mídia ao caso Dantas foi nula. Afinal, tratava-se de alguém de cima, de um especialista. Seria fogo amigo. E aqueles que possuem o mesmo cheiro não se acusam. Mas Battisti não é ninguém. Apenas um sujeitinho "inexistente", um militante de esquerda. Pesa contra ele o nome "comunista"; pesa contra ele ainda o fato de ser objeto da solicitação de um país do Centro. Não se invoca a história. Não se averiguam as circunstâncias, o ambiente histórico do suposto crime cometido por Batistti. Não se quer saber que a Itália produziu um Mussollini, que enviou um dos maiores intelectuais do século XX, Antonio Gramsci, para a masmorra até que este padecesse; da Itália que teve um dos Estados mais mafiosos do mundo no século XX; que anda de marcha ré; o número de xenófobos e o crescimento da extrema Direita é vertiginoso naquele país. Por que não se acusam as ditaduras e os ditadores que mataram a tantos - Pinochet, Franco, Salazar e tantos outros que ainda estão vivos no Brasil e vivendo à custa do Estado? O que está em voga nisso tudo é um jogo de submissão - de um lado o desejo dos súcubos e do outro o poder contagiante e cruel dos íncubos.
O STF (leia-se: Luís Fux - que fulminou Gilmar Mendes em seu voto -, Ricardo Lewandovsky, Joaquim Barbosa, Ayres Brito, Carmen Lúcia e Marco Aurélio Mello) foi responsável por gerar em mim um orgulho e uma felicidade risentes. A mídia, por sua vez, aliançada com o que há de mais anacrônico e reacionário, posiciona-se numa posição servilista, de quem sente saudades da escravidão, ou seja, sermos uma "república das bananas", como diz Leonardo Boff. Estes sim são os verdadeiros terroristas e criminosos.
Por Carlos Antônio M. R. de Albuquerque
Gramado - RS
domingo, maio 08, 2011
A quantas anda o mundo ou o tempo não para

Isso me faz lembrar uma afirmação de Paul Lafargue, extraída do seu texto clássico Direito à Preguiça: "Na sociedade capitalista, o trabalho é a causa de toda degenerescência intelectual". O trabalho vestido pelas exigências da sociedade capitalista furta até mesmo a brisa de inspiração que sopra no espírito. Não há tempo para devaneios, para beijos apaixonados, para fazer protestos; para participar de rodas de conversas; para fazer saraus; para ouvir música. Acabamos sempre pensando no outro dia; no ônibus cheio; no chefe que nos espreita. O seu azorrague é relógio e o olhar aniquilador.
Na música Capitão de Indústria, Os Paralamas do Sucesso, descrevem essa ciranda do homem moderno. Eles afirmam:
[...]
Estou cansado demaisEu não tenho tempo de ter
O tempo livre de ser
De nada ter que fazer
É quando eu me encontro perdido
Nas coisas que eu criei
E eu não sei
Eu não vejo além da fumaça
O amor e as coisas livres, coloridas
Nada poluídas
Ah, Eu acordo prá trabalhar
Eu durmo prá trabalhar
Eu corro prá trabalhar
O Supremo ignorou completamente os ruídos emitidos pelos reacionários da Igreja - seja ela Católica ou Evangélica - e proferiu uma decisão histórica que terá importância para outros embates futuros. Esse fato evidenciou o laicismo do Estado. Mostrou que não vivemos mais na Idade Média. Foi uma patada de leão a que o Supremo deu na cara dos Malafaia, da CNBB, dos dogmáticos, dos primitivos, que enxergam o mundo apenas com uma cor. O mundo é multicolorido. O Universo possui mais de 100 bilhões de estrelas. Em pleno século XXI, e as concepções forjadas pelos judeus ainda dominam a nossa mente.
Por Carlos Antônio M. Albuquerque
terça-feira, janeiro 11, 2011
Sobre reality shows
Escrito há quase três anos, numa ocasião como esta. No dia 10 de janeiro de 2008, eu cheguei cansado em casa à noite. Deitei no sofá. O desejo veemente de descansar após um dia estafante de aborrecimentos, de profunda insalubridade. Acordara cedo aquele dia como de praxe. Não sou muito dado a assistir programas de televisão. Mas naquele dia estava sozinho em casa. Peguei o controle e pensei comigo. “Vamos ver o que está passando nessa caixa maluca”. Busquei ser razoável, consciencioso. Tenho pensamentos negativos sobre a televisão. Imagino aquelas pessoas que ficam expostas de 20 a 30 horas da semana diante das imagens. Julgo que isso é um exercício absurdo. Afirmo num acesso de deslocamento que a televisão brasileira precisa passar por um processo de reforma moral e educativa. Os programas em sua maioria são de péssima qualidade e de uma pobreza intelectual bastante indesejável.
Naquela noite eu busquei ser solidário, mas a minha aquiescência não sobreviveu às investidas dos fatos. Deti-me no Big Brother Brasil. Simulei uma experiência. Limitei-me. Arquitetei mentalmente que ficaria exposto àquelas imagens por uns 20 minutos. Todavia não suportei mais que dez. Vi um Pedro Bial tentando ser simpático. Esforçando-se para ser agradável. Expunha sua indigência intelectual. Justificava-se. No dia anterior insistira numa opinião equivocada. Errara sobre o similar de Dionísio na mitologia romana – Baco. Aproveitava o momento para fazer conexões despropositadas e vexatórias com os participantes do programa. A uma chamava de musa a outro de um dos personagens da mitologia greco-romana. Estava nítido que o sujeito desgraçadamente não levava jeito para ser animador de circo. Moços de corpanzil atlético; de jeito e maneiras saudáveis; com aparente autonomia intelectual. Por sua vez, moças de corpos sensuais, de seios fartos. Ou seja, em minha análise vejo que o que está em jogo é a corporeidade atlética dos participantes, a saúde física, pois o que se busca é o caos, o nascimento da mediocridade que se insinua por meio das imagens recepcionadas pelos telespectadores.
Vi às imagens de uma festa que acontecera um dia antes. Uma espécie de evento “com objetivo para potencial de orgia”. As investidas dos moços que, seminus, insinuavam os corpos na tentativa de requestar as moças participantes para um “programa” dês-compromissado. O álcool destrancava os sentimentos mais escondidos. Lançava fora os pudores. No fundo o que se buscava era justamente que essas tentativas se tornassem substanciais, pois há milhões de brasileiros assistindo àquelas imagens. O público está sedento por luxúria, leviandades e voyeurismo. O desejo dos telespectadores é que “aquele mundo” – o da dita casa – se torne no pior dos mundos. Isso alimentará com lixo as suas almas. A falência da moral é desejada; a penúria espiritual é o que o público deseja em sua veleidade atomizada.
George Orwell escreveu o livro 1984. Neste livro, o escritor insinua um controle do Estado através da televisão, instalada em cada residência, ligada a um maquinismo central controlador. Dessa base coordenadora seria possível controlar a vida dos cidadãos. O Estado “assistiria às ações dos seus súditos”. Esse ente controlador é chamado de “Grande Irmão” (Big Brother) por Orwell. Já no programa da Rede Globo há uma inversão. O "estado" é representado pelos telespectadores que espionam as ações dos participantes confinados naquela jaula cercada de câmeras. Todavia, no dizer de Muniz Sodré em seu excelente ensaio O Monopólio da Fala – Função e Linguagem da Televisão no Brasil, “a eficiência da dominação, portanto, consiste em ocultar, do melhor modo possível, o controle totalitário dos pensamentos, dos gestos, da palavra, enfim do desejo”[1]. Assim, com relação ao livro 1984 há paradoxalmente uma inversão, pois enquanto este mostra um estado de controle, no programa em questão as pessoas pensam que assistem, mas na verdade estão presas pelo feitiço do controle. Por intermédio do poder com potencial lúbrico e de simulacro da realidade que a imagem possui. De alguma forma o sistema controla os desejos individuais do consumidor final, aquele que ab-sorve as imagens. O telespectador representa um mundo de desejos e aspirações que precisa ser preenchido pelo poder controlador de um centro que estabelece o que é e não é em termos de riqueza cultural e estética. Ou seja, o telespectador é um viajante passivo, pois apenas recepciona sem interagir com as imagens. Trata-se de um pacote pronto que é lançado a ele. Cabe aceitar ou reprovar.
O poder encatátório das imagens penetra no mais íntimo da privacidade do indivíduo. Aonde ninguém chega a imagem chega, pois a individualidade supõe “separação”, “ruptura” com o outro. A imagem pré-estabelecida por uma equipe técnica com as ânsias do mercado, promove um desfecho para a trama, que necessita ser a pior possível, pois os consumidores do produto precisam de intrigas triviais e relações banalizadas. Desse desenlace brota o lucro e o controle. O controle ideológico não é estereotipado. Não aparece aprioristicamente. Os verdadeiros ladrões não roubam fazendo escarcéu. Eles buscam o silêncio discreto – o mais que possam. Da mesma forma, o controle ideológico da mass-media busca eliminar com ‘uma aparência’(e aí está o nó-górdio da pós-modernidade) a questão de sua verdadeira finalidade, insinuando como ‘natural’ a necessidade geral de uma informação centralizada e abstrata[2].
Abaixo segue um texto escrito por Frei Betto. Em 2002 ele escreveu estas palavras publicada no sítio ADITAL. O texto é poético em sua essência e denuncia o abandono daquele que se devota diante do programa.
Reality Show
Frei Betto
Sim, quero ver a tua vida em detalhes, minuto a minuto, e ouvir as palavras que jorram de tua boca, rir o teu riso e enraivecer-me com o teu rancor, assistir à tua paquera, ao teu namoro, ao teu gesto de carinho, à tua transa, espelhando tua beleza em minha indigência.
Quero deixar de lado amizades, trabalhos, livros e lazer e, de olhos pregados em tua magia, absorver a tua arte de movimentar-se no labirinto da quimera, livre de dores e afazeres, mergulhado na fama e na fortuna.
Venerarei o teu ócio na vitrine, exibindo-te sem pudor a milhões de olhos, despido por infinitas imaginações, liberto das grades odiosas dessa existência de penúria anônima, escrava da rotina atroz de quem jamais aprendeu a voar, nem foi aquinhoado pela sorte. Abrirei em meu monitor a porta da tua casa mágica e, sob o peso de minhas carências, ingressarei virtualmente em tua liberdade, no teu gozo, no teu charme, no teu riso, na tua sensualidade, como quem toca com os olhos os veneráveis ícones que nos fazem transcender da mediocridade cotidiana.
Minha fidelidade ao teu exibicionismo será a chancela que sacramentará a tua vida como real e, do lado de cá, buscarei a alforria de minha indigência em tuas loucuras, em teus jogos e em tuas danças. Quero decifrar em ti a minha própria intimidade, rasgar a minha alma em tuas mãos e deixar a minha mente impregnar-se dessa ilusão que faz de mim teu pequeno irmão.
Recobrirei a minha realidade com a tua fantasia e farei de teu espetáculo o brilho de meus olhos vazados, nessa permuta hipnótica de quem busca a complacência com seus próprios limites para tentar encobrir a mesquinhez que me corrói. Ficarei atento ao teu banho, ao teu sexo, à tua ira e às tuas refeições, fiel à exposição perene deste teu ser desprovido de preocupações e conteúdos, entregue a esta liberdade que faz de ti o que não sou, e me permite projetar em teu vigor as minhas fraquezas e em teu esplendor o sabor amargo de meu anonimato.
Verei em tua janela, que se abre para a minha casa, a subversão de todos os valores, como se nos cômodos que te abrigam findassem todos os princípios, escorrendo pelo ralo tudo aquilo que num lar soava como sinônimo de família. Ampliados pela eletrônica, meus olhos contemplarão as tuas intimidades mais ousadas. Sentirei os teus odores e beberei o teu suor.
Esticarei o meu olhar até os limites proibitivos do escárnio e, quem sabe, verei o teu rancor extirpar toda a inveja que jaz em meu peito e a tua voracidade explodir em taras que haverão de suprir os meus desejos mais ignóbeis e saciar as minhas pulsões mais abjetas. Deste lado da tela, sentirei os teus sentimentos e comungarei as tuas emoções, vendo-te virar pelo avesso nesse zoológico de luxo, exposto à multidão como carne no açougue, a engordar no balcão do voyeurismo a gorda soma dos teus patrocinadores.
Em ti livrar-me-ei de todo ideal que não seja fazer da vida um jogo de entretenimentos, a sedução epidérmica como sucedâneo de quem não atinge as profundezas do amor, vendo-te representar a ti mesmo sob os aplausos invejosos de meu olhar sequioso, preso ao teu desempenho huit-clos.
Aprisionarei a tua vida em meu olhar, tornar-me-ei teu carcereiro eletrônico, decidindo o teu presente e o teu futuro, absolvendo-te ou condenando-te, juiz supremo que se ignora refém do próprio equívoco.
Inebriado com as tuas loucuras, te elegerei objeto supremo de minha admiração, deixando-me devorar pelo teu sucesso, do qual farei tema de todas as minhas conversas.
À espera de que os corvos venham devorar o meu coração, e agora que a nossa história foi para os quintos dos infernos, quero ser consumido e consumado por ti, arrancando de meus olhos todas as escamas, até que eu possa ver também ao vivo, na busca desenfreada de audiência, o marido espancar a mulher; o filho estuprar a mãe; o pai assassinar a filha; enfim, o horror, pois sei que o show não pode parar e que o seu limite é não ter limites.
31 de janeiro de 2002
Fonte: ADITAL
[1] SODRÉ, Muniz, O monopólio da Fala – função e linguagem da televisão no Brasil, Editora Vozes, Petrópolis – RJ, 1978, p. 45.
[2] Idem, p. 49
Por Carlos Antônio M. Albuquerque
quarta-feira, novembro 10, 2010
Serra do Adeus ou Réquiem para Zé Bolinha
A eleição de Dilma Rousseff, mesmo tendo fortalecido o projeto da esquerda brasileira, não foi suficiente para prostrar o PSDB definitivamente e tampouco foi ampla a ponto de fazer recuar as forças conservadoras da sociedade. Serra, no entanto, está acabado.Com o resultado das eleições presidenciais, José Serra está morto politicamente e já pode repousar ao lado de Fernando Henrique Cardoso no jazigo político do PSDB. Assim como FHC, o ex-governador de São Paulo passa a ser uma figura irrelevante no front da política nacional. A eleição de Dilma Rousseff, mesmo tendo fortalecido o projeto da esquerda brasileira, não foi suficiente para prostrar o PSDB definitivamente e tampouco foi ampla a ponto de fazer recuar as forças conservadoras da sociedade. Serra, no entanto, está acabado.
A constatação pode ser dura e difícil para aqueles que admiram o tucano (não são poucos, a julgar pelos 43,6 milhões de votos recebidos) e para a mídia conservadora que tenta dar ares de vitória a uma derrota histórica. Mas, a verdade das urnas é clara e cristalina. Como escreveu o sempre espirituoso Flávio Aguiar em artigo publicado aqui na Carta Maior, a morte política de Serra é um fato inequívoco e teve direito até mesmo à extrema-unção consagrada pelo Papa Bento XVI em pessoa.
Não se trata mera e simplesmente de uma derrota eleitoral. Ao repetir diversas vezes nos últimos anos - e todos os dias durante a campanha - que se preparou a vida inteira para ser presidente, Serra revelou um sonho, mas também uma obsessão tão forte a ponto de alguns críticos terem inventado para ele o apelido de “presidente nato”. Após abandonar a militância na AP nos anos 60, Serra deixou de ser de esquerda, apesar das teses em contrário. Sua conversão definitiva aos encantos do capital (financeiro, não o livro de Marx) aconteceu em sua passagem pelos Estados Unidos. Quando retornou ao Brasil, já estava pronto para ser um expoente da elite política neoliberal que comandou o país no período pós-ditadura.
Em sua moderna e definitiva encarnação, Serra não precisou pedir, como fez FHC, que esquecessem o que escreveu. Ao contrário, na falta de coisa melhor, registrou um livro como programa de governo. Mas, nestas eleições o tucano associou-se às forças mais tenebrosas da direita de tal forma que transformou sua figura política em uma face disforme.
A campanha difamatória contra Dilma, feita à sombra das catedrais católicas e templos evangélicos, já revelava um Serra disposto a tudo para “cumprir seu destino” e chegar à Presidência. A sórdida e orquestrada repercussão midiática dada à discussão sobre o aborto, no entanto, jogou o Brasil à beira de uma cisão religiosa que nunca antes na história desse país havia acontecido. Para quem se diz “defensor das liberdades democráticas” foi uma irresponsabilidade chocante, mas útil para revelar aos eleitores que o candidato do agronegócio destruidor da Amazônia, o candidato da grande mídia monopolizadora, o candidato dos privatistas entreguistas da riqueza nacional era também o candidato da TFP e de outros segmentos fundamentalistas de nossa sociedade.
No discurso proferido logo após a confirmação da vitória de Dilma, Serra recorreu a bravatas consideradas ingênuas até mesmo na UNE, da qual foi presidente, e alertou aos “que nos imaginam derrotados” que estava “apenas começando uma luta de verdade”. Disse que “o momento não era de adeus”, e sim um “até logo”, mas a verdade é que a luta dos tucanos vai continuar sem ele. Aos 68 anos, a saída mais honrosa para Serra seria assumir a presidência do PSDB nas eleições internas programadas para o ano que vem e se candidatar ao Senado em 2014, quando terá 72 anos. Seu discurso após a derrota, entretanto, revela que a obsessiva procura pela Presidência da República permanece em seus planos. Mas, não será fácil encontrar espaço.
Tucanos divididos
No PSDB, as coisas caminham para a divisão em dois grandes blocos, aglutinados em torno do governador eleito de São Paulo, Geraldo Alckmin, e do senador eleito Aécio Neves (MG). Ambos almejam disputar a Presidência em 2014, e os efeitos dessa divisão já começam a se fazer sentir na troca de críticas pela imprensa feita entre tucanos mineiros e paulistas. Nessa briga, o fiel da balança pode ser a posição de outras lideranças do PSDB, representadas pelos oito governadores eleitos pelo partido. Se Aécio vencer a queda-de-braço interna e permanecer no PSDB, é o candidato natural do partido. Se não tiver espaço, vai sair, mas, nesse caso, parece impossível imaginar que Alckmin, o “querido amigo”, abrirá mão da disputa em favor de Serra.
Restaria ao “presidente nato” a opção de perseguir seu sonho de poder em outra legenda. Isso, entretanto, só é imaginável se Serra abraçar de vez o perfil mais sombrio que demonstrou durante a última campanha e tentar aglutinar fundamentalistas religiosos, ex-torturadores e barões decadentes da mídia numa espécie de “Tea Party” brasileiro.
Convenhamos que seria um fim de carreira política para lá de melancólico até mesmo para quem é capaz de se submeter a uma tomografia após ter sido atingido por uma bolinha de papel. Isso sem falar nas parcas possibilidades eleitorais que Serra teria em um quadro com candidatáveis do porte de Marina Silva e Eduardo Campos, além dos próprios Aécio e Alckmin e da presidente Dilma, entre outros.
Em conversa com o ex-marido, relatada pelo jornal O Globo, Dilma afirmou: “Eu nunca quis, nunca pensei em ser presidente do Brasil. Nunca tive de fazer arranjos constrangedores para chegar onde cheguei. E o Serra só fez isso (almejar a Presidência) a vida inteira: foi o primeiro aluno da classe, liderou o grêmio estudantil, foi parlamentar e governou sempre de olho na Presidência. Como é surpreendente o processo político brasileiro! Ao contrário do Serra, para mim ser presidente não era uma coisa de vida ou morte. Aconteceu naturalmente”. Como se vê pelas palavras da presidente eleita, não basta ter se preparado a vida inteira. Como diziam os velhos políticos, “Presidência é destino”. Ou, felizmente para o Brasil, Presidência é vontade popular.
Por Maurício Thuswohl - jornalista.
sábado, outubro 02, 2010
A mídia comercial em guerra contra Lula e Dilma
Amanhã acontecerão as eleições. O texto a seguir de Leonardo Boff explicita de modo contundente como a mídia golpista, representante das velhas oligarquias, manipula o povo, destoando informações, coloca a opinião pública contra Lula e sua candidata Dilma Rousseff. Um excelente texto para quem quiser se esclarecer acerca desse crime perverso, cometido pelos "coronéis da informação". Sou profundamente a favor da liberdade de expressão em nome da qual fui punido com o silêncio obsequioso pelas autoridades do Vaticano. Sob risco de ser preso e torturado, ajudei a editora Vozes a publicar corajosamente o Brasil Nunca Mais onde se denunciavam as torturas, usando exclusivamente fontes militares, o que acelerou a queda do regime autoritário.
Esta história de vida, me avalisa fazer as críticas que ora faço ao atual enfrentamento entre o Presidente Lula e a midia comercial que reclama ser tolhida em sua liberdade. O que está ocorrendo já não é um enfrentamento de idéias e de interpretações e o uso legítimo da liberdade da imprensa. Está havendo um abuso da liberdade de imprensa que, na previsão de uma derrota eleitoral, decidiu mover uma guerra acirrada contra o Presidente Lula e a candidata Dilma Rousseff. Nessa guerra vale tudo: o factóide, a ocultação de fatos, a distorção e a mentira direta.
Precisamos dar o nome a esta mídia comercial. São famílias que, quando vêem seus interesses comerciais e ideológicos contrariados, se comportam como famiglia mafiosa. São donos privados que pretendem falar para todo Brasil e manter sob tutela a assim chamada opinião pública. São os donos do Estado de São Paulo, da Folha de São Paulo, de O Globo, da revista Veja na qual se instalou a razão cínica e o que há de mais falso e xulo da imprensa brasileira. Estes estão a serviço de um bloco histórico, assentado sobre o capital que sempre explorou o povo e que não aceita um Presidente que vem deste povo. Mais que informar e fornecer material para a discusão pública, pois essa é a missão da imprensa, esta mídia empresarial se comporta como um feroz partido de oposição.
Na sua fúria, quais desesperados e inapelavelmente derrotados, seus donos, editorialistas e analistas não têm o mínimo respeito devido à mais alta autoridade do pais, ao Presidente Lula. Nele vêem apenas um peão a ser tratado com o chicote da palavra que humilha.
Mas há um fato que eles não conseguem digerir em seu estômago elitista. Custa-lhes aceitar que um operário, nordestino, sobrevivente da grande tribulação dos filhos da pobreza, chegasse a ser Presidente. Este lugar, a Presidência, assim pensam, cabe a eles, os ilustrados, os articulados com o mundo, embora não consigam se livrar do complexo de vira-latas, pois se sentem meramente menores e associados ao grande jogo mundial. Para eles, o lugar do peão é na fábrica produzindo.
Como o mostrou o grande historiador José Honório Rodrigues (Conciliação e Reforma) "a maioria dominante, conservadora ou liberal, foi sempre alienada, antiprogresssita, antinacional e nãocontemporânea. A liderança nunca se reconciliou com o povo. Nunca viu nele uma criatura de Deus, nunca o reconheceu, pois gostaria que ele fosse o que não é. Nunca viu suas virtudes nem admirou seus serviços ao país, chamou-o de tudo, Jeca Tatu, negou seus direitos, arrasou sua vida e logo que o viu crescer ela lhe negou, pouco a pouco, sua aprovação, conspirou para colocá-lo de novo na periferia, no lugar que contiua achando que lhe pertence" (p.16).
Pois esse é o sentido da guerra que movem contra Lula. É uma guerra contra os pobres que estão se libertando. Eles não temem o pobre submisso. Eles tem pavor do pobre que pensa, que fala, que progride e que faz uma trajetória ascedente como Lula. Trata-se, como se depreende, de uma questão de classe. Os de baixo devem ficar em baixo. Ocorre que alguém de baixo chegou lá em cima. Tornou-se o Presidene de todos os brasileiros. Isso para eles é simplesmente intolerável.
Os donos e seus aliados ideológicos perderam o pulso da história. Não se deram conta de que o Brasil mudou. Surgiram redes de movimentos sociais organizados de onde vem Lula e tantas outras lideranças. Não há mais lugar para coroneis e de fazedores de cabeça do povo. Quando Lula afirmou que a opinião pública somos nós, frase tão distorcida por essa midia raivosa, quis enfatizar que o povo organizado e consciente arrebatou a pretensão da midia comercial de ser a formadora e a porta-voz exclusiva da opinião pública. Ela tem que renunciar à ditadura da palavra escrita, falada e televisionada e disputar com outras fontes de informação e de opinião.
O povo cansado de ser governado pelas classes dominantes resolveu votar em si mesmo. Votou em Lula como o seu representante. Uma vez no Governo, operou uma revolução conceptual, inaceitável para elas. O Estado não se fez inimigo do povo, mas o indutor de mudanças profundas que beneficiaram mais de 30 milhões de brasileiros. De miseráveis se fizeram pobres laboriosos, de pobres laboriosos se fizeram classe média baixa e de classe média baixa de fizeram classe média. Começaram a comer, a ter luz em casa, a poder mandar seus filhos para a escola, a ganhar mais salário, em fim, a melhorar de vida.
Outro conceito innovador foi o desenvolvimento com inclusão soicial e distribuição de renda. Antes havia apenas desenvolvimento/crescimento que beneficiava aos já beneficiados à custa das massas destituidas e com salários de fome. Agora ocorreu visível mobilização de classes, gerando satisfação das grandes maiorias e a esperança que tudo ainda pode ficar melhor. Concedemos que no Governo atual há um déficit de consciência e de práticas ecológicas. Mas importa reconhecer que Lula foi fiel à sua promessa de fazer amplas políticas públicas na direção dos mais marginalizados.
O que a grande maioria almeja é manter a continuidade deste processo de melhora e de mudança. Ora, esta continuidade é perigosa para a mídia comercial que assiste, assustada, o fortalecimento da soberania popular que se torna crítica, não mais manipulável e com vontade de ser ator dessa nova história democrática do Brasil. Vai ser uma democracia cada vez mais participativa e não apenas delegatícia. Esta abria amplo espaço à corrupção das elites e dava preponderância aos interesses das classes opulentas e ao seu braço ideológico que é a mídia comercial. A democracia participativa escuta os movimentos sociais, faz do Movimento dos Sem Terra (MST), odiado especialmente pela VEJA faz questão de não ver, protagonista de mudanças sociais não somente com referência à terra mas também ao modelo econômico e às formas cooperativas de produção.
O que está em jogo neste enfrentamento entre a midia comercial e Lula/Dilma é a questão: que Brasil queremos? Aquele injusto, neocoloncial, neoglobalizado e no fundo, retrógrado e velhista ou o Brasil novo com sujeitos históricos novos, antes sempre mantidos à margem e agora despontando com energias novas para construir um Brasil que ainda nunca tínhamos visto antes.
Esse Brasil é combatido na pessoa do Presidente Lula e da candidata Dilma. Mas estes representam o que deve ser. E o que deve ser tem força. Irão triunfar a despeito das má vontade deste setor endurecido da midia comercial e empresarial. A vitória de Dilma dará solidez a este caminho novo ansiado e construido com suor e sangue por tantas gerações de brasileiros.
Por Leonardo Boff*
*teólogo, filósofo, escritor e representante da Iniciativa Internacional da Carta da Terra.
Extraído DAQUI
terça-feira, agosto 17, 2010
"Pesos e Medidas" ou o Império Ataca
Resolvi postar um texto do editor Mino Carta da revista Carta Capital. Abaixo segue um "pedaço" da reflexão com uma excelente análise empreendida acerca das entrevistas realizadas pela Rede Globo com os candidatos à Presidência da República. O casal mais ridente do jornalismo brasileiro estava lá ostentando a natural faceirice de superioridade. Ou seja, de quem é detentor da verdade. Modelo de relação. Espelho para as famílias brasileiras. Com relação à entrevista, nada de cordialidades para com Dilma e Marina Silva, que foram "encurraladas". No tocante ao canditato das aristocracias (José Serra), verbalização, mesuras, risos de complacência, nada de interrupções, cortes abruptos. Nada de apertos. Apenas duas perguntas supostamente embaraçosas ao candidato tucano. Já era de se esperar por isso. É de ver o debate que os globais irão promover?!!! Ontem, em pesquisa encomendada pela Rede Globo e pela Folha de São Paulo, Dilma aparece com mais de 10 pontos percentuais de vantagem em relação a Serra. Existe até mesmo a possibilidade da candidata petista vencer no primeiro turno, o que seria realmente extraordinário. O que eles estão pensando em fazer para tirar esta diferença?Uma outra pergunta: por que não levaram Plínio de Arruda Sampaio ao Jornal Nacional? Medo do discurso com propostas de ruptura do canditato do PSOL? A Globo, sempre a Globo! Quem quiser ler o texto de Mino na íntegra, AQUI.
Em itálico, texto do editor Mino Carta:
[...] Para revidar às pe
rguntas que não são do seu gosto, o candidato José Serra adota uma linha de refinado senso de humor. Anota a repórter Juliana Cipriani, de O Estado de Minas, que Serra “parece ter dificuldade em entender o que dizem os brasileiros ou inventou uma nova estratégia para evitar responder às perguntas que não o agradam”. Em meados de julho passado, em Pernambuco, o repórter de um jornal local dirigiu-lhe uma pergunta sobre o trem-bala destinado a ligar São Paulo ao Rio: obra feita ou tiro de festim? A pergunta deveria ser do seu gosto, pois o candidato é contrário ao projeto. Surpresa. “Não entendi, foi muito sotaque”, decretou Serra. Em Minas, quando um jornalista o questionou sobre recente entrevista de Lula em que o presidente lamenta-lhe a falta de sorte ao enfrentá-lo em 2002 e agora diante de Dilma Rousseff, Serra escandiu: “Esta fala mineira de vocês eu não entendo”. O candidato tucano consegue, porém, ser mais cordato, a depender das situações. Lá pelas tantas desta tertúlia eleitoral, o repórter Fábio Turci dirige a Serra uma pergunta sobre juros. O perguntado não esconde sua irritação, e indaga com a devida veemência: “De onde você é?” Turci esclarece ser da Globo. E Serra, de pronto: “Ah, então desculpe”. Tucano não voa, mas sabe onde pisa. Na noite de 11 de agosto coube a ele ser sabatinado por 12 minutos pelo casal JN, William Bonner e Fátima Bernardes, os sorrisos mais radiosos do Brasil. Antes, a oportunidade foi bondosamente oferecida às candidatas Dilma Rousseff, segunda 9, e Marina Silva, terça 10. Para ambas, um sufoco. As perguntas do locutor que considera Homer Simpson como telespectador ideal foram muito mais esticadas que as respostas, quando estas não foram furibundamente atropeladas. No caso de Dilma, o propósito foi mostrar (ingenuamente?) que ela é ao mesmo tempo uma marionete na mão de Lula e personagem dura, prepotente, mandona. De sorte a suscitar a observação da entrevistada, mais ou menos do seguinte teor: então, como vocês me querem, como títere do titereiro ou como a ministra inflexível que chama às falas os colegas de gabinete? Na vez de Marina, o intuito foi outro: provar que ela saiu do governo por discordâncias sobre a política ambiental enquanto, tempos antes, não se incomodou com o mensalão, o escândalo pretendido e até hoje não provado. A certa altura, a ex-ministra teve de reagir com alguma, insólita veemência, para pedir que a deixassem concluir o raciocínio. Com Serra, na quarta 11, tudo mudou. O casal JN deixou o candidato falar à vontade. E quando a entrevista pretendeu chegar ao ponto de fervura, a pergunta foi: o senhor não se sente constrangido de ter o apoio do PTB, partido metido no escândalo do mensalão petista? Nada do mensalão mineiro nem do escândalo do DEM em Brasília. Maluf e Quércia? Esquecidos. E os votos comprados para a reeleição de FHC? Segundo momento de aperto. Pergunta a evocar os usuários que reclamam dos preços altos do pedágio em São Paulo. Serra ganha a oportunidade de falar mal das estradas federais. Aí Bonner acrescenta: não existe um meio-termo, só dá para ter estradas boas e caras ou ruins e baratas? Serra emenda, feliz, que na última concessão que fez, os preços do pedágio caíram pela metade. Omitiu que os postos de cobrança foram dobrados e ao cabo cita sua origem humilde, estudante de escola pública etc. etc. Só falta chorar. A rapaziada não se dá ao respeito. Quem sabe haja quem se incomoda ao perceber que nos enxergam como malta de idiotas. Esta visão da plateia é própria, aliás, dos jornalistas nativos e seus patrões. Será que não usam na medição o metro recomendável para medir a si mesmos?Abaixo os vídeos com as extrevistas dos três candidatos conforme a ordem "erigida" pelo Jornal Nacional da Rede Globo. As entrevistas foram realizadas do dia 09 a0 dia 11 de agosto de 2010:
Segunda-feira, dia 9 de agosto de 2010 - Dilma Rousseff (PT):
Terça-feira, dia 10 de agosto de 2010 - Marina Silva (PV):
Quarta-feira, dia 11 de agosto de 2010 - José Serra (PSDB), candidato global. Quem teve paciência de ver aos dois vídeos acima, observe como a tônica da entrevista com o candidato tucano é diferente:
terça-feira, junho 15, 2010
A face oculta do futebol
A TV Brasil e a TV Câmara mostraram alguns aspectos da face do futebol que é ocultada pela TV comercial. Sócrates, o capitão da seleção brasileira de 1982 e o jornalista José Cruz, levantaram algumas pontas do véu que cobre, não apenas o futebol, mas grande parte de toda a estrutura esportiva existente no Brasil.Está no ar o maior espetáculo de televisão. Em audiência nada bate a Copa do Mundo. Na Alemanha, em 2006, os 64 jogos foram vistos por 26 bilhões de telespectadores, número que neste ano pode alcançar os 30 bilhões.
São 60 bilhões de olhos vendidos pela FIFA para as emissoras de TV comercializarem com os seus anunciantes. As cifras envolvidas em dinheiro são estratosféricas. Ganham a Federação internacional, as empresas de televisão e os anunciantes reforçando marcas e alavancando a venda de produtos e serviços.
Um ciclo perfeito, onde nada pode ser criticado. Normalmente, a TV no Brasil não critica os jogos transmitidos já que, dentro da lógica empresarial, seria um contrasenso mostrar defeitos do próprio produto. E o futebol, para a TV, nada mais é do que um dos seus produtos, assim como as novelas e os programas de auditório.
Dessa forma se todos ganham e não há criticas, o grande espetáculo do futebol, em sua dimensão máxima que é a Copa do Mundo, chegaria as raias da perfeição. Pelo menos é que mostra a TV.
Mas, e ainda bem que há um mas nessa história, a TV Brasil e a TV Câmara mostraram no programa VerTV alguns aspectos da face do futebol que é ocultada pela TV comercial. Sócrates, o capitão da seleção brasileira de 1982 e o jornalista José Cruz, levantaram algumas pontas do véu que cobre, não apenas o futebol, mas grande parte de toda a estrutura esportiva existente no Brasil.
Para começar não é verdade que todos ganham. Há quem perca, e são muitos. Por exemplo, os jovens que por força da TV associam desde cedo o sucesso esportivo com o consumo de cerveja. Ou desprezam o estudo, uma vez que seus ídolos não precisaram dele para alcançar a glória e a fama.
No programa, Sócrates foi enfático: “A TV vende o sonho do consumo. Vende atitude, aparência, comportamento, moda. Mas, é incapaz de vender educação. E vender esporte sem educação é um crime. Mostram ídolos do futebol que não estudam e são um péssimo exemplo para a sociedade. E não por culpa deles apenas. O sistema estimula que saiam da escola”.
Afirmação que desperta uma curiosidade. A mídia revela diariamente minúcias da vida dos jogadores. Onde vivem, que carros possuem, como são suas casas e suas famílias. Só não dizem até que ano estudaram, em quais escolas, como eram enquanto alunos. Por que será? Sócrates responde: “a ignorância dos jogadores é estimulada pelo sistema. A ele não interessam profissionais com possibilidade de critica”.
O jornalista José Cruz mostra outras perdas. De toda a sociedade. Por exemplo, com a irresponsabilidade dos dirigentes esportivos nos clubes, federações e confederações. Embora privadas, essas entidades recebem dinheiro público e, por isso, deveriam prestar contas publicamente. “As loterias esportivas repassam dinheiro para o futebol. A Timemania está hoje tapando o buraco das dívidas fiscais dos clubes produzidas por dirigentes irresponsáveis”.
E mostra outras perdas sociais. A do dinheiro público desperdiçado, por exemplo, nos Jogos Panamericanos do Rio, em 2007. Dá dois exemplos retirados do relatório do Tribunal de Contas da União: “a compra de 5 mil tochas para serem acesas no evento, das quais só chegaram 500 e, ainda assim apenas 380 foram aproveitadas e a descoberta, depois dos Jogos, pelos auditores do TCU, de 880 caixas contendo aparelhos de ar condicionado que sequer foram abertas. E tudo isso segue impune”.
Tanto Sócrates, como José Cruz, alertam para o fato da seleção nacional e dos seus jogos serem eventos públicos que, no entanto, estão totalmente privatizados. “A seleção brasileira – que usa as cores, o hino e a bandeira do nosso pais – deveria ter parte de suas receitas revertidas para o futebol brasileiro, muito pobre em várias regiões do Brasil”, diz o jornalista.
Sócrates lamenta o volume de recursos jogados fora pela falta de uma política esportiva de Estado. Para ele “o esporte deveria ser um braço da saúde e da educação. Se não ele fica solto” e aponta a deficiência dos cursos de Educação Física: “não há um que trate o esporte com viés comunitário. É tudo individualista”.
E há mais. Quem quiser saber basta entrar no site da TV Câmara, clicar em “conhecer os programas” e depois no VerTV. Lá revela-se um pouco do que a TV comercial teima em ocultar.
Carta Maior - terça-Feira, 15 de Junho de 2010
Por Laurindo Lalo Leal Filho
Laurindo Lalo Leal Filho, sociólogo e jornalista, é professor de Jornalismo da ECA-USP. É autor, entre outros, de “A TV sob controle – A resposta da sociedade ao poder da televisão” (Summus Editorial).
Extraído DAQUI
sexta-feira, junho 11, 2010
Qual África a televisão mostrará
Hoje pela manhã ao assistir ao noticiário, ouvi uma frase de uma apresentadora global que me chamou atenção pela carga ideológica. Referindo-se aos eventos festivos dos sul-africanos para a abertura da Copa do Mundo, que tem início no dia de hoje, ela afirmou: “É uma celebração semelhante ao nosso carnaval”. Essa verbalização da jornalista, fez-me lembrar de uma sentença de Roberto DaMata escrita no seu livro Carnavais, Malandros e Heróis – para uma sociologia do dilema brasileiro[1]: “O carnaval está, portanto, junto daquelas instituições perpétuas que nos permitem sentir (mais do que abstratamente conceber) nossa própria continuidade como grupo. Tal como ocorre com um jogo da seleção brasileira, em que vemos, sentimos, gritamos e falamos com o Brasil no imenso ardil reificador que é jogo de futebol” [grifo do autor]. Segundo DaMata esse fato se constitui num “ritual”, sendo que os rituais nos “permite tomar consciência de certas cristalizações sociais mais profundas que a própria sociedade deseja situar como parte dos seus ideais “eternos””.Pensando nesse fato ouço com certa desconfiança o discurso midiático, sempre disposto a enredar os menos atentos. Em tempos de Copa do Mundo há uma abertura para a irreflexão e para a tolerância exacerbada. O Brasil veste-se de um nacionalismo piegas, manco e anêmico. A Copa gera um senso de pertencimento nacional. É um fenômeno unicizante que somente conseguimos constatar de quatro em quatro anos. Nem mesmo em tempos de eleições, criam-se tantas expectativas. Q
uando presenciamos um evento que não gera privilégios políticos ou educativos ganhar tamanho alarde, é preciso que desconfiemos. Quem lucrará com a Copa do Mundo? As grandes empresas de comunicação, que aumentarão o preço de suas imagens; as multinacionais que patrocinam os times de futebol e por aí se vai a lógica do lucro.A África é um dos continentes mais esquecidos do mundo. É o continente no qual os seus países conseguiram suas “independências” político-administrativas no século passado. Ou seja, enquanto a maioria dos países americanos conseguiu emancipação do domínio europeu nos séculos XVII e XVIII, os países africanos em pleno século XX, ainda estavam submetidos às metrópoles espoliadoras, Europa e aos Estados Unidos.
O continente africano sempre serviu de nicho para exploração. Durante mais de 300 anos, os negros africanos eram trazidos para o Novo Mundo para trabalharem como bichos e morrerem aos trinta anos – quando isso se dava com exceção. Ao colonizarem o continente, no qual a ciência acredita que é de onde se brotou a vida, os europeus e americanos, não respeitaram os marcos milenares estabelecidos pelas tribos que já habitavam a terra. O interesse era simplesmente fatiar o imenso continente de, aproximadamente, 44 milhões de metros quadros (equivalente a seis vezes o tamanho do Brasil), entre os vários países para explorar. Com isso não respeitou-se as demarcações já estabelecidas pelos vários povos e etnias. De modo que hoje, no continente africano, há um número horripilante de conflitos, de guerras sangrentas, doenças, infanticídio, exploração infame, fome generalizante e miséria em todos os níveis. Estima-se que aproximadamente vinte e cinco por cento dos habitantes do continente sejam portadores do vírus HIV (AIDS).
A mídia não está preocupada em mostrar as mazelas do continente. Deseja acima de tudo vender imagens, pois é isso que favorece o lucro. Quando alguém vende algo se
preocupa em passar a melhor das imagens. Um comerciante ao vender uma mercadoria não coloca à mostra aquilo que está quebrado ou transmitindo um aspecto desagradável. Pelo contrário, lava, escova, lustra, para que chame a atenção. Assim se dá com as imagens que são vendidas. Como pude observar numa propaganda da Coca-Cola. Mostrava uma criança pobre, descalça, jogando futebol. Ao fundo aparecia uma montanha de lixo ao mesmo tempo em que essa criança fazia acrobacia e bebia Coca-Cola. A cena endeusava, deificava, transformava a pobreza em algo sofisticado e tolerado. Gerava um encantamento, uma suavização para que os olhos vissem e ficassem fascinados com aquela cena de um menino pobre que se refestelava jogando futebol e bebendo um líquido negro capaz de trascendentizá-lo. Tirá-lo da miséria. Abafar o porquê de está ali no meio do lixo. Essa é a intenção. Misturar as misérias africanas ao futebol e fazer com que aquele que assiste às imagens maquiadas esqueça as penúrias do continente.Os privilégios serão mínimos para acabar com as desigualdades do continente. Os verdadeiros “vencedores” serão as grandes empresas que vendem imagens e artigos esportivos. A liberdade existente na África, principalmente, propalada de que é real na África Sul, é liberdade unicamente para consumir. A televisão mostrará a África das propagandas de marketing e esquecerá a outra que agoniza e chora.
Por Carlos Antônio M. Albuquerque
Data: sexta-feira, 11 de junho de 2010, 10:48:27 AM
[1] DAMATA, Roberto. Carnavais, Malandros e Heróis – para uma sociologia do dilema brasileiro. Rio de Janeiro: Editora Rocco. 1997. 350p.
quarta-feira, maio 19, 2010
Olho quem me olha
Imagine uma prisão redonda como o estádio do Maracanã. Há vários andares de celas. Nenhuma possui porta, de modo que um único carcereiro, situado na guarita no centro da construção circular, controla sozinho o movimento de centenas de prisioneiros. Este o modelo panótico de Bentham, descrito por Michel Foucault em Vigiar e Punir. Muitas penitenciárias o adotaram. Tive oportunidade de visitar uma delas, na Ilha da Juventude, em Cuba, construída antes de Revolução e, hoje, desativada.Vivemos agora numa sociedade panótica. Em qualquer lugar que nos encontramos, um olho nos vê. Somos vistos; quase nunca vemos quem nos vê. Não me refiro apenas às câmeras discretas ou ocultas em ruas e prédios, elevadores e lojas. O mais poderoso olho é a TV, exatamente esse aparelho que julgamos decidir quando e o que veremos. Ligamos a TV motivados por seu olho invisível; ele suscita em nós essa atitude. Antes de a emissora colocar no ar uma peça publicitária ou um programa, vários testes são realizados, de modo a assegurar ao anunciante ou patrocinador o êxito de audiência. Conhece-se o olhar alheio através de exaustivas pesquisas de opinião. Isso influi inclusive na (des)qualidade da arte. Agora, o artista não cria a partir de sua subjetividade e imaginação. Antes, procura satisfazer o olhar do público. Ele se olha pelo olho do consumidor de sua obra. Sua fonte de inspiração não reside na ousadia de romper e ultrapassar a linguagem estética que o precede, de expressar os anjos e demônios que lhe povoam a alma, e sim na vontade de agradar o público, criar um mercado de consumo para a sua obra, ainda que à custa de banalizar o próprio talento. O olho promissor do mercado configura seu olhar no ato criativo.
Todo esse processo foi expressivamente tratado em obras como 1984, de George Orwell (1949), e Fahrenheit 451, de Ray Bradbury (1953), filmado em 1966 por François Truffaut. O fenômeno atual mais expressivo é o Big Brother, que promove arrebanhamento dos telespectadores, faz todos se sentirem irmãos, igualizados pela imbecilidade voyeurista de observar o ritual canibalizador que ocorre no interior da casa. Induzidos por esse sentimento egogregário, perdemos a singularidade. O olho do Grande Irmão nos olha peremptoriamente e nos exige um comportamento de rebanho humano. Outrora havia uma economia de bens materiais institucionalmente separada de uma economia de bens espirituais. Desses últimos cuidavam padres e pastores, intelectuais e professores, artistas e escritores.
Agora, a indústria de entretenimento se encarrega da produção de bens espirituais, integrando-nos na família televisual. O avatar nos chega pela janela eletrônica. Os novos bens espirituais já não imprimem sentido altruísta às nossas vidas, e sim motivações egóticas de acesso ao mercado de produtos supérfluos, fama, beleza e riqueza. Somos impelidos a consumir, não a refletir. Sempre mais acríticos, nos tornamos ventríloquos manipulados pela ideologia midiática que repudia a solidariedade e exalta a competitividade. Em A doce vida, filme de Fellini, a última cena mostra o fim da noite boêmia de gente da alta burguesia. Caminham todos, tropegamente, por um bosque em direção ao mar. Ao chegar à praia, a ébria alegria se choca com o imenso olho inerte de um monstro marinho (uma imensa água-viva) que os pescadores arrastam rumo à areia. O olho olha aquela gente e gera angústia e medo, como se a despisse de sua falsa alegria e a interpelasse no fundo da alma.
É este olho crítico que tanto tememos. E quando ele emerge, os oráculos do sistema neoliberal tratam de tentar cegá-lo e afundá-lo. Ele ameaça porque funciona como espelho no qual o nosso olhar reverbera e olha a mediocridade na qual estamos atolados, movidos como rebanho pelo Grande Imã - o entretenimento televisivo centrado do estímulo ao consumismo.
Por Frei Betto
Extraído do sítio ADITAL.
* A imagem foi extraída do filme 1984, baseado no livro de George Orwell
quarta-feira, abril 21, 2010
Brasília 50 anos
Nestas duas últimas semanas, muitas foram as reportagens mostradas pela televisão sobre os 50 anos de Brasília. Em todas essas reportagens, destacou-se um forte senso civista, sacralizante. As reportagens mostravam a Brasília dos grandes monumentos; a cidade que parece ter surgido como um evento ex nihilo; a cidade que se destaca pelas suas largas avenidas; a cidade de construções com curvas sinuosas, sensuais; a cidade que se destaca pelo verde que se alastra nas quadras, criando um misto de prédios arquitetados entre as alamedas; de árvores frutíferas – jaqueiras, mangueiras, amoreiras, abacateiros e etc. A Brasília do poder – da Esplanada dos Ministérios. Da Praça dos Três Poderes. A Brasília imponente, vestida pela glória. Ou seja, pintava-se a Brasília dos cartões postais.
E, de fato, Brasília é uma cidade sui generis. Sua estrutura física diferencia-se das demais cidades brasileiras. Eu, por exemplo, quando vou à Goiânia, cidade situada a pouco mais de 200 quilômetros da Capital Federal, penso está em outro mundo. As ruas estreitas, a sensação encurralamento, de asfixia urbana é incomparável. O trânsito amalucado, tenso, de desrespeito e imprudência parece ser uma prática constante. A estrutura, o modelo arquitetônico de Brasília, não permite que se experiencie tais aspectos.
O que a televisão esqueceu de mostra
r foi a Brasília dos contrastes. Das invasões que grassam por todos os lados. Da esperteza dos especuladores de terra; a Brasília, sonho das grandes construtoras, que fazem “encarecer” o custo de vida, dificultando a existência do trabalhador de baixa renda. A Brasília dos caciques políticos. Dos coronéis que ainda praticam o voto de cabresto em pleno século XXI. Que se utilizam da máquina pública para se perpetuarem no poder às custas da ignorância do povo. A Brasília dos escândalos, da ineficiência. A Brasília de monumentos frios. A Brasília dos desencontros. A cidade que parece ter sido feita para “afugentar” qualquer possibilidade de arregimentação social.O simbolismo do que é Brasília acontece num entroncamento das Asas Sul e Norte – a Rodoviária. Por ali passam milhares de pessoas todos os dias, vindas das mais diversas regiões do Distrito Federal e das cidades do entorno, aqueles que formam um cinturão de necessidades ao redor do “sonho chamado Brasília”. É possível distinguir todo Brasil na Rodoviária do Plano Piloto. Afinal, ali estão sulistas, nordestinos, pessoas vindas da Região Sudeste entre outras cidades brasileiras. Todos “se encontram ali”, mas ninguém se conhece. Estão todos atomizados. É a Brasília fria e impessoal. Que foi feita para que os seus habitantes não se encontrem. O homogenismo
de Brasília e superficial e heterodoxo.O sonho chamado Brasília é patente, existente, para os moradores do Plano Piloto ou dos Lagos Sul e Norte; ou do Setor Sudoeste, Park Way ou qualquer condomínio, a medievalização da modernidade – a Brasília dos burgueses. Para os moradores das cidades-satélites, principalmente as surgidas da “grilagem” de terras ou da imposição de “alastramento” forçado, Brasília não está vestida de sonho, de fantasia. Não se constitui numa ilha, num paraíso em meio ao cerrado. A Brasília dessa gente está vestida por um realismo cruel, o realismo do dia a dia – a Brasília do proletariado. Do ônibus lotado. Do morar na periferia – cidades dormitórios, que revela a sua face na exclusão social – criminalidade alta, juventude sem perspectivas, do uso indiscriminado de drogas (álcool e crack), pelos jovens.
As melhores palavras que encontrei para definir o que é Brasília estão escritas no livro Tudo o que é sólido desmancha no ar[1], do escritor americano Marshall Berman:
Tive a oportunidade de vivenciar e mesmo participar de um choque muito int
enso entre modernismos quando estive no Brasil em agosto de 1987 para participar de um debate sobre o presente livro. Minha primeira escala foi Brasília, a capital criada por decreto, ex nihilo, pelo presidente Juscelino Kubitschek, no final dos anos de 1950 e início dos anos 1960, exatamente no centro geográfico do país. A cidade foi planejada e projetada por Lúcio Costa e Oscar Niemeyer, discípulos esquerdistas de Le Corbusie[2]r. Vista do ar, Brasília parecia dinâmica e fascinante de fato, a cidade foi feita de modo a assemelhar-se a um avião a jato tal como aquele do qual eu (e quase todas as outras pessoas que lá vão) a vemos pela primeira vez. Vista do nível do chão, porém, do lugar onde as pessoas moram e trabalham, é uma das cidades mais inóspitas do mundo. Não caberia aqui uma descrição detalhada do projeto da cidade, mas sensação geral que se tem – confirmada por todos os brasileiros que conheci – é a de enormes espaços vazios em que o indivíduo se sente perdido, tão sozinho quanto um homem na Lua. Há uma ausência deliberada de espaços públicos em que as pessoas possam se reunir para conversar, ou simplesmente olhar uma para outra e passar o tempo. A grade tradição do urbanismo latino, em que a vida urbana se organiza em torno de uma grande praça, é rejeitada de modo explícito.
O projeto de Brasília talvez fiz
esse sentido para uma ditadura militar, comandada por generais que quisesse manter a população a certa distância, isolada e controlada. Como capital de uma democracia, porém, é um escândalo. Para que o Brasil possa continuar democrático, declarei em debates públicos e aos meios de comunicação, ele precisa de espaços públicos democráticos aonde pessoas vindas dos quatro cantos do país possam convergir e reunir-se livremente, conversar uma com as outras e dirigir-se a seus governantes – porque numa democracia, afinal de contas – o governo pertence às pessoas – para discutir suas necessidades e desejos, e para manifestar sua vontade.
Depois de algum tempo, Niemeyer respondeu. Após uma série de comentários pouco lisonjeiros a meu respeito, ele disse algo mais interessante: Brasília simbolizava as aspirações e esperanças do povo brasileiro, e qualquer ataque ao projeto da cidade era um ataque ao próprio povo. Um dos seus seguidores acrescentou que era sinal de meu vazio interior ou pretender ser modernista e ao mesmo tempo tacar uma obra que figura entre as maiores encarnações do mod
ernismo.
Tudo isso me fez pensar. Num ponto Niemeyer estava certo: quando foi concebida e planejada, nos anos de 1950 e início dos anos de 1960, Brasília de fato representava as esperanças do povo brasileiro, em particular seu desejo de modernidade. O grande hiato entre essas esperanças e sua realização parece dar razão ao homem subterrâneo: para homens modernos, pode ser uma aventura criativa construir um palácio, e no entanto ter de morar nele pode virar um pesadelo.
Esse problema é particularmente crucial para um modernismo que impede ou hostiliza a mudança – melhor dizendo, um modernismo que busca uma única grande mudança, e depois não aceita mais nenhuma. Niemeyer e Costa, tal como Le Corbusier, acreditavam que o arquiteto moderno deve usar a tecnologia para concretizar certas formas ideais , clássicas, eternas. Se isso pudesse ser feito na escala de uma cidade inteira, ela seria perfeita e completa; suas fronteiras poderiam se estender, mas ela jamais deveria se desenvolver a partir de dentro. Tal como o Palácio de Cristal imaginado por Dostoievski, a Brasília de Costa e Niemeyer não deixava a seus cidadãos – e aos outros brasileiros – “nada mais a fazer”.
Em 1964, pouco depois da inauguração da nova capital, a democracia brasileira foi derrubada, sendo instaurada uma
ditadura militar. Durante o período de governo militar (ao qual Niemeyer se opôs), a população teve de enfrentar crimes muito mais sérios do que as falhas no projeto da capital. Mas quando os brasileiros reconquistaram a liberdade, no final dos anos de 1970 e início dos anos de 1980,, era inevitável que muitos deles manifestassem seu descontentamento com a cidade, que parecia ter sido projetada com o fim de mantê-los calados. Niemeyer deveria ter percebido que uma obra modernista que negava alguma das mais básicas prerrogativas modernas dos cidadãos - falar, reunir-se, discutir, manifestar suas necessidades – fatalmente conquistaria muitos inimigos. Em meus pronunciamentos no Rio, São Paulo e Recife, terminei atuando como porta-voz de uma indignação generalizada a respeito de uma cidade que, muitos brasileiros me disseram, não tinha lugar para eles[3].
Por Carlos Antônio M. Albuquerque
Data: 21 de abril de 2010, 12:40
[1] BERMAN, Marshall. Tudo o que é sólido desmancha no ar. São Paulo: Companhia de Bolso. 2007. 463p.
[2] Arquiteto, urbanista e pintor francês de origem suíça, nascido em 1887 e morto em 1965. A sua influência estendeu-se principalmente ao urbanismo. Foi um dos primeiros a compreender as transformações que o automóvel exigiria no planejamento urbano. A cidade do futuro, na sua perspectiva, deveria consistir em grandes blocos de apartamentos assentes em pilotis, deixando o terreno fluir debaixo da construção, o que formaria algo semelhante a parques de estacionamento. Grande parte das teorias arquitectónicas de Le Corbusier foram adoptadas pelos construtores de apartamentos nos Estados Unidos da América. Le Corbusier defendia, jocosamente, que, "por lei, todos os edifícios deviam ser brancos", criticando qualquer esforço artificial de ornamentação. As estruturas por ele idealizadas, de uma simplicidade e austeridade espartanas, nas cidades, foram largamente criticadas por serem monótonas e desagradáveis para os peões. A cidade de Brasília foi concebida segundo as suas teorias. Depois da sua morte, os seus detractores têm aumentado o tom das críticas, apelidando-o de inimigo das cidades. É, no entanto, absolutamente, um nome de referência na história da arquitectura contemporânea. Disponível em http://pt.wikipedia.org/wiki/Le_Corbusier. Acessado em 21 de abril de 2010.
[3] BERMAN. Op. cit. p. 12-14

