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domingo, agosto 09, 2026

Reflexão sobre o tempo

Fotografia de 2004. 2ª casa onde morei. 


"Caminhar é ir ao oeste".
Henry David Thoreau

Há 47 anos, às 11h15, segundo relatos maternos, eu chorava pela primeira vez. Após ter atravessado uma madrugada transida de dores, minha mãe, finalmente, serenou - eu aportava no mundo. A casinhola onde nasci era rústica. Hoje, já não existe. Ficou apenas o espaço ontológico em minha lembrança. As paredes de reboco de barro cobriam o madeiramento conseguido nas matas adjacentes. A parteira - Dona Bil - segurou-me com mãos prestimosas e experientes.

Há 47 anos, a realidade material surgiu para mim com a sua luz; o ar invadiu-me os pulmões. Fui banhado pelos eventos da matéria. Hoje, encontro-me, praticamente, na metade da travessia. Não há tempo para distrações. Quanto mais caminho, mais me sinto compelido a me entender a partir daquilo que fui ou que deixei de ser, sendo. 

Há 47 anos, experimento o sabor e as implicações daqueles versos céticos de Fernando Pessoa: "Não sou nada / Nunca serei nada/ Não posso querer ser nada / À parte disso, tenho em mim todos os / sonhos do mundo". 

quarta-feira, março 05, 2025

De que são feitos os dias? | Cecília Meireles

De que são feitos os dias?
– De pequenos desejos,
vagarosas saudades,
silenciosas lembranças.

Entre mágoas sombrias,
momentâneos lampejos:
vagas felicidades,
inatuais esperanças.

De loucuras, de crimes,
de pecados, de glórias
– do medo que encadeia
todas essas mudanças.

Dentro deles vivemos,
dentro deles choramos,
em duros desenlaces
e em sinistras alianças…

 

Acredito que este seja um dos poemas que mais concentram o mistério de que é feita a vida. Cecília consegue criar paralelos, oscilações, fluxos antitéticos, que englobam o conteúdo da existência. Camus diz em "O mito de Sísifo" que só 'vive quem toma consciência do absurdo'. Sim. Vive quem consegue lidar com o absurdo das perdas proporcionadas pelo tempo; que consegue administrar as "vagarosas saudades" e as "silenciosas lembranças"; que se escancara - incompreensível - diante de si.

A existência só se torna plena para quem reconhece ser um vulcão gerador de "mágoas sombrias", mas que é capaz de "pequenos lampejos", de "vagas felicidades" e de "inatuais esperanças". Somos feitos de contradições, de movimentos inconscientes, gestados da cumplicidade daquilo que, muitas vezes, não controlamos e não sabemos da sua textura. A vida absurda é feita "de loucuras", "de crimes", "de pecados", "de glórias", de fracassos, de avanços... e retrocessos. Somos feitos "de medo". Misturamos muitas substâncias em nosso ser. Distraímo-nos a maior parte do tempo. Dentro dessa realidade "vivemos", avançamos, "choramos" com as resoluções desencontradas e, com isso, forjamos "sinistras alianças".



quarta-feira, novembro 27, 2024

A história da confusão das línguas em Gênesis 11

 

Uma representação da torre. 

                No livro bíblico de Gênesis, há muitas passagens em que se percebe a existência de etiologias. Entendem-se as etiologias como mitos de fundação. Esses mitos existem com o intuito de justificar a existência do mundo ou de uma estrutura social. Por exemplo, os primeiros capítulos do Gênesis são manifestas etiologias. Observa-se, por exemplo, a descrição que o autor – ou que os autores -  dessa porção do texto realiza(m) ao descrever(em) a forma como supostamente Javé teria criado o mundo numa operação ex nihilo.  A ideia de mito fundador pode ser observada na forma como ocorre a suposta criação do mundo – os mares, as estrelas, o céu, a terra, os animais, etc. O movimento de como as ações são narradas é uma forma de explicação que justifica a realidade e tudo o que existe.

                No capítulo 11.1-9, do mesmo livro de Gênesis, há a descrição do conhecido episódio da Torre de Babel. Ao longo do tempo, já ocorreram inúmeras tentativas de explicação dessa passagem. Nessa descrição, é possível observar outra etiologia que procura explicar a existência das variedades linguísticas existentes no mundo. Certamente, o autor dessa parte do Pentateuco, ao olhar para a polifonia de vozes existentes ao redor de Israel, deve ter se baseado em alguma lenda para produzir o texto.

                O texto afirma que, após terem sobrevivido ao Dilúvio (outra etiologia), alguns homens marcharam para o leste e se estabeleceram na terra de Senaar (v.2)[1]. Em seguida, puseram-se a construir uma “cidade e uma torre cujo ápice penetre os céus” (v.3). O texto, logo em seguida, afirma o seguinte: “Ora, Iahweh desceu para ver a cidade e a torre que os homens tinham construído”. (v.5). O uso da partícula expletiva de realce “ora”, serve para introduzir a figura da divindade judaica na história. Funciona do ponto de vista retórico como a segunda parte do raciocínio que justifica o motivo pelo qual algo passou a ser de determinada forma. Iahweh “desce” de sua morada para realizar duas ações: (1) ver a cidade; e (2) a torre que os homens tinham construído. É importante dizer que a cidade e a torre já estavam construídas, mas, em algum momento, teria reprovado os eventos que ocorriam naquela inventiva comunidade. Seu olhar moralizante condena a ousadia dos homens. Ora, por que os homens não poderiam construir a cidade e a erguer a torre?

O autor dessa porção do texto bíblico aproxima Iahweh das divindades dos povos vizinhos aos israelitas. A ação de “descer” aproxima a divindade judaica aos deuses que habitavam o Olimpo, por exemplo. Zeus de tempos em tempos descia da sua morada para interferir ou mudar determinado aspecto da realidade. Segundo alguns estudiosos, essa é uma evidência da fonte javista[2]. Os registros da fonte javista ou fonte J, sugerem Iahweh como uma divindade antropomórfica. Por exemplo, em Gn 3.8 há a afirmação de que “Iahweh Deus (...) passeava no jardim à brisa do dia”, uma evidente antropormorfização da divindade.  Ao longo do Velho Testamento, principalmente nos livros proféticos, a figura de Iahweh vai ganhando aspectos transcendentes e perdendo a característica antropomórfica.

No versículo seguinte, após ter constatado os empreendimentos humanos, Iahweh afirma que nada seria “irrealizável” para os homens. Percebe uma potência incontrolável na humanidade. Não gosta do que vê. A Nova Tradução Internacional (NVI) está assim traduzida na parte B do versículo 6: “Em breve nada poderá impedir o que planejam fazer”.  Ou seja, depreende-se que nem mesmo Javé seria capaz de controlar essa expansão de poder.

A partir dessa constatação, a divindade suprema do povo judeu decidiu “confundir a linguagem” a fim de que aqueles que empreendiam o projeto desistissem da ação. Curiosamente, no versículo 7 – tanto na NVI quanto na Bíblia de Jerusalém (duas excelentes traduções) – os verbos que exprimem a ação de Javé  estão no plural, deixando implícito que a ação que baratinou a construção foi feita em concílio, ou seja, com mais de uma divindade[3]. Esse é um fenômeno que se repete em passagens do Gênesis. É conhecida a passagem dos capítulos iniciais do livro, em que pode ser lido: “Façamos o homem à nossa imagem e semelhança”. Pode ser percebido ainda que a Bíblia de Jerusalém mostra que Iahweh – no versículo 7 - utiliza praticamente os mesmos verbos usados pelos homens no versículo[4]. Há uma ação contrária àquela realizada pelos homens. Enquanto os homens procuram construir, Iahweh procura des-construir, colocar freios à ação humana.

Neste quesito, aponta-se outra característica da fonte javista, ou seja, a procura de distinção do homem e da divindade. A fonte J procura impor limite entre a falibilidade humana e a grandeza de Iahweh, que deve assinalar sua posição como divindade suprema acima do mundo. Ele governa e, se necessário, andará no meio dos homens para mostrar que eles não prevalecem.

Iahweh censura o empreendimento realizado pelos homens. A multiplicação de línguas teria se constituído em um fator de impedimento para que o projeto de expansão da “cidade” e da “torre” continuasse o seu curso. Javé põe freios à ousadia humana. Sua ação é deliberadamente melindrosa; sua interferência, ressentida.  Vale mencionar que os homens que decidiram construir a cidade e a torre faziam parte da geração pós-diluviana. Há ainda uma desconfiança de Iahweh nesses homens. Certamente, havia o entendimento de que a maldade deles era um fator que gerava insatisfação em Iahweh. Reside neste fato outra característica da fonte javista – ou seja, a descrição do crescimento da maldade entre os homens. Iahweh teria feito os homens de forma perfeita, mas eles foram alcançando escalas de ensandecimento cada vez mais acentuadas.

Representação de um zigurate. 

Nos versículos finais que retratam o mito, Iahweh “dispersa” aqueles obstinados homens “por toda a face da terra”. Aquele incidente ficou conhecido como “Babel”. Os judeus se reportavam a Babilônia como Babel, cujo significado é “confusão” ou “mistura”. A escrita dessa etiologia, certamente, procurava, a partir de uma lenda existente, fazer um revisionismo histórico, criando um mito fundador. Alguns estudiosos, indicam que a fonte javista foi redigida nos séculos VI e V a.C.

É importante dizer ainda que essa revisão histórica procurava obumbrar a grandiosidade da civilização apontada no texto. Como indicam as pistas do texto, é possível que os substratos da referência histórica remetam à Babilônia. Afirmar a supremacia de Iahweh sobre essa “torre” e essa “cidade” sugere que há uma animosidade contra o crescimento e a pujança daquela civilização. Alguns intérpretes apontam que, quando o texto fala de “torre”, talvez, estejam a sugerir os famosos zigurates. Essas construções eram comuns entre os assírios, babilônicos e sumérios. Elas possuíam a forma de uma pirâmide terraplanada e ostentavam uma função religiosa. Aos serem construídos, buscava-se colocar os homens mais próximos das divindades. Além da função religiosa, serviam de biblioteca, espaço de observação das estrelas e local para guardar grãos, o que indica uma importante função para aquelas civilizações. O registro dos primeiros zigurates remontam dois milênios antes de Cristo.

Em suma, ao escreverem o mito fundador da conhecida história da confusão das línguas, buscava-se produzir uma reinterpretação da história: (1) para rebaixar a grandiosidade da civilização babilônica; (2) para delimitar a soberania de Iahweh como divindade suprema; (3) para desacreditar a estrutura religiosa dos povos vizinhos; (4) para criar uma narrativa com objetivos doutrinários, com finalidade de formação identitária. Ou seja, e, a partir disso, neutralizar o reconhecimento da grandiosidade das outras nações vizinhas a Israel.

 

[1] Realizei a minha leitura na Bíblia de Jerusalém, por isso emprego o termo “Iahweh” conforme aprece na tradução. 

[2] A teoria das fontes ou críticas das fontes é uma hipótese desenvolvida por Julius Welhausen. Segundo esse estudioso alemão, o Pentateuco é o resultado da estruturação de quatro fontes principais: a eloísta, a javista, a sacerdotal e deuteronomista.

[3] (1) A Bíblia de Jesuralém diz: “Vinde! Desçamos! Confundamos a sua linguagem para que não mais se entendam uns aos outros”.  (2) A NVI afirma: “Venham, desçamos e confundamos a língua que falam, para que não entendam mais uns aos outros".

[4] No versículo 4 – os homens afirmam: “Vinde! Construamos uma cidade e uma torre cujo ápice penetre os céus!” No versículo 7 – Iahweh diz: “Vinde! Desçamos! Confundamos a sua linguagem para que não mais se entendam”.

quarta-feira, novembro 20, 2024

Uma crônica de Machado de Assis que cai muito bem neste dia

O texto a seguir é parte de uma crônica de Machado de Assis, publicada, em 19 de maio de 1888. A Abolição se dera 6 dias antes daquele mesmo mês. No texto, Machado desfere golpes de fina ironia. O texto é repleto de camadas que escancara como se estrutura a sociabilidade brasileira. Reflete sobre a sociedade de relações verticalizadas e sem a devida consideração humana a respeito de quem é o outro. Serve como alegoria para explicar como "os de cima" - para usar uma expressão de Florestan Fernandes - tratam aqueles que estão embaixo. Apesar de haver uma consolidação de um "Dia da Consciência Negra", ainda há muito para se caminhar, muito para se refletir, muito a se fazer.

 Segue o texto:


"Abolição

 
[...]
No dia seguinte, chamei o Pancrácio e disse-lhe com rara franqueza:
– Tu és livre, podes ir para onde quiseres. Aqui tens casa amiga, já conhecida e tens mais um ordenado, um ordenado que…
– Oh! meu senhô! fico.
– …Um ordenado pequeno, mas que há de crescer. Tudo cresce neste mundo; tu cresceste imensamente. Quando nasceste, eras um pirralho dêste tamanho; hoje estás mais alto que eu. Deixa ver; olha, és mais alto quatro dedos…
– Artura não qué dizê nada, não, senhô…
– Pequeno ordenado, repito, uns seis mil-réis; mas é de grão em grão que a galinha enche o seu papo. Tu vales muito mais que uma galinha.
– Justamente. Pois seis mil-réis. No fim de um ano, se andares bem, conta com oito. Oito ou sete.
Pancrácio aceitou tudo; aceitou até um peteleco que lhe dei no dia seguinte, por me não escovar bem as botas; efeitos da liberdade. Mas eu expliquei-lhe que o peteleco, sendo um impulso natural, não podia anular o direito civil adquirido por um título que lhe dei. Êle continuava livre, eu de mau humor; eram dois estados naturais, quase divinos.
Tudo compreendeu o meu bom Pancrácio; daí pra cá, tenho-lhe despedido alguns pontapés, um ou outro puxão de orelhas, e chamo-lhe bêsta quando lhe não chamo filho do diabo; cousas tôdas que êle recebe humildemente, e (Deus me perdoe!) creio que até alegre.
O meu plano está feito; quero ser deputado, e, na circular que mandarei aos meus eleitores, direi que, antes, muito antes da abolição legal, já eu, em casa, na modéstia da família, libertava um escravo, ato que comoveu a tôda a gente que dêle teve notícia [...]."

segunda-feira, abril 01, 2024

Literatura - o que é isso?

 Estou fazendo uma pós-graduação em Literatura, Gramática e Texto. Enquanto lia o material, foi-me sugerido assistir a esse vídeo. Decidi compartilhá-lo. Pareceu-me muito bom! O segundo vídeo traz o maravilhoso Antonio Cândido.

segunda-feira, abril 24, 2023

A história, a mitologia judaico-cristã e as mulheres

 

Ao longo da história, observa-se um movimento que sempre procurou tornar as mulheres seres sem vontade. Em quase quatro milênios de história registrada, é proeminente a hegemonia do protagonismo do discurso masculino. A historiadora Gerda Lerner afirma que mais de 90% dos registros históricos desse período foram feitos por homens.

Observa-se o quanto as mulheres foram definidas a partir de uma valoração sobre o corpo. Elas sempre foram alvos de uma catalogação. Houve, por exemplo, a determinação de que as mulheres são seres maternais, frágeis, concebidas para as tarefas subalternas, domésticas. O espaço da rua, das ações, das decisões foi feito para os homens; já o espaço das mulheres é o “espaço do recôndito” – da cozinha, do quarto. Mesmo quando o homem está em casa, a casa passa a ser segmentada – a sala por ser o lugar dos encontros e da sociabilidade é do homem; à mulher, cabe a cozinha.

A catalogação fornece um lugar à mulher – os homens são seres da cultura; a mulher, um ser da natureza. No entendimento masculino, as mulheres existem para preencherem certas atividades. Passaram a ser acessórias ao homem.

O mito bíblico-judaico afirma que Javé (que personaliza o masculino), criou para Adão “uma auxiliadora idônea”. É necessário destacar que "idôneo" é aquele ou aquela que auxilia, que presta uma ajuda, uma assistência. Aparece como alguém que está ao lado; que não possui protagonismo, que está à sombra de algo. Esse ser só é quando está ligado ao elemento definidor de sua existência, pois surge como apêndice. A palavra “idoneus” significa “bom”, “útil” ou que “demonstra perfeito estado”. A Bíblia na Linguagem de hoje é mais reveladora no sentido de tornar mais explícita a despersonalização da mulher. Nota-se o que Javé afirma: “Não é bom que o homem viva sozinho. Vou fazer para ele alguém que ajude como se fosse a sua cara metade”. Ressalta-se, mais uma vez, que a mulher só é algo enquanto estiver ligada ao homem. Ela nunca está só; é sempre a partir de algo. A ideia de “cara metade” possui ecos da filosofia grega; todavia, o entendimento aproxima-se disso, pois a mulher nunca é inteira, completa. Ao longo de mais de quatro mil anos de história, houve sempre o discurso da incompletude; ou que sua missão é estar ao lado do homem para ser um com ele. Ou seja, ela nunca é algo estando sozinha.

A Bíblia de Jerusalém afirma que após Javé ter criado o homem, o próprio homem afirmou: “Ela será chamada mulher, porque foi tirada do homem”. O homem passa a ser uma espécie de tutor da mulher, dando-lhe um nome, definindo-lhe a forma, a natureza.

Ainda no livro de Gênesis, encontra-se estupefaciente passagem sobre a condição: "Teu desejo te impelirá ao teu marido e ele te dominará" (Gn 3.16). Fica subjacente no texto a nação de que mulher é uma entidade com instintos irrefreáveis e em constante ebulição. Somente contida pela força atávica do homem. 

A mulher, assim, ao longo da história, possui um desejo tutelado. Enquanto os homens são aqueles que registram a história, são os seres que produzem a cultura, as mulheres são os seres auxiliares, que existem para satisfazer os homens. A história foi feita por homens, por isso as mulheres nunca tiveram um lugar de protagonismo. A Bíblia corrobora aquilo que Gerda Lerner afirma, pois foi feita à imagem e semelhança do macho. Quando não é Javé que fala, é o homem que assume o seu lugar para definir os papéis das mulheres no mundo. Observa-se ainda que não há uma única autora em qualquer narrativa bíblica. Os registros dos mitos bíblicos foram feitos por homens. E daí surge uma perturbadora pergunta: Caso as mulheres tivessem escrito a Bíblia, quais seriam as noções sobre o sagrado? Javé seria um ente melindroso, violento e contraditória como aparece em todo Antigo Testamento?

segunda-feira, outubro 31, 2022

Jair, o homem pequeno


Segundo reportagem da Folha de São Paulo, Jair Bolsonaro foi dormir cedo após saber que havia sido derrotado nas urnas. As luzes do Palácio da Alvorada apagaram por volta das 22h06. Uma clara metáfora de um dos governos mais ineptos da história da República. Assessores e membros do Governo tentaram dialogar com o presidente. A imprensa queria ouvir as suas palavras. Um único pronunciamento que fosse de reconhecimento da vitória de Lula. Todavia, “o imbrochável” não demonstrou grandeza nem quando perdeu. Esquivou-se em um aceno de orgulho e covardia.

A reportagem da Folha ainda afirma que ele esteve a maior parte do dia com o filho mais velho, o senador Flávio Bolsonaro, implicado no esquema das rachadinhas. Como deve ter estado o seu humor? Como terá falado com a Michelle? Diz um dos capítulos da história que Nero, após ter ateado fogo em Roma, ficou do alto do seu palácio tangendo uma harpa, enquanto a cidade pegava fogo. Após o episódio, dirigiu a culpa do evento aos cristãos. Bolsonaro ateou fogo no Brasil nos últimos quatro anos (outra metáfora) e, à semelhança de Nero, não se responsabilizou. A diferença entre os dois é que Bolsonaro nem para tanger harpas possui talento. É medíocre. É pequeno. A única habilidade da qual é detentor é a da ignomínia.

Muita gente sofreu nos últimos quatro anos. Se ele não foi responsável direto pela pandemia, deve ser imputada a ele a negligência e o desdém com que a tratou. 400 mil vidas poderiam ter sido salvas. Famílias sofreram seus dramas. Como no episódio bíblico dos hebreus no Egito, o anjo da morte visitou milhares de lares brasileiros. A vacina era “o sangue” que deveria nos proteger. Ele não o fez. Retardou o quanto pôde a aquisição. Como o faraó do texto bíblico, riu, escarneceu. Imitou as pessoas que morriam sem ar. À semelhança dos mágicos que buscavam imitar o que estava acontecendo no Egito por meio de ilusionismos para impressionar o faraó, alguns médicos desonestos indicaram remédio sem nenhuma comprovação científica.

Mesmo com alguns desses absurdos, recebeu mais de 50 milhões de votos. Algo que impressiona. Quando votaram em Bolsonaro, em quê essas pessoas estavam votando? Qual a mensagem que fica, mesmo tendo experimentado o que experimentaram nos últimos quatro anos?

Recolheu-se no Palácio. Apagou as luzes o homem pequeno. Talvez, tenha ficado em posição fetal. Talvez, nem tenha conseguido dormir. Como estava o seu humor? Como uma criança mimada, talvez tenha ficado emburrado. Tenha se enchido de melindres. Culpado os outros. E, certamente, não reconhecerá os próprios erros. Não fará uma “mea culpa”. Afinal, o que se faz quando não se sabe tanger uma harpa?

sexta-feira, janeiro 28, 2022

"Ran", uma verdadeira obra-prima

 

“São os deuses que choram. Nos vêem a matar uns aos outros... vez por outra, desde o início dos tempos. Eles não podem nos salvar de nós mesmos”.

Do filme "Ran". 

 

                A cena final do filme “Ran”, de Akira Kurosawa, é uma das mais belas e pessimistas da história do cinema. O diretor japonês que era um mestre das sutilezas, coloca uma pessoa cega, portando uma pequena fotografia de Buda, caminhando lentamente, arrimada por uma bengala à beira de um abismo. De repente, ela se dá conta de que à frente há apenas o vazio. Assusta-se. A tomada da cena se afasta. A poderosa música de Toru Takamitsu mistura-se marcantemente à cena, criando um belo efeito. O filme termina. A mensagem está dada: o ser humano é uma espécie de cegos à beira do abismo, sustentando-se pelo fio indefectível da religião.

                “Ran” é uma obra soberba; típica do grande diretor nipônico. É grandiosa, magnífica. É épica. Está carregada de simbologias; de uma atordoante reflexão. Um grupo habilidoso de artistas em ação e a mão de Kurosawa, que conduz os detalhes técnicos à perfeição.  

                O filme é baseado na tragédia shakespeareana “Rei Lear”, escrita em 1605. Kurosawa transpõe a história para a tradição japonesa. Hidetora Ichimonji é um venerável e respeitável patriarca de um reino poderoso, construído a partir de batalhas. Ele é respeitado pelos três filhos e por um séquito de súditos. Próximo dos setenta anos, decide dividir o seu reino entre os seus três filhos. O desejo de Hidetora era criar uma sociedade entre os filhos para que eles governassem juntos. Segundo ele, isso tornaria a condução das terras algo que duraria muito tempo. A harmonia dos três fortaleceria ainda mais os domínios conquistados.

                Sem querer contar os detalhes do filme, mas apenas descrevendo os elementos essenciais da obra, importa dizer que após a decisão, os filhos são transformados pela expectativa do poder.  Somente alguém como Kurosawa para pegar uma obra de Shakespeare - que revela tanto sobre a natureza humana - e imprimir-lhe as feições corretas. Kurosawa consegue impressionar com a atuação dos atores, a espetacular trilha sonora e a fotografia, que revela, nas tomadas de câmera, detalhes arrebatadores. As cenas de batalhas estão entre as mais belas da história do cinema, assim como já era comum em sua filmografia. “Em os sete samurais” (1954) o diretor utiliza técnicas que fariam escola; seriam praticamente obrigatórias em filmes de guerra e de ação. Em “Ran” os exércitos parecem bailar. Há uma dança da morte. E o desfecho dessa apoteose é a destruição, o caos e seus aspectos deletérios.

                Essas características são adensadas pela revelação da psicologia dos personagens. “Ran”, que significa “caos”, “tumulto”, “desordem”, é um estudo sobre a natureza humana e suas metamorfoses diante do poder. Nota-se ainda uma preocupação em fazer refletir os efeitos imprevisíveis das escolhas e de suas consequências. Demonstra ainda como certas escolhas ganham proporções inadministráveis.

O filme todo é uma cética poesia que reflete sobre o potencial de beleza, mas, ao mesmo tempo da violência, vingança e ganância pelo poder.

quinta-feira, setembro 16, 2021

"São Paulo - Sociedade Anônima", algumas considerações

 


“São Paulo, sociedade anônima”, obra de 1965, dirigido por Luís Sérgio Person, é um filme espetacular. Revela uma perspectiva filosófica que se desloca do local para o universal. A obra de Person procura colocar no centro de sua reflexão a figura de Carlos, um típico pequeno-burguês; o figurão típico da classe média. Carlos trabalha em uma montadora de automóveis. 

O diretor procura colocar em evidência o “boom” econômico alavancado pelo governo Juscelino Kubistchek, no final dos anos 50. A chegada de inúmeras multinacionais. O vertiginoso crescimento urbano de uma das maiores cidades do mundo. A selva de pedras de que é feita a cidade. O movimento frenético das avenidas. A paisagem de concreto que abunda por todos os lados. A amorfa massa de indivíduos que se desloca apressada.  

Apesar desse espaço moderno e veloz, essa sociedade enfrenta um mal-estar. No meio disso tudo se encontra Carlos: o sujeito de vida incerta, de relacionamentos incertos, de perspectivas incertas, de desejos incertos. A produção procura mostrar os dilemas éticos como, por exemplo, o empresário Arturo. Ele demonstra ser alguém disposto a conseguir seus objetivos, ultrapassando os limites éticos e jurídicos das relações: mentir despudoramente; contratar empregado de forma ilegal. Em suma: o filme procura abordar questões que, em um primeiro momento, parecem circunscritas a São Paulo. Todavia, são problemas universais do sujeito urbano, numa sociedade capitalista.

Person procurou filmar as imagens em locais abertos, criando uma experiência bastante realista. Ouvimos os sons, o movimento da cidade – os carros que passam, as pessoas que conversam. Apesar de ser uma obra de 1965, os elementos filosóficos e antropológicos continuam bastante atuais.