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quinta-feira, dezembro 06, 2018

Olavo não tem razão...

Abaixo, link para um vídeo bastante esclarecedor do jornalista Breno Altman.

O objetivo do vídeo é formar um perfil crítico de Olavo Carvalho. O paulista Olavo de Carvalho, fartamente conhecido como ideólogo da direita brasileira, é um sujeito controverso. Com relação a isso é importante dizer que os pensamentos de um sujeito qualquer estão próximos daquilo que ele pratica. A práxis é uma extensão das ideias. Sendo assim, é preciso conhecer de onde surgiu essa caricata personagem das ideias brasileiras. 

É justamente pelo fato de o capitalismo passar por uma das suas costumeiras crises - não somente aqui, mas em outras regiões do mundo - que Olavo passou a ter visibilidade. A crise política é oriunda da crise do capital que, por sua vez, leva às demais crises. A crise política é uma crise para a adequação dos interesses do capital. A vitória de Bolsonaro significa dizer que uma perspectiva de sociedade ganhou.

Olavo sempre foi visto como uma figura bizarra pelos locais por onde passou. É um homem de fixidez, de obsessões, de exageros; de uma linguagem carregada, que busca diminuir o oponente, até que ele seja transformado em ridicularia. Procura aglutinar temas variados com teorias conspiracionistas, fundadas no autoritarismo, no conservadorismo estreito, com fortes doses de certo entendimento radical da moral judaico-cristã. Ou seja, diz-se cristão, mas não de um cristianismo iluminado, generoso, caridoso. Ele abraça uma concepção raivosa, inquisidora, radical sobre a vida e sobre os costumes. 

Sua fixação em "malhar" a esquerda, que para ele é o grande demônio do mundo, deve ser considerado. Em seus devaneios conspiracionistas, as instituições brasileiras - sejam públicas ou privadas - estão contaminadas pelo comunismo. E ele possui uma face perversa, invisível, silenciosa, que se infiltra na vida social, deturpando aquilo que foi herdado dos antigos - leia-se do conservadorismo ocidental, firmado nos ensinamentos morais da Igreja. Essa ameaça se chama marxismo cultural. Analisando o Youtube, observa-se a quantidade de páginas que buscam explicar essa suposta categoria criado por Olavo de Carvalho - e ridicularizada na Academia. As ciências sociais não reconhecem o marxismo cultural. Para ele, o marxismo cultural é uma estratégia idealizada por Gramsci e pelos teóricos de Frankfurt, que busca destruir os valores consolidados - a família, o namoro, a forma como as mulheres se vestem; os valores do cristianismo (entenda-se certo cristianismo); para pregar pedofilia; uma explosão da ideia de homossexualismo ou qualquer tema que envolva minorias e busquem relativizar aquilo que está consolidado - como os valores não mudassem de uma época para outra. Ou seja, como se percebe há uma fixação por temas morais. 

Essas ideias formam a coluna dorsal do bolsonarismo e que encontrou expressão em um movimento irracionalista. Olavo se tornou uma sumidade pelo fato de vivermos em um momento quer requer certa compreensão. Olavo de Carvalho jamais teria plateia em um país como a Inglaterra, como a Suécia ou Canadá, mas teve por aqui. Pelo fato de a classe média brasileira que possui mais dinheiro ser muito ignorante. Por possuir uma cultura humana geral bastante baixa; por não apreciar a arte em suas variadas manifestações. Por não ter adquirido uma admiração pela capacidade humana de criar coisas bonitas, que forte valor simbólico. É disso nisso que reside a grandeza das manifestações culturais. Fixamo-nos em temas banais. Não adquirimos a capacidade crítica para refutar teses absurdas; aquilo que possui comprovado valor científico, que é digno da exatificação da lógica e do bom senso.

Isso explica o sucesso de uma figura de Olavo de Carvalho. Qualquer sujeito com uma inteligência mediana, que consegue discernir ideias - por mais que não concorde com elas - é capaz de perceber a natureza deletéria das ideias de Olavo de Carvalho. Seus fãs, geralmente, tratam-no com máxima devoção, como se ele fosse uma deidade. Costumam proferir: "Olavo tinha razão!". Pois, "razão" é justamente o que o Olavo não tem. Ele tem "achismos"; teses criadas por métodos dialéticos maliciosos, com a finalidade de enxovalhar quem quer que seja, principalmente os "diabos" vermelhos da esquerda, que criaram uma organização infernal chamada Foro de São Paulo. Pode-se afirmar que ele se utiliza de estratégias sofistas para debater ideias; que cria as falácias do homem de palha para gerar confusão.

A erística utilizada por ele também cria entendimentos estranhos, pois possui pouca nobreza civilizatória. Enfim, entendo que Olavo de Carvalho é um "mal" que tem feito milhares de seres influenciáveis; que buscam que discursos maliciosos se encaixem em seus preconceitos e ódios velados, serem cooptados por suas ideias revanchistas, conspiratórias, de nefelibatas.

Vejamos o vídeo do Breno Altman:

AQUI

quarta-feira, dezembro 31, 2014

Tempos de alegria - sobre dois livros de Eric J. Hobsbawm

Certamente que algumas das leituras mais interessantes que realizei neste ano de 2014 - que ainda resfolega os seus últimos estertores -, foram Tempos Interessantes - uma vida no século XX e História Social do Jazz, de Eric J. Hobsbawm. No início do ano, também li a nova edição para Bandidos, lançado pela Editora Paz Terra. Hobsbawn, falecido em 2012, era daquelas personalidades altas, que têm a chance de carregar em si o peso dos eventos históricos, por ter testemunhado e medido com os elementos exatos cada um desses fatos. Como de forma subentendida em Tempos Interessantes - sua autobiografia -, Hobsbawm foi testemunha de um século de fraturas, caos, transformações profundas em seus costumes e em sua base produtiva; um século de conflitos e de alastramento da cultura de massa.

Ao analisarmos sua vida em Tempos Interessantes, resta-nos uma conclusão: existem pelos menos três elementos que não poderiam ter sido extraídos de sua ontologia - (1) ele era comunista e assim verbaliza sobre sua crença na doutrina de Marx: "O sonho da Revolução de Outubro ainda está em algum lugar dentro de mim, assim como um texto apagado no computador lá permanece, à espera de que os técnicos o recuperem dos discos rígidos". (2002, p.73). (2) Hobsbawm era um historiador e foi por meio das ferramentas proporcionadas pela história e pelo materialismo dialético, chave com se destranca a porta do grande castelo da história, que ele olhou, pensou e analisou o mundo. ("Não se pode escapar do passado... Nossas vidas cotidianas, os países em que vivemos e os governos que nos dirigem, tudo isso está rodeado e inundado pelos produtos de minha profissão" (2002, p. 311). (3) e o grande pensador, intelectual e erudito era apaixonado por uma das maiores revoluções que marcaram a música popular - o jazz. O movimento cultural nascido nos Estados Unidos alcançou o historiador quando este tinha apenas 16 anos de idade; e surgiu como um supridor de carências emocionais e afetivas. Ele mesmo diz: "No meu caso, porém, o jazz praticamente substituiu o primeiro amor, pois envergonhado por minha aparência física e convencido de que era pouco atraente, reprimi deliberadamente a minha sensualidade e meus impulsos. O jazz trouxe a dimensão de uma emoção física sem palavras, sem questionamentos, para um vida quase completamente monopolizada por palavras e exercícios intelectuais". (2002, p. 99). 

Em outro trecho ele afirma sobre esse movimento, dizendo que o jazz não era apenas "um certo tipo de música", mas sim "um notável aspecto da sociedade em que vivemos". (2002, p. 252). Foi essa paixão pelo jazz que o levou a escrever História Social do Jazz, em 1959. Ao escrever o livro, Hobsbawm usou o pseudônimo de Francis Newton (em homenagem a Frankie Newton, nome de um trompetista que tocara com Billie Holiday, um dos poucos músicos de jazz sabidamente comunistas). A grande questão em torno do livro é o fato de ter sido escrito em 1959, deixando de levar em conta a transformação por que passou o movimento a partir dos anos de 1960 - principalmente com a ascensão do rock. Segundo o historiador o historiador diz em Tempos Interessantes, o rock "em poucos anos quase matou o jazz". A revolução foi insuperável. O fenômeno da nova música, reforçada pela energia jovem e contagiante, fez com que os músicos de jazz vivessem um período de ostracismo musical. Muitos deles migraram para a Europa. O movimento poderoso e avassalador vivido pelo jazz em 20 anos, principalmente entre 1940 e 1960, foi substituído pelo febricitante movimento de corpos estimulado pelo rock. No prefácio à edição de 1989 de a História Social do Jazz, Hobsbawm diz que: "as vendas de discos nos Estados Unidos, que tinham aumentado de US$ 227 milhões em 1955 para US$ 600 milhões em 1959, ultrapassaram os US$ 2 bilhões em 1973. Setenta e cinco a 80% dessas vendas representavam gravações de rock ou gênero afins". E esse fenômeno avassalador não deixou o jazz intacto. Como é típico dos processos dialéticos, os movimentos incorporaram os elementos do rock e o jazz acabou vivendo a sua fase experimentalista. O fusion é uma dessas manifestações, que acabou levando os puristas a aumentarem a quantidade de cabelos brancos por causa de suas preocupações em manter o movimento sem a influência, segundo eles, "perniciosa" desse movimento "maculador". 

Para Hobsbawm, entre os vários motivos que levaram a ascensão do rock, três eram os principais: (1) o tecnológico, que acabou possibilitando o grande avanço da música eletrônica. O rock foi um dos movimentos musicais a utilizar uma engenharia capaz de produzir para as grandes massas. (2) dizia respeito ao conceito de conjunto, pois o movimento não precisava de virtuoses como o jazz a exibir as suas habilidades. Estrutura do rock (baixo, bateria, guitarra, voz) possuía uma aspecto absurdamente simplificador. Nesse sentido, o rock era mais democrático, pois qualquer sujeito "amador" ou formalmente "analfabeto" para as convenções musicais poderia montar o seu conjunto e "gritar" para o mundo. (3) dizia respeito ao ritmo "insistente" e "palpitante". Tal fato, fez com uma multidão cada vez mais densa de jovens, principalmente adolescentes, visse no movimento a expressão do seu universo de desejos, instintos, sentimentos e aspirações. O jazz passou, a partir daí, a ser encarado como música de intelectuais ou de velhos. 

Mas de onde veio o jazz? E é para responder a essa pergunta que existe como substrato em toda a obra, que o grande historiador marxista gasta boa parte de seu tempo. Para ele, o jazz é uma manifestação social alijada a um herança africana. As melodias complexas. A energia vibrante. A estrutura harmônica. E a sua estrutura inconfundível atestam a sua essência revolucionária. Talvez, seja uma das manifestações mais revolucionárias da música ocidental, pois surgiu no seio da cultura negra, visto pela mainstream hegemônico como forma inferior. Sua força vem justamente do grito oprimido dos negros. Vem dos spirituals americanos. Dos cultos protestantes gritados, angustiados, no qual o pregador encarna a energia a serviço do fervor da palavra. O jazz é essa força, esse espírito carregado de energia esfuziante, capaz de revelar a intimidade daquele que externa a sua manifestação. Não é uma manifestação contida. O jazz assim como o blues, que é o seu parente mais próximo, são feitos para que o ouvinte sinta. 
Apesar de ter surgido nesse meio carregado de fervor religioso, o jazz estava carregado de uma energia antipuritana, secularizante, sensual ao extremo. E, talvez, tenha sido por isso que migrou para os bares de Chicago; para os cabarés de St. Louis; para os prostíbulos de New Orleans; para os guetos e passou a ser associado a música de negro. Nomes como Louis Armstrong, Thelonius Monk, Charlie  "Bird" Parker, Miles Davis, Eric Dolphy, Art Blakey, John Coltrane, Ornete Coleman, Dizzy Gillespie etc estão amarrados à história do movimento. São figuras icônicas, as quais não se pode desvencilhar a identidade do movimento. 

Resta apenas me aproximar do jazz com o máximo de reverência como um ser apaixonado que se aproxima de uma ninfa jovem, mas sendo sabedor do potencial de amor que ela guarda em si. Estou ouvindo Somethin' Else, de Miles Davis, em um disco que traz nomes como Cannonball Adderley, Art Blakey e o próprio Miles Davis e tenho certeza que Hobsbawm faria um sinal com a  cabeça em sinal de aprovação e balançaria a perna, gesto consequente quando ouvimos uma música como essa Somethin' Else. 

segunda-feira, outubro 27, 2014

Uma resposta, um esclarecimento

Os dois textos abaixo são resultado de uma resposta a um comentário que fiz; e, logo abaixo, uma réplica feita por mim. Escrevi algo no Facebook que gerou uma crítica. Nesses dias em que a falta de inteligência e o preconceito tomaram de conta do Brasil, fui chamado de forma subliminar de ignorante. Abaixo, veio a minha resposta. 

A resposta de alguém que não concordou com aquilo que escrevi: 

A esquerda demonstra certa altivez ao pensar que quem crítica os escritos de Marx, Engels, Gramsci, Weber, e demais, o faz por não ter lido detidamente seus tratados. Em muitos casos, ocorreu foi o contrário. E além desses autores, gastou-se tempo lendo também, Von Mises, Hayek, Smith, Friedman dentre outros. Autores esses que refutaram aqueles, com certo triunfo. 

Como disse, a julgar pelos argumentos que leio aqui, não se conhece bem uma das duas (ou as duas), (1) a história da luta de esquerda, e as consequências que ela traz; (2) a comosvisão cristã. Dogmas existem tanto à direita, quanto à esquerda. O esquerdismo em si não seria um? 

Por que digo isso? 

Porque as lutas de esquerda, no médio e longo prazo, deixaram mais sequelas do que benefícios. Pegue a questão da fome na Ucrânia, o chamado Holodomor, que matou, segundo sustentam alguns, mais de 3 milhões de pessoas. Acrescente-se a incapacidade com que governos de esquerda demonstra em lidar com a liberdade de pensamento, de ir e vir, religiosa etc. 

Vocês, de ideologia de esquerda, reduzem o debate à ajuda aos necessitados. E isso é um erro tremendo, posto que os fins não justificam os meios. Há muito mais coisa na esquerda que vai para o lado oposto daquilo que sustenta luta cristã. 

Cristãos de esquerda confundem ALTRUÍSMO com ASSISTENCIALISMO (a caixa alta é apenas para realce, uma adaptação para o "negrito"). O primeiro é fruto de um espírito grato pela salvação que recebeu. O segundo, um programa de estado, que em certos casos é legítimo. 

O amigo que lê os profetas confunde, até mesmo, o contexto de tais escritos. Comete um anacronismo histórico, não observa as nuances textuais, que devem ser observadas para uma boa interpretação de qualquer texto, eclesiástico ou não. 

Aqueles homens denunciavam a corrupção moral dos líderes daquelas nações, a falta de temor ao Deus da aliança com o povo escolhido e a mistura ideológica deles com os povos que não estavam debaixo do mesmo pacto. Por causa disso Deus os julgaria. E os profetas denunciavam isso. 

Deveria ser considerado por vocês que, por exemplo, nenhum país de herança protestante nasceu, se construiu e se tornou potência debaixo dos ideais de esquerda. Nenhum! Não há nem um exemplo sequer. 

A história mostra o contrário. Países de esquerda se tornam intolerantes com os cristãos. O próprio Karl Marx, um dos proeminentes do pensamento esquerdista, cunhou, em plena Alemanha protestante, de maioria cristã, a célebre frase "a religião é o ópio do povo". O ideal socialista nasce nesse berço. 

Por outro lado, vemos que os países mais filatropos do mundo são justamente os que vocês, de esquerda, definem como neoliberais. São os que mais enviam dinheiro para os lugares onde a fome e a miséria são latentes, como a África de maneira geral. 

Dizer que as ações sociais da igreja são tacanhas é desconsiderar, mais uma vez, o que ensina a história. Quantos hospitais construídos mundo à fora? Quantas escolas também? Quantas universidades nasceram pelo esforço de cristãos (como exemplo, cito apenas o pastor John Harvard, que fundou a universidade com seu sobrenome), observe o índice de recuperação dos presos nos presídios administrados por cristãos na Coréia do Sul, país com forte presença cristã protestante e veja que tudo isso depõe contra o que foi alegado aqui. 

Há, ainda, o fato de que os países onde existe mais igualdade social são exatamente os países que nasceram em berço cristão, sobretudo o protestante. Como exemplo, dentre os muitos possíveis, temos Suíça, Suécia, Noruega, Holanda e EUA. Se tornaram ricos, não nasceram ricos. 

Enfim, um pouco mais de atenção aos bons livros de História e vocês perceberão que o cristianismo, no âmago, não possui nenhum vínculo ideológico com a esquerda, a principiar pelas motivações. 

Para o cristianismo, restauração material, intelectual e espiritual andam de mãos dadas. Para a esquerda, a restauração material basta (no campo ideológico. No prático, nivela-se por baixo, empobrecendo o rico, ao invés de enriquecer o pobre). Eis a aí o cerne do descompasso.

Minha réplica em forma de resposta:

Li atentamente o seu texto e percebi a contumácia, a obstinação, que é tão típica em pessoas que acreditam que estão com a verdade. A certeza da verdade gera conforto. Isenta-nos de investigações. Faz com que durmamos de forma tranquila. Quando somos sabedores que não temos mais sobre os ombros o susto da dúvida e que todos os nossos caminhos são luminosos, viver passa a ser um gesto de profunda leveza. Ou seja, eu tenho a verdade, mas os outros... ora, os outros são os outros.  Notei a vaidade da fala de um protestante por trás de cada uma das vírgulas, das letras, das sentenças, das orações, dos períodos “firmemente” construídos. 

Permita-me apontar alguns problemas conceituais no seu texto: 

(1) Você colocou Marx, Engels, Gramsci e Weber como sendo de “ideologias ditas de esquerda”, algo que é problemático. Weber não pertence a esse grupo. Quando se fala em nomes que constituem o pensamento marxista (digo: marxismos), Weber não se encontra entre eles. Se pelo menos aqueles que são críticos da “famigerada” esquerda, lessem Weber, teríamos mais facilidade para entender alguns processos como, por exemplo, o desencantamento do mundo, as sociedades modernas sobre o influxo do capitalismo, a burocratização das sociedades e a base motivacional das sociedades ditas desenvolvidas. Depreende-se disso que misturar Gramsci, Engels, Marx e Weber é um problema de quem não leu nem este nem aqueles. 

(2) Os economistas citados são em sua essência liberais. Sua refutação aos comentários acima demonstra a sua crença em um tipo de modelo econômico absurdamente problemático para países como o nosso. Inclusive, o nosso país é vítima desse modelo econômico.  O liberalismo é um modelo que otimiza o primado do individualismo em detrimento da solidariedade (Como disse George Kennan, um dos fundadores do neoliberalismo via Consenso de Washignton: “paremos de falar de valores vagos e poucos realistas como direitos humanos, a elevação do nível de vida e a democratização”). As nações europeias o praticaram de forma profunda em suas histórias, principalmente a partir do século XVIII, quando a burguesia se apropria do mundo e dos mercados. Após a Revolução Francesa, alguns economistas entenderam que era necessário que houvesse liberdade para que as mercadorias circulassem. Todavia, por trás da assunção do discurso da ordem e do progresso, havia uma brutal luta pela sobrevivência. Mas isso não era um problema para o liberalismo. A Inglaterra das máquinas, da Revolução Industrial, era um antro em que crianças de 8, 9, 10 anos, se embrenhavam em buracos para retirar carvão por 8 ou 10 horas por dia. Homens e mulheres trabalhavam de forma escrava para receber um emolumento ordinário. A burguesia se apropriou do poder e percebeu que precisava de liberdade e mercados para que os seus produtos escoassem. Ou seja, é justamente aí que reside o problema, pois passa a haver uma classe explorada e uma que se beneficia da exploração. O individualismo, o mérito, a iniciativa pessoal, eram meios necessários ao fortalecimento da atuação do capitalismo que se robustecia dia a dia. Esses sujeitos citados buscaram desenvolver teorias para tornar a exploração e o domínio meios de legitimar teoricamente o sistema, para fazer valer o lucro acima de todas as coisas. Os países do continente latino-americano, da África e boa porção da Ásia foram as geografias que serviram de centros produtores de matéria prima para gerar a riqueza dos países centrais – europeus e os Estados Unidos. Portanto, se eles refutaram Marx, o fizeram apenas com um intento: justificar o lucro, as novas formas de robustecer o sistema e legitimar a propriedade privada dos meios de produção. 

(3) A generalização é outro problema, pois se chama de esquerda todo movimento existente. De qual esquerda se fala? Ou: o que é à esquerda? A nomenclatura “esquerda X direita” passou a ser utilizada na Revolução Francesa. Do lado direito ficavam aqueles que queriam a manutenção do Antigo Regime, que via no absolutismo do rei a sua força e, do outro, à esquerda, aqueles que queriam mudanças. Ora, utilizemos esse raciocínio: analisando Jesus e seus contemporâneos, quem estava à direita e quem estava à esquerda? Os fariseus representavam quem? Ora, os profetas, sei, no fundo, buscavam fazer uma pregação moral para que o povo se voltasse para Javé, mas de que lado eles estavam?  Quando vociferam contra a injustiça e a malevolência das elites aristocráticas que viviam bem, enquanto o povo passava fome, de que lado estavam?  Hobsbawn diz que o livro de Amós parece “um discurso bolchevique inflamado”. O grande problema é ler sempre os textos históricos com uma determinação dogmática, despolitizando-os. Por trás de toda sociedade, existe um contexto de lutas sociais. Existe um governo constituído, valores, embates, contradições. São essas contradições que permitem o avanço da história. A história é justamente o resultado da colisão de fatos, que fazem originar situações novas repletas de elementos dos processos anteriores. O que é a cosmovisão cristã, senão uma maneira de olhar de forma etnocêntrica para o mundo? Senão uma forma de torná-lo em vontade e representação? Submetê-lo a uma linguagem? Uma forma de se achar dono de todas as interpretações históricas, pois para o cristianismo dogmático, a história já está encerrada, afinal: (a) existe um Deus que é providencial e já determinou todas as coisas; (b) existe uma teofania; (c) uma epifania; (d) existe uma ascensão profética, por isso, se diz: “Vejam! A volta de Jesus está próxima. Não há mais soluções para o mundo”. Ou seja, interpretações dos fatos da eternidade pelos fatos da história; (e) essa revelação do fim da história é salvífica; (f) é apocalíptica; (g) ela é universal, pois compreende toda realidade conhecida; e (h) e é completa, pois tudo se consumará. Ora, tais apontamentos devem gerar certezas e afirmações repletas de juízos com relação àqueles que não estão conscientes disso. Se tudo está determinado de forma positivista, por que se importar com a história e com a luta do oprimido?  

(4) Parece que consigo notar um outro tipo de generalização muito costumeira, que é a comparação, deixando de lado o significado histórico de cada movimento dito de esquerda,  aonde ele aconteceu. Quero crer que se faça aqui menção à União Soviética, a Cuba, à Coreia do Norte, ao Vietnã, à antiga República Democrática Alemã etc. É preciso ler um pouquinho os textos de Marx para perceber que esses supostos movimentos não chegam nem perto daquilo que o alemão apontou em seus escritos. Marx nos propôs um projeto de emancipação para a humanidade, uma espécie de desafio muito parecido com aquele proposto pelo Evangelho. Ou seja, um projeto de liberdade, de generosidade, de solidariedade. Nesse sentido, Marx está mais perto de Jesus do que Friedman, Ricardo ou Smith. Estes propunham a lei do mais forte – pois no fundo é isso que é o liberalismo – e aquele propunha um projeto de emancipação do ser humano. Quando leio o evangelho, eu não consigo visualizar outra coisa senão isso.  Acredito que o problema esteja no modo como se interpreta. Quando leio o segundo capítulo de Atos, não vejo nada diferente de uma sociedade comunal. 

(5) O processo de desconstrução da suposta esquerda apontada por você começou a após a Segunda Guerra Mundial. Naquele momento, os EUA saíram como a nação mais forte da Guerra. Antes da Guerra eles já eram fortes, mas se consolidaram como vendedores de armas e exportadores de produtos para o mundo todo. O anti-comunismo (esquerdismo?) ficou mais forte após a divulgação dos Relatórios Krushev, em 1956.  Após as várias Ditaduras instaladas na América Latina pelos Estados Unidos, a esquerda passou a ser vista como inimiga, como monstro, como “comedora de criancinhas”, mito que muitos defendem ainda hoje. Nessa época, o primado da liberdade e da democracia estavam assentados na família, na fé cristã e na propriedade privada. Ou seja, o seu pensamento faz jus a isso. Não o culpo. Você é vítima de um projeto anti-esquerdista. Outra questão: aqueles que se dizem anti-esquerda, só fazem referências às mortes provocadas pela suposta “ditadura do proletariado”. Quantas? 50 milhões? 60 milhões? E quantos agora estão morrendo nos continentes africano e latino-americano por causa da ingerência capitalista? A suposta “filantropia” alegada é uma farsa, posto que os países centrais acabaram com esses continentes e, hoje, ficam enviando migalhas (que servem para distencionar crise estabelecida na relação capital-trabalho) sobejadas da mesa lauta deles. Isso é bem a cara do cristianismo institucional. 

(6) Se eu errei cometendo um “anacronismo”, o que dizer quando uma pessoa cita Marx, ignorando o contexto da fala do autor? Pois fique sabendo, que com essa fala, Marx não estava condenando a religião – ou a possibilidade de se seguir uma. Nos escritos de Marx, ausente das relações estranhadas, o homem pela manhã trabalharia e, à tarde, ouviria música, plantaria um jardim, comporia poesias, iria para a sua paróquia, ou seja, ele pode “ser-mais”. A frase “A religião é o ópio do povo” é como aquela frase de Nietszche (“Deus está morto!”), que crente adora citar em Escola Dominical, mas que desconhece o significado delas.  

(7) Citar a Universidade de Havard ou os fundadores dos EUA, acredito que não cabe aqui. São contextos completamente diferentes. Foram sociedades construídas com finalidades bem distintas. A sociedade americana segue a sua própria história como uma religião. Ela está fundada em ideias como fé cristã, individualismo, liberdade (palavra que possui um valor simbólico, já que deve ser entendida como a possibilidade de não coibir o sujeito para as iniciativas a que ele se determinar), moralismo e crença em um destino como terra capaz de subjugar todas as demais. A suposta “caridade” realizada por esses países é “mesquinha”, “pequena”, pois não toca na principal questão para acabar com a desigualdade, que a existência de um modo de produção que fulmina com a vida de milhões de pessoas todos os anos. Cerca de 1 bilhão de pessoas da humanidade passam fome. Ou seja, será que essas pessoas são culpadas ou existe uma razão para isso? E aí começam a surgir as perguntas. Coreia do Sul, a Suécia, a Suiça, enviam mantimentos, mas quantas multinacionais desses países estão instaladas em lugares pobres e miseráveis, subtraindo as riquezas dos povos. Por exemplo, só a Suécia são mais de 300 empresas que estão instaladas pelo mundo afora, inclusive aqui no Brasil. Não acredito que o verdadeiro Jesus aprovasse isso. 

(8) Suas palavras são coerentes com o espírito da fé protestante, que gera “descompassos”, pois é arrogante e individualista. E se existe algo que a fé protestante fez foi sacralizar a consciência e dessacralizar o mundo. Ao acontecer isso, a humanidade como um todo perdeu o seu valor sacral, magnânimo. O mundo tornou-se um fim para o utilitarismo. Uma aposta para o acentuamento da desigualdade e da indiferença.  Em um mundo em que todas as coisas são medidas segundo a sua utilidade, até mesmo o homem corre o risco de se perder. Foi a fé protestante que serviu de cimento ideológico para a racionalização econômica do ocidente. Foi ela que permitiu o surgimento do liberalismo, que funciona em sociedades como a americana ou a inglesa, locais estes onde não houve acontecimentos dramáticos como os que se deram aqui no Brasil ou em qualquer país da América Latina. Nesse sentido, aconselho que você leia um livro de Jean Delumeau, chamado de “Nascimento e Afirmação da Reforma”. 

(9) E outro erro conceitual é acreditar que o PT seja um partido de esquerda. Isso é um desconhecimento profundo da história do Partido dos Trabalhadores e das determinações que ele veio a tomar, sobretudo, com a Carta ao povo brasileiro. Talvez, o PT não chegue a ser nem mesmo um partido social-democrata, embora tenha algumas aproximações. O PT hoje assumiu uma posição de centro, com nuances progressistas e desenvolvimentistas. Fez acordos com os setores econômicos mais conservadores. Se existe um partido com os quais os capitalistas lucraram, esse foi o PT. Nos últimos 10 anos, as ações da bolsa de valores brasileira, somente perdeu para a China e para o Índia. Os bancos nunca lucraram tanto. Nunca se pagou tanto os juros da dívida pública, que chega a consumir cerca de 42% da arrecadação. Mas, por que então tirar o PT? Hoje, o PT ainda defende posições que incomodam o grande capital, principalmente, com o modelo econômico que mantem os níveis de emprego e uma preocupação – mesmo que incipiente – com a distribuição de renda.  

Gostaria de finalizar. Não estou disposto continuar esse bate-papo. Não levará a lugar nenhum. Você pensa com a sua “cosmovisão cristã” e, eu, com algumas categoriais com as quais você não corrobora. Então, enquanto falarei sobre o dia, você falará sobre a noite; enquanto você discursar sobre o céu, falarei sobre a terra; enquanto você discursar sobre a metafísica como elemento que determina a materialidade, falarei das relações materiais que se dão na história.  

domingo, agosto 31, 2014

A naturalização do cotidiano e a política

















Karel Kosik diz em sua Dialética do Concreto algo essencial: "O indivíduo não é apenas aquilo que ele próprio crê nem o que o mundo crê; é também algo mais: é parte de uma conexão em que ele desempenha um papel objetivo, supra-individual, do qual não se dá conta necessariamente". (KOSIK, 1976, p. 62). Com isso, o pensador marxista nos deixa a ideia de que existe uma realidade a qual o homem comum perde o contato em seu cotidiano. Mas o que é essa cotidianidade? 

Na cotidianidade vivem todos os homens. Cotidianidade não é o espaço privado prevalecendo sobre o espaço público. Para ele "a vida de cada dia tem sua própria experiência, a própria sabedoria, o próprio horizonte, as próprias previsões, as repetições, mas também as exceções". Os homens vivem esses fatos e se acostumam a tais eventos, entendendo, que as coisas são aquilo que são. Que não existe uma outra forma de ser. Ou seja, a vida objetiva passa a criar uma instintividade mecânica em relação às coisas e ao mundo. 

O homem, assim, acaba criando um para si, em que considera a realidade como o seu próprio mundo, pois sua visão sobre as coisas se tornam eventos familiares. O sujeito acostumado com o aparente não consegue divisar a existência de outro mundo, de outra forma de ser possível à realidade. A vida calcada no cotidiano e fincada no aparente, sem que tenha uma expectativa da essência, leva o homem a naturalizar determinados acontecimentos. A naturalização dos fatos, leva o sujeito ao comodismo; à incapacidade para fazer julgamentos sobre qual a relação que o seu cotidiano tem com a história.

Um exemplo disso é o hábito que o sujeito moderno tem de colocar o dedo no interruptor de luz e acender ou apagar, sem se dar conta de que por trás de tal ação existe uma cadeia histórica. Ou quando liga a torneira e ver a água jorrando, sem se dar conta do processo que trouxe a água até à sua casa. Sartre menciona esse processo de naturalização tão comum da vida burguesa em seu romance existencialista A Náusea. Os jovens de hoje naturalizaram a consciência de que o mundo é da forma que eles veem; que os celulares são um elemento que acompanha a humanidade desde as mais remotas datas. Não saberiam viver sem os aparelhos, pois acabaram naturalizando a existência desses objetos portadores de fetiche. 

Quando penso estas coisas, me vêm à mente uma afirmação de José Carlos Libâneo em sua famosa Didática. O educador afirma em tom althusseriano que "O sistema educativo, incluindo as escolas, as igrejas, as agências de formação profissional, os meios de comunicação de massa, é um meio privilegiado para o repasse da ideologia dominante". Poderíamos completar afirmando: "para a naturalização do mundo". Em seguida, o educador nos propõe que desconfiemos nas seguintes afirmações:

(1) O Governo sempre faz o que é possível; as pessoas é que não colaboram;
(2) Os professores não têm que se preocupar com política; o que devem fazer é cumprir sua obrigação na escola;
(3) A educação é a mola do sucesso, para subir na vida;
(4) Nossa sociedade é democrática porque dá oportunidades iguais a todos. Se a pessoa não tem bom emprego ou não consegue estudar é porque tem limitações individuais;
(5) As crianças são indisciplinadas e relapsas porque seus pais não lhes dão educação conveniente em casa;
(6) As crianças repetem de ano porque não se esforçam; tudo na vida depende de esforço pessoal;
(7) Bom aluno é aquele que sabe obedecer (LIBÂNEO, 2008, p.20)

As afirmações são aplicadas no contexto do mundo da educação, mas, na vida cotidiana, poderíamos ampliar a lista, sem esquecer que muitas dessas premissas são construídas pelos meios de comunicação de massa e acabam ganhando um grau de verdade inquestionável:

(1) Política não presta; político é tudo corrupto; 
(2) Se passou na televisão é por que é verdade; não há o que se discutir;
(3) A violência é um problema que é resolvido pela presença da polícia;
(4) Os menores são os responsáveis pela violência nas grandes cidades;
(5) O Brasil é um país que não dar certo; nada presta por aqui;
(6) Comunismo, marxismo e socialismo são símbolos de ditaduras; 
(7) Manifestação ou reivindicação social é um movimento orquestrado por "vândalos" e "vagabundos";
(8) Você é capaz de ter sucesso na vida; para isso é só se esforçar que você consegue;
(9) Só é pobre quem quer, pois é só trabalhar;
(10) Deus sempre ajuda aquele que ora;
(11) O mundo sempre foi assim; não tem como mudá-lo; 
(12) "Sou brasileiro e não desisto nunca";
(13) Somos uma democracia racial; 
(14) A desigualdade social é um problema de gestão;
(15) O mundo pode ser "consertado"; para isso, basta eu fazer a minha parte; 

A lista poderia continuar. Esses são apenas algumas frases que me ocorreram. Kosik ainda afirma: "A alienação da cotidianidade reflete-se na consciência, ora como posição acrítica, ora como sentimento do absurdo. Para que o homem possa descobrir a verdade da cotidianidade alienada, deve conseguir dela se desligar, liberá-la da familiaridade, exercer sobre ela uma "violência"".(p.78). Por violência, entenda-se a capacidade de "ver a própria face e conhecer o próprio mundo", destruindo de uma vez por todas a naturalização - a pseudoconcreticidade. 

quinta-feira, agosto 28, 2014

Diários de Motocicleta e "o outro lado do rio"

E não haveria ação humana se não houvesse uma realidade objetiva, um mundo como "não eu" do homem, capaz de desafiá-lo; como também não haveria ação human se o homem não fosse um "projeto", um mais além de si, capaz de captar a sua realidade, de conhcê-la para transformá-la. Paulo Freire in Pedagogia do Oprimido.

Há alguns sábados atrás eu assisti, pela terceira vez - talvez -, ao filme Diários de Motocicleta (2004), do brasileiro Walter Salles. Após ter visto o filme e refletido sobre ele, não consigo tirá-lo de minha cabeça. Não consigo me deslindar dos temas profundos e ao mesmo tempo pela beleza plástica das cenas, que têm uma preocupação de mostrar o continente sul-americano. O filme nos conta a história do jovem Ernesto Guevara, que mais tarde seria conhecido como "Che". 

Estudante de Medicina e filho de uma família de classe média argentina, Ernesto decide fazer uma viagem de moto ao lado do seu amigo Alberto Granado, repleta de metáforas políticas e existenciais que definiriam o seu futuro. Aquilo que no início era apenas um intento juvenil aventureiro, aos poucos vai mudando quando os jovens companheiros entram em contato com as mais destacadas e imorais explorações e misérias. Empresas estrangeiras se apropriam das riquezas minerais do continente e, para isso, exploram os trabalhadores que vivem em uma situação de penúria. São expulsos de suas terras. Ficam sem moradia. E são forçados a marcharem errantes de braços dados com a incerteza. Isso se dá, por exemplo, em regiões campesinas do Peru. As injustiças perpetradas contra os indígenas emociona. O drama de famílias que são separadas pela miséria, vai lapidando o olhar do jovem Ernesto. 

Um dos momentos mais bonitos e simbólicos do filme acontece quando Ernesto e Alberto conversam, após terem chegado a um lugar onde se internam pessoas leprosas. O lugar era cuidado por religiosas católicas. Havia o rio que se interpunha entre as pessoas que não tinham lepra e aqueles que eram portadores da enfermidade. O diálogo se dar da seguinte forma:

- Viu o rio? - diz Ernesto.
- Claro. - responde o seu amigo. Ao que Ernesto acrescenta:
- Ele separa os doentes dos sãos.

Mais tarde, quando os habitantes da comunidade ribeirinha resolvem fazer uma festa de despedida para os dois amigos que haviam auxiliado de forma fantástica os doentes do lugar, o jovem argentino diz as seguintes palavras: 

Apesar de nossa insignificância para sermos porta-vozes de vossa causa, acreditamos, e depois desta viagem com mais firmeza ainda, que a divisão da América em nacionalidades vagas e ilusórias, é totalmente fictícia. Constituímos uma única raça mestiça do México até o estreito de Magalhães.E, assim, me despindo de qualquer provincialismo, eu brindo pelo Peru. E pela América unida. 

Trata-se de um dos momentos mais bonitos do filme. É quando a opção, a escolha do jovem aventureiro se enquadra. É noite e Ernesto deixa a comemoração e sai para ver o grande rio. O amigo Alberto o segue. E aqui encontramos a decisão ontológica necessária. Fuser, como era chamado pelo amigo Alberto, pergunta: 

- Sabe onde está o barco? O amigo responde:
- Não, não estou vendo.
- Vou comemorar meu aniversário do outro lado. - completa o jovem Che.

Esta fala completa a sua percepção. E aqui notamos o compromisso histórico assumido em favor dos injustiçados, dos doentes, dos que não são. Florestan Fernandes costumava dizer que só existem duas posições em política: ou se está ao lado dos oprimidos ou se está ao lado dos opressores. A via do meio é a via da omissão histórica; é a via do pequeno burguês metido em seu medo crônico, em seu conservadorismo tacanho e reacionário. 

A escolha subjetiva se faz a partir de uma relação dialética com a realidade. Não se pode pensar em objetividade sem subjetividade. Os homens necessariamente, no dizer de Paulo Freire, atuam correspondentemente por meio da "relação dialética subjetividade-objetividade". O meu olhar se faz a partir da relação que tenho com o mundo objetivo. A reflexão libertadora acontece quando percebo a minha práxis, a minha prática, sobre a história a fim de que a minha ação seja capaz de romper a barreira entre opressor e oprimido. Ou como dizia Marx: "O critério de verdade é a prática". 

Quem não experimentou, visualizou ou testemunhou a contradição existente na sociedade, jamais sairá do subjetivismo e do objetivismo, como dizia Paulo Freire. O primeiro é a "objetividade dicotomizada da subjetividade"; e o mesmo fenômeno se dá com o subjetivismo. Ora, quem faz uso do objetivismo e do subjetivismo cai em um simplismo ingênuo, incapaz de reconhecer a contradição posta na história. Dizer que "o rio separa os doentes dos sãos" é identificar a "rachadura" que existe no mundo social. E mais tarde dizer: "vou comemorar meu aniversário do outro lado", é tomar uma decisão ontológica baseado na dialogicidade entre o objetivo e o subjetivo.

Quando penso nisso, entendo o porquê de muita gente ter raiva do socialismo, do marxismo ou do comunismo. Pois, estes sistemas entendem que existem leis que regem a materialidade. Que a realidade não é construída apenas com subjetivismos inconsequentes e apressados ou com objetivismos pragmáticos, apenas.

E, ao final do filme, encontramos a maravilhosa música do uruguaio Jorge Drexler, que tenho escutado como nunca nas últimas semanas. Há algumas semanas atrás corri doze quilômetros ouvindo repetidamente essa música. Chorei diversas vezes. E, assim, vamos treinando o nosso olhar e lançando os remos no lago. Abaixo a bela música - Al otro lado del rio.


quinta-feira, abril 17, 2014

Uma bela confissão de Eric Hobsbawm

 
Os meses que passei em Berlim me tornaram um comunista para o resto da vida, ou pelo menos me transformaram em alguém cuja vida perderia a natureza e o significado sem o projeto político a que se dedicou quando estudante, ainda que visivelmente esse projeto tenha falido - e, como agora sei, somente poderia falir. O sonho da Revolução de Outubro ainda está em algum lugar dentro de mim, assim como um texto apagado no computador lá permanece, à espera de que o técnicos o recuperem dos discos rígidos. Abandonei-o, ou melhor, rejeitei-o, mas não foi eliminado. Até hoje me vejo tratando a memória e a tradição da União Soviética com uma indulgência e ternura que não sinto em relação à China comunista, porque pertenço à geração para a qual a Revolução representava a esperança do mundo, o que nunca foi verdade quanto à China. A foice e o martelo da União Soviética eram seu símbolo. Mas o que poderia ter transformado aquele menino de escola de Berlim em comunista?

Hobsbawm.Eric, Tempos Interessantes. Companhia das Letras, São Paulo, 2002. p. 73

quinta-feira, fevereiro 06, 2014

O anti-esquedismo nosso de cada dia

Li há pouco o artigo de opinião do jornalista  José Antonio Lima, da Carta Capital, sobre o medo do comunismo no Brasil. E gostei bastante do texto. Ele faz cinco apontamentos sobre o medo saliente, que ainda vigora por aqui, sobre uma suposta "invasão comunista" em nosso país tão combalido. Existem alguns elementos que, com certeza, corroboram para a manutenção e sustentação desse estado de coisas. Afinal, somos um país imensamente conservador. Por aqui, historicamente, foi feito um trabalho de desqualificação dos movimentos sociais. Um forte empreendimento da mídia, a serviço dos interesses daqueles que estão no poder, para que os trabalhadores não entendam a sua condição.

Não houve na história do Brasil revoluções sangrentas. Conflitos dramáticos. O nosso Estado sempre esteve a serviço das elites. Como diz Caio Prado Júnior, o nosso país não passou por "rupturas" que trouxeram compensação e liberdade para os pobres. E, atualmente, existe uma estandardização, uma homogeneização forçada por parte do capital. O "homem burguês", nomenclatura sugerida por Leandro Konder em seu excelente livro "Os sofrimentos do homem burguês", fazendo uma referência intertextual explícita ao famoso romance de Goethe, "Os sofrimentos do Jovem Werther", é um sujeito domesticado, docilizado, por uma falsa impressão de que é livre. Sua função é consumir mercadorias, que são produzidas para gerar expectativas e fetiches. 

A onda anti-esquerdizante que ultimamente tem acometido o Brasil é resultado da ausência de um acerto de contas com a nossa história, como sugere o colunista da Carta Capital. Costumo acompanhar os comentários em fóruns, em blogs, em textos de opiniões, em vídeos do Youtube e tenho me impressionando com o reacionarismo raivoso que vigora em nosso país. O anti-esquerdismo se vincula a um antipetismo, que leva a rechaçar qualquer referência às ideias de Marx. Tornam-se cada vez mais famosos conservadores radicais e fascistas como Olavo de Carvalho e Rachel Sheherazade. O olavismo está cada dia mais forte. Seu famigerado livro, "O mínimo que você precisa saber para não ser um idiota", vende como água. Outro livro, "Esquerda Caviar", de Rodrigo Constantino, tem feito salivar a boca dos empedernidos radicais. Ou ainda "Porque virei à direita", livro cuja propaganda alardeia o porquê de três "intelectuais" (João Pereira Coutinho, Luiz Filipe Pondé e Denis Rosenfield) terem deixado a esquerda. Os argumentos de obras como as citadas não estão pautadas em uma análise dialética dos fatos, criticamente, historicamente. A arma da esquerda é a análise pautada no materialismo histórico dialético; a, da direita, a análise moral e cultural da história. O corte é feito em cima de supostas situações causadoras de constrangimentos para a esquerda como, por exemplo, os milhões de mortos pelo regime stalinista; o regime cubano; o muro de Berlim; o governo da Coreia do Norte, etc. Ou seja, a estandardização é absoluta. Não se quer saber se tais eventos estão ligados à teoria de Marx. Joga-se fora a criança e a água suja da bacia. Não se separam os fatos. 

Protesto dos chamados black blocs, que são os filhotes da pós-modernidade
Cada vez mais vemos nascer um radicalismo perigoso que isola a proteção aos direitos sociais, os códigos internacionais que explanam os direitos humanos e que nos tornam ainda humanos - e próximos um dos outros. A mídia tem feito um trabalho de criação de um espírito de hecatombe. É como se vivêssemos no pior dos mundos. É como se já experimentássemos aquele evento bíblico-mágico: o armagedom. Vivendo em cidades cada vez mais cheias e carregadas de problemas, o homem burguês sofre com a própria sociedade que ele ajuda a criar com o seu sangue. Não percebe que a mudança desse estado só é possível com a transposição ou a superação desse estilo de vida que foi criado. Em nosso país não é diferente. O grande problema é que nos aproximamos cada vez mais de um tipo de radicalismo perigoso: que é o fascista, aquele que não é capaz de reconhecer o outro como um igual. Aproximamo-nos cada vez mais da barbárie.

O ano passado vi esse trio em frente ao Palácio do Planalto com um cartaz que rezava: "Intervenção Militar já!! O Brasil exige ordem e progresso". Nada mais perigoso: unir militarismo e positivismo.
Somos uma democracia frágil. A burguesia brasileira sente-se atingida com os governos de Lula e Dilma, pois sempre idolatrizou o modelo dos países centrais - não quero fazer defesa ao governo do PT, pois entendo que o Partido dos Trabalhadores se afastou em muito de sua agenda histórica. Por sua vez, a classe média brasileira é admiradora daqueles que ditam as regras do jogo. É aquilo que Paulo Freire costumava dizer: "O sonho de todo oprimido é tornar-se opressor". A ditadura militar fez um trabalho de domesticação muito eficaz em nosso país, criando um espírito anti-esquerdista. Desmobilizou a nossa resistência à opressão. Criou um medo falso de que comunista é aquele que comia criancinhas; eram sujeitos feios e barbudos; e que trariam a desordem ao mundo. Em seu delírio cego para rechaçar as intenções políticas de João Gourlart, que era um suposto comunista para eles, acabou por criar um espírito de desconfiança ante tudo aquilo que se diga de esquerda. Hoje ainda temos essa imagem. O PT sempre foi associado a isso, apesar de não ser um partido comunista. O PT é, no máximo, aquilo que poderíamos chamar de partido social-democrata. Suas intenções iniciais talvez tenham sido "vermelhas", pois foi um partido que surgiu do seio dos movimentos sociais. E uma das "broncas" da classe média é, justamente, a associação do PT com comunismo. Ela não consegue aceitar esse fato, sem atentar para a lavagem cerebral histórica da qual é vítima.

Somos ainda uma sociedade confusa. A mídia e as redes sociais ajudam construir essa atmosfera de desordem. Não sabemos nos reconhecer. Existem muitas opiniões que saltam do lugar comum. E todas elas servem para alimentar aquilo que mais nos destrói: a nossa ignorância histórica. A nossa falta de visão para enxergar de onde vem o problema - a saber, do próprio capitalismo. Socialismo, conforme pensado por Marx, não é ditadura, é humanismo, bom senso e equidade. E como precisamos disso em nosso país!

domingo, outubro 20, 2013

Dois filmes - A Culpa é do Fidel(2006) e Serra Pelada(2013)

(1) Passei uma semana em casa. A escola onde trabalho deu uma semana de recesso. Consegui descansar um pouco da labuta asfixiante. Amanhã, voltarei ao trabalho, rumo ao final de mais um ano letivo. Aproveitei, assim, a semana para ver alguns filmes. Entre eles, pude ver o excelente A culpa é do Fidel (2006), de Julie Gavras, filha do mitológico diretor grego Costa Gavras. O filme retrata a história de Anna (Nina Kervel) que quer compreender todo o celeuma político em que sua família está envolvida. Ela não se contenta com explicações parciais. Quer entender como os adultos que a cercam tratam as questões políticas. Quer saber o que é aborto, comunismo, solidariedade; o porquê dos homens lutarem por determinadas causas; o porquê de ser proibido cultuar determinada religião. A história se passa em Paris, no início dos anos 70, mas o pano de fundo é a luta contra o general Franco e a eleição de Salvador Allende, no Chile. O nome da obra - A culpa é do Fidel - já nos insere nesse universo de conflito contra a ética do socialismo e o mundo infantil. Nesse sentido, após tê-lo visto, fiquei com a certeza de que ele deve ser colocado ao lado de dois outros excelentes filmes, que retratam crianças como sendo o eixo que estabelece uma crítica - Pequena Miss Sunshine (2006) e A Língua das Mariposas (1999).

(2) O cinema nacional desde o alvorecer do século XXI tem realizado em média setenta produções por ano. Algumas dessas produções são medíocres; outras, nem tanto. É curioso que se no passado investíamos no gênero pornochanchada, mudamos substancialmente para outro apelo estético. As produções que se efetivaram como sucesso de bilheteria, foram aquelas que se fixaram na violência com ramificações gângsteres. Cidade de Deus, Cidade dos homens ou Tropa de Elite são exemplos bem chamativos daquilo que pode ser conhecido como estética da favela ou estética da fome. É um tipo de realismo que foca a miséria e a violência nossa de cada dia. É como se essas produções preenchessem um fetiche de nosso inconsciente coletivo. Ou de nossos medos mais extremos. Aquilo que tememos que nos ocorra no espaço secular da rua, enche nossos os olhos quando assistimos a isso no cinema ou na redoma sagrada e inviolável do lar. 

Na sexta, 18, por exemplo, fui assistir à estreia de Serra Pelada, de Heitor Dhalia, que já havia feito o excelente O Cheiro do Ralo, em 2007. Em O Cheiro do Ralo, Dhalia havia fugido dos convencionalismos e se fiado pela boa criação da ficção que nos enche os olhos. Em Serra Pelada, Dhalia resgatou uma das páginas mais dramáticas da história recente do Brasil, o garimpo de Serra Pelada, no estado do Pará, coração da Floresta Amazônica. O munícipio de Curionopólis, sul do estado do Pará, protagonizou uma corrida ao ouro no início dos anos 80. Estima-se que 30 toneladas de ouro foram extraídos do maior garimpo a céu aberto do mundo. Muitos brasileiros de todas as regiões do país correram em busca do tão propalado ouro. Muitos enriqueceram, mas outros continuaram pobres e tiveram seus sonhos enterrados pelas dificuldades materiais.

É justamente a partir dessa temática que o bom elenco de Serra Pelada recria o cenário. Juliano (Juliano Cazarré) e Joaquim (Júlio de Andrade) são os protagonistas, contando ainda com atores como Sophie Charlote (Tereza), Wagner Moura (Lindo Rico) e Matheus Nachtergaele (Coronel Carvalho). A obra recria o cenário do garimpo e nos joga numa trama na qual ganância, poder e violência vão sendo desenrolados como a lã de um novelo. Juliano torna-se uma espécie de Don Corleone da selva. Vai criando tentáculos a partir da sede que é despertada pela vontade de mais poder. E nesse sentido a obra nos alerta para os elementos psicológicos que fazem parte do mundo humano. Ou seja, como lidamos com o poder e quais são os caminhos construídos para se chegar até ele. Outro aspecto importante é o mundo marginal que existe em torno do garimpo - prostituição, violência, tráfico de drogas, homossexualismo, hedonismo como resultado do ganho fácil do ouro. O filme ainda nos aponta o fato de que nos tornamos reféns de circunstâncias que estão para além do nosso controle.

Embora reproduza a estética da miséria e da violência, criando uma trama hollyoodiana, a obra é significativa por retratar um evento importante da história do Brasil recente e trabalhar com aspectos tão singulares do mundo humano.