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terça-feira, janeiro 26, 2021

Franco Berardi - uma entrevista

 


“Minha resposta é devagar com o andor: a vitória da esquerda na Bolívia e o referendo no Chile são acontecimentos políticos pequenos diante da extrema-direita. Trump pode não ganhar, mas está ganhando ainda assim: o fato de um monstro, fascista e racista, ter milhões de votos nas eleições estadunidenses significa que a extrema-direita ainda é forte e significa que a esquerda não está forte o bastante para realmente representar interesses dos jovens, latinos e negros. Esta é a realidade”.

 

“Na década de 2000, com a ascensão de governos como [Michelle] Bachelet no Chile, Lula no Brasil, [Evo] Morales na Bolívia, a América Latina estava mudando. Fiquei feliz, obviamente – melhor um Lula do que um Bolsonaro. Mas, sinceramente, não esperava muito da esquerda no poder, porque penso que estamos partindo de conceitos datados de mais de 200 anos, esquerda, extrema esquerda, social democratas… Na verdade, não acredito que um governo possa mudar radicalmente as coisas, pois está debaixo das regras do mercado financeiro internacional, uma ditadura global. Um governante pode mudar um pouco no nível nacional, mas há tantas limitações que, cedo ou tarde, vai desapontar”.

“O que quero dizer é que não é a política tradicional que vai equilibrar a relação entre tempo, trabalho e dinheiro a partir de regras arbitrárias de um macroprojeto de totalidade, mas os milhões de corpos que têm necessidades concretas para viver, respirar, comer, enfim, que essencialmente não deveriam ter nada a ver com ter dinheiro ou não”.

“Precisamos de comida, carinho, prazer, sensibilidade, solidariedade, tudo o que nos torna humanos. Precisamos sobreviver à pandemia para rever, beijar e abraçar as pessoas. Foi a lição mais importante que aprendi nos últimos tempos”.

 

Estes são alguns trechos interessantes da entrevista realizada com o filósofo italiano Franco Berardi, disponível no portal do The Intercept. Berardi que se classifica como um marxista não-dogmático, propõe importantes reflexões sobre a atual condição do ser humano sob o neoliberalismo – e os efeitos deletérios disso – e o desafio de pensar uma outra proposta de mundo, caso a espécie humana não queira sucumbir diante da barbárie. Essas ideias estão precisamente delineadas no livro “Extremo”, lançado por ocasião da pandemia do novo coronavírus.

             Berardi entende que o dramático cenário atual permitiu a realização de importantes reflexões. O modo como a economia global é conduzida, o modelo de sociedade que é construída a partir disso, cria antagonismos que serão insolúveis e que levarão o planeta ao colapso. O capitalismo está morto como modelo civilizatório, mas ainda produz efeitos danosos. A sua ética é pensada e reproduzida, o que só gera desigualdade, pobreza, dominação e o esgarçamento dos recursos naturais. 

            A alternativa seria a refundação de uma nova proposta civilizatória. E, nesse sentido, nada mais necessário do que o socialismo. Não aquele socialismo maquinal experimentado pelo regime soviético. Um socialismo criativo, que repense o que é o consumo, o que é a exploração da natureza; o que são as relações humanas; a administração do tempo.

            Dois outros livros do filósofo são citados: “Asfixia” e “Depois do futuro”.

            Excelente.

 

 

terça-feira, fevereiro 11, 2020

"O Parasita" e a crítica às verticalidades


 
Sou um crítico do festival do Oscar. Todo início de ano, há uma imensa propalação do evento, como se este referendasse o que foi produzido em matéria de cinema. As produções indicadas são alçadas ao panteão insofismável das obras definitivas. Na minha limitada maneira de ver, apenas alguns dos filmes indicados podem ser colocados no rol das grandes obras. Há muito Hollywood e, em muitos casos, pouco cinema nessas obras. Resumindo: o Oscar é um festival feito para as produções estadunidenses. O objetivo é robustecer o imperialismo daquela sociedade, ou seja, sua indústria cultural.

Há cinema de qualidade sendo produzido em outros locais do Globo. Mas, num aceno de máxima sensatez, até mesmo os enfunados norte-americanos parecem reconhecer isso. Essa tese pode ser fortalecida com a concessão que foi feita ao excelente filme sul-coreano O Parasita (do diretor Bong Joon-ho), uma obra provocante e de grande qualidade; rica em metáforas; em possibilidades temáticas; repleta de simbolismos; e detalhes psicológicos, sociológicos, filosóficos, econômicos, urbanísticos etc.

Primeiramente, é preciso dizer que O Parasita é uma experiência perturbadora. O filme nos passa a ideia inicial de uma comédia de mal gosto. Aos poucos, vai ganhando contornos dramáticos. Até ganhar cintilações trágicas. À medida que as cenas se desenrolam, há uma mal-estar provocado pela esperteza da família. São verdadeiros “parasitas” no sentido mais elementar. Aproveitam-se de um hospedeiro para extrair-lhe os nutrientes. Alimentam-se do organismo alheio, fazendo disso uma ação necessária, fundamental. Ignoram a condição do hospedeiro. Pensam apenas na satisfação de suas necessidades. Parasita é um nome forte, repleto de efeitos.

Um pai de família pobre, juntamente com a esposa e dois filhos (um casal), se equilibram financeiramente. Nesse sentido, há uma crítica sendo feita ao modo de organização social da, aparentemente, rica Coreia – ao contrária de sua irmã do Norte. A família vive em um espaço, como se fosse inseto, abaixo da superfície da rua, em Seul, capital da rica Coreia do Sul. A alimentação é irregular. Na luminosa e tecnológica Coreia, eles não têm serviço de wi-fi. Precisam capturar a senha dos estabelecimentos que oferecem o serviço gratuitamente aos clientes. Recebem os dejetos dos bêbados que urinam na rua.

Surge uma oportunidade para que um dos filhos da família desse aulas de inglês para a filha de uma família rica. É justamente nesse ponto que acontece o salto imaginativo e malandragem da família. Todos os integrantes da família assumem funções na casa da rica família após eliminarem os obstáculos de forma insensível. Os desdobramentos são os mais inusitados possíveis, tornando O Parasita uma obra cujas possibilidades da fantasia e do inverossímil são usados em doses certas.

É possível afirmar que as escadas possuem uma função fundamental na produção de Bong. Há um trabalho constante com a verticalidade. Há uma cena emblemática no filme que nos remete à metáfora da estruturação das sociedades capitalistas. Após uma chuva terrível que causa prejuízos inestimáveis para os pobres moradores das periferias da capital sul-coreana, o pai e os dois filhos descem uma escadaria. A cena sugere que eles sempre descem: do bairro rico para o bairro pobre; do ponto alto para o ponto baixo; do limite da rua, para a caserna onde moram. Trata-se da representação do esquematismo das classes sociais sob o capitalismo, fazendo lembrar a música do Chico Sciense e Nação Zumbi, A cidade.  “A cidade não para/ a cidade só cresce/ o de cima sobe/ e o debaixo desce”.

O Parasita ganhou o Oscar de melhor filme do ano de 2019. Até mesmo a autossuficiente Hollywood se dobrou diante da beleza e do emblematismo da obra.  Os americanos sempre defensores de que estão no ponto mais alto entre todas as sociedades globais, tiveram que descer à superfície e perceber que há outros olhares, além dos deles.

segunda-feira, outubro 21, 2019

O neoliberalismo é uma bomba prestes a explodir - o caso chileno

Vista de Santiago. Ao fundo, a Cordilheira dos Andes 
Estive no Chile em julho de 2015. Tenho boas lembranças de lá. Passei cinco dias na capital do país, Santiago. Além de Santiago, tive a oportunidade de ir à moderna - e com aspecto de balneário - Viña del Mar. Foi de lá que guardei as primeiras imagens do Oceano Pacífico. Pude sentir as suas frias águas. Depois, desloquei-me com a minha esposa à vizinha Valparaiso, que se espalha, derrama-se, por uma colina e passa a impressão de que está tentando fugir das águas do grande Oceano. Valparaiso é uma cidade evocativa. Suas ruas abrigam belas páginas da história do país. Nela podemos encontrar uma das residências do maior ícone literário do país, o poeta Pablo Neruda. Há um um dos principais portos da América Latina. No passado, já foi um dos mais importantes do mundo. 

O Chile passou a impressão de que possuía um modelo que funcionava. Para o observador comum, trata-se de um país bonito e aparentemente organizado. A modernidade chegou à cidade de Santiago. Há prédios enormes e espelhados. Os engarrafamentos são atordoantes ao final do dia. As ruas ficam repletas de estudantes e pessoas de todas as idades que caminham em meio aos carros. Os ônibus longos passam liberando nuvens de um fumaça escura. O metrô possui inúmeras linhas segmentadas por cores e atravessa toda a cidade. Tive a oportunidade de ir a vários locais utilizando esse meio de transporte. Os chilenos são simpáticos e dão mostras de que trabalham bastante. Há uma quantidade grande de bancos espalhados pela capital. As construções públicas misturam a estética latino-americana ao rigor da modernidade de qualquer grande cidade do mundo. 

Certa vez, escutei o ex-jornalista da Rede Globo Alexandre Garcia incensar, com babosos elogios, a economia chilena e os avanços sociais do país (sic.). Já tive a oportunidade de conversar com algumas pessoas que defenderam o modelo do Chile para que fosse adotado pelo Brasil. O que paira no senso-comum é a noção de que o Chile é uma ilha, uma espécie de oásis  na desigual e caótica América Latina. O país estaria bem à frente dos outros países do continente. As pessoas por lá seriam mais felizes e haveria uma forte promoção de bem-estar no país que consolidou a racionalidade econômica de mercado em toda a sociedade. 

O atual governo brasileiro, do alto de sua inabilidade administrativa e de sua sanha privatista, possui um entusiasta do modelo chileno. O banqueiro especulador e, depois, ministro da fazenda Paulo Guedes, um dos "cérebros" pavimentadores da lógica econômica do bolsonarismo, foi um dos articuladores do modelo chileno. No final dos anos 70 e início dos anos 80, durante a Ditadura de Pinochet, Guedes e outros economistas neoliberais da chamada Escola de Chicago fizeram do país um laboratório para as investidas privatistas, que desarticularam toda a política social do estado chileno, entregando-a aos especuladores do mercado. Ou seja, o mesmo que o bolsonarismo pretende aplicar no Brasil, se não houver uma reação popular por parte dos trabalhadores. No entanto, acontece que a bomba social não estoura de imediato. Passam-se anos até que os dejetos dessa política deletéria sejam produzidos. 

O que acontece é que começaram a chegar notícias de insatisfações por parte dos chilenos. Desde sexta-feira passada, que o país enfrenta ondas pesadas de protestos. O país não é um oásis como se pensava; é um grande deserto para boa parte das pessoas. Não há a satisfação de uma social democracia no país, mas padrões neoliberais aplicados em todos os setores da vida. 50% da população vive com menos que um salário mínimo. Os serviços públicos são quase inexistentes.  As universidades são públicas, mas quem quiser frequentá-las, precisa pagar mensalidade. Ser público não significa ser gratuito, como acontece no Brasil. Não há um SUS como no Brasil, pois a saúde também é paga. O fato de ser paga não garante que é de qualidade como, infelizmente, reza o senso comum no Brasil. Os planos de saúde são caríssimos no país. Ficar doente ou precisar de uma intervenção mais cara, significa ficar por muito tempo endividado. Há como que uma proibição de se ficar doente. Os direitos trabalhistas foram "destruídos". Não existe uma proteção aos trabalhadores. 

Os patrões se veem cada vez mais empoderados, porquanto a legislação não favorece a parte mais fraca da relação. Os sindicados são "inofensivos". A legislação permite a existência de milhares de sindicatos. Por exemplo, é possível que para uma categoria existam de 30 a 50 sindicatos. Os patrões negociam com aqueles que estejam rendidos aos interesses dos próprios patrões. Não há poder de barganha. As aposentadorias não fazem parte de um fundo público, como no Brasil que possui uma autarquia pública (INSS) para gerenciar essas aposentadorias e pensões. Na verdade, o que existe no Chile é uma entidade do mercado que gerencia os valores descontados dos trabalhadores e se utiliza disso para aplicar no mercado por meio de especulações. Geralmente, quem está a serviço da administração desses fundos, é donos das entidades do setor financeiro - bancos etc. Então o que se dá é que o dinheiro dos trabalhadores é utilizado pelo mercado para gerar mais dinheiro para o rentismo. Quando se aposentam, os trabalhadores se veem numa condição de penúria. O número de suicídios entre os idosos é recorde na América Latina. 

Pintado esse quadro, é possível intuir o porquê dos manifestos existentes no Chile. O que acontece é que isso próprio de experiências neoliberais, que ao invés de produzir bem-estar e riqueza social para o povo, produz riquezas para um grupo de apaniguados gananciosos; que aplicam receitas empobrecedoras e geradoras de miséria para boa parte de uma sociedade. A lógica do capital sob o signo do neoliberalismo é produzir ganhos incalculáveis para uma porcentagem pequena do setor financeiro. O neoliberalismo produz a depauperação do trabalhador, deixando-o desprotegido e, se possível, na informalidade. Sua especialidade é a ampliação das desigualdades sociais e, com isso, os conflitos tornam-se inevitáveis. É como vemos no Chile, no Equador e, logo mais, no Brasil. 

Alguns dados fora tirados daqui

domingo, março 31, 2019

Wall-E, mais que uma animação


Já perdi as contas de quantas vezes assisti à animação Wall-E. Como costumeiramente faço, fragmentei os 97 minutos do filme em duas ocasiões, com intervalo de uma semana entre uma metade e outra. A correria da vida me obriga a isso. Somente assim, consigo realizar um dos meus maiores prazeres: acompanhar a sétima arte.


                Wall-E apresenta mais do que mostra. Verdadeiramente, não é um filme para crianças. Ele traz uma série de questões sérias, tratadas com muita sensibilidade. A tomada panorâmica da cena que inicia o filme já é uma obra de arte.  Wall-E é um robozinho simpático, responsável por compactar lixo. Em mundo distópico, no de 2.700, o Planeta Terra é um grande lixão a céu aberto. A humanidade foi obrigada a sair do Planeta e viver numa estação espacial (a Astom) por um período de cinco anos, enquanto a limpeza estava sendo feita. Torres de lixo se agigantam por todos os lados. Espigões taciturnos se equilibram no ambiente cinzento. Prédios abandonados. Terra seca. Uma paisagem estéril de vida. Não há árvores nem água. Apenas os restos daquilo que fez parte do mundo de consumismo humano. Superfluidades e necessidades criadas. 

                Restou ao autômato robozinho realizar a tarefa de organizar o caos. Diariamente, ele e uma única companheira existente, uma barata, (uma referência clara à resistência do famoso inseto), realizam uma tarefa aparentemente inexpugnável. Ou seja, numa batalha ou numa catástrofe com efeitos globais, a barata é um dos poucos seres a resistirem à intempérie. De tempos em tempos, um robô é enviado para inspecionar a possibilidade de existência de qualquer forma de vida. Observa-se a recuperação do Planeta. A expectativa é que uma vez que as condições de vida tenham sido restabelecidas, que os humanos voltem a habitar o Planeta.

                Eva surge em meio a esses acontecimentos. Ela é um modelo altamente sofisticado. Possui recursos bastante diferentes daqueles que possui Wall-E. Sua visita segue o protocolo de todos os outros robôs com o seu modelo que já visitaram o Planeta: encontrar uma forma de vida. Wall-E apaixona-se por ela. Eva (outra clara referência a uma personagem mítica, segundo a Bíblia, a mãe de todos os seres humanos) não demonstra qualquer sentimento(sic.) pelo robozinho. Após visualizar uma plantinha, anteriormente  descoberta por Wall-E, Eva entra numa espécie de auto-hibernação. 

                Após ser resgatada pela espaçonave que a enviou, Eva volta a Astom. Mas, Wall-E resolveu, com seu espírito de curiosidade, seguir a robozinha. À bordo da Astom, inúmeros episódios acontecem com Wall-E e sua admirada Eva. Em outra referência a Isaac Isimov, descobre-se que o responsável pelo controle, pela manipulação para que os humanos continuassem naquela condição era o computador central da Astom. Ele procura controlar as ações da nave, impedindo que os humanos retornem ao Planeta Terra. Há ainda outra referência ao computador central Hall, de 2001: Uma odisséia no espaço (de Stanley Kubrick) que é evocado. Há ainda o trecho inicial da obra Assim falou Zaratustra, do compositor alemão Richard Strauss. 

                Outro importante elemento intertextual é relação entre Wall-E e Chaplin. Wall-E é um herói atrapalhado e simpático. Ele possui aquele charme que é impossível de não ser admirado. Apaixonamo-nos facilmente por esse tipo de personagem. Existe uma bondade intrínseca. Filmes como O garoto ou Tempos Modernos, geram uma admiração pelas suas qualidades imortais. Nessas obras, percebemos a genialidade de Chaplin. Wall-E é a contraparte de Carlitos. É o herói apaixonável. O robozinho compactador é a bondade personificada. 

                A película trata de uma série de questões que são dignas de debate. Há claras insinuações sobre a relação do ser humano com o consumo e a produção de descartes. O lixo é um fenômeno necessariamente do mundo humano. Na natureza, tudo se transforma. Não há que se considerar a produção de lixo como algo natural. Os resíduos são humanos – sejam eles líquidos, sólidos ou gasosos.

                Segundo o Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (Pnuma), em 2025, haverá um salto de 1,3 bilhões de toneladas para 2,2 bilhões de toneladas de lixo. A população do Planeta aproxima-se dos oito bilhões de pessoas, sendo que a classe média mundial pode chegar a cinco bilhões. O crescimento da quantidade de eletrônicos cria problemas. Por ano, são descartadas 45 milhões de toneladas de material eletrônico. Além do objeto em si, vale mencionar os elementos químicos que contaminam o solo, rios e mares. Segundo reportagem do site O Globo, a quantidade de plugues, tomadas, televisões, computadores, baterias de celulares, celulares, painéis solares seriam suficientes para formar uma linha reta entre Nova York (EUA) e Bangkok (Tailândia). A estimativa é que, em 2021, chegue a 52,2 milhões de toneladas de lixo eletrônico. O crescimento segue uma lógica progressiva. Quanto mais rico é o país, maior é a sua produção de lixo. Quase metade do lixo produzido no mundo é derivado de trinta países, os mais ricos do mundo. A maior parte dos países tidos como desenvolvidos produzem cerca de 600 quilos de lixo per capita. Segundo o Banco Mundial, o índice per capita de produção de lixo dos países ricos aumentou 14% desde 1990 e 35% desde 1980.  Em 2010, segundo a agência de Proteção Ambiental daquele país, 34 milhões de toneladas de sobras de comida foram jogadas em lixeiras. Trata-se de uma tendência mundial. No Brasil, o número do desperdício alimentar também chega próximo a isso. 

                Gera-se um elevado custo ambiental com toda essa produção de resíduos. O Planeta não comporta tão grande acúmulo de lixo. 800 milhões de toneladas de lixo são jogadas em aterros sanitários. Ou seja, desenha-se um cenário em que medidas necessárias e urgentes devem ser tomadas. As futuras gerações arcarão com um preço altíssimo pelo consumo elevado sem uma política efetiva por parte dos governos. 

                Outra questão importante debatida no filme é o sobrepeso em decorrência de uma alimentação inadequada. Os humanos após terem ficado por muitos séculos sentados, sedentários, alimentando-se de forma irregular, engordaram. Vivem frivolamente. Tudo o que desejam conseguem com facilidade. Os desejos estão ao alcance da fala. O computador central realiza todas as ações.  A inércia fez com que, ao longo do tempo, eles tivessem a estrutura óssea comprometida. Não conseguem, pois, ficar de pé. Sustentar a própria estrutura corporal. 

                Uma das constatações da atualidade é a quantidade de pessoas obesas ou com sobrepeso no mundo. Estudos da Universidade de Washington, nos Estados Unidos, mostraram que 2,2 bilhões de pessoas (cerca de 30% da população mundial) são obesas ou estão com sobrepeso. De acordo com o mesmo estudo, há cerca de 700 milhões de obesos. Desses, 100 milhões são crianças. No Brasil, estima-se que 78% das crianças não praticam quantidade de exercícios exigida pela Organização Mundial. Estão cada vez mais sedentários por conta da mudança do estilo de vida (violência, crescimento do individualismo etc) e a acentuada exposição às tecnologias. Não há a incorporação de atividades físicas ao cotidiano. Uma pessoa normal precisa caminhar 10 mil passos diariamente. 

                A Organização Mundial de Saúde estima que 39% da população adulta e 18% das crianças e adolescentes entre 5 e 18 anos do mundo. As doenças associadas à obesidade são a segunda causa de mortes no mundo, perdendo apenas para os problemas associados ao tabagismo. Os governos gastam meio trilhão de dólares com a manutenção dos sistemas de saúde a fim de reverterem os problemas associados à obesidade. Nenhum país teve qualquer declínio nas taxas de obesidade nos últimos 33 anos. Na verdade, o número de pessoas obesas ou com sobrepeso cresceu aproximadamente 70% nas últimas três décadas. 

                Os países com os índices mais altos de obesidades do mundo estão no Oriente Médio e Norte da África. Na região, 58% dos homens e 65% das mulheres com 20 anos ou mais estão acima do tempo. Todavia, os países com os maiores números de obesos do mundo são Estados Unidos (86,9 milhões), China (62 milhões), Índia (40,4 milhões), Rússia 29,2 milhões, Brasil (26,2 milhões), México (24,9 milhões), Egito (21,8 milhões), Alemanha (17,1 milhões), Paquistão (16,7 milhões) e Indonésia (15,1 milhões). A obesidade está associada ao consumo de alimentos e bebidas ricos em gordura e em açúcar. As tecnologias facilitaram em excesso a vida da sociedade atual. O número de calorias gastas diariamente é cada vez menor.  Uma vida menos dinâmica e menos voltada para as atividades físicas, tem pó consequência o ganho de peso e o surgimento de uma série de doenças associadas à obesidade (diabetes, hipertensão, cardiopatias etc). 

                O filme Wall-E é uma excelente produção. É capaz de proporcionar descontração, riso e uma doce sensação diante das peripécias apaixonadas do robozinho simpático que leva o nome do filme. Todavia, é uma obra que permite uma leitura crítica sobre várias temáticas do tempo presente. É um filme, aparentemente, feito para o público infantil, com um direcionamento para ser refletido pelos adultos.             
               

quarta-feira, março 06, 2019

Paulo Guedes, uma gestão para fabricar miseráveis


Em artigo monumental assinado por André Araújo para o GGN, encontramos uma funda e lancinante análise sobre o incensado ministro Paulo Guedes, o “posto Ipiranga” do governo Bolsonaro e sobre a Escola de Chicago. Se tivesse sido coerente consigo, Bolsonaro não teria escolhido Paulo Guedes para ser o seu todo-poderoso Ministro da Fazenda. Vale lembrar que Bolsonaro foi um duro crítico das privatizações da era FHC. Ele sabia que para ter estofo, criar condições de elegibilidade e sustentabilidade de um suposto governo, teria que convidar alguém que fizesse amplas e irrestritas sinalizações para o mercado.

O início do governo Bolsonaro tem sido marcado por uma sucessão de qüiproquós. Percebe-se uma inabilidade administrativa de muitos dos ministros. Alguns são meros sabujos; outros, estão comprometidos com o obscurantismo; são antípodas da civilização. Negam evidências científicas. Radicalizam ideias numa fixidez infantil.

Um dos mais badalados é Paulo Guedes, o guardião das joias da coroa. Desde a campanha, Bolsonaro deu carta branca para que o banqueiro realize as reformas de que o mercado necessita. Todavia, aquilo de que o mercado necessita, não necessariamente está harmonizado com as demandas da sociedade. Administrar um país não é o mesmo que gerir uma empresa. Um país desigual como o Brasil exige que certas demandas sejam resolvidas com certa urgência.

O interesse do mercado é gerar riquezas para entes privados. Os benefícios para a sociedade acontecem por tabela, por consequência indireta. Para que o projeto de desmantelamento dos direitos sociais assegurados na Constituição e das riquezas do estado estejam à serviço do mercado é preciso flexibilizar direitos. O eufemismo, figura que consiste no abrandamento de uma expressão, utilizado para a consecução desse projeto é “reforma”. As reformas são necessárias, mas desde que beneficiem ou incluam os mais pobres. País rico não é aquele que produz riquezas para os ricos apenas, mas é aquele que consegue tirar o maior número de miseráveis da pobreza.

Paulo Guedes é sacerdote do deus mercado. Seu mantra é a privatização de tudo; a entrega das riquezas produzidas coletivamente para as mãos de poucos. Uma lipoaspiração profunda do estado. Cada um é o senhor de si, segundo a concepção ultraliberal de Guedes, capaz de colocar em prática a livre iniciativa. Guedes esquece que em um país, com o número de desempregados, ou de pessoas jogadas na informalidade, o mercado não é o mecanismo adequado para selecionar o problema. O receituário do Chicago Boy só gerou perdas e tragédias sociais onde foi aplicado. Uma vez que seja aplicado do modo como o mercado deseja, teremos uma geração de desvalidos e miseráveis, com menos serviços públicos, com degradação ambiental, violência, repressão e as expectativas cinzentamente melancólicas sobre o futuro. 

Das catacumbas de Chicago, uma política de exclusão social – a história cobrará seu preço

O Ministro Paulo Guedes acredita que o Estado não é necessário para amparar os excluídos da prosperidade, MAS ele estudou na Universidade de Chicago com uma bolsa da CAPES, portanto paga pela Estado brasileiro. Não é uma incoerência? É evidente, mas como procurar coerência em quem não tem a mínima noção de seu País? A visão dele é de mercado, ele é um homem de mercado e não de Estado, a partir do Plano Real a economia do Brasil é regida por “homens de mercado” e não por homens de Estado, com Paulo Guedes se chega a expressão máxima dessa anomalia.

A Escola de Economia de Chicago está HOJE absolutamente fora da corrente mais moderna do pensamento econômico nos Estados Unidos.

É uma doutrina que já estava fora da logica econômica ANTES da crise financeira de 2008, mas a partir dessa catástrofe, salva pelo Estado, a escola de Chicago foi enterrada, ninguém mais a leva a sério suas cartilhas démodées, sua visão simplista de mundo que nem aos EUA serviu. Teve um fugidio ciclo de gloria nos anos 70 e 80 nos governos Thatcher e Reagan com desdobramento nos porões do governo Pinochet no Chile mas mesmo no Chile o almanaque de Chicago foi arquivado com a queda humilhante do Ministro da Fazenda Sergio de Castro em 1982, um ícone de Chicago,   episódio que aqui no Brasil os Chicago-boys jamais contam, o plano neoliberal da gestão Sergio de Castro, tão elogiado por quem não conhece a estória inteira, fez agua, levou o Chile a uma mega crise financeira e politica e  uma completa troca da equipe econômica, o novo Ministro foi o General Enrique Montero, cuja politica foi um reverso da anterior com o  ápice numa crise cambial incontrolável, lembrando o que ocorreu com a gestão Gustavo Franco no BC do Brasil.

A escola de Chicago no Chile conduziu a economia chilena ao desastre, Pinochet trocou de política muito antes de cair, lá NÃO foi um sucesso.

Mas em Chicago uma curiosa recorrência aconteceu. Os alunos medíocres de Milton Friedman, muitos deles brasileiros, puseram na cabeça somente alguns capítulos de sua cartilha. Friedman era muito mais inteligente que seus alunos e ele tinha perfeita consciência das limitações da economia de mercado para organizar uma sociedade. Friedman foi um dos primeiros proponentes de um mecanismo de amparo social aos que não conseguem competir por limitações que são da própria natureza e não de culpa individual e para esses desafortunados Friedman defende o amparo do Estado, seu modelo é uma raiz da ” bolsa família’. Essa parte das aulas de Friedman os fanáticos da economia de mercado não aprenderam e não repercutem. Também não contam o final da vida de Friedman, que reviu muitas de suas lições em longas conversas com Alan Greenspan, que mostrou a Friedman a complexidade operacional da política monetária que ia muito além do que Friedman, um acadêmico puro, pensava.


Artigo completo AQUI

terça-feira, janeiro 22, 2019

Bolsonaro e as ideias pequenas

"Ele me dá medo".
"O Brasil é um grande país. Merece alguém melhor." 

Robert Shiller, professor na Universidade de Yale e Prêmio Nobel de Economia, falando sobre Bolsonaro

O Brasil é um país imenso. Grandioso por natureza. Escolhido por Deus. Com vocação mítica para o futuro, com fortes propensões para o sebastianismo. Ele é assim evocado nos arroubos mais pueris em momentos de Copa do Mundo; cantado na letra do hino, que poucos entendem dada a complexidade das amarras sintáticas e as palavras eruditas que não fazem parte do repertório do povo. É também o país das incongruências. Dos sortilégios. Há uma grande energia potencializada no povo. Todavia, essa força não é administrada para os grandes projetos, para a construção de uma identidade civilizatória.

Ouvindo as repercussões do discurso de Jair Bolsonaro no Fórum Econômico de Davos, na Suiça, fiquei pensando algumas coisas. Pela primeira vez, um líder de um país latino-americano teria a honra de discursar na abertura dos trabalhos.  Era uma chance de ouro para voltar maior de lá, de exorcizar de vez a crise que derrete o seu inconsistente governo. O discurso seria importante para indicar a tônica das negociações. Em outras palavras, criaria um clima, um ambiente para cumplicidades e entrosamentos. Em Davos, o líderes do capitalismo financeiro global estariam presentes - com a exceção de Trump, que tem criado um clima diverso dentro do bloco do grande capital. Os economistas laureados; os investidores opulentos; os banqueiros habilidosos em fazerem dinheiro; os economistas com o faro apurado para detectar cenários, todos eles estariam com os olhos atentos para o capitão. 

Criou-se grande expectativa em torno desse discurso. Todavia, a grande questão é o responsável pelo discurso. Alguém que durante a campanha eleitoral fugiu dos debates. Que cancela entrevistas; que foge de jornalistas; que busca driblar a imprensa; que seleciona as perguntas para que estas sejam cômodas e estejam em seu nível. Em outras palavras, alguém que possui uma formação mediana e uma verbalização monocórdia. Se ele tivesse oportunidade, certamente teria declinado do convite. Teria arranjado um atestado médico. Não o fez, pois teria uma repercussão negativa. Enganou durante a campanha, não poderia enganar agora o mundo. Ele sabia que a tarefa era maior do que ele. O posto que ocupa possui um altura em metros, enquanto ele possui a estatura medida em milímetros. 

Segundo o jornal espanhol El Pais, seu discurso (de fala mesmo) não durou mais do que oito minutos. Inicialmente a ideia era que falasse de 30 a 45 minutos. Os anúncios para apresentação da autoridade, conforme a praxe do evento, duraram quinze minutos. O presidente, por sua vez, fez um discurso pífio de minutos contados. 

Outro aspecto que chama a atenção é o conteúdo do discurso. É importante atentar também para o que não foi dito. Em todo discurso, há elementos explícitos, mas há também elementos implícitos, que podem ser depreendidos por meio das pistas, os pedaços de fatos, de acontecimentos  deixados na enunciação. O exercício de encontrar os elementos implícitos é uma habilidade que se adquire praticando ilações. 

Durante a campanha - e mesmo em Davos - Bolsonaro e sua trupe antiglobalista repetiu de maneira sobranceira, numa espécie de nacionalismo piegas e alienado, que "o Brasil está acima de tudo e deus acima de todos". O que se viu no discurso de Bozo foi justamente a subserviência, o entreguismo das "repúblicas de bananas". Bolsonaro pintou um quadro de que o Brasil é um país colapsado, devastado. Há violência por todos os lados. É como se o simples fato de andar na rua fosse um perigo; que vivemos em uma selva. O presidente afirmou que o país está sendo arrumado para que as famílias ricas do planeta possam visitá-lo.

Não há novidades no discurso do Bozo. Há muitos truísmos; mais do mesmo; há pequenez de alguém que ganhou a eleição com fakes news e acha que ainda está em campanha. Há uma fala grávida de puerilidade, como se ele fosse um colegial despreparado e estivesse apresentando um trabalho para a classe. A fala é pausada. Há intervalos, demonstrando insegurança. Ataques infantis à esquerda. Uma teimosia tola em afirmar que o país vai fazer negócios "sem viés ideológico". O simples fato de afirmar isso de maneira incontida já firma um compromisso ideológico. Não existem ideias neutras. Discursos neutros. Se não existe "viés ideológico" em seu governo, ele deveria parar de falar "bolivarianismo", deveria parar de falar que "a esquerda não vai voltar mais ao poder".

O primarismo de Bolsonaro deixa a entender que somos um país de desvalidos. Que estamos clamando para que os investidores se apresentem por aqui para comprarem nossos produtos naturais. Temos florestas; temos rios; "temos bananas"; temos florestas imensas e até um Pantanal. Sim! Todos sabem disso. Segundo ele, "O Brasil é um paraíso". Por trás disso, há a mítica ideia de que o Brasil é um reino encantado. Uma terra de fábulas. Um Éden tropical. Somos a selvagem, mas dócil nação acolhedora. Não temos nada a oferecer a não ser os nossos recursos, nossos corpos e a exploração da força de trabalho barata do nosso povo. Na sua pobre concepção, o Brasil não possui riquezas, tecnologia de ponta, empresas estatais grandiosas, capazes de promoverem desenvolvimento e bem estar-social.

Em resumo, é como se Bolsonaro dissesse: "Venham! Venham para a grande feira! Vamos entregar tudo para vocês. Está tudo pronto! Venderemos tudo! Privatizaremos! Faremos reformas para facilitar o fluxo de capitais e apropriação das riquezas construídas pelo estado nacional. Guedes será o timoneiro! E eu, por não possuir competência, ficarei de cá falando de ideologia de gênero, marxismo cultural e viés ideológico. Somos galinhas e o nosso quintal é grande demais. Peguem tudo".

quarta-feira, dezembro 19, 2018

Algumas anotações sobre "Usina", de José Lins do Rego

Usina foi o quinto livro escrito por José Lins do Rego. Anterior a este, o escritor paraibano escrevera - Menino de Engenho, Doidinho, Bangue e o Moleque Ricardo. Após a escrita dos cinco livros, uma espécie de "pentateuco do autor", José Lins os denominou de "ciclo da cana de açúcar". Há nesses livros fortes elementos memorialísticos, assinalações do que é a prosa do grande escritor. Os cinco livros possuem características próprias, mas podem ser sistematizados.

Os três primeiros possuem um eixo comum, ou seja, procuram contar a história de Carlos de Melo: (1) sua chegada ao Engenho Santa Rosa; a descoberta do mundo imenso que constituía a propriedade; o desabrochar da infância em um espaço edênico; o desabrochar precoce da sexualidade; o banho no rio Paraíba. Tudo ali transparece de forma nostálgica. As memórias são edulcoradas por um lamento implícito da felicidade que se perdeu. (2) a ida para o orfanato em Itabaiana; as dificuldades advindas da vida coletiva; a austeridade do professor. Em Doidinho, escutamos ecos de O Ateneu, de Raul Pompeia. (3) Nota-se um Carlos de Melo adulto e inábil para a administração do Engenho Santa Rosa. Sua falta de tino para conduzir a propriedade, faz com que o patrimônio seja quase solapado. 

No quarto volume - "O moleque Ricardo" - nota-se a saída do mundo agrário para a atmosfera suburbana. Há um forte engajamento por parte de José Lins. O moleque Ricardo possui um aspecto panfletário importante, pois a denúncia social se situa nas condições do operariado em Recife. Nesta cidade, assiste-se à luta cotidiana de homens e mulheres comuns pela sobrevivência. As condições adversas. A moradia ultrajante. O emprego escasso. A problematização a respeito da criminalidade. A força opressora do Estado, que consolida a sua existência para proteger a propriedade dos meios de produção dos ricos. Ricardo é exilado para Fernando de Noronha, simplesmente, por ter participado de uma manifestação. 

Em Usina, encontra-se uma conjuntura diferente. O livro é dividido em duas partes: (1) A primeira parte coloca no plano central a história de Ricardo em Fernando de Noronha. Na ilha, percebe-se a sua saudade de casa. O envolvimento homoafetivo. A solidão em um mundo assolado por fortes ventos e pela lembrança. (2) Na segunda parte (e mais extensa), o narrador onisciente foca a atenção sobre a Usina Bom Jesus, que um dia fora o Engenho Santa Rosa. Ricardo volta para os seus. Emprega-se em uma venda esconde-se atrás de um balcão, até ser assassinado. Ele retira-se da narrativa como coadjuvante. 

Na segunda parte, o Dr. Juca, filho de José Paulino, tio de Carlos de Melo, é quem toma a dianteira. Nota-se, a partir de três personagens, pelos menos três elementos definidores das mudanças econômicas e sociais que se dão com a derrocada dos banguês, o surgimento das usinas e a falência das oligarquias do açúcar.

(1) Dr. Juca - como afirmado, Juca é filho de José Paulino. Por meio de uma associação com os parentes, tornou-se chefe do clã e condutor dos negócios da Bom Jesus. Os familiares confiam a ele a presidência da Usina. Os negócios galopam em atmosfera de lucros e otimismo. Há comentários elogiosos às suas habilidades administrativas.  Juca não mede os gastos. Financia a vida das amantes. É um dissipador nos bordéis famosos e requintados do Recife. Em uma época em que os automóveis eram um luxo, o impulsivo usineiro compra um carro por uma soma vultosa. A saca de açúcar é vendido por 60 contos, uma preço que gera uma confiança exagerada nos empreendimentos futuros. Juca decide modernizar a usina. Entra em associação com os "americanos". Busca um financiamento que, somente poderia ser realizado, caso houvesse garantias exatas. Os parentes devem colocar suas propriedades no investimento. Uma vez que a Bom Jesus não corresponda, as propriedades seriam confiscadas. Juca é a imprevidência. Não atua por cálculos exatos, medidos. Para existir em um meio competitivo é necessário atentar para os movimentos da história e realizar planejamentos corretos, acertados.

(2) Dr. Luís - é o dono da São Félix. Ele é o antípoda do Dr. Juca. Luís é a frugalidade. É a prudência. O passo medido. O cálculo. É a intuição que sabe o momento certo de agir. Sua usina é grande. É um leão à espreita da presa. A Bom Jesus não conseguiu resistir diante dos seus assédios. Luís é um homem de família. Não é um dissipador. Os seus filhos brincam à sombra das árvores. Sua esposa está ao seu lado. Luís representa a virtude do capital. É um sujeito de fé (constrói igrejas), mas sabe ser duro com o povo quando necessário. Luís não gasta tempo com elementos que não sejam propiciadores de vantagens. Ele fica à distância assistindo aos estertores da Bom Jesus. Contempla-lhe a agonia. A luta diária. A resistência mole, improfícua. Luís representa a face monopolista do capital. A morte dos engenhos e o surgimento das usinas, fez surgir uma lógica: os mais fortes devoram os mais fracos. A São Félix era o empreendimento cheio de energia e Dr. Luís era o seu timoneiro. A Bom Jesus não resistiu e sucumbiu.

(3) Dona Domdom - é a esposa de Juca. Domdom é altruísta, generosa. É abnegada. Sua preocupação é fazer o bem. Há virtudes imensas em seu coração. Ela está sempre disposta a ajudar aqueles que precisem de auxílio. Sua grande preocupação é o bem-estar das filhas. Ela representa o lado humano e social do mundo capitalista. Vem à sua memória em muitas passagens da obra, a vida humilde que tivera antes de morar em um palacete na capital paraibana, antes de experimentar os requintes de uma vida aristocrática propiciada pelos lucros da usina. É ela quem busca ajudar os moradores humildes da Bom Jesus. Fornece remédio. Intervém junto ao marido em favor das pessoas humildes. À medida que a ganância ganha proporções e o império da cana vai tomando todos os locais do antigo engenho, os moradores ficam sem ter onde plantar; sem ter as águas do rio para pescar.  Domdom observa esse fato com reprovação. 

Em Usina, Zé Lins monta um painel da derrocada de uma estrutura produtiva e as mudanças advindas dessa metamorfose. A estrutura semi-feudal mudou com a chegada das usinas. Juca, por exemplo, buscava substituir 30 funcionários por apenas um que apertasse um botão. Ou seja, há uma reflexão do escritor sobre a mecanização do campo. Os trabalhadores não qualificados, que outrora vendiam a sua força braçal de trabalho, passam a não ter mais ocupação. Com o fim da República Velha, e o esmagamento da economia agrária que havia no país, é necessário pensar em industrializar o país. Há um fluxo de trabalhadores emigrando do campo para a cidade. É o que se dá, por exemplo, com Ricardo. Sem morada, sem trabalho, sem perspectivas de melhores dias, levas de nordestinos saem do campo e buscam os centros urbanos.

Como já apontado em uma reflexão já feita aqui, o transbordamento do rio Paraíba, expulsando o senhor de engenho (Dr. Juca) e sua esposa (Dona Domdom), funciona como um mito de fundação ou de renascimento. É conhecida a história bíblica do dilúvio. Segundo a Bíblia, esse se deu para que "um momento novo" se fizesse sobre a terra. A maldade humana havia alcançado níveis alarmantes. O dilúvio era a possibilidade de renovação da terra com todos os seus animais. Os dilúvios funcionam como um rito de passagem. Em "O Guarani", José de Alencar também se utiliza desse artifício para demonstrar a fundação do Brasil. José Lins do Rego, pelo contrário, deseja mostrar como se dá a passagem para um novo tempo na vida dos engenhos. O espaço paradisíaco dos engenhos foi substituído pela dureza, pela insensibilidade da máquina. Toda a generosidade existente; o humanismo foi substituído pela inquebrantável ganância dos novos proprietários que mudaram o modelo de produção, de um incipiente agrarismo por meio dos banguês, para o produtivo movimento da mecanização por meio das usinas. O senhor de engenho era dono da propriedade e de tudo que nela havia. Com as usinas, instalou-se a indiferença, a frieza e "coisificação" do homem, da paisagem e da terra.


quarta-feira, agosto 29, 2018

A nova razão do mundo

“Nunca fomos tão livres. Nunca nos sentimos tão incapacitados.” Zygmunt Bauman 

Tenho acompanhado à distância algumas entrevistas dos postulantes à eleição para presidente da República, que ocorrerá em outubro próximo. Semana passada, a Globo News promoveu uma série de debates com os economistas de cada um dos candidatos. Observe: a conversa não se estabeleceu com o suposto ministro da educação ou da saúde. O escolhido foi o chefe da economia. 

Existe uma preocupação profunda sobre como a equipe do novo presidente da República vai conduzir os destinos da economia do país. Até esse ponto tudo parece está muito bem. Na mesma entrevista promovida pelo canal do Grupo Globo, Miriam Leitão, a empregada mais comprometida com a riqueza dos patrões, esforçava-se em uma das entrevistas para tentar entender como o mercado não seria afetado por determinadas intervenções. 

Os jornais têm noticiado o frenesi em torno da alta do dólar. A explicação: a indefinição do cenário eleitoral. Lula estando preso e, mesmo assim, ainda na liderança das pesquisas é algo inaceitável para essa entidade sem rosto, imaterial, chamada mercado.

As empresas que fazem jornalismo no Brasil pertencem às famílias mais ricas do país. Portanto, defendem determinados temas por conveniência própria. São defensores de inclinações econômicas que não comprometam o status quo político. O termo mercado ganhou ares de sacralidade. Destoar de sua atuação é cometer um sacrilégio. Mercado é uma entidade invisível. Ninguém o ver, mas ele comanda tudo. Ele pertence a seis famílias, que monopolizam serviços, ganhos, aplicações; desmantelam economias quando é necessário; apropriam-se dos resultados do trabalho coletivo; subordinam governos; e compram a política. 

O mercado possui uma ideologia e ela se chama neoliberalismo. Sua força está justamente no anonimato. Ela não é visível. Poucos sabem o seu significado. Alguns até ignoram que ela ainda prevaleça ou tenha força no mundo atual. Todavia, o neoliberalismo não pertence apenas ao primado da economia. Ele é uma razão, uma força invisível e coercitiva. O colapso humano que talvez estejamos enfrentando; a crise de valores; o individualismo desumanizante do nosso tempo tem a sua origem no neoliberalismo. Para o neoliberalismo o individualismo é uma força necessária. 

A doutrina é a razão que governa o mundo. Ela é o resultado da astúcia dos ricos para se apropriar das riquezas do mundo. Ela depaupera o mundo física e espiritualmente. Enxerga na competição o elemento definidor das relações humanas. Permite que os ricos se tornem mais ricos; e, os pobres, mais pobres. Toda regulação é vista como uma violência contra a liberdade. Mas não se deve entender a liberdade como um elemento isento, desgarrado de condicionamentos. Lembrando a brincadeira que George Orwell realiza em "A revolução dos bichos": "Alguns são livres, mas alguns são mais livres que os outros". 

Estados, governos, sindicatos ou qualquer organização que ofereça um sistema de regulação é visto com máxima desconfiança. Todavia, neste ponto o indivíduo acaba caindo em um abismo perigoso. Já que o neoliberalismo é a ideologia a serviço das elites, quem poderia defender o interesse dos trabalhadores, daqueles que não são ricos? O curioso é o neoliberalismo subverteu a consciência do sujeito. Somos convencidos diariamente de que existe uma regra que determina a naturalização do mundo. Entendemos que o mundo sempre foi assim. Que aqueles que alcançaram a riqueza, conquistaram pelos próprios méritos - ignoramos o primado da herança, da melhor educação, de uma melhor preparação para iniciar a competição. 

O neoliberalismo atua no plano econômico para depois gerar efeitos sociais. Os ricos serão mais ricos. Mas você, se não conseguir ter o sucesso que o empreendimento neoliberal exige, ficará com toda a culpa. Os governos não devem se ocupar na construção de planos econômicos que diminuam a desigualdade. A desigualdade é um primado natural das relações entre os homens, entende o neoliberalismo. Para quê gastar dinheiro com políticas compensatórias? Para quê cotas? O triste é quando vemos um pobre defendendo esse tipo de coisa. Muitos candidatos já deixaram explícito que estão sendo conduzidos por sentenças neoliberais. É o caso de Alckmim que deixou nas entrelinhas que pretende privatizar a educação superior. Para o neoliberalismo, se você não tem condições de cursar o ensino superior público, a culpa é toda sua. Não se questiona a ausência da prestação pelo Estado. O questionamento fica retido no sujeito. Ou seja, quem conseguiu é vitorioso; quem não conseguiu, é fracassado. 

O fracasso passa a ser uma força operante em determinados grupos sociais, principalmente os mais pobres. Os defensores dessa ideologia não verbalizam ainda para manter as aparências. Se pudessem, diriam: "Ora, que cada um viva com o que tem. Se alguns não conseguiram nada é por que são incompetentes. Logo, que morram, que sumam". Cria-se, assim, uma elite, uma nobreza, uma oligarquia, uma casta de poderosos que manipula a maioria. A suposta liberdade defendida pelo neoliberalismo é para que os ricos continuem mais ricos; para que não surjam freios para suas especulações. 

* Para entender mais sobre este tema, ler o excelente texto de George Monbiot
** A Boitempo lançou recentemente o sensacional "A nova razão do mundo - ensaio sobre a sociedade neoliberal", de Christian Laval e Pierre Dardot.