Sou um crítico do festival do
Oscar. Todo início de ano, há uma imensa propalação do evento, como se este
referendasse o que foi produzido em matéria de cinema. As produções indicadas são
alçadas ao panteão insofismável das obras definitivas. Na minha limitada
maneira de ver, apenas alguns dos filmes indicados podem ser colocados no rol
das grandes obras. Há muito Hollywood e, em muitos casos, pouco cinema
nessas obras. Resumindo: o Oscar é um festival feito para as produções
estadunidenses. O objetivo é robustecer o imperialismo daquela sociedade, ou seja, sua indústria cultural.
Há cinema de qualidade sendo
produzido em outros locais do Globo. Mas, num aceno de máxima sensatez, até
mesmo os enfunados norte-americanos parecem reconhecer isso. Essa tese pode ser
fortalecida com a concessão que foi feita ao excelente filme sul-coreano O Parasita
(do diretor Bong Joon-ho), uma obra provocante e de grande qualidade; rica em
metáforas; em possibilidades temáticas; repleta de simbolismos; e detalhes
psicológicos, sociológicos, filosóficos, econômicos, urbanísticos etc.
Primeiramente, é preciso dizer
que O Parasita é uma experiência perturbadora. O filme nos passa a ideia
inicial de uma comédia de mal gosto. Aos poucos, vai ganhando contornos
dramáticos. Até ganhar cintilações trágicas. À medida que as cenas se desenrolam,
há uma mal-estar provocado pela esperteza da família. São verdadeiros “parasitas”
no sentido mais elementar. Aproveitam-se de um hospedeiro para extrair-lhe os
nutrientes. Alimentam-se do organismo alheio, fazendo disso uma ação
necessária, fundamental. Ignoram a condição do hospedeiro. Pensam apenas na
satisfação de suas necessidades. Parasita é um nome forte, repleto de
efeitos.
Um pai de família pobre, juntamente com a
esposa e dois filhos (um casal), se equilibram financeiramente. Nesse sentido,
há uma crítica sendo feita ao modo de organização social da, aparentemente,
rica Coreia – ao contrária de sua irmã do Norte. A família vive em um espaço,
como se fosse inseto, abaixo da superfície da rua, em Seul, capital da rica
Coreia do Sul. A alimentação é irregular. Na luminosa e tecnológica Coreia,
eles não têm serviço de wi-fi. Precisam capturar a senha dos
estabelecimentos que oferecem o serviço gratuitamente aos clientes. Recebem os
dejetos dos bêbados que urinam na rua.
Surge uma oportunidade para que um
dos filhos da família desse aulas de inglês para a filha de uma família rica. É
justamente nesse ponto que acontece o salto imaginativo e malandragem da
família. Todos os integrantes da família assumem funções na casa da rica
família após eliminarem os obstáculos de forma insensível. Os desdobramentos
são os mais inusitados possíveis, tornando O Parasita uma obra cujas possibilidades
da fantasia e do inverossímil são usados em doses certas.
É possível afirmar que as
escadas possuem uma função fundamental na produção de Bong. Há um trabalho
constante com a verticalidade. Há uma cena emblemática no filme que nos remete
à metáfora da estruturação das sociedades capitalistas. Após uma chuva terrível
que causa prejuízos inestimáveis para os pobres moradores das periferias da
capital sul-coreana, o pai e os dois filhos descem uma escadaria. A cena sugere
que eles sempre descem: do bairro rico para o bairro pobre; do ponto alto para
o ponto baixo; do limite da rua, para a caserna onde moram. Trata-se da
representação do esquematismo das classes sociais sob o capitalismo, fazendo
lembrar a música do Chico Sciense e Nação Zumbi, A cidade. “A cidade não para/ a cidade só cresce/ o de
cima sobe/ e o debaixo desce”.
O Parasita ganhou o Oscar
de melhor filme do ano de 2019. Até mesmo a autossuficiente Hollywood se dobrou
diante da beleza e do emblematismo da obra. Os americanos sempre defensores de que estão no
ponto mais alto entre todas as sociedades globais, tiveram que descer à
superfície e perceber que há outros olhares, além dos deles.
Nenhum comentário:
Postar um comentário