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sábado, abril 18, 2015

A cultura do capital é anti-vida e anti-felicidade - Por Leonardo Boff

A demolição teórica do capitalismo como modo de produção começou com Karl Marx e foi crescendo ao longo de todo o século XX com o surgimento do socialismo e pela escola de Frankfurt. Para realizar seu propósito maior de acumular riqueza de forma ilimitada, o capitalismo agilizou todas as forças produtivas disponíveis. Mas teve como consequência, desde o início, um alto custo: uma perversa desigualdade social. Em termos ético-políticos, significa injustiça social e produção sistemática de pobreza.

Nos últimos decênios, a sociedade foi se dando conta também de que não vigora apenas uma injustiça social, mas também uma injustiça ecológica: devastação de inteiros ecossitemas, exaustão dos bens naturais, e, no termo, uma crise geral do sistema-vida e do sistema-Terra. As forças produtivas se transformaram em forças destrutivas. Diretamente, o que se busca mesmo é dinheiro. Como advertiu o Papa Francisco em excertos já conhecidos da Exortação Apostólica sobre a Ecologia: ”no capitalismo já não é o homem que comanda, mas o dinheiro e o dinheiro vivo. A ganância é a motivação … Um sistema econômico centrado no deus-dinheiro precisa saquear a natureza para sustentar o ritmo frenético de consumo que lhe é inerente.”

Agora o capitalismo mostrou sua verdadeira face: temos a ver com um sistema anti-vida humana e anti-vida natural. Ele nos coloca o dilema: ou mudamos ou corremos o risco da nossa própria destruição e parte da biosfera, como alerta a Carta da Terra.

No entanto, ele persiste como o sistema dominante em todo a Terra sob o nome de macro-economia neoliberal de mercado. Em que reside sua permanência e persistência? No meu modo de ver, reside na cultura do capital. Isso é mais que um modo de produção. Enquanto cultura encarna um modo de viver, de pensar, de imaginar, de produzir, de consumir, de se relacionar com a natureza e com os seres humanos, constituindo um sistema que consegue continuamente se reproduzir, pouco importa em que cultura vier a se instalar. Ele criou uma mentalidade, uma forma de exercer o poder e um código ético. Como enfatizou Fábio Konder Comparato num livro quer merece ser estudado A civilização capitalista (Saraiva, 2014):”o capitalismo é a primeira civilização mundial da história”(p.19). O capitalismo orgulhosamente afirma:”não há outra alternativa (TINA= There is no Alternative).”

Vejamos rapidamente algumas se suas características: finalidade da vida: acumular bens materiais; mediante um crescimento ilimitado, produzido pela exploração sem limites de todos os bens naturais; pela mercantilização de todas as coisas e pela especulação financeira; tudo feito com o menor investimento possível, visando a obter pela eficácia o maior lucro possível dentro do tempo mais curto possível; o motor é a concorrência turbinada pela propaganda comercial; o beneficiado final é o indivíduo; a promessa é a felicidade num contexto de materialismo raso.

Para este propósito se apropria de todo tempo de vida do ser humano, não deixando espaço para a gratuidade, a convivência fraternal entre as pessoas e com a natureza, o amor, a solidariedade, a compaixão e o simples viver como alegria de viver. Como tais realidades não importam para a cultura do capital, como reconheceu o insuspeito mega-especulador George Soros (A crise do Capitalismo, Campus 1999), porque, embora tenham valor, não tem preço nem dão lucro. Mas exatamente são elas que produzem a felicidade possível. Ele destrói as condições daquilo que se propunha: a felicidade. Assim ele não é só como anti-vida mas também anti-felicidade.

Como se depreende, esses ideais não são propriamente os mais dignos para efêmera e única passagem de nossa vida neste pequeno planeta. O ser humano não possui apenas fome de pão e afã de riqueza; é portador de outras tantas fomes como de comunicação, de encantamento, de paixão amorosa, de beleza e arte e de transcendência, entre outras tantas.

Mas por que a cultura do capital se mostra assim tão persistente? Sem maiores mediações diria: porque ela realiza uma das dimensões essenciais da existência humana, embora a elabore de forma distorcida: a necessidade de auto-afirmar-se, de reforçar seu eu, caso contrário não subsiste e é absorvido pelos outros ou desaparece.

Biólogos e mesmo cosmólogos (citemos apenas um dos maiores deles Brian Swimme) nos ensinam: em todos os seres do universo, especialmente no ser humano, vigoram duas forças que coexistem e se tencionam: a vontade do indivíduo de ser, de persistir e de continuar dentro do processo da vida; para isso tem que se auto-afirmar e fortalecer sua identidade, seu “eu”. A outra força é da integração num todo maior, na espécie, da qual o indivíduo é um representante, constituindo redes e sistemas de relações fora das quais ninguém subsiste.

A primeira força se constela ao redor do eu e do indivíduo e origina o individualismo. A segunda se articula ao redor da espécie, do nós e dá origem ao comunitário e ao societário. O primeiro está na base do capitalismo, o segundo, do socialismo na sua expressão melhor.
Onde reside o gênio do capitalismo? Na exacerbação do eu até ao máximo possível, do indivíduo e da auto-afirmação, desdenhando o todo maior, a integração na espécie e o nós. Desta forma desequilibrou toda a existência humana, pelo excesso de uma das forças, ignorando a outra.

Nesse dado natural reside a força de perpetuação da cultura do capital, pois se funda em algo verdadeiro mas concretizado de forma exacerbadamente unilateral e patológica.

Como superar esta situação secular? Fundamentalmente no regate do equilíbrio destas duas forças naturais que compõem a nossa realidade. Talvez seja a democracia sem fim, aquela instituição que faz jus, simultaneamente, ao indivíduo (eu) mas inserido dentro de um todo maior (nós, a sociedade) do qual é parte. Voltaremos ao tema porque não é suficiente fazer a crítica a esta cultura malvada, como a chamava Paulo Freire;   importa contrapor-lhe outro tipo de cultura que cultiva a vida e cria espaços para o amor, a cooperação, a criatividade e a transcendência.

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domingo, agosto 31, 2014

A naturalização do cotidiano e a política

















Karel Kosik diz em sua Dialética do Concreto algo essencial: "O indivíduo não é apenas aquilo que ele próprio crê nem o que o mundo crê; é também algo mais: é parte de uma conexão em que ele desempenha um papel objetivo, supra-individual, do qual não se dá conta necessariamente". (KOSIK, 1976, p. 62). Com isso, o pensador marxista nos deixa a ideia de que existe uma realidade a qual o homem comum perde o contato em seu cotidiano. Mas o que é essa cotidianidade? 

Na cotidianidade vivem todos os homens. Cotidianidade não é o espaço privado prevalecendo sobre o espaço público. Para ele "a vida de cada dia tem sua própria experiência, a própria sabedoria, o próprio horizonte, as próprias previsões, as repetições, mas também as exceções". Os homens vivem esses fatos e se acostumam a tais eventos, entendendo, que as coisas são aquilo que são. Que não existe uma outra forma de ser. Ou seja, a vida objetiva passa a criar uma instintividade mecânica em relação às coisas e ao mundo. 

O homem, assim, acaba criando um para si, em que considera a realidade como o seu próprio mundo, pois sua visão sobre as coisas se tornam eventos familiares. O sujeito acostumado com o aparente não consegue divisar a existência de outro mundo, de outra forma de ser possível à realidade. A vida calcada no cotidiano e fincada no aparente, sem que tenha uma expectativa da essência, leva o homem a naturalizar determinados acontecimentos. A naturalização dos fatos, leva o sujeito ao comodismo; à incapacidade para fazer julgamentos sobre qual a relação que o seu cotidiano tem com a história.

Um exemplo disso é o hábito que o sujeito moderno tem de colocar o dedo no interruptor de luz e acender ou apagar, sem se dar conta de que por trás de tal ação existe uma cadeia histórica. Ou quando liga a torneira e ver a água jorrando, sem se dar conta do processo que trouxe a água até à sua casa. Sartre menciona esse processo de naturalização tão comum da vida burguesa em seu romance existencialista A Náusea. Os jovens de hoje naturalizaram a consciência de que o mundo é da forma que eles veem; que os celulares são um elemento que acompanha a humanidade desde as mais remotas datas. Não saberiam viver sem os aparelhos, pois acabaram naturalizando a existência desses objetos portadores de fetiche. 

Quando penso estas coisas, me vêm à mente uma afirmação de José Carlos Libâneo em sua famosa Didática. O educador afirma em tom althusseriano que "O sistema educativo, incluindo as escolas, as igrejas, as agências de formação profissional, os meios de comunicação de massa, é um meio privilegiado para o repasse da ideologia dominante". Poderíamos completar afirmando: "para a naturalização do mundo". Em seguida, o educador nos propõe que desconfiemos nas seguintes afirmações:

(1) O Governo sempre faz o que é possível; as pessoas é que não colaboram;
(2) Os professores não têm que se preocupar com política; o que devem fazer é cumprir sua obrigação na escola;
(3) A educação é a mola do sucesso, para subir na vida;
(4) Nossa sociedade é democrática porque dá oportunidades iguais a todos. Se a pessoa não tem bom emprego ou não consegue estudar é porque tem limitações individuais;
(5) As crianças são indisciplinadas e relapsas porque seus pais não lhes dão educação conveniente em casa;
(6) As crianças repetem de ano porque não se esforçam; tudo na vida depende de esforço pessoal;
(7) Bom aluno é aquele que sabe obedecer (LIBÂNEO, 2008, p.20)

As afirmações são aplicadas no contexto do mundo da educação, mas, na vida cotidiana, poderíamos ampliar a lista, sem esquecer que muitas dessas premissas são construídas pelos meios de comunicação de massa e acabam ganhando um grau de verdade inquestionável:

(1) Política não presta; político é tudo corrupto; 
(2) Se passou na televisão é por que é verdade; não há o que se discutir;
(3) A violência é um problema que é resolvido pela presença da polícia;
(4) Os menores são os responsáveis pela violência nas grandes cidades;
(5) O Brasil é um país que não dar certo; nada presta por aqui;
(6) Comunismo, marxismo e socialismo são símbolos de ditaduras; 
(7) Manifestação ou reivindicação social é um movimento orquestrado por "vândalos" e "vagabundos";
(8) Você é capaz de ter sucesso na vida; para isso é só se esforçar que você consegue;
(9) Só é pobre quem quer, pois é só trabalhar;
(10) Deus sempre ajuda aquele que ora;
(11) O mundo sempre foi assim; não tem como mudá-lo; 
(12) "Sou brasileiro e não desisto nunca";
(13) Somos uma democracia racial; 
(14) A desigualdade social é um problema de gestão;
(15) O mundo pode ser "consertado"; para isso, basta eu fazer a minha parte; 

A lista poderia continuar. Esses são apenas algumas frases que me ocorreram. Kosik ainda afirma: "A alienação da cotidianidade reflete-se na consciência, ora como posição acrítica, ora como sentimento do absurdo. Para que o homem possa descobrir a verdade da cotidianidade alienada, deve conseguir dela se desligar, liberá-la da familiaridade, exercer sobre ela uma "violência"".(p.78). Por violência, entenda-se a capacidade de "ver a própria face e conhecer o próprio mundo", destruindo de uma vez por todas a naturalização - a pseudoconcreticidade. 

quinta-feira, agosto 28, 2014

Diários de Motocicleta e "o outro lado do rio"

E não haveria ação humana se não houvesse uma realidade objetiva, um mundo como "não eu" do homem, capaz de desafiá-lo; como também não haveria ação human se o homem não fosse um "projeto", um mais além de si, capaz de captar a sua realidade, de conhcê-la para transformá-la. Paulo Freire in Pedagogia do Oprimido.

Há alguns sábados atrás eu assisti, pela terceira vez - talvez -, ao filme Diários de Motocicleta (2004), do brasileiro Walter Salles. Após ter visto o filme e refletido sobre ele, não consigo tirá-lo de minha cabeça. Não consigo me deslindar dos temas profundos e ao mesmo tempo pela beleza plástica das cenas, que têm uma preocupação de mostrar o continente sul-americano. O filme nos conta a história do jovem Ernesto Guevara, que mais tarde seria conhecido como "Che". 

Estudante de Medicina e filho de uma família de classe média argentina, Ernesto decide fazer uma viagem de moto ao lado do seu amigo Alberto Granado, repleta de metáforas políticas e existenciais que definiriam o seu futuro. Aquilo que no início era apenas um intento juvenil aventureiro, aos poucos vai mudando quando os jovens companheiros entram em contato com as mais destacadas e imorais explorações e misérias. Empresas estrangeiras se apropriam das riquezas minerais do continente e, para isso, exploram os trabalhadores que vivem em uma situação de penúria. São expulsos de suas terras. Ficam sem moradia. E são forçados a marcharem errantes de braços dados com a incerteza. Isso se dá, por exemplo, em regiões campesinas do Peru. As injustiças perpetradas contra os indígenas emociona. O drama de famílias que são separadas pela miséria, vai lapidando o olhar do jovem Ernesto. 

Um dos momentos mais bonitos e simbólicos do filme acontece quando Ernesto e Alberto conversam, após terem chegado a um lugar onde se internam pessoas leprosas. O lugar era cuidado por religiosas católicas. Havia o rio que se interpunha entre as pessoas que não tinham lepra e aqueles que eram portadores da enfermidade. O diálogo se dar da seguinte forma:

- Viu o rio? - diz Ernesto.
- Claro. - responde o seu amigo. Ao que Ernesto acrescenta:
- Ele separa os doentes dos sãos.

Mais tarde, quando os habitantes da comunidade ribeirinha resolvem fazer uma festa de despedida para os dois amigos que haviam auxiliado de forma fantástica os doentes do lugar, o jovem argentino diz as seguintes palavras: 

Apesar de nossa insignificância para sermos porta-vozes de vossa causa, acreditamos, e depois desta viagem com mais firmeza ainda, que a divisão da América em nacionalidades vagas e ilusórias, é totalmente fictícia. Constituímos uma única raça mestiça do México até o estreito de Magalhães.E, assim, me despindo de qualquer provincialismo, eu brindo pelo Peru. E pela América unida. 

Trata-se de um dos momentos mais bonitos do filme. É quando a opção, a escolha do jovem aventureiro se enquadra. É noite e Ernesto deixa a comemoração e sai para ver o grande rio. O amigo Alberto o segue. E aqui encontramos a decisão ontológica necessária. Fuser, como era chamado pelo amigo Alberto, pergunta: 

- Sabe onde está o barco? O amigo responde:
- Não, não estou vendo.
- Vou comemorar meu aniversário do outro lado. - completa o jovem Che.

Esta fala completa a sua percepção. E aqui notamos o compromisso histórico assumido em favor dos injustiçados, dos doentes, dos que não são. Florestan Fernandes costumava dizer que só existem duas posições em política: ou se está ao lado dos oprimidos ou se está ao lado dos opressores. A via do meio é a via da omissão histórica; é a via do pequeno burguês metido em seu medo crônico, em seu conservadorismo tacanho e reacionário. 

A escolha subjetiva se faz a partir de uma relação dialética com a realidade. Não se pode pensar em objetividade sem subjetividade. Os homens necessariamente, no dizer de Paulo Freire, atuam correspondentemente por meio da "relação dialética subjetividade-objetividade". O meu olhar se faz a partir da relação que tenho com o mundo objetivo. A reflexão libertadora acontece quando percebo a minha práxis, a minha prática, sobre a história a fim de que a minha ação seja capaz de romper a barreira entre opressor e oprimido. Ou como dizia Marx: "O critério de verdade é a prática". 

Quem não experimentou, visualizou ou testemunhou a contradição existente na sociedade, jamais sairá do subjetivismo e do objetivismo, como dizia Paulo Freire. O primeiro é a "objetividade dicotomizada da subjetividade"; e o mesmo fenômeno se dá com o subjetivismo. Ora, quem faz uso do objetivismo e do subjetivismo cai em um simplismo ingênuo, incapaz de reconhecer a contradição posta na história. Dizer que "o rio separa os doentes dos sãos" é identificar a "rachadura" que existe no mundo social. E mais tarde dizer: "vou comemorar meu aniversário do outro lado", é tomar uma decisão ontológica baseado na dialogicidade entre o objetivo e o subjetivo.

Quando penso nisso, entendo o porquê de muita gente ter raiva do socialismo, do marxismo ou do comunismo. Pois, estes sistemas entendem que existem leis que regem a materialidade. Que a realidade não é construída apenas com subjetivismos inconsequentes e apressados ou com objetivismos pragmáticos, apenas.

E, ao final do filme, encontramos a maravilhosa música do uruguaio Jorge Drexler, que tenho escutado como nunca nas últimas semanas. Há algumas semanas atrás corri doze quilômetros ouvindo repetidamente essa música. Chorei diversas vezes. E, assim, vamos treinando o nosso olhar e lançando os remos no lago. Abaixo a bela música - Al otro lado del rio.


domingo, julho 27, 2014

"Esquerda e Direita" por Ariano Suassuna

O texto abaixo me deu uma grande alegria quando eu o li. Acredito que Ariano Suassuna, que era um grande socialista, tenha conseguido colocar de forma poética, filosófica e teológica o porquê da existência das concepções de "esquerda" e das concepções de "direita". Penso que as pessoas que alegam a não existência dessa dicotomia, queiram justamente camuflar essa distinção para que a miséria e a injustiça continuem a grassar na sociedade. A desigualdade ou a construção do campo esquerda-direita se deu no dia em que alguém disse "isso aqui é meu". A partir desse momento, o mundo passou a ser habitado por aqueles que detêm certa propriedade e aqueles que não possuem a propriedade. 

O mundo está crivado por essa diferença. E enquanto ela existir, faz-se necessário lutar pela justiça, pela equidade. É isso que justifica a defesa pelo social. As regras da sociedade de classe dizem: "Todos devem correr mil metros". E todos querem correr os mil metros para sobreviver. O problema é que algumas pessoas vão de cavalo e, outras, vão andando. Ou seja, não preciso dizer quem vai se dar melhor nessa competição. A própria bíblia está repleta de personagens que estiveram do "lado esquerdo do fronte", a defender a justiça e dignidade dos mais fracos. É só abrir em qualquer um dos livros proféticos. 

Abaixo, o texto. Excelente!

Esquerda e Direita

Não concordo com a afirmação, hoje muito comum, de que não mais existem esquerda e direita. Acho até que quem diz isso normalmente é de direita.

Talvez eu pense assim porque mantenho, ainda hoje, uma visão religiosa do mundo e do homem, visão que, muito moço, alguns mestres me ajudaram a encontrar. Entre eles, talvez os mais importantes tenham sido Dostoiévski e aquela grande mulher que foi santa Teresa de Ávila.

Como consequência, também minha visão política tem substrato religioso. Olhando para o futuro, acredito que enquanto houver um desvalido, enquanto perdurar a injustiça com os infortunados de qualquer natureza, teremos que pensar e repensar a história em termos de esquerda e direita.

Temos também que olhar para trás e constatar que Herodes e Pilatos eram de direita, enquanto o Cristo e são João Batista eram de esquerda. Judas inicialmente era da esquerda. Traiu e passou para o outro lado: o de Barrabás, aquele criminoso que, com apoio da direita e do povo por ela enganado, na primeira grande “assembléia geral” da história moderna, ganhou contra o Cristo uma eleição decisiva.

De esquerda eram também os apóstolos que estabeleceram a primeira comunidade cristã, em bases muito parecidas com as do pré-socialismo organizado em Canudos por Antônio Conselheiro. Para demonstrar isso, basta comparar o texto de são Lucas, nos “Atos dos Apóstolos”, com o de Euclydes da Cunha em “Os Sertões”. Escreve o primeiro: “Ninguém considerava exclusivamente seu o que possuía, mas tudo entre eles era comum. Não havia entre eles necessitado algum. Os que possuíam terras e casas, vendiam-nas, traziam os valores das vendas e os depunham aos pés dos apóstolos. Distribuía-se, então, a cada um, segundo a sua necessidade”. Afirma o segundo, sobre o pré-socialismo dos seguidores de Antônio Conselheiro: “A propriedade tornou-se-lhes uma forma exagerada do coletivismo tribal dos beduínos: apropriação pessoal apenas de objetos móveis e das casas, comunidade absoluta da terra, das pastagens, dos rebanhos e dos escassos produtos das culturas, cujos donos recebiam exígua quota parte, revertendo o resto para a companhia” (isto é, para a comunidade).

Concluo recordando que, no Brasil atual, outra maneira fácil de manter clara a distinção é a seguinte: quem é de esquerda, luta para manter a soberania nacional e é socialista; quem é de direita, é entreguista e capitalista. Quem, na sua visão do social, coloca a ênfase na justiça, é de esquerda. Quem a coloca na eficácia e no lucro, é de direita.

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quinta-feira, abril 17, 2014

Uma bela confissão de Eric Hobsbawm

 
Os meses que passei em Berlim me tornaram um comunista para o resto da vida, ou pelo menos me transformaram em alguém cuja vida perderia a natureza e o significado sem o projeto político a que se dedicou quando estudante, ainda que visivelmente esse projeto tenha falido - e, como agora sei, somente poderia falir. O sonho da Revolução de Outubro ainda está em algum lugar dentro de mim, assim como um texto apagado no computador lá permanece, à espera de que o técnicos o recuperem dos discos rígidos. Abandonei-o, ou melhor, rejeitei-o, mas não foi eliminado. Até hoje me vejo tratando a memória e a tradição da União Soviética com uma indulgência e ternura que não sinto em relação à China comunista, porque pertenço à geração para a qual a Revolução representava a esperança do mundo, o que nunca foi verdade quanto à China. A foice e o martelo da União Soviética eram seu símbolo. Mas o que poderia ter transformado aquele menino de escola de Berlim em comunista?

Hobsbawm.Eric, Tempos Interessantes. Companhia das Letras, São Paulo, 2002. p. 73

domingo, fevereiro 02, 2014

Rosa Luxemburgo - algumas palavras

"Ser humano significa lançar, se for preciso, toda sua vida, alegremente, 'sobre grande balança do destino' [Goethe], mas, ao mesmo tempo, alegrar-se com cada dia de sol, com cada bela nuvem". 
Rosa Luxembugo, in Carta a Mathilde Wurm, Wronke, 28 de dezembro de 1916

Rosa Luxemburgo ainda é pouco conhecida em nosso país. A efervescência elétrica de suas ideias e sua atuação militante são ainda desconhecidas por muitas pessoas interessadas no pensamento político do século XX. Rosa tem um importância capital para as ações, principalmente, que começaram a ser gestadas a partir de sua morte, em 1919, na Alemanha. Caso tivesse obtido resultado positivo a Revolução Alemã, de 1918, talvez o mundo não tivesse conhecido um flagelo demente como Hitler.

Analisando a vida de Rosa a partir da leitura do livro Rosa Luxemburgo - Vida e obra, de Isabel Maria Loureiro - uma das grandes autoridades brasileiras no pensamento da filósofa e revolucionária -, é possível atestar o dinamismo revolucionário da polonesa, que se tornou doutora aos dezenove anos de idade; casou-se com um alemão como estratégia para conseguir a cidadania alemã para participar dos embates do momento histórico daquele país completamente esfacelado, humilhado e dilacerado pela guerra ; que não fugia de participar ativamente dos embates da luta pelo comunismo na Europa nas duas primeiras décadas do século XX. 

Rosa era uma mulher de uma sensibilidade profunda. Lendo uma de suas cartas, encontradas no livro de Isabel Loureiro, pude perceber o quanto a fundadora do Partido Comunista Alemão possuía uma intuição poética rara. A carta foi escrita à sua amiga Sonia Liebknecht, pela ocasião do Natal de 1917. Rosa estava presa. Todavia, os seus sentidos estavam despertos e livres: ela nota o pigarro do guarda, que "dá alguns passos lentos para desentorpecer as pernas". Ela diz que o momento era singular, estando "deitada", "sozinha", "enrolada nos véus negros das trevas", "do tédio", "da falta de liberdade", "do inverno". Todavia, ela sentia uma alegria incomensurável; e ficava perscrutando, à cata de explicações para aquilo que sentia; e não encontrava nada; o sorriso tinha que ser dirigido para algum lugar e ela acabava rindo de si mesma.

Outra descrição de lhana beleza é reflexão que ela faz dos sofrimentos de alguns búfalos que foram trazidos da Romênia e que perderam a liberdade, assim como ela. Ela escreve assim: 

"Outro dia, chegou uma dessas carroças, puxada não por cavalos, mas por búfalos. Era a primeira vez que via esses animais de perto. São mais fortes e maiores que nossos bois, têm cabeça chata, chifres recurvados e baixos, o que faz com que sua cabeça, inteiramente negra, de grandes olhos meigos, se pareça com as dos nossos carneiros. Originários da Romênia são um troféu de guerra... Os soldados que conduziam a carroça diziam ser muito difícil capturar esses animais selvagens e ainda mais difícil utilizá-los para carregar fardos, pois estavam acostumados à liberdade. [...] Há alguns dias, portanto, entrou no pátio uma dessas carroças cheias de sacos. A carga era tão alta que os búfalos não conseguiam transpor a soleira do portão. O soldado que os acompanhava, um tipo brutal, pôs-se a bater-lhes de tal maneira com grosso cabo do seu chicote que a vigia da prisão, indignada, perguntou-lhe se não tinha pena dos animais. [...] Os animais deram finalmente um puxão e conseguiram transpor o obstáculo, mas um deles sangrava... [...] Durante o descarregamento, os animais permaneciam imóveis, esgotados, e um deles, o que sangrava, olhava em frente com uma expressão no rosto negro e nos meigos olhos de criança em prantos. Era exatamente a expressão de uma criança que foi severamente punida e que não sabe por qual motivo nem porque, que não sabe como escapar ao sofrimento e a essa força brutal... Eu estava diante dele, o animal me olhava, as lágrimas saltaram-me dos olhos, eram as suas lágrimas. Ninguém pode ficar mais mais dolorosamente amargurado com a dor de um irmão querido do que eu, na minha impotência, com esse sofrimento mudo. Quão longe, inatingíveis, perdidas as pastagens da Romênia, suculentas e verdades, belas e livres! Como tudo era diferente, o Sol que brilhava, o vento soprando, os belos cantos dos pássaros e o melodioso chamado do pastor. E aqui, esta cidade estrangeira, horrível, o estábulo sombrio, o feno mofado, repugnante, misturado com a palha apodrecida, os homens desconhecidos, assustadores, e as pancadas, o sangue que corre da ferida aberta... Oh! meu pobre irmão querido, aqui estamos os dois impotentes e mudos, unidos na dor, na impotência, na saudade".
Rosa discursando para operários

Talvez, aqui, Rosa pressagiasse em dimensões mais atordoantes os sofrimentos as quais os nazistas impingiriam aos judeus nos campos de concentração. Talvez, o búfalo sirva de metáfora para todos aqueles que padeceram com os vários e diabólicos totalitarismos inexplicáveis e injustificados. Penso que percepção de Rosa no contemplar desse evento com o búfalo, declare aquilo que foi a sua vida. Hannah Arendt em seu livro Homens em tempos sombrios, cuja finalidade é estudar a personalidade de homens notórios, diz que existem inúmeros "mitos" e "lendas" em torno da figura emblemática de Rosa Luxemburgo. "Entretanto, o que não cresceu foi uma outra lenda - a imagem sentimentalizada da observadora de pássaros e amantes de flores, uma mulher de quem os carcereiros se despediam com lágrimas nos olhos, ao deixar a prisão como se não pudessem continuar a existir sem se entreterem com essa estranha prisioneira que insistira em tratá-los como seres humanos".

O socialismo de Rosa primava pela autogestão das massas. Para ela, a experiência histórica é o único mestre a que se deve prestar atenção. E esse mestre nunca falha. Ou seja, as massas aprendem com seus próprios equívocos, avanços e recuos; o movimento dialético dita a ação a ser tomada. Rosa, nesse sentido, destoa do centralismo leninista, que entendia que as decisões da ditadura do proletariado brotavam do núcleo duro do partido. Rosa, por sua vez, defendia um "socialismo conselhista". A burocracia do partido criava uma torre de prepotência por parte de alguns líderes metidos a supostos revolucionários. E aqui cabe uma pergunta: o que ela diria do stalinismo? 

Todavia, a luta pelo socialismo na Alemanha não foi fácil. Grupos paramilitares e reacionários brotavam como erva daninha. Entre eles se sobressaíam os ultranacionalistas e clandestinos Freikorps, cujos principais líderes foram cooptados por Hitler para formar sua tropa canina particular, a SS. Rosa foi detida e covardemente assassinada em janeiro de 1919, juntamente com o seu companheiro de luta Karl Libknecht. Seu corpo foi jogado em um rio das proximidades. Todavia, os restos mortais de Rosa foram encontrados somente em julho daquele mesmo ano. A morte Rosa e a impossibilidade de construção do socialismo na Alemanha, representa a vitória do nazismo de Hitler.

Analisando a epígrafe com a qual abri este texto magro, entendo, a partir da leitura que fiz do texto de Hannah Arendt e Isabel Loureiro, que Rosa Luxemburgo era uma mulher de espírito livre. Ela poderia ter abraçado qualquer causa. Costumava dizer sobre si mesma, como quem dá um sorriso meio sério, meio de brincadeira, que nascera para "cuidar dos gansos". Ela mesma era uma "águia", como Lênin a denominava. E assim, sentiu-se atraída pelo socialismo que, segundo ela, criava a necessidade de "autodisciplina interior, maturidade intelectual, seriedade moral, senso de dignidade e de responsabilidade, todo renascimento interior do proletário". Ainda dando continuidade a esse pensamento, ela entendia que "com homens preguiçosos, levianos, egoístas, irrefletidos e indiferentes não se pode realizar o socialismo". Refletindo sobre essas palavras - e analisando a situação atual do nosso país - quão aquém estamos dessa realidade A existência sob o capitalismo, tal qual vivemos, embrutece-nos, cerceia a capacidade da solidariedade; fragmenta o nosso zelo moral e nos torna em cínicos individualistas. Os movimentos que vemos se arrastando pateticamente pelas ruas desde junho do ano passado são, na verdade" caricaturas de revolução. Uma coletividade cínica, individualista, sem conteúdo, sem programa ideológico, gera apenas ativismo inconsequente, sem sequer, fazer cócegas sistema que se mostra cada vez mais sólido.

domingo, outubro 20, 2013

Dois filmes - A Culpa é do Fidel(2006) e Serra Pelada(2013)

(1) Passei uma semana em casa. A escola onde trabalho deu uma semana de recesso. Consegui descansar um pouco da labuta asfixiante. Amanhã, voltarei ao trabalho, rumo ao final de mais um ano letivo. Aproveitei, assim, a semana para ver alguns filmes. Entre eles, pude ver o excelente A culpa é do Fidel (2006), de Julie Gavras, filha do mitológico diretor grego Costa Gavras. O filme retrata a história de Anna (Nina Kervel) que quer compreender todo o celeuma político em que sua família está envolvida. Ela não se contenta com explicações parciais. Quer entender como os adultos que a cercam tratam as questões políticas. Quer saber o que é aborto, comunismo, solidariedade; o porquê dos homens lutarem por determinadas causas; o porquê de ser proibido cultuar determinada religião. A história se passa em Paris, no início dos anos 70, mas o pano de fundo é a luta contra o general Franco e a eleição de Salvador Allende, no Chile. O nome da obra - A culpa é do Fidel - já nos insere nesse universo de conflito contra a ética do socialismo e o mundo infantil. Nesse sentido, após tê-lo visto, fiquei com a certeza de que ele deve ser colocado ao lado de dois outros excelentes filmes, que retratam crianças como sendo o eixo que estabelece uma crítica - Pequena Miss Sunshine (2006) e A Língua das Mariposas (1999).

(2) O cinema nacional desde o alvorecer do século XXI tem realizado em média setenta produções por ano. Algumas dessas produções são medíocres; outras, nem tanto. É curioso que se no passado investíamos no gênero pornochanchada, mudamos substancialmente para outro apelo estético. As produções que se efetivaram como sucesso de bilheteria, foram aquelas que se fixaram na violência com ramificações gângsteres. Cidade de Deus, Cidade dos homens ou Tropa de Elite são exemplos bem chamativos daquilo que pode ser conhecido como estética da favela ou estética da fome. É um tipo de realismo que foca a miséria e a violência nossa de cada dia. É como se essas produções preenchessem um fetiche de nosso inconsciente coletivo. Ou de nossos medos mais extremos. Aquilo que tememos que nos ocorra no espaço secular da rua, enche nossos os olhos quando assistimos a isso no cinema ou na redoma sagrada e inviolável do lar. 

Na sexta, 18, por exemplo, fui assistir à estreia de Serra Pelada, de Heitor Dhalia, que já havia feito o excelente O Cheiro do Ralo, em 2007. Em O Cheiro do Ralo, Dhalia havia fugido dos convencionalismos e se fiado pela boa criação da ficção que nos enche os olhos. Em Serra Pelada, Dhalia resgatou uma das páginas mais dramáticas da história recente do Brasil, o garimpo de Serra Pelada, no estado do Pará, coração da Floresta Amazônica. O munícipio de Curionopólis, sul do estado do Pará, protagonizou uma corrida ao ouro no início dos anos 80. Estima-se que 30 toneladas de ouro foram extraídos do maior garimpo a céu aberto do mundo. Muitos brasileiros de todas as regiões do país correram em busca do tão propalado ouro. Muitos enriqueceram, mas outros continuaram pobres e tiveram seus sonhos enterrados pelas dificuldades materiais.

É justamente a partir dessa temática que o bom elenco de Serra Pelada recria o cenário. Juliano (Juliano Cazarré) e Joaquim (Júlio de Andrade) são os protagonistas, contando ainda com atores como Sophie Charlote (Tereza), Wagner Moura (Lindo Rico) e Matheus Nachtergaele (Coronel Carvalho). A obra recria o cenário do garimpo e nos joga numa trama na qual ganância, poder e violência vão sendo desenrolados como a lã de um novelo. Juliano torna-se uma espécie de Don Corleone da selva. Vai criando tentáculos a partir da sede que é despertada pela vontade de mais poder. E nesse sentido a obra nos alerta para os elementos psicológicos que fazem parte do mundo humano. Ou seja, como lidamos com o poder e quais são os caminhos construídos para se chegar até ele. Outro aspecto importante é o mundo marginal que existe em torno do garimpo - prostituição, violência, tráfico de drogas, homossexualismo, hedonismo como resultado do ganho fácil do ouro. O filme ainda nos aponta o fato de que nos tornamos reféns de circunstâncias que estão para além do nosso controle.

Embora reproduza a estética da miséria e da violência, criando uma trama hollyoodiana, a obra é significativa por retratar um evento importante da história do Brasil recente e trabalhar com aspectos tão singulares do mundo humano.

sábado, outubro 05, 2013

Pensata matinal de início de mês


Um gracejo matinal! 

Viver em uma sociedade capitalista é ser enredado em algumas armadilhas. Estamos presos à cotidianidade. Naturalizamos um determinado estilo de vida. É como se não existisse outro. Introjetamos a ideia de que quanto mais consumimos, mais realizados nós somos. Tornamo-nos susceptíveis a forças coercitivas - sejam elas reais ou simbólicas. Uma delas é o fetiche da mercadoria. Atualmente, o cartão de crédito é uma espécie de "passagem" para o mundo da possibilidade. O cartão possui um poder simbólico, pois quando o usamos, não temos uma noção imediata dos estragos a que estamos sujeitos. É como se adiássemos a prestação de contas e isso gera uma satisfação - pelo menos um apaziguamento na consciência. Todavia, lá no início do mês, os diques da realidade são rompidos e acabamos nos afogando em meio às exigências das instituições financistas. O salário exíguo vai embora. Escoa com a celeridade de um rio caudaloso. E aí, entramos mais uma vez, numa ciranda: consumimos e trabalhamos com o objetivo de quitar as obrigações criadas pela mercadoria. É o círculo nefasto, a roda-viva. E aí surge a pergunta: a vida é somente isso?

segunda-feira, julho 15, 2013

"Febre do Rato", de Claudio Assis, a poesia 'esperneante' que vem debaixo

"É a coletividade que vai dar uma lapada nas leis e uma bicuda no ovo da ordem" - Zizo, in Febre do Rato

Fazia um certo tempo que eu não assistia a um filme que me perturbava tanto. O último, talvez, que me vem à memória é o Sétimo Selo, de Ingmar Bergman, que vi em 2011. Fiquei dias ruminando os efeitos filosóficos e teológicos da película de Bergman. Dessa vez, o filme que me deixou em transe foi Febre do Rato, do brasileiro Claudio Assis. O cineasta pernambucano, fugindo das preocupações do mainstream, tem produzido obras significativas, o que já o coloca como um dos grandes do cinema nacional. Assis produziu pouco. Três filmes apenas - Amarelo Manga (2002), Baixio das Bestas (2006) e o febricitante Febre do Rato (2011). Antes dos filmes, Assis produziu alguns documentários e curtas.

Não cheguei a fazer uma pesquisa, mas acredito que o termo 'febre do rato' esteja circunscrito ao mundo linguístico pernambucano. Cresci ouvindo o meu pai dizer (sou pernambucano e de família pernambucana): "Ele não está com a febre do rato", quando queria dizer que alguém não deveria exceder o bom senso, extrapolar a realidade e se fiar pelo mundo da loucura. Assim, 'febre do rato" é a realidade daquilo que não é comum, que está fora do padrão; que assume uma natureza para além do corriqueiro.

E talvez não exista nome mais adequado do que este para a película de Cláudio Assis. Como os outros dois filmes, a história se passa em Pernambuco - especificamente Amarelo Manga se passa em Recife e Baixio das Bestas centra a sua temática na zona rural pernambucana. Febre do Rato em sua exposição crua, em sua visceralidade extasiante, é o foco sendo dado ao submundo dos centros urbanos. As palavras iniciais do narrador (o poeta Zizo) aturdem, mescladas ao mundo insalubre dos cortiços à beira do mangue: "Logo ali por trás do mangue, descansa insone a faca, o serrote, o trabalho, o sexo e o sangue. Abismo, mundo escuro, profundo buraco; lateja o fardo de tuas ruas, lateja o grito ruminante, gritos de não. Não de abismo".

O filme é uma poesia desvestida. A começar pela película em preto e branco, que confere à obra uma aspecto atemporal, sublime e de funda envergadura metafísica. Não há uma fotografia corriqueira, daquelas produzidas para agradar. Tudo é feito para contrariar a estética do belo e realçar a estética do "cuspe" e do "escarro" de Augusto dos Anjos. O que existe é o movimento. O movimento da poesia, que é embriagada e embriagante como o personagem principal da obra - Zizo (Irandhir Santos, que está impecável na obra!).

A obra de Assis foge ao convencional. O grupo de amigos, que está sempre junto do poeta, composto por traficantes, vagabundos, travesti, coveiro, embriagados, parece constituir os habitantes de Sodoma e Gomorra. Ou seja, as personagens suprimem a lógica burguesa. Poeta e obra buscam pregar uma atitude anárquica ante as coisas. Não se trata diretamente ou meramente da supressão do Estado ou da ordem burguesa instituída. O filme busca fazer com que o homem médio saia de sua letargia, de seu sono profundo. Que se posicione diante do descalabro da irgonorância e do ventriloquismo a que é submetido. Em certa altura do filme, Zizo diz: "As pessoas ficam falando em futuro, em mudança, mas não estão nem aí para as coisas que estão realmente mudando. Perderam a capacidade de espernear". ( o destaque é meu)



É justamente essa capacidade "de espernear" a que o filme faz alusão. Zizo é o porta-voz, o profeta sem deus, cuja religião é a poesia. O Antônio Conselheiro, o Sandino, o Zumbi, o messias do gueto, do submundo, do mundo-abismo da periferia, obumbrado pela inferno da indiferença burguesa. Zizo é a poesia esperneante que chama os homens a trazerem vasilhas para encherem de liberdade; a que tragam as vasilhas para que encham de cumplicidade; que tragam as vasilhas para encherem de força.


Claudio Assis se aproximou dos grandes nomes ao dirigir Febre do Rato. Talvez, tenha se aproximado de um Glauber Rocha em sua capacidade dançante de construir enredos eivados de força ou de um aludido Bergman capaz de fazer grandes discursos por meio das imagens. Febre do rato é a extrapolação de qualquer consideração metódica . Fez-me refletir como a palavra pode ser utilizada como libelo que constroi realidades desestabilizadoras; que suprime as névoas do olhar; que emancipa o sujeito; que traz os atores (vítimas da omissão) a serem protagonistas de uma nova verdade dialógica. 

Penso que Claudio de Assis tenha conseguido fazer um dos filmes mais belos e delirantes da história do cinema brasileiro. Que bom saber que estamos chegando a esse nível de maturidade. 

É possível assistir ao filme no Youtube

P.S. Aviso: os moralistas burgueses e religiosos podem se chocar com algumas cenas. Afinal, é preciso ser louco para ser livre. Desculpem a afirmação que soa a clichê. Mas acredito que Zizo gostaria dessa frase.

sexta-feira, maio 10, 2013

"As convicções são inimigas mais perigosas da verdade do que as mentiras"

Diz Paulo Freire em sua Pedagogia do Oprimido que não é possível manter uma relação dialógica com quem não comungue com o seu projeto ideológico. Pensava que existia um certo radicalismo nessa assertiva, até que ontem percebi que o educador pernambucano estava correto. Nietszche diz também em um dos seus livros que "as convicções são inimigas mais perigosas da verdade do que as mentiras". 

Faço essa divagação, pois ontem tive o desprazer de tentar estabelecer um diálogo com um sujeito o qual estudei em um seminário teológico. Nos anos de seminários, notava o quanto o sujeito era "quadrado", radical; o quanto baseava seus argumentos em convicções extremadas. Ontem, pelo Facebook, fiz uma correção a uma afirmação sem fundamento histórico colocada por esse ex-colega e ele me respondeu com uma ironia despropositada. Além do que, enviou-me um texto que, quando li, dei grandes risadas.

O texto busca desqualificar o marxismo, fazendo uma mixórdia de afirmações desencontradas. Fiquei com a impressão irônica de que a principal função de Marx era perseguir o cristianismo e acabar com a religião de Paulo. Um verdadeiro desbunde. Imaginei, ainda, que (se eles - construtores de teologias alienígenas - leram os textos de Marx) eles haviam lido outros textos, que não aqueles escritos pelo autor de O Capital. O nome dado pelos adeptos desse radicalismo esquizofrênico é "marxismo cultural". Marxismo cultural seria o movimento de cunho cultural, alimentado por intelectuais e pelos meios de comunicação de massa para arruinar os valores judaico-cristãos. 

 O que me chamou atenção foi a incapacidade do sujeito ler os fatos por uma perspectiva crítico-dialética. Ele se diz professor de Filosofia no estado do Maranhão. Temi pelo que o sujeito anda ensinando para os sues alunos. Afinal, ele colocou o socialismo, o nazismo e o fascismo na mesma esteira de comparação. Ele ignora o fato de que foi a União Soviética que derrotou o nazismo. Não quero entrar no aspecto do socialismo real implementado pela União Soviética, já que sempre associam o socialismo às ditaduras variadas. Todavia, vivemos, também, uma ditadura muito bem-disfarçada sob a égide da democracia e da liberdade.

Indicou-me alguns escritores aos quais já tive a oportunidade de conhecer - Peter Kreeft, Olavo de Carvalho, Nancy Pearcey, Charles Colson, William Craig, John C. Lennox. A maioria deles, da direita ultra-conservadora dos Estados Unidos. Ou seja, defensores da política de Bush.

O que me deixa impressionado é saber como um sujeito que se arroga a ser formador de opinião se mostra tão míope. Sua preocupação mais intensa é o movimento homossexual. Desconhece o sujeito que os valores morais  seguem a lógica de cada momento da dialética da história. E que a própria sociedade judia possuía os seus valores e esses foram cristalizados no tempo pelo movimento religioso que dogmatizou os seus aspectos culturais. Impressiona-me como os valores culturais de uma determinada sociedade, no caso a judia, por meio dos valores ditos bíblicos, cegam um ser humano ao ponto de descaracterizar, distorcer a própria realidade em que vive. Impressiona-me perceber que, como no Mito da Caverna de Platão, alguém enxerga o mundo por meio de sombras. Assusta-me o nível de embrutecimento gerado pelas convicções da fé. Isso explica, por exemplo, a atitude de um homem-bomba ou a capacidade de ser implacável com os diferentes. 

Paulo Freire e Nietzsche me fizeram entender um pouco mais sobre a natureza do humana, demasiado humana.

sexta-feira, novembro 30, 2012

Jack London - a boa narrativa

"... a vida atinge o seu auge quando concretiza plenamente aquilo para cuja realização foi equipada"
Jack London, in Caninos Brancos, p. 71

Terminei há alguns dias atrás a leitura de Caninos Brancos, um dos livros mais reputados dos escritor John Griffth Chaney, mais conhecido como Jack London. O americano é um dos maiores narradores da literatura inglesa de todos os tempos. Não me recordo quando, mas há bastante tempo eu havia lido um dos seus primeiros sucessos: "O chamado da floresta". Quando li o referido livro fiquei com uma sensação gostosa. Jack London tem a habilidade de nos arrebatar com seus textos.

Considerei por muito tempo a facilidade com a qual London sabia criar uma boa história. Com Caninos Brancos não é diferente. Deve ser por causa dessa característica, que o escritor alcançou tão grande sucesso. Seu texto é simples; sua capacidade para descrever cenários e sensações é singular. Enquanto lia a história de Caninos Brancos, nascido na floresta, região do Rio Mackenzie, no Klondike, lugar onde London esteve como aventureiro, imaginei aquelas porções desertas, silenciosas, grávidas de beleza. Quando se fala de London, a sua vida já seria um motivo literário. Foi jornalista, militante político, aventureiro, vagabundo, marujo, garimpeiro, romancista, mulherengo, alcóolatra, autodidata, socialista. Sua curta vida (quarenta anos) foi febricitante. É como se ele tivesse acumulado nesse curto espaço tempo o máximo de experiências para ter combustível para os seus romances.

Sobre o fato de ter sido socialista é interessante afirmar que há uma blague do Graciliano Ramos sobre o escritor, citado em Retrato Fragmentado, escrito pelo Ricardo Ramos. Conta Ricardo que perguntou ao Velho Graça: "E Jack London?" O Graça respondeu: "Bom, ninguém discute. E também ruim, discursivo. Leu Marx sem digerir". Graça não deixa de está certo quando diz que London é discursivo, sobre o fato de ser ruim eu discordo. De fato, o escritor de O lobo do mar é um bom contador de histórias. Apenas isso. Todavia, pode se apontar algumas lições sobre suas histórias. Mas, no fundo, acredito que seja um dos tantos ditos pilheriosos de Graciliano Ramos. Ele gostava de falar essas coisas. Como em certo episódio contado por Dênis de Moraes. Um jovem curioso e diletante o inquiriu sobre Machado de Assis. Graça respondeu: "Um burro!". O jovem silenciou e seu interesse se esfumaçou.

Deixemos a divagação. Por exemplo, em O chamado da floresta, London mostra como uma criatura civilizada (o cão Buck), ao entrar em contato com a natureza, transforma-se em algo selvagem. A natureza chama o cão. Deposita nele os instintos naturais. Molda-lhe as feições. Em Caninos Brancos temos o contrário. O lobo mestiçado com cão, migra da natureza para a civilização. A natureza lhe dar a força indômita. A energia predadora. A inteligência indomável. A ferocidade inquebrável. Mas a sociedade dociliza os seus instintos. Treina-o para a submissão. Faz com que ele crie um vínculo amoroso com o dono. 

Enquanto lia o livro fiquei analisando a capacidade de London em adentrar em pormenores da psicologia lupina. Como um sujeito consegue criar tão bela descrição da mente de um animal? Não pude deixar de lembrar de Baleia, o maior exemplo da literatura brasileira. É importante frisar que as descrições da psicologia canina em Baleia são muito mais bonitas e existencialmente perturbadoras do que em Caninos Brancos. Todavia,  o modo como o americano narra, apreende-nos. Graciliano nos tortura com seu realismo. Com a dissecação de um cadáver a qual ele, narrador, não mostra comiserção. Aprofunda o corte de seu bísturi e mostra os nervos. É isso que nos emociona. Que provoca impressão profunda. London, por sua vez, imprime um dinamicidade na narrativa que a torna bela, enxuta, escorreita, ágil. 

Ele amadureceu como contador de história. O fato é que London reflete, talvez influenciado por Nietzsche, de quem era grande leitor, talvez influenciado por Spencer, outra paixão, sobre uma lei que rege os sujeitos que estão sob os poderes da natureza. Essa guerra natural define o destino dos homens. Os mais fortes prevalecem. De certa forma, essa é a filosofia de Caninos Brancos. A natureza nos treina para a guerra e somente os mais adaptados a essas condições conseguem sobreviver. Como na frase que encontramos no livro: "...no poder é que repousa a divindade" (p.137)

Tenho aqui em minha biblioteca outro livro dele (O lobo do mar), que ainda não li. Acendeu uma vontade enorme de fazê-lo. Se não me falha a memória tenho, também, A paixão do socialismo - de vagões e vagabundos & e outras histórias, de sua autoria. Hoje dei uma olhada em um outro título seu que me cahmou a atenção. Chama-se Antes de Adão e me pareceu um texto mais sério. Cheio de motivos filósoficos. Uma defesa do materialismo e do evolucionismo.

Minhas férias estão chegando. Aproveitarei para ler alguns texto ruins e discursivos de London, como disse o Velho Graça.

sábado, novembro 17, 2012

Germinal, de Émile Zola, algumas reflexões

"A alegria de viver desaparece quando não há mais esperança"
Émile Zola, Germinal, p. 371
 

Pode se afirmar que o século XIX é a idade de ouro do liberalismo. A premissa básica do liberalismo estava fundada na seguinte ideia: "A iniciativa individual é o motor, a mola de toda a atividade válida". Esse entendimento era derivado dos movimentos pró-burguesia fecundados no século XVIII, principalmente com a Revolução Francesa. E o liberalismo (surgido no século XVII) como sistema filósofico representou o sonho de consumação dos intentos da burguesia. Na corrida pela efetivação da "iniciativa individual", havia aqueles que podiam competir, por possuírem os meios de produção, e aqueles que possuíam apenas a força braçal e os instintos de sobrevivência. 

 O Estado como organizador do sistema social como sonhado pelos Iluministas, principalmente por Hobbes, deveria ter a sua presença minimizada. A Segunda Revolução Industrial estava a pleno curso. A invenção da máquina a vapor, as várias ideologias - positivismo, o socialismo, o existencialismo, o darwinismo, o monismo, por exmplo - estavam assentadas num ideal materialista. Ou seja, a ideia de que o mundo e a natureza eram os pontos determinantes a serem conhecidos pelo homem. 

Mas e a literatura possui alguma relação com isso? E respondemos de forma peremptória que sim. A literatura é a transfiguração do mundo. Ela por si se constitui a mistura do mundo real e o mundo possível. Quando o sujeito da literatura cria, não deixa de coniderar a realidade. Mas ele o faz criando uma imitação que gera tensionamentos. Essa imitação é um fundamental para compreender determinados momentos históricos. É por isso que Marx disse em certo momento que aprendeu mais sobre a sociedade francesa do século XIX com Balzac do que com livros técnicos de historiadores e economistas. 

Sendo assim, a complexa e ebuliente sociedade do século XIX pode ser compreendido de maneira "transfigurada" pela literatura. É importante mencionar que além de Zola, outros escritores também se preocuparam em retratar materialmente as desigualdades gestadas pelo capitalismo naquele século. Na Inglaterra, Charles Dickens, foi um importante cronista da vida citadina da Inglaterra industrializada. As ruas repletas de lama; os prostíbulos; a exploração; a infância perdida. Na França, Victor Hugo com Os Miseráveis, pintou um quadro fantástico das relações dos pobres numa sociedade dominada pelos interesses da burguesia. Em Portugal, Eça de Queirós, não se preocupou em retratar o mundo material como Dickens ou Hugo. Preferiu mostrar a hipocrisia que habitava o seio do mundo burguês. E aqui no Brasil, Aluísio Azevedo escreveu dois livros fundamentais,  inspirado por esse movimento vivo então na Europa - O mulato e O cortiço. Ambos os livros são extraordinários. O primeiro por mostrar como o preconceito se constituía em modo de navegação social numa sociedade escravocrata como a nossa; e, o segundo, retratava as condições sub-humanas na qual vivia o povo pobre do Brasil, com todas aquelas doses naturalistas: a promiscuidade, a ausência de educação, os instintos aflorados, a exploração econômica, a dança do corpo. O cortiço está mais próximo de Germinal.

Após essa divagação, queria afirmar que Germinal cuja leitura se concretiza de forma elétrica, é um grande tratado, um documento social. Um libelo contra a sociedade burguesa, assentada na desigualdade. Após ter lido a obra, resolvi assitir ao filme homônimo, lançado em 1993, por Claude Berri. Achei-o convicente. Todavia, o jogo linguístico e a fluência literária como de um cientista de Zola torna Germinal uma leitura indispensável. Em alguns momentos de leitura, eu me vi passeando ao lado de Etienne Lantier, personagem central da obra, pelas ruas feias e cobertas de lama de Montsou.

Germinal foi escrito em 1885 e tornou Émile Zola numa das personalidades mais importantes da literatura universal. De família pobre, Zola passou por muitas dificuldades antes de se estabelecer como um habilidoso cronista. Para escrever Germinal, Zola morou numa comunidade de mineiros durante quase três meses, tempo este em que pode experimentar todas as vicissitudes do triste cotidiano nas regiões interioranas da França. Comeu a comida pobre daqueles homens que viviam como bichos; bebeu água contaminda; percebeu a promiscuidade dos jovens como um apelo ao instinto; dormiu nas casas desadornadas de conforto e sem calefação; desceu aos buracos infames a centenas de metros de profundidade para trabalhar na semi-escudridão, em um ambiente insalubre, pegajoso e que deteriorava a saúde e a vida do trabalhador, como é retratado, por exemplo, na pessoa da personagem Boa-Morte, que vivera cinquenta anos no trabalho inglório. O resultado foi vomitar uma substância preta e a imobilidade demente no final da vida.
Zola ao viver na comunidade dos mineiros colocou em voga o pressuposto básico do naturalista - viver próximo ao fato para narrá-lo com insenção e imparcialidade. Sua função era retratar anatomicamente os eventos sem qualquer moralismo. Era é importante realçar os instintos. Adelgaçar a necessidade da funcionalidade da vida. 

As condições materiais de existência dos mineiros era degradante. Por conta disso, iniciam um movimento grevista sob a liderança de Etienne Lantier. Apoiam-se numa resistência grossa. Organizam-se. Falam na Internacional que era naquele momento uma importante organização internaicional de trabalhadores. Desconhecem as teorias socialistas. O único intento e o desejo de justiça. Queriam fugir da degradação e da opressão. Queriam apenas comer dignamente. Todavia, esse anseio é ocultado pela resistência em atender às aspirações dos mineiros por parte do dono da mina. Zola parece querer mostrar que existem instâncias no sistema. Que todos estão presos, enredados, na teia medonha que aprisiona os envolvidos - dominador e dominados - no jogo de interesse. 

Outro importante recurso utilizado por Zola é colocar em paralelo a burguesia, representado pela comida fácil, o riso mole, a futilidade dos grandes saraus e a situação de desespero do mineiro. Cabe a este viver em condição de penúria. Esse paralelo pode ser verificado na reflexão feita por Etienne: "[...] por que havia tanta miséria de um lado e tanta riqueza de outro? Por que estes [os mineiros] tinham de viver escravizados àqueles [os burgueses], sem a menor esperança de um dia mudar de posição?".

De certa forma essa tese, segue no triste curso da narrativa. A greve iniciada pelos mineiros naufraga. Eles são forçados a voltarem ao trabalho. As necessidades vitais os premem. Submentem-se voluntariamente à tirania. Não conseguem resistir, apesar do ódio. As várias mortes perpetradas pela polícia, braço direito daqueles que estão no poder, desmancha o movimento. A polícia que em sua essência é também formada por homens pobres e comuns, existe para proteger o patrimônio do capitalista. Ou seja, o capitalista, segundo Zola, é cruel em sua sanha, pois alimenta-se do sangue do povo quando explora e blinda-se com o aparelho formado pelo Estado Liberal que protege a propriedade. Todavia, essa proteção é feita pelo povo. 

Etienne vai embora de Montsou. Os mineiros são obrigados a se resignarem com as condições vis de trabalho. E aí não deixei de perceber a tese niilista do livro. Por mais que se tente lutar contra o monstro da opressão, ele possui tentáculos asfixiantes, capazes de dilacerar com sua força qualquer resistência. Resta ao homem pequeno, de existência sofrida resignar-se à indigência até que chegue a morte. O sonho de igualdade é um vislumbre utópico. A ignorância dos pequenos é a arma do ricos. Embora essa tese esteja na obra, o final do livro nos traz uam mensagem de esperança. Enquanto Etienne caminhava pela planície de Montsou, Zola despeja sua pena literária: "Do flanco nutriz brotava a vida, os rebentos desabrochavam em folhas verdes, os campos estremeciam com o brotar da relva. Por todos os lados as sementes cresciam, alongavam-se, furavam a planície, em seu caminho para o calor e a luz. Um transbordamento de seiva escorria sussurrante, o ruído dos germes expandia-se num grane beijo. E ainda, cada vez mais distintamente, como se estivesse mais próximos da superfície, os caompanheiros cavavam. [...] Homens brotavam, um exército negro, vingador, que germinava lentamente nos sulcos da terra, crescendo para as colheitas do século futuro, cuja germinação não tardaria em fazer rebentar a terra".

Fica clara a construção de uma belíssima metáfora, já que o nome germinal estava associado ao calendário da primavera na Revolução Francesa, quando a semente das plantas germinavam. Em um sentido mais lato, germinal é a fecundação, o rebentar de uma transformação social que estava em curso. Zola parece prever os conflitos que estavam sendo fecundados no seio do capitalismo. As desigualdades sociais trariam resultados claros, numa espécie de salto dialético.

O fato é que Germinal é um dos mais importantes livros a tratar de questões sociais. Sua temática ainda está viva. Nas periferias das grandes cidades brasileiras, por exemplo, é possível encontrar famílias como a dos Maheau. Pessoas pobres. Sem instrução; não contempladas por políticas públicas efetivas. Cerceadas do jogo do poder. Iludidas com o ideial de democracia. Democracia e liberdade são termos que aquecem o espírito e geram consolo no Estado burguês. Cria uma ideia de povo que participa das decisões do Estado no suposto jogo democrático. As sementes nunca tiveram tão adormecidas e estéreis.

terça-feira, julho 10, 2012

O Moloque Ricardo (uma obra política) - pequenas observações


Li neste último final de semana O moleque Ricardo, de José Lins do Rego. A intenção era ler Usina, mas verifiquei que O moleque Ricardo é o quarto livro de "o ciclo da cana-de-açucar" e decidi postergar a leitura de Usina, livro lançado no ano de 1936, já que temos uma questão cronológica envolvida. Usina é o último livro do "ciclo" criado pelo escritor paraibano. Coisa curiosa é ler os livros de José Lins do Rego. Já pude ler três das suas obras neste ano de 2012. Pretendo ler ainda outros dois - Fogo Morto e Usina - e, quiça, Cangaceiros. Quando tiver lido Usina, concluirei todo "o ciclo da cana-de-açucar".

Escusado é dizer que José Lins do Rego é um dos maiores escritores que já surgiram em terra brasileira. Ele é uma espécie de Marcel Proust nordestino. Um Balzac paraibano. Sabia contar uma história como ninguém; observar as idiossincrasias mais profundas do seu povo. À medida que avançava em seu texto, percebia como existe uma fluência em sua escrita. O texto corre célere como as águas de um richo. Vai embora exatificando por meio de uma transparência incomum os fatos mais caracteríticos da vida do homem nordestino. 

No caso de O Moleque Ricardo, José Lins desejou dar vida a um personagem que atuou como coadjuvante nos outros três romances iniciais do "ciclo" - O menino de Engenho, Doidinho e Bangue. Ricardo atua nas três obras iniciais como aquele que brincava com o "senhozinho rico" da casa-grande - no caso, Carlos de Melo, neto de Zé Paulino, o dono do Santa Rosa. Carlos de Melo após a morte do avó não consegue manter o engenho. A bancarrota acontece de maneira certa. A morte do coronel Zé Paulino simboliza a própria morte do engenho, como se dá em Bangue

Em O Moleque Ricardo, Zé Lins situa os holofotes sobre 'o negro que tinha caráter como o diabo', como o próprio romancista depõe acerca da personagem. Ricardo é antítese da própria vida citadina. É como se José Lins quisesse contrapor os valores da vida rural aos da vida urbana. Ricardo deixa o Engenho Santa Rosa e vai para o Recife tentar a sorte na cidade grande. Lá ele percebe o quanto "os homens pequenos" são pisoteados por uma desigualdade avassaldora. O romance narrado em terceira pessoa, demonstra fortemente o engajamento do romancista refletindo os problemas sociais. Fala-se em Marx, em Lênin, na Rúsia; no operariado; nas associações dos trabalhadores; em greve, em passeata; em comícios. Há em O moleque Ricardo um forte socialismo social, distendendo as forças entre os pequenos e a ganância do Estado na pessoa dos governantes. 

Ricardo representa o bucolismo da cena rural. A bondade do selvagem, uma tese quase rousseauniana, contra a ganância das elites; daqueles que aviltam com a finalidade de obtenção de lucro; que alienam; que vituperam o trabalhador. Um exemplo disso se dá quando um dos empregados de seu Alexandre, dono da padaria onde Ricardo trabalha, é despedido. O patrão após perceber que o empregado havia participado de uma passeata dá as contas do sujeito. Este após ficar sem emprego, vê-se numa situação de penúria e acaba cometendo assaltos para sustentar a família. Ricardo fica sabendo da história e comenta com os amigos. A conclusão a que chegam é que o responsável por aquilo era o patrão, pois deixou o empregado numa situação vulnerável. A ganância da sociedade corrempe e sujeita o trabalhador (o bom homem) à condenação.

Apesar de ser uma obra eminentemente política, O moleque Ricardo é uma obra lírica. Graciliano Ramos disse certa vez que se tratava de uma das maiores obras de ficção de nossa literatura. Há passagens belíssimas. Por exemplo, quando Ricardo e seus companheiros estão sendo enviados para Fernando Noronha, como resultado da punição por causa da greve. Zé Lins utiliza-se do recurso da repetição e imprime um forte toque minimalista e trágico à fala de uma das personagens - Pai Lucas. "Que fizeram eles?" Ao que se responde: "Não se sabe não.". 

É como se Zé Lins inocentasse o negro Ricardo e seus companheiros da sina medonha. Foram presos e seriam deportados para um lugar distante pelo simples fato de desejarem uma vida melhor, mais digna e o resultado foi catastrófico. E o repicar dessa sentença ("Que fizeram eles?" "Não se sabe não.") vai sendo repetido como algo que se perde na distância. Uma representação do navio que transporta a leva de degredados. As metáforas são lindas. As metonímias são exatas. As aliterações mexem com a compreensão. 

Baita livro!


sábado, junho 02, 2012

O estilo de vida e "a bárbarie"

No ano 1 depois de Cristo, a população da Terra era de 300 milhões de habitantes. Mil anos após, a população do Planeta Terra havia chegado a 310 milhões de habitantes. Ou seja, em mil anos a população do mundo havia aumentado em 10 milhões de pessoas. Em 1600, a população havia dobrado para 600 milhões de habitantes. Em 2000, a estimativa era de que a população estivesse em 6 bilhões. E no ano passado o número de habitantes pulou para 7 bilhões. Algo realmente assustador. Crescemos em 10 anos o que não se cresceu em mil anos.

Oscilo entre o otimismo e o pessismismo e, por fim, permito que este último ganhe quando penso no futuro da humanidade e do Planeta. Em meados século XX, Rosa Luxemburgo gritava: "Socialismo ou bárbarie!". Não quero fazer uma defesa do socialismo ou repudiar peremptoriamente o capitalismo. Quero apenas refletir no fato de que o grande problema do mundo não é em si um sistema econômico, mas o próprio homem. O homem é o autor do colapso do Planeta e de si mesmo.

O que o Capitalismo faz é realçar esse egoísmo intrínseco. Adensar uma perspectiva que faz parte da essência do ser humano. O estilo de vida defendido pelo homem é parasitário e faz com que sobre pouco espaço para a manuntenção da vida. Quantas já não foram as espécies extintas por causa do homem? Quantas já não foram as florestas destruídas para que cidades fossem construídas? Quantos não foram os rios e córregos completamente assolados de maneira irresponsável. Já vivemos a "bárbarie" propugnada por Rosa Luxemburgo. 

Quase 1 bilhão de pessoas passam fome em todo mundo. Mais de 1,3 bilhão não têm sequer uma lâmpada em casa. O grande desafio do homem é manter-se vivo à depredação protagonizada por ele mesmo. Criamos um modelo de civilização e acreditamos que ele seja perfeito. Não queremos abrir mão de tudo aquilo que temos. O nosso estilo de vida parece irreversível. Nossas telas de computadores, de celulares, cospem o brilho irrefugável do orgulho; os carros velozes e cada vez mais sofisticados aguçam a velocidade de nossas fantasias. A necessidade de destruição das florestas para plantar, para construir casas, prédios, é cada vez mais premente. O espaço outrora reivindicado por todos os outros seres vivos, tornou-se do homem. 

Somente o homem é capaz de dizer: "Eu sou o dono disso aqui". "Isso é meu!" E com isso, todo o Planeta Terra está sitiado e medido pela ganância. Caminhamos a passos largos para o abismo. A estimativa é que em 2030, a população do mundo chegue a 9 bilhões de pessoas. E algumas perguntas nos surgem: Como vestir essas pessoas? Como alimentar essas pessoas? Como conseguir água? Como será a vida nas grandes cidades?

O Planeta oferece um limite e nós estamos demorando muito para perceber isso. Os economistas anseiam pelo progresso. Falam em "crescimento virtuoso", quando presenciam uma homogeneidade no desenvolvimento. Para eles, progresso é permitir que todos os sujeitos de uma determinada sociedade possam consumir a fim de gerar divisas e capital para uns poucos ficarem mais ricos. Mas para que o abismo civilizacional não chegue cada vez mais próximo, o que devemos fazer? Apostar num estilo de vida mais coerente? Pautar nossa vida num estilo mais responsável? As respostas são pouco otimistas.

O que notamos é que quanto mais o tempo passa, mais percebemos que a velocidade do trem que construímos é louca e inconsequente. Estamos numa ladeira enorme e não queremos enxergar a curva à frente. Enquanto isso, uma festa continua sem que nos preocupemos com as irregularidades do caminho. Os próximos mil anos podem não aparecer.

Música da banda Dave Matthews Band (Don't Drink Water). Belas e perturbadoras imagens.