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domingo, março 01, 2026

A Quarta de Mahler

 


A Quarta, de Mahler, é a porta de entrada inquestionável para o seu mundo de fabulosas inquietações filosóficas e existenciais. Todavia, o ouvinte que assimilar a Quarta e tiver por intento a mesma experiência estética nas outras sinfonias, ficará decepcionado. A Quarta é um idílio em meio aos dramas arquiteturais esculpidos pelo compositor austríaco. Ela possui, inegavelmente, uma atmosfera mais ensolarada, mais benfazeja; suave, leve, sorridente. Mahler parecia ter acordado, pela manhã, em algum dia de 1899, e percebido os pássaros em cantorias primaveris. Conduzido por aquele espírito de bem-estar e aquecido pela tepidez da manhã banhada por luminosidade doce, ele sentiu que a vida poderia ser repleta de sentido; que existe uma vocação no Universo e que ele contempla favoravelmente aqueles que procuram experimentá-lo com justiça. A Quarta é esse instante em que a vida ganha dimensões poéticas incontrastáveis, apesar dos seus perigos.

Composta entre 1899 e 1901, a sinfonia encerra um ciclo criativo fortemente ligado ao universo do cancioneiro popular alemão “Des Knaben Wunderhorn” (“A corneta mágica do menino”). Ao contrário das sinfonias anteriores, que incorporam explicitamente canções desse repertório, a Quarta guarda seu segredo até o último movimento, quando a voz humana finalmente aparece para revelar o sentido de tudo o que veio antes.

Desde o início, Mahler propõe um jogo de contrastes. O primeiro movimento se abre com o som de guizos, evocando trenós e paisagens invernais, quase infantis. A música parece caminhar com leveza, mas logo surgem desvios: sombras súbitas, ironias discretas, pequenos abismos emocionais que interrompem a tranquilidade aparente. É Mahler nos lembrando de que, mesmo no idílio, o mundo nunca é totalmente seguro.

O segundo movimento possui um caráter ambíguo. Há uma insinuação trágica representada pelo violino. Um som ácido e espectral faz lembrar que a vida pode ser um lugar de dissabores. Mas nada que seja explicitamente trágico. São insinuações, comedimentos.

No terceiro movimento, surge um adagio de espetacular beleza – daqueles que são colocados na categoria das coisas mais bonitas já escritas por um ser humano.  Uma meditação serena que cresce lentamente até atingir um clímax de intensidade quase transcendental.

E o quarto movimento é o momento em que há a transfiguração, a apoteose, a crença inabalável em um mundo em que não haja tristezas. Uma soprano entoa o poema “Das himmlische Leben” (“A vida celestial”), descrevendo o céu do ponto de vista de uma criança. O paraíso mahleriano não é solene nem grandioso: é um lugar de comida farta, música constante e ausência de sofrimento. Mas mesmo nessa visão luminosa, há algo de inquietante - como se a simplicidade excessiva revelasse também uma distância irreparável entre o mundo ideal e a experiência humana. 

Coisa de gênio. 


sexta-feira, janeiro 16, 2026

Na hora da almoço - de Belchior


No centro da sala, diante da mesa
No fundo do prato, comida e tristeza
A gente se olha, se toca e se cala
E se desentende no instante em que fala
Medo, medo, medo

Cada um guarda mais o seu segredo
Sua mão fechada, sua boca aberta
Seu peito deserto, sua mão parada
Lacrada e selada e molhada de medo
Medo, medo, medo

Pai na cabeceira: é hora do almoço
Minha mãe me chama: é hora do almoço
Minha irmã mais nova, negra cabeleira
Minha vó reclama: é hora do almoço, moço, moço, moço

E eu ainda sou bem bem moço pra tanta tristeza
Deixemos de coisas, cuidemos da vida
Se não chega a morte ou coisa parecida
E nos arrasta moço, sem ter visto a vida
Ou coisa parecida, ou coisa parecida
Ou coisa aparecida

 

domingo, janeiro 11, 2026

Meus 20 concertos para piano favoritos.

Marc-Andre Hamelin em concerto com a Osesp

A palavra "concerto" tem a sua origem na palavra "concertare", cujo significado é "competir", "combater", dando a entender que a ideia de concerto existe em torno de uma disputa. A origem remonta o século XVII. O "Concerto grosso" ("concerto grande"), surgido nesse período, com um pequeno grupo de solistas, buscava contrapor esse mesmo grupo  à orquestra. Houve uma evolução desse formato para - apenas - um solista, fosse ele violinista, violista ou pianista. No Barroco, nomes como Vivaldi e Corelli são fundamentais para essa evolução. No Classicismo, esse formato tornou-se cada vez mais popular e acabou sendo usado por vários compositores - entre eles, Haydn e Mozart.

As características do "concerto" clássico procuravam reproduzir a forma-sonata. Ou seja, um primeiro movimento rápido; um segundo lento; e um terceiro rápido. O solista é seguido por uma orquestra completa, uma orquestra de cordas ou um conjunto de câmara. A partir da ascensão de um solista, passou a existir a necessidade do virtuosismo. No Romantismo, essa expressão recai sobre a capacidade quase trascendente daquele que interpreta. O instrumento - o piano, o violino etc - dá ao solista gestos quase heroicos no momento em que fica sozinho, mergulhado em funda introspecção. 

Tudo o que estou a falar aqui é simplório e sintético. A história do concerto possui muito mais elementos do que esses que estou a refletir de maneira rápida. O meu objetivo com essa postagem é revelar quais são os meus concertos para piano favoritos. Acabei por selecionar vinte. Fazer essa seleção não foi fácil, pois há compositores com mais de um concerto. Por exemplo, Mozart escreveu 27; Prokofiev, 5; e, Beethoven, 5. Outra: não escolhi mais de um obra por compositor. 

Seguem as obras:

(1) Beethoven- Concerto No. 4;

(2) Brahms - Concerto No. 2;

(3) Liszt - Concerto No. 1;

(4) Tchaikovsky - Concerto No. 1;

(5) Mozart - Concerto No. 26;

(6) Ravel - Concerto para piano, M. 83; 

(7) Grieg - Concerto para piano, Op. 16; 

(8) Shostakovich - Concerto No. 2;

(9) Schumann - Concerto para piano, Op. 54

(10)  Schoenberg - Concerto para piano, Op. 42

(11) Camille Saint-Saëns - Concerto No. 2;

(12) Dvorak - Concerto para piano, Op. 33;

(13) Villa-Lobos - Concerto No. 1; 

(14) Samuel Barber - Concerto para piano, Op. 38

(15) Chopin - Concerto No. 2;

(16) Prokofiev - Concerto No. 1; 

(17) Bartok - Concerto No. 1;

(18) Rachmaninov - Concerto No. 3;

(19) Paderewski - Concerto para piano, Op. 17

(20) Glazunov - Concerto No. 2. 

P.S1: A lista encontra-se no Spotify

P.S2. A lista acima não segue uma hierarquia. Simplesmente, fui elecando à medida que lembrava. 

quarta-feira, julho 31, 2024

Richard Wagner: música, genialidade e controvérsias

 

[Wagner era um] “gnomo fungador da Saxônia com talento bombástico e caráter desprezível”

Thomas Mann, sobre o compositor alemão.

 



No início da semana, terminei a audição da famosa tetralogia do Anel, do compositor alemão Richard Wagner. Os quatro trabalhos somam mais de quinze horas de música, teatro e uma exigente performance para os músicos. Os quatro trabalhos – “O ouro do Reno”, “As Valquírias”, “Siegfried” e “O crepúsculo dos deuses” são trabalhos complexos e que revelam as enormes aspirações do compositor. “O anel do Nibelungo” pode ser colocado como uma das produções mais rigorosas já produzidas por um ser humano. Por trás dessa grandiosa obra, nota-se o homem Richard Wagner.

Para completar esse quadro, li uma excelente reportagem no jornal alemão DW, publicada há dois dias que tratava sobre o homem e o mito Richard Wagner. Ao longo de sua vida – e até hoje -, o compositor construiu, ao mesmo tempo, um exército de admiradores quase religiosos e um outro exército de críticos ao seu trabalho e à sua personalidade. Ou seja, não há como negligenciar a condição de polemista do alemão.

Primeiramente, é importante abordar o caráter político do alemão. Há por trás de sua personalidade manifestações preconceituosas e oportunistas. Em vida, Wagner foi o defensor de um resgate do verdadeiro espírito alemão. Seu antissemitismo é um dos aspectos mais asquerosos de sua biografia. Certamente, ele fortaleceu, no final do século XIX, muitas das aversões que foram direcionadas aos judeus. Outro aspecto nebuloso é a ligação de seus descendentes com a ideologia de Hitler. Não se pode dizer que Wagner inaugurou o nazismo. Não existe o menor fundamento histórico para isso, mas pode-se afirmar que a música do compositor foi usada como estética para a pedagogia do 3º Reich. Quando se observam as imagens dos soldados perfilados, da regularidade da marcha, dos uniformes, as multidões perfiladas, tudo cria uma frugalidade e um rigor operístico. Certamente, o entusiasmo nacionalista do compositor criou essa identificação. A personalidade de Wagner passou a ser admirada e endeusada pelos principais líderes do regime nazista.

Hitler, desde a juventude, havia se apaixonado pela música do alemão. Fazia incursões anuais para Bayreuth, pequena cidade do interior da Alemanha, onde foi construído sob o patrocínio de Luís II, da Baviera, o famoso teatro para que as óperas do compositor fossem encenadas. Todos os anos, 11 de suas principais óperas são encenadas nos meses de julho e agosto. Isso tem sido feito desde 1876. A fila para conseguir um ingresso é altamente disputada, chegando a 8 ou 10 anos para se conseguir um ingresso.

Em segundo lugar, é importante dizer que a música de Wagner não deve ser negligenciada. O drama é uma condição inexpugnável de sua música. Ela é elevada a níveis altíssimos. Algumas de suas óperas possuem quase quatro horas de uma apresentação intensa em que não é possível baixar o nível. Ou seja, um verdadeiro desafio para aqueles que desejam representá-la. A obra do compositor procura exaltar um ideal de grandiosidade e pureza. Sua música é capaz de provocar fortes emoções. Há nela elementos fantasiosos e uma atmosfera quase religiosa.

O “talento bombástico” ao qual se refere Mann diz respeito, certamente, ao magnetismo que a música do alemão promove. Bruckner o chamava “mestre dos mestres”. A admiração do compositor austríaco era das mais exageradas. Ele viajou algumas vezes da Áustria para a Alemanha para acompanhar o famoso Festival na cidade de Bayreuth. Suas 11 sinfonias estão impregnadas de Wagner. Dedicou a Terceira Sinfonia, cujo nome “Wagner” faz uma referência explícita à admiração que tinha pelo grande operista.

Wagner insere uma nova página para a música moderna. Suas inovações podem ser percebidas, por exemplo, na relação que ele estabelece da voz com a força da massa sonora da orquestra. Em Wagner, não somente os cantores contam a história. A orquestra também o faz. Notam-se por meio de insinuações dos instrumentos, a adequação entre o que está sendo cantado e o que está sendo reproduzido pelos músicos da orquestra. Nada é gratuito. Tudo deve ser observado, pois tudo compreende o drama. Os leitmotivs também foram uma técnica desenvolvida por ele como espécie de metalinguagem para que fossem percebidos insinuações do tema do trabalho que é representado. 

Ao ouvir as quatro óperas (uma por semana) de “O anel do Nibelungo”, pude absorver um pouco da atmosfera grandiosa e megalomaníaca do compositor. Em um primeiro momento, a impressão que nos passa é de que estamos diante de lendas ultrapassadas sobre mitos germânicos. Não. Wagner depositou ali os dramas humanos – a força, a honra, a coragem, a verdade, a mentira e tudo aquilo que envolve o desafio que é ser humano. O homem Wagner está escondido por trás de camadas polêmicas de controvérsias, mas sua música é grande, sublime, de força avassaladora. E isso é incontestável.

quinta-feira, julho 04, 2024

Minhas 10 sinfonias favoritas


É muito comum encontrarmos as mais variadas listas na internet sobre os mais diferentes temas. O objetivo é sempre deixar transparecer as escolhas ou preferências de determinadas pessoa. Há listas a respeito de livros, filmes, séries, os melhores locais para onde uma determinada pessoa viajou, comidas, músicas, praias etc; ou sobre gêneros específicos. É possível, por exemplo, falar sobre as melhores crônicas, contos ou romances, dentro do tema livros.

Eu, particularmente, já cheguei a fazer algumas. Levando-se em conta que a escolha é muito pessoal e está envolta pelo o momento em que se faz a lista, resolvi construir uma com as minhas dez sinfonias preferidas. Escuto música clássica por muitas horas do meu dia. E, às vezes, chego a lamentar o fato de um dia não mais apreciar esse gênero musical. Há indescritíveis experiências da vida que são um lamento perder; a música é uma delas.

Fazer uma seleção musical sugere algumas dificuldades. Primeiramente, o que escolher? Em uma lista tão exígua, o que deixar de fora? Por exemplo, posso dizer que três ou quatro sinfonias de Beethoven estão entre as minhas preferidas; a mesma coisa posso dizer sobre Bruckner ou Mahler. Somente nessa contagem eu já extrapolei o número inicial a que me propus relacionar. Por isso, procurarei não repetir o mesmo compositor.

É importante salientar que essa lista é pessoal e circunscreve algumas de minhas predileções do momento como já enunciado. Pode ser que, em outro momento, essa lista mude completamente.

Segue a lista:

01 – Dmitri Shostakovich - Sinfonia No. 13 em Si bemol menor, Op. 113 - "Babi Yar"

02 – Anton Bruckner - Sinfonia No. 4 em mi bemol maior, "Romântica"

03 – Gustav Mahler – Sinfonia No. 2 – “Ressurreição”

04 – Ludwig van Beethoven - Sinfonia No. 3 em mi bemol maior, Op. 55 - "Eroica"

05 – Johannes Brahms - Sinfonia No. 1 em dó menor, op. 68

06 – Piotr I. Tchaikovsky - Sinfonia No. 6 em si menor, op. 74, “Patética”

07 – Félix Mendelssohn - Sinfonia No.4 em Lá Maior, Op. 90 - "Italiana"

08 – Jean Sibelius - Sinfonia No. 3 in C maior, Op. 52

09 – W. A. Mozart - Sinfonia nº 41 em Dó maior, K. 551, “Júpiter”

10 – Robert Schumann - Sinfonia nº 2 em Dó maior, op. 61

Muitos trabalhos que poderia citar ficaram de fora. Por exemplo, a Sinfonia 100 – “Militar” -, de Haydn. A maravilhosa Sinfonia No. 5, de Prokofiev. A vaga, mas não menos bonita e noturna Sinfonia No. 3, de Rachmaninov, de que gosto bastante. Algumas das espetaculares sinfonias de Schubert como, por exemplo, a Sinfonia No. 8, a “Inacabada”. Algumas das sinfonias de Antonin Dvorak; a Sinfonia No. 9 (“Do Novo Mundo”) é um exemplo. A Sinfonia No. 3 – “Pastoral” -, de Vaughan Williams. A espetacular Sinfonia No. 5, do dinamarquês Carl Nielsen. A Sinfonia No. 3 – “Sinfonia com órgão” -, de Saint-Säens. A bonita Sinfonia No. 1, de Edward Elgar. A Sinfonia No. 2, de Glazunov. A belíssima Sinfonia em Sol menor, do brasileiro Alberto Nepomuceno. E a poderosa e evocativa Sinfonia No. 3 – “Guerra” -, de Villa-Lobos.

São todos trabalhos diletos pelos quais tenho grande admiração. Poderia citar outros, mas essas, acredito, fazem parte de minha formação musical. Poderia levá-las para uma ilha deserta sem nenhum embaraço.

Na próxima postagem desse tipo, destacarei meus dez concertos – e aqui independe o instrumento – favoritos.

P.S1. Criei uma pasta no Spotify com as dez que mencionei.
 
P.S2. Criei uma segunda pasta no Spotify com as sinfonias mencionadas acima, mas que não apareceram na lista das dez.

terça-feira, junho 11, 2024

Anton Bruckner e a imensidão

 


                Em 2024, o mundo e o Universo comemorarão os duzentos anos do nascimento do compositor austríaco Anton Bruckner. Falar o nome de Bruckner por si só já é um grande acontecimento. A vida do compositor foi repleta de curiosas ocorrências. Há relatos que o descrevem como uma pessoa ingênua e insegura; dono de uma personalidade com aspectos infantilizados. Oriundo do interior da Áustria, Bruckner era o que convencionamos chamar de caipira, de homem provinciano. Possuía hábitos incomuns. Alimentava superstições. Quem o observava – e muitos foram os seus detratores – não conseguia ligar as suas densas reflexões em forma de música, ao homem simples, de aspectos bonachões.

                Embora com uma personalidade tão excêntrica, Bruckner compôs obras que traduzem o infinito. Foi um compositor eminentemente religioso. Compôs sinfonias, missas, motetos, etc. Suas missas estão entre as obras mais bonitas para o gênero. O Seu Te Deum impressiona pelo rigor e pela grandiloquência barroca de sua estrutura.  Suas obras possuem um forte aroma espiritual.

Bruckner era um católico devoto. Alguém que levava a sério as exigências de seu credo. Como era um homem inseguro, precisava ter convicções firmes e orientadas. O compositor pode ser colocado na tradição de Bach, de Palestrina, de Victória, de Ockhegem, de Lassus ou de Josquim des Près, no que diz respeito à forte evocação religiosa de sua obra. Nota-se que Bruckner elevou o conceito de sinfonia e, por isso, é considerado um dos maiores compositores desse gênero de todos os tempos.

                A sinfonia em Bruckner é uma forma de acessar a eternidade ou de trazer o transcendente à Terra. Ela passa a expressar grandes reflexões como já havia feito Beethoven, ou como, em sua época, fazia Brahms; e, mais tarde, faria Mahler ou Shostakovich, reputados como grandes sinfonistas. A força de suas reflexões suscita os mais elevados sentimentos, as mais ideais reflexões. Alguém afirmou que as sinfonias do compositor são enormes catedrais barrocas. São ricas em detalhes, repletas de minudências; de delicados pormenores que impressionam o observador atento. Nunca se apreende todos os detalhes numa primeira observação. É preciso parar, ouvir mais de uma vez; observar os contrastes; a força simbólica das evocações; as metáforas transcendentes que provocam uma sensação de pequenez diante do imenso, do grandioso. Esse aspecto de suas sinfonias provocou muitas incompreensões no período em que foram escritas. Seus críticos eram implacáveis, pois não entendiam os efeitos estéticos do compositor. Afirmavam que os trabalhos eram longos, cansativos e sem intencionalidade. 

                Em certo momento da minha vida, já tive dificuldades com a música do compositor austríaco. Todavia, entendo que não estava à altura dos efeitos caudalosos de suas reflexões. Se hoje consigo fruir a beleza de suas composições é por que passei por um processo de evolução. Hoje, eu percebo o quão prodigioso é ter a oportunidade de ouvir uma das suas sinfonias. Para o ouvinte pouco afeito à linguagem do compositor, não é fácil apreender numa só audição os intricados detalhes de suas galáxias em forma de sinfonia. Bruckner só se torna prazeroso a partir do momento que ouvimos outros compositores e, a partir daí, procuramo-lo. O compositor não é admitido na primeira audição para ouvintes iniciantes. 

Todavia, quando se descobre a beleza de sua música, é como se todos os mistérios da vida fossem explicados, simplificados, exatificados; como se todas as feiuras e misérias morais fossem abolidas; todas as injustiças e ignorâncias fossem justificadas.

                Nietzsche disse certa vez que Bizet o tornava em “um melhor filósofo”. O filósofo alemão mencionava isso quando escutava a ópera “Carmen” do compositor francês. Eu, seguindo a mesma lógica, a mesma percepção de Nietzsche, posso afirmar (sem nenhuma pretensão, claro) que Bruckner me torna um melhor ser humano. O compositor consegue abrir para mim dimensões intraduzíveis da beleza que abarca a existência como um todo. Bruckner é capaz de beatificar a vida; de torná-la mais suscetível ao espírito, à transcendência, ao senso do que é sublime.

Abaixo, um vídeo em espanhol, que fala sobre o aspecto sublime e metafísico da música de Bruckner:

sexta-feira, maio 31, 2024

Mozart, explorador da alma humana para além dos clichês

 


Excelente reportagem do jornal alemão D.W. sobre o gênio austríaco de Mozart.

A Flauta Mágica é uma das óperas mais adoradas do mundo; o Rondó a la turca, Uma pequena serenata musical KV 525 são famosos até como toque de celular. Costuma-se apresentar seu compositor, Wolfgang Amadeus Mozart (1756-1791), como popstar da música clássica: criatividade transbordante, luminoso, despreocupado.

Contudo mesmo suas obras mais leves geralmente abrigam um nível de profundidade, muitas vezes são testemunhos de conflitos psíquicos. E, como lembra a especialista mozartiana Evelyn Meining, "ele era uma criatura que trabalhava duro, compunha noite e dia".

Como diretora artística do Festival Mozart de Würzburg, na Baviera, ela quer promover uma nova imagem do compositor, liberta dos clichês, pois "Mozart é mais do que um bombom de Salzburg [a Mozartkugel] e mais do que um toque de celular". E certamente mais do que uma peruca empoada.

Em seus poucos anos de vida, o músico austríaco compôs cerca de 600 obras, entre as quais 41 sinfonias e 21 óperas, além de concertos, missas, peças de câmara e canções. "Contemplando a dimensão de sua obra gigantesca, numa vida tão breve, tem-se uma ideia de quantas horas e anos ele passou solitário, compondo", aponta Meining.

Menino-prodígio, rebelde, morte como indigente e posteridade

 
Desde pequenos, Wolfgang e sua irmã igualmente talentosa Anna Maria, "Nannerl", eram exibidos nas cortes como crianças-prodígio. O pai, Leopold, viajava com ambos por toda a Europa, numa sacolejante carruagem puxada a cavalos. Mais tarde Wolfgang desenvolveu uma ojeriza às figuras de autoridade, acabando por abandonar o serviço do arcebispo de Salzburgo a fim de seguir a carreira como autônomo em Viena.

Para os parâmetros da época, ele ganhava bem, mas os gastos sempre superavam o faturamento. Pouco antes da estreia da Flauta Mágica, adoeceu gravemente e, em dezembro de 1791, morreu, com pouco mais de 35 anos e, sem dúvida, uma multidão de composições inéditas na cabeça.

Ao contrário de outras figuras máximas da arte mundial, sua última morada nunca se transformou em local de peregrinação, pois foi sepultado como indigente, em meio a uma tempestade, numa vala comum cuja localização exata logo se perdeu.

"Mozart era diferente, não era como a média de seus contemporâneos", afirma Evelyn Meining, que também é professora de gestão cultural. Seu talento o impelia a criar sem parar, um gênio sem botão de desligar, que não sabia fazer uma pausa. E sua música vive de contrastes: luz e sombra, solidão e alegria plena.

Você conhece a "Mozartkugel", o bombom do Mozart?


Ele descreveu seus estados de espírito paradoxais em numerosas cartas à esposa, Konstanze. Em 1790, escreve: "Se a gente pudesse ver dentro do meu coração, me daria quase vergonha. Tudo é frio para mim, frio como gelo."

Entre as numerosas obras sacras do católico Amadeus Mozart, a última é o Réquiem KV 626, que ficou inacabado. No cristianismo, culpa e redenção ocupam um papel importante, e o compositor também se ocupou intensamente desses temas em suas óperas: no fim de Don Giovanni, o libertino protagonista, incapaz de remorso ou contrição, é arrastado para o inferno pela estátua do comendador que ele assassinara, após seduzir sua filha.

"Ninguém sabe traduzir a alma em sons tão bem quanto Mozart", afirma a especialista Meining. Assim ele continua ressoando na posteridade. E como a voz é o melhor espelho da alma, em 2024 o foco do festival de Würzburg são as óperas, canções e obras corais mozartianas.

"Assim fazem todas": jogo de desilusão e perdão


Grande exemplo de culpa e redenção transformada em teatro e música é a ópera Così fan tutte (Assim fazem todas), composta sobre um libreto do poeta italiano Lorenzo da Ponte e estreada em 1790: dois casais se enredam num caos de sentimentos quando o abastado – e cínico – Don Alfonso desafia os jovens amigos Ferrando e Guglielmo a testarem a fidelidade e devoção de suas noivas, as irmãs Dorabella e Fiordiligi.

A quinta – e essencial – engrenagem desse mecanismo de equívocos e ardis é a esperta e amoral criada Despina. Na superfície, é uma comédia irreverente em torno da quebra de votos – mas também uma exploração do caminho até a resignação filosófica que se sucede à perda dos ideais, a desilusão.

O terceto de despedida de Don Alfonso com as protagonistas femininas trata de desejos e anseios. Através de dissonâncias, Mozart carrega justamente a palavra "desir" (desejo) com uma grande tensão.

O musicólogo Ulrich Konrad, especialista em Mozart, descreve esse momento como um "incomparável símbolo sonoro". Para o jornalista musical e autor Wolfgang Stähr, as "contradições do sentimento humano nunca foram expressas dessa forma em música, antes".

Até fins do século 18, o perdão era um tema central da opera seria: os poderosos perdoavam os pecadores contritos, honra e fama eram atributo dos nobres. Così fan tutte parodia tais noções: todos os participantes, não importa de que classe social, têm sua parcela de culpa. E no fim todos se perdoam mutuamente – ou será que não?

"É preciso não se deixar enganar por essa superfície, que aparentemente desemboca num final feliz", alerta Meining. "Mozart mergulha por baixo dela, nas camadas profundas da condição humana." Para o grande maestro Nikolaus Harnoncourt (1929-2016), Così fan tutte era a ópera mais triste da história da música.

Da culpa alemã até uma sociedade de paz


Em suas óperas, Mozart retrata seres humanos que fracassam, expondo suas culpas sem, no entanto, condená-los. E não por acaso, em 2024 o slogan do Festival Mozart de Würzburg é Culpa e perdão, Mozart explorador de almas (Schuld und Vergebung, Seelenforscher Mozart). "Anticonvencional e aberto a experimentos", o maior evento da Alemanha dedicado ao compositor explora facetas sempre novas. E também procura pontos de contato com o presente.

Nesse espírito foi criado o projeto "Hell ist die Nacht" ("Clara é a noite"), que trata da culpa dos alemães no nazismo. Em 16 de março de 1945, portanto já no fim da Segunda Guerra Mundial, num intervalo de 20 minutos uma chuva de bombas da Força Aérea Real britânica destruiu 90% de Würzburg.

Cerca de 500 pessoas encontraram proteção no abrigo aéreo do Convento das Irmãs do Santo Redentor. Quase 80 anos depois, o local é palco de uma instalação músico-teatral: com poesia, relatos de testemunhas da época e, naturalmente, também música de Mozart, a culpa dos alemães é tematizada.

"Mesmo depois da Segunda Guerra, muitos alemães afirmavam que nada sabiam da perseguição dos judeus. E, claro, uma guerra também não é coisa de poucos", questiona Evelyn Meining. Perante o recrudescimento do extremismo de direita e das guerras em curso, esse tema volta a ser dolorosamente atual.

A instalação no convento também trata do caminho para uma nova vida, como sociedade pacífica. Assim, "aqui, partindo da culpa, pode começar um novo caminho para o futuro, com uma conduta responsável como sociedade e como indivíduos", exorta a diretora Evelyn Meining. A responsabilidade cabe a cada um.


Disponível AQUI.

 

sexta-feira, abril 30, 2021

O Concerto para piano em sol maior, de Ravel


Existem compositores que são cerebrais. É o caso, por exemplo, da música de Prokofiev; ou de Schoenberg. Escutou-os sabendo o que vou encontrar. É como se eles dissessem: “Nós não estamos aqui para que você sinta; tudo aqui é seguro e milimetricamente contado”. Todavia, há outros compositores que tocam as cordas das emoções. Visito-os e, de imediato, já sou colocado numa planície com horizontes misteriosos.

Sou acometido por essas ideias após escutar o Concerto para piano em sol, do compositor francês Maurice Ravel. Ravel é um dos compositores de que mais gosto. Nascido em 1875 e morto em 1937, Ravel é um dos compositores mais singulares e importantes da primeira metade do século XX, ao lado de Debussy, de quem herdou o lugar no rol de relevância da música francesa. Vale mencionar ainda a morte de Gabriel Fauré em 1924. Debussy morrera em 1918.

Olhando do ponto de vista da produção, nota-se que Ravel não possui uma obra numerosa. Era muito frequente, demorar de um a dois anos para terminar uma obra. Sua produção vai até o ano de 1933, quando passou a enfrentar graves problemas de saúde decorrentes de um acidente automobilístico.

O compositor escreveu dois concertos para piano. O primeiro deles é o Concerto para mão esquerda, escrito nos anos de 1929 e 1930. E, logo em seguida, encontramos o Concerto para piano em Sol, cuja escrita começou em 1929, mas que foi concluída mesmo em 1932. Ou seja, é uma das suas últimas obras. Trata-se de uma das mais bonitas obras para piano já escritas. Aliás, o Concerto para mão esquerda também pode ser colocado nessa categoria. De maneira mais extensiva, podemos afirmar que tudo o que Ravel escreveu possui um lugar especial na história da criação artística.

Em 1928, Ravel excursionou pelos Estados Unidos. Ficou impressionado com então efervescente movimento jazzístico que eclodia com muita força naquele país. Essa influência pode ser encontrada no Concerto em Sol. Outra referência é à música espanhola. 

 

O Concerto para piano em Sol possui três momentos. O primeiro movimento possui aquela orquestração perfeitamente construída, misturado aos elementos do jazz e da escola espanhola. O terceiro movimento retoma o tema trabalhado no primeiro movimento, tirando-nos  do sonho existente no segundo movimento. No terceiro movimento notamos a energia sem freios, estimulada pelos gritos resfolegantes do clarinete e do flautim. O trombone solta urros fanhos e é contrastado pelos floreios de uma pequena fanfarra.

Todavia, o que me chama a atenção nesse concerto é o segundo movimento. É um tipo de música para morrer e viver. É uma das músicas mais belas já produzidas no seio grávido de possibilidades do universo. Nele encontramos a alegria da vida, mas, também, vislumbramos as dores da morte. O compositor afirmou certa vez que, para escrever o segundo movimento, inspirou-se no Larghetto (segundo movimento) do Quinteto para clarinete, de Mozart. Escutei há pouco o aludido movimento e pude concordar com Ravel. Há beleza excesso nesse fragmento da música do compositor austríaco.

O inquestionável cenário de sonho do segundo movimento da obra de Ravel, revelam uma poética delicada. Somos conduzidos pela mão; impelidos ternamente por momentos doces. Tudo parece suspenso. Sentimo-nos nobres, exultantes e a vida e a realidade deixam de lado sua face incognoscível.  Os elementos complexos e nós herméticos que custamos a administrar se tornam rarefeitos. É uma visão do paraíso; das inomináveis visões de um sonho cristalino e iluminado. Quanta beleza colocada em nove minutos de música. Aliás, a existência inteira colocada no idílio sensível do piano.