Mostrando postagens com marcador Memórias. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Memórias. Mostrar todas as postagens

domingo, julho 12, 2026

O cuscuz, o café e a Roda de Maceió

Alguns dos intelectuais; entre eles, Graciliano Ramos. 
 

Há duas semanas, estive na agradável Maceió, capital do estado de Alagoas. Fiquei na porção norte da cidade. Procurei refúgio em Guaxuma e Ipioca. Alagoas é conhecida pelas praias belas, de paisagens indescritíveis. Gosto de ir até lá para realizar caminhadas pela praia. Nos seis dias em que estive na Capital alagoana, caminhei pela praia apenas duas vezes. A chuva fina e onipresente impediu-me de fazê-lo.

Fui à orla de Pajuçara em uma ocasião. Revisitei a disputada feira de artesanato, um dos pontos turísticos da cidade. E foi por ter ido até lá que fiquei a pensar em Graciliano Ramos. Ele morou na cidade há quase cem anos. Residiu no bairro Poço, que fica na parte mais tradicional da cidade e não muito distante da orla. Segundo informações, era um bairro contíguo à Pajuçara. Em cem anos, uma cidade ganha fisionomia nova, ainda mais em se tratando de uma capital como Maceió.

O bairro Poço abrigava um importante centro comercial e era um local de fluxo constante de pessoas. No período em que morou por lá, conseguiu terminar uma das suas obras seminais, o romance psicológico “Angústia”, uma verdadeira obra-prima do romance modernista. Sentado em uma lanchonete, observava os corredores que se deslocavam pela ciclovia da orla e procuravam gastar energia com seus corpos jovens, fiquei imaginando o velho Graça passeando de maneira casmurra, de cabeça baixa, pensando em uma nova personagem ou um fato político relevante por aquele calçadão.

Em 2015, quando Maceió completou duzentos anos, o autor da famosa escultura de Carlos Drummond em Copacabana/RJ, o artista plástico Leo Santana, esculpiu uma estátua de Graciliano na orla de Pajuçara e outra de Aurélio Buarque de Holanda em Ponta Verde. Enquanto, no Rio, Drummond está sentado de costas para mar, em gesto rodiniano, a observar as pessoas que passam pelo calçadão, Graciliano caminha sólido, vestido a caráter, tendo entre os dedos o seu inseparável cigarro Selma.

No período em que morou em Maceió, a cidade abrigou uma constelação de intelectuais. Esse fato sempre me chamou a atenção. Três dos nomes mais relevantes do Romance de 30 estavam em Maceió – o próprio Graciliano, José Lins do Rego e a jovem Rachel de Queiroz, vinda do Ceará. À época, Rachel tinha tenros vinte anos. Era única mulher em convivência com aquele grupo de homens, denominado de “A Roda de Maceió”. Em 1930, ela abalara os círculos literários com a publicação de “O Quinze”. Em 1932, ela publicaria o seu segundo romance e um dos mais expressivos romances regionalistas do movimento modernista, João Miguel.

Estavam por lá, o já mencionado Graciliano Ramos, chegado do interior do estado, depois de ter ocupado o cargo de prefeito da emblemática Palmeiras dos Índios e ter escrito os seus famosos e icônicos relatórios ao governo do estado. Até aqueles dias, Graciliano não publicara nada. Lia. Escrevia. Revisava. Repisava determinadas passagens, como lhe era tão característico. Sua posição era marcada pelo jornalismo. Ocupava um cargo público. Seu primeiro livro – “Caetés” – seria publicado em 1933. No ano seguinte, sairia o magistral “São Bernardo”, talvez, um dos estudos psicológicos mais profundos sobre um personagem já produzido na literatura brasileira.

Chegado de Manhuaçu/MG, José Lins do Rêgo, formado em Direito pela tradicional Faculdade de Direito do Recife, passara uma temporada na cidade mineira ocupando um cargo público. Não se adaptou por lá. Mudou-se para a praiana e ensolarada Maceió, bem próxima em características da sua João Pessoa, para trabalhar como fiscal de bancos.

O paraibano chegou à capital alagoana em 1926 e ficou por lá até 1935, quando mudou em definitivo para o Rio de Janeiro. Na cidade, Zé Lins iniciou o seu projeto literário. Escreveu os seus três primeiros romances – “Menino de Engenho” (1932), “Doidinho” (1933) e “Bangüe” (1934) -, romances fundamentais do “ciclo da cana-de-açúcar”, com forte dicção memorialística biográfica.

Havia ainda na famosa “Roda” o crítico e jornalista Valdemar Cavalcanti, responsável por importantes colunas literárias em célebres veículos de comunicação. O lexicólogo Aurélio Buarque de Holanda, nascido em Alagoas e responsável por compilar um dos dicionários mais famosos da nossa história. Era um erudito, um profundo conhecedor da língua portuguesa.

O poeta Jorge de Lima, um dos nomes mais fundamentais da poesia modernista, também se juntara a Zé Lins e seus amigos. Após a sua mudança para o Rio de Janeiro, após o ano de 1930, por causa da sua situação política, deixou uma ausência, todavia, mais tarde, quando da mudança em definitivo de Zé Lins para o Rio de Janeiro, voltaria a reagrupar-se em uma confraria literária.

Havia outros nomes como o do artista gráfico Tomás de Santa Rosa, oriundo da Paraíba. José Auto, poeta e esposo de Rachel de Queiroz e o intelectual e folclorista Théo Brandão.

Na Capital alagoana, eles se reuniam no Ponto Central, um famoso local da Rua do Comércio, um dos trechos mais febris e movimentados da cidade composta, naquele contexto, por aproximadamente cem mil habitantes. A reunião do grupo tinha como centro o debate literário e político. Graciliano, por exemplo, mantinha uma posição crítica ao governo de Getúlio, o que lhe rendeu a famosa prisão, retratada em “Memórias do Cárcere”. Os demais também possuíam uma postura crítica ao mandatário com vocação de “Il Duce” tropical. Em 1937, Getúlio daria um golpe iniciando Estado Novo, período ditatorial que duraria até 1945.

O grupo acabou por se dissipar. Acabaram por se mudar para centros maiores para dar continuidade a outros projetos. O Rio de Janeiro, a capital do país e principal centro cultural do país, foi escolhido pela grande maioria deles.

Sentado em meu exíguo banco, saboreei cuscuz com carne de charque, acompanhado de um copioso copo de café, e fiquei a observar aquela orla apinhada de transeuntes indiferentes à minha feliz divagação. Enquanto trocava algumas palavras com o meu filho e minha companheira, poucos deles, talvez, soubessem que, há cem anos, grandes nomes da cultura do país - e da galáxia -, estiveram reunidos em algum local daquele calçadão. Naquele instante, a única certeza que eu possuía era a de que Aurélio estava sentado em Ponta Verde e Graciliano continuava a caminhar em Pajuçara.

  

segunda-feira, outubro 06, 2025

Memórias... um documentário sobre o professor Carlos Mota

Professor Carlos Mota

Semana passada, descobri que Mário Bispo, um dos grandes professores que eu já tive, leva a sua filhinha à escola onde o meu filho estuda. Nesses encontros fortuitos, porém novidadeiros e que infundem na gente uma ponta de satisfeita felicidade, ele acabou me chamado lisonjeiramente de "meu poeta". Não me julguei digno do elogio. Desconversei. Chamou-me assim pelo fato de eu ter escrito um texto sobre o professor Carlos Mota

Ele afirmou que haviam feito um documentário sobre a vida do professor Carlos Mota, assassinado em 2008, no Lago Oeste, local onde morava. A morte do professor Carlos Mota provocou grande comoção por tudo aquilo que ele representou para a educação de sua comunidade. Foi morto por fazer uma pequena revolução que progredia em um movimento ondulante e que começava a ganhar contornos no local em que vivia. Carlos Mota era diretor de uma escola no Lago Oeste. Seu trabalho estava impactando a comunidade e causando um sintomático incômodo ao mundo do crime. Resultado: foi alvejado covardemente por alguém da região que estava se sentindo incomodado pela sua entusiasmada atuação.

Fui aluno de Carlos Mota e ainda guardo boas memórias. Estudei com ele - caso não esteja enganado - nos idos de 2007 ou 2008. Durante um semestre no curso de Letras, tive o privilégio de escutá-lo. Era um grande orador. Falava de forma apaixonada sobre vários temas. Todavia, era visível a sua paixão pela educação, por uma educação emancipadora, que transformasse a realidade e nos fizesse compreendê-la. 

Naquele semestre, tivemos o privilégio de ler coletivamente "Não espere pelo epitáfio", livro de reflexões instigantes do ótimo Mário Sérgio Cortela. Os textos curtos, mas com instigantes reflexões filosóficas, iniciavam os trabalhos pedagógicos. Era como se estivéssemos para iniciar um grande banquete e aquelas leituras eram as entradas que alargavam ainda mais a nossa fome. Carlos de um tablado que se elevava alguns centímetros do chão, gesticulava, liberava uma sintaxe afiada, cortante, inspirada. Dizem os estudiosos que o nosso cérebro retém apenas aquilo que nos marca sobremaneira. Eu não teria como apagar aquelas lembranças. Em sala de aula, tento repetir essa mesma prática: sempre começo as aulas da sexta-feira com uma leitura-reflexão a respeito de um poema - Fernando Pessoa, Carlos Drummond, Cecília Meireles, Adélia Prado, Manoel de Barros, João Cabral de Melo neto etc. É uma forma de aprender com a beleza, com a singeleza dos versos, da poesia que se encontra em algum apenas esperando ser apreciada. O fato de fazer isso é uma reminiscência involuntária daquilo que aprendi com Carlos Mota. 

Lembro-me de que ele convidou os alunos para realizar uma visita ao local onde morava. Sua chácara ele chamava de "Brilho da Lua". Foi uma noite extraordinária. Imensamente generoso, ele abriu os portões de sua chácara para a turma inteira. Alguns levaram barracas para acampar. Era uma noite fria e brumosa. Naquele dia, teve música, dança, falas, risadas desmedidas, discursos, aprofundamento de ideias políticas. Recordo-me que, no outro dia, ele de sua casa e foi até onde os bravos alunos dormiam. Aproximou-se com um largo sorriso - uma das suas marcas. Franqueou-nos a sua cozinha. Não imagino que outro professor teria coragem de fazer isso. Pois Carlos Mota, alguém imensamente comprometido com a formação de cada uma nós foi capaz de fazê-lo.  

Olhando, hoje, à distância, essa postura apaixonada, capaz de incentivar, de provocar afetos, recordo os versos de Erasmo Carlos: "Gente certa é gente aberta". Carlos viveu as implicações desses versos. Era a pessoa certa para os grandes gestos, para as grandes e largas aberturas. Sua vida deu certo, pois ele não se fechou; abriu-se generosamente para ser com as pessoas com as quais encontrou - principalmente, seus alunos e as pessoas humildes. Era alguém com um grande potencial. Estava sempre aberto para as grandes ideias. Suas reflexões sempre promoviam a boa política, a abertura para a generosidade, para as ideais humanizadores. Abriam portas para realidades novas; para mundos anteriormente inacessíveis aos olhos acostumados ao comum, ao banal. Era, por isso, que ele era tão atraente. 

Mário Bispo disse que o filho do professor Carlos Mota produziu um documentário sobre o pai; que no processo de procurar informações sobre pai, leu o texto que escrevi lá em 2008. Fiquei um pouco atordoado por saber que havia muitas imperfeições de estilo e uma abundante imperícia gramatical naquilo que escrevi. 

Revisitei o texto; realizei algumas modificações para que ficasse mais palatável. 

Abaixo, o documentário produzido pelo jornalista Otávio Augusto Pereira Mota, filho de Carlos Mota. 

 

segunda-feira, setembro 01, 2025

O Tejo é mais belo que o rio que corre pela minha aldeia

XX 


O Tejo é mais belo que o rio que corre pela minha aldeia,

Mas o Tejo não é mais belo que o rio que corre pela minha aldeia

Porque o Tejo não é o rio que corre pela minha aldeia.


O Tejo tem grandes navios

E navega nele ainda,

Para aqueles que vêem em tudo o que lá não está,

A memória das naus.


O Tejo desce de Espanha

E o Tejo entra no mar em Portugal.

Toda a gente sabe isso.

Mas poucos sabem qual é o rio da minha aldeia

E para onde ele vai

E donde ele vem.

E por isso, porque pertence a menos gente,

É mais livre e maior o rio da minha aldeia.


Pelo Tejo vai-se para o mundo.

Para além do Tejo há a América

E a fortuna daqueles que a encontram.

Ninguém nunca pensou no que há para além

Do rio da minha aldeia.


O rio da minha aldeia não faz pensar em nada.

Quem está ao pé dele está só ao pé dele.


CAEIRO, Alberto, Poesia (O Guardador de Rebanhos), ed. Fernando Cabral Martins, Richard Zenith. Lisboa: Assírio & Alvim, 2001, pp. 53-54 

terça-feira, abril 01, 2025

Um encontro

Cena do filme "Rapsódia em agosto", de Akira Kurozawa
 

               “Não existe morte natural. Nada que acontece a um homem é natural, já que sua presença coloca o mundo em questão”.

Simone de Beauvoir

Nestes dias iniciais de 2025, estou passando alguns dias na minha terra de nascimento; aquilo que os antigos chamavam de “pátria”, “a terra dos pais”. É muito representativo realizar esse tipo de visitação. Ajuda-me a entender certos fenômenos, certos pensamentos; a organizar os sentimentos; a compreender a maneira como ajo; meus silêncios, minhas dúvidas, medos e minha disposição incansável para a casmurrice. Alguns fatos são admitidos ou compreendidos após o trabalho do tempo.

Esta semana, fui com minha mãe visitar aquela que é considerada minha madrinha. Há uma tradição entre os nordestinos e, talvez, em outras regiões do Brasil de, por estimação, dar o filho, quando este nasce, para que alguém seja padrinho ou madrinha. Tal escolha reflete um tipo de honra e potencializa laços de fraternidade. Evidencia-se nessa ação um certo lastro virtuoso, pois certas qualidades precisam ser analisadas. Geralmente, a escolha solidificará ainda mais a amizade entre as partes envolvidas. As gerações mais novas não entendem o significado desse tipo de escolha. O costume tem se perdido ao longo do tempo.

Não atribuo muita relevância a esse tipo de tradição, mas respeito o seu significado. Convocado por minha mãe, fui de maneira cordata. Era uma questão de honra que eu fosse visitar a comadre Bil. Cheguei à casa pequena, no bairro do Cajá, em Vitória de Santo Antão – minha cidade. A casa onde já estivera antes, é pequena, acanhada, despojada de conforto, espremida entre outras casas semelhantes. A rua de pedra irregular é estreita. Ao chegar, os vizinhos ficaram observando quem eram os forasteiros. Suas três filhas nos recepcionaram. Depois das amenidades iniciais, fui conduzido ao quarto para poder falar com ela. Em um espaço pequeno, abafado, sentada sobre uma cama, ela se encontrava. Acometida por uma cegueira, resultante de um glaucoma, comadre Bil aguardava com o seu aspecto pequeno e frágil. Falamos rapidamente. Dei a benção a pedido de minha mãe – um gesto que indicador de respeito. Aquiesci por entender o que o momento representava. Minha mãe – parece que intencionalmente saiu; fiquei sozinho com aquela figura pequena, habitada por memórias e vivências. Fazia um bom tempo que eu não dirigia a palavra àquela pessoa que se encontrava sobre cama, em um espaço exíguo, de aspecto encurvado. Olhei buscando resgatar outras memórias. Imagens dela ainda jovem. A memória não realizou exercício tão promissor.

Narrou-me com sua fala ordeira e contada, uma multidão de fatos. Passeamos pelo passado. Ela contou sobre como se tornou vizinha do meu avô, quando tinha dezenove anos de idade. Descreveu pormenores sobre os meus tios com uma desenvoltura bíblica. Falou sobre as árvores frutíferas que cultivara em seu sítio, antes da mudança para Vitória de Santo Antão, algo que se deu há quase quarenta anos.

Tenho memórias esparsas de como era a sua casa. A sala com plantas. Algumas trepadeiras. Suas filhas costumavam passar óleo de soja nas folhas para que elas brilhassem. O chão limpo. Os sofás rústicos. A imagem dela e do meu padrinho desenhada na parede. O bigode desenhado do meu padrinho. O corredor que levava à cozinha. Na caminhada que se fazia da sala à cozinha, era possível passar por dois ou três quartos. Um pano ordinário fazia o papel de cortina. Não era possível enxergar nada. Eram furnas misteriosas. Minha memória não consegue fixar nenhuma forma naquele espaço. A cozinha também é um espaço, em minha memória, sem móveis; não consigo formular um pedaço da silhueta de qualquer coisa.

A porta era daquelas com dois compartimentos. Era possível abrir a parte de cima e deixar a parte de baixo fechada. Da cozinha, era possível enxergar, do lado direito, uma ampla porção do sítio. Em certa ocasião, em um mês bastante chuvoso, aconteceu um episódio que permanece em minha cabeça. João Severo, meu padrinho, plantou um pé de banana nanica. Com a chuva, o adubo e a boa terra, a planta deu um cacho de banana enorme. A planta inclinava-se para o chão. O pé da planta era sustentado por uma estaca, que foi providenciada para que a planta não viesse abaixo. Em um dia qualquer, uma torrencial chuva, seguida de um vento uivante, ameaçava derrubar o pé de banana. Seria uma grande perda. Estávamos todos na cozinha. João Severo ao constatar o que estava para acontecer, saiu em disparada a fim de remediar o que parecia inevitável. Ele desejava firmar outra estaca. A chuva grossa e o vento vigoroso davam a aparência ao meu padrinho de uma figura pequena que lutava contra forças ancestrais. A camisa aberta e o chapéu de palha conferiam à sua aparência o aspecto de um xógum que enfrentava as forças naturais com bravia inteligência e resistência. Não lembro qual foi o desfecho da luta.

Relaciono a cena de João Severo em sua luta particular, épica, para não permitir que o pé de bananeira viesse a pique, por causa dos golpes lancinantes que tomava das forças naturais, com imagem da senhora pequena e frágil que caminha empunhando um guarda-chuva, em meio à tempestade, do filme “Rapsódia em agosto”, de Akira Kurozawa. A delicada figura curvada avança inexpugnável, decididamente. Tudo é grande para ela. Associo o meu padrinho a essa imagem. Sua teimosia resistente contra o vento rodopiante e a chuva espessa era a luta do pescador de “O velho e o mar”, de Ernest Hemingway. Enquanto conversava com ela, esses temas passavam pela minha cabeça como cenas de um filme.

Com 78 anos de idade, impedida de caminhar (perdeu o movimento das pernas, após uma queda e uma cirurgia sem sucesso), cega, ela depende das filhas. A certeza que me ficou é que há memórias vivas dentro dela. Sua lucidez é um farol na noite escura em que vive. O corpo impôs certos condicionamentos. Impedida de ver, ela lembra; sem possibilidades de locomoção, ela demonstra uma ambivalência entre a necessidade e a suficiência.

Fiquei com sua imagem pequenina. Impactou-me vê-la daquela forma. Daí, volto à frase de Beauvoir: “nada que aconteça ao homem é natural”. Somos mais que os determinismos biológicos do corpo. Todavia, só podemos ser no corpo. Dessa forma, somos a mistura da fragilidade corpórea com a potência dos afetos, ou seja, daquilo que nos faz ser e existir.

Suas filhas disseram à minha mãe que ela chorou bastante quando fomos embora. Disse que gostou de ter conversado comigo. Verbalizou que gostaria de ter me visto, constatado como eu estou fisicamente.

Escrito em janeiro de 2025, em Vitória de Santo Antão-PE

segunda-feira, dezembro 30, 2024

Os becos e a memória

 

“...dizem uns que a vida é um perde e ganha. Eu digo que a vida é uma perdedeira só, tamanho é o perder”. P. 29


Terminei a leitura de minha primeira experiência com a prosa da escritora Conceição Evaristo. Em agosto de 2023, tive a oportunidade de vê-la na 1ª edição da Fli Paracatu. Escutei-a rapidamente em uma das mesas. Sua fala mansa, com o sotaque e a simplicidade da gente comum, traduzia muito bem a identidade de seus personagens. Acabei comprando um dos seus livros ao longo da Feira – Becos da Memória. Tive a oportunidade de lê-lo somente agora.

O título da obra é bonito, evocativo em seu delicado sentido poético e em sua significação literária. Becos são “quebradas”, locais de fuga, pontos de passagem - ou, simplesmente, um local de encurralamento, onde não há saída. Memória, por sua vez, é aquele local do indizível, dos afetos. É o lugar em que os fatos são colhidos pela subjetividade, mas a partir das experiências vividas pelo sujeito. Todo indivíduo possui memórias. Essas memórias são capazes de formar o terreno que estrutura a personalidade e fazem com que haja um sentido para o mundo. Um povo, uma comunidade, também, possui memórias. Ou seja, a memória é a categoria existencial que permite que os homens continuem homens e sejam capazes de se entenderem historicamente.

Dessa forma, beco, em sua semântica, pode suscitar a ideia de tortuoso. A memória, quando não escutada, validada,  pode se perder nas curvas da história. Principalmente, as memórias daquelas pessoas a quem não é dado o direito de ser. Essa dimensão está implícita na obra de Evaristo, principalmente no termo cunhado por ela – escrevivência (escrever + vivência). Essa aglutinação representa muito bem o projeto literário da escritora mineira, radicada no Rio de Janeiro.

A sua própria história permite que entendamos o significado dessa palavra. Evaristo - primeiramente - mulher preta, nasceu em Minas Gerais. Ainda muito jovem, foi para o Rio de Janeiro. Trabalhou como doméstica, algo tão próprio às mulheres de sua cor, às mulheres de sua origem. Foi a leitura, a escrita e as vivências que a fizeram sair do esquecimento subterrâneo. Atuou como professora. Formou-se em Letras. Fez mestrado e doutorado. Aos poucos, foi costurando as palavras e trazendo à tona os riscados do tempo que ficam em forma de memória.

Evaristo afirma que a memória do povo preto foi colocada em um limbo. Não foi dada ao negro contar e ressignificar sua própria memória. Alguém fala por ele; determina-lhes o local onde devem ficar; a forma como devem pensar; e o tipo de recorte histórico que devem realizar. Os negros foram aqueles que mais tiveram a memória roubada. É preciso reconstruir o passado, mas como não há documentos escritos em abundância, afinal, a história dos negros é uma história subterrânea, é preciso traduzir suas cores e potência por meio da ficção. A escritora afirma no texto que abre Becos da Memória que “nada que está narrado em becos da memória é verdade, nada que está narrado em Becos da Memória é mentira”. A realidade se apoia na ficção, mas a ficção também é um elemento que fornece mais conteúdo à realidade. Nos textos de Evaristo, as duas se irmanam para produzir a escrevivência. Alguns dos personagens do livro são reais como, por exemplo, o tio Totó.

Conceição Evaristo

O processo de transposição da escrita e da vivência não tem o objetivo de traduzir lutas individuais. Ela se assenta no coletivo. Se fosse apenas subjetiva, morreria no próprio indivíduo. A luta pelo resgate da memória não deve ser a luta de um sujeito refratário, mas de uma coletividade que se escuta e se entende. Em Becos da Memória constatamos esse movimento da apalavra à procura de tornar efetiva a luta pela existência de pessoas marginalizadas. Marginalizar é uma forma de impedir que a memória continue viva e pulsante.

Encontramos no livro um mosaico de micro-vivências, formando um tecido repleto de capilaridades. Os pequenos relatos formam uma paisagem em que há muitos elementos capazes de criar a uniformidade da dor. As personagens são desgraçadamente infelizes à sua maneira. O silenciamento cria uma aniquilação social. A impossibilidade da fala e da visibilização da miséria cria espaços para a violência contra essas existências; e essas violências são sentidas no corpo e, sobretudo, na impossibilidade de ser.

Confesso que não gostei da obra no início da leitura. Depois, fui me acostumando aos personagens. São homens, mulheres, crianças, velhos e velhas que carregam os dramas de milhões de pessoas que habitam favelas, morros e locais marginalizados; sobretudo, são mulheres, as primeiras vítimas da impossibilidade de terem memória e que sentem no corpo a violência do presente e do passado. Um livro essencial para que o país resgate a própria memória. Afinal, o Brasil é um país cheio de becos, de vivências fragmentadas, de história mal contadas, em que são privilegiados certos atores – e certas memórias.

segunda-feira, dezembro 11, 2023

Inadequação

 

“Eu não caibo mais nas roupas que eu cabia”

Trecho da música "Não vou me adaptar", do grupo Titãs. Letra de Arnaldo Antunes

 

No sábado, após alguns anos, estive em um culto protestante. Visitei a Igreja Presbiteriana Nacional (IPN). Seria o dia da colação de grau do meu cunhado. Ele bacharelou-se em teologia. Sendo assim, fui à IPN por causa desse fato. Meu cunhado estudou teologia por quatro anos no Seminário Presbiteriano de Brasília, onde também estudei entre os anos de 2002 e 2005.

                Desejei ir para resgatar da memória a experiência que lá vivi. Encontrar algumas fisionomias. Perceber como a vida nos apresenta paisagens diversas. E, por fim, praticar a bonomia com alguns sorrisos. A pergunta mais intrigante da noite foi feita a mim por um colega chamado Wesley, que estudou no período em que lá estive:

                - Que bom te ver! Onde você está? – Para quem é de fora do mundo protestante, quiçá, não perceba a força semântica da inquirição. A indagação é feita para interpelar o interlocutor a respeito da igreja que ele frequenta. Ele queria saber a respeito do meu nível de envolvimento com o mundo eclesiástico. Respondi a sua indagação entre um esgar e a consciência de que aquele tipo de pergunta era comum.  Certamente, minha resposta o surpreendeu, gerando decepção.

                Observei toda condução do ritual tentando encontrar em mim mesmo uma dimensão que me conectasse com o seu sentido. Eu frequentei os cultos presbiterianos. Estudei na mesma instituição que estava declarando publicamente o curso de teologia do meu cunhado.  No dia 10 de dezembro de 2005, eu também recebi o mesmo título. Fui responsável por fazer o voto para a minha turma. Havia gestos apaixonados e uma motivação sincera em minha credulidade. Passados dezoito anos, julguei-me anômalo, indiferente a tudo o que aconteceu.

                A pregação de um reverendo chamado Marcelo, foi uma verdadeira declaração de chauvinismos e sensaborias egoicas. Prontificou-se a falar do texto do livro de Atos, que trata sobre Estevão, considerado pela tradição cristã como o primeiro mártir. Seu discurso foi pouco claro. Houve enormes digressões. Um discurso gabola típico dos líderes cristãos, criando dicotomias entre o mundo que se diz cristão e aquele que não é. Segundo ele, o mundo persegue os cristãos. Isso aconteceu em toda a história e acontece ainda hoje. Mencionou países africanos; falou a respeito da China. Para ele e sua mente colonizada, os Estados Unidos são um tipo de modelo missionário, pois os cristãos pioneiros que foram responsáveis pela formação da Igreja daquele país, foram fortes e sonharam com uma terra que seguisse, no dizer do pregador, “um país que segue o evangelho”. Ou seja, velhos bordões para arregimentar engajamento.

                É curioso como os presbiterianos valorizam aquilo que Rubem Alves chamou de “protestantismo da reta doutrina”. Por intermédio dessa fórmula, é possível perceber o quanto o desejo pelo saber teológico sedimenta ostentação. As falas no culto presbiteriano manifestam duas questões:

 (1) Há uma enorme preocupação com a teologia. A compreensão de deus passa, necessariamente, pelo rigor teológico. O saber teológico dessa forma é a régua de medir a divindade. Caso haja uma compreensão que não se harmoniza com a teologia, questiona-se essa compreensão. A teologia é a chave de interpretação dos fenômenos religiosos. Somente indivíduos treinados e moldados pelo saber teológico são capazes de adquirirem uma plausível respeitabilidade. O desejo de distinção e reconhecimento talvez explique o porquê desse fenômeno nos púlpitos e na prática dos condutores da denominação.  

(2) E, a segunda, que talvez, seja um desdobramento da primeira é a exaltação a uma fé pautada na construção de um discurso que se estrutura na fala. O discurso deve ser pomposo. Isso pôde ser verificado na fala do paraninfo da turma. Seu texto pareceu-me demasiado pernóstico. A estrutura sintática primou pela escolha de palavras pouco usuais. Havia ainda um enfeito pouco natural na leitura. Nota-se, assim, que há uma evidente preocupação com “a forma”. Pode-se dizer que, caso fossem enviar uma carta, os presbiterianos teriam mais preocupação com a aparência do envelope do que com o conteúdo que a carta abriga.

                Quando deixei o espaço, fiquei pensando no quanto o ser humano se preocupa em erguer muros discursivos para se sentir protegido. Todo aquele ritual somente confirmou o quanto nesses espaços de manifestação religiosa, a antropologia fale com tanta força. As manifestações trazem mais conteúdos sobre aqueles que o fazem do que sobre aquilo que eles alegam pregar. Há mais a respeito dos homens no pretenso discurso sobre deus, do que deus no discurso erguido pelos homens.


quarta-feira, agosto 09, 2023

9 de agosto de 1979

 

O lugar em que ficava a casa. Na estradinha distante, o lugar em que morava seu Erasmo. 

Em um dia como este só me vem à cabeça as imagens descritas por José Lins do Rego em “Meus Verdes Anos”. Nas páginas iniciais, quando faz referência à morte de sua mãe, ele fala de “névoas espessas” da memória. De um momento em que as imagens se misturavam; confundiam-se; voavam; pareciam indivisas.  Da infância ficavam os pequenos registros. As imagens que se prenderam à memória pela significação que elas tiveram no momento em que aconteceram.

                Diz minha mãe que, dia 9 de agosto de 1979, deu numa quinta-feira. Ela passara a noite inteira do dia 8 com lancinantes contrações. Eu estava dando trabalho para nascer. Os recursos eram escassos. O casal humilde, que era o meu pai e minha mãe, morava numa casa de barro, desguarnecida de qualquer conforto. Não havia móveis. O barro cru que cobria a armação de gravetos dava um aspecto primitivo àquele lugarejo. Às vezes, quando tenho a oportunidade de ir ao local onde nasci, fico a observar tentando desenhar com a fantasia a possível habitação. A casa já não existe. Foi derrubada pelo mel avô há bastante tempo. Existem fragmentos das paredes dispersos no meio do mato.

                Naquele dia, imagino que a vegetação estivesse verde – afinal era agosto. Nas matas resplandecia o fulgor da beleza verde dos paul d’alhos e facheiros que dançavam impelidos pelo vento. A mata da fazenda próxima estava lá com os seus bambuzais, com as copas viçosas que ainda podem ser observadas hoje. As jaqueiras e mangueiras estavam em flor. Ir a Vitória de Santo Antão não era tarefa fácil.

                A manhã foi avançando. As dores se tornando cada vez mais agudas, graúdas, difíceis de serem suportadas. Minha avó materna tentava dar os auxílios necessários. Acostumada na arte de parir, ela certamente orientava minha mãe. No inexorável paroxismo da dor, impuseram uma tarefa ao meu pai: ir à casa de seu Erasmo, um dos únicos moradores das imediações da zona rural que possuía um carro (no caso, uma Rural), a fim de que minha mãe fosse levada a algum hospital de Vitória. Meu pai saiu em disparada. Há relatos de, no dia, ele usava uma camisa de botões. Ela estava aberta. A camisa voava por conta da velocidade do meu pai. A casa do seu Erasmo distava a uns cinco quilômetros. Numa caminhada tranquila e sem imposições, demoraria algo em torno de cinquenta minutos. Meu pai deve ter gastado uns vinte na estrada de chão.

                Nesse interregno, chamaram dona Bil, a parteira da região. Acostumada na arte de ajudar as mulheres a trazerem novos seres humanos ao mundo, dona Bil criara uma reputação. Do lugar onde residiu, restou apenas uma tapera. Havia duas frentes para resolver o dilema do nascimento: meu pai que buscava um transporte; e dona Bil, a parteira, que procurava minorar as dores espasmódicas de minha mãe. A natureza acabou sendo mais célere que o meu pai e a Rural de seu Erasmo. Nasci às 11h15, do dia 9 de agosto de 1979.

                Quando o transporte chegou, minha mãe se esvaía em suores e alívios; eu era apenas uma criança bochechuda e chorona.  

quarta-feira, março 01, 2023

30 anos de um regresso

 


Minha família migrou para a Capital Federal em 1989. Eu recém completara nove anos de idade. Foi um evento grandioso, capaz de sugerir mudanças e descobertas. Eu era um sujeito matuto – e de certa forma ainda sou. Essa palavra deriva do latim “matto” (‘floresta’, ‘arbusto’), acrescida do sufixo “–uto”, cujo significado exprime ‘aquilo que se liga a algo’. Verifica-se assim que matuto é aquele que veio da zona rural, do mato; ou aquilo que faz referência ao mato. No Brasil, essa palavra ganhou acepções para indicar, de forma depreciativa, aquele que é rústico, acanhado, tímido.

                No Nordeste, a palavra possui grande resplandecência. Ser chamado de matuto indica objetivamente aquele que possui dificuldades para, como diz o antropólogo Roberto DaMatta, realizar a “navegação social”.

                Ser criança na periferia do Distrito federal no início dos anos 90 foi algo curioso. Fiquei quatro anos sem voltar ao meu Pernambuco. Esperei três anos para realizar o épico caminho da volta. Dessa vez, eu, meu irmão e minha mãe íamos na condição de visitantes. Para um sujeito recém-entrado na adolescência como eu, aquilo possuía uma inebriante fragrância. Fomentava imagens, ficções; assinalava enredos.

                Recordo precisamente o dia que saímos. Possivelmente, tenha sido numa sexta-feira à noite. Era o costume. Dessa forma, chegava-se ao Recife no domingo pela manhã. Não consigo esquecer os efeitos daquela saga. A primeira noite forneceu-nos uma acomodação ignominiosa. O ônibus ziguezagueava em meio à estrada calamitosa. A BR-020 era um queijo suíço. Os solavancos recorriam com abreviada recorrência. A suspensão mole do ônibus fazia-me crer que estava em uma gangorra. Em dados momentos, o motorista direcionava o veículo para uma estrada clandestina que se formara paralela à rodovia. Era o resultado da peleja dos outros motoristas tentando fugir da estrada com aspectos lunares.

                Tudo me parecia grandioso: o mundo, as paisagens, as paradas que aconteciam em intervalos irregulares – 15 minutos, 20 minutos, 30 minutos. O motorista da vez verbalizava: “Esta é cidade tal. Pararemos aqui por 15 minutos”. Era o tempo que os assustados, atarantados passageiros teriam para ir ao banheiro; ou espicharem o corpo cansado pela refrega contínua da viagem. Ficava de olhos arregalados. O ônibus não possuía ar condicionado. Viajávamos com as janelas abertas. Recebíamos o bafo quente, mesclado pelas partículas do tempo.

                Minha mãe com duas criaturas que não foram iniciadas no traquejo social – eu e meu irmão -  fazia advertências. Espavorido, eu arregalava os olhos. Memorizava, como se estivesse verbalizando um credo forçado, os números de registro do ônibus. Movia-me com metódico cálculo. O medo de ficar para trás era um fantasma que revoluteava como uma sacola agitada pelo vento ao meu redor. Ficávamos com os olhos grudados no ônibus da Itapemirim. Íamos assim até o nosso destino final. Toda parada envidava uma operação com estratégias estudadas com esforço.

                Transposta a tumultuada primeira noite, os passageiros gestavam uma curiosa solidariedade.  Conversavam. Pareciam velhos amigos. Entravam em minudências. Segredavam os destinos para onde iam. Compartilhavam – em certos momentos – os tímidos repastos. Minha mãe se munira com biscoitos, maçãs e farofa para realizar a heroica travessia e saciar a fome de sua prole.

                Aquela viagem me ensinou a entender o movimento de volta, o regresso. Ao voltar, nota-se o efeito do tempo. O regresso permite a gestação de expectativas. Passa-se a compreender certas coisas. Olha-se com desvelo o corriqueiro. É a saudade que nos empurra para trás. E como diz Guimarães Rosa: “Toda saudade é uma espécie de velhice”. Mais tarde, eu compreendi que por estar voltando, eu era um Ulisses com a expectativa de reencontrar a minha Ítaca.  

quinta-feira, outubro 15, 2020

Um mosaico de lembranças nesse dia dos professores

 

Dou aula há dez anos. Há quem fique dez, vinte, trinta ou mais anos nessa profissão. Não pretendo ficar por tanto tempo. A profissão docente é repleta de sabores múltiplos. Há aqueles doces, de uma pureza sofisticada; mas, há aqueles que divergem da doçura por serem azedos ao extremo. Pretendo falar um pouquinho da minha relação com alguns professores inesquecíveis.

Ao longo de minha jornada como estudante, eu tive a oportunidade de encontrar com professores e professoras para as quais eu pagaria um valor altíssimo para ter a oportunidade de ficar mais próximo; de passar uma tarde a conversar com eles. Admirava-os (e os admiro ainda hoje, embora o tempo insista em criar camadas de afastamentos). Tenho o costume de reverenciar, de nutrir grande respeito por pessoas admiráveis. E muitos professores com os quais eu cruzei ao longo de minha jornada como estudante, inseriram-se nessa categoria.

                 Nos anos iniciais, recordo-me da Marli, da Geovanete, da Suely, da Soraia - por quem me apaixonei na 2ª série). As paixões fazem parte dessa fase. Ela era professora de artes. Encontrava-me com ela uma vez por semana, às terças-feiras. Era pouco. Durante as aulas, ficava embevecido. Seus longos cabelos pretos. Sua voz melodiosa. Seus trejeitos tão singulares. Os ademanes da caminhada. Ainda posso vê-la. Ia para casa de ônibus. Um certo dia, resolvi verificar onde ela morava. Peguei o mesmo ônibus em que ela estava. Passei por baixo da catraca. Aboletei-me na última cadeira da condução. Ela ficou à frente, próxima ao cobrador. Certamente, ela me viu. Ignorou-me. Não disse nada.

                O ônibus seguiu a sua viagem. Ao chegar ao Centro de Taguatinga (Região Administrativa do DF), vi que ela se levantou. Passou por mim; nem olhou. Desceu do ônibus. Misturou-se à aglomeração de transeuntes. Sumiu no rio de pessoas como uma flor delicada que é empurrada pela correnteza. Fiquei distante a olhar. Voltei para casa após esse episódio arqueológico e nem consigo divisar o que pensava. Ao encontrá-la na escola em um dia qualquer, ela disse: “Oi! Carlos!”. Fiquei sem palavras, inexpressivo, como é comum à minha pessoa em inteirações sociais.

                Ao chegar à antiga quinta série, encontrei uma fauna docente bastante diversa. Havia professores que ensinavam bem; outros, nem tanto. Recordo-me de um professor de ciências cujo tom histriônico ficou impresso em minha memória. Suas aulas eram divertidíssimas. Ele se vestia sempre com roupas sociais – camisa social, calça social, sapato social. Parecia um corretor de imóveis com a sua valise escura. Fisicamente era magro e baixo; usava óculos. Fazia lembrar o político Éneas pela calvície.  Sua letra era milimetricamente desenhada. Seus esquemas coloridos feitos no quadro, beiravam à perfeição. Da minha cadeira, eu prestava atenção. Ele começava a falar de moléculas; de processos químicos; de transformações gasosas. De repente, fazia uma careta. Simulava gestos teatrais. Saía da sala. Ficávamos rindo. Algum tempo depois, voltava como se nada tivesse acontecido e nos empurrava para frente em sua jocosa viagem científica.

                Nessa mesma escola, havia uma professora cuja fama era das mais atrozes. Os alunos tinham medo dela. Ouvia a fama dela; punha a imaginação para funcionar. Ela parecia se alimentar dessa horrenda ressonância social. Na sexta série, tive o infortúnio de cruzar com ela. Era professora de ensino religioso. Quando a vi pela primeira vez, observei-a. Sua fama consolidou-se numa determinada aula. A sala não parecia um espaço de aprendizagem sobre as coisas divinas. Estava mais para um tribunal da inquisição. Não havia liberdade para falar. Todos alunos ficavam tensos. Perfilados marcialmente, reduzíamo-nos.  Apequenávamo-nos.  Transformávamo-nos em coisinhas insignificantes. Um olhar dela, congelava a alma. Parecia possuir um chicote de fogo nas mãos. Era magra. Um cocó no alto da cabeça. Usava uma dentadura amarelecida pelo tempo. Não sei se era tabagista. Quando falava, tinha a impressão de que a prótese dentária dançava em sua boca magra e babosa.

                Um colega olhou para o lado. Ela saiu do seu lugar, movimentou-se célere. Disse, olhando para o infeliz, que se comprimia na cadeira: “Por que você não põe uma melancia na cabeça!” “Está querendo aparecer?” Essas frases foram proferidas de uma maneira torrencial. Havia tempestades em seus olhos. Uma camada metálica em sua voz. Reduzi-me em minha cadeira. Sua pedagogia era a do pavor, do medo. Ela ficou como exemplo negativo daquilo que um professor não deve ser. Não sei aonde ela está. Aposentou-se?

                Seu filho estudava na mesma escola em que eu estudava. Vestia roupas compridas em pleno calor. Usava óculos. Ficava pelos cantos a ler a Constituição de 88. Olhava para ele. Tentava decifrá-lo. Ele era um para-raios; certamente, as borrascas inflamadas de sua mãe caíam sobre o seu corpo pequeno e mofino. Sua mãe era professora de religião. Mas era uma religião draconiana. Não a de Cristo.

                No ensino médio, encontrei outras figuras exóticas, singulares. Havia um professor de literatura que me fazia pensar nos textos de Nelson Rodrigues. Um toque de sátiro pulava de suas falas em certos momentos. Tratava-se de figura bastante cômica. Agradável. Era poeta. Tinha livro lançado. Membro da Academia Taguatinguense de Letras, fato que insistentemente surgia em conversas. Às segundas-feiras, nos dois primeiros horários, com certa recorrência, chegava atrasado. Quando estava do lado de fora da sala, via sua imagem aportar no corredor; deslocar-se com passos ligeiros, mas solenes. Uma parte do corpo franzino meio pensa. Cabelos penteados de lado. Óculos de grau. Uma mão no bolso e outra a segurar a valise. Caminhava de cabeça baixa. Parecia pedir desculpas com aquele gesto.

                Observava os seus olhos ainda inchados, da noite mal dormida, de quem saíra de casa atrasado. Quando se aproximava, notava o seu bafo etílico. Imaginava a pândega em que se metera ao longo do final de semana. Dizia possuir uma grande biblioteca. Ficava a imaginar. Vi nele a primeira figura de um grande erudito. Se isso não se confirmou ao longo das aulas, pelo menos a impressão não esmorecia.

                Poderia citar outras personalidades. Outros nomes dessas magnânimas figuras. Houve inúmeras com as quais cruzei. Todas dignas. Todas justas. Todas humanas. Como dizia a poetisa goiana Cora Coralina: “Feliz aquele que transfere o que sabe e aprende o que ensina”. Acredito que tenha recebido um pouco de cada um deles, porque a prática os ajudou a aprender aquilo que ensinavam. Sendo professor, acredito que tenha me assenhoreado de um pouquinho de cada um deles, enquanto vou aprendendo a aprender aquilo que ensino.

domingo, abril 28, 2019

Dona Delfina ou há pessoas que se tornam encantadas

"Como é gostoso a gente viver"
Xangai             

   Existem pessoas que nascem para serem modelos; para serem aquelas que inspiram. Admiramos as suas histórias. Suas atitudes. A trajetória trilhada. As decisões que fermentaram uma vida inteira. São pessoas que deveriam viver por séculos e mais séculos. Todavia, a vida impõe um limite. A inexorabilidade da entropia alcança todos os corpos do universo. Todos os seres sólidos desmancham no ar. A vida biológica possui uma face cataclísmica.  É finita. Murchamos à medida que o tempo passa. Um dia somos matéria consciente; no outro, já não mais.

                Conheci a dona Delfina, avó de minha esposa, no ano de 2004. Viajei à sua casa no mês de março daquele ano, enquanto namorava a minha esposa, a Liana. Colhi as primeiras impressões. Fui espectador silenciosamente atento. Observei-a. Guardei os efeitos do riso fácil e da fala sincera. Minha esposa fez a provocante pergunta a ela naquela ocasião:

                 - “Vó, o que achou dele? – reportando-se a mim. 
                 Ela respondeu algo mais ou menos assim, entremeado por um riso ensolarado.
                - “Sim!”
                - “Gostei dele! Está aprovado!”

                Tudo aquilo era uma brincadeira, mas eu sabia que havia um fundo de verdade naquela fala marcada pelo dialeto franco, direto, simples do interior goiano. 

                Voltei à casa dela, em Pontalina, cidade onde morava, durante várias vezes até o ano de 2018. Em todas as ocasiões em que lá fui, voltei com uma reverente admiração por aquela mulher que criou os filhos sozinha; que nunca esmoreceu; que sempre foi ativa; que criava animais no fundo do largo quintal de que era dona; que cozinhava com o sabor de um imemorial tempero, aprendido no fogão das fazendas; que cuidava das plantas do quintal; que fazia planos; que viajava para os mais variados lugares; que possuía uma vontade firme e sabia muito bem o que queria. 

                Dona Delfina era bastante querida nas circunvizinhanças de Pontalina. Sua casa era um espaço em que sempre havia alguém realizando uma visita. As conversas se estendiam. Ampliavam-se sobre os mais variados assuntos. Algumas dessas pessoas eram da Igreja Presbiteriana. Ela frequentou essa igreja durante dezenas de anos. Sua fé e esperança eram imensas. Sempre crédula. Sempre afirmativa. Sempre temente ao seu Deus. Reverente aos princípios que aprendeu. 

                Sua vontade de viver a dominava por completo, mas o seu corpo sofria. Possuía uma outra lógica. Não acompanhava a sua vontade. Havia a limitação imposta pela inexorabilidade do definhamento físico imposto pela idade. O seu coração funcionava de forma descompassada. À proporção que o tempo passou, as crises cardiorrespiratórias se intensificaram. Recorrentes foram as pioras nos últimos quatro anos. Em alguns momentos, a família depreendeu que a crise do momento era a última. Mas, ela sempre se recuperou. Conseguiu ultrapassar a barreira da fragilidade física. Grande era a sua vontade de viver. Imensos eram os seus planos. Gigante era a sua fé. 

                Diz Mario Quintana em uma daquelas frases deliciosas, que deixam a respiração suspensa, fazendo girar os pensamentos: “Morrer, que me importa? (...) O diabo é deixar de viver”. A vida está tão cheia de belezas. Tantas são as cores. As faces com as quais encontramos. As vozes que escutamos. As paisagens coloridas. Os sabores variados. As impressões colhidas em cada partida e em cada chegada. Sinceramente, a vida humana não se define apenas biologicamente. Há pessoas, em vida, que não conservam a vida em si. Permanecemos humanos e, portanto, cheios de vida, enquanto a alegria e a beleza esperança estiveram em nós. Quando são perdidas a alegria e esperança, transformamo-nos num casulo seco, de que a cigarra já saiu. 

                Guimarães Rosa disse a célebre frase no seu discurso de posse na Academia Brasileira de Letras: “As pessoas não morrem, ficam encantadas... a gente morre é para provar que viveu”. Penso que nem todos fiquem encantados. Há aqueles que se desencantam, que perdem o brilho e a luz do bem-viver. Mas, há aqueles, que mesmo morrendo, transmutam-se. Passam a viver num espaço encantado no interior da memória. Deixam o mundo físico; passam a morar no interior de cada lembrança. O timbre da voz continua preso em nossa memória. A curvatura do corpo é presença. O sorriso é uma arte. Tenho essa reminiscência com algumas pessoas muito queridas que já se foram e agora vivem encantados.  Penso isso sobre três dos meus avós. Eles já não são presença física. Mas a ausência se torna presença imaterial no interior da memória. Vivem hoje encantados. Fica no intervalo ralo de cada pensamento aquilo que foi colhido, a marca definidora, aquilo que representa a pessoa. É assim que quando lembro de cada um dos meus avós, sempre os vejo com feições singularizadas. 

                Da mesma forma se dá com a Dona Delfina: ela se foi, mas vive encantada no espaço da memória. O trabalho do tempo, aliado com os processos da natureza, conduziram-na ao fim. Fazemos parte desse processo também. Todavia, esse mesmo tempo esculpiu uma imagem que não se apagará, enquanto todos aqueles que conviveram com ela, tornarem essa imagem em algo inquebrantável. É assim que nos encantamos. Passamos a viver dentro do outro. 

                Ao vê-la no caixão, fiquei observando a languidez de seu corpo. O quanto emagrecera nos últimos meses. A escrita do tempo estava em cada página do seu frágil organismo. Em seu rosto, contudo, havia o traço da bondade e da fibra que a alimentaram durante os seus noventa anos de vida. O trabalho incansável do tempo levou a Dona Delfina, mas, seres como ela, mesmo não vivendo por dezenas de séculos, encantam-se e passam a viver no espaço sagrado dos grandes afetos que temos dentro de nós.