Enquanto lia o romance “Água de barrela”, de Eliana Alvez Cruz. Encontrei uma palavra até então desconhecida para mim – “minete”. Achei-a diferente. Conta-nos a narradora que havia um certo personagem denominado “Nego Arigofe”. Pela descrição feita sobre essa exótica figura, faz lembrar um daqueles apimentados personagens criados por Jorge Amado. De acordo com a narração, “Arigofe” “tinha a fama de praticar o melhor ‘minete’ de Salvador e quiçá da Bahia".
Eliana insere um aposto explicativo para que o leitor saiba o significado desse termo francófilo – “sexo oral em mulheres” (p.270). Achei curiosa a palavra e fui à cata de novas explicações. Encontrei o termo latim “cunilíngua” – que eu já conhecia. E, por fim, encontrei uma deliciosa crônica do jornalista Sérgio Rodrigues alargando ainda mais as possibilidades da língua (ops! desculpe o trocadilho). O texto traz mais do que uma explicação – insere elementos eruditos, extraídos de um acontecimento ocorrido em Portugal. Vale a pena a leitura. O título já diz muito sobre o texto. Abaixo, o texto da Folha:
O minete e a língua
“Estávamos na vila medieval de Óbidos, em Portugal, terra da ginja, para participar de um festival literário. Na roda formada por homens e mulheres de nacionalidades lusófonas diversas, o escritor angolano José Eduardo Agualusa resolveu pegar no pé de uma lacuna vocabular brasileira.
“No Brasil não existe minete”, declarou, para espanto e indignação da ala feminina do grupo. Embora conste que em certas regiões do país a palavra não seja desconhecida, Agualusa tinha lá sua razão, como comprova o fato de que poucos leitores desta coluna saberão o que vem a ser o tal minete.
A confusão proposital entre a palavra, que de fato não existe para a maioria dos nascidos aqui, com a coisa, que tem existência vibrante para muita gente, era parte da piada. Uma piada que exigia resposta rápida do único brasileiro presente, ou seja, eu.
Estava em jogo nada menos que a dignidade nacional, ainda que em sua versão simbólica de jogo de salão.
Para que a história faça sentido será preciso explicar logo o que é minete, um substantivo que, naquele momento, eu mesmo acabava de conhecer. Chega de preliminares: minete é sexo oral em mulheres. O contraponto feminino do boquete.
Em português brasileiro, um silêncio, uma lacuna que a gozação de
Agualusa diante da plateia escandalizada tornava constrangedora. Quando não uma
lacuna, no máximo um daqueles substantivos informais feitos na marra com
o particípio —no caso, do verbo “chupar”. Mas isso não livraria
nossa
cara coletiva naquela hora.
Por que, afinal, não temos um substantivo bom e honesto para nomear ato tão relevante? Logo nós, com nossa fama —não inteiramente justa, mas insuflada por décadas de campanhas turísticas oficiais— de povo liberadão e de sexualidade à flor da pele.
Não será verdade que a exuberância vocabular sempre acompanha o peso cultural das coisas, como sugerem os incontáveis nomes que a cachaça acumula país afora? Se for verdade, o que essa fenda pudica em nosso vocabulário revela? Em resumo: custava tanto assim termos importado “minete”?
Seria uma mentira cômica dizer que, sendo um povo erudito, “cunnilingus”
resolve a questão para nós. Além de ser pedante, feioso e de uso raro, o termo
latino tem sonoridade que pode provocar certos
mal-entendidos anatômicos.
Tudo ao contrário de “minete”, um vocábulo simpático e tão popular em Portugal quanto na África lusófona. Vem do francês “minet”, ou mais provavelmente de seu feminino, “minette”. Quer dizer gatinho ou gatinha e tem sentido lúbrico por associação óbvia com a lambeção apreciada pelos bichanos.
Caros compatriotas: naquele momento difícil, eu precisava de uma iluminação divina, nada menos que isso, e tenho o prazer de relatar que ela veio. Ponderei à pequena audiência lusófona multinacional que nem sempre a ausência de uma palavra traduz desinteresse ou falta de apreço.
Às vezes é o contrário: por respeitar demais alguma coisa, por nos sabermos pequenos e indignos diante de sua grandeza, nos recusamos a reduzi-la a um nome. “Vejam o caso de Deus. YHWH, o impronunciável tetragrama hebraico, é um exemplo.” Não sei se colou. Fez o pessoal rir, e isso bastava”.
P.S. O humorista Gregório Duvivier escreveu na Folha uma coluna, ano passado, tratando também sobre o "minete".






