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| Alguns dos intelectuais; entre eles, Graciliano Ramos. |
Há duas semanas,
estive na agradável Maceió, capital do estado de Alagoas. Fiquei na porção
norte da cidade. Procurei refúgio em Guaxuma e Ipioca. Alagoas é conhecida
pelas praias belas, de paisagens indescritíveis. Gosto de ir até lá para
realizar caminhadas pela praia. Nos seis dias em que estive na Capital alagoana,
caminhei pela praia apenas duas vezes. A chuva fina e onipresente impediu-me de
fazê-lo.
Fui à orla de
Pajuçara em uma ocasião. Revisitei a disputada feira de artesanato, um dos
pontos turísticos da cidade. E foi por ter ido até lá que fiquei a pensar em
Graciliano Ramos. Ele morou na cidade há quase cem anos. Residiu no bairro
Poço, que fica na parte mais tradicional da cidade e não muito distante da
orla. Segundo informações, era um bairro contíguo à Pajuçara. Em cem anos, uma
cidade ganha fisionomia nova, ainda mais em se tratando de uma capital como
Maceió.
O bairro Poço
abrigava um importante centro comercial e era um local de fluxo constante de
pessoas. No período em que morou por lá, conseguiu terminar uma das suas obras
seminais, o romance psicológico “Angústia”, uma verdadeira obra-prima do
romance modernista. Sentado em uma lanchonete, observava os corredores que se
deslocavam pela ciclovia da orla e procuravam gastar energia com seus corpos
jovens, fiquei imaginando o velho Graça passeando de maneira casmurra, de
cabeça baixa, pensando em uma nova personagem ou um fato político relevante por
aquele calçadão.
Em 2015, quando
Maceió completou duzentos anos, o autor da famosa escultura de Carlos Drummond
em Copacabana/RJ, o artista plástico Leo Santana, esculpiu uma estátua de
Graciliano na orla de Pajuçara e outra de Aurélio Buarque de Holanda em Ponta
Verde. Enquanto, no Rio, Drummond está sentado de costas para mar, em gesto
rodiniano, a observar as pessoas que passam pelo calçadão, Graciliano caminha
sólido, vestido a caráter, tendo entre os dedos o seu inseparável cigarro
Selma.
No período em
que morou em Maceió, a cidade abrigou uma constelação de intelectuais. Esse
fato sempre me chamou a atenção. Três dos nomes mais relevantes do Romance de
30 estavam em Maceió – o próprio Graciliano, José Lins do Rego e a jovem Rachel
de Queiroz, vinda do Ceará. À época, Rachel tinha tenros vinte anos. Era única
mulher em convivência com aquele grupo de homens, denominado de “A Roda de
Maceió”. Em 1930, ela abalara os círculos literários com a publicação de “O
Quinze”. Em 1932, ela publicaria o seu segundo romance e um dos mais
expressivos romances regionalistas do movimento modernista, João Miguel.
Estavam por lá,
o já mencionado Graciliano Ramos, chegado do interior do estado, depois de ter
ocupado o cargo de prefeito da emblemática Palmeiras dos Índios e ter escrito
os seus famosos e icônicos relatórios ao governo do estado. Até aqueles dias,
Graciliano não publicara nada. Lia. Escrevia. Revisava. Repisava determinadas
passagens, como lhe era tão característico. Sua posição era marcada pelo
jornalismo. Ocupava um cargo público. Seu primeiro livro – “Caetés” – seria
publicado em 1933. No ano seguinte, sairia o magistral “São Bernardo”, talvez,
um dos estudos psicológicos mais profundos sobre um personagem já produzido na
literatura brasileira.
Chegado de
Manhuaçu/MG, José Lins do Rêgo, formado em Direito pela tradicional Faculdade
de Direito do Recife, passara uma temporada na cidade mineira ocupando um cargo
público. Não se adaptou por lá. Mudou-se para a praiana e ensolarada Maceió,
bem próxima em características da sua João Pessoa, para trabalhar como fiscal
de bancos.
O paraibano
chegou à capital alagoana em 1926 e ficou por lá até 1935, quando mudou em
definitivo para o Rio de Janeiro. Na cidade, Zé Lins iniciou o seu projeto
literário. Escreveu os seus três primeiros romances – “Menino de Engenho”
(1932), “Doidinho” (1933) e “Bangüe” (1934) -, romances fundamentais do “ciclo
da cana-de-açúcar”, com forte dicção memorialística biográfica.
Havia ainda na
famosa “Roda” o crítico e jornalista Valdemar Cavalcanti, responsável por importantes
colunas literárias em célebres veículos de comunicação. O lexicólogo Aurélio
Buarque de Holanda, nascido em Alagoas e responsável por compilar um dos
dicionários mais famosos da nossa história. Era um erudito, um profundo
conhecedor da língua portuguesa.
O poeta Jorge de
Lima, um dos nomes mais fundamentais da poesia modernista, também se juntara a
Zé Lins e seus amigos. Após a sua mudança para o Rio de Janeiro, após o ano de
1930, por causa da sua situação política, deixou uma ausência, todavia, mais
tarde, quando da mudança em definitivo de Zé Lins para o Rio de Janeiro,
voltaria a reagrupar-se em uma confraria literária.
Havia outros
nomes como o do artista gráfico Tomás de Santa Rosa, oriundo da Paraíba. José
Auto, poeta e esposo de Rachel de Queiroz e o intelectual e folclorista Théo
Brandão.
Na Capital
alagoana, eles se reuniam no Ponto Central, um famoso local da Rua do Comércio,
um dos trechos mais febris e movimentados da cidade composta, naquele contexto,
por aproximadamente cem mil habitantes. A reunião do grupo tinha como centro o
debate literário e político. Graciliano, por exemplo, mantinha uma posição
crítica ao governo de Getúlio, o que lhe rendeu a famosa prisão, retratada em
“Memórias do Cárcere”. Os demais também possuíam uma postura crítica ao
mandatário com vocação de “Il Duce” tropical. Em 1937, Getúlio daria um golpe
iniciando Estado Novo, período ditatorial que duraria até 1945.
O grupo acabou
por se dissipar. Acabaram por se mudar para centros maiores para dar
continuidade a outros projetos. O Rio de Janeiro, a capital do país e principal
centro cultural do país, foi escolhido pela grande maioria deles.
Sentado em meu
exíguo banco, saboreei cuscuz com carne de charque, acompanhado de um copioso
copo de café, e fiquei a observar aquela orla apinhada de transeuntes
indiferentes à minha feliz divagação. Enquanto trocava algumas palavras com o meu filho e minha
companheira, poucos deles, talvez, soubessem que, há cem anos, grandes nomes da
cultura do país - e da galáxia -, estiveram reunidos em algum local daquele
calçadão. Naquele instante, a única certeza que eu possuía era a de que Aurélio
estava sentado em Ponta Verde e Graciliano continuava a caminhar em Pajuçara.