segunda-feira, fevereiro 11, 2019

Notas sobre “Zelota - a vida e a época de Jesus de Nazaré", de Reza Aslam. III


A leitura de “Zelota” tem permitido a realização de inúmeras reflexões pertinentes. O livro coleciona polêmicas, pois desafia a credulidade de muitas pessoas; abala a veracidade e aquilo que a teologia tradicional chama de “inerrância das escrituras”. Segundo essa doutrina, não há erros na Bíblia por ser toda ela inspirada por Deus. As partes obscuras, as sentenças pouco claras, podem ser explicadas pelo próprio texto. Como se pode questionar algo “sagrado”?

Lendo “Zelota”, do iraniano Reza Aslam, luzes lógicas foram lançadas sobre passagens que o leitor desatento e que desconhece a geografia, a história e o ambiente onde se passa a narrativa, ignora ou, simplesmente, não questiona.  Um exemplo: no evangelho de Lucas, os moradores de Nazaré, após terem escutado os comentários de Jesus, “se encheram de ira” “e o levaram até o cume do monte em que a cidade deles estava edificada, para dali o precipitarem” (Lc 4.28-29). De acordo com Aslam, não há montes, cumes ou precipitações elevadas em Nazaré, o que constitui um problema para a doutrina da inerrância. 

Reza Aslam dedica um dos capítulos do livro para falar de Paulo. É importante entender que, passados quase dois anos mil anos, a percepção que se adquire de uma crença consolidada é de não questionamento. Há igrejas; há fiéis que replicam a versão; há uma estrutura psicológica, uma cosmologia ajustada aos interesses daquele que crer. Se existe um grande número de fiéis e, e esses fiéis estão certos sobre aquilo que dizem acreditar, não sobra muito espaço para a dúvida. Outro aspecto é a distância histórica. A cultura do Oriente Médio, os costumes, o modo de produção, a organização era bastante diversa daquela que temos hoje. Havia um número grandioso de analfabetos. Estima-se que nos tempos bíblicos, apenas 3% da população era capaz de ler e produzir textos. A miséria era grassante. A vida estava estruturada na agricultura ou na criação de animais. Havia um pequeno número de afortunados; de servidores públicos e comerciantes.

Outro fato importante é saber quem escreveu os livros e em que ano essas narrativas, cartas ou profecias foram constituídas. Muito daquilo que se encontra coligido no cânon não possui fidelidade com o que é pregado e ensinado. Se alguém tivesse o poder de voltar no tempo ficaria assustado e, certamente, a forma como se processa a fé sofreria uma significativa mudança. 

Um dos personagens mais importantes e emblemáticos é o “autodenominado” apóstolo Paulo. Existem duas fontes a seu respeito – a narrativa de Lucas, em Atos dos apóstolos e aquelas escritas por Paulo - e outras atribuídas a ele. É possível que a escrita do livro de Atos tenha ocorrido uns trinta anos após a morte do apóstolo. Curiosamente, Lucas era um admirador do chamado 13° apóstolo e dedica mais de 70% do livro a ele.

Após a morte de Jesus como um criminoso comum, os seus seguidores experimentaram um dilema – o que deveriam fazer? Deram continuidade à pregação iniciada por Jesus. Um corpo de narrativas e eventos extraordinários começou a ser transmitido. Uma espécie de telefone sem fio foi passado. Os ensinamentos de Cristo estavam mesclados aos ensinamentos do Antigo Testamento. Isso fica evidente, por exemplo, no estranhamento inicial que a pregação de Paulo despertou nos discípulos que estavam em Jerusalém. Tiago, Pedro e João são denominados por Paulo como “colunas”. Em outra ocasião Paulo diz que discutiu com Pedro de forma acalorada.  Pedro não queria desconectar os ensinamentos do judaísmo, no caso a circuncisão, dos ensinamentos da fé cristã. Paulo é chamado a Jerusalém para se entrevistar com Tiago, conforme é explicitado em Atos 21. Logo em seguida, vai fazer uma purificação no templo a pedido de Tiago. Ora, por que ele precisou fazer essa purificação?

É curioso, pois Paulo funda uma nova fé. Não há descrições sobre a vida de Jesus em seus escritos. Enquanto os evangelhos são narrativas calcadas na história, os ensinamentos de Paulo celebram um Jesus cósmico. Com exceção de João, Paulo é o primeiro a denominar Jesus de “Cristo”. A palavra “Cristo” significa “o ungido”, “o Messias”, “o escolhido”, ou seja, percebe-se uma sentença teológica nessa afirmação. Paulo não se preocupa com a historicidade de Jesus. Sua grande preocupação é fundar uma cristologia sobre Jesus. As únicas duas referências a eventos históricos de acordo com a fórmula dos evangelhos e se encontram na carta escrita à igreja que fundara em Corinto. O apóstolo faz referência à eucaristia (santa ceia) e à ressurreição. Todavia, quando Paulo cita esses eventos, cria sentenças teológicas ou litúrgicas.

O fato de se autodenominar apóstolo é outro ponto curioso de sua trajetória. Paulo era um judeu com cidadania romana. Era um fariseu zeloso. Vinha dos estratos médios da cidade portuária, economicamente importante de Tarso. O partido dos fariseus era constituído pela “classe média” da época. Paulo sabia o grego. Por ser oriundo de um importante centro helenístico, certamente conhecia os movimentos filosóficos e religiosos do mundo grego-romano. 

Ele se distanciava da característica dos demais apóstolos. Os outros discípulos eram iletrados. Ele, por sua vez, possuía uma sólida educação. Para ser apóstolo era necessário ter caminhado com Jesus. Os doze apóstolos eram nessa quantidade por uma questão fundamental – dizia respeito ao número das tribos de Israel. Após a morte de Judas, os onze escolheram Matias. Assim, torna-se evidente que o número estava fechado. Paulo reivindica o apostolado. Muitos questionavam a sua autoridade. Ele não se fazia de rogado. Segundo ele próprio, Jesus surgiu para ele. A sua autoridade foi demandada pelo próprio Cristo. Quem o contestaria? Muitos o contestaram. Escrevendo aos cristãos que estavam em Corinto, ele diz: “Se eu não sou apóstolo para os outros, ao menos o sou para vós”. E diz ainda: “Os sinais do meu apostolado foram manifestados entre vós” (1 Co 9.2; 2 Co 12.12). 

Sendo um grande conhecedor da lei mosaica, dos rudimentos da tradição rabínica e de todo o corpo de doutrinas do judaísmo oficial, Paulo constrói uma sistematização, a partir da relativização daquilo que conhecia na religião judaica para fundar o que conhecemos hoje como fé cristã. O apóstolo universaliza a pessoa de Jesus, criando sentenças dogmáticas; uma teologia assentada em termos ricos em significação – justificação, redenção, graça, predestinação, novo Adão, velho Adão. O Jesus histórico é substituído pelo Jesus cósmico, que cumpriu a lei. O ritual mosaico, na compreensão de Paulo, deixou de ser necessário. O fim da lei é Cristo. A teologia fundada pelo heterodoxo apóstolo dos gentios possui uma forte demanda jurídica. 

O universalismo de Paulo estava de acordo com a compreensão do helenismo. Uma fé circunscrita a um povo pequeno, afastado, como dizia Cícero – “o povo do canto” – não teria impacto. Paulo é o fundador cristianismo. Seu ímpeto, sua energia; sua defesa intransigente de certos pressupostos torna o chamado “apóstolo dos gentios” em um dos maiores patrocinadores de ideia da história da humanidade.

Sem Paulo, a fé cristã teria sucumbido. Seria apenas mais uma seita judaica sem futuro. Jesus teria o seu destino alijado ao de Simão, filho de Kochba; ou Teudas; Judas, o Galileu; ou ainda de Simão de Giora, que foram caudilhos zelosos, capazes de realizar prodígios, mas que acabaram mortos pelos romanos. Como se pode observar, baseado no livro de Reza Aslam, o sucesso de uma ideia  depende da narrativa e do patrocínio que ela recebe. No que tange a isso, o humilde carpinteiro, camponês como os nazarenos, tornou-se uma potência espiritual capaz de julgar a história e salvar os homens.


sexta-feira, fevereiro 08, 2019

"Diário de um homem supérfluo", de Ivan Turguêniev, algumas palavras.


Li o “O diário de um homem supérfluo”, de Ivan Turguêniev, de um fôlego. Livro magro (de espessura), mas cheio de elementos literários de grande riqueza. Trata-se de uma daquelas novelas russas costumeiramente curtas como “A morte de Ivan Ilich” e “Padre Sérgio”, de Tólstoi; ou “O capote”, de Gógol; ou ainda “Memórias do Subsolo”, de Dostoiévski.  De início é importante dizer que é fascinante. Possui um existencialismo com características niilistas. O sujeito circunscrito pela inércia, observador de si e do tempo histórico que o cerca é “o homem supérfluo”. O homem supérfluo é um tipo literário, um arquétipo  moral do homem russo pertencente à aristocracia. Ele carrega os dramas de uma geração. É a voz que afirma um tipo de criação essencialmente russa.

O personagem central da história do “Diário” é Tchulkatúrin. Ele não pode ser classificado como camponês, como um homem do povo. Possui uma posição privilegiada. Apaixona-se por Liza, filha de um potentado local, que possui um grande número de servos. A história é contada em forma de diário, durante um período de 10 dias (20 de março a 1° de abril). Ou seja, durante o início da primavera. A escolha da primavera não se dá por acaso. A primavera é a estação da vida; do cio; do coito; de uma  febril atividade por todos os recantos da natureza.  

Tchulkatúrin, o herói, é uma contradição insinuante. A personagem corteja a bela moça. Apaixona-se por ela. Imagina que é correspondido. Percebe que estava errado. Ela se apaixona pelo príncipe N*, de São Petersburgo. Vale mencionar que a cidade fora construída pelo czar Pedro, o Grande com a finalidade de ser a mais europeia e cosmopolita cidade da Rússia. Foi construída para ser um reduto de desenvolvimento. As ideias elevadas do continente  passaram a fazer parte da elite que vivia à sombra czar. O francês e o alemão faziam parte da formação desce nicho da sociedade russa. 

O príncipe é um representante desse segmento.  Liza passa a alimentar uma aversão pelo herói.  O príncipe é um nobre. Há uma imanência superior que encanta a todos. Tchulkatúrin percebe-se. Mira-se. Sabe da sua condição. Avalia a paixão de Liza pelo príncipe. Colhe a inimizade da família. Afasta-se. A jovem Lizavieta nutre expectativas. Mas o príncipe volta para São Petersburgo. Com a partida do príncipe, Tchulkatúrin enxerga uma possibilidade de reconciliação. O surpreendente acontece – a família (o pai e a mãe) da jovem o recebe de volta. Todavia, Liza o humilha. Ela nunca estivera interessado por ele. A percepção de Tchulkatúrin era falha, inadequada. 

Turguêniev escreveu o “Diário” por volta de 1850. A censura cortou algumas afirmações da obra. Eram os tempos de Nicolau I. A Rússia não havia se libertado da censura. Apesar das mudanças no âmbito da cultura, havia uma forte vigilância na vida social. Um abismo enorme separava o povo da aristocracia que liderava o país. Uma população camponesa, estava mergulhada na miséria e no servilismo histórico. Uma das áreas em que havia uma relativa liberdade era a literatura. A literatura, desse modo, passou uma área de experimentações, de vocalização, de afirmar um modo de ser.

                O “Diário” é, do ponto de vista político, um importante retrato de uma Rússia inerme, angustiada por causa da camisa de forças que foi colocada sobre ela. O homem supérfluo é o sujeito fraco. Impossibilitado dos grandes feitos. É o astro sem céu para brilhar. É a inteligência afiada sem céu possibilidade de torná-la executável. 
                                                                                                                                                                                                                      

quinta-feira, janeiro 31, 2019

Notas sobre “Zelota - a vida e a época de Jesus de Nazaré", de Reza Aslam. II

Tiago é um dos nomes mais importantes da história da Igreja cristã. Após a morte de Jesus, Tiago assumiu a liderança entre os seguidores do “rei dos judeus”. Sua posição de irmão de Jesus deu a ele supostas prerrogativas. O livro de Atos, em seus capítulos iniciais, deixa evidente essa autoridade. Tiago era conhecido como “o justo”, por causa do seu forte senso de verdade e justiça, principalmente para com os mais pobres. 

A teologia de Tiago diverge daquela ensinada por Paulo. Há ressonâncias claras dos ensinamentos de Jesus em seus textos. O curioso é que a liderança de Tiago vai perdendo o protagonismo ao longo das décadas da história da Igreja. No Novo Testamento, há uma carta atribuída à sua pessoa. Certamente, ele não a escreveu. Tiago morreu da década de 60 d. C. e a carta foi escrita entre 80 e 90 d.C. Alguém a redigiu levando em conta o substrato dos seus ensinamentos. Embora não tenha escrito a carta,  conseguimos ouvir a sua voz. A carta é uma paráfrase do seu modo de pensar. É mais fácil chegar a uma teologia que esteja alinhada com o Jesus histórico por intermédio de Tiago, do que por intermédio de Paulo.

A tradição tem identificado, baseado em Mt. 16.16, que Pedro é o patrono da igreja cristã, sendo, inclusive, o seu primeiro papa. Há um panorama lógico que pode explicar esse fato: com a consolidação da relação da igreja com o estado romano, surge a Igreja Católica. Os poderes delegados da condição de papa estão bem próximos daqueles conferidos ao césar, o líder supremo do Império Romano. O catolicismo evidencia a burocratização da Igreja. Muitas teologias foram consolidadas nesse período histórico – o cânon da Bíblia, a Trindade, a dupla natureza de Cristo etc. Uma dessas teologias é a da virgindade permanente de Maria, a mãe de Jesus. Afirmar que Tiago era irmão sanguíneo de Jesus fazia surgir um problema necessário – Maria não seria virgem. Ou seja, perderia o seu status de “mãe de Deus”; de intercessora, conforme é crido no catolicismo.

Segundo Aslam, há motivos para o desaparecimento de Tiago. Uma vez que a presença de Tiago criava um imbróglio teológico, as lideranças de Pedro e Paulo ganharam robustez. Quando da definição do cânon, treze cartas atribuídas a Paulo foram inseridas. A teologia paulina ganhou em a primazia na estruturação do pensamento cristão. Talvez, hoje, estivéssemos em um mundo completamente diferente, caso a ordem natural dos fatos fossem levados em conta.

segunda-feira, janeiro 28, 2019

Notas sobre “Zelota - a vida e a época de Jesus de Nazaré", de Reza Aslam. I


Alguns comentários feitos a partir da leitura de “Zelota - a vida e a época de Jesus de Nazaré", de Reza Aslam.

1    No geral, Pilatos não realizava entrevistas a prisioneiros. Ele assinava um documento e o prisioneiro era enviado para a crucificação. É inusitadamente estranho que a teatralização descrita nos evangelhos tenha ocorrido. Salvo se os crimes cometidos por Jesus tivessem adquirido um nível de seriedade tal que demandasse a necessidade de entrevista.

2    Um segundo fato que gera estranheza e um quê de ficcionalidade é o julgamento de Jesus. Pilatos era conhecido pela sua indisposição para com os judeus. Ele mandou colocar a imagem de uma águia no templo, símbolo da supremacia romana, em Jerusalém. Apoderou-se dos tesouros do templo para construir o aqueduto da cidade. O insólito da história é perceber, segundo o Evangelho de Marcos (15.1-15), haver um costume durante a festa do Pessach de se soltar um prisioneiro, uma espécie de indulto. Diz o texto atribuído a Mateus, que “por ocasião da festa, costumava o governador soltar um preso, escolhendo o povo aquele que quisesse” (27.15). Não há qualquer registro histórico dessa prática. Além do mais, é estranho que Pilatos pelo seu aspecto e personalidade  o fizesse. Diz Marcos que “Pilatos, querendo contentar a multidão, soltou-lhes Barrabás”. É simplesmente atípico que assim tenha acontecido. A relação de dureza de Pilatos para com os judeus chegou a níveis tão dutos, durante os dez anos do seu governo, que os judeus fizeram uma reclamação a Roma. “Contentar”, “agradar”, não eram verbos típicos das ações do governador romano. A narrativa desse ponto de vista é patentemente fictícia. Não haveria possibilidade de Pilatos interferir ou se ocupar com os ritos e costumes da cultura religiosa dos judeus. Afirmar que Jesus esteve na presença de Pilatos não é impossível. Talvez, se fosse um crime extraordinário que assumisse dimensões de grande repercussão, de enorme significação.

3      A descrição do julgamento perante o Sinédrio demonstra o quanto os evangelistas desconheciam a lei judaica. A Mishna traz os ritos necessários a qualquer julgamento e eles não eram aplicados em 30 d.C, quando se deu a crucificação de Jesus. O Sinédrio não se reunia em locais informais (pátio); não se reunia durante o Pessach; não se reunia à noite; não se reunia durante o Sabath.

4.     Outro aspecto bastante curioso o fato de os evangelistas criarem uma imagem de Pilatos como se este fosse completamente neutro, não tivesse necessariamente responsabilidade com a morte de Jesus. Os evangelhos se analisados por uma gradação (do mais antigo para o mais recente), possuem uma evolução de responsabilidade. Quanto mais tardia é a narrativa, menor é a culpa do governador romano. O mais antigo dos evangelhos é o atribuído a Marcos. Nota-se que Pilatos realiza a vontade da multidão, incitada “pelos principais sacerdotes”. Ato contínuo, Pilatos procura “contentar” a multidão; solta Barrabás; manda açoitar Jesus e, em seguida, entrega-o para ser crucificado. Em Mateus, nota-se que até mesmo a mulher do governador pede para que ele não se “envolvesse com aquele justo”. Pilatos para explicitar a sua não participação na morte do “justo”, lava as mãos num gesto simbólico. O povo adensa ainda mais a responsabilidade. Chama para si a culpa, deixando implícita a ideia de que até mesmo os próprios filhos seriam co-responsabilizados para todo sempre. Lucas afirma que Jesus esteve em duas ocasiões na presença de Pilatos. E até mesmo Herodes Antipas lhe era simpático. O evangelista delibera que era “desejo de Pilatos soltar Jesus”, todavia o povo em uníssono, gritava: “Crucifica-o!” “Crucifica-o!” Pilatos tem, assim, a sua vontade contrariada – logo Pilatos!  João, o último evangelho a ser escrito, possivelmente em uma data próxima de 100 d. C., avança na tentativa de culpabilizar os judeus e tirar a responsabilidade de Pilatos e, assim fazendo, a responsabilidade do estado romano. Os romanos seriam apenas instrumentos do ódio empedernido dos judeus. João afirma que o governador ficou “atemorizado”, após saber que os judeus que acusavam tinham uma lei; que Jesus deveria morrer “porque a si mesmo se fez filho de Deus”. É estranha a afirmação do evangelista. Pilatos era uma autoridade romana, alguém que fora colocado no poder pelo próprio imperador. Atemorizar-se com a declaração era, simplesmente, deixar claro a dubiedade da autoridade de Pilatos. Outro fato estranho é a afirmação que soaria blasfema para qualquer judeu do I século. Pilatos pergunta: “Hei de crucificar o vosso rei?” Os “principais sacerdotes” respondem num gesto inusual: “Não temos rei, senão César”. Tal declaração destoa daquilo que a história evidencia. Reconhecer que “César era o único rei” significava comprometer a identidade religiosa dos judeus. Se existe algo que identifica o povo de Israel é a defesa intransigente de sua religião. Não existe outra autoridade além de Javé. Havia um zelo fundamental, uma necessidade constante de reconhecer a soberania da autoridade divina.

quinta-feira, janeiro 24, 2019

Matrix e o mundo real

"O que é "real"? Como você define o "real"? Se está falando do que consegue sentir, do que pode cheirar, provar, ver, então "real" são simplesmente sinais elétricos interpretados pelo cérebro".
 Morpheus, personagem do filme Matrix

O que é a realidade? Tudo o que vemos é real? Como sei que existo e que aquilo que vejo e penso encontra ressonâncias com a materialidade? A nossa percepção do mundo não é fruto de um sonho? Essas perguntas perturbam e inquietam o ser humano há milênios. Os gregos foram os primeiros a tentarem responder essas perguntas.  

Em 1999, as irmãs Wachowski deram ao mundo uma obra-prima, o filme Matrix. Eles lançariam ainda outros dois, constituindo uma trilogia. A obra se fixa no rol daquelas distopias imortais como o são “2001: uma odisseia no espaço” (1969) e “Blade Runner – o caçador de androides” (1983). Matrix é uma distopia repleta de referências à filosofia, à mitologia, à teologia e a toda uma parafernália derivada da cibercultura. Particularmente, já devo ter assistido ao filme umas oito vezes. Cada vez que vejo a obra, atento para um detalhe ignorado. 

“O que é Matrix?” Essa pergunta encontra eco no questionamento fundamental: “o que é realidade?” Entendemos que a realidade abarca tudo aquilo que vemos, experimentamos, sentimos. Somos mediados pelos sentidos, que criam em nós, uma estrutura sólida da realidade. É a partir dessa referência que sedimentamos a nossa relação com o mundo que nos cerca. Mas, e se descobríssemos que aquilo que vemos, sentimos e experimentamos não é real?  

É justamente o personagem Thomas Anderson que começa a fazer esse questionamento. Anderson é um hacker. Trabalha numa empresa que desenvolve softwares. À noite, Anderson, que se assume como Neo no mundo cibernético, acessa os códigos da Matrix. E, assim, começa a desconfiar do mundo em que vive. Não consegue dormir. É perturbado por inquietações variadas. Neo, por fim, entra em contato com a personagem Morpheus, uma lenda do mundo virtual. Na mitologia grega, Morfeu é o deus dos sonhos. A entidade, cujo nome em grego “morpheu” significa a forma”, que possui a capacidade de se transformar em qualquer coisa e aparecer nos sonhos das pessoas. Morfeu é entidade sorrateira. Possui asas que não emitem som enquanto ruflam e deslizam suavemente. 

Em Matrix, Anderson  é despertado por Morpheus. É Morpheus quem o tira do mundo do sono, da ilusão, da virtualidade. Anderson vivia em mundo de fantasia, antes de se tornar Neo (o novo), “o escolhido”. Vivia dentro da Matrix. Seguindo esse entendimento, Matrix é uma realidade ilusória, uma realidade programada pelas máquinas. 

Segundo Morpheus, os homens iniciaram uma guerra contra as máquinas e perderam. Foram, por isso, evacuados do mundo. Passaram a viver em Zion (Sião), uma espécie de referência à Terra Santa, ao monte Sinai, onde supostamente, segundo o Velho Testamento, Javé apareceu para Moisés. Desde a guerra, o céu tornou-se escuro. Nuvens grossas e pesadas impedem que a luz do sol incida sobre a superfície. Sem luz solar, as máquinas não conseguem extrair energia necessária para alimentarem os sistemas existentes. Elas precisam de uma fonte alternativa de energia térmica. Passaram, pois, a cultivar seres humanos em série para que estes produzissem, por meio do calor corporal, bioeletricidade. Milhões de corpos são mantidos em sono perpétuo, sem que tenham exata consciência de sua real condição. 

Em uma das cenas do filme, Morpheus mostra para Neo duas pílulas - uma azul e outra vermelha. A azul permitiria a Neo continuar vivendo na escuridão, na ilusão; conduzia a sua vida normalmente na Matrix. Casaria. Teria filhos caso desejasse. Tocaria a sua vida. Desenvolveria suas atividades, sem qualquer preocupação. Já a pílula vermelho daria a ele a percepção do mundo real. Ele seria tirado do mundo das aparências. Despertaria para o mundo que o cerca. Perceberia a grande ilusão que o ladeava. Neo escolheu a pílula vermelha.

A grande questão é que há referências claras à “Alegoria da Caverna”, de Platão.  No livro 7, de A República, Platão narra a história de alguns prisioneiros que foram amarrados desde o nascimento no fundo de uma caverna. A condição dos prisioneiros é de tão grande passividade, que tudo que chega a eles, vem por intermédio de sombras e sonoridades confusas. Atrás deles, fica a saída da caverna em um plano inclinado. Há ainda uma fogueira acesa que projeta as sombras. Do lado de fora, as pessoas passam. A vida acontece em toda a sua plenitude. O sol brilha. As pessoas transitam desimpedidas. Dentro da caverna, a realidade é deformada. Chegam sombras tortas. O fogo bruxuleia por causa do vento. E, ao passo que isso ocorre, a projeção ganha contornos estranhos. A luz do sol não chega. Se essas pessoas estão ali desde que adquiriram consciência, é natural que elas entendam que toda a realidade que existe se limite ao que elas veem e escutam. 

Provocativamente, Platão diz que, após muito esforço, um dos prisioneiros consegue se libertar. Seu primeiro ato é se acostumar com a nova posição. Seus músculos e articulações estão atrofiados. Mal consegue se equilibrar. Caminha trôpego até o plano inclinado da caverna. Olha para trás, visualiza a fogueira, os companheiros manietados, as sombras fantasmagóricas que dançam nas paredes nuas da caverna. Faz um esforço. Galga a rampa. Um facho impetuoso de luz inunda-lhe os olhos. Quase fica cego. A luminosidade parece possuir espetos. Verruma-lhe os olhos. Em uma das cenas do filme, após sair da Matrix, Neo diz para Morpheus: “Os meus olhos doem”, ao que Morpheus retruca: “É por que você nunca os usou”.

Após enxergar o mundo e sua diversidade; perceber os parques; a força e a grandeza magnânima do mar; escutar os sons múltiplos da natureza, o homem decide voltar para contar tudo aos seus antigos companheiros. É sua obrigação, entende. Fora da caverna está o mundo real com sua diversidade e complexidade. Precisa voltar e explanar as sempiternas novidades. 

Ele assim o faz. Narra cada pormenor. Descreve o mundo e suas cores. As vozes. A dança frenética da realidade, banhada pela luminosidade do sol. Mas, grande foi o seu susto. Os antigos companheiros se recusam a aceitar tão aberrante e destoante notícia. Aquilo era um embuste. Uma mentira. Não existia nada daquilo. Tratava-se de uma invenção. A realidade, conforme eles entendiam de forma absoluta, resumia-se cabalmente àquilo que eles viam refletido no fundo da caverna. Em um dos diálogos do filme, Morpheus leva Neo a um grande centro metropolitano e diz: 

“A Matrix é um sistema, Neo. Esse sistema é nosso inimigo. Mas, quando estamos dentro dele, o que vemos? Homens de negócio, professores, advogados, marceneiros. As mesmas pessoas que queremos salvar. Mas até conseguimos, essas pessoas fazem parte desse sistema e isso faz delas nossas inimigas. Você precisa entender que a maior parte dessas pessoas não estão prontas para acordar. E muitos estão tão inertes, tão dependentes do sistema, que vão lutar para protegê-lo”. 
Os códigos que estruturam a realidade e fazem Matrix

Nota-se com isso, a estreita intertextualidade do filme com a alegoria escrita por Platão. Vale ressaltar que a alegoria pretende, por meio de simbolismos, retratar uma metáfora que acaba ganhando materialidade. Ou seja, cada elemento da alegoria estabelece conexão com o mundo material. Matrix aponta para esse intricado debate: até que ponto sabemos que aquilo que vemos, percebemos e ouvimos é verdadeiro? Outra questão é a defesa de determinadas premissas. As convicções surgem da experiência. Acostumamo-nos com a realidade que nos é apresentada. Entendemos que toda ela é inquestionável. O menor questionamento, a mais insignificante relativização, já é vista como motivo para provocação. E se nós, à semelhança dos prisioneiros, estivermos acorrentados, contaminados pela sonoridade falha; e se apreendermos um tipo de mundo, sem que este seja necessariamente a realidade que achamos que é?

O ser humano precisa de estabilidade. É, por isso, que se faz a defesa intransigente de certas convicções. Para aquele que possui, nada é tão verdadeiro, nada faz tanto sentido. Mas, e se essas convicções forem apenas sombras? O papel do filósofo ou daquele que foge da tirania do olhar único é sempre transgressor. O papel daquele reflete, que pensa, que desconfia, que procura sair da caverna dos preconceitos e da aparência é sempre de transgressão. Lênin costumava dizer que “a verdade é revolucionária”. 

Existem outros elementos no filme suficientes para produzir teses. O fato é que fico impressionado todas às vezes que assisto ao filme. Por exemplo, no campo da religião há referências a dogmas cristãos. Neo é “o messias”, o salvador, aquele que traria redenção à raça humana condenada. Ele é o libertador. Arrancaria os homens de um mundo em que eles nada são a fim de se tornarem aquilo que devem ser. Paulo, o apóstolo, diz na sua segunda carta aos coríntios diz que “se alguém está em Cristo, é nova criatura; as coisas velhas passaram e tudo se fez novo”. Percebe-se aqui o quanto o filme procura estabelecer a mudança perpetrada pela relação com o messias. 

Outra referência curiosa é o dogma da Trindade. A personagem “Trinity” possui relação. A primeira vez que ela se encontra com Neo, ele diz: “Achei que você fosse um homem”. Ela responde: “Todos acham isso”. Quando da morte de Neo, ela o ressuscita. Pai, Filho e Espírito Santo são um. Se o filho ressuscita, o Pai e o Espírito ressuscitam, ou seja, a própria trindade ressuscita. 

Em suma: o filme é uma obra bastante incomum. Os irmãos Wachowski conseguiram trabalhar conceitos extremamente complexos e inovaram bastante no campo visual. O filme é um grande acontecimento. É um prato feito para aqueles que admiram filmes polifônicos, ou seja, que conseguem perturbar por aquilo que insinuam, seja de maneira direta ou indireta.

Notas sobre “Zelota - a vida e a época de Jesus de Nazaré", de Reza Aslam. III

A leitura de “Zelota” tem permitido a realização de inúmeras reflexões pertinentes. O livro coleciona polêmicas, pois desafia a credulid...