quinta-feira, julho 16, 2026

Algumas impressões sobre o romance "Jubiabá", de Jorge Amado

 

“[Antônio Balduíno] Andava pelos dezoito anos mas parecia ter vinte. Era forte e alto como uma árvore, livre como um animal e possuía a gargalhada mais clara da cidade”.

Jorge Amado, in “Jubiabá”

 

Tenho por meta ler integralmente a obra do escritor baiano Jorge Amado. Tenho tentado ler os seus romances em ordem cronológica.  “Jubiabá” é o quarto livro do escritor baiano. Desde os tempos da escola, Amado sempre se mostrou para mim como um escritor que provoca uma relativa sensação de intriga. Sou afeito ao estilo seco e duro de Graciliano Ramos; ou à prosa caudalosa, com cintilações psicológicas bem desenhadas de José Lins do Rego – para mencionar dois outros importantes escritores nordestinos, também pertencentes à Segunda Fase do Modernismo.

O autor de “Jubiabá”, diferentemente dos dois escritores mencionados, escreveu uma literatura muito mais popular. O texto de Graciliano próximo do texto de Amado é “parnasiano”. Graciliano era meticuloso na revisão gramatical e sintática, o que se faz notar no efeito de sua literatura. Amado, por sua vez, utiliza uma lexicografia extraída das camadas mais populares do povo baiano. Isso está de acordo com as intenções que o habitavam na primeira fase de sua literatura, voltada de maneira candente aos temas sociais. Importa ainda mencionar a aproximação com as teses comunistas e ao engajamento assumido pelo escritor.

O próprio Jorge Amado viajou por alguns estados nordestinos, pelo Recôncavo Baiano – e sendo ele ligado às questões da terra (sua família era proprietária de terras onde se plantava cacau) – e um profundo conhecedor das ambivalências pelas quais passava o povo negro soteropolitano. Jorge procura na tradição africana os elementos necessários para compreender a brasilidade.  Jorge Amado projetou as suas lentes para o povo negro, radicado em Salvador, o local do país onde mais se recebeu escravos trazidos da África e, com isso, escancarou uma das faces mais profundas da nossa história. O projeto antropológico de Jorge Amado, emanado de sua literatura, depositado em personagens memoráveis e fortes, é dos mais relevantes para um olhar mais profundo sobre a cultura do Brasil.

Antes de “Jubiabá”, Amado havia escrito “O país do carnaval”, “Cacau” e “Suor”. São livros de enredos ligeiros que, quando comparados a “Jubiabá”, funcionam como exercícios iniciais de escrita. Quando da publicação de “Jubiabá”, Graciliano escreveu para o seu amigo José Lins do Rego sobre o livro de Jorge e disse: “Eu queria saber com que cara o Otávio de Faria (jornalista e escritor) leu aquilo. Há pouco tempo ele disse que Jorge era um literatinho e que não devia meter-se a escrever romance… Enfim, o livro é ótimo. Tão bom, que aqueles documentos inúteis, anúncios de circo etc.…, não o prejudicam. Mesmo com a preocupação de fazer romance de classe, não penso que o livro do Jorge deforme a realidade, como lhe parece”.  O termo “literatinho” talvez tenha sido empregado por causa da ausência de profundidade das personagens criadas por Jorge até aquele momento. Antônio Balduíno, o Baldo, o protagonista do romance é um “Odisseu baiano”. Assim como o herói da obra de Homero, a trajetória transforma-os em sujeitos errantes, ambos são transformados pela viagem e chegam ao final da travessia completamente modificados. Essa é a impressão que fica ao concluir leitura da obra. Sua trajetória faz lembrar aquela explanada por José Lins do Rego em “O moleque Ricardo”, ambientado no Recife. Ricardo saído da bagaceira, procura a cidade grande; enfrenta as agruras, entra na luta sindical e é conduzido à prisão Fernando de Noronha. O Baldo, por sua vez, um moleque negro vive mil vidas no romance e acaba, assim como Ricardo, envolvido na luta coletiva.

O título “Jubiabá” não é dado ao personagem central da obra como poderia ocorrer de maneira intuitiva. “Jubiabá” é o nome que se emprega ao babolirixá, uma espécie de mestre, de conselheiro transcendental de Baldo. Pode-se depreender também que o título certamente é uma homenagem à cultura popular, às religiões de matriz africana, à sabedoria herdada do povo negro. Cheguei a procurar o significado dessa palavra, mas não encontrei. O que se sabe é que personagem teria existido na Bahia. Ou seja, ela é resultado da homenagem do escritor às grandes figuras populares do povo baiano.

O romance possui imagens quase cinematográficas como, por exemplo, quando a personagem se embrenha pelo mato, sendo perseguido de maneira animalesca por sujeitos que procuram a vindita. Outra cena importante é a luta com o boxeador alemão.

“Jubiabá” é um romance com muitas ações do seu personagem principal. Existem questões que surgem em uma primeira leitura. Podem-se citar a título de exemplo:

(1) A luta racial e a identidade negra: Antônio Balduíno é uma figura encantadora. É um herói com mil faces. Ele possui a sina do homem negro. Nascido em um morro. Órfão ainda muito pequeno. Adotado por uma família. Hostilizado pela família por essa mesma família que o adotou.  O mergulho profundo na rotina da rua. Guindado à condição de boxeador. A honra e a derrota. Tudo isso torna-o uma figura sobre a qual estão colocadas as vicissitudes do destino. Sua luta passa pela afirmação de sua identidade de homem negro e marginalizado. Recai sobre ele a insubmissão. Baldo é uma figura múltipla e repleto de habilidades – é um malandro nato; é boxeador; é poeta; é apaixonado; é cangaceiro; é religioso; é órfão; é um homem do povo; é preto; é sindicalista. Desfere golpes contra a  própria vida e contra o próprio destino a fim de continuar a ser quem é. Baldo é um dos primeiros e únicos heróis negros de nossa literatura.  Amaro, personagem homossexual e negro, do romance naturalista “O Bom Crioulo”, de Adolfo Caminha, não pode ser esquecido.   

(2) A desigualdade e a luta de classes: “Jubiabá” é o romance que se insere na fase social ou proletária de Jorge Amado. É patente a tese de que o herói precisa ascender a fim de se envolver no movimento social. O desfecho da existência de Balduíno é o ingresso no movimento sindical. Fica explícito no romance o quanto sua vida é pautada pela exploração. Em todas as relações que ele estabeleceu, há uma força estrutural que o explora, que nega a ele a dignidade para ser. A saída para alguém nessa condição é lutar, é se insurgir; é organizar a resistência contra os donos dos meios de produção. Vale mencionar que, nesse período, Jorge Amado encontrava-se cada vez mais alicerçado no movimento comunista. Outra questão importante a ser mencionada é que “Jubiabá” foi um dos livros de Jorge Amado que mais fizeram sucesso na União Soviética. Lia-se o livro como uma tese em que se pode notar as etapas da ascensão da luta do proletariado. A luta do herói da sociedade de classes ascende até que ele se organize com outros explorados para empunhar a bandeira da revolução.

(3) A forte presença da religiosidade do povo: Estive em Salvador em 2023. Fiquei impressionado com a cidade. Salvador é uma cidade que possui uma energia bem diferente das outras cidades brasileiras. A presença do povo negro se faz por todos os lados. Ou seja, Salvador é um pedaço da África no Brasil. A presença da cultura africana derrama-se pelos vários bairros e pode ser percebida na culinária, nos monumentos, no corpo dos soteropolitanos, nas vestimentas, na ginga do baiano, na religiosidade. Recordo-me que o guia que nos conduziu ao Centro Histórico da cidade afirmou que há mais de mil terreiros em Salvador. Fiquei impressionado com o número. Há mais terreiros do que igrejas católicas. É muito comum, em Salvador, você encontrar alguém que possua um orixá como guia. Essas divindades estão presentes na umbanda e no candomblé. Elas são extraídas da mitologia do povo iorubá (África Ocidental), de onde vieram boa parte dos escravos africanos trazidos ao Brasil. As divindades representam e controlam forças da natureza.   

(4) A formação da consciência político do sujeito histórico: Observa-se que Baldo possui uma trajetória ascendente. A personagem amadurece à medida que a trama se desenvolve. Há nessa estratégia a estrutura de um romance de formação. Balduíno parte da luta pessoal e individual em busca de resistir às intempéries de uma rotina de privações e obstáculos. Todavia, o herói somente conseguirá resolver o seu problema, se entender que os seus problemas e obstáculos são decorrentes de uma estrutura social injusta. O destino do sujeito opresso em uma sociedade desigual e injusta é a formação da consciência de classe. A emancipação passa, necessariamente, pelo entendimento de sua condição. A busca individual dificilmente debela a exploração e desigualdade na sociedade capitalista.

(5) A infância como elemento de reflexão: É relevante afirmar que “Jubiabá” faz lembrar em alguns momentos outro romance amadiano – “Capitães de areia”, de 1937. Alguns dos temas deste romance parecem já esquematizados em “Juabiabá”. O grupo de amigos de Antônio Balduíno que perambula pelas ruas de Salvador faz lembrar o grupo chefiado por Pedro Bala, personagem principal de “Capitães de Areia”. Nesse sentido, Amado reflete sobre o abandono da infância, a paisagem urbana e suas contradições e a solidariedade estruturada entre os marginalizados.

“Jubiabá” é um romance que surpreende pela trama envolvente, pela personagem encantadora, pela forma como retrata os grupos marginalizados, como retrata algumas manifestações do povo – o samba, a capoeira, as festas, a religiosidade, a sensualidade, a oralidade, a valorização da cultura negra. Trata-se de uma obra neorrealista, mas carregada de elementos envolventes. Antônio Balduíno poderia ser o que quisesse, caso não pesasse sobre sobre ele a sina de ser pobre, preto e marginalizado. Era um sujeito com múltiplos talentos.

 

 

 

 

domingo, julho 12, 2026

O cuscuz, o café e a Roda de Maceió

Alguns dos intelectuais; entre eles, Graciliano Ramos. 
 

Há duas semanas, estive na agradável Maceió, capital do estado de Alagoas. Fiquei na porção norte da cidade. Procurei refúgio em Guaxuma e Ipioca. Alagoas é conhecida pelas praias belas, de paisagens indescritíveis. Gosto de ir até lá para realizar caminhadas pela praia. Nos seis dias em que estive na Capital alagoana, caminhei pela praia apenas duas vezes. A chuva fina e onipresente impediu-me de fazê-lo.

Fui à orla de Pajuçara em uma ocasião. Revisitei a disputada feira de artesanato, um dos pontos turísticos da cidade. E foi por ter ido até lá que fiquei a pensar em Graciliano Ramos. Ele morou na cidade há quase cem anos. Residiu no bairro Poço, que fica na parte mais tradicional da cidade e não muito distante da orla. Segundo informações, era um bairro contíguo à Pajuçara. Em cem anos, uma cidade ganha fisionomia nova, ainda mais em se tratando de uma capital como Maceió.

O bairro Poço abrigava um importante centro comercial e era um local de fluxo constante de pessoas. No período em que morou por lá, conseguiu terminar uma das suas obras seminais, o romance psicológico “Angústia”, uma verdadeira obra-prima do romance modernista. Sentado em uma lanchonete, observava os corredores que se deslocavam pela ciclovia da orla e procuravam gastar energia com seus corpos jovens, fiquei imaginando o velho Graça passeando de maneira casmurra, de cabeça baixa, pensando em uma nova personagem ou um fato político relevante por aquele calçadão.

Em 2015, quando Maceió completou duzentos anos, o autor da famosa escultura de Carlos Drummond em Copacabana/RJ, o artista plástico Leo Santana, esculpiu uma estátua de Graciliano na orla de Pajuçara e outra de Aurélio Buarque de Holanda em Ponta Verde. Enquanto, no Rio, Drummond está sentado de costas para mar, em gesto rodiniano, a observar as pessoas que passam pelo calçadão, Graciliano caminha sólido, vestido a caráter, tendo entre os dedos o seu inseparável cigarro Selma.

No período em que morou em Maceió, a cidade abrigou uma constelação de intelectuais. Esse fato sempre me chamou a atenção. Três dos nomes mais relevantes do Romance de 30 estavam em Maceió – o próprio Graciliano, José Lins do Rego e a jovem Rachel de Queiroz, vinda do Ceará. À época, Rachel tinha tenros vinte anos. Era única mulher em convivência com aquele grupo de homens, denominado de “A Roda de Maceió”. Em 1930, ela abalara os círculos literários com a publicação de “O Quinze”. Em 1932, ela publicaria o seu segundo romance e um dos mais expressivos romances regionalistas do movimento modernista, João Miguel.

Estavam por lá, o já mencionado Graciliano Ramos, chegado do interior do estado, depois de ter ocupado o cargo de prefeito da emblemática Palmeiras dos Índios e ter escrito os seus famosos e icônicos relatórios ao governo do estado. Até aqueles dias, Graciliano não publicara nada. Lia. Escrevia. Revisava. Repisava determinadas passagens, como lhe era tão característico. Sua posição era marcada pelo jornalismo. Ocupava um cargo público. Seu primeiro livro – “Caetés” – seria publicado em 1933. No ano seguinte, sairia o magistral “São Bernardo”, talvez, um dos estudos psicológicos mais profundos sobre um personagem já produzido na literatura brasileira.

Chegado de Manhuaçu/MG, José Lins do Rêgo, formado em Direito pela tradicional Faculdade de Direito do Recife, passara uma temporada na cidade mineira ocupando um cargo público. Não se adaptou por lá. Mudou-se para a praiana e ensolarada Maceió, bem próxima em características da sua João Pessoa, para trabalhar como fiscal de bancos.

O paraibano chegou à capital alagoana em 1926 e ficou por lá até 1935, quando mudou em definitivo para o Rio de Janeiro. Na cidade, Zé Lins iniciou o seu projeto literário. Escreveu os seus três primeiros romances – “Menino de Engenho” (1932), “Doidinho” (1933) e “Bangüe” (1934) -, romances fundamentais do “ciclo da cana-de-açúcar”, com forte dicção memorialística biográfica.

Havia ainda na famosa “Roda” o crítico e jornalista Valdemar Cavalcanti, responsável por importantes colunas literárias em célebres veículos de comunicação. O lexicólogo Aurélio Buarque de Holanda, nascido em Alagoas e responsável por compilar um dos dicionários mais famosos da nossa história. Era um erudito, um profundo conhecedor da língua portuguesa.

O poeta Jorge de Lima, um dos nomes mais fundamentais da poesia modernista, também se juntara a Zé Lins e seus amigos. Após a sua mudança para o Rio de Janeiro, após o ano de 1930, por causa da sua situação política, deixou uma ausência, todavia, mais tarde, quando da mudança em definitivo de Zé Lins para o Rio de Janeiro, voltaria a reagrupar-se em uma confraria literária.

Havia outros nomes como o do artista gráfico Tomás de Santa Rosa, oriundo da Paraíba. José Auto, poeta e esposo de Rachel de Queiroz e o intelectual e folclorista Théo Brandão.

Na Capital alagoana, eles se reuniam no Ponto Central, um famoso local da Rua do Comércio, um dos trechos mais febris e movimentados da cidade composta, naquele contexto, por aproximadamente cem mil habitantes. A reunião do grupo tinha como centro o debate literário e político. Graciliano, por exemplo, mantinha uma posição crítica ao governo de Getúlio, o que lhe rendeu a famosa prisão, retratada em “Memórias do Cárcere”. Os demais também possuíam uma postura crítica ao mandatário com vocação de “Il Duce” tropical. Em 1937, Getúlio daria um golpe iniciando Estado Novo, período ditatorial que duraria até 1945.

O grupo acabou por se dissipar. Acabaram por se mudar para centros maiores para dar continuidade a outros projetos. O Rio de Janeiro, a capital do país e principal centro cultural do país, foi escolhido pela grande maioria deles.

Sentado em meu exíguo banco, saboreei cuscuz com carne de charque, acompanhado de um copioso copo de café, e fiquei a observar aquela orla apinhada de transeuntes indiferentes à minha feliz divagação. Enquanto trocava algumas palavras com o meu filho e minha companheira, poucos deles, talvez, soubessem que, há cem anos, grandes nomes da cultura do país - e da galáxia -, estiveram reunidos em algum local daquele calçadão. Naquele instante, a única certeza que eu possuía era a de que Aurélio estava sentado em Ponta Verde e Graciliano continuava a caminhar em Pajuçara.

  

terça-feira, junho 23, 2026

"Evocação Mariana" - Carlos Drummond de Andrade


A igreja era grande e pobre. Os altares, humildes.
Havia poucas flores. Eram flores de horta.
Sob a luz fraca, na sombra esculpida
(quais as imagens e quais os fiéis?)
ficávamos.

Do padre cansado o murmúrio de reza
subia às tábuas do forro,
batia no púlpito seco,
entranhava-se na onda, minúscula e forte, de incenso,
perdia-se.

Não, não se perdia. . .
Desatava-se do coro a música deliciosa
(que esperas ouvir à hora da morte, ou depois da morte, nas campinas do ar)
e dessa música surgiam meninas — a alvura mesma — cantando.

De seu peso terrestre a nave libertada,
como do tempo atroz imunes nossas almas,
flutuávamos
no canto matinal, sobre a treva do vale.

Ando a ler o livro “Claro Enigma”, de 1951, de Carlos Drummond de Andrade. Este é o segundo livro do poeta mineiro que leio. O primeiro foi “Rosa do Povo” (1945). “Claro Enigma” é uma obra completamente distinta de “A Rosa do Povo”, escrita no calor da Segunda Guerra. Em “Claro Enigma”, encontramos um Drummond dialogando com a inquietação, com o passado, com o amor; com a incerteza, com ansiedades. Em vários momentos, encontramos uma poesia negativa, ambivalente, que olha para trás e lamenta o que foi perdido. Mas não se trata de simples lamento. A perda se anuncia como fato inquietante, como um passado irremediável.

O livro é divido em “Seções”. Cada pedaço desses, ocupa-se de um tema. Na seção “Selo de Minas”, encontrei um dos poemas drummondianos mais bonitos e expressivos que já li. Trata-se de “Evocação Mariana”. O poema é repleto de possibilidades interpretativas a começar pelo título, que remete a uma ambiguidade: Maria, mãe de Jesus ou a cidade de Mariana? O título é denso em sua simplicidade. Talvez, do ponto de vista das descrições, seja um dos poemas mais delicados já escritos na poesia brasileira.

Por “Selo de Minas”, há a noção de marca identitária, aquilo que confere originalidade, um distintivo que afirma e confirma algo; o registro de uma natureza. Dessa maneira, pode-se dizer que o poeta queria atestar um emblema ao universo mineiro. Afinal, o que confere originalidade a Minas? Quais são os sinais, as marcas definidoras daquele grande estado? Ser mineiro é possuir certa demanda existencial? Seria ser gouche?

Após esse trabalho de inserção do poema em uma categoria ontológica, o eu lírico descreve o local, o espaço da evocação. Trata-se de uma igreja “grande e pobre”. A conjunção “e” possui uma intencionalidade adversativa. A igreja é grande, mas não é rica; a expectativa de magnificência é frustrada pela pobreza material. Em seguida, apresentam-se os altares com economia de palavras – “humildes”. O eu lírico utiliza uma elipse para criar um efeito, como se convidasse o leitor a imaginar o espaço tacanho. No ato de omitir, existe uma insinuação. Até mesmo as flores do altar merecem uma atenção, pois não são nobres; foram extraídas da horta. Os homens e mulheres que estavam ali eram modestos camponeses. A fé é humilde, doméstica; possui o selo do comunitário. 

“Na sombra esculpida” não há é possível distinguir quem são os fiéis e quais as inertes imagens. Trata-se uma assembleia de seres indivisíveis. A pouca luminosidade mistura os elementos. Imagens – de gesso ou madeira - com as fisionomias beatíficas são acompanhadas por corpos de carne e o osso.

“O padre” não é um Josué a conduzir o povo pelo deserto; mostra-se cansado, murmurava palavras que subiam e se misturavam à “onda”, “minúscula e forte” “de incenso”. A reza contida, murmurada, contada do sacerdote, certamente encorajava os fiéis; criava uma irmandade. Todavia, a força da evocação não nasce de sua prece, de sua condição de mediador entre Deus e os homens. A força da experiência não nasce do sacerdote, mas da experiência de fé dos irmãos. 

Uma nuvem subia, perdia-se. “Não”, reitera o eu lírico. Daquela experiência de devoção nada “se perdia”. Tudo era contado. Uma matemática dos céus levava em conta os gestos verdadeiros e medidos da congregação. Uma “música deliciosa” ganhava ar; torna-se uma antessala do paraíso. Era daquelas músicas “que esperas ouvir na hora da morte, ou depois da morte, nas campinas do ar”.

A última estrofe é sublime. Nela, encontramos os elementos simbólicos da espiritualidade. Um movimento ascensional acontece. Drummond cria uma imagem altamente barroca. Percebemos a evocação que ele busca recriar, aludindo à paisagem das cidades históricas de Minas Gerais. Da humildade emanada dos homens simples, algo tão caro à dimensão cristã, alcança-se o idílio espiritual. Aquele espaço descola-se de sua aparente singeleza, de sua melancolia, de seu cansaço e se torna em uma “nave libertada”. O “canto matinal” derramava-se, no início da manhã ou ao final do dia?, sobre “a treva do vale”. Não existe referência ao tempo, pois a experiência espiritual é da ordem do atemporal. É capaz de nos isentar do tempo - "como do tempo atroz imunes nossas almas". 

Observa-se que os elementos singelos – e até mesmo cinzentos, pouco iluminados da primeira estrofe – do plano terrestre, misturam-se ao diáfano do plano espiritual. Há uma integração dos dois mundos. Um aspecto místico se irmana àquelas personagens daquele local “pobre”. O divino passeia pela terra nas preces murmuradas, no incenso e na música deliciosa produzida por aquele ajuntamento.

O poema faz ecoar a simplicidade das bem-aventuranças encontradas no evangelho segundo Mateus, pois, em linguagem evangélica, "bem-aventurados os pobres de espírito, porque deles é o Reino dos Céus"; e "bem-aventurados os mansos, porque herdarão a terra" (versão da Bíblia de Jerusalém - Mt. 5.3-4). É dessa espiritualidade sem pompa, que se volta para dentro que torna a mensagem do poema tão bonita e delicada. 

 


quarta-feira, junho 03, 2026

"Cinzas do Norte", de Milton Hatoum


Milton Hatoum é, hoje, um dos maiores fenômenos literários do Brasil. Traduzido para dezenas de países, indicado ao Nobel de Literatura e, recentemente empossado na Academia Brasileira de Letras, Hatoum se consolidou como um dos nomes mais respeitados das letras da atualidade. É presença constante em entrevistas, “podcasts” e feiras literárias.

Outro fator que chama atenção é o fato de o escritor ser manauara. Com exceção do poeta Thiago de Melo, não há nomes tão conhecidos nas letras oriundos dessa ignota região do país. É inquestionável que existam nomes da prosa e da poesia no Pará, no Amazonas de Hatoum ou no Acre, por exemplo. Historicamente, a tradição literária do Brasil se consolidou nas regiões Sul e Sudeste e, quando muito, no Nordeste.

Também é importante mencionar que Hatoum é um escritor cosmopolita. Viveu em Brasília, São Paulo, Rio de Janeiro e em países como França, Estados Unidos e Alemanha. Hatoum possui uma imponente visão de mundo, algo que transplanta para a sua literatura. Descendente de libaneses, o escritor cresceu na capital do estado do Amazonas. Observou argutamente as contradições sociais da região: a presença constante da floresta sendo gradualmente ameaçada pelo avanço predatório do progresso.

‘Cinzas do Norte” foi o primeiro romance que li do autor. Fiquei em dúvida se leria primeiro “Dois irmãos”, outro importante texto do escritor. O nome do primeiro pareceu-me mais sonoro – “cinzas” são resultado da combustão de alguma matéria; o resíduo que se transformou em algo diferente; “norte” faz lugar a um topônimo, a uma geografia. “Cinzas do Norte” transmitiu a impressão de que se tratava de memórias distantes daquela porção afastada do país; daquilo que sobrou após um denso processo.

Apesar de existir, necessariamente, um narrador no romance, percebemos a própria dicção memorialística do autor no romance. Afirmo isso, pois já assisti a diversas entrevistas do autor e fiquei com essa impressão. Analisando por essa perspectiva, pode-se dizer que o romance procura lançar luz para uma geração inteira, que viveu à sombra ignominiosa da Ditadura Militar.

Confesso que o romance não me pegou de início. Há um recorrente fluxo de consciência para recobrar os fatos atinentes aos personagens. Essa característica do romance exige bastante atenção.

Milton Hatoum

O narrador é Olavo, cujo apelido é Lavo. Aliás, os nomes das personagens passam por uma redução. Por sua vez, existem outros importantes nomes – Raimundo (Mundo), filho de Trajano (Jano), um aristocrata e conservador; a mãe de Mundo, a intensa Alícia. Mundo vive em disputas homéricas com o seu pai. O jovem Mundo ama a arte, possui inclinações humanistas e cosmopolitas, no entanto é reprimido pelo pai. Mundo é a negação da repressão, do estrangulamento da liberdade. A alcunha que recebe – Mundo – possui uma potência significante. Jano na mitologia romana era representado por duas faces – uma apontava para adiante; e, outra, para trás. No caso do pai de Mundo, ele se negava a olhar para frente. Sua perspectiva estava fincada no passado. Esse conflito é um dos mais interessantes no romance.

A narrativa é estruturada por meio de vozes que se cruzam. O futuro não é promissor na vida das personagens. Prevalece o choque de gerações, o conflito a partir dos pontos de vista. As verdades não são únicas. A história vai sendo costurada por meio de colisões de perspectivas.

Esse conjunto de vozes torna a leitura desafiadora, pois é preciso permanecer atento à história de cada personagem e como cada uma delas se encontra. Foi bastante interessante ler o livro, pois me tirou de um lugar de tranquilidade. É muito comum certos leitores buscarem os chamados truísmos literários, ou seja, a leitura fácil e conveniente. Hatoum não facilita do início ao fim. Não um escritor para esse tipo de leitor.

“Cinzas do Norte” é uma obra que exige paciência, mas que possui um enredo significativo, porquanto faz emergir a história recente do país. É aquele tipo de literatura que permite que conexões históricas sejam realizadas. Essa força faz de Hatoum um autor muito relevante.