“Eu quero compor um soneto duro / como poeta algum ousara escrever / Eu quero pintar um soneto escuro, seco, abafado, difícil de ler”.
Drummond, in “Oficina Irritada” – “Claro Enigma”.
Pode-se falar – sem qualquer apelo hiperbólico – que o livro “Claro Enigma” é uma das obras fundamentais da poesia do século XX. Escrito em 1951, é o sétimo livro de Carlos Drummond de Andrade. Sua leitura não é nada fácil. Há alguns poemas complexos como, por exemplo, “A máquina do mundo” ou “Os bens e o sangue”. É possível falar de um hermetismo; o poeta itabirano elabora uma sintaxe comprometida com o rigor, com uma tonalidade austera.
O livro é dividido em seis partes. Cada parte é encimada por um título, que serve como um itinerário existencial. Quando escreveu o livro, Drummond estava com plenos 49 anos de idade. Era um poeta reconhecidamente engajado. Militara no Partido Comunista. Sobreveio a Segunda Grande Guerra e a desilusão com as tarefas da militância. Durante o conflito que trouxe efeitos danosos para o mundo, o mineiro escreveu o extraordinário “A Rosa do Povo”. Os poemas ali encontrados são urgentes. Explicitam um poeta que pensa o mundo, que sente o mundo, que sofre com a rudeza daqueles que maculam a esperança e o futuro. Há imagens poderosas no livro como a da rosa teimosa que brota do asfalta no antológico “A flor e a náusea”, uma verdadeira ode à esperança e à dialética.
Após a Guerra, o que resta? O assombro, o vácuo, a poeira e o desencanto; talvez, o misto de receio e indiferença. A epígrafe que inicia o livro, é extraída de um poema de Paul Valéry - "Les événements m'ennuient" (“Os acontecimentos me entediam” – ou “me aborrecem”). A ideia de “tédio” está ligada à recusa de observação da possibilidade de escolha ou ao peso repetitivo que impede o tempo de passar. “Tédio” é cansaço, é enfado, é desgosto, que conduz inevitavelmente a uma sensação niilista de incompletude.
Encontramos, assim, nessa perífrase, a marca que assoma a obra. É um aviso. Um leitmotiv. É como se o poeta dissesse ao leitor que a matéria que conduzirá o livro são os temas existenciais, eivados por uma energia morna e melancólica. Uma nuvem sombria impedirá que o sol da esperança brilhe. A esperança é uma força idealista, que surge em momentos de luta. Em “Claro Enigma” a luta não é mais física nem histórica; não há combate ao fascismo como em “A Rosa do Povo”. O combate em “Claro Enigma” é metafísico. Combate-se: o tempo, a memória, a morte, o vazio, a linguagem. A história é palco das descontinuidades, das desagregações.
O primeiro poema do livro é sintomático: já inicia com a palavra “escurece”. A luta – que é a arma dos otimistas – parece ter ficado para trás. “Escurece, e não me seduz / tatear sequer uma lâmpada. / Pois aprouve ao dia findar / aceito a noite”. O dia findou. Chegou a noite e esta é aceita – talvez – indiferente àquilo que surge – a noite com o seu sabor adstringente. O que resta é um corpo desalmado (último verso do poema “Dissolução”); a matéria esfacelada e repleta de vacuidade.
O título “Claro Enigma” é um oxímoro, figura que consiste na oposição lógica de dois termos, fundidos em uma contradição. Como pode haver um enigma em algo que é necessariamente claro? O mistério reside no não luminoso; na penumbra, na ausência de luz. As realizações em “Claro Enigma” são atravessadas pela desconfiança, pelo desassossego. O vazio é uma constante – “Tu não me enganas, mundo, e não te engano a ti / (...) Não deixarei de mim nenhum canto radioso” (poema “Legado”). “A madureza sabe o preço exato / dos amores, dos ócios, dos quebrantos, / e não pode contra sua ciência” (poema “A ingaia ciência”).
O tempo é uma força que corrói o significado da vida como a água do mar que vai puindo uma rocha. Não há como escapar do silencioso trabalho corrosivo do tempo. A memória, essa dimensão que registra os eventos e que tem as suas pinceladas apagadas pelo soprar tempestuoso da passagem da vida – (...) “Nada pode o olvido / contra o sem sentido / apelo do Não / As coisas tangíveis / tornam-se insensíveis à palma da mão. / Mas as coisas findas / muito mais que lindas, essas ficarão” (poema “Memória”). Ou como a constatação trágica exposta em “Relógio do Rosário” – “... vivendo, / estamos para doer, estamos doendo”. Viver é doer.
Quanto à forma “Claro Enigma” é um livro que chama a atenção. Drummond não somente é disruptivo quanto aos temas trabalhados. Sendo um poeta modernista, ele tensiona essa condição escrevendo alguns dos poemas de “Claro Enigma” utilizando o soneto, uma forma fixa e clássica, que remete a outros momentos da história da poesia. Há nove sonetos no total. Drummond conhecido pelos versos livres (sem seguir um padrão para a quantidade de sílabas poéticas) e pelos versos brancos (versos sem rima), elabora estruturas poéticas com dois quartetos e dois tercetos (forma clássica dos sonetos). Além disso, os versos são alexandrinos (com doze sílabas poéticas). Essa escolha aponta para o fato de que o poeta procurava superar a própria ideia de modernista. Drummond provoca a liberdade criadora do Modernismo, desafiando até que ponto era possível dialogar com a tradição.
Os temas trabalhados são universais, mas sob uma poética feita de resíduos de um passado e transcendência que resiste ao tempo presente. A utilização desse formato clássico, certamente é uma forma de alargar ainda mais a radicalidade do projeto exposto em “Claro Enigma”. Não há um mero retorno à tradição, uma evocação nostálgica do passado. O poeta recorre a essa estrutura para que a crise moderna seja ainda mais exposta.

