Havia poucas flores. Eram flores de horta.
Sob a luz fraca, na sombra esculpida
(quais as imagens e quais os fiéis?)
ficávamos.
Do padre cansado o murmúrio de reza
subia às tábuas do forro,
batia no púlpito seco,
entranhava-se na onda, minúscula e forte, de incenso,
perdia-se.
Não, não se perdia. . .
Desatava-se do coro a música deliciosa
(que esperas ouvir à hora da morte, ou depois da morte, nas campinas do ar)
e dessa música surgiam meninas — a alvura mesma — cantando.
De seu peso terrestre a nave libertada,
como do tempo atroz imunes nossas almas,
flutuávamos
no canto matinal, sobre a treva do vale.
Ando a ler o
livro “Claro Enigma”, de 1951, de Carlos Drummond de Andrade. Este é o segundo
livro do poeta mineiro que leio. O primeiro foi “Rosa do Povo” (1945). “Claro
Enigma” é uma obra completamente distinta de “A Rosa do Povo”, escrita no
calor da Segunda Guerra. Em “Claro Enigma”, encontramos um Drummond dialogando
com a inquietação, com o passado, com o amor; com a incerteza, com ansiedades.
Em vários momentos, encontramos uma poesia negativa, ambivalente, que olha para
trás e lamenta o que foi perdido. Mas não se trata de simples lamento. A perda
se anuncia como fato inquietante, como um passado irremediável.
O livro é divido
em “Seções”. Cada pedaço desses, ocupa-se de um tema. Na seção “Selo de Minas”,
encontrei um dos poemas drummondianos mais bonitos e expressivos que já li. Trata-se de “Evocação
Mariana”. O poema é repleto de possibilidades interpretativas a começar pelo
título, que remete a uma ambiguidade: Maria, mãe de Jesus ou a cidade de
Mariana? O título é denso em sua simplicidade. Talvez, do ponto de vista das descrições,
seja um dos poemas mais delicados já escritos na poesia brasileira.
Por “Selo de
Minas”, há a noção de marca identitária, aquilo que confere originalidade, um
distintivo que afirma e confirma algo; o registro de uma natureza. Dessa
maneira, pode-se dizer que o poeta queria atestar um emblema ao universo
mineiro. Afinal, o que confere originalidade a Minas? Quais são os sinais, as
marcas definidoras daquele grande estado? Ser mineiro é possuir certa demanda
existencial? Seria ser gouche?
Após esse
trabalho de inserção do poema em uma categoria ontológica, o eu lírico descreve
o local, o espaço da evocação. Trata-se de uma igreja “grande e pobre”. A conjunção “e” possui uma
intencionalidade adversativa. A igreja é grande, mas não é rica; a expectativa de magnificência é frustrada pela pobreza material. Em seguida, apresentam-se os altares com economia
de palavras – “humildes”. O eu lírico utiliza uma elipse para criar um efeito,
como se convidasse o leitor a imaginar o espaço tacanho. No ato de omitir,
existe uma insinuação. Até mesmo as flores do altar merecem uma atenção, pois
não são nobres; foram extraídas da horta. Os homens e mulheres que estavam ali
eram modestos camponeses. A fé é humilde, doméstica; possui o selo do comunitário.
“Na sombra
esculpida” não há é possível distinguir quem são os fiéis e quais as inertes
imagens. Trata-se uma assembleia de seres indivisíveis. A pouca luminosidade
mistura os elementos. Imagens – de gesso ou madeira - com as fisionomias
beatíficas são acompanhadas por corpos de carne e o osso.
“O padre” não é um Josué a conduzir o povo pelo deserto; mostra-se cansado, murmurava palavras que subiam
e se misturavam à “onda”, “minúscula e forte” “de incenso”. A reza contida,
murmurada, contada do sacerdote, certamente encorajava os fiéis; criava uma
irmandade. Todavia, a força da evocação não nasce de sua prece, de sua condição de mediador entre Deus e os homens. A força da experiência não nasce do sacerdote, mas da experiência de fé dos irmãos.
Uma nuvem subia,
perdia-se. “Não”, reitera o eu lírico. Daquela experiência de devoção nada “se
perdia”. Tudo era contado. Uma matemática dos céus levava em conta os gestos
verdadeiros e medidos da congregação. Uma “música deliciosa” ganhava ar;
torna-se uma antessala do paraíso. Era daquelas músicas “que esperas ouvir na
hora da morte, ou depois da morte, nas campinas do ar”.
A última estrofe
é sublime. Nela, encontramos os elementos simbólicos da espiritualidade. Um movimento ascensional acontece. Drummond cria uma imagem altamente barroca. Percebemos a evocação que ele busca
recriar, aludindo à paisagem das cidades históricas de Minas Gerais. Da
humildade emanada dos homens simples, algo tão caro à dimensão cristã, alcança-se
o idílio espiritual. Aquele espaço descola-se de sua aparente singeleza, de sua
melancolia, de seu cansaço e se torna em uma “nave libertada”. O “canto matinal”
derramava-se, no início da manhã ou ao final do dia?, sobre “a treva do vale”. Não
existe referência ao tempo, pois a experiência espiritual é da ordem do
atemporal. É capaz de nos isentar do tempo - "
Observa-se que
os elementos singelos – e até mesmo cinzentos, pouco iluminados da primeira
estrofe – do plano terrestre, misturam-se ao diáfano do plano espiritual. Há
uma integração dos dois mundos. Um aspecto místico se irmana àquelas
personagens daquele local “pobre”. O divino passeia pela terra nas preces
murmuradas, no incenso e na música deliciosa produzida por aquele ajuntamento.
O poema faz ecoar a simplicidade das bem-aventuranças encontradas no evangelho segundo Mateus, pois, em linguagem evangélica, "bem-aventurados os pobres de espírito, porque deles é o Reino dos Céus"; e "bem-aventurados os mansos, porque herdarão a terra" (versão da Bíblia de Jerusalém - Mt. 5.3-4). É dessa espiritualidade sem pompa, que se volta para dentro que torna a mensagem do poema tão bonita e delicada.












