segunda-feira, setembro 14, 2026

13 motivos para votar em Lula

Texto escrito pelo professor Luis Felipe Miguel

Faltando 21 dias para o primeiro turno, com as revelações sobre o escândalo do Banco Master finalmente vindo todas à tona, o cenário está claro. Temos, de um lado, o presidente Lula, com todas as limitações de sua política de frente ampla e de sua aversão ao enfrentamento. Do outro, Flávio Bolsonaro, como principal representante de um projeto regressivo que aparece também nas figuras de Ronaldo Caiado, de Romeu Zema, de Renan Santos e, com uma roupagem menos agressiva, de Augusto Cury.

Serão Lula e Flávio Bolsonaro que, com certeza quase absoluta, se enfrentarão no segundo turno. Mesmo com toda a exposição das tramas escusas do filho de Jair, o império sobre sua base é tão grande que o derretimento de sua candidatura é muitíssimo improvável.

Por isso, a disputa que se avizinha difícil. E ela terá um profundo impacto no futuro do Brasil. Apresento aqui uma breve relação do que está em jogo na eleição do mês que vem – e que deve orientar o voto de todos nós. Sem triunfalismo lulista, mas com realismo.

1) Democracia

 Quando promulgou, em 1988, a nossa Constituição escrita “com ódio e nojo a ditadura”, Ulysses Guimarães enunciou aquilo que, então, era o consenso mínimo da elite política brasileira. Muitos se esforçaram, com grande sucesso aliás, para impedir qualquer punição pelos crimes cometidos durante o período autoritário. Mas ninguém, nem mesmo nos partidos de direita, se apresentava na esfera pública defendendo uma volta a ele – exceto meia dúzia de generais do pijama, que se julgava que eram politicamente irrelevantes.

Isso mudou no momento da agitação com vistas à deflagração do golpe de 2016. De forma surpreendente, o discurso de defesa da ditadura, da perseguição aos adversários, até mesmo da tortura, ganhou tração e passou a empolgar amplos setores da população.

Podemos e devemos discutir os motivos disso: os limites do nosso experimento democrático, a insuficiência das políticas igualitárias. Ainda assim, a erosão do tabu que impedia a defesa da ditadura representa um grave retrocesso.

Jair Bolsonaro, que passou de figura marginal a líder político de alcance nacional exatamente com este discurso, ocupou todo seu mandato tramando formas de permanecer na presidência mesmo sem autorização do eleitorado. Não apenas estimulou o descrédito nas urnas e perseguiu adversários como também não economizou medidas de força para desvirtuar o resultado – incluindo a tentativa de impedir que eleitores exercessem seu direito. Depois da vitória de Lula, buscou apoio dos chefes militares e mobilizou sua base popular para desferir um golpe, culminando no 8 de janeiro.

A punição aos golpistas foi um dos triunfos que a democracia brasileira teve nos últimos tempos. A vitória de Flávio significará não apenas a reversão dessa punição como também um ataque ainda mais feroz às instituições democráticas. Caso eleito, Flávio fará de tudo para ser o ditador que seu pai não conseguiu ser.

2) Liberdades

O governo do Bolsonaro pai nunca escondeu sua vocação liberticida. Perseguição à imprensa, às universidades e às escolas, à ciência, aos produtores culturais. O filho segue no mesmo caminho. Ditadura – a forma de governo que eles preferem – não combina com liberdade para ninguém.

3) Igualdade

A igualdade é um valor central da democracia e também está no coração de qualquer concepção de sociedade justa. A política dos Bolsonaro, porém, é contrária a todas as formas de promoção da igualdade. Defende vantagens para os mais ricos, recusando a tributação progressiva, a taxação das grandes fortunas, qualquer medida nesta direção. Opera contra os direitos dos trabalhadores, em nome da farsa ultraliberal da autonomia da negociação entre patrões e empregados, o que significa simplesmente se eximir de proteger o lado mais fraco. O discurso fajuto da meritocracia serve de justificativa para ser contra as políticas sociais que garantem condições de vida para os mais pobres.

4) Progresso social

Por isso, por ser visceralmente contra a igualdade, o bolsonarismo é inimigo do progresso social.

Apesar de ter sido obrigado a assumir o discurso contra a violência contra as mulheres, Flávio é aliado da manutenção das hierarquias que as oprimem, defendendo os papéis tradicionais, a família sob dominação masculina, tudo aquilo que alimenta agressões que elas sofrem em nossa sociedade. Poucas das lideranças bolsonaristas se assumem abertamente como racistas, mas a oposição cerrada que fazem contra todas as iniciativas de combate ao racismo deixa claro de que lado estão. Em suma, tudo aquilo que pode contribuir para construir uma sociedade mais justa, dos direitos dos trabalhadores ao combate à homofobia, enfrenta a oposição de Flávio Bolsonaro e de quem está com ele.

Os governos do PT não fizeram tudo o que podiam e deviam. Seu registro é problemático em muitos pontos, a começar pelo tema da legalização do aborto. Mas não há parâmetro de comparação com seus adversários.

5) Soberania

Soberania não é uma palavra vazia, como a extrema-direita tenta fazer crer (vide a propaganda de Flávia dizendo que o que importa é a “soberania da segurança pública”).

Soberania é a possibilidade de que o povo brasileiro decida o melhor caminho para si mesmo. Numa circunstância próxima da normalidade, um candidato presidencial que defendesse a submissão de seu país a uma potência estrangeira teria liquidado sua carreira política. Infelizmente, faz muito tempo que estamos longe de qualquer situação normal.

Jair Bolsonaro transformou o Brasil em chacota mundial. Adotou uma política externa de vassalagem e entregou o que pôde de nossas riquezas para o capital estrangeiro.

O horizonte do bolsonarismo e das elites que o apoiam é extrair do Brasil tudo o que puderem, sem dar nada em troca – e depois ir morar em Miami. Podem se enrolar na bandeira, se pintar de verde e amarelo o quanto puderem, mas nada apaga o fato de que “patriotismo” sem defesa da soberania é fake.

O cenário internacional é intrincado e desafiador, com o aumento da pressão imperialista dos Estados Unidos e o avanço, mais sutil, dos interesses chineses. Se o Brasil quer sonhar com ter uma posição no mundo compatível com aquilo que ele é – um país de dimensões continentais, com a sétima maior população do planeta e enormes riquezas naturais – não pode cair na mão de um capacho de Donald Trump.

6) Meio ambiente

Uma das características da extrema- direita, pelo mundo afora, é negar a gravidade da questão ambiental. Mas, como o noticiário nos lembra dia sim, dia também, o planeta está a caminho do colapso. O Brasil, por sua biodiversidade, pela importância de suas florestas na regulação climática global, é fundamental caso a humanidade deseje garantir um futuro para si mesma.

O registro do governo Lula na questão ambiental é, como em tantas outras áreas, ambíguo. Em muitos pontos, cede à pressão quer dos interesses econômicos, quer de uma ideologia desenvolvimentista que pouco entendeu dos desafios ecológicos atuais. Mas não é um governo negacionista. dá espaço para agenda ambiental e tem abertura para o diálogo. Já o que caracteriza os Bolsonaro é a vontade de, como disse celebremente um ministro de Jair, “passar a boiada”, eliminando qualquer controle sobre latifundiários, madeireiras, a indústria da extração mineral.

Reeleger Lula é uma exigência não só do Brasil, mas do planeta Terra. 

7) Segurança 

A direita gosta de se apresentar como aquela que se preocupa com a segurança pública. Seu discurso é sempre o mesmo: penas mais pesadas, presídios mais bárbaros, polícia mais assassina. Uma receita que é posta em prática há muito tempo e que nunca dá certo.

Ninguém vai negar que o registro dos governos do PT na área está muito abaixo do desejado. Há setores da esquerda que não compreendem a centralidade da pauta da segurança. Há quem romantize a bandidagem. Há outros que reproduzem, nos governos estaduais, o punitivismo brutal e acéfalo da direita.

Porém, é a família Bolsonaro que acumula evidências de ligações com o crime organizado. Flávio Bolsonaro empregou, homenageou e confraternizou com milicianos. São os bolsonaristas que são presos com arsenais de armas em suas casas, quando não trocando tiros com a polícia. São eles também que emperram o projeto de emenda constitucional que permitiria maior envolvimento do governo federal no combate ao crime organizado.

8) Honestidade 

A direita também gosta de se apropriar do discurso sobre a corrupção, mas a verdade é que ela concentra os grandes ladrões do dinheiro público no Brasil. Podemos questionar a leniência com que Lula tratou muitos escândalos em seus governos, por conveniência política, entendendo pragmaticamente que era impossível governar se fazer vista grossa para práticas da nossa elite política, ou por amizade. Mas não existe nenhuma dúvida de que ele é pessoalmente honesto; sua vida foi revirada e não conseguiram mais do que ilações falsas e processos enviesados. Já os Bolsonaro, tanto Jair quanto Flávio, vivem de rolo em rolo, ao longo de toda sua carreira política – ou mesmo antes, se lembramos dos negócios que o capitão fazia no Exército. Se fazia falta alguma prova, o caso do banco Master está aí, com o candidato envolvido até o pescoço nos esquemas do responsável pela maior fraude bancárias de nossa história.

Combater a corrupção é necessário para estabelecer uma disputa política mais sã no Brasil. A corrupção drena recursos de políticas necessárias para a população e também garante que os interesses da classe burguesa e dos ricos em geral sejam privilegiados nos processos decisórios – ela é uma daquelas “falhas estruturais”, que já estão previstas no funcionamento do sistema, ainda que contra suas regras explícitas. Uma presidência de Flávio Bolsonaro é a garantia de que não avançaremos nada nessa direção.

9) Competência

Flavio Bolsonaro passou sua vida à sombra do pai. Deputado por causa do sobrenome, depois senador por causa do sobrenome, agora candidato presidencial por causa do sobrenome, notabilizou-se por escândalos de rachadinhas, homenagens a milicianos e rolos com lojas de chocolate e mansões a preço de banana. Não tem experiência administrativa, nem tem capacidade de liderança e de negociação política. Pior, não agrega ninguém com estas qualidades, uma vez que seu projeto é um projeto de clã, acima de tudo.

Governar um país como o Brasil exige preparo, capacidade de diálogo, liderança. No momento, só Lula reúne estas qualidades.

10) Saúde

O SUS, uma das maiores conquistas do povo brasileiro, nunca foi perfeito. Mas nunca esteve tão más condições quanto no governo de Bolsonaro. É uma mistura de projeto, uma vez que se trata de beneficiar a medicina privada, negacionismo científico, emblematizado pela adesão às teorias da conspiração contra as vacinas, e o desprezo pela vida humana, uma característica marcante da visão de mundo da extrema direita.

O bolsonarismo é diretamente responsável pela morte de centenas de milhares de pessoas, durante a pandemia. Enquanto elas morriam, o presidente da República debochava delas. Aquela imagem – de Jair imitando um doente morrendo pela falta do oxigênio não entregava aos hospitais – devia bastar para que qualquer pessoa rejeitasse a continuidade de seu projeto político.

11) Educação

Os Bolsonaro não têm e não gostam.

12) Alimentação 

Sob Jair Bolsonaro, foi revertida a maior conquista dos governos do PT: tirar o Brasil do mapa da fome. Milhões de brasileiros voltaram a não saber se teriam o que comer. Os índices de desnutrição de crianças e adolescentes dispararam. Não foi um caso: foi o espelhamento das prioridades de seu governo.

No seu terceiro mandato, Lula voltou a priorizar a segurança alimentar. É necessário assegurar que não ocorra nova reversão. Qualquer que seja o modelo de país que nós queiramos construir, não pode ter gente passando fome nele.

13) A vida e o futuro de cada brasileiro


O que está em jogo, em suma, é a vida de cada brasileira e de cada brasileiro, por bem mais do que pelos próximos quatro anos. Nós já vimos a força destrutiva de um governo de extrema-direita, já vimos como é custoso desfazer todo mal que é feito.

Com um novo mandato de Lula, nada estará resolvido. Mas teremos espaço para lutar por uma vida melhor, por um país mais justo, por direitos garantidos para todos.

Já com o Flávio Bolsonaro, vamos sofrer um governo contra o povo e contra o país.

Em suma

A escolha não é nada difícil. Lula é o representante de um conjunto eclético de interesses. No seu próximo mandato, assim como no atual e nos anteriores, nada está garantido, mas há espaço para luta, para pressão, para promover avanços. Já Flávio Bolsonaro encarna um projeto de retrocesso em todas as áreas.

A experiência internacional mostra que, quando a extrema-direita retorna ao poder, é mais destrutiva do que quando vence pela primeira vez. No governo de Jair Bolsonaro, resistimos, aos trancos e barrancos, mas resistimos. No há dúvida de que seu filho virá com uma agenda ainda mais radical de destruição dos sistemas de controles e da autonomia das instituições do Estado. Derrotá-lo é a tarefa necessária, indispensável, prioritária.

Daqui

quinta-feira, setembro 03, 2026

Devaneios kiekergaardianos

O Sacrifício de Isaac (Caravaggio) - 1603. 

Certa vez, ao ler uma obra do filósofo dinamarquês Sören Kiekergaard, esbarrei na desassossegada afirmação: “Não consigo entender Abraão”. Essa frase tem feito eco em minha cabeça. Desde que a li, fico a pensar em seu significado. Ela reflete em espelhos côncavos de minha interioridade – “Não consigo entender Abraão”. O que o filósofo existencialista não entendia exatamente? Que detalhe específico da personalidade do patriarca bíblico criava essa inquietante incógnita? 

Em primeiro lugar é importante situar o contexto de onde a sentença é oriunda. Kiekergaard abordava o pedido feito por Deus a Abraão para que Isaque, o filho da velhice do patriarca, fosse oferecido como holocausto no monte Moriá (Gn 22.3). Esse episódio representa o ápice de uma prova imposta a um indivíduo. Biblicamente, Abraão é conhecido como “o pai da fé” (Hb 11.17-19). Kierkegaard o chama de “o cavaleiro da fé”.

O velho patriarca ao manifestar, silenciosamente, a intenção de sacrificar o filho da promessa, revela a incondicionalidade de um problema – os preceitos de uma ética horizontal, portanto, terrena, são substituídos por uma dimensão do singular. Vale mencionar que Isaque era aquele a quem foi feita a promessa. Era, portanto, o filho da velhice, aquele cuja concepção por si só fora um milagre. 

Há aqui uma suspensão dos preceitos das convenções da ética, conforme a conhecemos. Ela suplanta os enquadramentos racionais. Qual pai em sã consciência sacrificaria o próprio filho a fim de satisfazer a um pedido que parecia duvidoso? Na relação com Deus, há uma impossibilidade de tornar essa mesma relação em algo comunicável pela razão. Por isso, a fé ganha um contorno paradoxal. Somente uma fé inquebrantável, assumidamente compromissada com a paixão seria capaz de tal feito. Conforme expressa o próprio Kierkegaard, a fé é o que fica quando todas as outras realidades se esgotam. Ter fé é assumir uma postura radical diante da existência. É um gesto que faz transcender a própria vida. A fé passa a ser uma maneira radical de existir diante de Deus.

A fé carrega um paradoxo, pois Abraão, ao mesmo tempo que obedece a Deus, levando o próprio filho para ser sacrificado, acredita que Isaque, de algum modo, continua a ser o filho da promessa. Diante disso, ela se afasta dos cálculos e previsões à medida que tentamos aprisioná-la. Voa mais alto, enquanto desenhamos asas para apanhá-la. Ela é frágil e potente. Diante da fé, o que resta é o silêncio. Uma decisão que torna o universo um mero espectador. Um palco onde o jogo da própria existência será observado.

Abraão é “o pai da fé”, “o pai de todos aqueles que creem” (Rm. 4.11). Ele é assim denominado, pois carregava a esperança, uma certeza inabalável, uma convicção robusta sobre quem havia feito o pedido.

Também não compreendemos Abraão. A razão não o compreende. É a disposição mais geral sobre o seu procedimento. Não compreendemos, pois não conseguimos medir a dimensão mais radical de sua fé. Isso apenas sugere o quanto resistimos a viver esse compromisso de uma decisão radical. Olhando sob esse ponto de vista, também custa-me entender Abraão. 

 

domingo, agosto 09, 2026

Reflexão sobre o tempo

Fotografia de 2004. 2ª casa onde morei. 


"Caminhar é ir ao oeste".
Henry David Thoreau

Há 47 anos, às 11h15, segundo relatos maternos, eu chorava pela primeira vez. Após ter atravessado uma madrugada transida de dores, minha mãe, finalmente, serenou - eu aportava no mundo. A casinhola onde nasci era rústica. Hoje, já não existe. Ficou apenas o espaço ontológico em minha lembrança. As paredes de reboco de barro cobriam o madeiramento conseguido nas matas adjacentes. A parteira - Dona Bil - segurou-me com mãos prestimosas e experientes.

Há 47 anos, a realidade material surgiu para mim com a sua luz; o ar invadiu-me os pulmões. Fui banhado pelos eventos da matéria. Hoje, encontro-me, praticamente, na metade da travessia. Não há tempo para distrações. Quanto mais caminho, mais me sinto compelido a me entender a partir daquilo que fui ou que deixei de ser, sendo. 

Há 47 anos, experimento o sabor e as implicações daqueles versos céticos de Fernando Pessoa: "Não sou nada / Nunca serei nada/ Não posso querer ser nada / À parte disso, tenho em mim todos os / sonhos do mundo". 

quarta-feira, julho 29, 2026

O apelo à inquietação de "Claro Enigma", de Carlos Drummond de Andrade

 

“Eu quero compor um soneto duro / como poeta algum ousara escrever / Eu quero pintar um soneto escuro, seco, abafado, difícil de ler”.

Drummond, in “Oficina Irritada” – “Claro Enigma”.

Pode-se falar – sem qualquer apelo hiperbólico – que o livro “Claro Enigma” é uma das obras fundamentais da poesia do século XX. Escrito em 1951, é o sétimo livro de Carlos Drummond de Andrade. Sua leitura não é nada fácil. Há alguns poemas complexos como, por exemplo, “A máquina do mundo” ou “Os bens e o sangue”. É possível falar de um hermetismo; o poeta itabirano elabora uma sintaxe comprometida com o rigor, com uma tonalidade austera.  

O livro é dividido em seis partes. Cada parte é encimada por um título, que serve como um itinerário existencial. Quando escreveu o livro, Drummond estava com plenos 49 anos de idade. Era um poeta reconhecidamente engajado. Militara no Partido Comunista. Sobreveio a Segunda Grande Guerra e a desilusão com as tarefas da militância. Durante o conflito que trouxe efeitos danosos para o mundo, o mineiro escreveu o extraordinário “A Rosa do Povo”. Os poemas ali encontrados são urgentes. Explicitam um poeta que pensa o mundo, que sente o mundo, que sofre com a rudeza daqueles que maculam a esperança e o futuro. Há imagens poderosas no livro como a da rosa teimosa que brota do asfalta no antológico “A flor e a náusea”, uma verdadeira ode à esperança e à dialética.

Após a Guerra, o que resta? O assombro, o vácuo, a poeira e o desencanto; talvez, o misto de receio e indiferença. A epígrafe que inicia o livro, é extraída de um poema de Paul Valéry - "Les événements m'ennuient" (“Os acontecimentos me entediam” – ou “me aborrecem”). A ideia de “tédio” está ligada à recusa de observação da possibilidade de escolha ou ao peso repetitivo que impede o tempo de passar. “Tédio” é cansaço, é enfado, é desgosto, que conduz inevitavelmente a uma sensação niilista de incompletude.

Encontramos, assim, nessa perífrase, a marca que assoma a obra. É um aviso. Um leitmotiv. É como se o poeta dissesse ao leitor que a matéria que conduzirá o livro são os temas existenciais, eivados por uma energia morna e melancólica. Uma nuvem sombria impedirá que o sol da esperança brilhe. A esperança é uma força idealista, que surge em momentos de luta. Em “Claro Enigma” a luta não é mais física nem histórica; não há combate ao fascismo como em “A Rosa do Povo”. O combate em “Claro Enigma” é metafísico. Combate-se: o tempo, a memória, a morte, o vazio, a linguagem. A história é palco das descontinuidades, das desagregações.

O primeiro poema do livro é sintomático: já inicia com a palavra “escurece”. A luta – que é a arma dos otimistas – parece ter ficado para trás. “Escurece, e não me seduz / tatear sequer uma lâmpada. / Pois aprouve ao dia findar / aceito a noite”. O dia findou. Chegou a noite e esta é aceita – talvez – indiferente àquilo que surge – a noite com o seu sabor adstringente. O que resta é um corpo desalmado (último verso do poema “Dissolução”); a matéria esfacelada e repleta de vacuidade.

O título “Claro Enigma” é um oxímoro, figura que consiste na oposição lógica de dois termos, fundidos em uma contradição. Como pode haver um enigma em algo que é necessariamente claro? O mistério reside no não luminoso; na penumbra, na ausência de luz. As realizações em “Claro Enigma” são atravessadas pela desconfiança, pelo desassossego. O vazio é uma constante – “Tu não me enganas, mundo, e não te engano a ti / (...) Não deixarei de mim nenhum canto radioso” (poema “Legado”). “A madureza sabe o preço exato / dos amores, dos ócios, dos quebrantos, / e não pode contra sua ciência” (poema “A ingaia ciência”).

 O tempo é uma força que corrói o significado da vida como a água do mar que vai puindo uma rocha. Não há como escapar do silencioso trabalho corrosivo do tempo. A memória, essa dimensão que registra os eventos e que tem as suas pinceladas apagadas pelo soprar tempestuoso da passagem da vida – (...) “Nada pode o olvido / contra o sem sentido / apelo do Não / As coisas tangíveis / tornam-se insensíveis à palma da mão. / Mas as coisas findas / muito mais que lindas, essas ficarão” (poema “Memória”). Ou como a constatação trágica exposta em “Relógio do Rosário” – “... vivendo, / estamos para doer, estamos doendo”. Viver é doer.

Quanto à forma “Claro Enigma” é um livro que chama a atenção. Drummond não somente é disruptivo quanto aos temas trabalhados. Sendo um poeta modernista, ele tensiona essa condição escrevendo alguns dos poemas de “Claro Enigma” utilizando o soneto, uma forma fixa e clássica, que remete a outros momentos da história da poesia. Há nove sonetos no total. Drummond conhecido pelos versos livres (sem seguir um padrão para a quantidade de sílabas poéticas) e pelos versos brancos (versos sem rima), elabora estruturas poéticas com dois quartetos e dois tercetos (forma clássica dos sonetos). Além disso, os versos são alexandrinos (com doze sílabas poéticas). Essa escolha aponta para o fato de que o poeta procurava superar a própria ideia de modernista. Drummond provoca a liberdade criadora do Modernismo, desafiando até que ponto era possível dialogar com a tradição.  

Os temas trabalhados são universais, mas sob uma poética feita de resíduos de um passado e transcendência que resiste ao tempo presente. A utilização desse formato clássico, certamente é uma forma de alargar ainda mais a radicalidade do projeto exposto em “Claro Enigma”. Não há um mero retorno à tradição, uma evocação nostálgica do passado. O poeta recorre a essa estrutura para que a crise moderna seja ainda mais exposta.

quinta-feira, julho 16, 2026

Algumas impressões sobre o romance "Jubiabá", de Jorge Amado

 

“[Antônio Balduíno] Andava pelos dezoito anos mas parecia ter vinte. Era forte e alto como uma árvore, livre como um animal e possuía a gargalhada mais clara da cidade”.

Jorge Amado, in “Jubiabá”

 

Tenho por meta ler integralmente a obra do escritor baiano Jorge Amado. Tenho tentado ler os seus romances em ordem cronológica.  “Jubiabá” é o quarto livro do escritor baiano. Desde os tempos da escola, Amado sempre se mostrou para mim como um escritor que provoca uma relativa sensação de intriga. Sou afeito ao estilo seco e duro de Graciliano Ramos; ou à prosa caudalosa, com cintilações psicológicas bem desenhadas de José Lins do Rego – para mencionar dois outros importantes escritores nordestinos, também pertencentes à Segunda Fase do Modernismo.

O autor de “Jubiabá”, diferentemente dos dois escritores mencionados, escreveu uma literatura muito mais popular. O texto de Graciliano próximo do texto de Amado é “parnasiano”. Graciliano era meticuloso na revisão gramatical e sintática, o que se faz notar no efeito de sua literatura. Amado, por sua vez, utiliza uma lexicografia extraída das camadas mais populares do povo baiano. Isso está de acordo com as intenções que o habitavam na primeira fase de sua literatura, voltada de maneira candente aos temas sociais. Importa ainda mencionar a aproximação com as teses comunistas e ao engajamento assumido pelo escritor.

O próprio Jorge Amado viajou por alguns estados nordestinos, pelo Recôncavo Baiano – e sendo ele ligado às questões da terra (sua família era proprietária de terras onde se plantava cacau) – e um profundo conhecedor das ambivalências pelas quais passava o povo negro soteropolitano. Jorge procura na tradição africana os elementos necessários para compreender a brasilidade.  Jorge Amado projetou as suas lentes para o povo negro, radicado em Salvador, o local do país onde mais se recebeu escravos trazidos da África e, com isso, escancarou uma das faces mais profundas da nossa história. O projeto antropológico de Jorge Amado, emanado de sua literatura, depositado em personagens memoráveis e fortes, é dos mais relevantes para um olhar mais profundo sobre a cultura do Brasil.

Antes de “Jubiabá”, Amado havia escrito “O país do carnaval”, “Cacau” e “Suor”. São livros de enredos ligeiros que, quando comparados a “Jubiabá”, funcionam como exercícios iniciais de escrita. Quando da publicação de “Jubiabá”, Graciliano escreveu para o seu amigo José Lins do Rego sobre o livro de Jorge e disse: “Eu queria saber com que cara o Otávio de Faria (jornalista e escritor) leu aquilo. Há pouco tempo ele disse que Jorge era um literatinho e que não devia meter-se a escrever romance… Enfim, o livro é ótimo. Tão bom, que aqueles documentos inúteis, anúncios de circo etc.…, não o prejudicam. Mesmo com a preocupação de fazer romance de classe, não penso que o livro do Jorge deforme a realidade, como lhe parece”.  O termo “literatinho” talvez tenha sido empregado por causa da ausência de profundidade das personagens criadas por Jorge até aquele momento. Antônio Balduíno, o Baldo, o protagonista do romance é um “Odisseu baiano”. Assim como o herói da obra de Homero, a trajetória transforma-os em sujeitos errantes, ambos são transformados pela viagem e chegam ao final da travessia completamente modificados. Essa é a impressão que fica ao concluir leitura da obra. Sua trajetória faz lembrar aquela explanada por José Lins do Rego em “O moleque Ricardo”, ambientado no Recife. Ricardo saído da bagaceira, procura a cidade grande; enfrenta as agruras, entra na luta sindical e é conduzido à prisão Fernando de Noronha. O Baldo, por sua vez, um moleque negro vive mil vidas no romance e acaba, assim como Ricardo, envolvido na luta coletiva.

O título “Jubiabá” não é dado ao personagem central da obra como poderia ocorrer de maneira intuitiva. “Jubiabá” é o nome que se emprega ao babolirixá, uma espécie de mestre, de conselheiro transcendental de Baldo. Pode-se depreender também que o título certamente é uma homenagem à cultura popular, às religiões de matriz africana, à sabedoria herdada do povo negro. Cheguei a procurar o significado dessa palavra, mas não encontrei. O que se sabe é que personagem teria existido na Bahia. Ou seja, ela é resultado da homenagem do escritor às grandes figuras populares do povo baiano.

O romance possui imagens quase cinematográficas como, por exemplo, quando a personagem se embrenha pelo mato, sendo perseguido de maneira animalesca por sujeitos que procuram a vindita. Outra cena importante é a luta com o boxeador alemão.

“Jubiabá” é um romance com muitas ações do seu personagem principal. Existem questões que surgem em uma primeira leitura. Podem-se citar a título de exemplo:

(1) A luta racial e a identidade negra: Antônio Balduíno é uma figura encantadora. É um herói com mil faces. Ele possui a sina do homem negro. Nascido em um morro. Órfão ainda muito pequeno. Adotado por uma família. Hostilizado pela família por essa mesma família que o adotou.  O mergulho profundo na rotina da rua. Guindado à condição de boxeador. A honra e a derrota. Tudo isso torna-o uma figura sobre a qual estão colocadas as vicissitudes do destino. Sua luta passa pela afirmação de sua identidade de homem negro e marginalizado. Recai sobre ele a insubmissão. Baldo é uma figura múltipla e repleto de habilidades – é um malandro nato; é boxeador; é poeta; é apaixonado; é cangaceiro; é religioso; é órfão; é um homem do povo; é preto; é sindicalista. Desfere golpes contra a  própria vida e contra o próprio destino a fim de continuar a ser quem é. Baldo é um dos primeiros e únicos heróis negros de nossa literatura.  Amaro, personagem homossexual e negro, do romance naturalista “O Bom Crioulo”, de Adolfo Caminha, não pode ser esquecido.   

(2) A desigualdade e a luta de classes: “Jubiabá” é o romance que se insere na fase social ou proletária de Jorge Amado. É patente a tese de que o herói precisa ascender a fim de se envolver no movimento social. O desfecho da existência de Balduíno é o ingresso no movimento sindical. Fica explícito no romance o quanto sua vida é pautada pela exploração. Em todas as relações que ele estabeleceu, há uma força estrutural que o explora, que nega a ele a dignidade para ser. A saída para alguém nessa condição é lutar, é se insurgir; é organizar a resistência contra os donos dos meios de produção. Vale mencionar que, nesse período, Jorge Amado encontrava-se cada vez mais alicerçado no movimento comunista. Outra questão importante a ser mencionada é que “Jubiabá” foi um dos livros de Jorge Amado que mais fizeram sucesso na União Soviética. Lia-se o livro como uma tese em que se pode notar as etapas da ascensão da luta do proletariado. A luta do herói da sociedade de classes ascende até que ele se organize com outros explorados para empunhar a bandeira da revolução.

(3) A forte presença da religiosidade do povo: Estive em Salvador em 2023. Fiquei impressionado com a cidade. Salvador é uma cidade que possui uma energia bem diferente das outras cidades brasileiras. A presença do povo negro se faz por todos os lados. Ou seja, Salvador é um pedaço da África no Brasil. A presença da cultura africana derrama-se pelos vários bairros e pode ser percebida na culinária, nos monumentos, no corpo dos soteropolitanos, nas vestimentas, na ginga do baiano, na religiosidade. Recordo-me que o guia que nos conduziu ao Centro Histórico da cidade afirmou que há mais de mil terreiros em Salvador. Fiquei impressionado com o número. Há mais terreiros do que igrejas católicas. É muito comum, em Salvador, você encontrar alguém que possua um orixá como guia. Essas divindades estão presentes na umbanda e no candomblé. Elas são extraídas da mitologia do povo iorubá (África Ocidental), de onde vieram boa parte dos escravos africanos trazidos ao Brasil. As divindades representam e controlam forças da natureza.   

(4) A formação da consciência político do sujeito histórico: Observa-se que Baldo possui uma trajetória ascendente. A personagem amadurece à medida que a trama se desenvolve. Há nessa estratégia a estrutura de um romance de formação. Balduíno parte da luta pessoal e individual em busca de resistir às intempéries de uma rotina de privações e obstáculos. Todavia, o herói somente conseguirá resolver o seu problema, se entender que os seus problemas e obstáculos são decorrentes de uma estrutura social injusta. O destino do sujeito opresso em uma sociedade desigual e injusta é a formação da consciência de classe. A emancipação passa, necessariamente, pelo entendimento de sua condição. A busca individual dificilmente debela a exploração e desigualdade na sociedade capitalista.

(5) A infância como elemento de reflexão: É relevante afirmar que “Jubiabá” faz lembrar em alguns momentos outro romance amadiano – “Capitães de areia”, de 1937. Alguns dos temas deste romance parecem já esquematizados em “Juabiabá”. O grupo de amigos de Antônio Balduíno que perambula pelas ruas de Salvador faz lembrar o grupo chefiado por Pedro Bala, personagem principal de “Capitães de Areia”. Nesse sentido, Amado reflete sobre o abandono da infância, a paisagem urbana e suas contradições e a solidariedade estruturada entre os marginalizados.

“Jubiabá” é um romance que surpreende pela trama envolvente, pela personagem encantadora, pela forma como retrata os grupos marginalizados, como retrata algumas manifestações do povo – o samba, a capoeira, as festas, a religiosidade, a sensualidade, a oralidade, a valorização da cultura negra. Trata-se de uma obra neorrealista, mas carregada de elementos envolventes. Antônio Balduíno poderia ser o que quisesse, caso não pesasse sobre sobre ele a sina de ser pobre, preto e marginalizado. Era um sujeito com múltiplos talentos.