quarta-feira, fevereiro 18, 2026

"A Normalista", de Adolfo Caminha

 

                Comecei a leitura das 12 obras de literatura brasileira para o ano de 2026, por “A normalista”, do cearense Adolfo Caminha. Em 2022, li “O bom crioulo” do mesmo autor. Estes são seus dois principais romances. O escritor não possui uma obra volumosa, pois faleceu aos 29 anos de idade, vitimado pela tuberculose.

                Adolfo Caminha é daqueles escritores que gostavam de uma boa polêmica. Isso pode ser dito tanto por causa de “A normalista” e, também, de “O bom crioulo”. No primeiro, Caminha desfere um golpe eciano contra a hipocrisia moral da capital cearense; no segundo, aponta para as relações hierarquizadas da Marinha e como a sociedade carioca tratava os diferentes. No caso em questão, Amaro, é um ex-escravo, marinheiro e homossexual.

                Caminha sentiu os efeitos da famosa Seca de 1877 em seu estado. Ficou órfão da mãe quando tinha dez anos de idade. O peso dessa intempérie ficou em seu imaginário. Em “A normalista”, a personagem principal, Maria do Carmo, também perde a mãe para a terrífica seca, que assolou o estado. Esse evento geofísico criou um movimento fenomênico no imaginário dos intelectuais cearenses. Essa força parece influenciar até mesmo intelectuais do século XX. Por exemplo, o famoso primeiro romance de Rachel de Queirós – “O quinze” -, de 1930, inscreve-se nesse lastro realista. Apesar de a escritora não retratar a seca de 1877; mas a seca de 1915. Mesmo havendo o afastamento de quase quarenta anos, o drama parece ser cíclico.

                Caminha, apesar do pouco tempo de que dispôs e da vida agitada,  diferentemente de outros escritores do seu tempo, não era alguém de posses. Durante algum tempo, esteve na Marinha. Acabou saindo por divergências. Depois, assumiu um cargo menor no funcionalismo graças aos arranjos e conformações políticas. Sua literatura era produzida nesses intervalos. Colocou em evidência as duas cidades onde mais viveu – Fortaleza e Rio de Janeiro.

                “A normalista” é daqueles romances naturalistas que possuem um esquema já conhecido – linguagem objetiva, visão determinista, zoomorfização, racionalismo e cientificismo. O cearense pode ser colocado ao lado de escritores como Aluísio Azevedo, Júlio Ribeiro, Rodolfo Téofilo, Inglês de Sousa e Raul Pompéia como um dos grandes dessa escola.

                No livro de 1893, Caminha descreve os descalabros das relações com um pessimismo inquestionável contra a capital do seu estado. O escritor parece realizar um acerto de contas por causa da relação clandestina que teve com uma mulher casada. Em uma cidade provinciana e conservadora, a crítica lhe causou desconforto. Essa mesma cidade preocupada com os valores morais alheios acobertava contradições. Ou seja, quem se preocupava com o comportamento alheio, não olhava para as próprias ações, para as próprias contradições. É nesse cadinho de misérias morais, que Caminha conta a história de Maria do Carmo e de como seu padrinho João da Mata a engravidou, enredando-a. Fortaleza é retratada como um palco de sordidez, de vícios torpes, apesar de não se perceber.

                A sociedade burguesa para Caminha é um espaço onde os jogos de aparência possuem uma dinâmica hipócrita. Nessa sociedade de moral rígida, consolidada por uma religiosidade de fachada, adultérios, golpes, exploração e dominação acontecem sem constrangimentos. A força é imperiosa e coercitiva, sobretudo sobre os mais fracos – mulheres e negros. A sexualidade feminina é tratada como um perigo social. Todavia, esses desejos reprimidos aparecem como força natural irreprimível.  Nessa mesma sociedade, a honra da mulher é tratada como um patrimônio da família.

                Com essas críticas – entre outras -, Caminha denuncia o provincianismo pequeno-burguês da elite citadina do seu tempo. Nessa sociedade, as fofocas existem como um uma tônica comum. Essa prática é alicerçada pela superficialidade e faz do indivíduo um alguém imensamente pequeno diante da força que o jogo social tem sobre ele.  

               

sexta-feira, janeiro 16, 2026

Na hora da almoço - de Belchior


No centro da sala, diante da mesa
No fundo do prato, comida e tristeza
A gente se olha, se toca e se cala
E se desentende no instante em que fala
Medo, medo, medo

Cada um guarda mais o seu segredo
Sua mão fechada, sua boca aberta
Seu peito deserto, sua mão parada
Lacrada e selada e molhada de medo
Medo, medo, medo

Pai na cabeceira: é hora do almoço
Minha mãe me chama: é hora do almoço
Minha irmã mais nova, negra cabeleira
Minha vó reclama: é hora do almoço, moço, moço, moço

E eu ainda sou bem bem moço pra tanta tristeza
Deixemos de coisas, cuidemos da vida
Se não chega a morte ou coisa parecida
E nos arrasta moço, sem ter visto a vida
Ou coisa parecida, ou coisa parecida
Ou coisa aparecida

 

domingo, janeiro 11, 2026

Meus 20 concertos para piano favoritos.

Marc-Andre Hamelin em concerto com a Osesp

A palavra "concerto" tem a sua origem na palavra "concertare", cujo significado é "competir", "combater", dando a entender que a ideia de concerto existe em torno de uma disputa. A origem remonta o século XVII. O "Concerto grosso" ("concerto grande"), surgido nesse período, com um pequeno grupo de solistas, buscava contrapor esse mesmo grupo  à orquestra. Houve uma evolução desse formato para - apenas - um solista, fosse ele violinista, violista ou pianista. No Barroco, nomes como Vivaldi e Corelli são fundamentais para essa evolução. No Classicismo, esse formato tornou-se cada vez mais popular e acabou sendo usado por vários compositores - entre eles, Haydn e Mozart.

As características do "concerto" clássico procuravam reproduzir a forma-sonata. Ou seja, um primeiro movimento rápido; um segundo lento; e um terceiro rápido. O solista é seguido por uma orquestra completa, uma orquestra de cordas ou um conjunto de câmara. A partir da ascensão de um solista, passou a existir a necessidade do virtuosismo. No Romantismo, essa expressão recai sobre a capacidade quase trascendente daquele que interpreta. O instrumento - o piano, o violino etc - dá ao solista gestos quase heroicos no momento em que fica sozinho, mergulhado em funda introspecção. 

Tudo o que estou a falar aqui é simplório e sintético. A história do concerto possui muito mais elementos do que esses que estou a refletir de maneira rápida. O meu objetivo com essa postagem é revelar quais são os meus concertos para piano favoritos. Acabei por selecionar vinte. Fazer essa seleção não foi fácil, pois há compositores com mais de um concerto. Por exemplo, Mozart escreveu 27; Prokofiev, 5; e, Beethoven, 5. Outra: não escolhi mais de um obra por compositor. 

Seguem as obras:

(1) Beethoven- Concerto No. 4;

(2) Brahms - Concerto No. 2;

(3) Liszt - Concerto No. 1;

(4) Tchaikovsky - Concerto No. 1;

(5) Mozart - Concerto No. 26;

(6) Ravel - Concerto para piano, M. 83; 

(7) Grieg - Concerto para piano, Op. 16; 

(8) Shostakovich - Concerto No. 2;

(9) Schumann - Concerto para piano, Op. 54

(10)  Schoenberg - Concerto para piano, Op. 42

(11) Camille Saint-Saëns - Concerto No. 2;

(12) Dvorak - Concerto para piano, Op. 33;

(13) Villa-Lobos - Concerto No. 1; 

(14) Samuel Barber - Concerto para piano, Op. 38

(15) Chopin - Concerto No. 2;

(16) Prokofiev - Concerto No. 1; 

(17) Bartok - Concerto No. 1;

(18) Rachmaninov - Concerto No. 3;

(19) Paderewski - Concerto para piano, Op. 17

(20) Glazunov - Concerto No. 2. 

P.S1: A lista encontra-se no Spotify

P.S2. A lista acima não segue uma hierarquia. Simplesmente, fui elecando à medida que lembrava. 

sexta-feira, janeiro 02, 2026

Os 10 melhores filmes que vi em 2025

Iniciei 2025 com a intenção de assisti a setenta filmes. Não alcancei meu intento. Acabei me perdendo em algum momento. Em meio às sucessivas exigências da rotina, quando dei por mim já era o mês de agosto. Acho que vi pouca coisa entre abril e julho. Costumo colocar a lista dos filmes vistos aqui no blog. Mas até isso deixe de fazer. Anotei alguns nomes em minha agenda. O resultado foi que devo ter visto algo em torno de cinquenta filmes. Não alcancei o meu objetivo; todavia, vi boas produções. Em 2026, farei um esforço para ser diligente.

Escolhi dez filmes, mas, inicialmente, selecionei mais que isso. Alguns filmes não entraram na lista por muito pouco. Elenco aqui cinco que deveriam ter entrado, mas que acabei não colocando: "Veludo azul" (1986), de David Lynch; "A verdadeira dor" (2024), de Jesse Eisenberg;  "O céu de outubro" (1999), de Joe Johnston;  "Julieta dos espíritos" (1965), de Federico Fellini; e "O aprendiz" (2024), de Ali Abbasi.

Abaixo, segue a lista com os 10 melhores filmes que vi em 2025. 

(1) "Noites de Cabíria" (1957). Federico Fellini
(2) "Conclave" (2024). dir. Edward Berger
(3) "Ainda estou aqui" (2024). dir. Walter Salles
(4) "O sabor da vida" (2023). dir. Trân Anh Hùng
(5) "A garota da agulha" (2024). dir. Magnus von Horn
(6) "Sonhos de Trem" (2025). dir. Clint Bentley
(7) "Folhas de Outono" (2023). dir. Aki Kaurismäki
(8) "Um completo desconhecido" (2024). dir. James Mangold
(9) "No lugar da outra" (2024) dir. Maite Alberdi
(10) "O filho de mil homens" (2025) dir. Daniel Rezende

 

quinta-feira, janeiro 01, 2026

O cinema em 2026 - Michelangelo Antonioni

Começamos 2026 pensando a respeito do diretor o qual visitaremos. Após a seleção do nome, doze filmes são escolhidos para serem vistos ao longo do ano. Ano passado, o nome da vez foi o icônico Federico Fellini. Foi uma revelação. Dois dos filmes da lista eu já havia visto - "Noites de Cabíria" e "8 1/2". Os demais foram descobertas extraordinárias como, por exemplo, "Amacord", "Os boas vidas", "Julieta dos espíritos" e "A cidade das mulheres". A tônica felliniana da atmosfera onírica e da alegria cincerse foram características observáveis em cada obra. Algumas das produções exigiram uma noção de totalidade do que representa a obra do diretor. Se alguém quiser assistir a alguma dessas produções - não estando acostumado com cinematografia do diretor -, certamente não terá paciência e abandonará o filme. Fellini se entende, captura-se no detalhe. O exemplo mais elementar disso que estou a falar é "8 1/2". É preciso muita atenção e sensibilidade para arrematar-lhe as referências metafóricas e metalinguísticas. 

Para 2026, cogitei alguns nomes - Antonioni, Scorsese, Francis Ford Copolla, Kubrick. Sem muitas reflexões e deferências, saquei o nome do italiano Michelangelo Antonioni. Como já relatei em anos anteriores, tudo começou em 2020. Naquele ano, escolhemos alguns dos filmes de Tarkovsky. Repeti a experiência no ano seguinte. Nos anos anteriores, vieram as seguintes escolhas: Ingmar Bergman (2021); Akira Kurosawa (2022) - uma das experiências estéticas mais bonitas da minha vida; Luis Buñuel (2023); François Truffaut (2024); e Federico Fellini (2025). 

Existe uma curiosidade sobre Antonioni: ele morreu no mesmo dia em que morreu Ingmar Bergman - 30 de julho de 2007. É uma coincidência do tempo ou uma trama da eternidade? Dois gênios que se ausentam do mundo que eles ajudaram a decifrar. 

Os doze filmes do diretor para 2026 são os seguintes (sempre na cota de um por mês):

(1) Blow - Up - depois daquele beijo

(2)  O grito

(3) A aventura

(4) O eclipse

(5) A noite

(6) As amigas

(7) Deserto vermelho

(8) Profissão: repórter

(9) Identificação de uma mulher

(10) Crimes da alma

(11) Amores na cidade

(12) Zabrieski Point 

Como planejo todos os anos, a meta para 2026 é assistir a 70 filmes (no mínimo). Ano passado, acabei me perdendo. Parei de catalogar. Talvez, não tenha conseguido alcançar os 70 pretendidos, mas vi uns 50 - está ótimo!

Vamos começar:

1 -

2 - 

3 -

4 -

5 -

6 -  

 

 

segunda-feira, dezembro 29, 2025

"Suíte Tóquio", de Giovana Madalosso

 

Terminei a leitura do livro "Suíte Tóquio", de Giovana Madalosso. Já o conhecia de nome, antes de sair uma propalada lista feita pelo jornal estadunidense "New York Times". O famoso jornal fez uma lista com os cem melhores livros lançados em 2025. Foi o único livro de um escritor brasileiro que figurou na lista. Senti-me estimulado a lê-lo. Deve ser ressaltado que o livro não foi publicado em 2025. Se não estou enganado, a publicação ocorreu em 2020. A explicação: o livro ganhou uma edição em inglês somente em 2025.

Admito que há em mim uma presumida dificuldade em ler essa safra nova de escritores brasileiros. Percebo que as histórias gravitam em torno de temas que surgem como “lacrações". Portanto, sempre os evito. Fico com os clássicos. O erro nunca se consuma. É certeiro. Mas, por outro lado, penso que é importante lê-los.

 Confesso que o livro é bom e bem escrito. Surpreendeu-me, embora ainda possua passagens em que certos termos como “bu**eta" ou “f**er" surjam, o que gerou em mim um esgar de cansaço, de lábio contrafeito; todavia, segui a leitura. Outra: acompanho as colunas da escritora Giovana Madalosso, no jornal Folha de São Paulo. Seus textos abordam comportamentos, sexualidade, costumes e temas políticos. Ela é hábil com o vernáculo. Giovana é jornalista e roteirista de cinema. Ela sabe estruturar personalidades; formatar personagens.

Em “A Suíte Tóquio", Giovana utiliza um recurso que demonstra inteligência: há duas vozes narrativas, duas mulheres com histórias, valores e situações socioeconômicas bem distintas – Fernanda e Maju. A primeira é uma mulher bem-sucedida em sua profissão. Trabalha como diretora de documentários e programas televisivos. Sua profissão vem em primeiro lugar. Encarna o arquétipo do paulista, aquela entidade que vive para o trabalho; que cisma em correr, a comer mal; que procura ser o verdadeiro emblema da produtividade. Maju, por sua vez, é uma empregada doméstica. Trabalha a mais de trinta anos nessa profissão. Seu sonho é ter um lar feliz; ter uma família, ser mãe. Ela inicia a história a afirmar que está raptando a filha da patroa - Cora ou Ana.

Desse começo aparentemente banal, despropositado, o leitor é empurrando para uma narrativa ágil, desenvolta, repleta de pimentas reflexivas. O que fica é uma narrativa oportuna. A leitura segue fácil, em lances desenvoltos. Durante boa parte do livro, eu fiquei com uma impressão de desconfiança. Entretanto, quando se chega ao cabo do livro, a impressão da totalidade acaba por dar à história uma impressão afirmativa. Giovana utiliza elementos sutis para sugerir alguns debates. Por exemplo, o papel da maternidade em uma sociedade preocupada com a produtividade. A posição elitista, de indiferença das famílias ricas, que desconsideram as histórias das pessoas que estão próximas. A relação de descarte para com aqueles que são diferentes. O nome do livro – “Suíte Tóquio” – é resultado da sugestão de Fernanda. Para que Maju não tivesse folga e fosse para casa a cada quinze dias, ela permite que a empregada receba o namorado nesse cubículo a que ela nomeia dessa forma – é uma “suíte” pela finalidade; e é “Tóquio” por ser pequena.  É a atualização, a modernização das senzalas. Giovana, por sua vez, não é impositiva ao sugerir esses temas para debate. Ela consegue criar um verniz de leveza, apesar dos temas fundamentais.

Escutei uma entrevista da escritora em que ela fala que foi bem fácil criar a personagem Fernanda. De certa forma, é uma mulher cujos valores são os mesmos da escritora. O problema foi criar a personagem Maju; construí-lhe uma psicologia; demandas existenciais. A escritora informou que viajou de ônibus, perfazendo o percurso que a personagem Maju realiza em certa passagem da história. Viajou para o Acre a fim de se apropriar das características da Floresta Amazônica.

Por fim, foi bom ter conhecido o texto bem escrito de Giovana

segunda-feira, dezembro 22, 2025

Algumas palavras sobre Lima Barreto e o seu romance "Numa e a Ninfa"

 

Lima Barreto foi um escritor marginal. Um observador que construiu ironias implacáveis em desfavor de certos grupos políticos e de liderança do país. Pode-se afirmar que, no início do século XX (período em que o escritor viveu), o Brasil passava por transformações estruturais. O Rio de Janeiro, por exemplo, a capital do país, modernizava-se. Buscava uma adequação. A cidade se europeizava. As lideranças políticas queriam transformá-la em uma espécie de Paris dos trópicos. Uma demonstração evidente de subserviência, uma característica tão comum às elites do país.

            O prefeito da cidade, Francisco de Pereira Passos, que também era engenheiro, resolveu implementar uma reforma que daria feições mais modernas à Capital. Morros foram aplainados. Os moradores que ali residiam, viram-se sem moradia. Foram expropriados.  Alguns dos arranjos que existem atualmente no Rio de Janeiro, tiveram início nesse período. Regiões inteiras foram aterradas. Avenidas foram construídas; outras, alargadas. Era necessário criar uma cidade nova, pujante, atualizada com o espírito da época. O objetivo era criar uma belle époque dos trópicos em um país que procurava esconder o seu passado.  

            O embelezamento era apenas superficial, pois o Brasil continuava desigual, injusto, violento, com sua grande população de mestiços vivendo um processo de marginalização. As lideranças do país eram tacanhas e vazias. O mais importante eram os gestuais; a ostentação, a fatuidade, o jogo de aparências, de conveniências. Essas lideranças faziam um país de rábulas, de títulos; de compadrios e analfabetismo funcional. Lima Barreto era um personagem atento a esse espetáculo mambembe e prosaico.

            Passados vinte anos do Golpe da Proclamação da República e da Abolição da Escravatura, o Brasil continuava violento, pobre e agrário. As oligarquias que mandavam no país procuravam esconder a realidade miscigenada, responsável pelos raízes mais profundas da identidade nacional. O próprio gesto de expulsar a população negra do Centro do Rio de Janeiro sugere isso. Muitos dos prédios do centro da cidade seguem padrões arquitetônicos dos europeus. A partir dessa perspectiva, que encontramos a literatura de Afonso Henriques de Lima Barreto, um escritor mulato, assim como fora Machado de Assis.

            A diferença dos dois reside no fato de que Machado procurou aproximar-se das elites - e conseguiu. Ou seja, os passos de Machado, que também nasceu em um subúrbio, foram bem mais venturosos. Conheceu as pessoas certas; estava no lugar certo, embora seu talento seja incontestável. Lima, por sua vez, apesar do inegável talento literário, não granjeou a mesma sorte. Lima é a voz do subúrbio que vocaliza a respeito do centro. Trata-se de uma visão centrípeta. Essa voz não é constrangida por pejos. Ela é mordaz; sardônica. Seus opositores tratam o escritor com indiferença. É conhecido o episódio que envolve a tentativa do grande escritor de ingressar na Academia Brasileira de Letras. Houve duas efetivas tentativas. Uma terceira não foi levada à frente, pois o escritor retirou-a. Os motivos eram óbvios – e estavam pautados no físico – a cor da pele do intelectual mulato. Certamente, Lima era um dos maiores entre os escritores dos vinte primeiros anos do século XX. Ele foi preterido por dois motivos certamente – (1) sua origem – era um homem de origem humilde, suburbano; (2) sua cor – apesar oficialmente não existir escravidão, a cor da pele do escritor estava tatuada por uma maldição histórica. É diante desse cenário que Lima escreve o seu terceiro romance, “Numa e a Ninfa”.

            O livro é um dos quatro romances escritos pelo escritor carioca. Dos quatro, é (no meu humilde ponto de vista) o que menos possui brilho. As circunstâncias em que foi escrito, talvez, tenha contribuído para essa característica. O professor Antônio Arnoni Prado diz que é “de menor notação inventiva". O próprio Lima testemunha a respeito da contingência que o cercava: “O Numa e Ninfa foi escrito em vinte e cinco dias, logo que saí do hospício". Seu texto foi escrito em outubro de 1914. Lima estava precisando de dinheiro. O dinheiro veio a conta gotas. Não era a forma que o escritor queria.

            Diante do irremediável, Lima constrói uma história que procura caricaturar os personagens políticos da República Velha. Não se sabe se o pior é o mundo real ou a história ficcionalizada. Tal como na história, o Brasil é um terreno fértil para incursões arrivistas, corrupção e degradação moral de sua elite. Um exemplo é Numa, o personagem central da história. Sem qualquer relevância ou traço que o distinga, Numa, por intermédio de pistolões, consegue se tornar doutor e juiz, sem ter nenhuma predileção pelos livros. Talvez, fosse semiletrado. Seu grande objetivo era se tornar influente; subir na escadaria das influências, o que quase sempre vem acompanhado de poder. Para sacramentar essa ascensão que o conduzia por uma escadaria social, ele consegue um casamento arranjado, por interesse, que torna suas intenções materializáveis. Acabou se tornando presidente do Estado.

            Apesar do aspecto caricaturesco da personagem e a dinâmica política que a envolvia, a personagem personificava os representantes políticos da República Velha. Fato que ainda eleva a degradação moral é presença de sua esposa, Edgarda. Ela é responsável por produzir os discursos que o marido, uma eminência parda, vocaliza no Parlamento. A respeitabilidade que o marido consegue fazia parte de um jogo de aparências; era algo meramente artificial. Ela é identificada com uma ‘ninfa', personagens femininas da mitologia grega, geralmente, associadas à juventude e à beleza. Edgarda era a mulher que articulava os bastidores. Alguém que conseguia manipular situações e tirar proveito de acontecimentos quaisquer.

            O que impressiona nesse romance do escritor de “O Triste fim de Policarpo Quaresma" é a atualidade. Nesse sentido, pode-se afirmar sem medo que Lima é um escritor atemporal. Nossas misérias sociais e políticas continuam as mesmas. Caso vivesse em nosso tempo, o escritor teria motivos para escrever com o mesmo teor. Olhar, por exemplo, para o Congresso Nacional brasileiro nos permite ter um vislumbre de nossa mediocridade. O Brasil paga um preço altíssimo pela ignorância política do seu povo. A ignorância por aqui não é uma fatalidade; é um projeto. É curioso como os mesmos ímpetos políticos, o mesmo arrivismo, o desrespeito com a ‘coisa pública' continua a ser um projeto, um vício insuperável de uma elite faminta. 

 

quarta-feira, outubro 22, 2025

"A alma encantadora das ruas", de João do Rio

 

"Se as ruas são entes vivos, as ruas pensam, têm ideias, filosofia e religião”.

João do Rio, in “A alma encantadora das ruas”.

 

                Durante certo tempo, alimentei um preconceito pueril, talvez, baseado em notícias propaladas pela mídia, de que o Rio de Janeiro era uma cidade caótica, babélica, sem quaisquer atrativos. Além disso, posso acrescentar que os atributos expansivos do carioca, causavam-me certa indisposição. Imaginava que o logro era o esporte favorito do carioca. Afirmava em minha aguda ignorância que o Rio de Janeiro seria o último lugar do país onde poria os pés. Meu radicalismo não permitia a admissibilidade de qualquer concessão.

                Em 2024, o que parecia impraticável acabou por se realizar. Passei cinco dias na cidade. Um tempo curto para averiguar, para flanar (uma francofilia muito usada por João do Rio) pela cidade. Fui a alguns locais importantes: Forte de Copacabana, Confeitaria Colombo, Museu do Amanhã, Pão de Açúcar, Cristo Redentor, à Academia Brasileira de Letras; caminhei pelo Centro histórico, lá tive a oportunidade de visitar o Gabinete Real de Leitura Português. Ainda ficou a sensação de que o Rio era uma cosmopólis, um local em que a história do país caminha ao seu lado; observa os seus passos. Em todos os bairros, há uma sensação de que uma personagem da cultura ou da política espreita você. As ruas e avenidas possuem nomes que fazem ecoar o passado como, por exemplo, o Bairro do Cosme Velho, local famoso por ter sido o bairro em que Machado de Assis viveu boa parte da sua vida; ou a famosa Rua do Ouvidor, um dos locais mais famosos e febricitantes das primeiras décadas do século XX. Ainda é possível encontrar a presença do Rio de Janeiro antigo na Rua do Ouvidor. Infelizmente, não fui até lá, apesar de ter me programado. O tempo foi insuficiente.

                Quando voltei do Rio, uma mutação havia se dado em mim – ainda bem. Os conceitos pequenos e apressados os quais eu possuía foram pulverizados pela certeza de que necessito voltar à cidade para uma nova incursão. Essa convicção se tornou mais patente após ler o indescritível “A alma encantadora das ruas”, de João do Rio. O livro reúne textos do autor sobre a cidade do Rio de Janeiro da primeira década do século XX. O Brasil era um país novo, governado por militares; monocultor, agrário, com uma população majoritariamente analfabeta; um país cuja fundação passava pela mistura de povos. O Brasil procurava se encontrar, modernizar-se. Afirmar a sua identidade. Daqui, olhava-se para a Europa, uma referência incontestável para as elites urbanas letradas. O próprio João do Rio era alvo dessa influência. O epíteto João do Rio, talvez, seja influência do nome “Jean de Paris”, que o escritor carioca encontrou em uma das suas viagens à capital francesa, tendo tomado de empréstimo o epíteto.

                O fato é que Paulo Barreto – o nome de batismo de João do Rio – era um indivíduo talentoso e que fez a sua fama no jornalismo.  Ele consolidou um estilo de jornalismo ambientado em locais, personagens do povo; em acontecimentos aparentemente banais. Seu estilo irônico em alguns momentos; realista ao extremo em outros, desenha as cores da cidade. Ele abre o texto do livro - crônica “A rua” -, com uma afirmação seca, direta, sem maneirismos, revelando o “amor” “absoluto” e “exagerado” que alimentava: “Eu amo a rua”. É assim, sem pudores, limpidamente, que ele declara, como se estivesse a justificar tudo o que vai ser lido nas 27 crônicas que povoam o livro.

                O escritor nasceu, em 1881, na cidade que tanto amou; morreu jovem, às vésperas de completar 40 anos de idade, em 1921. Caso tivesse vivido um pouco mais, teria testemunhado revoltas e a transformação da cidade. Antes mesmo que os intelectuais de 1922 lançassem seus manifestos, João do Rio já modernizava a prosa. O país com suas contradições estava presente em seus textos, pois João do Rio já era moderno antes dos modernistas. Luiz Antonio Simas afirma que “João do Rio é o escritor das encruzilhadas”. Ao afirmar isso, Simas chama a atenção para o fato de que os textos de João partem sempre de uma perspectiva da cidade que se vê e daquela que é ignorada, que fica em um plano secundário. E, talvez, nesse fato resida a maior qualidade dos seus textos: dar visibilidade àqueles fatos ignorados que constituem a cidade, a rua. Como ele dizia – “a rua tem alma”. A rua afirma o tempo todo; ela declara suas incongruências; perfila seus atores, seus exageros, suas vilanias, mas sua poesia também. “Há ruas honestas, ruas ambíguas, ruas sinistras, ruas nobres, delicadas, trágicas, depravadas, puras, infames, ruas sem história, ruas tão velhas que bastam para contar a evolução de uma cidade inteira, ruas guerreiras, revoltosas, medrosas, spleenéticas, snobs, ruas aristocráticas, ruas amorosas, ruas covardes, que ficam sem pinga de sangue...”

                João do Rio era um homem que “flanava” pela cidade. Para ele, só era possível se apropriar dos distúrbios mais comezinhos da rua, caso a alma que deseja entendê-la, materializasse as implicações necessárias desse verbo. Ele mesmo explica: “Que significa flanar? Flanar é ser vagabundo e refletir, é ser basbaque e comentar, ter o vírus da observação ligado ao da vadiagem. Flanar é ir por aí, de manhã, de dia, à noite, meter-se nas rodas da populaça, admirar o menino da gaitinha ali na esquina, seguir com os garotos o lutador do Cassino vestido de turco, gozar nas praças os ajuntamentos defronte das lanternas mágicas , conversar com os cantores de modinha das alfurjas da Saúde, depois de ter ouvido dilettanti de casaca aplaudirem o maior tenor do Lírico numa ópera velha e má; é ver os bonecos pintados a giz nos muros das casas, após ter acompanhado um pintor afamado até a sua grande tela paga pelo Estado; é estar sem nada e achar absolutamente necessário ir até um sítio lôbrego, para deixar de lá ir, levado pela primeira impressão, por um dito que faz sorrir, um perfil que interessa, um par jovem cujo riso de amor causa inveja”.

                O escritor começou cedo no jornalismo. Atuou por mais de vinte anos na profissão. Fundou o seu próprio jornal – A Pátria. Alcançou fama ainda em vida. Era bastante conhecido na cidade do Rio de Janeiro. Viajou mais de uma vez para a Europa. Vestia-se à maneira de um dândi. Era um Oscar Wilde tropical. Inclusive, chegou a traduzir obras do escritor inglês – a peça dramática do escritor Salomé é um exemplo. Essa aproximação com o estilo wildeiano alimentava polêmicas. Ele parecia ignorá-las. Para além disso, repousava o fato de ele ser homossexual – embora, de fato, nunca tenha assumido que o era. Tentou por duas vezes ingressar na Academia Brasileira de Letras – a primeira em 1907; tendo conseguido na segunda tentativa, em 1910.

                O livro “A alma encantadora das ruas” é um estudo etnográfico sobre o significado da rua. O livro é dividido em um movimento – (1) O que se vê na rua; (2) Três aspectos da miséria; e (3) Onde às vezes termina a rua. Para João do Rio, tudo se transforma em um texto que acaba por declarar o que é a cidade. Os tatuadores, as orações do povo; as pinturas e os dizeres da rua; as tabuletas que indicavam os endereços; a religiosidade do povo; os trabalhadores da estiva; os moradores de rua; as mulheres mendigas; as crianças que moravam nas ruas. Ele constrói uma visão bastante generosa a respeito dos seres inviabilizados no espaço social.

O escritor costumava visitar os espaços e instituições da cidade. Um famoso exemplo é a ida às prisões. Nesses espaços, ele procurava entender o que levava aqueles homens e mulheres a estarem naquele espaço. Ele observava: os crimes passionais; aqueles que ficavam nas galerias superiores; como era o dia de visita; como viviam as mulheres detentas.

O livro é necessário, pois nos permite a constituição de um olhar completamente novo para as cidades; ou seja, o espaço urbano em que vivemos. O Brasil do século XXI, é bem diferente do Brasil de João do Rio. As cidades se agigantaram. Todavia, mesmo com essas mudanças incontornáveis, as ruas possuem uma mística que suplanta o tempo. Ele mesmo afirma: “a rua é um fator da vida das cidades”. É sua face mais real; a artéria por onde corre a sua vida.

Para aprofundar meus conhecimentos sobre o autor carioca, comprei o livro “João do Rio – Vida, paixão e obra”, de João Carlos Rodrigues. A leitura já foi iniciada.