“[Antônio Balduíno] Andava pelos dezoito anos mas parecia ter vinte. Era forte e alto como uma árvore, livre como um animal e possuía a gargalhada mais clara da cidade”.
Jorge Amado, in “Jubiabá”
Tenho por meta ler integralmente a obra do escritor baiano Jorge Amado. Tenho tentado ler os seus romances em ordem cronológica. “Jubiabá” é o quarto livro do escritor baiano. Desde os tempos da escola, Amado sempre se mostrou para mim como um escritor que provoca uma relativa sensação de intriga. Sou afeito ao estilo seco e duro de Graciliano Ramos; ou à prosa caudalosa, com cintilações psicológicas bem desenhadas de José Lins do Rego – para mencionar dois outros importantes escritores nordestinos, também pertencentes à Segunda Fase do Modernismo.
O autor de “Jubiabá”, diferentemente dos dois escritores mencionados, escreveu uma literatura muito mais popular. O texto de Graciliano próximo do texto de Amado é “parnasiano”. Graciliano era meticuloso na revisão gramatical e sintática, o que se faz notar no efeito de sua literatura. Amado, por sua vez, utiliza uma lexicografia extraída das camadas mais populares do povo baiano. Isso está de acordo com as intenções que o habitavam na primeira fase de sua literatura, voltada de maneira candente aos temas sociais. Importa ainda mencionar a aproximação com as teses comunistas e ao engajamento assumido pelo escritor.
O próprio Jorge Amado viajou por alguns estados nordestinos, pelo Recôncavo Baiano – e sendo ele ligado às questões da terra (sua família era proprietária de terras onde se plantava cacau) – e um profundo conhecedor das ambivalências pelas quais passava o povo negro soteropolitano. Jorge procura na tradição africana os elementos necessários para compreender a brasilidade. Jorge Amado projetou as suas lentes para o povo negro, radicado em Salvador, o local do país onde mais se recebeu escravos trazidos da África e, com isso, escancarou uma das faces mais profundas da nossa história. O projeto antropológico de Jorge Amado, emanado de sua literatura, depositado em personagens memoráveis e fortes, é dos mais relevantes para um olhar mais profundo sobre a cultura do Brasil.
Antes de “Jubiabá”, Amado havia escrito “O país do carnaval”, “Cacau” e “Suor”. São livros de enredos ligeiros que, quando comparados a “Jubiabá”, funcionam como exercícios iniciais de escrita. Quando da publicação de “Jubiabá”, Graciliano escreveu para o seu amigo José Lins do Rego sobre o livro de Jorge e disse: “Eu queria saber com que cara o Otávio de Faria (jornalista e escritor) leu aquilo. Há pouco tempo ele disse que Jorge era um literatinho e que não devia meter-se a escrever romance… Enfim, o livro é ótimo. Tão bom, que aqueles documentos inúteis, anúncios de circo etc.…, não o prejudicam. Mesmo com a preocupação de fazer romance de classe, não penso que o livro do Jorge deforme a realidade, como lhe parece”. O termo “literatinho” talvez tenha sido empregado por causa da ausência de profundidade das personagens criadas por Jorge até aquele momento. Antônio Balduíno, o Baldo, o protagonista do romance é um “Odisseu baiano”. Assim como o herói da obra de Homero, a trajetória transforma-os em sujeitos errantes, ambos são transformados pela viagem e chegam ao final da travessia completamente modificados. Essa é a impressão que fica ao concluir leitura da obra. Sua trajetória faz lembrar aquela explanada por José Lins do Rego em “O moleque Ricardo”, ambientado no Recife. Ricardo saído da bagaceira, procura a cidade grande; enfrenta as agruras, entra na luta sindical e é conduzido à prisão Fernando de Noronha. O Baldo, por sua vez, um moleque negro vive mil vidas no romance e acaba, assim como Ricardo, envolvido na luta coletiva.
O título “Jubiabá” não é dado ao personagem central da obra como poderia ocorrer de maneira intuitiva. “Jubiabá” é o nome que se emprega ao babolirixá, uma espécie de mestre, de conselheiro transcendental de Baldo. Pode-se depreender também que o título certamente é uma homenagem à cultura popular, às religiões de matriz africana, à sabedoria herdada do povo negro. Cheguei a procurar o significado dessa palavra, mas não encontrei. O que se sabe é que personagem teria existido na Bahia. Ou seja, ela é resultado da homenagem do escritor às grandes figuras populares do povo baiano.
O romance possui imagens quase cinematográficas como, por exemplo, quando a personagem se embrenha pelo mato, sendo perseguido de maneira animalesca por sujeitos que procuram a vindita. Outra cena importante é a luta com o boxeador alemão.
“Jubiabá” é um romance com muitas ações do seu personagem principal. Existem questões que surgem em uma primeira leitura. Podem-se citar a título de exemplo:
(1) A luta racial e a identidade negra: Antônio Balduíno é uma figura encantadora. É um herói com mil faces. Ele possui a sina do homem negro. Nascido em um morro. Órfão ainda muito pequeno. Adotado por uma família. Hostilizado pela família por essa mesma família que o adotou. O mergulho profundo na rotina da rua. Guindado à condição de boxeador. A honra e a derrota. Tudo isso torna-o uma figura sobre a qual estão colocadas as vicissitudes do destino. Sua luta passa pela afirmação de sua identidade de homem negro e marginalizado. Recai sobre ele a insubmissão. Baldo é uma figura múltipla e repleto de habilidades – é um malandro nato; é boxeador; é poeta; é apaixonado; é cangaceiro; é religioso; é órfão; é um homem do povo; é preto; é sindicalista. Desfere golpes contra a própria vida e contra o próprio destino a fim de continuar a ser quem é. Baldo é um dos primeiros e únicos heróis negros de nossa literatura. Amaro, personagem homossexual e negro, do romance naturalista “O Bom Crioulo”, de Adolfo Caminha, não pode ser esquecido.
(2) A desigualdade e a luta de classes: “Jubiabá” é o romance que se insere na fase social ou proletária de Jorge Amado. É patente a tese de que o herói precisa ascender a fim de se envolver no movimento social. O desfecho da existência de Balduíno é o ingresso no movimento sindical. Fica explícito no romance o quanto sua vida é pautada pela exploração. Em todas as relações que ele estabeleceu, há uma força estrutural que o explora, que nega a ele a dignidade para ser. A saída para alguém nessa condição é lutar, é se insurgir; é organizar a resistência contra os donos dos meios de produção. Vale mencionar que, nesse período, Jorge Amado encontrava-se cada vez mais alicerçado no movimento comunista. Outra questão importante a ser mencionada é que “Jubiabá” foi um dos livros de Jorge Amado que mais fizeram sucesso na União Soviética. Lia-se o livro como uma tese em que se pode notar as etapas da ascensão da luta do proletariado. A luta do herói da sociedade de classes ascende até que ele se organize com outros explorados para empunhar a bandeira da revolução.
(3) A forte presença da religiosidade do povo: Estive em Salvador em 2023. Fiquei impressionado com a cidade. Salvador é uma cidade que possui uma energia bem diferente das outras cidades brasileiras. A presença do povo negro se faz por todos os lados. Ou seja, Salvador é um pedaço da África no Brasil. A presença da cultura africana derrama-se pelos vários bairros e pode ser percebida na culinária, nos monumentos, no corpo dos soteropolitanos, nas vestimentas, na ginga do baiano, na religiosidade. Recordo-me que o guia que nos conduziu ao Centro Histórico da cidade afirmou que há mais de mil terreiros em Salvador. Fiquei impressionado com o número. Há mais terreiros do que igrejas católicas. É muito comum, em Salvador, você encontrar alguém que possua um orixá como guia. Essas divindades estão presentes na umbanda e no candomblé. Elas são extraídas da mitologia do povo iorubá (África Ocidental), de onde vieram boa parte dos escravos africanos trazidos ao Brasil. As divindades representam e controlam forças da natureza.
(4) A formação da consciência político do sujeito histórico: Observa-se que Baldo possui uma trajetória ascendente. A personagem amadurece à medida que a trama se desenvolve. Há nessa estratégia a estrutura de um romance de formação. Balduíno parte da luta pessoal e individual em busca de resistir às intempéries de uma rotina de privações e obstáculos. Todavia, o herói somente conseguirá resolver o seu problema, se entender que os seus problemas e obstáculos são decorrentes de uma estrutura social injusta. O destino do sujeito opresso em uma sociedade desigual e injusta é a formação da consciência de classe. A emancipação passa, necessariamente, pelo entendimento de sua condição. A busca individual dificilmente debela a exploração e desigualdade na sociedade capitalista.
(5) A infância como elemento de reflexão: É relevante afirmar que “Jubiabá” faz lembrar em alguns momentos outro romance amadiano – “Capitães de areia”, de 1937. Alguns dos temas deste romance parecem já esquematizados em “Juabiabá”. O grupo de amigos de Antônio Balduíno que perambula pelas ruas de Salvador faz lembrar o grupo chefiado por Pedro Bala, personagem principal de “Capitães de Areia”. Nesse sentido, Amado reflete sobre o abandono da infância, a paisagem urbana e suas contradições e a solidariedade estruturada entre os marginalizados.
“Jubiabá” é um romance que surpreende pela trama envolvente, pela personagem encantadora, pela forma como retrata os grupos marginalizados, como retrata algumas manifestações do povo – o samba, a capoeira, as festas, a religiosidade, a sensualidade, a oralidade, a valorização da cultura negra. Trata-se de uma obra neorrealista, mas carregada de elementos envolventes. Antônio Balduíno poderia ser o que quisesse, caso não pesasse sobre sobre ele a sina de ser pobre, preto e marginalizado. Era um sujeito com múltiplos talentos.


