terça-feira, outubro 24, 2017

A ética dos justos

Havia numa cidade dos Estados Unidos uma igreja batista. Os batistas, como se sabe, são um ramo do cristianismo muito rigoroso nos seus princípios éticos. Havia na mesma cidade uma fábrica de cerveja que, para a igreja batista, era a vanguarda de Satanás. O pastor não poupava a fábrica de cerveja nas suas pregações. Aconteceu, entretanto, que, por razões pouco esclarecidas, a fábrica de cerveja fez uma doação de 500 mil dólares para a dita igreja. Foi um auê. Os membros mais ortodoxos da igreja foram unânimes em denunciar aquela quantia como dinheiro do Diabo e que não poderia ser aceito. Mas, passada a exaltação dos primeiros dias, acalmados os ânimos, os mais ponderados começaram a analisar os benefícios que aquele dinheiro poderia trazer: uma pintura nova para a igreja, um órgão de tubos, jardins mais bonitos, um salão social para festas. Reuniu-se então a igreja em assembléia para a decisão democrática. Depois de muita discussão registrou-se a seguinte decisão no livro de atas: "A Igreja Batista Betel resolve aceitar a oferta de 500 mil dólares feita pela Cervejaria na firme convicção de que o Diabo ficará furioso quando souber que o seu dinheiro vai ser usado para a glória de Deus."

(Extraído do livro O Deus que conheço - Rubem Alves. Verus Editora, pp. 69 e 70

sábado, outubro 21, 2017

Alguns veem o infinito


Há homens que viram o infinito. Sim! Há homens que viram o infinito - não há outra explicação. Fiquei a pensar nesta proposição após assistir ao filme O homem que viu o infinito, baseado na vida do brilhante matemático indiano Sirinivasa Ramanujan. A obra conta a história do genial autodidata da cidade pobre de Madras. 

Ramanujan é um sujeito humilde. Casa-se, mas não dispões de muitos meios para sustentar esposa e a mãe.  Arruma um emprego em uma empresa de contabilidade. Sente na pele o preconceito e a hostilidade pela falta de formação acadêmica. Altamente religioso, sua paixão são os números para os quais possui um nível de intimidade profundo. As fórmulas e cálculos parecem brotar em sua mente privilegiada. Mais tarde, no filme, ele diz que "as fórmulas para ele são uma expressão exata da mente de Deus". O segredo de sua originalidade estava justamente neste ponto. 

Após ter enviado uma carta e algumas de suas descobertas para o grande matemático britânico G. H. Hardy, Ramanujan vai estudar em Londres. Lá ele sente o sabor amargo do preconceito por conta da sua origem. A academia é um espaço para vaidades e não há lugar para intuições. Apesar de sua genialidade, ele sente o peso da discriminação por conta de sua cor e de sua origem - um país pobre e, segundo o entendimento dos enfunados ingleses, um lugar do qual não poderia surgir nada significativo. 

O professor Hardy sabe que está diante de um gênio comparado a Newton. Visualiza o potencial do hindu. Sua habilidade para lidar com temas complexos. Alguém capaz de destravar as portas pesadas e herméticas do conhecimento matemático. Há algo muito valioso ali. Por isso, resolve firmar uma parceria com ele. Nesse espaço, Ramanujan desenvolve tuberculose. Sua disciplina religiosa o impede de comer carne ou qualquer outro gênero alimentício de origem animal. Não tendo condições de conseguir verduras e legumes - pois o filme se passa no período da Primeira Guerra - Ramanujan definha. 

Seu trabalho continua. É com o trabalho sobre partições matemáticas que ele, finalmente, faz os acadêmicos se dobrarem diante de sua genialidade. Torna-se membro da Sociedade Acadêmica Real Inglesa, um feito inigualável para alguém de sua origem. 

Mas o que está em jogo com relação a Ramanujan estende-se, por exemplo, a alguns gênios que já passaram por este planeta. Pessoas que possuíam um nível de iluminação incomum. Há um diálogo no filme de Ramanujan com a sua esposa. Ela indaga algo como "para quê isso serve?". Ele responde: "Imagine que há cores que não consegue ver". Sim! Os homens comuns vivem em uma realidade em que faltam cores para tornar o mundo mais vivo. A pátina que utilizam para dar significado à realidade possuem, no máximo, duas, três, quatro cores. 

Todavia, há sujeitos iluminados; com os olhos repletos de cores. Um espectro bastante rico se evidencia. Eles enxergam a realidade de forma especial. Veem sinfonias majestosas, poemas; fórmulas matemáticas que apontam para o infinito. Ramanujan morreu aos 32 anos de idade, bem próximo da idade de outro gênio, Wolfgang Amadeus Mozart, que morreu aos 36. Quando penso em Mozart sempre me vem o questionamento: quantas coisas maravilhosas - sinfonias, sonatas, concertos, obras de câmara - morreram com Mozart? Se ele tivesse vivido mais alguns anos, haveria mais cores no mundo. Mais alegria. Não haveria tanta cinza como há agora. Algumas delas teriam sido dissipadas. Se Nietzsche não tivesse sido acometido por um mutismo absoluto, quantos "amigos "de Zaratustra não teriam gritado em praça pública? Se Bach tivesse vivido mais cinco anos, quantas obras religiosas não teriam sido concebidas para tornar o mundo em um jardim multicolorido?

Há sujeitos que nos privam de sua visão muito precocemente. Enquanto caminhamos a tatear coisas pequenas, ignóbeis, assustadoramente comuns, esses sujeitos utilizam a capacidade de enxergar para nos mostrar o que está oculto, querendo ser revelado; ou seja, tornando clara a mente de Deus. Ramanujan diz que cada fórmula aponta para beleza que há em Deus. Neste instante, por exemplo, eu escuto a Quarta Sinfonia, de Bruckner, chamada de "Romântica". O que Bruckner deve ter visto para escrever algo assim? Ela é religiosa em sua essência. Aponta para reflexões perfeitas - divinas. Bruckner deve ter visto o infinito para concebê-la. Os grandes gênios que já passaram por esta terra, possuíam intuições especiais. São profetas. Concebem coisas grandiosas por terem um acesso privilegiado ao infinito. Após o término do filme, fiquei com esta impressão. 

Àqueles que não possuem essa qualidade no olhar está reservada a função de reconhecer a miopia de que são detentores. 

quarta-feira, outubro 18, 2017

Uma epígrafe de um livro de Lya Luft

Não sou leitor dos livros da Lya Luft. Nunca cheguei a mergulhar em sua literatura; tomar nota sobre sua produção. Sei que também é poetisa. Já assisti a algumas palestras em que ela estabelecia um colóquio leve, manso, refletindo sobre aspectos variados da vida. Por estes dias, veio-me às mãos o seu mais famoso livro - Perdas e Ganhos. Após começar a leitura e perceber que sua escrita a coloca, pelo tom intimista, ao lado de Clarice Lispector, encontrei uma epígrafe que me balançou por dias. Transcrevo-a abaixo:

Desde os 6 anos eu tinha mania de desenhar a forma dos objetos. Por volta dos 50 havia publicado uma infinidade de desenhos, mas tudo o que produzi antes dos 60 não deve ser levado em conta. Aos 73 compreendi mais ou menos a estrutura da verdadeira natureza, as plantas, as árvores, os pássaros, os peixes e os insetos. Em consequência, aos 80 terei feito ainda mais progresso. Aos 90 penetrarei no miestério das coisas; aos 110, terei decididamente chegado a um grau de maravilhamento - e quando eu tiver 110 anos, para mim, seja um ponto ou uma linha, tudo será vivo. (Katsuhika Hokusai, sécs. XVIII-XIX). 

domingo, outubro 15, 2017

15 de outubro. Dia do professor. O que há para comemorar?

Ser responsável no desenvolvimento de uma prática qualquer implica, de um lado, o cumprimento de deveres, de outro, o exercício de direitos. Paulo Freire

15 de outubro. Dia do professor. Sou professor. Mas não tenho muitos motivos para risos largos. Em um país como o Brasil, ser professor é não ter motivos para comemorar, ainda mais no momento em que vivemos, quando do ponto de vista político, enfrentamos uma situação caótica, preocupante, de disputa hegemônica clara. Fico a observar as congratulações vazias, destituídas de reflexões mais fundas. Afinal, quais seriam os motivos para a comemoração?

Antes de empinar o peito e esboçar uma jactância anêmica, seria importante pensarmos o quanto o professor é valorizado, primeiramente, pelo Estado, pelos mentores das políticas públicas. Atualmente, sobre o professor recai a culpa de ser doutrinador, de "fazedor de cabeças". Se isso fosse verdade, não estaríamos vivendo um dos momentos mais grotescos de nossa história, em que a profissão tem sido criminalizada pelo Escola sem Partido, uma das construções mais patéticas e incoerentes possíveis do ponto de vista epistemológico. Quando o professor doutrina, faz a cabeça das pessoas, se ainda há pessoas que votam em Jair Messias Bolsonaro e pedem a volta da Ditadura? 

Afinal, o que há para comemorar? O Governo Federal congelou os investimentos em educação por vinte anos para inflar os bolsos dos rentistas. Ou seja, a longo prazo, pensa-se no setor financeiro mais do que em um projeto de educação para o Brasil, capaz de colocar o país na esteira do desenvolvimento e construir uma projeto de nação. 

O que há para comemorar, quando há um desmonte da universidade pública? A pesquisa tem sido precarizada. Os investimentos só encolhem, impedindo que o país protaganize a ciência, em projetos capazes de fazer do país uma potência nessa área. Novamente, entende-se que o mercado redimirá os problemas do país. A educação é só um detalhe. Novamente, o professor é só um detalhe, uma profissão proletarizada, secundarizada, sem investimentos, sem formação adequada, continuada.

O que há para comemorar, quando poucos são os Estados e municípios que conseguem pagar o piso salarial nacional para os professores? Importante dizer que o piso é uma conquista histórica. 

O que há para comemorar, quando o PIB é disputado pelo rentismo e pelos setores  que se beneficiam imoralmente com os juros da dívida pública, relegando à educação as migalhas que sobram do fundo público? 

O que há para comemorar? Educação é luta. É uma campo em disputa. É uma atuação política fundamental. Ela gesta o cidadão que se con-forma ou que se in-con-forma. Não é campo neutro. Se há descaso, isso já enuncia um compromisso político daqueles que a pensam. Então, olhando por este ponto de vista, não há motivos para júbilos ou idealismos. 

Que há para comemorar?

A alienação?
A classe dividida?
O trabalho excedente não remunerado?
A ausência de final semana, porque este só existe para a preparação de aula?
Da falta de ócio, de leitura?
A falta de incentivos, de reconhecimento?
De estímulos do Estado e da sociedade?
...dos alunos?
A mão de obra barata?
A desvalorização grassante..?
A síndrome de burn out?
O trabalhar em três escolas para se conseguir pagar as contas?
A ignorância política?
A incapacidade de pensar histórica e dialeticamente a sua condição?

Afinal, tantas são os motivos para a seriedade, para não pensar messianicamente a profissão e poucos são os motivos para o júbilo, para o contentamento que a ocasião exige. 




sábado, outubro 14, 2017

"A vida de Émile Zola" e o ódio como força social

"Devemos conquistar o mundo... ...mas não pela força das armas, mas sim por meio de ideias liberadoras". Émile Zola

"A verdade está em marcha... e nada a deterá". Émile Zola

Existem forças que parecem ser maiores do que aquelas que possuem os indivíduos. Há situações em que os rumos dos fatos sugerem a desistência. Mas, e quando o que está em jogo é a verdade, a justiça, a vida de alguém? É sobre este fato que o filme A vida de Émile Zola, de 1937, direção de William Dieterle, mira os seus holofotes. 

Um terço do filme aborda a vida difícil do famoso escritor de Germinal antes de alcançar a glória literária. Vivia humildemente, carregando o fardo pesado da pobreza. De repente, uma enxurrada de obras que sacudiram as letras na França e na Europa - Nana, Germinal, A besta humana, entre outras, surgiram e trouxeram fama ao escritor. 

A parte final do filme, põe em foco Alfred Dreyfus, oficial do exército francês, acusado injustamente pelo crime de traição e espionagem. Foi condenado por uma sentença questionável. Um tribunal de exceção, montado pelo próprio Exército, o condenou ao banimento e à prisão perpétua na Ilha do Diabo, na Guiana Francesa. 

É neste posto que entra a pessoa de Zola. A esposa de Dreyfus recorre a ele. Solicita por ajuda. Zola se nega. Não quer sair da comodidade. Afinal, era um sujeito reconhecido e respeitado. Arregaçar as mangas, cerrar os punhos e sair para a briga exigiria que ele saísse de seu divã de comodidades; do lugar conveniente a que havia alcançado. 

Após entender o caso, Zola não hesita e resolve escrever o famoso documento Eu acuso, que caiu como uma bomba no território francês. De repente, a sociedade francesa estava dividida por aqueles que pediam a manutenção da prisão de Dreyfus e aqueles que exigiam uma reconsideração da sentença. Zola transforma-se em inimigo público. Seus livros são queimados. Corre para não ser linchado. Percebe um cerco em torno de sua pessoa. É condenado a prisão e a pagar uma multa de três mil francos, também, por uma tribunal parcial. Foge para a Inglaterra. De lá, continua a escrever, protestar, a usar a razão.

É curioso como um turbilhão negativo de ódio e raiva toma as pessoas. Para isso acontecer, há uma força invisível, ardilosa, a influenciar, a colocar sentenças nas cabeças das pessoas. A sociedade parece se transformar numa tromba d'água poderosa, capaz de arrastar tudo que está à sua frente. Não há barreiras capazes de impedir o seu avanço. A sua força destruidora ganha dimensões assustadoras. Parece-se muito com aquilo que aconteceu no Brasil a partir de 2013. 

Os últimos acontecimentos com o Partido dos Trabalhadores provam isso. O caso é bem diferente, claro. O PT não é inocente como Dreyfus o era. Tomemos como exemplo a deposição de Dilma Rousseff, a primeira mulher impeachmentmada da história do Brasil.  Em alguns momentos, pronunciar o nome dela era como emitir um palavrão. Semana passada, estava em sala de aula trabalhando alguns exercícios sobre pronomes com os meus alunos de ensino fundamental; crianças com apenas onze ou doze anos. Surgiu uma foto da Dilma. De repente, notei as falas indignadas dos meus alunos. Xingamentos. Afirmações hostis. Ironias. Não retruquei. Apenas observei. Devem ter escutado dos pais. Dos parentes. Dos vizinhos. Visto na televisão. Passado mais de um ano de seu impeachment, o ódio coletivo parece ainda envenenar as mentes e bloquear a razão - até mesmo das crianças.

O que o Caso Dreyfus prova é o quanto as pessoas podem ser acometidas por doenças coletivas. Como é necessário manter a razão, o discernimento, o bom senso funcionando. Deixar de lado as falas apressadas, precipitadas. Não ter a sua inteligência suspensa. Não permitir que o rio impetuoso da ignorância nos afogue. Indagar. Manter aquele olhar de sobriedade e desconfiança. Todos aqueles que alegam possuir a verdade estão condenados a se tornarem inquisidores. As inquisições matam, esfolam, praticam atos bárbaros, desumanos. 

A luta de Zola o leva a provar a inocência de Dreyfus. Triunfa, finalmente, a verdade. Dreyfus é restabelecido ao posto. Não entrou com uma ação contra o estado francês. Todavia, o estrago estava feito. O filme nos faz pensar sobre como a parcialidade dos homens pode induzir a situações em que indivíduos têm as suas vidas públicas e privadas estraçalhadas pela vilania e pela traição. A verdade é forte, cristalina, luminosa. Se ela prevalecesse em todos os casos, não haveria tantas injustiças e desumanidades no mundo. 


sexta-feira, outubro 13, 2017

Um excerto sobre Titono, personagem da mitologia grega

Meses e meses de silêncio completo. Abandono! Relapso! Ausência de curiosidade, de atividade. A lembrança vaga. O movimento para a ação emperrado. Hoje, resolvi escrever algo que me chamou a atenção. Está no livro Além de Darwin: o que sabemos sobre a história e o destino da vida na Terra, que ando lendo. Há um trecho em que ele fala de Titono, personagem singular da mitologia grega. 

O exemplo mais aterrador de falta de cuidado com desejos que me vem à cabeça envolve um sujeito chamado Titono, personagem da mitologia grega. Eis um cara que tinha tudo: príncipe de Tróia, um dos homens mais belos do seu tempo, reza a lenda que ele era tão charmoso que nem Eos, deusa da Aurora, resistiu aos seus encantos. Apaixonada pelo rapaz, Eos pediu que Zeus, o chefão dos deuses, transformasse Titono em imortal. Mas o desejo da deusa tinha sido terrivelmente mal formulado: ela esquecera de perdir que Titono também ficasse eternamente jovem. O resultado é que, embora não morresse, ele foi se tornando cada vez mais enrugado e carcomido, até acabar virando... um gafanhoto imortal.

sexta-feira, junho 02, 2017

Um livro há muito desejado

Quando estudei em um seminário teológico, sempre busquei ler o que me vinha à mão. Li principalmente os autores de teologia dogmática. Ou seja, aqueles autores que possuem uma preocupação apologética, que trilham pelos caminhos seguros do não questionamento; que não divergem com o pensamento teológico legado pela tradição - inerrância das escrituras, Cristo como salvador absoluto; divino e humano; Salvador, Messias; somente a graça é capaz de salvar, a trindade etc. São temas basilares, estruturais, que firmam a fé da igreja. Esses dogmas foram consolidados ao longo dos séculos por meio de debates acalorados. 

Por outro lado, havia aqueles autores "perigosos". Se lêssemos, passávamos a sermos olhados pelos colegas e pelos professores com certa preocupação. Estaríamos alimentando questionamentos e indiferença para com a fé ortodoxa? O ateísmo ter-nos-ia tomado de assalto? Estaríamos "esfriando", termo este que significa perder a paixão, até se tornar indiferente para com a fé.

Téologos como Rudolf Bultmann, Karl Barth, Paul Tillich, Emil Brunner, Jürgen Moltmann, Renan, Niebuhr ou Albert Schweitzer se pronunciados poderiam trazer um mal presságio. Tanto é assim que, enquanto estava no seminário, li apenas um opúsculo de Bultmann e outra pequena obra de Tillich. Ler o brasileiro Rubem Alves era tóxico também. Vale fazer uma pequena digressão aqui, pois muitos desses teólogos foram introduzidos no pensamento teológico brasileiro por intermédio de Rubem Alves, quando este estudou nos Estados Unidos nos anos 60 e 70 do século passado. Livros como Teologia de Esperança, Protestantismo e Repressão, O enigma da religião, O que é religião? e Dogmatismo e Tolerância, do grande filósofo e teólogo mineiro foram fundamentais para que eu criasse uma lastro crítico necessário para relativizar algumas construções teológicas tidas como inquebráveis e fundamentais. 

Recordo-me que certa vez encontrei um colega lendo A busca do Jesus Histórico, do alemão Albert Schweitzer. Inquiri o colega sobre o livro. Falou-me do que tratava. Fiquei interessado. Eu já ouvira falar sobre Albert Schweitzer pela caneta de Rubem Alves. Trata-se de um grande humanista, extraordinário organista e amante da música de Johann Sebastian Bach; um intelectual refinado; um homem com uma alma apaixonante; erudito que se radicou na África para cuidar de homens e mulheres doentes. Era um sujeito que conseguia conciliar a erudição do pensamento filosófico-teológico e ao mesmo tempo arregaçar a manga para cuidar do corpo moribundo de sujeitos padecentes. Este fato deu a Albert Schweitzer o Nobel da Paz, em 1953.  A busca do Jesus Histórico é a sua tese de doutoramento escrita no ano de 1899. 

   Albert Schweitzer (1875-1965)

Sempre procurei o livro para ler, mas nunca havia obtido sucesso. Até que no início do mês passado, ao fazer uma busca na internet, encontrei-o no sítio da Saraiva. Não hesitei. Comprei imediatamente. Hoje, demorados mais de vinte dias, recebi-o quando cheguei do trabalho. Fui imediatamente movido pela curiosidade e já bebi algumas páginas da obra de Albert Schweitzer.

O autor alemão nesta obra, centra a sua atenção, por meio de uma espécie de busca arqueológica, do Jesus histórico. Ou seja, o homem real, que talvez tenha vivido na Palestina há dois mil anos atrás. A Igreja sempre se preocupou em retratar o Cristo da fé, divinizado, celestializado e confirmado pela construção do dogma. O dogma cria muros. Suplanta relativizações. Impede os questionamentos. As informações que temos sobre a sua existência são rarefeitas. Não estão solidamente confirmadas em documentos relevantes. E o resultado da investigação de Schweitzer. é acachapante: o Jesus histórico não existe. O que existe é uma figura alimentada pela psicologia, projetada pela nossa própria auto-imagem. O Jesus da fé é diferente do Jesus histórico, pois este é inócuo em sua materialidade, mas aquele é agigantado pela fé, fazendo crescer naquele que crer, um sentimento que renova e transforma a sociedade e a história. 

É começar a leitura imediatamente.


A ética dos justos

Havia numa cidade dos Estados Unidos uma igreja batista. Os batistas, como se sabe, são um ramo do cristianismo muito rigoroso nos seus p...