sexta-feira, junho 02, 2017

Um livro há muito desejado

Quando estudei em um seminário teológico, sempre busquei ler o que me vinha à mão. Li principalmente os autores de teologia dogmática. Ou seja, aqueles autores que possuem uma preocupação apologética, que trilham pelos caminhos seguros do não questionamento; que não divergem com o pensamento teológico legado pela tradição - inerrância das escrituras, Cristo como salvador absoluto; divino e humano; Salvador, Messias; somente a graça é capaz de salvar, a trindade etc. São temas basilares, estruturais, que firmam a fé da igreja. Esses dogmas foram consolidados ao longo dos séculos por meio de debates acalorados. 

Por outro lado, havia aqueles autores "perigosos". Se lêssemos, passávamos a sermos olhados pelos colegas e pelos professores com certa preocupação. Estaríamos alimentando questionamentos e indiferença para com a fé ortodoxa? O ateísmo ter-nos-ia tomado de assalto? Estaríamos "esfriando", termo este que significa perder a paixão, até se tornar indiferente para com a fé.

Téologos como Rudolf Bultmann, Karl Barth, Paul Tillich, Emil Brunner, Jürgen Moltmann, Renan, Niebuhr ou Albert Schweitzer se pronunciados poderiam trazer um mal presságio. Tanto é assim que, enquanto estava no seminário, li apenas um opúsculo de Bultmann e outra pequena obra de Tillich. Ler o brasileiro Rubem Alves era tóxico também. Vale fazer uma pequena digressão aqui, pois muitos desses teólogos foram introduzidos no pensamento teológico brasileiro por intermédio de Rubem Alves, quando este estudou nos Estados Unidos nos anos 60 e 70 do século passado. Livros como Teologia de Esperança, Protestantismo e Repressão, O enigma da religião, O que é religião? e Dogmatismo e Tolerância, do grande filósofo e teólogo mineiro foram fundamentais para que eu criasse uma lastro crítico necessário para relativizar algumas construções teológicas tidas como inquebráveis e fundamentais. 

Recordo-me que certa vez encontrei um colega lendo A busca do Jesus Histórico, do alemão Albert Schweitzer. Inquiri o colega sobre o livro. Falou-me do que tratava. Fiquei interessado. Eu já ouvira falar sobre Albert Schweitzer pela caneta de Rubem Alves. Trata-se de um grande humanista, extraordinário organista e amante da música de Johann Sebastian Bach; um intelectual refinado; um homem com uma alma apaixonante; erudito que se radicou na África para cuidar de homens e mulheres doentes. Era um sujeito que conseguia conciliar a erudição do pensamento filosófico-teológico e ao mesmo tempo arregaçar a manga para cuidar do corpo moribundo de sujeitos padecentes. Este fato deu a Albert Schweitzer o Nobel da Paz, em 1953.  A busca do Jesus Histórico é a sua tese de doutoramento escrita no ano de 1899. 

   Albert Schweitzer (1875-1965)

Sempre procurei o livro para ler, mas nunca havia obtido sucesso. Até que no início do mês passado, ao fazer uma busca na internet, encontrei-o no sítio da Saraiva. Não hesitei. Comprei imediatamente. Hoje, demorados mais de vinte dias, recebi-o quando cheguei do trabalho. Fui imediatamente movido pela curiosidade e já bebi algumas páginas da obra de Albert Schweitzer.

O autor alemão nesta obra, centra a sua atenção, por meio de uma espécie de busca arqueológica, do Jesus histórico. Ou seja, o homem real, que talvez tenha vivido na Palestina há dois mil anos atrás. A Igreja sempre se preocupou em retratar o Cristo da fé, divinizado, celestializado e confirmado pela construção do dogma. O dogma cria muros. Suplanta relativizações. Impede os questionamentos. As informações que temos sobre a sua existência são rarefeitas. Não estão solidamente confirmadas em documentos relevantes. E o resultado da investigação de Schweitzer. é acachapante: o Jesus histórico não existe. O que existe é uma figura alimentada pela psicologia, projetada pela nossa própria auto-imagem. O Jesus da fé é diferente do Jesus histórico, pois este é inócuo em sua materialidade, mas aquele é agigantado pela fé, fazendo crescer naquele que crer, um sentimento que renova e transforma a sociedade e a história. 

É começar a leitura imediatamente.


domingo, maio 21, 2017

"O Capital" (2011), um filme de Constantin Costa-Gavras

A mulher de Marc pergunta: - "O que você quer?"
Ele responde: "Dinheiro!"

O filme O Capital (2011), do cineasta greco-francês, Constantin Costa-Gavras, é uma reflexão profunda e brutal de como o capital financeiro domina o mundo. Costa-Gavras ao longo da carreira tem produzido filmes sempre buscando estabelecer algum tipo de debate político. Se não me engano, este é o segundo filme que vejo dele. O primeiro foi Amem (2002), que foca na indiferença consentida da Igreja Católica em relação às medidas diabólicas nazistas contra os judeus.

Em O Capital, encontramos as lentes do diretor fazendo-nos refletir como se dão as relações no mundo do capital. O pano de fundo, certamente, foi a crise que abalou os mercados no ano de 2008 e que continua a promover as suas consequências. Quando falamos em filmes que buscam retratar o cenário de poder do mundo capitalista é sempre bom lembrar Wall Street - poder e cobiça (1987), de Oliver Stone, e outro mais recente: A grande aposta, (2015), de Adam McKay, que revela o background da crise com a eclosão da bolha especulativa do ano de 2008. 

O Capital intriga por nos fazer entrar no mundo das especulações, do capital intangível, virtualizado, imaterial e que não está preocupado com a produção de riqueza social. A lógica do capital é a transformação dele mesmo, gerando lucros cada vez mais absurdos. O poder do capital é a força que muda, manipula cenários a fim de que ele mesmo prevaleça acima de tudo e todos. 

Marc Tourneuil é um jovem inteligente e ambicioso. Ele assume a presidência de um dos maiores bancos europeus, o Banco Prenix, quando o seu presidente-fundador - Jack Marmande - se ver impossibilidade por causa de um câncer nos testículos. O nome do banco faz referência à ave mitológica capaz de ressurgir das cinzas cada vez que morre. O capital também sempre ressurge após as suas crises, exibindo novas feições para objetivar o lucro. O cargo era almejado por diversos integrantes do conselho deliberativo do banco. Aos poucos, Marc vai mostrando suas habilidades como gestor, tendo que tomar decisões difíceis como, por exemplo, a demissão de um número considerável de funcionários para que o banco se tornasse mais rentável. No filme, fica claro que o banco passa por uma valorização na bolsa de valores, feita pelos investidores, após o corte de dezenas de milhares de vagas de emprego.

A personagem rapidamente percebe o jogo que se arma contra ele. Nesse sentido, é importante prestar atenção à cena inicial do filme, que mostra uma tacada de golfe realizada por Jack Marmande. Ou seja, o mundo frio, instrumental do dinheiro, é um verdadeiro jogo. Para prevalecer nele é preciso saber jogar. Dentro desse espaço, não há lugar para as relações, que passam a ser sempre interesseiras e pragmáticas. 

O filme deixa-nos a impressão de que o contato humano passa a ser sempre artificial e virtual. Marc vive a viajar em jatinhos e se locomovendo de um espaço a outro em limusines como se não houvesse qualquer necessidade do homem social, o homem das relações humanas, que enxerga no outro a imagem de si. Quando ele fala é sempre por meio de uma tela ou de um aparelho celular. Esse excesso de virtualidade no filme é para mostrar quanto que o capital também se metamorfoseou em imaterialidade. 

As objetivações supremas do espírito humana ficam sempre secundarizadas. Notam-se no filme quadros de artistas como Matisse ou Modigliani.  O capital perdeu a sua materialidade e se tornou mera ficção a se converter em papéis, em títulos virtuais, em movimento especulativo que não gera riqueza para a sociedade por não ter preocupação com o trabalho. Esse movimento implacável, é resultado das sucessivas crises que o próprio capital tem acumulado desde a década de 70. Para que tivesse sobrevida e alcançasse seu objetivo supremo - o lucro - ele precisou espoliar-se das amarras sociais do estado de bem-estar-social, principalmente com uma das suas faces atuais, o neoliberalismo. 

Hoje, no Brasil, vemos esse jogo cada vez mais com força e factibilidade desde o golpe contra a presidenta Dilma, em 2016. O golpe foi para dar força e lucro ilimitado ao capital. As forças que patrocinaram o golpe partiram do capital financeiro e seus diversos braços. As ditas "reformas" trabalhistas realizadas a contragosto pelo governo ilegítimo de Michel Temer, um serviçal invertebrado do sistema capitalista, sem expressão, fraco, débil de carisma, intentam justamente extrair as amarras para que o capital seja sempre mais forte e soberano. Não há preocupação com os trabalhadores, que passam a ser meras peças acessórias, facilmente substituíveis. Precariza-se o trabalhador, pelo fato de o financismo não está preocupado com o trabalho. As ilusões com o trabalho passaram a ser coisas do passado. Os sindicatos, como instituições que representam e protegem o trabalhador, perdem a musculatura. Transformam-se em grêmios anêmicos, sem forças, e, finalmente, em uma realidade desnecessária, já que o capital não deseja obstáculos quaisquer. 

Em dado momento, encontramos essa pérola no filme que serve como reforço argumentativo. Quando Marc está conversando com acionistas estadunidenses, estes buscam tornar a face francesa do banco Phenix cada vez mais rarefeita, pois a França é o país das regulamentações que incomodam o capital financeiro-parasitário: "Gostam de Paris, mas não da França. Muitas leis sociais". Nota-se, aqui que a palavra "regulamentar" possui uma essência que torna exata o jogo do capital. O Capital especulativo está sempre mudando de lugar; sempre procurando locais mais atraentes, independemente da geografia. Qualquer ameaça a ele, ele voa, some, desaparece em lances céleres. As crises surgem assim. 

As reformas do trabalho, que também possuem o título eufemístico-dourado de "modernização das leis trabalhistas", são, no fundo, a face mais grotesco do jogo manipulador do capital em busca de mais lucro. As leis trabalhistas retiram do capitalista o seu principal desejo: ter mais dinheiro. No filme, só há uma referência a sindicatos. O que notamos é a onipresença poder da ontologia do capital, que é uma força em si e para si. 

Claro, existem outros elementos no filme, que poderiam ser abordados. À medida que fui lembrando, coloquei os que foram abordados acima. verdadeiramente, um filme espetacular.

sábado, maio 20, 2017

Inquilinagem

Semana passada fiz algumas compras em sites como a Amazon, Livraria 30porcento e Estante Virtual. Fui constantemente abordado pelo porteiro do prédio onde moro todos os dias ao chegar do trabalho. Somou-se um quantitativo considerável que, ligada à lista de que disponho para ler, aguçou ainda mais meu desespero. Dando quarenta aulas por semana, sem mencionar a preparação e a correção de trabalhos e provas, o que resta dessa maratona é um organismo inerme, fatigado. A coisa anda tão absurda que já não tenho tempo para escrever neste espaço. Colocarei abaixo alguns  dos títulos que chegaram e que serão objetos de leitura pelos meses e anos vindouros.

 Walter Benjamin - Rua de Mão Única - Tomo II

Guerra e Revolução - o mundo um século após Outubro de 
1917 - D. Losurdo

Contos Reunidos - F. Dostoiévski

A Casa dos Carlyle - Virginia Woolf

Teoria Geral do Direito e Marxismo - Pachukanis















Fogo Pálido - V. Nabakov
O Leilão do Lote 49 - T. Pynchon

Pedro Páramo - Juan Rulfo

O ruído do tempo - Julian Barnes
O jogo de olhos - Elias Canetti

Mimesis - E. Auerbach
A mansão - W. Faulkner

O povoado - W. Faulkner
A cidade - W. Faulkner

Massa e poder - Elias Canetti
A pessoa em questão - V. Nabakov









































sábado, abril 15, 2017

Luis Felipe Miguel - sobre Lula

Não há rigorosamente nada de novo nas últimas acusações contra Lula. As denúncias de recebimento de dinheiro ilícito continuam sendo vagas, baseadas em presunções e incapazes de apontar vantagens efetivas que ele tenha obtido. Por outro lado, há fartas demonstrações de que o ex-presidente tinha noção de que era a corrupção que garantia a "governabilidade" - alguém ainda não sabia disso? E também fica claro que Lula desenvolveu uma forte camaradagem com as grandes empresas, algo que está longe de lustrar sua biografia de líder popular, mas que também não constitui surpresa para ninguém. (E, pelo que se vê até o momento, também não constitui crime, é sempre bom ressaltar.)

No entanto, vejo muito gente acionando o modo "meu mundo caiu", como se fulminados por uma súbita decepção com Lula. Alguns, por senso de oportunidade, como parece ser o caso de Paulo Henrique Amorim. Outros, sucumbindo diante da campanha incessante da mídia.

Gostaria de poder dizer, como Millôr: "Heróis nunca me iludiram". Não seria verdade. Tive, como todo mundo, minha cota de heróis pessoais. Ainda os tenho hoje, mas cuido para que estejam mortos, de preferência há bastante tempo, o que evita surpresas desagradáveis.

Lula nunca foi um desses heróis. Comecei minha militância política no antigo PCB, no finalzinho da ditadura. O PT, recém surgido, era visto por nós como um instrumento para a divisão da oposição ao regime militar (leia-se: PMDB). Lula, como um operário que não fora capaz de superar uma mentalidade pequeno-burguesa.

A primeira crítica mostrava um horizonte limitado. Sim, o multipartidarismo foi reinstaurado por decreto, em 1979, com o intuito de dar uma sobrevida ao partido de sustentação da ditadura, a Arena (transformada em PDS). Mas a opção por manter os trabalhadores como retaguarda de uma oposição com liderança burguesa inconteste era equivocada, como a história mostrou.

A segunda crítica tem um ranço autoritário. Como se a "mentalidade" correta fosse determinada de fora. Lula não rezava pela cartilha da esquerda tradicional, é verdade, e foi crescendo politicamente quando já era um líder conhecido, o que explica algumas barbaridades de suas declarações iniciais. Mas cabe perguntar: um perfeito apparatchik teria a capacidade que ele tinha e ainda tem de se comunicar com sua base?

Quando o PCB se desmontou e se transformou no PPS, eu encerrei minha militância partidária. Tornei-me (em geral) eleitor do PT, mas nunca me filiei. Votei em Lula, votei em Dilma, mas houve ocasião em que anulei o voto para presidente. Nunca votei nos candidatos petistas ao governo do Distrito Federal. Para o legislativo, costumo votar em candidatos de partidos à esquerda do PT. Nunca elegi ninguém, então não me tive chance de me decepcionar com minhas escolhas.

Tornei-me, como se vê, um cientista político perfeitamente apartidário, quase apolítico, certamente neutro e objetivo. Mas confesso que, às vezes, ao longo dos anos 1990, senti a tentação de virar petista. Costumava brincar que eu tinha uma conexão mística com Lula: cada vez que a tentação estava grande demais, ele fazia alguma coisa que me levava a desistir. Lembro que, em 1993 ou 1994, eu estava praticamente com a ficha de filiação na mão quando Lula discursou no Nordeste e disse que "o vermelho da bandeira do PT simboliza o sangue de Cristo". Era demais para mim, parei de pensar em filiação na hora.

Conto tudo isto para dizer que sempre nutri por Lula um misto de respeito, admiração e crítica, em doses variáveis ao longo dos anos. Lula não tem que nos decepcionar, porque ele nunca se propôs ser algo diferente. Ele nunca foi um revolucionário, nunca foi um socialista, e só se decepciona ao descobrir que ele não o é quem nele projetou suas próprias fantasias.

A força de Lula e sua fraqueza provêm da mesma fonte: seu enorme pragmatismo, sua capacidade de adaptação. Trata-se, na verdade, de um traço produzido socialmente: os integrantes das classes populares, sobretudo os submetidos às maiores privações, precisam disso para garantir a própria sobrevivência. Lula ilustra aquilo que o historiador Robert Darnton via no "homem da rua", que aplica sua inteligência e engenho para “se virar” num ambiente complexo, em transformação e no qual ele se encontra em posição de desvantagem.

O lulismo é a tradução dessas disposições num programa político. Limitado, adaptativo, mas marcado por um genuíno desejo de responder às premências mais gritantes da população mais pobre.
Quem procura um santo, deve procurar em outro lugar, não na política, muito menos na política brasileira. Os santos, na política, ou são logo reduzidos à insignificância ou, pior ainda, são santos fajutos, falsificados (não estou me referindo especificamente a ninguém e da minha boca não sairão as palavras "Marina" ou "Silva".)

Não é o momento de chorar porque se descobriu tardiamente que Lula virou lobista de empreiteira. A perseguição judicial e midiática contra ele continua sendo um grave atentado às liberdades e ao Estado do direito. Reagir contra ela não depende de gostar do ex-presidente ou de suas políticas. É uma questão de defesa da democracia.

O outro ponto é saber quem será Lula em 2018. Se ele for capaz de liderar uma frente de enfrentamento dos retrocessos e estiver disposto a estimular a reativação do movimento popular, então estarei com ele, apesar de todas as críticas. Mas se ele for simplesmente a saída para a normalização do golpe e mesmo a tábua de salvação da elite política, como dão conta os boatos recentes, então estarei contra, apesar de todo o respeito.

PS. Se é para alguém se decepcionar com Lula, então, por favor, que não seja por causa do depoimento de Emílio Odebrecht. Cada vez que leio trechos dele, tenho que dominar meu asco. Ele fala sempre do alto de sua posição de grão-burguês, revelando a cada frase sua condescendência e desprezo pelos trabalhadores e seu desconforto, sua inconformidade com o fato de que um trabalhador pôde chegar ao poder. É um monumento ao preconceito de classe.

Daqui

segunda-feira, março 20, 2017

Um fenômeno chamado Lula

Lula é um desafio à inteligência das elites nacionais e de setores hidrofóbicos, atrasados e analfabetos da classe média. O nordestino pobre, retirante, símbolo de um Brasil infatigável, referência para milhões de brasileiros continua a instilar ódio nos olhos com lentes de contato do andar de cima - e daqueles que não têm lentes, mas que acham os seus olhos mais bonitos do que os dos outros. Certamente, o ex-operário e sindicalista ainda faz tremer muita gente que, pode não gostar dele, mas que o respeita pela força de identificação popular que ele possui.

Estava assistindo ao vídeo que mostra a sua chegada à cidade de Monteiro, no interior da Paraíba, junto com a presidenta eleita em 2014, Dilma Rousseff - defenestrada por um golpe parlamentar em 2016 - para inaugurar o projeto de Transposição do Rio São Francisco na quela cidade. Fiquei impressionado com o calor da recepção do povo paraibano. Na verdade, a qualquer lugar que Lula fosse, no interior do país, ele seria abraçado e aplaudido por um simples motivo: Lula tem o cheiro do povo; possui uma linguagem que alcança o coração dos homens e mulheres trabalhadores deste enorme e conturbado país. Lula consegue abraçar, beijar, apertar a mão; falar da passagem de ônibus, da conta de luz, do arroz, da carne, do feijão nosso de cada dia. 

Impossível ouvi-lo falar sem que haja uma necessária vinculação entre aquilo que é falado e aquilo que é vivido pelos interlocutores. É, por isso, que Lula tem plateia. Não se trata de ignorância por parte da grande massa. É gesto de identificação com a sua linguagem transparente, clara e objetiva como a linguagem do povo, linguagem esta sem os afetamentos arcaicos da mesóclises desnecessárias ou da ortoépia gestada por presunção.

Poucos políticos na história do Brasil possuem uma capilaridade social tão funda quanto Lula. A sua força emana justamente de algo que os chamados "políticos profissionais" não possuem: o carisma. Tem carisma ou é carismático aquele sujeito que é capaz de fazer resplandecer uma energia que contamina, que torna a sua fala, as suas ações, a sua personalidade em algo atraente. Conviver com ele, está ao seu lado torna-se algo importante, confortador e necessário.

A Folha de São Paulo, um dos jornais mais conservadores desse país - e lido por setores inteiros da classe média - no dia de hoje, fez uma reportagem com leve e subliminar ironia sobre o ato na Paraíba. Quando noticiam o nome de Lula, associam semioticamente o seu nome sempre a processo ou corrupção com finalidades discursivas evidentes.  Existe uma caçada sistemática a Lula. Desde que ele entrou para a vida pública - isso ainda nos anos 70. Sempre forjaram epítetos; falas preconceituosas; ou meras destilações de lugares-comuns tão próprios do sujeito que toma a sua ração diária de veneno fornecida pela mídia hegemônica, pertencente aos grandes grupos associados ao capital. São oligarquias atrasadas, que trabalham diuturnamente para transformar o país em um lugar pouco confortável para os trabalhadores, pois os interesses que eles reivindicam é o da rapinagem imediata das riquezas nacionais.

Vendo o vídeo, fiquei admirado. Quanto mais a mídia bate, tenta abalar a sua reputação, mas o povo o aplaude. E aí fiquei pensando: "Sr. "juizinho" Sérgio Moro, as elites brasileiras e os setores iludidos da classe média, desejam que Lula seja preso incontinente, pois senão ele leva a eleição de 2018". E não sou eu quem diz: é o povo!

domingo, março 19, 2017

O que significa ser de direita ou de esquerda

Esquerda e direita não são noções estanques, homogêneas, mas é errado pensar que não existem no Brasil. Com os recentes acontecimentos, é possível que muitas pessoas não saibam exatamente como se posicionar frente a essa celeuma de vozes na imprensa, nas redes sociais, nas ruas e no dia a dia. Há narrativas em disputa e é preciso compreender o que elas dizem, para quem dizem e o que querem. Mas isso requer uma compreensão histórica do significado desses termos.

As noções de direita e esquerda têm origem na Revolução Francesa de 1789. Estão relacionadas aos lugares ocupados pelos estados gerais na Assembleia Nacional Francesa. À direita do rei ficavam o primeiro e o segundo estados, o clero e a nobreza; à esquerda, o terceiro estado, representado pela burguesia e o povo. Com o terceiro estado estava o desejo de superação da ordem antiga e a instauração de uma nova ordem.

Legitimada pela filosofia Iluminista, a burguesia abriu uma perspectiva de futuro, de emancipação do homem através dos ideais de liberdade e igualdade e que veio a ter seu ponto culminante na Declaração Universal dos Direitos do Homem e do Cidadão, de 1789. Através do jacobinismo, a politização da pobreza e das questões sociais ganhou contornos inéditos e abriu caminho para a emergência das vertentes socialistas do século XIX, que levaram adiante o projeto de construção de uma sociedade voltada para a inclusão dos mais pobres.

A direita é, portanto, o lugar dos ricos, daqueles que não querem perder privilégios nem fazer concessões de direitos. A esquerda é o lugar dos pobres, daqueles que querem mudar a ordem social para ampliar e universalizar direitos, de onde vêm os ideais de liberdade e igualdade que pautaram a Revolução. A esquerda está relacionada à abertura de uma perspectiva de futuro inclusiva e representa a contestação dos privilégios de uma minoria, mantidos em detrimento da maioria, representa a ânsia pela mudança e pela transformação social. Ser de esquerda é não se conformar ao status quo, não aceitar a naturalidade das hierarquias sociais e as desigualdades que elas engendram, não se conformar à exploração do homem pelo homem nem desistir de pensar a utopia e problematizar projetos de um futuro melhor.

Foi das ações e pressões dos movimentos trabalhistas de esquerda dos séculos XIX e XX que vieram, por exemplo, as principais conquistas para a classe trabalhadora. A origem dos conceitos vem, portanto, da Revolução Francesa e os matizes que esses termos assumiram posteriormente não alteram seus significados originais. O surgimento de uma extrema esquerda (socialismo soviético) e uma extrema direita (fascismo e nazismo) no século passado estão relacionados às reações de algumas nações e grupos sociais aos ideais originados na Revolução Francesa e sua emergência esteve diretamente relacionada à guerra total que abocanhou as potências europeias entre 1914-1918.

Ser de esquerda, portanto, nada tem a ver com culto ao Estado ou a ditaduras,  nem a esquerda é inerentemente anti-democrática, como a direita inculta tem repetido à exaustão. Esquerda é uma visão de mundo em favor dos menos favorecidos. Esse é o sentido original do termo. Com o fim do socialismo real e o definhamento do discurso revolucionário de esquerda, o que sobrou para a esquerda foi a social-democracia, ou seja, a defesa de projetos sociais de inclusão e ascensão social e seu casamento com valores democráticos e garantia de liberdades individuais.

Ao contrário do que muitos pensam, a defesa de liberdades individuais não é apanágio da direita. A social-democracia é uma vertente de esquerda que surgiu entre o final do século XIX e o início do XX que rejeitava a noção de ditadura do proletariado como etapa necessária para a construção de uma sociedade mais justa e focava na junção de dois elementos: o ideal de justiça social do socialismo e o ideal de liberdade individual do liberalismo. A ideia era criar um partido e um movimento trabalhista voltado para reformas, não para a revolução.

Por isso, a esquerda hoje casa mais perfeitamente com ideais liberais do que a direita. Enquanto a direita defende mais fortemente apenas o viés econômico do liberalismo, isto é, a supremacia do mercado e a retirada da mão protetora do Estado sobre os pobres – isto é, o a eliminação de políticas sociais – o liberalismo político de matriz norte-americana trouxe para o plano da ação política a defesa das minorias, como negros e homossexuais. É daí que vem as políticas de cotas para negros em universidades e empresas e as políticas de proteção a minorias sociológicas, grupos que não possuem hegemonia cultural e sofrem formas variadas de violência e exclusão. As leis em defesa de negros, homossexuais e mulheres, por exemplo, se encaixam nesse paradigma.

A direita se opõe às políticas sociais liberais (e no Brasil ela atribui isso erroneamente a uma visão comunista) porque pensa que isso fere a meritocracia. Mas meritocracia sem igualdade de oportunidades é apenas um instrumento de exclusão. Restou, portanto, à esquerda se apropriar desses ideais e fazer política social para reduzir as desigualdades sociais, raciais e de gênero. Essas políticas fortalecem a democracia na medida em que proporcionam o acesso dessas minorias a espaços de onde estavam excluídos por uma série de questões históricas.

O papel da esquerda hoje é pensar a inclusão com a valorização das liberdades democráticas. Temos dois exemplos notáveis disso no continente com Obama e Mujica. A direita continua a ser o que sempre foi: ela quer manter privilégios, é conservadora, quer manter (conservar) a ordem social baseada na desigualdade, inclusive a desigualdade de oportunidades – por isso o discurso da meritocracia frequentemente escamoteia seus interesses de classe. Não raramente ela também flerta com ideais do fascismo (como xenofobia, militarismo e nacionalismo). Contra a visão progressista que caracteriza a esquerda, a direita reafirma a importância e atemporalidade da tradição, sempre pensada como elemento normativo e legitimador das desigualdades.

No Brasil, temos visto o surgimento de uma excentricidade: o indivíduo pobre que se declara de direita. Em geral, ele ignora completamente questões históricas envolvendo os conceitos de esquerda e direita, sua leitura política é pobre ou inexistente. De toda forma, o pobre de direita é um idiota útil a favor das elites; estas sim, e somente elas, conservadoras por convicção e por projeto político.

domingo, março 12, 2017

"Renoir" (2012), de Gilles Bourdos

O filme Renoir (2012), de Gilles Bourdos, é uma obra para sentir prazer. Ele desperta uma admiração profunda pela pintura do impressionista francês Auguste Renoir. Trata-se de um filme feito para proporcionar felicidade e bem-estar. 

O filme não tem como tema central a vida do pintor. O grande artista fica secundado pela história do seu filho Jean Renoir, que voltaria dos combates da Primeira Guerra Mundial, ferido, para reabilitar-se em casa. Quando desse retorno, Jean, que é tido como um dos maiores diretores da história do cinema ( autor de filmes como A regra do jogo - 1939), envolve-se amorosamente com uma das musas que posam para os quadros de Renoir-pai. 

Ou seja, o filme busca retratar esse envolvimento sentimental do jovem Jean com a belíssima Andrée Heuschiling, que se tornaria esposa de Jean na vida real. A obra possui fortes preocupações metalinguísticas, pois a fotografia procura seguir, esteticamente, as características da pintura de Auguste Renoir. As paisagens buscam retratar sempre a tranquilidade, a suavidade, os tons claros e harmônicos. 

Banhista penteando-se (1893). Uma grande obsessão - pintar banhistas
Mostra ainda a paixão do pintor pela arte. O agravamento dos problemas de saúde, impõe grandes suplícios ao grande artista. Renoir sofria com artrite e reumatismo. Na sua paixão por pintar, ele amarrava os pincéis aos dedos com tiras de pano. 

O que conta mesmo no filme é a preocupação de Renoir em pintar o nu feminino. O autor de As grandes banhistas, um dos quadros mais famosos dos impressionistas, possuía um olhar privilegiado. Ele conseguia ajustar as cores da natureza, a essência daquilo que existe de mais suave e belo e harmonizá-las com o corpo feminino. Curiosa é a fala de Renoir-pai ao filho Jean: "Não gosto de usar tons escuros. A vida já oferece demais isso. Deixo que outros se encarreguem disso". 
Nu feminino à luz do sol (1875)
Curiosamente, quanto mais o artista era acossado pela dor, mais ele sentia um ímpeto por pintar o nu feminino. Suas telas se iluminavam com cores como o açafrão, o laranja, o azul, o vermelho. Assim, Renoir busca fundir o ser humano à natureza. Sua busca insaciável é colocar o ser humano no mesmo lugar, exposto à mesma luz, a oferecer uma imagem de funda unidade. O pintor buscava criar uma ideia de totalidade, onde tudo é belo, é suave, é necessário, é feliz. Para Renoir a pureza da arte deve se mesclar àquilo que existe de mais puro na vida e na natureza. 

Assistir a Renoir é um verdadeiro deleite - a começar pela beleza da atriz Christa Theret, principalmente quando ela fica a nua. Seu corpo parece ser uma extensão da ideia de perfeição criada por Renoir. O enredo talvez não seja tão grande como a obra do pintor impressionista, mas o fato de evocá-la o torna necessário. 

domingo, março 05, 2017

"Vício Inerente" (2014), de Paul Thomas Anderson

"Vício Inerente" (Inherent Vice, 2014) é um filme estadunidense, de Paul Thomas Anderson. Trata-se de uma obra que exige paciência e força de vontade para ser vencida. Em vários momentos, vi-me na iminência de deixar para lá a ideia de completá-lo. Vale mencionar ainda que já havia tentado, em duas outras ocasiões, assistir a ele. 

O filme é baseado em um romance homônimo do escritor Thomas Pynchon o que, por si só, já demanda uma energia e uma capacidade de raciocínio incomuns para entendê-lo. Ler Pynchon não é uma atividade para qualquer mortal. É necessário que se tenha a capacidade para acompanhar a sua linguagem, seu humor fino e a densidade de sua escrita. Acredito que não tenha sido fácil para Anderson adaptar uma obra do escritor. 

O filme, por sua vez, busca ser fiel a Pynchon. Não pretendo fazer uma resumo da obra. Apenas apontar algumas características bem básicas e superficiais filme. Como falei no início, a obra exige uma concentração afinada. Mas, mesmo diante disso, ainda sentimos certa dificuldade para acompanhar a trama. O filme possui quase duas horas e meia de duração. Para complicar essa temporalidade, Anderson vai "colando" novos personagens de forma arbitrária a cada nova cena. Eles aparecem. De repente, somem. Outros aparecem para não mais surgir. Essa colagem de personagens impede o espectador a atentar a funcionalidade de cada um deles. Para quê eles estão ali? Qual é o papel para o desenlace da história? Quem é aquele?

O fato é que a obra mistura características de um noir, elementos intrínsecos de uma comédia, além de carregar por trás a filosofia anárquica da geração hippie, focando também no debate político das décadas de 60 e 70. Há a menção a Nixon, à Guerra do Vietnã e aos Panteras Negras, por exemplo. Doc Sportello (Joaquim Phoenix), o personagem principal da obra é uma figura caricaturesca - e extraordinariamente bem trabalhado por Phoenix. 

Após conseguir chegar ao final da obra - e observar a história como um todo - temos que admitir que é um filme fascinante e com muitas sutilezas. Exige uma leitura para além das aparências. Não é um filme fácil, para espectadores preguiçosos. Existe uma beleza invisível na obra, o que nos leva a um sorriso por sabemos que Anderson não fez um filme qualquer. Ver o filme é realizar um grande exercício intelectual.