terça-feira, julho 17, 2018

A crise na Venezuela

Vídeo bastante honesto sobre a crise na Venezuela. Carece de outras mediações, já que algumas informações foram suprimidas. Mas consegue colocar algumas informações relevantes para se começar a entender a crise econômica, política e social. Há muitos cientistas políticos, especialistas do senso comum, formados pela mídia conservadora nas redes sociais. Esta matização acaba por "colocar óculos", induzir a interpretação. Não há uma preocupação investigativa, uma  curiosidade teórica, o que já permitiria uma formulação de ideias sensatas e menos impregnadas de preconceito. 

quarta-feira, julho 11, 2018

A noite de 10/07/2018 e a apresentação da OSTNCS

Ontem, felizmente, fui ao Cine Brasília assistir à apresentação da Orquestra Sinfônica do Teatro Nacional Cláudio Santoro (OSTNCS). É fato de grande e relevante acontecimento existir uma orquestra de boa qualidade, mantida com o dinheiro público - mesmo com as dificuldades que são típicas, com os desafios que são diários para aqueles que fazem a orquestra. A arte no Brasil é um elemento sempre secundário. Há uma imensa falta de interesse e preocupação por parte das autoridades. Todavia, na contramão disso tudo, ainda há bons espetáculos sendo patrocinados pelo poder público.

A existência de uma sinfônica é motivo de privilégio para a cidade de Brasília. O público tímido sempre comparece. Alguns acostumados; outros, chegam desconfiados. O público que escuta a chamada música clássica é bastante pequeno no Brasil - ainda. Há determinadas mistificações que acabam afastando as pessoas comuns desse tipo de música. Primeiro é preciso entender que música é música. O nome "clássico" não deve ser um fato impeditivo. Só é possível se abrir à "música clássica", ouvindo e ouvindo cada vez mais. Tudo o que é novo acaba por provocar um estranhamento, mas é preciso insistir. 

O Cine Brasília raramente fica cheio. Ontem havia um número maior de convidados. Uma explicação talvez seja a presença do regente espanhol José Luis Castillo, um sujeito de mãos ágeis e com um senso de domínio da orquestra que impressionou. Outro fato para a presença do público, quiçá, tenha sido o nome dos compositores - Moncayo, Manuel de Falla e Jean Sibelius. Falarei um pouco sobre cada um deles, bem como se deu a execução de suas respectivas obras.

A obra de abertura foi o dançante o Huapango, de Pablo Moncayo, compositor mexicano, um dos mestres do nacionalismo do seu país, ao lado de Silvestre Revueltas e Carlos Chávez. O Huapango é uma obra mágica. Possui uma fragrância mexicana típica. Os temperos da terra, os ventos mornos e as cores do céu estão derramadas e impregnadas no ritmo enérgico e nas melodias agradáveis. A obra foi escrita em 1941. O huapango é um gênero musical mexicano. No caso em questão, Moncayo foi influenciado pelo huapango do estado de Veracruz. Existem outros com certas características.

A segunda obra foi o Sombrero de tres picos, do espanhol Manuel de Falla, outro importante compositor nacionalista. A obra foi baseado no livro homônimo de Pedro Antonio de Alárcon. Vale mencionar que foram apresentadas apenas as suítes do balé. A obra de Manuel de Falla possui uma beleza temperada com a essência do azeite espanhol, das touradas e do vento mediterrâneo. A obra do espanhol foi escrita em 1919.

A terceira obra da noite foi a Sinfonia número 3, do compositor finlandês Jean Sibelius. Trata-se de um dos trabalhos sinfônicos do finlandês de que mais gosto. Sibelius escreveu ao todo sete sinfonias e uma quantidade considerável de poemas sinfônicos. O finlandês não possui uma obra grandiosa. Dizem até que ele queimou inúmeras partituras. Sua prometida Sinfonia no. 8 foi  uma promessa que nunca se cumpriu. É possível que ele tenha realizado um esboço da obra, mas acabou por liquidá-la. O certo é que a Sinfonia No. 3 é um trabalho bastante característico do compositor. É comum perceber como seus trabalhos possuem certos atributos que o aproximam de Carl Nielsen, outro compositor nórdico. O tema do movimento inicial acaba se encontrando no último movimento. No caso da Sinfonia no. 3, há apenas três movimentos. O primeiro e o último movimentos possuem pontos em comum. O segundo movimento é uma incógnita, um campo vasto com presságios cinzentos. Esse movimento é contrastado pelo primeiro e pelo último movimento, que são mais luminosos. 

Devo assentir que a noite foi de grandes emoções. Havia uma atmosfera belíssima de compositores que buscavam trabalhar temas nacionais. Sibelius foi aquele que mais distou desse aspecto. Todavia, vale mencionar que a obra de Sibelius é um hino de reverência à sua bela Finlândia. Quem quiser perceber o quanto a Finlândia é bela com os seus imensos fiordes, florestas escuras, aves selvagens e estreitos de tirar o fôlego é só escutar a música de Sibelius. Assistir a uma apresentação daquela de tão alto nível patrocinada pelo estado é um grande privilégio.


sexta-feira, junho 29, 2018

Algumas palavras sobre "A Utopia", de Thomas Morus

Realizei mês passado, um dos meus grandes objetivos de leitor amador: deliciar-me com A Utopia, de Thomas Morus. Devo ter em minha singela biblioteca três edições do famoso livro escrito no período do Renascimento: uma edição da Ediouro, adquirida há bastante tempo; uma segunda da Autêntica, com edição bilíngue (latim e português) e uma belíssima encadernação adquirida em fevereiro deste ano; e uma terceira da L&PM, adquirida em Goiânia este ano. Foi justamente esta última que li. A edição da editora gaúcha traz a tradução de Paulo Neves e um texto bastante agradável. 

Thomas Morus é uma figura relevante da história intelectual dos últimos quinhentos anos. Foi amigo de Erasmo de Roterdã, outro intelectual de peso do período renascentista. Erasmo foi um importante teólogo e filósofo católico do período. Era um profundo conhecedor dos escritos clássicos. Erudito de profissão, Erasmo escreveu O elogio da loucura e o dedicou a Thomas Morus. O livro de Erasmo, ícone do humanismo cristão, é uma das minhas paixões. Lido há muito tempo, tensiono revisitá-lo. Tenho, também, três edições do livro grande humanista. 

Morus ocupou importantes posições políticas à época em que viveu. Possuía formação em advocacia, profissão que exerceu por certo tempo em Londres. Demonstrou estar bastante à frente do seu tempo, exigindo que sua primeira esposa estudasse. Seu objetivo era casar com alguém que tivesse condições de conversar com ele. Buscou conciliar suas atividades políticas com a vida de dedicação aos estudos. Figura bastante respeitada, tornou-se membro do Parlamento, vindo a ser conselheiro do rei Henrique VIII, em 1518. Alcançou, mais tarde, duas funções eminentes dentro do reino: presidente  do Parlamento e lorde-chanceler, a posição política de maior prestígio dentro do reino, quebrando uma tradição: foi a primeira vez que alguém alcançou o posto sem que viesse da nobreza nem fosse prelado. Morus ficou pouco tempo no cargo - de 1529 a 1532. Acabou por tomar partido nas intrigas políticas, religiosas e matrimoniais de Henrique VIII.

Thomas Morus era um abnegado católico. Henrique era casado com Catarina de Aragão, viúva de seu irmão. Apesar do enlace, o rei desejava de forma ardente se unir a Ana Bolena, dama de companhia de Catarina. Diante desse imbróglio amoroso, Henrique VIII solicitou o divórcio ao papa Clemente VII. Em situações plácidas, o papa o concederia. Havia, porém, um problema: em plena Reforma, o papa queria o apoio de Carlos V (sobrinho de Catarina), o homem mais poderoso da Europa. Carlos  V não queria o divórcio e, o papa, para não perder o seu apoio, decidiu não conceder a solicitação de Henrique VIII. Em 1532, o monarca rompe com o papado e se declara chefe da Igreja na Inglaterra por meio do Ato de Supremacia. Surgia a Igreja Anglicana. Em 1534, com a elaboração do Decreto de Sucessão, que dava à Isabel, filha de Henrique VIII com Ana Bolena, a herdeira do trono, Morus se viu enredado numa situação complicada. Tendo sido chamado para prestar reconhecimento a esse documento, acabou recusando, sendo condenado consequentemente à morte. Foi decapitado no dia 6 de julho de 1534. Em 1886, foi reconhecido como mártir e canonizado em 1935. A Igreja o reconhece como um modelo de pessoa que não tem a sua consciência traída, mesmo em face da arbitrariedade. Ele é, assim, alguém com firme convicção na Igreja e na liberdade individual. 

É importante entender este pano de fundo, para que se torne mais claro seu objetivo com um texto como A Utopia. Morus aborda a questão da cidade. É importante mencionar que Platão já fizera isso  em A República, por exemplo. A cidade é assim o seu espaço de reflexão e preocupação. O estilo de A Utopia veio a ser precursor desse tipo de literatura. Mais à frente, surgiriam outras obras com "finalidades utópicas" - principalmente, A nova Atlântida (Francis Bacon) e A Cidade do Sol (Tommaso Campanella). 

O livro é dividido em duas partes. É somente na segunda parte que encontramos a descrição de Utopia. A primeira parte é uma análise da Europa da época de Morus. Três personagens participam do diálogo - o próprio Morus, Pierre Gilles e Rafael Hitlodeu, que, na segunda parte do livro, contará a sua experiência na famosa ilha de Utopia. Desta forma, a primeira parte debate o porquê da desigualdade e da violência no continente europeu. Outro ponto discutido é a miséria na Inglaterra e seu corolário de injustiças sociais. É contundente a pergunta encontrada: "Que outra coisa vocês fazem, pergunto, senão fabricarem vocês mesmos os ladrões que a seguir enforcam?" Nota-se nesse sentido, que a miséria é fabricada por um sistema social injusto, que produz os pobres e, a seguir, acaba por condená-los.

A primeira parte é uma apresentação da situação real da Inglaterra, com a sua carga injusta de mazelas sociais. Na segunda parte, encontra-se a resposta, a antídoto contra as injustiças sociais de um sistema que tem, como consequência, o triunfo de alguns e recrudescimento da situação dos pobres. O discurso da segunda parte é idealista. Estrutura-se no ajuste, na tentativa de resolver os verdadeiros problemas que assolavam a Inglaterra: fome, desemprego, miséria, prostituição, ociosidade.

A sociedade descrita na segunda parte é estritamente comunal. Ao mencionar o termo "comunal" não se deseja explicitar uma relação de semelhança com os movimentos revolucionários surgidos no século XX. O comunismo de Morus está adstrito à coletivização da propriedade, ou seja, a comunitarização das riquezas. Para ele, a propriedade privada dos meios de produção seria o agente causador dos males sociais.

Há um desprezo pelos metais preciosos como, por exemplo, ouro e prata, tão desejados no século XVI, período das Grandes Navegações. As grandes potências da época - Portugal, Espanha, Inglaterra - disputavam a primazia da descoberta de novas terras e a exploração de metais preciosos, principalmente o ouro. Em Utopia esses metais são transformados em penicos ou algemas para escravos. Os utopianos riam daqueles que ostentavam esses metais com o objetivo de se passarem por imponentes e importantes.

Existem inúmeras regras que tornam a ilha de Utopia um espaço que busca a simplicidade e a cordialidade entre os seus habitantes. Um exemplo é a possibilidade dos habitantes trabalharem apenas seis horas por dia, investindo o outro espaço de tempo em lazer e formação intelectual. Outros costumes também divergem das práticas hodiernas aos dias de Morus. Quando alguém ia casar, fazia-se necessário que, na presença de uma pessoa idônea, a noiva ficasse nua para o noivo - vice e versa. Com essa prática buscava-se evitar qualquer problema futuro para o casal.

A sociedade ideal de Morus apresenta os limites da percepção e dos costumes do seu autor. Algumas das defesas sugeridas no livro soariam como ofensivas para um sujeito do século XXI. Um exemplo seria de a sociedade está assentado no respeito aos anciãos, aos pais etc, ou seja, numa clara defesa do patriarcado, apesar de Morus ser um homem à frente do seu tempo. É conhecida defesa dele à possibilidade das mulheres estudarem, algo incomum para a época, como mencionado acima. Outro fato é a presença dos escravos em sua obra. A indagação que surge é: como uma obra que se funda na busca de igualdade e no impedimento de injustiças, defenda a possibilidade de uma estrutura escravista? E outra: Morus era um ardoroso defensor em sua obra da igualdade entre os homens, mas atribui aos escravos determinadas práticas que os transformam em seres inferiores, menores, em relação aos cidadãos utopianos. Um exemplo é o fato destes sacrificarem animais. O argumento de Morus é que os cidadãos deveriam ser afastados da prática de atos que levassem à violência ou à incitação desta. Caberia a determinadas pessoas, o exercício dessas atividades "inferiores". Um verdadeiro paradoxo com o sentido da obra.

Um resposta é possível: como o padrão para Morus e muitos intelectuais da época era o período clássico - Grécia e Roma - defendia-se a manutenção do modelo do modo produção dessas sociedades. É conhecida, por exemplo, a existência da dependência dos escravos na Antiguidade. os escravos realizavam as mais variadas atividades. Eram a força econômica, o veículo de tração, que levava o desenvolvimento. Morus, talvez, tenha se inspirado nesse modelo surgido no período clássico, dentro do modo de produção asiático, mais tarde substituído pelo modelo feudal, assentado em um outro tipo de relação.

A Utopia é um livro instigante. Muitas das suas afirmações são provocadoras. Mesmo tendo sido canonizado pela Igreja Católica e ter se tornado uma figura de respeito dentro da Santa Sé, os soviéticos ergueram uma imagem em respeito à obra do pensador inglês. Morus se mostra à frente do seu tempo por pensar em uma sociedade que lidasse de maneira séria com a desigualdade material, fator de relevante desumanização. Todavia, a obra deve ser lido com os limites que lhe são próprios. Afinal, Morus olhava para história com as percepções do seu tempo. Utopia é mais do que uma obra que descreve uma sociedade fictícia como o próprio nome sugere, é o marco que funda o debate sobre uma sociedade em que a justiça e igualdade sejam forças estruturantes - ainda com o surgimento do capitalismo. A preocupação de Morus é o ser humano e sua dignidade. Sua relevância para o pensamento político e filosófico são indiscutíveis.


quinta-feira, maio 31, 2018

Dois comentários sobre Ciro Gomes e a candidatura do PT

De uma conversa que tive com o grande Charlles Adriano Campos:

(1)

Acabei de assistir à entrevista do Ciro no Roda Viva. Com todas as críticas que se possa fazer ao Ciro, vejo que ele é uma alternativa viável para que não caiamos de vez no abismo. Não digo que ele seja o salvador, o messias redivivo, capaz de nos levar a uma 'parousia. Todavia, Ciro demonstra sensatez, ideias que beneficiam os mais pobres; ideias capazes de tirar o Brasil da convivência com o absurdo das contradições histórico-sociais que nos fazem um país de otários enxugadores de gelo em um cenário de caos. Penso que o erro estratégico do PT é continuar insistindo em malhar o ferro frio. Dói dizer isso, mas Lula é um ponto fora da curva. As oligarquias do país utilizaram as instituições do Estado - principalmente PF, MPU e Judiciário - para aniquilar aquele que é a maior figura política do país, tendo a grande mídia como um centro propagador de narrativas. O PT precisa ser mais pragmático. Precisa pensar no país. Ter uma visão mais prudente, honesta, sobre a conjuntura política que nos envolve. O problema do PT é de pretensão hegemônica. Ele não quer permitir uma figura maior, capaz de obumbrar suas intenções eleitoreiras. Reunir todos os potenciais partidos de esquerda e montar uma ampla coalizão seria a solução. Ciro reúne as prerrogativas para encabeçar o movimento. Boulos, apesar de um sujeito inteligente, de boa índole, ainda não alcançou as credenciais para ocupar esse posto. Observando por viés altamente crítico de quem tem acompanhado o Partido- e com a mais repleta melancolia adstringente -, sou de acreditar que num eventual segundo turno em que o PT não estivesse, a presunção venceria. Imagine um segundo turno entre Ciro e Bolsonaro, seria bem possível que o PT ficasse neutro, um erro perigoso para quem tem apenas pretensões hegemônicas sem pensar no pacto social brasileiro que está se esfarelando desde o golpe de 2016.

(2) 

Charlles Adriano Campos, existem muitas questões que devem ser consideradas: (1) Lula é a própria alma do PT. É um membro em um organismo. O PT teria enormes dificuldades de viver sem ele. Ao longo dos anos o Partido não constuiu uma outra liderança com a sua densidade. (2) Vejo os principais líderes do Partido falando com uma crença inexpugnável de que Lula está no páreo. Eu não sei de onde vem essa fé. Não percebo qualquer movimento no Judiciário. O STF não votará nada que beneficie o Lula até a eleição. Ele ficará no ostracismo. Essa é a tática do jogo. (3) Lula sumiu dos noticiários dos jornalões. A intenção é fazer com que haja um esquecimento da sua pessoa. As próprias pesquisas realizadas pelo "mainstream" midiático não são comentadas ou anunciadas. A ideia é o esfacelamento da memória. (4) Ao não abrir mão da candidatura do Lula, a intenção do PT, talvez, seja mitificar o seu líder. Produzir um Mandela à brasileira. Criar um constrangimento internacional. (5) O Golpe de 2016 não foi dado para permitir o retorno do PT ao poder. Claro, com Lula haveria possibilidade de diálogo, da costura de alianças. Lula é habilidoso. Mas, os donos do poder sabiam que essa era uma possibilidade substantiva, por isso encamparam essa perseguição ao ex-presidente. (6) A suposta tentativa de gerar constrangimento internacional direcionado aos detratores de Lula, é um cálculo bastante ingênuo. Os algozes do PT não têm pudicícia, decoro; eles não ficam constrangidos. Não estamos lidando com donzelas de convento. Estamos lidando com uma plutocracia parasitária e que não gosta de pobre. (7) Ao ignorar a conjuntura, o PT, o partido com maior penetração social de nossa história, expõe a sociedade a uma ameaça terrível. Qual é o perigo? Que um fascistoide, apedeuta e mentecapto leve as eleições. O PT agarra-se a uma crença nas instituições viciadas, como se vivêssemos na Suécia ou no Canadá. (8) A resolução de criar de criar uma frente ampla para derrubar o Golpe de 2016, deveria ser uma questão de primeira ordem. O país vive uma crise social terrível. As candidaturas atomizadas de esquerda apenas fortalecem a marcha da direita e da extrema direita, que não se deixam levar por ingenuidades e por devaneios.

https://www.facebook.com/charllesadriano.campos/posts/465718127196141?comment_id=465771077190846&notif_id=1527803870301293&notif_t=feedback_reaction_generic
 

terça-feira, maio 29, 2018

A culpa pela crise

A situação de crise pela qual o Brasil passa exige mais que uma reflexão. É necessário fazer um balanço apurado, sensato, acurado dos atores e do contexto em que eles estão metidos. Um governo fraco, ilegítimo, aviltado pela própria condição intrínseca de que dispõe, não consegue sair do atoleiro. 

A greve dos caminhoneiros escancarou um problema sério do pacto social brasileiro. Vivemos em um país frágil, com uma população perdida no próprio transe da exploração. Nossa história prova o quanto somos alienados de todos os processos. O quanto que os mandatários do país foram responsáveis pela criação de determinadas narrativas, impedindo o acesso dos amplos setores de desfavorecidos à dignidade. 

Em momentos como este que vivemos, em que notamos o tensionamento de forças sociais, percebemos o quanto a política de espoliação da coisa pública é nociva para a sociedade. É praxe no Brasil a criminalização do Estado, um perigoso exercício que inverte a verdadeira responsabilidade pelos prejuízos sociais. Um Estado forte é um componente necessário para que a sociedade tenha condições de minimizar os seus principais problemas. 

Em sua jornada pelo senso-comum, o homem médio não questiona as forças atuantes do deus mercado. Este como sempre, é apontado como a solução para os nossos dilemas; que é só deixar nas mãos do mercado, que um milagre acontece. Verdadeiramente, um mercado forte, com toda a sua a potência predatória e um Estado sem freios como o nosso, provoca caos social e situações como a que enfrentamos no presente momento. 

Ao aplicar um golpe na presidenta eleita pela vontade popular (Dilma Rousseff), Temer e seus consortes desejavam a instalação de um projeto que fulminasse de vez com os direitos sociais dos trabalhadores brasileiros, além de precarizar a atuação dos órgãos, instituições e agências estatais. O objetivo era o beneficiamento do mercado. Congelar os gastos do Estado em áreas estratégicas. Fazer uma reforma trabalhista impopular, precarizando ainda mais a situação do trabalhador. Ou seja, criar uma espiral de reformas, cuja finalidade fosse exaurir, extorquir; tornar o trabalho e o trabalhador em meros objetos descartáveis. 

Ainda era intenção da gana neoliberal de Temer, realizar a famigerada reforma previdenciária, que lançaria, por vez, o Brasil numa ambiência medieval. Uma vez realizada nos moldes propostos pelo governo, certamente seria a condenação de boa parte dos brasileiros - principalmente os mais pobres - a uma condição análoga à escravidão. 

Um golpe não é um acontecimento isolado, sem ramificações e implicações políticas e sociais sérias. O arrocho sempre faz com que aquele que está sendo agredido, reclame, reaja de alguma forma. Sem base popular, Temer se ver numa encruzilhada, gerada como consequência do seu modus operandis. Sabe-se que o movimento de criminalização da política gerou efeitos deletérios. O governo não consegue dialogar. Patina em sua própria fraqueza. Sofre de inanição por causa de sua pequenez. No desejo de se ver livre do que afirmam ser "corrupção", determinados grupos "acenam" para os militares. Solicitam uma intervenção militar, o que resultaria numa crise mais séria do que o golpe na democracia acontecido em 2016. 

O pedido por intervenção é um gesto de ignorância dos mais profundos. Em um país como o Brasil, onde o Estado Democrático de Direito é uma miragem, a saída nunca pode ser pela via medonha do militarismo. Existe no imaginário do homem médio a ideia de que os problemas do país devem ser resolvidos pela força, pelo simples fato de nunca ter visto uma solução plausível para os dilemas do país. Como já afirmado, sempre houve a flagrante criminalização da política e do Estado. Nunca há o questionamento: "Qual é a parcela de culpa do deus mercado nisso tudo?" Boa parte dos agentes do mercado atuam com interesses mesquinhos na relação com o Estado. O Estado, como ente que aglutina os interesses da sociedade, é que é a vítima, pois a função dos agentes do mercado é a expropriação do fundo público, resultado dos impostos daqueles que produzem riqueza no país. 

Trata-se assim de uma crise que possui enraizamento sistêmico. Não se trata apenas de uma greve com feições pontuais. Não é evento desgarrado de outros acontecimentos. O simples fato de o governo insistir em manter a política de preços da Petrobras, sacrificando impostos necessários à manutenção financeira de áreas estratégicas, para, simplesmente, não contrariar os interesses dos acionistas da empresa é uma comprovação do quanto o mercado precede os interesses da sociedade. 


sexta-feira, maio 25, 2018

Uma resposta


Escrevi isso em um grupo de WhatsApp:

Markim, a Petrobrás é uma sociedade de economia mista. O que isso significa? Que é uma empresa de capital bipartido. Ou seja, você pode comprar ações da Petrobrás; qualquer pessoa pode se tornar um acionista. Todavia, o governo é o acionista majoritário. É diferente, por exemplo, de uma Caixa Econômica que possui capital 100% público. A política adotada nos anos do PT, desatrelava a Petrobrás da flutuação do dólar. O governo ditava as regras do jogo. Com isso, a Petrobrás não tinha os lucros que os acionistas exigiam. Era uma forma de o governo segurar os preços do mercado interno. 

Só que existe um problema: isso é uma ofensa para os adeptos do neoliberalismo. O estado, segundo eles, não deve interferir na economia. Uma empresa do porte da Petrobrás, com o potencial que possui, não pode ficar refém das decisões governamentais. Esquecem os pulhas - ou pelo menos não consideram por má-fé - o artigo 173 da CF: "Ressalvados os casos previstos nesta Constituição, a exploração direta de atividade econômica pelo Estado só será permitida quando necessária aos imperativos da segurança nacional ou a relevante interesse coletivo, conforme definidos em lei". A empresa é pública, logo ela possui uma relevante função social. Se você for se inteirar sobre o que o governo Temer está fazendo a Petrobrás, gera uma profunda indignação. 

O governo está vendendo refinarias e as empresas satélites da Petrobrás. Adivinha quem compra? As gigantes europeias ou estadunidenses. Peguemos, por exemplo, a Statoil, uma petroleira estatal norueguesa. Jamais que o governo norueguês permitirá que seja feito com a Statoil o que o governo brasileiro faz com a Petrobrás. A Statoil comprou parte dos campos do pré-sal. Por que esse interesse? Porque para se fazer um país forte como a Noruega, as estatais são essenciais. Estado norueguês regula boa parte da sua economia. Aqui, queremos colocar em prática modelos que faliram a Grécia, a Islândia e tudo mais.  Boa parte dos prejuízos da Petrobrás são resultado da desconfiança dos investidores por causa da devassa irresponsável da Operação Lava Jato, e não do modelo anteriormente aplicado nos governos petistas.

 A Petrobrás é a maior empresa pública do país. Foi criada por Getúlio Vargas para ter uma função estratégica na economia, hoje ela está sendo fatiada; preocupa-se em ser apenas mais uma empresa para satisfazer a lascívia dos neoliberaloides. Outra: o brasileiro no geral não sabe das coisas. Alimenta-se diariamente do que a mídia corporativa com suas informações viciadas noticia. 44% dos brasileiros não leem; a leitura dos brasileiros, quando realizada, oscila da autoajuda aos temas pouco problematizadores. O brasileiro faz piada com tudo e pouco politiza qualquer debate. Entende que política é um tema desnecessário. Afinal, foi vendida a ideia de que político não presta e herdamos de Sérgio Buarque de Holanda e Raimundo Faoro, como diz Jessé de Souza, que tudo que se refere ao estado é ruim. Quando o brasileiro toma partido, aproxima-se dos extremos, dos radicalismos, vide os defensores do Bolsonaro. É claro que num cenário desses, o senso-comum vai prevalecer.

terça-feira, maio 22, 2018

Sobre uma classe média marrenta e burra

Hoje é comum encontrar um médico com pressa de chegar em casa para assistir ao Big Brother Brasil, um engenheiro prostrado em sua sala vendo programas de auditório de domingo, ou advogados e professores ansiosos para o lançamento do próximo Vingadores, filme de maior bilheteria da indústria cultural.

Uma pesquisa divulgada em 2016 mostra que 44% dos brasileiros não leem, e que 30% nunca compraram um livro. Portugueses já estão criticando a enxurrada de brasileiros que estão desembarcando em terras lusitanas, dizendo que os recém-chegados, em muitas situações, se “acham melhores do que as outras pessoas, ‘apesar de terem baixíssima cultura e civilidade’”, segundo o jornalista Sidney Rezende.

Curiosamente foi o PT que criou essa “nova classe média”, um grupo que saiu da classe D para a classe C devido ao aumento, exclusivo, do poder de compra. Lógico que o poder de compra leva a um acesso maior aos bens culturais produzidos e herdados historicamente. O número de brasileiros que frequenta a faculdade aumentou consideravelmente nos anos 2000. Mas por que o brasileiro continua inculto?

O pensamento estruturalista de Clifford Geertz e Raymond Williams entende “cultura” como redes de significações nas quais está suspensa a humanidade, ou como um sistema significante do qual uma ordem social é comunicada, reproduzida, experienciada e explorada. Mas, e aqui concordo com Terry Eagleton, “a cultura não é alguma vaga fantasia de satisfação, mas um conjunto de potenciais produzidos pela história e que trabalham subversivamente dentro dela”.[1] A neófita classe média parece desprezar o contato com esses sinais herdados historicamente.

Sim! Ao sair da classe D, faz questão de negar o que acha inferior, mas não consegue absorver os elementos mais “sofisticados”. Vê o pobre como inculto, ignorante, mas será que é tão diferente assim? Talvez o poder de compra a tenha contaminado, espiritualmente falando. Contudo, não podemos negar que ela corre atrás de cultura, pois busca estudar, se especializar, viajar etc., mas é uma cultura para ter trabalho e lazer, que jamais permitirá a inversão desse processo: o trabalho e o lazer para se ter cultura.

Adquire o conhecimento útil, apenas o que serve para o trabalho e, assim, obter poder de compra. Estuda, faz faculdade para ter um bom emprego e só. Cultura para trabalho e não trabalho para cultura. Essa classe média enche suas redes sociais com fotos de viagens, geralmente com legendas ligadas a diversão e ao lazer. Não pretende apreender a cultura dos lugares que visita, o “conjunto de potenciais produzidos pela história”, como disse Eagleton. É uma cultura que está para o lazer e a diversão e que jamais conceberá o lazer e a diversão para a cultura.

É uma classe que avilta tanto a cultura que coloca o dinheiro acima de qualquer manifestação interpretativa do real. Talvez por isso os professores são tão menosprezados atualmente, pois com o salário que recebem, não podem ser tão confiáveis assim. Confiam mais em comediantes, atletas e youtubers endinheirados que na fala de um especialista assalariado.

Não estou dizendo que a pessoa não pode ir ao cinema ou consumir o que quiser apenas para se divertir, mas que os instrumentos disponíveis por ela, em muitos casos, para interpretar o que vê, não estão tão distante dos das crianças que só têm “como atração o bar e o candomblé pra se tomar a bênção”.

O mercado se aproveitou dessa “cultura” de classe média e intensificou uma indústria cultural que vende o que a mantém mentalmente na posição que está (enojando a produção cultural dos debaixo, e invejando a vida material dos de cima). Na produção excessiva de séries e filmes, uma ideologia que foca na liberdade de consumo é venerada, provocando risos, lágrimas e catarse. Além de cultuar a tecnologia, um dos principais alvos do seu exagero consumista.

A classe média critica o modo de vida da “ralé” (termo usado pelo sociólogo Jessé Souza), sua religião, sua música, a humilha na atividade laboriosa, esbanja sua soberba e superioridade, mas é inculta, não lê, e se contenta com análises superficiais da política, da economia e da sociedade que vive.

Como disse Terry Eagleton, a cultura produz elementos que podem ser usados contra ela mesma, isto é, subversivos. No entanto, essa classe que está mais preocupada em gastar em objetos que não passam de símbolos que esnobam uma superioridade alienada e alienante, não é capaz de criticar o que consome, apenas reproduz uma condição social e mental que seja supostamente útil para diferenciá-la das classes desprivilegiadas.

A partir da década de 1960, cultura passou a significar a afirmação de uma identidade, seja ela nacional, sexual, regional etc. A comercialização dessas identidades pela indústria cultural trouxe uma tolerância de fachada, consumidora apenas, que na prática, na troca simbólica do dia a dia, não mudou muita coisa. Essa classe média, principal consumidora dessa indústria, representa muito bem isso. Além disso, essa “cultura das identidades”, representada e apropriada pelas séries da Netflix e pelos filmes de Hollywood, desprezou as contradições da classe trabalhadora, ajudando a construir, na mentalidade dessa classe média, um ódio ao pobre maior que ao gay, ao negro, à mulher etc.

Contudo, quando esse grupo pensa em mudança, não almeja ir para frente, mas voltar a um passado de quando não era classe média, quando o que chama de “ordem” vigorava, quando aqueles que veneram (ricos empresários e poderosos “dignos”, como militares e alguns políticos entreguistas) eram “justos”, quando era menos arriscado consumir, embora a cultura fosse reprimida…

A ascensão social gerada pelo governo Lula produziu uma classe acéfala que presa mais pela condição de consumidor que a de cidadão. Que adquire cultura o suficiente para o trabalho, mas que não trabalha para adquirir cultura. Que gasta em cultura para adquirir prazer e não em prazer para adquirir cultura. Desta maneira, a arrogância encontra diversos hospedeiros que vomitam soberba e proliferam o ódio de classe.


*Raphael Silva Fagundes é doutorando do Programa de Pós-Graduação em História Política da Uerj e professor da rede municipal do Rio de Janeiro e de Itaguaí.

A crise na Venezuela

Vídeo bastante honesto sobre a crise na Venezuela. Carece de outras mediações, já que algumas informações foram suprimidas. Mas consegue co...