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terça-feira, junho 28, 2022

Algumas palavras sobre "Medida Provisória", de Lázaro Ramos

 

Tive a oportunidade de assistir ao polêmico filme “Medida Provisória” de Lázaro Ramos. A obra estreou comercialmente em abril de 2022. Chamou atenção pela força do debate que suscita. Afinal, o longa aponta para um dos problemas mais caros à formação do Brasil – a condição e a posição do negro em uma sociedade desigual, onde o racismo atua em uma dimensão recôndita dessa mesma sociedade, dissimulada pelo credo hipócrita de uma suposta democracia racial.

O Brasil ao longo de sua história construiu muros invisíveis de segregação. A dramática questão da inserção do negro em uma sociedade que conviveu com a escravidão durante mais de trezentos anos, sempre foi um dilema. Nunca houve efetivamente uma abolição com o sentido que a palavra exige. A abolição jurídica não significou uma abolição no campo material e social. Os negros continuam invisibilizados. São eles os que mais morrem nas periferias. São eles que ganham os menores salários. São eles que sofrem o drama da falta de moradia. São eles que ocupam majoritariamente as prisões. São eles que possuem os menores índices de formação escolar.

A condição do negro em uma sociedade verticalizada como a sociedade brasileira sempre foi subalterna. O país sempre se mostrou um verdadeiro caldeirão de impasses e demandas reprimidas. Após a abolição de 1888, a simples “liberação dos negros” que viviam em condições sub-humanas nas fazendas, não representou uma resposta à altura para as necessidades desses mesmos atores. Antes, escravos; agora, livres. O que isso significava?  Cada um ficou à sua própria sorte.

Nós, cidadãos do século XXI, não temos ideia de como foi essa passagem. Antes, um humano em condição subalterna e inferior. Afinal, os negros eram tratados como animais de carga. Realizavam todo tipo de trabalho pesado. Havia uma negativa para que nem mesmo os negros lessem ou escrevessem. A força dessa estrutura cria impedimentos para que o Brasil se torne uma verdadeira democracia; para que haja um verdadeiro combate às desigualdades seculares que acometem os mais pobres. Não há como o Brasil avançar sem que resolva a questão do negro.

Não há como um país construir um projeto de nação sem enfrentar esses dilemas. Há sempre uma memória saudosa da escravidão. Há no inconsciente coletivo do país, um olhar que busca criar distinção entre brancos e negros. Como se existisse uma dimensão valorativa baseada na cor da pele, ou seja, na quantidade de melanina existente em cada indivíduo.

O filme “Medida Provisória” cria uma distopia tropical. Em um futuro inominado, após o advento de políticas compensatórias (cotas), o país implementa uma decisão - via Parlamento – de repatriar os negros (aqueles com “melanina acentuada ou melaninados) para o continente africano. Vale mencionar que o filme lida o tempo todo com o intertexto. Há referências constantes a movimentos ou personagens que fizeram a história do país e que estão ligadas à história negra do Brasil – Capitu, Machado de Assis, Luiz Gama, Isabel etc. Há a ainda a referência ao momento político recente, com a referência ao golpe jurídico-parlamentar contra a presidente Dilma Rousseff.

A medida provisória é um dispositivo constitucional unipessoal, pertencente ao presidente da República. A medida tem efeito imediato e é usada para preencher uma necessidade sobre um tema urgente. A Câmara e o Senado posteriormente apreciam a matéria da medida, tornando-a em lei complementar ou, isso não ocorrendo, há uma perda de validade dos seus efeitos. No filme, a medida é sancionada. Os negros são obrigados a deixarem o país, numa flagrante violação constitucional. Conforme a Constituição de 88, nenhum brasileiro nato poderá ser expatriado. Trata-se de um expurgo. Uma medida nazificadora.

As forças policiais entram em ação para prender os resistentes. Quilombos modernos são formados com a uma nova denominação – “afrobunkers”. Nesses espaços, estrutura-se um espaço de resistência contra essa medida extrema. Duas personagens – André e Antônio -  ficam em um apartamento e o drama direcionado a esse eixo do filme busca criar o apelo dramático da obra.

Após ter visto o filme, fiquei com duas cambiantes impressões:

(1)    O filme é importante por trazer à luz um debate que precisa ser realizado em uma sociedade altamente seccionada como a nossa. É preciso erguer um país amplamente democrático e essa construção passa por um acerto de contas com a história. O filme preocupa-se em estruturar um enredo que inclua temáticas da negritude, que passam pelas músicas ou pelas vestimentas, por exemplo. O país possui uma dívida enorme para com os negros. Ignorar esse fato é desconsiderar a luta de milhões de negros ao longo da nossa história; é fechar os olhos para as violências que são perpetradas cotidianamente nas grandes cidades ou nos rincões afastados do Brasil profundo. O racismo estrutural é uma força que se aglutina nos espaços vários da sociedade brasileira e que acaba por orientar as relações sociais, políticas, institucionais do país. O racismo é um cimento posto nas estruturas da sociedade brasileira.

 

(2)    Olhando por outra perspectiva, a obra deixou muito a desejar. Não consegui ficar empolgado. Senti um grande incômodo à medida que via. O enredo apresenta fragilidades. Há uma profusão de elementos da cultura negra que são gratuitamente mostrados sem uma mediação. Um expectador pouco afeito ao assunto, não entenderá os elementos simbólicos trabalhados na obra. Há a percepção de que alguns temas são trabalhados de maneira forçada ou descuidada, o que acaba por resultar em um grande clichê. Essa percepção, talvez, seja oriunda da falta de orçamento. Com um séquito de participações especiais, ou seja, de pessoas que não são atores profissionais, algumas atuações são bem ruins. Há como que uma saturação de elementos, mas que pouco dizem; algumas sutilezas que são insinuadas de forma desconectada. Vale mencionar que nessa perspectiva, o filme funciona como uma produção para o sujeito que assiste à obra aponte os problemas do país, mas que não se situe como cidadão, como alguém que compõe a sociedade que está sendo criticada. Afirma-se isso pelo fato da intenção crítica do filme não corresponder àquilo que é prometido. Afinal, o objetivo da obra é propor uma discussão que problematize o racismo estrutural da sociedade brasileira. A obra fica comprometida no aspecto dramático. As atuações são fracas ou pelo menos não conseguem criar suspense, tensão, fazendo com que a experiência de ver o filme não seja um evento impactante. O filme promete muito, mas entrega pouco. Fica uma percepção negativa de que esteve, durante uma hora e quarenta, vendo algo repleto de clichês; barulho sem catarse.  A direção frouxa da narrativa cria um constrangimento – pelo menos foi assim que me senti em alguns momentos: constrangido. Até mesmo nas cenas de ação, em que deveria haver conflito, tensionamento, percebe-se que não empolga. A cena final, que demonstra uma perseguição, é uma das mais acintosamente constrangedoras; daquelas cenas que enrubescem alunos de ensino fundamental pelo amadorismo na condução.

A opinião final que fica é a de que há uma superestimação da obra.  Trata-se de um panfleto político com muito barulho, mas de um conteúdo mal aglutinado e superficialmente trabalhado.

 

domingo, setembro 05, 2021

"A doce vida", de Federico Fellini


“A Doce Vida” é uma produção cinematográfica do ano de 1960, dirigida por Federico Fellini. É uma obra cuja atualidade e a reflexão atordoante impressionam. A inescapável trilha sonora – presente como um personagem – é de Nino Rota. O filme (que possui aproximadamente três horas) é um teste denso de paciência para o espectador, porquanto somos lançados em um labirinto de vaidades. Vi-o lentamente, em vários momentos. A genialidade de Fellini se derrama pela obra. 

A produção em preto em branco esbanja beleza. As personagens são bonitas. Jovens. Ricas. Saudáveis; no vigor da potência sexual. Estamos na Via Veneto. Há festas badaladas. Extravagâncias. Exotismos. Marcello, o personagem principal da obra, vive de evento em evento; é um jornalista que cobre esses acontecimentos faustosos da sociedade italiana. É um homem de singular beleza. Mete-se em vários namoricos dispersivos. Esses relacionamentos voláteis são desfeitos com bastante pressa. 

A cena tórrida de Marcello Mastroianni com Anita Ekberg, na Fontana de Trevi

Há fotógrafos para todos os lados – os paparazzis – dispostos a registrarem o próximo “furo” sobre celebridades ou, quem sabe, um escândalo que alimentará o “mainstream” ou público sedento por novidades. É visível que a obra está permeada por um pessimismo, por um niilismo. Aquelas fatuidades não levam a lugar nenhum. Geram apenas vazio. O filme é uma crítica mordaz à sociedade do espetáculo. É imensamente atual, pois, em tempos de Instagram e de outras redes sociais, cada sujeito constrói a noção equivocada de que ele é o centro de um espetáculo. 

Dentro de um microcosmo construído por uma teia tênue, há a necessidade das “curtidas” para que esse gatilho gere prazer. A expressão “La dolce vida” é uma metáfora do prazer superficial, repleto de um charme fugidio. E, nesse sentido, é uma metáfora que explica as sensações geradas por uma sociedade que vive em torno da imagem e que se alimenta das impressões causadas por ela. “Doce”, mas de final amargo.

sábado, agosto 06, 2016

Pokémon Go e a falsificação do real

Não quero acreditar que se trate apenas de envelhecimento e casmurrice exacerbada de minha parte; ou ainda de uma personalidade assentada no mau-humor, que se indispõe contra todas as novidades, alegando uma suposta conspiração de forças secretas, dispostas a dominarem o mundo. Quero crer que não se trata disso. Peremptoriamente, não. O fato é que não consigo tirar da cabeça a indisposição contra a nova atração da indústria cultural do entretimento: o Pokemón Go. O jogo inventado pela Nintendo tem capturado a atenção de indivíduos de todas as faixas etárias e criado, mais uma vez,  uma febre como o foram a Macarena ou o Lepo Lepo. É uma espécie de "A coisa", aquele filme da década de oitenta, que mostrava um iogurte de marshmallow que se transformava em um sucesso comercial, uma febre coletiva, mas, que no fundo, era uma força de outro mundo que dominaria o planeta.

Pelo que li, o jogo é baseado em dados virtuais de geolocalização. O jogador precisa instalar o jogo no celular e sair à cata de "monstrinhos" que vão surgindo como desafios a serem capturados. Assim, o sujeito recebe os dados para localização do ente virtual, observa as informações geográficas que são disparadas por coordenadas e, com a tecnologia do celular - câmera, GPS etc - vai, meio que bestializado, à procura da nova aventura. 

Quando vejo algo assim, vem-me à mente aquela passagem da Odisseia em que Ulisses precisa enfrentar as sereias. Desejando ouvir as criaturas mágicas sem enlouquecer, Ulisses pede para ser amarrado ao mastro do navio e solicita aos seus marinheiros que tapem os ouvidos com cera para não serem atingidos pelo feitiço, ou seja, pelo canto enganador. As sereias eram entidades que se travestiam de mulheres belíssimas, encantadoras, que se colocavam em determinados locais. Quando avistavam viajantes desatentos, iniciavam um canto maravilhoso que acabava por enfeitiçar aqueles que as escutavam. Uma vez capturado pelo força inebriadora do canto, o sujeito tornava-se uma presa fácil e era devorado pelas sereias. No fundo, aquelas entidades eram monstros terríveis. 

Essa história ilustra como em uma sociedade capitalista é preciso manter-se atento "ao canto das sereias" da idiotização. O quanto é necessário refletir a nossa relação com o mundo real. Jogos como Pokemon Go expõem o quanto o capitalismo precisa criar "fugas" do mundo material. O quanto é preciso confundir materialidade com virtualidade, fazendo com que esta última, em sua dimensão enfeitiçadora, torne-se mais significativa que o mundo desigual em que vivemos. Ao se confundir, por meio de uma indução os elementos do real e os elementos da aparência das coisas, cria-se uma falsificação do mundo real e das coisas reais. Assim, a falsificação é poderosa, pois desvia a atenção do sujeito para aquilo que não é, fazendo com que o real se esconda ou não seja desejado. O "espectro do virtual" torna-se mais interessante. Essa "confusão" é induzida e não deve ser entendida como gratuita. O que a indústria cultural do capital mais deseja é manter os indivíduos expostos ao canto enfeitiçador do entretenimento fácil e falto do uso da razão; da suspensão do juízo crítico.

Adorno e Horkheimer, no clássico A dialética do esclarecimento, afirmam que uma das estratégias do capital é a produção de uma indústria cultural. Neste enquadramento, "o indivíduo é ilusório não apenas por causa da padronização do modo de produção. Ele só é tolerado na medida em que sua identidade incondicional com o universal está fora de questão" (p.128). Ou seja, a consciência de si é um dado inexistente. O sujeito desvia o olhar de si para elementos externos à sua condição. Padroniza-se a realidade, convence-se o sujeito por meio da celebração dos espetáculos e das mercadorias, que existe uma naturalização do mundo tal qual ele é. Vive-se, assim, uma ditadura "do falseamento" criada pela imanência do estilo de vida criada pelo capital.

No filme O show de Truman (1998), de Peter Weir, a personagem Truman encenada por Jim Carrey, vive em um mundo de faz de conta. Ele não sabia quem era. Suas ações cotidianas, seus sentimentos, suas relações sociais estavam confinadas a um esquematismo de uma equipe de televisão que o mantinha preso dentro de um estúdio, vivendo uma espécie de reality show para divertir os telespectadores. Desde criança, Truman havia sido confinado naquele cenário. Ele era apenas um joguete, uma objeto manipulável, sem consciência de si, da sua condição, de sua origem, de sua história pessoal. Com o tempo a personagem passa a desconfiar de que algo "estranho" acontecia, que os eventos sempre se repetiam. Mas, todas as vezes que buscava uma pista que explicasse o seu drama pessoal, os questionamentos em torno de sua história, os organizadores do programa (a força externa e coercitiva), impedia a sua busca.

Jogos como Pokemon Go são formas dissimuladas de criar zumbis. Ele preenche o vazio criado pelo capital - o vazio que é o grande ethos de nossa época. Consome-se tudo de forma suína. Não distingue-se o produto, o artefato, o objeto, tudo vira matéria para distração. Engole-se qualquer coisa. Tudo é novidade. E o novo em sua rutilância tem a capacidade de seduzir. Poucos são os viajores do mar da história que prestam atenção "à música que escutam". Poucos são aqueles que distinguem a melodia enfeitiçadora que produz estragos. Poucos são aqueles que conseguem perceber o véu de falsificação produzido pela indústria que banaliza sujeitos e os transformam em títeres dóceis e zumbificados. 

É preciso atentar para a advertência de Ulisses. 

quarta-feira, julho 09, 2014

Futebol e rasteira - de ontem, hoje e sempre

"A rasteira! Este, sim, é o esporte nacional por excelência!"
 Graciliano Ramos

Não sou um especialista em futebol. Acompanho alguns jogos. Dou os meus pitacos. E costumo me entusiasmar quando o São Paulo ganha. Claro, nos últimos anos o time tem amargado uma série de insucessos desastrosos. Sou da opinião de que isto é resultado da má gestão que vem lá da presidência do clube. Um time bem acertado em campo é sinal de que possui uma boa administração interna; que há planejamento; a parte financeira traduz transparência, lisura e o resultado pode ser visto em campo. Resgato aquela máxima vulgar de Aristóteles: "O homem é um animal político". E como não poderia deixar de ter uma certa resplandecência nessa frase, o futebol por ser uma produção do engenho humano, também, passa pela política. 

Não entendo nada de esquema tático. Sou um crítico acintoso. Às vezes, dou minhas cabeçadas em opiniões desajustados. Todavia, vez ou outra, me pego vendo uma daquelas partidas de meio ou de final de semana. É assim. Mas, curiosamente, desde que havia começado a Copa, eu me vi metido em um ceticismo colossal. Não senti entusiasmo algum por tudo aquilo que foi desenhado com garranchos à guisa de se transformar em algo grandioso, valoroso, pelos homens sabidos de nossa terra.

O futebol é um esporte que contagia pela sua própria natureza. Ele contraria a lógica do corpo e da razão humana. É praticado com os pés. Sendo que os pés são utilizados para manter o equilíbrio corporal e, com o auxílio das pernas, nos levar aos mais variados lugares. Por que não o praticamos com as mãos? Elas são mais nobres. Sem elas, não teríamos chegado ao nível de civilização a que desfrutamos. Contudo, talvez, se o fizéssemos não teria a mesma graça. As mesmas pernas que somente "servem" para conduzir, para levar, são capazes de promover danças mágicas, bailes desnorteadores no adversário como fazia um Garrincha, por exemplo.

O futebol chegou por aqui no final do século XIX, trazido pelos engenheiros ingleses e durante as primeiras décadas do século XX foi esporte das elites. Dizia Graciliano Ramos em uma crônica de época, vociferando com sua pena irônica contra o esporte: "Não seria, porventura, melhor exercitar-se a mocidade em jogos nacionais, sem mescla de estrangeirismo, o murro, o cacete, a faca de ponta, por exemplo?" Lima Barreto por não ser branco foi um dos mais destacados detratores do novo esporte.

Com o passar do tempo, o futebol se tornou uma unanimidade nacional. Existe até uma sociologia do povo brasileiro a partir do futebol, como o fez Roberto da Matta. Há no brasileiro uma capacidade para o improviso, para a dança, para o gingado, herança vinda da África. Tais prerrogativas foram úteis ao novo esporte que por aqui chegou. É um esporte que se adaptou bem ao jeitinho do brasileiro. Acostumamo-nos a isso. Nosso sucesso reside nesta plasticidade do brasileiro e que também é parte inviolável do esporte.

O Brasil é uma das pátrias mais apaixonadas por este esporte. Todavia, uma fragilidade estrutural, que se relaciona com a política, colocou os apaixonados pelo esporte de sobreaviso. Ou seja, o futebol brasileiro enfrenta uma crise séria - da seleção, passando pelos clubes da série A, à última série. Ontem, foi um dos dias mais amargos para a história do futebol brasileiro. Não existe registro histórico de tão grande derrota. O Brasil havia perdido por 6X0 para o Uruguai, mas isso havia se dado ainda no início do século XX. Existem alguns fatores a serem colocados:

(1) aquele que diz respeito a um contexto mais imediato, ou seja, o do próprio jogo. A mídia, talvez, seja a responsável por um trabalho psicológico negativo, já que ela vende produtos e com isso se conecta ao interesse das grandes empresas. Vendeu-se desde o início da Copa a mensagem de que esta seria a competição do Neymar. Ela, nesse sentido, trabalhou contra o time criando especulações; fazendo um movimento negativo; gerando um entusiasmo que não deveria existir, pois o time era ruim. Os jogadores cantaram o hino nacional segurando a camisa de Neymar, como se ele estivesse morto ou fosse a taça da competição. Jogo é estratégia e concentração. E nesse sentido, o time brasileiro estava com os pensamentos em outro espaço. Ao tomar os gols, como se pôde ver, houve uma desestabilização, uma desarticulação psicológica. Questões psicológicas foram determinantes para a derrota brasileira e para a vitória alemã.

(2) apesar de o Brasil ser uma país onde se joga o futebol mais bonito do mundo, a administração do esporte por aqui precisa passar por uma mudança. Ainda existe o mito de que se tem o herói, o messias redentor, capaz de decidir a partida a qualquer momento, como se trabalhou o tempo todo em torno de Neymar. A Alemanha provou que essa tese é ultrapassada. Já caducou. Hoje, quem manda no futebol joga coletivamente. É o espírito de equipe. A mídia precisa de heróis para criar marketing. O futebol brasileiro deve refletir a sua condição. Olhar para o desenvolvimento que as outras equipes conquistaram. Afinal, foi uma Copa em que o equilíbrio foi reinante em boa parte das partidas. Simplesmente, porque houve o entendimento de que "esquema tático também ganha jogo". 

(3)  em texto amplamente divulgado pela mídia pela internet, o ex-jogador Romário fez críticas contundentes ao modo como o futebol tem sido conduzido no Brasil nas últimas décadas. Ao ler o texto, fiquei com a impressão de que os gestores do futebol brasileiros são mafiosos, que vivem dos saldos gordos que o nome Seleção Brasileira gera. Imagino as centenas de milhões que são rolados com patrocínios e direitos. Trata-se, com certeza, de uma agremiação que precisa de toda a atenção por parte dos torcedores. Boa gestão repercute no campo; e má gestão, idem. 

Os brasileiros sentiram uma melancolia nunca antes imaginada. Amargaram no dia seguinte ao jogo uma verdadeira ressaca moral. A Copa pode ensinar uma lição: teremos um segundo semestre árduo. As eleições começam a avultar no horizonte. Em poucas semanas será o assunto do momento. Esqueceremos o fiasco futebolístico. Outras torcidas vão se armar. Alguém terá que pagar o resultado dos gastos. Vislumbro um resto de ano bastante enigmático. E daqui a dois anos as Olimpíadas serão por aqui. Ou seja, mais gastos e novas euforias. Somos um país estranho. Termino esse texto bambo com uma citação completa da epígrafe, que serve de metáfora para o momento atual: 

A rasteira! Este, sim, é o esporte nacional por excelência!"
Todos nós vivemos mais ou menos a atirar rasteira uns nos outros. Logo na aula primária habituamo-nos a apelar para as pernas quando nos falta a confiança no cérebro - e a rasteira nos salva. Na vida prática, é claro que aumenta a natural tendência que possuímos para utilizarmos eficientemente a canela. No comércio, na indústria, nas letras e nas artes, no jornalismo, no teatro, nas cavações, a rasteira triunfa.
Cultivem a rasteira, amigos!
E se algum de vocês tiver vocação para a política, então, sim, é a certeza plena de vencer com auxílio dela. É aí que ela culmina. Não há político que a não pratique. Desde S. Exa. o Senhor Presidente da República até o mais pançudo e béocio coronel da roça, desses que usam sapatos de trança, bochechas moles e espadagão da Guarda Ncional, todos os salvadores da pátria têm a habilidade de arrastar o pé no momento oportuno.
Muito útil, sim senhor.
Dediquem-se á rasteira, rapazes.

terça-feira, maio 28, 2013

Para se conhecer 'o que é o Brasil" - por Antonio Candido

Há alguns dias atrás me chegou este maravilhoso artigo. A pessoa que me indicou foi bem feliz. Fazia bastante tempo que desejava uma bibliografia com nomes imprescindíveis para compreender o Brasil, o meu país - sua história, suas tragédias, seus agravos. Alguns dos livros que aparecem na lista eu já possuo. A recomendação faz um escrutínio sistemático e meticuloso pelos vários períodos da história brasileira. O texto é do inominável Antonio Candido, um dos nomes mais profícuos da produção de ideias aqui no Brasil no século XX. Ele sabe do que fala. Vale a pena correr atrás das dicas, como eu já começo a fazer com aquelas obras que ainda não possuo.

É importante conhecer nossa história para que nos entendamos; para que compreendamos nosso jeitinho; nossa propensão à canalhice; nossos impulsos carnavalescos; nossas mancadas nacionalistas; nossa tendência a não nos levarmos a sério; nossas desigualdades; para que não sejamos vítimas de uma ignorância que nos impulsiona a fazer afirmações preconceituosas, numa construção parti pris que serve para consolidar uma visão deformada de nós mesmos - como todos os dias vemos a grande mídia fazer. Boa leitura!

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Quando nos pedem para indicar um número muito limitado de livros importantes para conhecer o Brasil, oscilamos entre dois extremos possíveis: de um lado, tentar uma lista dos melhores, os que no consenso geral se situam acima dos demais; de outro lado, indicar os que nos agradam e, por isso, dependem sobretudo do nosso arbítrio e das nossas limitações. Ficarei mais perto da segunda hipótese.
"Como sabemos, o efeito de um livro sobre nós, mesmo no que se refere à simples informação, depende de muita coisa além do valor que ele possa ter. Depende do momento da vida em que o lemos, do grau do nosso conhecimento, da finalidade que temos pela frente. Para quem pouco leu e pouco sabe, um compêndio de ginásio pode ser a fonte reveladora. Para quem sabe muito, um livro importante não passa de chuva no molhado. Além disso, há as afinidades profundas, que nos fazem afinar com certo autor (e portanto aproveitá-lo ao máximo) e não com outro, independente da valia de ambos.
Por isso, é sempre complicado propor listas reduzidas de leituras fundamentais. Na elaboração da que vou sugerir (a pedido) adotei um critério simples: já que é impossível enumerar todos os livros importantes no caso, e já que as avaliações variam muito, indicarei alguns que abordam pontos a meu ver fundamentais, segundo o meu limitado ângulo de visão. Imagino que esses pontos fundamentais correspondem à curiosidade de um jovem que pretende adquirir boa informação a fim de poder fazer reflexões pertinentes, mas sabendo que se trata de amostra e que, portanto, muita coisa boa fica de fora. 
São fundamentais tópicos como os seguintes: os europeus que fundaram o Brasil; os povos que encontraram aqui; os escravos importados sobre os quais recaiu o peso maior do trabalho; o tipo de sociedade que se organizou nos séculos de formação; a natureza da independência que nos separou da metrópole; o funcionamento do regime estabelecido pela independência; o isolamento de muitas populações, geralmente mestiças; o funcionamento da oligarquia republicana; a natureza da burguesia que domina o país. É claro que estes tópicos não esgotam a matéria, e basta enunciar um deles para ver surgirem ao seu lado muitos outros. Mas penso que, tomados no conjunto, servem para dar uma ideia básica.
Entre parênteses: desobedeço o limite de dez obras que me foi proposto para incluir de contrabando mais uma, porque acho indispensável uma introdução geral, que não se concentre em nenhum dos tópicos enumerados acima, mas abranja em síntese todos eles, ou quase. E como introdução geral não vejo nenhum melhor do que O povo brasileiro (1995), de Darcy Ribeiro, livro trepidante, cheio de ideias originais, que esclarece num estilo movimentado e atraente o objetivo expresso no subtítulo: “A formação e o sentido do Brasil”.
Quanto à caracterização do português, parece-me adequado o clássico Raízes do Brasil (1936), de Sérgio Buarque de Holanda, análise inspirada e profunda do que se poderia chamar a natureza do brasileiro e da sociedade brasileira a partir da herança portuguesa, indo desde o traçado das cidades e a atitude em face do trabalho até a organização política e o modo de ser. Nele, temos um estudo de transfusão social e cultural, mostrando como o colonizador esteve presente em nosso destino e não esquecendo a transformação que fez do Brasil contemporâneo uma realidade não mais luso-brasileira, mas, como diz ele, “americana”. 
Em relação às populações autóctones, ponho de lado qualquer clássico para indicar uma obra recente que me parece exemplar como concepção e execução:História dos índios do Brasil (1992), organizada por Manuela Carneiro da Cunha e redigida por numerosos especialistas, que nos iniciam no passado remoto por meio da arqueologia, discriminam os grupos linguísticos, mostram o índio ao longo da sua história e em nossos dias, resultando uma introdução sólida e abrangente.
Seria bom se houvesse obra semelhante sobre o negro, e espero que ela apareça quanto antes. Os estudos específicos sobre ele começaram pela etnografia e o folclore, o que é importante, mas limitado. Surgiram depois estudos de valor sobre a escravidão e seus vários aspectos, e só mais recentemente se vem destacando algo essencial: o estudo do negro como agente ativo do processo histórico, inclusive do ângulo da resistência e da rebeldia, ignorado quase sempre pela historiografia tradicional. Nesse tópico resisto à tentação de indicar o clássico O abolicionismo (1883), de Joaquim Nabuco, e deixo de lado alguns estudos contemporâneos, para ficar com a síntese penetrante e clara de Kátia de Queirós Mattoso, Ser escravo no Brasil (1982), publicado originariamente em francês. Feito para público estrangeiro, é uma excelente visão geral desprovida de aparato erudito, que começa pela raiz africana, passa à escravização e ao tráfico para terminar pelas reações do escravo, desde as tentativas de alforria até a fuga e a rebelião. Naturalmente valeria a pena acrescentar estudos mais especializados, como A escravidão africana no Brasil (1949), de Maurício Goulart ou A integração do negro na sociedade de classes (1964), de Florestan Fernandes, que estuda em profundidade a exclusão social e econômica do antigo escravo depois da Abolição, o que constitui um dos maiores dramas da história brasileira e um fator permanente de desequilíbrio em nossa sociedade.
Esses três elementos formadores (português, índio, negro) aparecem inter-relacionados em obras que abordam o tópico seguinte, isto é, quais foram as características da sociedade que eles constituíram no Brasil, sob a liderança absoluta do português. A primeira que indicarei é Casa grande e senzala (1933), de Gilberto Freyre. O tempo passou (quase setenta anos), as críticas se acumularam, as pesquisas se renovaram e este livro continua vivíssimo, com os seus golpes de gênio e a sua escrita admirável – livre, sem vínculos acadêmicos, inspirada como a de um romance de alto voo. Verdadeiro acontecimento na história da cultura brasileira, ele veio revolucionar a visão predominante, completando a noção de raça (que vinha norteando até então os estudos sobre a nossa sociedade) pela de cultura; mostrando o papel do negro no tecido mais íntimo da vida familiar e do caráter do brasileiro; dissecando o relacionamento das três raças e dando ao fato da mestiçagem uma significação inédita. Cheio de pontos de vista originais, sugeriu entre outras coisas que o Brasil é uma espécie de prefiguração do mundo futuro, que será marcado pela fusão inevitável de raças e culturas.
Sobre o mesmo tópico (a sociedade colonial fundadora) é preciso ler tambémFormação do Brasil contemporâneo, Colônia (1942), de Caio Prado Júnior, que focaliza a realidade de um ângulo mais econômico do que cultural. É admirável, neste outro clássico, o estudo da expansão demográfica que foi configurando o perfil do território – estudo feito com percepção de geógrafo, que serve de base física para a análise das atividades econômicas (regidas pelo fornecimento de gêneros requeridos pela Europa), sobre as quais Caio Prado Júnior engasta a organização política e social, com articulação muito coerente, que privilegia a dimensão material. 
Caracterizada a sociedade colonial, o tema imediato é a independência política, que leva a pensar em dois livros de Oliveira Lima: D. João VI no Brasil (1909) eO movimento da Independência (1922), sendo que o primeiro é das maiores obras da nossa historiografia. No entanto, prefiro indicar um outro, aparentemente fora do assunto: A América Latina, Males de origem (1905), de Manuel Bonfim. Nele a independência é de fato o eixo, porque, depois de analisar a brutalidade das classes dominantes, parasitas do trabalho escravo, mostra como elas promoveram a separação política para conservar as coisas como eram e prolongar o seu domínio. Daí (é a maior contribuição do livro) decorre o conservadorismo, marca da política e do pensamento brasileiro, que se multiplica insidiosamente de várias formas e impede a marcha da justiça social. Manuel Bonfim não tinha a envergadura de Oliveira Lima, monarquista e conservador, mas tinha pendores socialistas que lhe permitiram desmascarar o panorama da desigualdade e da opressão no Brasil (e em toda a América Latina).
Instalada a monarquia pelos conservadores, desdobra-se o período imperial, que faz pensar no grande clássico de Joaquim Nabuco: Um estadista do Império(1897). No entanto, este livro gira demais em torno de um só personagem, o pai do autor, de maneira que prefiro indicar outro que tem inclusive a vantagem de traçar o caminho que levou à mudança de regime: Do Império à República(1972), de Sérgio Buarque de Holanda, volume que faz parte da História geral da civilização brasileira, dirigida por ele. Abrangendo a fase 1868-1889, expõe o funcionamento da administração e da vida política, com os dilemas do poder e a natureza peculiar do parlamentarismo brasileiro, regido pela figura-chave de Pedro II. 
A seguir, abre-se ante o leitor o período republicano, que tem sido estudado sob diversos aspectos, tornando mais difícil a escolha restrita. Mas penso que três livros são importantes no caso, inclusive como ponto de partida para alargar as leituras. 
Um tópico de grande relevo é o isolamento geográfico e cultural que segregava boa parte das populações sertanejas, separando-as da civilização urbana ao ponto de se poder falar em “dois Brasis”, quase alheios um ao outro. As consequências podiam ser dramáticas, traduzindo-se em exclusão econômico-social, com agravamento da miséria, podendo gerar a violência e o conflito. O estudo dessa situação lamentável foi feito a propósito do extermínio do arraial de Canudos por Euclides da Cunha n’Os sertões (1902), livro que se impôs desde a publicação e revelou ao homem das cidades um Brasil desconhecido, que Euclides tornou presente à consciência do leitor graças à ênfase do seu estilo e à imaginação ardente com que acentuou os traços da realidade, lendo-a, por assim dizer, na craveira da tragédia. Misturando observação e indignação social, ele deu um exemplo duradouro de estudo que não evita as avaliações morais e abre caminho para as reivindicações políticas. 
Da Proclamação da República até 1930 nas zonas adiantadas, e praticamente até hoje em algumas mais distantes, reinou a oligarquia dos proprietários rurais, assentada sobre a manipulação da política municipal de acordo com as diretrizes de um governo feito para atender aos seus interesses. A velha hipertrofia da ordem privada, de origem colonial, pesava sobre a esfera do interesse coletivo, definindo uma sociedade de privilégio e favor que tinha expressão nítida na atuação dos chefes políticos locais, os “coronéis”. Um livro que se recomenda por estudar esse estado de coisas (inclusive analisando o lado positivo da atuação dos líderes municipais, à luz do que era possível no estado do país) éCoronelismo, enxada e voto (1949), de Vitor Nunes Leal, análise e interpretação muito segura dos mecanismos políticos da chamada República Velha (1889-1930). 
O último tópico é decisivo para nós, hoje em dia, porque se refere à modernização do Brasil, mediante a transferência de liderança da oligarquia de base rural para a burguesia de base industrial, o que corresponde à industrialização e tem como eixo a Revolução de 1930. A partir desta viu-se o operariado assumir a iniciativa política em ritmo cada vez mais intenso (embora tutelado em grande parte pelo governo) e o empresário vir a primeiro plano, mas de modo especial, porque a sua ação se misturou à mentalidade e às práticas da oligarquia. A bibliografia a respeito é vasta e engloba o problema do populismo como mecanismo de ajustamento entre arcaísmo e modernidade. Mas já que é preciso fazer uma escolha, opto pelo livro fundamental de Florestan Fernandes,A revolução burguesa no Brasil (1974). É uma obra de escrita densa e raciocínio cerrado, construída sobre o cruzamento da dimensão histórica com os tipos sociais, para caracterizar uma nova modalidade de liderança econômica e política. 
Chegando aqui, verifico que essas sugestões sofrem a limitação das minhas limitações. E verifico, sobretudo, a ausência grave de um tópico: o imigrante. De fato, dei atenção aos três elementos formadores (português, índio, negro), mas não mencionei esse grande elemento transformador, responsável em grande parte pela inflexão que Sérgio Buarque de Holanda denominou “americana” da nossa história contemporânea. Mas não conheço obra geral sobre o assunto, se é que existe, e não as há sobre todos os contingentes. Seria possível mencionar, quanto a dois deles, A aculturação dos alemães no Brasil (1946), de Emílio Willems; Italianos no Brasil (1959), de Franco Cenni, ou Do outro lado do Atlântico (1989), de Ângelo Trento – mas isso ultrapassaria o limite que me foi dado.
No fim de tudo, fica o remorso, não apenas por ter excluído entre os autores do passado Oliveira Viana, Alcântara Machado, Fernando de Azevedo, Nestor Duarte e outros, mas também por não ter podido mencionar gente mais nova, como Raimundo Faoro, Celso Furtado, Fernando Novais, José Murilo de Carvalho, Evaldo Cabral de Melo etc. etc. etc. etc". 
* Artigo publicado na edição 41 da revista Teoria e Debate – em 30/09/2000
Extraído DAQUI

sexta-feira, novembro 02, 2012

A vida de Brian , de Monty Python - obra cáustica e genial

Hoje à tarde dei boas risadas assistindo ao filme A vida de Brian, de Monty Python. Talvez tenha sido um dos melhores filmes com temática séria e história nonsense já inventado. A vida de Brian é considerado por muitos como um dos melhores filmes de comédia de todos os tempos. O resultado é cáustico. No fundo, o recurso intertextual da obra referencia outros filmes consagradas, constituindo-se numa espécie de anti-Ben-Hur ou uma sátira (o musical à americana do final) a Jesus Cristo Superstar (outra fantástica obra que satiriza os eventos bíblicos), de Llyod Webber Tim e Rice.

O grupo inglês ao produzir A vida de Brian fez uma crítica contudente a como se fecunda um mito ou como se cria uma ideia religiosa. O filme conta a história de Brian, que vive em uma época paralela à de Jesus. Brian se torna aliado a grupo separatista que luta contra a tirania do Império Romano. A obra possui dois momentos muito bem definidos: o destaque ao contexto histórico de como viviam os judeus e o segundo momento em que Brian é confudido com o messias. Uma multidão o segue como um grande sábio, mas ele foge de tudo isso. 

Mas, a história quer mostrar que Brian era alguém cuja missão não poderia ser abandonada (cena surreal é aquela em que ele cai dentro de uma nave espacial pilotada por alienígenas, que fogem  numa perseguição galática). Ele vive situações como as de Cristo (o que no fundo é uma sátira). Mete-se em muitas confusões após ter as suas palavras entendidas como profecias. Objetos dele são tidos como amuletos. Brian acaba sendo crucificado pelos romanos, numa referência clara a Cristo.

 O que impressiona nessa obra de crítica às avessas é o modo como ele refaz o caminho da criação de supostas ideias ditas infalíveis e santas. A vida de Brian critica o modo como as massas são oprimidas pela superstição e se deixam conduzir de maneira voluntária. Não é à toa que foi polêmico quando lançado. Muitos grupos religiosos se posicionaram criticamente contra a obra.

Umas das cenas mais fantásticas do filme é aquele em que ele fala à multidão certa manhã. A mensagem de Brian para multidão é emblemática. Após ter acordado, vai até a janela e se depara com a multidão que o espera - uma clara alusão aos textos bíblicos. Ele fala à multidão que nós somos responsáveis por nossa própria história; somos condutores de nosso próprio destino. Não devemos nos deixar conduzir. Somos humanos, históricos e isso nos dá uma tarefa: construir as pontes que nos levarão aonde ninguém é capaz de nos levar.

Certamente esse é um dos melhores filmes que eu já vi - furioso em sua descontraída história.

Abaixo, a cena épica na qual Pilatos (com dislalia) entrevista Brian. Ri muito com esta cena. Preste atenção nas subtilezas do diálogo. Uma paródia genial.