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quinta-feira, julho 16, 2015

Registro Crônico II

Livraria El Ateneo
Os argentinos à semelhança de muitos brasileiros nutrem uma relação prazerosa com a leitura. Estando em terras portenhas não deixei de perceber a relação que eles têm com os livros. Em praças públicas, em transportes coletivos, os argentinos lêem. Pude perceber uma quantidade satisfatória de livrarias. Não tive tempo, nos dois dias em que fiquei na cidade, de fazer uma investigação mais satisfatória nesse sentido. Havia outras ocupações. Mas, sempre que podia eu tentava visualizar uma loja de livros. Na verdade, ficava à cata delas. 

Os argentinos são respeitados por serem um povo culto. O número de intelectuais e escritores que colocaram o nome entre os mestres da literatura universal é bastante expressivo: Borges, Cortázar, Sabato, Bioy Casares, Juan José Saer, Manuel Puig; e, outros que ainda estão vivos como, por exemplo, Ricardo Piglia e César Aira. Com uma constelação tão grandiosa de nomes respeitáveis, é importante dizer que antes de ser escritor, era-se um leitor. Onde há bons leitores, existe a possibilidade de bons escritores. 

Caminhando pela Avenida Mayo, que liga o Centro à Casa Rosada, pude perceber alguns sebos. Visitei apenas um deles. Eu e minha esposa estávamos apressaados. Pude perceber sua impaciência. Esse estado de espírito acabou por lançar por terra minha relação promíscua com os livros da loja. Perscrutei apenas a sessão de literatura latino-americana, enquanto estava por lá. Acabei por comprar um exemplar – Anatomía Humana, de Carlos Chernov. 

Se os argentinos estão bem de livrarias, não estão tão bem com os preços. Assustei-me com os valores. Ás vezes, penso que os brasileiros depreciam o seu país em excesso. Se há uma crise ela ainda não é colapsante como querem nos fazer crer. Ainda estamos em uma situação confortável. Um real, hoje, é equivalente a três pesos. É uma relação 1/0,35. Ou seja, se eu tenho um real, compro apenas 35 centavos de peso. O dinheiro argentino está desvalorizado e a inflação tem solapado o poder de compra. Os livros estão numa esteira terrível. Alguns pockets (Leonardo Padura, Piglia, Borges etc) que olhei no Aeroporto de Ezeiza custavam em média 160 pesos – ou mais de cinqüenta reais. Observe: estou a falar de edições de bolso. 

O choque veio quando fui à Livraria El Ateneo, uma das mais famosas e visitadas da Argentina. Não somente por causa de seu tamanho, mas também pelo lugar que ocupa. O prédio onde está a livraria foi um teatro no passado. Aquelas galerias indicando o lugar do público permaneceram. Só que agora as galerias são povoadas por livros. Um verdadeiro deleite para os olhos. Encontrei lá algumas preciosidades. Quis comprar. Fui detido pela monta absurda. Explico: encontrei alguns livros. Peguei um Sabato (como não!), um livro de Mario Vargas Llosa, um estudo sobre a obra de Ghershwin e uma biografia de Mozart. Fui ao caixa. Pedi para efetuarem a soma. O estapafúrdio valor apareceu como uma mureta de contenção – quase novecentos pesos, ou seja, quase trezentos reais por quatro livros, que no Brasil custariam no máximo uns cento e vinte reais. Senti-me besta! Pensei imediatamente: “Se os argentinos lêem tanto assim com a prática de preços absurdos, eles, verdadeiramente, são heróis; amantes incansáveis do saber”. 

Ao final, abortei a intenção. Trouxe apenas dois livros – o Sabato (que deve ser uma sensação lê-lo em sua própria língua) e o estudo sobre a música de Gershwin. Tudo isso pela bagatela de Ar$ 450,00 (quatrocentos e cinqüenta pesos), cerca de R$ 150,00 – claro, sem o IOF da transação bancária. Alguém poderia inquirir: “Mas o livros não seriam grossos?, ao que responda: “Não!” Eram edições de pouco mais de duzentas páginas.

Algumas coisas não possuem respostas imediatas: nós temos livros mais baratos e não lemos tanto; eles têm livros mais caros e leem mais que a gente.

Aeroporto de Ezeiza, Buenos Aires – 13 de julho de 2015.

quarta-feira, dezembro 10, 2014

O cinema em novembro

O mês de novembro acabou. Sei. É uma obviedade desnecessária. O fato é que não cheguei fazer alguns daqueles comentários magros que me dispus a realizar. É que passei a levar o cinema muito a sério. Acabei fazendo uma daquelas promessas bobas, que geram obrigações pequenas, mas necessárias. Desde o mês de agosto, tenho visto, em média, dez filmes por mês. Mês passado eu assisti a treze no total. E o destaque fica por conta das produções argentinas. Foram cinco no total. Comentarei três desses filmes mais à frente - Relatos Selvagens, Um conto chinês e Medianeras - Buenos Aires na era do amor virtual

O primeiro filme que vi no mês de novembro foi Poesia (2010), de produção sul-coreana. Poesia é um filme delicado. É a história de uma senhora de 67 anos que resolve aprender poesia, ingressa em um curso e passa olhar o seu dia a dia com outra perspectiva. É um bonito filme! 

Dois filmes brasileiros apareceram no menu - Menino de Engenho (1965), que busca retratar um dos principais romances de José Lins do Rego. Quem já leu a obra vai perceber que essa produção do Cinema Novo, realizada por Walter Lima Jr. - e com participação na produção de Glauber Rocha - leva em conta os aspectos mais relevantes da obra do escritor paraibano. Trata-se de uma interpretação lírica da vida de Carlos Eduardo, o menino que vivia em meio aos canaviais do Engenho Santa Rosa e descobria os encantos da infância. A outra obra é Pra frente, Brasil (1982), que revela as arbitrariedades da Ditadura Militar no Brasil. O filme mostra como os cidadãos eram vulneráveis à selvageria e a brutalização patológica dos agentes do estado. Excelente filme - apesar de alguns problemas técnicos. 

Os outros filmes foram: O assassinato de Trotsky (1972), que mostra como o assassino covarde e de personalidade fraca e niilista matou, a mando das autoridades soviéticas, uma das mentes mais pujantes e brilhantes da primeira metade do século XX. Vi ainda o eletrizante Cidadão Kane (1941), de Orson Welles; Mel de Laranjas (2012), que aborda a vida de um soldado que tergiversa entre a vida como militar e como militante de um grupo esquerdista durante a Guerra Civil Espanhola. O bonito e delicado Pequena Jerusalém (2005), que mostra a vida de uma estudante de filosofia, amante de Kant, que tem que conviver, na periferia de Paris, com as tradições do seu povo e a austeridade da razão. Surge daí um conflito existencial. A obra mostra como a religião acaba delimitando o mundo das pessoas. 

Mas, o mês de novembro foi rico em produções argentinas, como enunciei no início. Disse há alguns dias que o cinema argentino está bem à frente do cinema nacional. Entre boas e excelentes atuações de Ricardo Darín, o cinema argentino "vai revelando" para o mundo boas histórias; enredos fortes e resultados de excelência. Vi, assim, Elefante Blanco (2012), que conta a história de um padre que trabalha em uma favela em Buenos Aires. Kamchatka (2002), talvez tenha sido, das produções que vi, aquela que se mostrou mais modesta. O filme narra a história de uma família que se ver perseguida e busca arrumar alguns esconderijos para que os filhos não percebam o que acontece durante o período da Ditadura Militar na Argentina. Nesse sentido, gostaria de fazer alguns comentários (não extensos) sobre três dessas produções: 

(1) Relatos Selvagens (2014) - já comentei sobre o filme em outro post, mas a obra se revela como um melhores filmes que vi nos últimos anos. O filme possui a cronicidade de um conto de Júlio Cortazar ou o poder labiríntico, enfeitiçante, de uma história de Borges. E penso que talvez resida aí a superioridade do cinema argentino. Se pesarmos a quantidade de escritores bons que saíram - e ainda escrevem - daquela terra, chegamos a uma conclusão: os argentinos sabem o que fazem em matéria de cinema e literatura. Um país que produziu um Borges, um Cortazar, um Sábato, um Adolfo Bioy Casares, um Alan Pauls, um Ricardo Piglia etc, com certeza, possui instrumentos inauditos para criar obras refinadas. Penso que essa querela criada pela imprensa brasileira em torno de uma suposta rivalidade, na verdade, seja um recalque - ou, ainda, uma isca futebolística com finalidades comerciais. Admitamos: os argentinos, do ponto de vista cultural, estão à nossa frente. Por exemplo, enquanto lemos, em média, 1,9 livros por ano, eles leem 7. 

(2) Um conto chinês (2011) - este filme é uma delícia. Mostra como a rotina draconiana do personagem encenado pro Ricardo Darín, acaba sendo balançada pelo inusitado. E, acima de tudo, revela como o inusitado (lei de Murphy?) pode juntar aquilo que está separado. Ou ainda: como o objeto que transforma a vida de alguém em tristeza, pode se transformar em ponto de encontro ou marco que dar início a uma nova jornada. Atuação genial de Darín. Excelente filme!

(3) Medianeras - Buenos Aires na era do amor virtual (2011) - Medianeras não é um filme feito apenas para a gente pensar. Há graça nele! Mas, o centro da obra é a vida citadina e seu niilismo que afasta as pessoas. A cidade é uma redoma de tensões, de separações, de encontros epidérmicos, casuais e aparências que ocultam aquilo que é mostrado na superfície. A vida na cidade é cercada pela deletério. Pelo medo. Pela enfermidade. O homem da cidade, conforme diz uma das personagens, é aquele que não consegue se afastar do vício virtual. "A internet me aproximou do mundo mas me afastou da vida". Cena curiosa é aquela em que uma das personagens vai lançar fora as fotos que estavam no celular e observa em palavras carregadas de efeitos reflexivos: "380 fotos; 38,9 megas de história são apagados num ato simples e irreversível", fazendo-nos pensar sobre como nossas existências estão presas a censores ou a transistores. Como a tecnologia se incorporou ao nosso próprio respirar. Medianeras são aqueles lados feios, caricatos, onde não se pode achar graça. Os lados esquecidos dos prédios que são aproveitados para afixar publicidades. O lugar onde não se pode colocar uma janela ou permitir que o ar entre. Pois, quem vive em uma cidade parece lidar constantemente com o fato de que as medianeras asfixiam a nossa vida.  Ou a própria medianera é uma metáfora da vida colapsada pela morbidez do niilismo. Não quero deixar aqui nenhum spoiler. Veja o filme, se há interesse em minha recomendação! Está no Youtube

quarta-feira, janeiro 29, 2014

G.K. Chesterton e "O homem que foi quinta-feira (um pesadelo)" - e outras coisas

Gilbert Keith Chesterton ou simplesmente G.K Chesterton foi um jornalista, teólogo, filósofo, provocador, romancista, polemista, apologeta do cristianismo, místico - ou tudo isso ao mesmo tempo. Sua figura descuidada o transformava em um cômico bonachão. Mas por trás desse muro amparentemente frágil estava um argumentador poderoso; um construtor habilidoso de paradoxos sensacionais; um grande pícaro que se desenredava com a agilidade de um acrobata de qualquer embaraço filosófico. São conhecidos seus debates públicos com sujeitos como Bernard Shaw ou H.G. Wells; este último, construtor de distopias assustadoras e ao mesmo tempo fascinantes; tais empreedimentos intelectuais de Wells com Chesterton tornaram-se um verdadeiro passatempo da vida nacional inglesa.

Era um prolífico escritor. Praticamente abordou "todos" os temas do seu tempo. Escreveu mais de cem livros. Lá no blog do Charlles, há uma resenha sobre um dos livros de Chesterton (que já comprei): A inocência do Padre Brown. Além de fazer menção à dívida do escritor argentino Jorge Luis Borges para com Chesterton, existe uma citação do autor de O livro de Areia sobre o escritor  inglês, encontrada na edição da L&PM: "A literatura é uma das formas de felicidade; talvez nenhum escritor tenha me proporcionado tantas horas felizes como Chesterton".

De Chesterton li apenas dois livros: Ortodoxia, apontado pelo mesmo Charlles e, o último, que terminei hoje, O homem que foi quinta-feira (um pesadelo). Não preciso de dizer que o estilo límpido, de uma celeridade inebriante, uma mobilidade de ações, um colorido de eventos que determinam um apego do leitor de forma incontinênti, prendeu-me até que devorasse as duzentas páginas da obra ontem e hoje. 

Caricatura de Chesterton
A história é prazerosa e repleta de lances irreais e simbólicos - um misto de suspense, mistério, romance policial e alegoria filosófico-teológica. Um policial amargurado por uma obstinação de infância, decide ingressar em uma organização supostamente criminosa de anarquistas. Sua intenção é muita clara - espicaçar os tentáculos da cepa de finórios, que cometia atentados contra a ordem com dinamites, também sendo conhecidos como "dinamiteiros". Após ter recebido o nome de Quinta-feira, passa a ser perseguido pelos membros da organização. Todavia, após ser perseguido por seis dos supostos criminosos, descobre que todos são agentes policiais disfarçados.

 
É na forma de conduzir o enredo, que percebemos a habilidade genial de Chesterton para contar uma história. Por exemplo, quando Syme (Quinta-feira) está sendo perseguido por um dos bandidos, que se transmudara em uma velha e decrépita criatura, somos conduzidos por labirintos asfixiantes. Por ruas vielas abandonadas e frias; por conduções desertas e com aspecto de desolação. Sentimos a agonia da própria personagem querendo escapar da presença do ente infernal. Para onde Syme ia, o velho amedrontador o seguia com sua bengala e sua postura de zumbi demoníaco. Até que este se revela a Syme e diz se tratar de um policial. 

Ecce Homo
O romance aborda uma série de problemas filosóficos - como já apontei. Entre eles, a obstinação que é capaz de nos cegar e nos transformar em autômatos, conduzidos para determinado desejo que, no fundo, se mostra desarrazoado; e também acerca da própria possibilidade de conhecermos alguma coisa, deixando-nos numa encruzilhada metafísica meio kantiana, meio platônica. É emblemática e salutar esta passagem do romance: 

"Mas escutem! - gritou Syme com extraordinária ênfase - Vou dizer-lhes qual é o segredo do mundo. É que do mundo só conhecemos as costas. Tudo é visto por trás, e por isso parece brutal. Isso não é uma árvore, mas as costas de uma árvore. Aquilo não é uma nuvem, mas as costas de uma nuvem. Não veem que tudo está voltado de costas e esconde o rosto? Se pudéssemos dar a volta e ficar de frente..."

Chesterton sabia contar uma história como ninguém. Possuía um controle da linguagem de forma incomum. Quem deseja ler um boa história - ou pelo menos, aprender como se constrói um bom romance - precisa ler o inglês. Ele morreu em 1936, mas deixou uma obra imorredoura que, aos poucos, começa a surgir por aqui em nosso país.

domingo, novembro 03, 2013

Mario Vargas-Llosa, um cidadão cosmopolita

Final de semana apenas de trabalho. Corrigindo provas. Elaborando testes para serem realizados nesta próxima semana que se inicia. Sem tempo para ler; para escrever. Apenas operando cálculos e sentenças que aturdem. Desemaranhando sentenças textuais. Acordando muito cedo. Dormindo muito tarde. O cansaço como companheiro infatigável. O mau humor como ferramenta de execução. Penso que esteja estressado. O que me salva é a música, que vou ouvindo para me des-alienar, para me desaturdir. Ai se não fosse ela, evocando Nietzsche e Schubert!!

Mas o fato de comparecer por aqui numa noite de domingo(sic.) é para falar sobre a entrevista que o escritor peruano Mario Vargas-Llosa realizou em maio último ao programa Roda Viva. Já tive a oportunidade de vê-la por duas vezes. E essa experiência me deixou impressionado. Separei duas vertentes do homem Vargas-Llosa após assistir à entrevista: 

(1) o político de posição liberal, crente na democracia como ela se apresenta. Nesse sentido, fiquei desconfiado dele. Não se trata de rechaçar completamente a sua posição; ou excluir completamente as suas ideias. Percebi a sua ojeriza a Hugo Chavez (e a Maduro, sucessor do líder bolivariano) e a Fidel Castro. A crítica aos regimes socialistas. Mas apesar de sua postura clara e honesta quanto a essas questões, o que me deixou impressionado foi a sua transparência, a capacidade de não esconder o seu pensamento político. Outro elemento importante no que diz respeito a isso, é o seu profundo conhecimento da América Latina. Quando menciona algo sobre o continente, fala na perspectiva da irmandade e do conjunto. Enxerga o continente latino-americano como um território que possui muitos elementos em comum.

(2) e o homem da literatura e é justamente esse homem que me fascinou. Apesar de possuir alguns livros dele: Batismo de Fogo, Pantaleão e as visitadoras, Os cadernos de Dom Rigoberto, Peixe na Água - memórias e A Guerra do fim do mundo. Este último é uma das minhas pretensões a futura leitura. O fato é que no próximo mês entrarei de férias e há uma programação com muitos livros a serem lidos: As viagens de Gulliver, umas três ou quatro biografias (Marx, Malcom X, Eric Hobsbawn, Rosa Luxemburgo, Gramsci etc) e muitos outros romances com o mesmo fim - espero que assim seja. Incluí nesta lista, comprei lá na Estante Virtual, Conversa na Catedral. Para muitos, esse é o maior romance escrito pelo peruano ganhador do Prêmio Nobel, em 2010.  Cada frase enunciada por Vargas-Llosa me encheu de admiração e prazer. É gostoso ouvi-lo falar. Suas enunciações revelam um amor profundo pela literatura.

Outra questão importante é o seu amor e conhecimento dos escritores latino-americanos. Falou de Cortázar, Garcia Marques, Neruda - são os que eu consigo lembrar. Cito de cabeça uma das suas frases sobre Borges: "Se existe um escritor latino-americano que, com certeza continuará a ser lido daqui a trezentos anos, este é Jorge Luis Borges". Vale mencionar ainda a sua paixão por escritores brasileiros. Citou pelo menos dois: Euclides da Cunha e Guimarães Rosa, a quem teve a oportunidade de conhecer. Vargas-Llosa é dono de uma bonomia incrível. É um cosmopolita a serviço do bom senso e da literatura. Mesmo quando não concordamos com ele, baixamos a cabeça em sinal de respeito às suas afirmações claras, polidas, envoltas no mais puro requinte literário. 

Intenções de leitura a fim de conhecer um pouco mais sobre Mario Vargas-Llosa: A guerra do fim do mundo e Conversa na catedral. Oxalá venha a dar certo!

quinta-feira, maio 17, 2012

Uma caixa com sabor ibero-americano

Hoje cedo, ao sair para trabalhar, por volta de seis horas da manhã, o porteiro do prédio onde moro afirmou que havia uma encomenda para mim - na verdade duas! A primeira: um livro de Julio Cabrera (Projeto de Ética Negativa) que comprara há alguns dias ; o segundo: uma caixa com 25 livros da Coleção da Folha - Literatura Ibero-Americana. 

Não regressei para levar o material para casa. Estava em cima da hora. Teria problemas se me detivesse em outras situações. Mas um prazer silencioso se apoderou de mim. Fiquei lembrando a caixa o dia todo. Dentro, 25 volumes de mundos silenciosos, com lombadas roliças e aquele cheiro característico de livro novo.

Por volta das cinco da tarde, ao sair do trabalho, fui esperar minha esposa em um shopping aqui da cidade e, enquanto esperava, acabei indo a uma livraria. Exercício para viciado que fica por horas e horas olhando aquelas lombadas coloridas nas prateleiras. Deti-me numa coleção da José Olympio. E fui fisgado por Hermann e Hesse e Virginia Woolf. Acabei trazendo a inglesa. Gostei de Cenas Londrinas, um livro de crônicas gestadas a partir do olhar da autora de Mrs. Dalloway. Material curto. De 70 a 80 páginas com aquele estilo lancinante da autora inglesa. 

Ao chegar ao prédio onde moro, peguei a caixa e subi feliz. Quando abri a caixa, encontro os livros de autores do mundo latino. Ou seja, aquele mundo ligado por laços históricos e linguísticos - Espanha e Portugal e a galáxia de países da América Latina. Dos 25 livros, possuía apenas dois títulos: As meninas, de Lygia Fagundes Telles e O túnel, de Ernesto Sábato. Alguns outros títulos eu pretendia ler como, por exemplo, Cinzas do Norte, de Milton Hatoum; Suícidios exemplares, de Vila-Matas; Memória de Elefante, de António Lobo Antunes; e Repiração Artificial, de Ricardo Piglia.

Há outros nomes importantes na coleção: Saramago (Ensaio sobre a lucidez); Borges (O livro de areia); Onetti (47 contos de Juan Carlos Onetti);  Roberto Bolaño (Estrela distante). Em suma: estamos diante de um grande empreendimento. Algo realmeente desafiador. 

Os livros são bem encadernados. Possuem capa dura, o que nos dá a impressão de uma edição de luxo. Os desenhos foram bem escolhidos. Realmente de boa qualidade. Penso que a Folha ao publicar estes livros nas bancas, queira se aproveitar do mote do momento: a literatura produzida nos países de origem latina está em alta. Esta semana, morreu o mexicano Carlos Fuentes. Os noticiários anunciaram o acontecido. Achei curioso tal fato. Isso apenas mostra que vivemos um momento em que os escritores desses países se estabeleceram. Porque os países da América Latina eram subdesenvolvidos, achava-se que a literatura também era subdesenvolvida. Em outros tempos, se achava que os bons autores tinham a sua origem no eixo Europa/Estados Unidos. Isso mudou.  Descortina-se um outro cenário.

Para a nossa sorte!

sábado, maio 05, 2012

Letras esparsas sobre Monsieur Pain de Roberto Bolaño

Roberto Bolaño é a sensação literária do momento. Todos aqueles que se intitulam bons leitores ou curiosos vorazes da literatura já o leram, estão lendo ou fazem projetos para lê-lo; ou também aqueles leitores diletantes e curiosos (meu caso), que tendo uma dívida enorme com o conhecimento da literatura, vão se apropriando tardiamente das novidades do universos mágico do texto literário. Não é para menos. Bolaño é viciante. Diga-se de passagem que ele resgata o lado selvagem da literatura. O lado underground de uma boa narrativa. O chileno consegue fazer um belo coquetel com o estilo borgeano e com Poe, com aquele tipo de texto eivado de mágica onírica e habilidade lancinante para descrever episódios.

Em Monsieur Pain, primeiro livro a que tenho acesso do escritor de 2666 (Raquel de Queiroz o chamaria de cartapácio) e Detetives Selvagens, reparei na beleza dos diálogos. Bolaño parece subverter aquela imagem de Paris como a "cidade das luzes", a cidade da arte; a sempre bela Paris, arrebatadora de gestos apaixonados. O livro escritor por Bolaño como um ensaio literário ainda no início da década de 80, possui uma atmosfera noturna, com becos asfixiantes, uma trama policialesca digna dos grandes escritores ingleses. Pain, o personagem principal da obra, é vítima de uma conspiração e acaba oscilando entre pensamentos filósoficos e terrores aziagos.

A Paris de Pain é aquela do final da década de 30. É Paris de chuvas intermitentes, de noctívagos contumazes. A narrativa nos apresenta ruas estranhas, perseguições, personagens enigmáticos, caminhos tortuososos e bares incidentais onde os personagens se enveredam por conversas habitadas por mistérios, sendo que logo em seguida após o sono da personagem Pain, segue-se o despertamento sempre permeado por uma atmosfera de suspeita de sonho. O clima de perseguição psicológica me faz lembrar de Kafka em O Processo.

Em suma: Bolaño constrói uma narrativa visceral, como na descrição da cena de um galpão abandonado, uma das melhores passagens do livro. A descrição apurada oscila entre o real e o inversossímil. Simplesmente fantástico. Faz suspender a respiração. As pitadas velozes da descrição, mete-nos a impressão de que estamos ali com a personagem.

No dia em que comprei Monsieur Pain na Livraria Cultura, também adquiri Chamadas Telefônicas. Minha intenção era comprar Detetives Selvagens. O vendedor disse-me que na loja não havia nenhum exemplar.  Mas não faz mal. Não foi de todo ruim. Próximas aquisições de livros do mestre chileno: 2666, Putas Assassinas e Detetives Selvagens


Indico ainda como suplemento para que se conheça um pouco mais sobre Monsieur Pain, o comentário escrito por Charlles Campos, sujeito que conhece literatura de maneira profunda. Cada texto que leio do Charlles percebo o quanto preciso me apronfundar nesse universo mágico, no qual Bolaño é um mestre incontestável. Outro leitor voraz de Roberto Bolaño é Cassionei Petry.


sábado, dezembro 31, 2011

Eu, Jorge Luis Borges, Santo Agostinho e o tempo

Neste instante, em que nossa caminhada nos faz chegar aos portões de uma zona imaginária, paro e reflito sobre tal efeito simbólico - 31 de dezembro, último dia do ano. Amanhã, o hoje não mis será. Penso em Janus, deidade mítica romana, capaz de olhar para frente e para trás simultaneamente. Considera o futuro, mas ainda está preso ao passado - é presente. Janus, porteiro do Monte Olimpo, também era o deus da dúvida, pois uma cabeça considerava o passado e, a outra, o futuro. Eu, de forma semelhante, estou com os pés fincados no presente, mas os meus olhos vislumbram as colinas afastadas do futuro; a minha mente é uma porta dimensional, condutora dos fatos e eventos acontecidos - alguns que já se gastaram e foram esquecidos; outros, que ainda persistem e já se tatuaram no meu, deixando os seus efeitos. Sou o intervalo entre o ontem e o manhã no tempo, essa força invísivel, criada para nos fatigar e determinar a nossa finitude. O tempo é consciência do que se espera no hoje, sendo que no ontem eu já esperava pelo hoje, e é no hoje que se espera pelo amanhã, tendo a consciência de que se é neste momento chamado hoje e projetando uma expectativa para aquilo que ainda não é e chamamos de futuro.

"O tempo é um problema para nós, um terrível e exigente problema, talvez o mais vital da metafísica; a eternidade, um jogo ou uma fatigada esperança"

(Jorge Luis Borges, in História da Eternidade, p. 6)


"Rubayat

Volte em minha voz a métrica do persa
A recordar que o tempo é a diversa
Trama de sonhos ávidos que somos
E que o secreto Sonhador dispersa.

Volte a afirmar que é a cinza o fogo,
A carne o pó, o rio o fugidio
Reflexo de tua vida e de minha vida
Que lentamente se nos esvai logo.

Volte a afirmar que o árduo monumento
Que constrói a soberba é como o vento
Que passa e que, à luz inconcebível
De Quem perdura, um século é um momento.

Volte a advertir que o rouxinol de ouro
Canta uma única vez no sonoro
Ápice da noite e que os astros
Avaros não prodigam seu tesouro.

Volte a lua ao verso que tua mão
Escreve como transforma no temporão
Azul o teu jardim. A mesma lua
Desse jardim há de procurar-te em vão.

Sejam sob a lua das ternas
Tardes teu humilde exemplo as cisternas,
Em cujo espelho de água se repetem
Umas poucas imagens eternas.

Que a lua do persa e os incertos
Ouros dos crepúsculos desertos
Voltem. Hoje é ontem. És os outros
Cujo rosto é o pó. És os mortos".

(Jorges Luis-Borges, in Elogio da Sombra, p. 24)

"Que é, pois, o tempo? Quem poderá explicá-lo clara e brevemente? Quem poderá apreender, mesmo só com o pensamento, para depois nos traduzir por palavras o seu conceito? E que assunto mais batido nas nossas conversas do que o tempo? Quando dele falamos, compreendemos o que dizemos. Compreendemos também o que nos dizem quando dele falam. O que é, por conseguinte, o tempo? Se ninguém mo perguntar, eu sei; se o quiser explicar a quem o pergunta, já não sei. Porém, atrevo-me a declarar, sem receio de constatação, que, se nada sobreviesse, não haveria tempo futuro, e se agora nada houvesse, não existiria tempo presente".

(Santo Agostinho, in As Confissões p. 322)