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quarta-feira, julho 29, 2026

O apelo à inquietação de "Claro Enigma", de Carlos Drummond de Andrade

 

“Eu quero compor um soneto duro / como poeta algum ousara escrever / Eu quero pintar um soneto escuro, seco, abafado, difícil de ler”.

Drummond, in “Oficina Irritada” – “Claro Enigma”.

Pode-se falar – sem qualquer apelo hiperbólico – que o livro “Claro Enigma” é uma das obras fundamentais da poesia do século XX. Escrito em 1951, é o sétimo livro de Carlos Drummond de Andrade. Sua leitura não é nada fácil. Há alguns poemas complexos como, por exemplo, “A máquina do mundo” ou “Os bens e o sangue”. É possível falar de um hermetismo; o poeta itabirano elabora uma sintaxe comprometida com o rigor, com uma tonalidade austera.  

O livro é dividido em seis partes. Cada parte é encimada por um título, que serve como um itinerário existencial. Quando escreveu o livro, Drummond estava com plenos 49 anos de idade. Era um poeta reconhecidamente engajado. Militara no Partido Comunista. Sobreveio a Segunda Grande Guerra e a desilusão com as tarefas da militância. Durante o conflito que trouxe efeitos danosos para o mundo, o mineiro escreveu o extraordinário “A Rosa do Povo”. Os poemas ali encontrados são urgentes. Explicitam um poeta que pensa o mundo, que sente o mundo, que sofre com a rudeza daqueles que maculam a esperança e o futuro. Há imagens poderosas no livro como a da rosa teimosa que brota do asfalta no antológico “A flor e a náusea”, uma verdadeira ode à esperança e à dialética.

Após a Guerra, o que resta? O assombro, o vácuo, a poeira e o desencanto; talvez, o misto de receio e indiferença. A epígrafe que inicia o livro, é extraída de um poema de Paul Valéry - "Les événements m'ennuient" (“Os acontecimentos me entediam” – ou “me aborrecem”). A ideia de “tédio” está ligada à recusa de observação da possibilidade de escolha ou ao peso repetitivo que impede o tempo de passar. “Tédio” é cansaço, é enfado, é desgosto, que conduz inevitavelmente a uma sensação niilista de incompletude.

Encontramos, assim, nessa perífrase, a marca que assoma a obra. É um aviso. Um leitmotiv. É como se o poeta dissesse ao leitor que a matéria que conduzirá o livro são os temas existenciais, eivados por uma energia morna e melancólica. Uma nuvem sombria impedirá que o sol da esperança brilhe. A esperança é uma força idealista, que surge em momentos de luta. Em “Claro Enigma” a luta não é mais física nem histórica; não há combate ao fascismo como em “A Rosa do Povo”. O combate em “Claro Enigma” é metafísico. Combate-se: o tempo, a memória, a morte, o vazio, a linguagem. A história é palco das descontinuidades, das desagregações.

O primeiro poema do livro é sintomático: já inicia com a palavra “escurece”. A luta – que é a arma dos otimistas – parece ter ficado para trás. “Escurece, e não me seduz / tatear sequer uma lâmpada. / Pois aprouve ao dia findar / aceito a noite”. O dia findou. Chegou a noite e esta é aceita – talvez – indiferente àquilo que surge – a noite com o seu sabor adstringente. O que resta é um corpo desalmado (último verso do poema “Dissolução”); a matéria esfacelada e repleta de vacuidade.

O título “Claro Enigma” é um oxímoro, figura que consiste na oposição lógica de dois termos, fundidos em uma contradição. Como pode haver um enigma em algo que é necessariamente claro? O mistério reside no não luminoso; na penumbra, na ausência de luz. As realizações em “Claro Enigma” são atravessadas pela desconfiança, pelo desassossego. O vazio é uma constante – “Tu não me enganas, mundo, e não te engano a ti / (...) Não deixarei de mim nenhum canto radioso” (poema “Legado”). “A madureza sabe o preço exato / dos amores, dos ócios, dos quebrantos, / e não pode contra sua ciência” (poema “A ingaia ciência”).

 O tempo é uma força que corrói o significado da vida como a água do mar que vai puindo uma rocha. Não há como escapar do silencioso trabalho corrosivo do tempo. A memória, essa dimensão que registra os eventos e que tem as suas pinceladas apagadas pelo soprar tempestuoso da passagem da vida – (...) “Nada pode o olvido / contra o sem sentido / apelo do Não / As coisas tangíveis / tornam-se insensíveis à palma da mão. / Mas as coisas findas / muito mais que lindas, essas ficarão” (poema “Memória”). Ou como a constatação trágica exposta em “Relógio do Rosário” – “... vivendo, / estamos para doer, estamos doendo”. Viver é doer.

Quanto à forma “Claro Enigma” é um livro que chama a atenção. Drummond não somente é disruptivo quanto aos temas trabalhados. Sendo um poeta modernista, ele tensiona essa condição escrevendo alguns dos poemas de “Claro Enigma” utilizando o soneto, uma forma fixa e clássica, que remete a outros momentos da história da poesia. Há nove sonetos no total. Drummond conhecido pelos versos livres (sem seguir um padrão para a quantidade de sílabas poéticas) e pelos versos brancos (versos sem rima), elabora estruturas poéticas com dois quartetos e dois tercetos (forma clássica dos sonetos). Além disso, os versos são alexandrinos (com doze sílabas poéticas). Essa escolha aponta para o fato de que o poeta procurava superar a própria ideia de modernista. Drummond provoca a liberdade criadora do Modernismo, desafiando até que ponto era possível dialogar com a tradição.  

Os temas trabalhados são universais, mas sob uma poética feita de resíduos de um passado e transcendência que resiste ao tempo presente. A utilização desse formato clássico, certamente é uma forma de alargar ainda mais a radicalidade do projeto exposto em “Claro Enigma”. Não há um mero retorno à tradição, uma evocação nostálgica do passado. O poeta recorre a essa estrutura para que a crise moderna seja ainda mais exposta.

terça-feira, junho 23, 2026

"Evocação Mariana" - Carlos Drummond de Andrade


A igreja era grande e pobre. Os altares, humildes.
Havia poucas flores. Eram flores de horta.
Sob a luz fraca, na sombra esculpida
(quais as imagens e quais os fiéis?)
ficávamos.

Do padre cansado o murmúrio de reza
subia às tábuas do forro,
batia no púlpito seco,
entranhava-se na onda, minúscula e forte, de incenso,
perdia-se.

Não, não se perdia. . .
Desatava-se do coro a música deliciosa
(que esperas ouvir à hora da morte, ou depois da morte, nas campinas do ar)
e dessa música surgiam meninas — a alvura mesma — cantando.

De seu peso terrestre a nave libertada,
como do tempo atroz imunes nossas almas,
flutuávamos
no canto matinal, sobre a treva do vale.

Ando a ler o livro “Claro Enigma”, de 1951, de Carlos Drummond de Andrade. Este é o segundo livro do poeta mineiro que leio. O primeiro foi “Rosa do Povo” (1945). “Claro Enigma” é uma obra completamente distinta de “A Rosa do Povo”, escrita no calor da Segunda Guerra. Em “Claro Enigma”, encontramos um Drummond dialogando com a inquietação, com o passado, com o amor; com a incerteza, com ansiedades. Em vários momentos, encontramos uma poesia negativa, ambivalente, que olha para trás e lamenta o que foi perdido. Mas não se trata de simples lamento. A perda se anuncia como fato inquietante, como um passado irremediável.

O livro é divido em “Seções”. Cada pedaço desses, ocupa-se de um tema. Na seção “Selo de Minas”, encontrei um dos poemas drummondianos mais bonitos e expressivos que já li. Trata-se de “Evocação Mariana”. O poema é repleto de possibilidades interpretativas a começar pelo título, que remete a uma ambiguidade: Maria, mãe de Jesus ou a cidade de Mariana? O título é denso em sua simplicidade. Talvez, do ponto de vista das descrições, seja um dos poemas mais delicados já escritos na poesia brasileira.

Por “Selo de Minas”, há a noção de marca identitária, aquilo que confere originalidade, um distintivo que afirma e confirma algo; o registro de uma natureza. Dessa maneira, pode-se dizer que o poeta queria atestar um emblema ao universo mineiro. Afinal, o que confere originalidade a Minas? Quais são os sinais, as marcas definidoras daquele grande estado? Ser mineiro é possuir certa demanda existencial? Seria ser gouche?

Após esse trabalho de inserção do poema em uma categoria ontológica, o eu lírico descreve o local, o espaço da evocação. Trata-se de uma igreja “grande e pobre”. A conjunção “e” possui uma intencionalidade adversativa. A igreja é grande, mas não é rica; a expectativa de magnificência é frustrada pela pobreza material. Em seguida, apresentam-se os altares com economia de palavras – “humildes”. O eu lírico utiliza uma elipse para criar um efeito, como se convidasse o leitor a imaginar o espaço tacanho. No ato de omitir, existe uma insinuação. Até mesmo as flores do altar merecem uma atenção, pois não são nobres; foram extraídas da horta. Os homens e mulheres que estavam ali eram modestos camponeses. A fé é humilde, doméstica; possui o selo do comunitário. 

“Na sombra esculpida” não há é possível distinguir quem são os fiéis e quais as inertes imagens. Trata-se uma assembleia de seres indivisíveis. A pouca luminosidade mistura os elementos. Imagens – de gesso ou madeira - com as fisionomias beatíficas são acompanhadas por corpos de carne e o osso.

“O padre” não é um Josué a conduzir o povo pelo deserto; mostra-se cansado, murmurava palavras que subiam e se misturavam à “onda”, “minúscula e forte” “de incenso”. A reza contida, murmurada, contada do sacerdote, certamente encorajava os fiéis; criava uma irmandade. Todavia, a força da evocação não nasce de sua prece, de sua condição de mediador entre Deus e os homens. A força da experiência não nasce do sacerdote, mas da experiência de fé dos irmãos. 

Uma nuvem subia, perdia-se. “Não”, reitera o eu lírico. Daquela experiência de devoção nada “se perdia”. Tudo era contado. Uma matemática dos céus levava em conta os gestos verdadeiros e medidos da congregação. Uma “música deliciosa” ganhava ar; torna-se uma antessala do paraíso. Era daquelas músicas “que esperas ouvir na hora da morte, ou depois da morte, nas campinas do ar”.

A última estrofe é sublime. Nela, encontramos os elementos simbólicos da espiritualidade. Um movimento ascensional acontece. Drummond cria uma imagem altamente barroca. Percebemos a evocação que ele busca recriar, aludindo à paisagem das cidades históricas de Minas Gerais. Da humildade emanada dos homens simples, algo tão caro à dimensão cristã, alcança-se o idílio espiritual. Aquele espaço descola-se de sua aparente singeleza, de sua melancolia, de seu cansaço e se torna em uma “nave libertada”. O “canto matinal” derramava-se, no início da manhã ou ao final do dia?, sobre “a treva do vale”. Não existe referência ao tempo, pois a experiência espiritual é da ordem do atemporal. É capaz de nos isentar do tempo - "como do tempo atroz imunes nossas almas". 

Observa-se que os elementos singelos – e até mesmo cinzentos, pouco iluminados da primeira estrofe – do plano terrestre, misturam-se ao diáfano do plano espiritual. Há uma integração dos dois mundos. Um aspecto místico se irmana àquelas personagens daquele local “pobre”. O divino passeia pela terra nas preces murmuradas, no incenso e na música deliciosa produzida por aquele ajuntamento.

O poema faz ecoar a simplicidade das bem-aventuranças encontradas no evangelho segundo Mateus, pois, em linguagem evangélica, "bem-aventurados os pobres de espírito, porque deles é o Reino dos Céus"; e "bem-aventurados os mansos, porque herdarão a terra" (versão da Bíblia de Jerusalém - Mt. 5.3-4). É dessa espiritualidade sem pompa, que se volta para dentro que torna a mensagem do poema tão bonita e delicada. 

 


segunda-feira, outubro 06, 2025

Memórias... um documentário sobre o professor Carlos Mota

Professor Carlos Mota

Semana passada, descobri que Mário Bispo, um dos grandes professores que eu já tive, leva a sua filhinha à escola onde o meu filho estuda. Nesses encontros fortuitos, porém novidadeiros e que infundem na gente uma ponta de satisfeita felicidade, ele acabou me chamado lisonjeiramente de "meu poeta". Não me julguei digno do elogio. Desconversei. Chamou-me assim pelo fato de eu ter escrito um texto sobre o professor Carlos Mota

Ele afirmou que haviam feito um documentário sobre a vida do professor Carlos Mota, assassinado em 2008, no Lago Oeste, local onde morava. A morte do professor Carlos Mota provocou grande comoção por tudo aquilo que ele representou para a educação de sua comunidade. Foi morto por fazer uma pequena revolução que progredia em um movimento ondulante e que começava a ganhar contornos no local em que vivia. Carlos Mota era diretor de uma escola no Lago Oeste. Seu trabalho estava impactando a comunidade e causando um sintomático incômodo ao mundo do crime. Resultado: foi alvejado covardemente por alguém da região que estava se sentindo incomodado pela sua entusiasmada atuação.

Fui aluno de Carlos Mota e ainda guardo boas memórias. Estudei com ele - caso não esteja enganado - nos idos de 2007 ou 2008. Durante um semestre no curso de Letras, tive o privilégio de escutá-lo. Era um grande orador. Falava de forma apaixonada sobre vários temas. Todavia, era visível a sua paixão pela educação, por uma educação emancipadora, que transformasse a realidade e nos fizesse compreendê-la. 

Naquele semestre, tivemos o privilégio de ler coletivamente "Não espere pelo epitáfio", livro de reflexões instigantes do ótimo Mário Sérgio Cortela. Os textos curtos, mas com instigantes reflexões filosóficas, iniciavam os trabalhos pedagógicos. Era como se estivéssemos para iniciar um grande banquete e aquelas leituras eram as entradas que alargavam ainda mais a nossa fome. Carlos de um tablado que se elevava alguns centímetros do chão, gesticulava, liberava uma sintaxe afiada, cortante, inspirada. Dizem os estudiosos que o nosso cérebro retém apenas aquilo que nos marca sobremaneira. Eu não teria como apagar aquelas lembranças. Em sala de aula, tento repetir essa mesma prática: sempre começo as aulas da sexta-feira com uma leitura-reflexão a respeito de um poema - Fernando Pessoa, Carlos Drummond, Cecília Meireles, Adélia Prado, Manoel de Barros, João Cabral de Melo neto etc. É uma forma de aprender com a beleza, com a singeleza dos versos, da poesia que se encontra em algum apenas esperando ser apreciada. O fato de fazer isso é uma reminiscência involuntária daquilo que aprendi com Carlos Mota. 

Lembro-me de que ele convidou os alunos para realizar uma visita ao local onde morava. Sua chácara ele chamava de "Brilho da Lua". Foi uma noite extraordinária. Imensamente generoso, ele abriu os portões de sua chácara para a turma inteira. Alguns levaram barracas para acampar. Era uma noite fria e brumosa. Naquele dia, teve música, dança, falas, risadas desmedidas, discursos, aprofundamento de ideias políticas. Recordo-me que, no outro dia, ele de sua casa e foi até onde os bravos alunos dormiam. Aproximou-se com um largo sorriso - uma das suas marcas. Franqueou-nos a sua cozinha. Não imagino que outro professor teria coragem de fazer isso. Pois Carlos Mota, alguém imensamente comprometido com a formação de cada uma nós foi capaz de fazê-lo.  

Olhando, hoje, à distância, essa postura apaixonada, capaz de incentivar, de provocar afetos, recordo os versos de Erasmo Carlos: "Gente certa é gente aberta". Carlos viveu as implicações desses versos. Era a pessoa certa para os grandes gestos, para as grandes e largas aberturas. Sua vida deu certo, pois ele não se fechou; abriu-se generosamente para ser com as pessoas com as quais encontrou - principalmente, seus alunos e as pessoas humildes. Era alguém com um grande potencial. Estava sempre aberto para as grandes ideias. Suas reflexões sempre promoviam a boa política, a abertura para a generosidade, para as ideais humanizadores. Abriam portas para realidades novas; para mundos anteriormente inacessíveis aos olhos acostumados ao comum, ao banal. Era, por isso, que ele era tão atraente. 

Mário Bispo disse que o filho do professor Carlos Mota produziu um documentário sobre o pai; que no processo de procurar informações sobre pai, leu o texto que escrevi lá em 2008. Fiquei um pouco atordoado por saber que havia muitas imperfeições de estilo e uma abundante imperícia gramatical naquilo que escrevi. 

Revisitei o texto; realizei algumas modificações para que ficasse mais palatável. 

Abaixo, o documentário produzido pelo jornalista Otávio Augusto Pereira Mota, filho de Carlos Mota. 

 

segunda-feira, setembro 01, 2025

O Tejo é mais belo que o rio que corre pela minha aldeia

XX 


O Tejo é mais belo que o rio que corre pela minha aldeia,

Mas o Tejo não é mais belo que o rio que corre pela minha aldeia

Porque o Tejo não é o rio que corre pela minha aldeia.


O Tejo tem grandes navios

E navega nele ainda,

Para aqueles que vêem em tudo o que lá não está,

A memória das naus.


O Tejo desce de Espanha

E o Tejo entra no mar em Portugal.

Toda a gente sabe isso.

Mas poucos sabem qual é o rio da minha aldeia

E para onde ele vai

E donde ele vem.

E por isso, porque pertence a menos gente,

É mais livre e maior o rio da minha aldeia.


Pelo Tejo vai-se para o mundo.

Para além do Tejo há a América

E a fortuna daqueles que a encontram.

Ninguém nunca pensou no que há para além

Do rio da minha aldeia.


O rio da minha aldeia não faz pensar em nada.

Quem está ao pé dele está só ao pé dele.


CAEIRO, Alberto, Poesia (O Guardador de Rebanhos), ed. Fernando Cabral Martins, Richard Zenith. Lisboa: Assírio & Alvim, 2001, pp. 53-54 

quarta-feira, março 05, 2025

De que são feitos os dias? | Cecília Meireles

De que são feitos os dias?
– De pequenos desejos,
vagarosas saudades,
silenciosas lembranças.

Entre mágoas sombrias,
momentâneos lampejos:
vagas felicidades,
inatuais esperanças.

De loucuras, de crimes,
de pecados, de glórias
– do medo que encadeia
todas essas mudanças.

Dentro deles vivemos,
dentro deles choramos,
em duros desenlaces
e em sinistras alianças…

 

Acredito que este seja um dos poemas que mais concentram o mistério de que é feita a vida. Cecília consegue criar paralelos, oscilações, fluxos antitéticos, que englobam o conteúdo da existência. Camus diz em "O mito de Sísifo" que só 'vive quem toma consciência do absurdo'. Sim. Vive quem consegue lidar com o absurdo das perdas proporcionadas pelo tempo; que consegue administrar as "vagarosas saudades" e as "silenciosas lembranças"; que se escancara - incompreensível - diante de si.

A existência só se torna plena para quem reconhece ser um vulcão gerador de "mágoas sombrias", mas que é capaz de "pequenos lampejos", de "vagas felicidades" e de "inatuais esperanças". Somos feitos de contradições, de movimentos inconscientes, gestados da cumplicidade daquilo que, muitas vezes, não controlamos e não sabemos da sua textura. A vida absurda é feita "de loucuras", "de crimes", "de pecados", "de glórias", de fracassos, de avanços... e retrocessos. Somos feitos "de medo". Misturamos muitas substâncias em nosso ser. Distraímo-nos a maior parte do tempo. Dentro dessa realidade "vivemos", avançamos, "choramos" com as resoluções desencontradas e, com isso, forjamos "sinistras alianças".



domingo, outubro 22, 2023

A Rosa do Povo, de Drummond - algumas impressões

 

Preso à minha classe e a algumas roupas,/ vou de branco pela rua cinzenta./ Melancolias, mercadorias espreitam-me./ Devo seguir até o enjoo? / Posso, sem armas, revoltar-me?

                Carlos Drummond de Andrade, in “A flor e a náusea”

 

Terminei a leitura de “A Rosa do Povo”, de Carlos Drummond de Andrade. Li lentamente os 55 poemas. Era minha intenção beber cada palavra, sentir o sabor de cada imagem; apreciar as paisagens repletas de nuances e perspectivas. Drummond revela em “A Rosa do Povo” sua inquietação com um mundo em mudança e questiona a finalidade da poesia. Os poemas, em um mundo em ebulição, saltavam dos jornais – “A poesia fugiu dos livros, agora está nos jornais” (in “Carta a Stalingrado”).  Era necessário a arte para refletir o próprio mundo social e a floresta urbana habitada por indivíduos com existências repletas de niilismo.

“A Rosa do Povo” foi publicado em 1945. Drummond escreveu-o entre os anos de 1943 e 1945. É o seu quinto livro. Até aquele momento, foi o livro mais denso em perspectiva política. O poeta mineiro trabalha a tese de que a realidade é imensa; de que o indivíduo dessa sociedade era um pequeno ponto impotente diante de estruturas que lhe eram enormes, intransponíveis, insensíveis. 

A década de 40 do século XX, apresentava um cenário pessimista em todos os sentidos, quer no plano nacional quer no plano internacional. O Brasil estava mergulhado na Ditadura do Estado Novo, de Vargas. Uma força invisível e onipresente criava uma sensação de asfixiamento. As liberdades eram cerceadas em nome de um projeto totalitário. No plano internacional, o mundo estava sendo sacudido pela máquina de guerra do nazifascismo. A Alemanha criara campos de extermínio a fim de trucidar judeus, comunistas e outras minorias. Desenhava-se um cenário trágico. Caso os alemães saíssem vitoriosos da Guerra, certamente o mundo iria experimentar um período de tiranias e incertezas. O projeto do Reich, segundo o seu mentor, deveria durar mil anos.

O poeta se coloca diante de uma encruzilhada, pois, em alguns poemas, nota-se claramente como “a náusea” se encontra com uma esperança frágil, como no poema “A flor e a náusea”, um dos poemas mais sublimes da obra. O poema “Medo” declara como a força do medo, da desconfiança e do selvagem pavor que acomete o homem moderno, impulsionam os afetos na sociedade capitalista: “E fomos educados para o medo. / Cheiramos flores de medo. / Vestimos panos de medo”. (...) “Assim nos criam burgueses”. Radicado no Rio, após ter deixado a sua Minas Gerais (e sua Itabira, que funciona como uma Ítaca), Drummond observa o mundo e se impregna de melancolia.

No poema “Passagem da Noite”, nota-se o uso da metáfora com ideia de um mundo circunscrito por uma força poderosa, que tudo conquista e domina. O escuro e sua força mesmerizante se alastra, criando uma ideia de imobilidade. Essa presença toma a interioridade o eu lírico. “É noite. / Sinto que é noite / não porque a sombra descesse / (bem me importa a face negra) / mas porque dentro de mim, / no fundo de mim, o grito / se calou, fez-se desânimo. / Sinto que nós somos noite, que palpitamos no escuro / e sem noite nos dissolvemos. / Sinto que é noite no vento, / noite nas águas, na pedra”.

Há poemas sublimes que se tornaram conhecidos como, por exemplo, “Procura da poesia”, “Consolo na praia” ou o belo e dramático “Morte do leiteiro”. Este último poema é um verdadeiro tratado sociológico sobre as contradições da vida urbana na periferia do capitalismo. Demonstra como a sociedade burguesa cria mitos para aniquilar os indesejados (“Há no país uma legenda, / que ladrão se mata com tiro”), mesmo que este seja um trabalhador que acorda cedo para trazer “leite bom para gente ruim”.  

O autor usa uma linguagem circunspecta. Arrojada. Em alguns momentos, há como que um jorro de sua mineiridade. Em outros, verifica-se a fala medida, a sintaxe exata a explorar os versos livres. Não há rimas. Cada poema articula um discurso que fala dos próprios receios e limites da humanidade. Pode-se observar que o eu lírico de alguns poemas se permite a sentir, a sonhar com uma transformação, com a superação, com a resistência. Um exemplo é o famoso poema “Carta a Stalingrado”, que enaltece a resistência dos russos frente aos nazistas. Stalingrado é o símbolo da humanidade que procura frear o ímpeto assassino da máquina de guerra que semeia a barbárie. “Stalingrado, miserável monte de escombros, entretanto resplandecente”.

“A Rosa do povo” contém aquilo que Alfredo Bosi chama de “existencialismo niilista”. Há versos duros. Carregados de uma potência negativa. Mas, é possível encontrar também a esperança vacilante, tosca, demasiado pequena e, mesmo em face da maior incredulidade do eu lírico, “é realmente uma flor”.  O livro enuncia um poeta jovem e consciente de sua presença no mundo. O poeta olha à distância o que sucede no continente europeu e como o Brasil, nas suas pequenas e contraditórias lutas, está repleto de disputas; de eventos que evidenciam a guerra particular que cada sujeito realiza todos os dias. Drummond nesse livro projeta-se como um trovador que canta à melancolia do homem contemporâneo. Sua estética é curva, é cinzenta; e, em alguns momentos, raios tímidos cismam em surgir por trás de nuvens grossas e sisudas. “Este é o tempo de partido, / tempo de homens partidos”.