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segunda-feira, junho 01, 2026

O professor e a palavra: ler para se emancipar



William Stoner não nasceu para ser professor. Filho de agricultores pobres, conhecia apenas a aspereza da terra e a repetição exaustiva dos dias. O futuro que lhe estava destinado era previsível: reproduzir o gesto ancestral de plantar, colher e sobreviver. Foi a universidade, porém, oferecida como promessa de técnica, que abriu-lhe uma fresta, um curso de agronomia para devolver em conhecimento aquilo que o campo exigia em suor. Mas, em uma sala de aula quase anônima, ao ouvir um professor falar sobre Shakespeare, Stoner se descobriu outro. Não houve revelação grandiosa, não houve epifania iluminada: apenas a palavra, dita em voz alta, encontrou nele um terreno fértil. O mundo, de repente, se deslocou.

Essa cena, tão simples e comum, é talvez uma das mais poderosas metáforas da docência: um jovem sentado numa sala de aula, escutando, e a literatura abrindo nele uma morada. Não foi a técnica que o emancipou, mas a palavra. E esse gesto quase banal, um homem ouvindo outro homem ler, contém algo que a educação tantas vezes esquece: a leitura é um acontecimento capaz de mudar a vida.

Para Stoner, o futuro não era uma sucessão de oportunidades imprevisíveis, mas uma biblioteca. Esse espaço, concreto e simbólico, tornou-se território a ser explorado, ampliado, habitado. Há uma radicalidade nessa imagem: ser professor é viver numa biblioteca, não apenas física, mas interior. É construir em si mesmo uma reserva de palavras, ideias e imagens que sustentem a existência, mesmo quando o mundo insiste em desvalorizar o fazer docente.

E, no entanto, quando olhamos para a formação dos professores, vemos uma contradição dolorosa. A literatura, quando aparece, costuma ser tratada como adorno, como disciplina secundária, como passatempo ou ilustração. Reduzida a fragmentos em apostilas ou a exercícios de análise que matam a experiência estética, a leitura raramente é vivida como fundamento. A universidade parece dizer ao futuro professor que ele deve dominar técnicas, metodologias, estratégias, mas que ele não precisa habitar uma biblioteca, não precisa ler para existir. Essa negligência não é apenas curricular; é uma amputação ética.

Não se trata de exigir que todo professor seja erudito, nem de cobrar dele uma erudição enciclopédica. O que está em jogo é a possibilidade de viver a leitura como experiência radical, como modo de compreender e de partilhar mundos. A leitura não é fuga: ela nos esfrega a realidade no rosto, obriga-nos a encarar as dores de Antígona, as paixões de Fedra, os delírios de Dom Quixote, os infernos de Dante. Habitar essas vidas é, paradoxalmente, aprender a habitar melhor a nossa. Ler é encontrar palavras para dizer o indizível, consolo para o sofrimento, horizontes quando tudo parece estreito. Um professor que não experimenta essa força pode até recomendar livros, mas não testemunha nada. E sem testemunho, a leitura na escola se reduz a tarefa sem alma.

Quantas vezes pedimos aos nossos estudantes que leiam, enquanto o professor permanece alheio, sem jamais compartilhar suas próprias experiências de leitura? Quantas vezes se indicam livros não lidos, se distribuem listas que não foram percorridas, se repetem práticas que nunca foram vividas de dentro? Há uma fratura silenciosa nesse gesto: exige-se do estudante algo que, muitas vezes, não é sustentado pelo exemplo. É como se a escola dissesse, brutalmente, que o professor não precisa ler; que sua função é apenas ensinar, cumprir currículo, aplicar métodos. Mas como formar leitores sem ser, antes, habitado pela palavra?

A biblioteca, para Stoner, era mais que um espaço físico. Era promessa de futuro. Novas alas poderiam ser abertas, livros acrescentados, outros retirados, e, no entanto, sua essência permaneceria intacta: um território de vida. Essa imagem assombra quando olhamos para nossas escolas: quantas bibliotecas estão trancadas, relegadas ao porão, tratadas como depósitos de livros didáticos vencidos? Quantas são pensadas apenas para as crianças, como se o professor não tivesse lugar nelas? Ao negar ao professor o direito de ler, a escola o priva de futuro. Diz-lhe, em silêncio: “a leitura não é para ti.” E, nesse gesto, perpetua o ciclo da ausência: professores que não leem formando alunos que tampouco se tornarão leitores.

Ser professor leitor é, antes de tudo, assumir uma responsabilidade ética. É testemunhar, diante das crianças e dos estudantes, que a leitura é uma maneira de de ampliar horizontes, reconhecer outras possibilidades de mundos e criar relações de empatia. Alberto Manguel, em sua confissão de leitor, lembra que escrever pode ser uma atividade secundária, mas ler é vital. Essa urgência não é um luxo intelectual; é o reconhecimento de que sem livros não respiramos. Ler é, portanto, um gesto de sobrevivência. E se o professor não experimenta essa necessidade visceral, como pode convocar os estudantes para ela?

Não se trata de performance nem de exibição: não é preciso citar dezenas de livros ou ostentar erudição. O essencial é encarnar, com humildade e presença, a possibilidade de que a palavra possa transformar uma vida. O professor que lê não apenas transmite conteúdos; ele convoca, convoca para uma vida mais larga, mais cheia de sentidos. Ele mostra, mesmo sem anunciar, que é possível viver de outro modo. Jacques Rancière já advertia: “não se emancipa outrem sem ter antes se emancipado a si mesmo.” E é essa advertência que dá peso ao gesto do professor leitor, pois não se trata apenas de ensinar, mas de viver a leitura como experiência de liberdade, antes de oferecê-la como caminho ao outro.

Por isso, devolver à biblioteca sua centralidade não é uma tarefa administrativa, mas uma urgência pedagógica e política. Não como recurso instrumental, mas como espaço de emancipação. Uma escola sem professores leitores é uma escola condenada a práticas mecânicas, sem alma, sem horizonte. Uma escola assim pode até sobreviver institucionalmente, mas não gera vida, não oferece futuro.

Stoner terminou sua existência no mesmo espaço onde a havia começado: a sala de aula. Mas não era mais o mesmo homem. A literatura o atravessou, e foi através dela que ele se reconheceu professor. Essa cena final, silenciosa e quase cruel, não é apenas a história de um personagem, mas uma advertência: não se sustenta a docência sem palavra.

Se o futuro do professor é uma biblioteca, não pode ser a biblioteca de portas fechadas e estantes empoeiradas, mas aquela que pulsa no corpo de quem lê. É preciso que o professor entre nela, não como visitante eventual, mas como habitante. Porque uma escola sem professores leitores é apenas um edifício; mas uma escola onde a palavra é vivida torna-se território de humanidade. A docência, afinal, não se sustenta em técnicas nem em protocolos: sustenta-se na convicção de que a palavra pode atravessar uma vida, como atravessou Stoner, como pode atravessar cada um de nós.
 

terça-feira, junho 25, 2024

"Riacho Doce", mais um livro de José Lins do Rego

 


                Li um dos poucos romances de José Lins do Rego que ainda não conhecia. Faltam ainda Eurídice e Água Mãe.                 Claro, existem aqueles textos esparsos do espólio do escritor – Bota de sete léguas, Histórias da Velha Totônia, as crônicas etc., todavia, dos textos mais robustos, li dessa vez Riacho Doce, de 1939. 

                A produção de José do Rego segue um fluxo intenso. Impressiona que nos primeiros anos da década de 30, ele escrevesse – praticamente - um livro por ano. São obras com uma narrativa frenética, inebriante, viciante. Foi desse fluxo criativo que surgiram, por exemplo, os romances do conhecido ciclo da cana-de-açúcar. São ficções de alta calibragem, obras cuja ressonância memorialística é incontrastável. Nascido no engenho do Pilar, na região açucareira, herdeiro da aristocracia canavieira paraibana, José Lins foi criado pela família paterna, já que perdeu a mãe ainda muito novo. Essa experiência é contada com traços de alta tensão emocional na obra “Meus verdes anos”.

                José Lins não se afasta daquilo que ele foi. Seus textos são altamente descritivos. Os cinco livros do seu famoso “ciclo da cana-de-açúcar” caracterizam a passagem do tempo. Em “Menino de engenho” há a demonstração do paraíso. A história acontece no engenho Santa Rosa. Em “Doidinho”, o segundo livro da série, o personagem principal – Carlos de Melo – vai estudar em um liceu. Nesta obra, repleta de fragrâncias de “O ateneu”, de Raul Pompéia, José Lins, descreve a saída do paraíso. Em “Bangüe, Carlos de Melo retorna ao Santa Rosa. Tanto o engenho quanto ele estão mudados. Ele se percebe incapaz de governar aquele mundo. Percebe-se um movimento decadentista que começa a tomar conta do mundo verde do Santa Rosa. Em “O moleque Ricardo”, percebe-se uma inflexão, já que a história deixa o eixo paraibano e acontece nos subúrbios do Recife. Curiosamente, José Lins centra a sua obra nos locais por onde passou – Paraíba, Pernambuco, Alagoas e Rio de Janeiro. Esteve rapidamente no interior de Minas Gerais como promotor, mas não ficcionalizou nenhuma história.

                O último livro do ciclo é “Usina”, cujo título prenuncia a instituição que matou os bangues. A usina indicava uma mudança não somente do modo de produção, mas de um estilo de viver centrado na casa-grande. Saía o senhor de engenho, uma espécie de dono de feudo, capaz de mandar e desmandar na vida de todos aqueles que viviam sob o seu domínio e passa existir o usineiro, um capitalista pragmático, pouco preocupado com as vicissitudes da vida senhorial de outrora. Observa-se que a obra de José Lins é repleta de um saudosismo de um certo estilo de vida. Ele faz um inventário antropológico de uma maneira de ser, de um estilo de vida emanado da casa-grande. Ele descreve a derrocada daquele modo de ser, mas, no fundo, é como se estivesse a lamentar as mudanças que aconteceram.

                Quando escolhi “Riacho Doce”, no início do ano, enchi-me de expectativas. Sabia que encontraria uma literatura carregada de emoções à flor da pele. José Lins é daqueles escritores que colocam a narrativa em um plano bastante elevado e ela permanece no alto sem perder seu encanto, sua força, a profusa carga de emoções. No seu conhecido “Ciclo da cana-de-açúcar”, havia um largo terreno para que ele pudesse espraiar o seu olhar. Havia memórias das mais variadas. Ele narrou – em parte – aquilo que ele viveu, por isso o tom nostálgico. O realismo de sua literatura é contestador.

                Foi munido dessa expectativa que fui para o livro. O que Zé Lins – como era conhecido pelos amigos – diria? Teria fôlego para sair da geografia dos engenhos? Um ano antes (1938), ele escrevera “Pedra bonita”, cuja escrita dura, bruta, escancara – por meio de um realismo quase mágico – a superstição e a religiosidade do povo nordestino. Os episódios quase bíblicos da narrativa frenética denunciam eventos quase escatológicos da crença do povo sofrido.

                “Riacho Doce”, por sua vez, é como uma ópera em três atos. Dois terços da história se passa em Alagoas e a primeira metade numa improvável Suécia.  José Lins nunca esteve na Suécia. Os poderes da literatura extrapolam, certamente, as convenções do precisar “conhecer” para descrever, ainda mais em se tratando do escritor paraibano. Zé Lins, em sua produção, narrou o que viu. Esse fato é bastante acentuado na produção literária do escritor paraibano. José Lins é um escritor eminentemente memorialístico. A Suécia aparece decantada. É como se ele quisesse provar para os seus críticos que ele era capaz de criar sem ver. Observa-se que o escritor, ao contrário das obras do “Ciclo”, procura, cuidadosamente, focar a sua atenção nos dilemas das personagens.

José Lins do Rego, o autor prolífico

                Na primeira parte do romance, o narrador descreve a sofrida história de Edna, moradora de um longínquo vilarejo sueco. Sua existência é grávida de dissabores, até conhecer a professora Ester, que a trata com desvelo e carinho. Mais tarde, ela conhece Carlos, um engenheiro. Mesmo sem amor, decide casar com Carlos. Edna enxerga nisso uma possibilidade de mudar a sua trajetória e manter uma distância necessária ´dos parentes, como que para esquecer o próprio passado. Carlos é convidado para perfurar poços de petróleo em uma inóspita região brasileira. São essas as circunstâncias que trazem o casal para uma região ignorada de um país ignoto.

                A segunda parte do romance descreve a chegada do casal a Riacho Doce, um local rústico, mas de natureza exuberante. Edna é arrebatada pela natureza e pelas feições tão destoantes daquelas com as quais convivera até aquele momento de sua vida. Aos poucos, afasta-se do seu marido Carlos. Realiza longas, demoradas, repetitivos banhos na praia. Aquela ligação telúrica com Riacho Doce parece sugerir um exercício de purificação. Edna deseja viver uma tropicalização de sua própria existência. É nesse intervalo de transformação que ela conhece o mestiço Nô.

                Na terceira parte da obra, a ênfase é dada à paixão avassaladora entre Edna e Nô. Os dois experimentam intensamente os eflúvios febris da paixão. Ignoram as convenções da pequena Riacho Doce. O companheiro de Edna toma conhecimento. Nada parece impedir a consecução daquele enlace clandestino. Todavia, é nesse ponto da narrativa que percebemos a mão de José Lins evocando tão bem uma das suas qualidades – ou seja, inserir o elemento supersticioso, miraculoso, mágico da cultura nordestina. Aninha, a avó de Nô, atua como uma força que captura a mente de Nô. Aos olhos de Aninha, Edna era uma mensageira do mal. A continuação da relação entre os dois era amaldiçoada. Eventos terríveis poderiam acontecer, caso Nô, teimosamente, insistisse em conduzir aquela relação.   Esse fato perturba o neto. O que acontece a partir desse evento é repleto da força narrativa tão característica do escritor. Ele parece retomar força e a densidade de “Bangue” e “Usina”, os dois melhores livros do “Ciclo” – em minha humilde concepção.

A próxima frase ou o próximo período em Zé Lins nunca esgota o anterior, todavia se renova no próximo. Possui, incrivelmente, a pujança dialética do fôlego que não se perde. É essa capacidade que faz do seu estilo algo tão característico. Zé Lins sabia como ninguém criar uma boa história. Conseguia, por meio de um estilo capaz de aproximar o texto escrito da enunciação oral, sustentar um fluxo narrativo que segurava o leitor. Riacho Doce possui essas características. É um romance exitoso. Há todo aquele sabor idílico das paisagens estruturadas em uma ontologia tão característica, mas que é permeada por um realismo trágico. Nota-se em José Lins que a história atua como uma força que faz desequilibrar a vontade das personagens. Ou seja, a realidade descontrói as ambições das personagens, enquanto se convive com aquilo que poderia ter sido.

Após ter lido “Riacho Doce”, no próximo ano, leremos “Eurídice”.  


segunda-feira, abril 15, 2024

Ler devia ser proibido



LER DEVIA SER PROIBIDO

Guiomar de Grammont1

A pensar fundo na questão, eu diria que ler devia ser proibido.

Afinal de contas, ler faz muito mal às pessoas: acorda os homens para realidades impossíveis, tornando-os incapazes de suportar o mundo insosso e ordinário em que vivem. A leitura induz à loucura, desloca o homem do humilde lugar que lhe fora destinado no corpo social. Não me deixam mentir os exemplos de Dom Quixote e Madame Bovary. 

O primeiro, coitado, de tanto ler aventuras de cavalheiros que jamais existiram meteu-se pelo mundo afora, a crer-se capaz de reformar o mundo, quilha de ossos que mal sustinha a si e ao pobre Rocinante. Quanto à pobre Emma Bovary, tomou-se esposa inútil para fofocas e bordados, perdendo-se em delírios sobre bailes e amores cortesãos.

Ler realmente não faz bem. A criança que lê pode se tornar um adulto perigoso, inconformado com os problemas do mundo, induzido a crer que tudo pode ser de outra forma. Afinal de contas, a leitura desenvolve um poder incontrolável. Liberta o homem excessivamente. Sem a leitura, ele morreria feliz, ignorante dos grilhões que o encerram. 

Sem a leitura, ainda, estaria mais afeito à realidade quotidiana, se dedicaria ao trabalho com afinco, sem procurar enriquecê-la com cabriolas da imaginação. Sem ler, o homem jamais saberia a extensão do prazer. Não experimentaria nunca o sumo Bem de Aristóteles: o conhecer. Mas para que conhecer se, na maior parte dos casos, o que necessita é apenas executar ordens? Se o que deve, enfim, é fazer o que dele esperam e nada mais?

Ler pode provocar o inesperado. Pode fazer com que o homem crie atalhos para caminhos que devem, necessariamente, ser longos. Ler pode gerar a invenção. Pode estimular a imaginação de forma a levar o ser humano além do que lhe é devido.

Além disso, os livros estimulam o sonho, a imaginação, a fantasia. Nos transportam a paraísos misteriosos, nos fazem enxergar unicórnios azuis e palácios de cristal. Nos fazem acreditar que a vida é mais do que um punhado de pó em movimento. Que há algo a descobrir. Há horizontes para além das montanhas, há estrelas por trás das nuvens. 

Estrelas jamais percebidas. É preciso desconfiar desse pendor para o absurdo que nos impede de aceitar nossas realidades cruas.

Não, não deem mais livros às escolas. Pais, não leiam para os seus filhos, pode levá-los a desenvolver esse gosto pela aventura e pela descoberta que fez do homem um animal diferente. Antes estivesse ainda a passear de quatro patas, sem noção de progresso e civilização, mas tampouco sem conhecer guerras, destruição, violência. Professores, não contem histórias, pode estimular uma curiosidade indesejável em seres que a vida destinou para a repetição e para o trabalho duro.

Ler pode ser um problema, pode gerar seres humanos conscientes demais dos seus direitos políticos em um mundo administrado, onde ser livre não passa de uma ficção sem nenhuma verossimilhança. Seria impossível controlar e organizar a sociedade se todos os seres humanos soubessem o que desejam. Se todos se pusessem a articular bem suas demandas, a fincar sua posição no mundo, a fazer dos discursos os instrumentos de conquista de sua liberdade.

O mundo já vai por um bom caminho. Cada vez mais as pessoas leem por razões utilitárias: para compreender formulários, contratos, bulas de remédio, projetos, manuais etc. Observem as filas, um dos pequenos cancros da civilização contemporânea. Bastaria um livro para que todos se vissem magicamente transportados para outras dimensões, menos incômodas. E esse o tapete mágico, o pó de pirlim-pim-pim, a máquina do tempo. 

Para o homem que lê, não há fronteiras, não há cortes, prisões tampouco. O que é mais subversivo do que a leitura?

É preciso compreender que ler para se enriquecer culturalmente ou para se divertir deve ser um privilégio concedido apenas a alguns, jamais àqueles que desenvolvem trabalhos práticos ou manuais. Seja em filas, em metros, ou no silêncio da alcova. Ler deve ser coisa rara, não para qualquer um.

Afinal de contas, a leitura é um poder, e o poder é para poucos.

Para obedecer não é preciso enxergar, o silêncio é a linguagem da submissão. Para executar ordens, a palavra é inútil.

Além disso, a leitura promove a comunicação de dores e alegrias, tantos outros sentimentos. A leitura é obscena. Expõe o íntimo, torna coletivo o individual e público, o secreto, o próprio. A leitura ameaça os indivíduos, porque os faz identificar sua história a outras histórias. Torna-os capazes de compreender e aceitar o mundo do Outro. Sim, a leitura devia ser proibida.

Ler pode tornar o homem perigosamente humano.

 1Guiomar de Grammont é uma dramaturga, filósofa, escritora e editora brasileira, nascida em Ouro Preto/MG. Atualmente, também é diretora do Instituto de Filosofia Artes e Cultura da Universidade Federal de Ouro Preto. 

 

(In: PRADO, J. & CONDINI, P. (Orgs.). A formação do leitor: pontos de vista. Rio de Janeiro: Argus, 1999. pp.71-3. Disponível em: http://www.trt05.gov.br/trt5new/areas/ddrh/LER_DEVIA_SER_PROIBIDO.doc. Acesso em: 0

 

quarta-feira, fevereiro 07, 2024

"A pequena loja de veneno", de Sarah Penner e a presença alienígena

 


Ano passado, tive a experiência singular de participar de um clube de leitura feminista. Havia dezenas de mulheres de todas as partes do Brasil. As reuniões aconteciam mensalmente. Para cada mês do ano, houve a leitura de um livro – ou quando o livro era muito volumoso, a leitura abrangia mais de um mês; e, após a leitura, acontecia o debate sobre o que foi lido. Deixei de participar de alguns encontros, mas procurei ler todos os livros. Talvez, uns sete ou oito ao longo de todo o ano.

As reuniões aconteciam remotamente. Recordo-me que na primeira reunião, a mediadora, após ter dado as boas-vindas, informou àquela confraria de fêmeas sequiosas por compartilhar experiências e pensar a condição da mulher numa sociedade estruturalmente organizada à imagem e semelhança do patriarcado, proferiu como que pedindo desculpas a todas que estavam ali:

- Temos um homem em nosso meio!

Uma das participantes proferiu em lance automático, quase se persignando:

- Cruzes!

Não deixei de dar uma boa risada interna. Por ser homem, eu era considerado uma aberração naquele meio de mulheres corajosas e engajadas. Verdadeiramente, eu era um alienígena; um réprobo. Havia uma ideia religiosa naquela fala, como que a dizer: “Deus nos livre!” Não me senti ofendido, mas não deixei de refletir como nós humanos nos vinculamos radicalmente a certas ideias, sem fazer concessões. O mundo real é absurdamente múltiplo. E quem se fecha a essa pluralidade, perde imensamente a capacidade de aprender.

Dentre os livros que li, encontra-se “A pequena loja de venenos”, de Sarah Penner. Fiquei por mais de dois meses lendo esse livro. Não é que o livro fosse longo. Ele possui pouco mais de trezentas páginas. O fato é que a história não me prendeu. A estrutura foi bem construída. A autora consegue ser convincente, todavia alguns lances me pareceram adstringentemente com aquelas sensaborias novelísticas da Rede Globo.

Senti a falta de algo mais encorpado, próprio dos grandes escritores. Em alguns momentos, pensei estar a ler aqueles folhetins adolescentes. Não me refiro à história. O livro foi construído belamente e revela algo bastante engenhoso, mas o estilo de Sarah Penner gerou cansaço.

No livro, há dois planos históricos paralelos – um que ocorre em nossos dias; e outro que ocorre no século XVIII. Os capítulos vão se alternando para que se absorva o as duas histórias. Em dado momento, um dos planos consegue encontrar o outro. Percebe-se claramente que ela se mostra convincente do ponto de vista da criação.

O plano dos nossos dias, traz como personagem principal Caroline Parcewell, uma mulher que passa por uma crise em seu casamento. E em uma viagem a Londres, inicia uma perquirição após entrar em contato com fragmentos de registros históricos que a remete à história do século XVIII. E é exatamente nesse ponto que as duas histórias se encontram. No século XVIII, tomamos nota da história de Nella que manipula ervas e outros artefatos da natureza para produzir venenos que são usados para “eliminar” homens que são violentos ou cruéis com suas companheiras. Nella é auxiliada por uma adolescente de doze anos. Em meio à sua vida infeliz, açambarcada por um torvelinho feroz, Caroline encontrará inspiração na história ocorrida há trezentos anos. Isso permitirá que ela tome algumas decisões importantes que mudarão sua vida em vários sentidos.

Após ter terminado a história, senti-me aliviado. Não gosto de abandonar qualquer leitura, mesmo quando essa me é enfadonha; mesmo quando tenho a lembrança de que fui considerado um alienígena.

quinta-feira, janeiro 11, 2024

"Quarto de Despejo", de Carolina Maria de Jesus. Algumas observações após a leitura

 

“É preciso conhecer a fome para saber descrevê-la”

Carolina Maria de Jesus

 

“A minha [vida], até aqui, tem sido preta. Preta é a minha pele. Preto é o lugar onde eu moro”.

Carolina Maria de Jesus

 

Carolina Maria de Jesus é uma das figuras mais carregadas de simbolismos da literatura brasileira. Comparo-a a outro negro: Lima Barreto. Assim como o escritor carioca, Carolina foi uma escritora que carregou atrás de si os contrastes de um país periférico e que é cruel com os negros e com os pobres. Existe uma diferença crucial – claro, em desfavor de Carolina -, Lima era homem e mais letrado. Leu Dostoiévski, considerava-se anarquista. Carolina mal concluiu o que hoje é equivalente à segunda série. Lima foi capaz de ficcionalizar os contrastes de um país atrasado com uma literatura afiada e satírica em livros como “O triste fim de Policarpo Quaresma”, “Recordações do Escrivão Isaías Caminha”, “Clara dos Anjos” ou na sátira “Os bruzundangas”.

Todavia, existe uma linha comum que os comunica. Os dois eram negros e suportaram o peso intransigente do preconceito. Em vida, Carolina conseguiu um certo reconhecimento; no caso de Lima, o reconhecimento só veio após o falecimento. Hoje, mais de cem anos da morte de Lima, há um pleno reconhecimento de sua monumental obra. A sociedade analisada de maneira tão precisa por ele continua com suas tintas de preconceito, mandonismo e desigualdade. Todavia, a ideia não é falar sobre o Lima, mas sobre a leitura do extraordinário “Quarto de despejo – diário de uma favelada”, de Carolina Maria de Jesus.

A trajetória de Carolina Maria de Jesus foi marcada por altos e baixos. De origem humilde, nascida na pequena cidade de Sacramento, em Minas gerais, nome que já evoca uma semântica de mistério. Mulher. Preta. Pobre. Trabalhadora informal. Como tantas mães desse país de homens que não se responsabilizam com os filhos que ajudam a colocar no mundo, Carolina foi mãe de três filhos. Foi trabalhando na casa de uma família, que conseguiu estudar até a segunda série. É como se tivessem dado a ela lentes para enxergar o mundo em que vivia. Foi por meio dessa pequena instrução que Carolina pôde acessar uma dimensão que é resultado de privilégio – ou seja, a dimensão do saber. 
 

Carolina no seu momento de leitura.
 
Nota-se em seu texto os traços da alfabetização realizada pela metade. Há erros crassos de ortografia, o que indica claramente a dificuldade de manusear o código expresso na gramática. Carolina cometia desvios aparentemente óbvios da norma-padrão – “maguar”, ao invés de “magoar”; ou ainda “visinho”, ao invés de “vizinho”. Esses desvios da norma-padrão não devem ser vistos como construções que tiram o mérito da escrita de Carolina. Na verdade, eles enunciam veracidade e força estética ao seu texto. É voz da favela. É voz dos insubmissos. É a voz da fome, da miséria; daqueles que não são, mas que desejam ser.

A sensibilidade de Carolina é algo único na literatura brasileira. É importante declarar que a sua literatura é marginal. É a declaração incontida daqueles que sabem o poder que a palavra possui. O texto de Carolina provoca o tempo inteiro. Ela é a prova materializada de como dizer a palavra possui uma potência criadora. Paulo Freire diz que “não é no silêncio que os homens se fazem, mas na palavra, no trabalho, na ação-reflexão”. Por isso, enunciar a palavra – mesmo que “ferindo” as convenções gramaticais – é algo tão revolucionário. Seguindo ainda com Freire: “Não basta saber que Eva viu a uva. É preciso compreender qual a posição que Eva ocupa no seu contexto social, quem trabalha para produzir a uva e quem lucra com esse trabalho”. Ou seja, Carolina poderia ler com muita dificuldade que “Eva viu a uva”. Mas ela sabia muito bem que lugar Eva ocupava e a relação social que ela estabelecia com a uva, pois ela sabia qual o papel que ocupava, sendo negra, mãe de três filhos e sozinha.

A leitura da obra de Carolina nos fornece uma noção muito exata de sua compreensão política. Os diários que compõem o livro foram escritos durante o governo de Juscelino Kubistchek (1956-1960). A escritora possui uma posição bastante crítica em relação às políticas de JK. O presidente que criou Brasília havia estabelecido um lema audacioso: “Cinquenta anos em cinco”. Buscava-se a modernização do país. Todavia, o país ainda era imensamente desigual. O fluxo intenso de migração das regiões mais pobres do país era uma realidade. A própria Carolina faz referência a “baianos” na obra, a quem ela chama de “nortistas” a fim de enunciar a existência dos migrantes da região Nordeste. Ela mesma viera do interior de Minas Gerais para trabalhar como empregada doméstica.

A palavra, assim, representou uma forma de contar, de representar a sua própria realidade. É nítida a diferenciação que ela mesma estabelece com os outros moradores. A escrita era algo incomum na sua comunidade. Havia certo escárnio e jogos verbais a fim de zombar de Carolina pelo fato de ela escrever. Carolina era uma mulher teimosa, que sabia o valor dos livros e da escrita.

Moradora da favela Canindé, às margens do Tietê, onde hoje passa a rodovia que recebe o mesmo nome, Carolina foi residir numa comunidade em que as dificuldades sociais eram alarmantes. O desejo de sair da favela era algo que ela sempre manifestava. As descrições feitas por ela indicam o quanto as condições de saneamento eram adversas na comunidade. “Como é horrível pisar na lama”. “As horas que sou feliz é quando estou residindo em castelos imaginários”.

A rotina de catadora de papel, ferro velho e outros objetos tirados do lixo era uma espécie de mito de Sísifo. Todos os dias ela saía para catar objetos a fim de conseguir alguns poucos cruzeiros para comprar aquilo que ela chamava de “ração”. O dinheiro era insuficiente para alimentar ela mesmo e os três filhos. Cada dia ela “rolava uma pedra”. Conseguia um valor pequeno, inexpressivo, momentâneo. A monta insignificante mal dava para satisfazer todas as refeições do dia. Vários foram os dias em que ela e os filhos foram dormir sem comer. Seu texto retrata essa roda-viva, esse movimento circular, que sempre a impele ao mesmo lugar – ou seja, à busca frenética por algo para comer. O labirinto da agonia que impelia sempre à vontade de comer nunca satisfeita. A fome era uma visitante constante. Ela batia à porta de Carolina todos os dias.

 
Carolina na comunidade de Canindé

Diante de tão grande penúria é possível perceber as oscilações existenciais da escritora. Há dias em que ela se mostra otimista. Seu entusiasmo se derrama em um tipo de sabedoria. Por sua vez, há momentos em que se pode observar a tristeza e o desejo de morrer junto com os filhos. “Hoje não temos nada para comer. Queria convidar os filhos para suicidar-nos. Desisti. Olhei meus filhos e fiquei com dó. Eles estão cheios de vida. Quem vive, precisa comer. Fiquei nervosa, pensando: será que Deus esqueceu-me? Será que ele ficou de mal comigo?”

No final dos anos de 1950, teve contato com o jornalista Audálio Dantas, responsável por compilar e publicar aquilo que ficou conhecido como “Quarto de despejo”. O sucesso foi instantâneo. Em uma semana, mais de dez mil exemplares foram vendidos. Fizeram-se traduções em mais de treze idiomas. Até hoje, a escritora é uma das mais vendidas no exterior, principalmente nos Estados Unidos.

A fama de Carolina permitiu que ela saísse da favela de Canindé. Mas isso não deu a ela a riqueza esperada. Quando faleceu, no dia 13 de fevereiro de 1977, aos 62 anos de idade, Carolina vivia uma espécie de ostracismo. A fama que ela conquistara esmaeceu. Morreu após um ataque de asma, algo que seria facilmente remediável.

Carolina é um caso paradigmático, pois, sendo mulher, negra, de origem humilde, aponta para um tipo de condenação, que é o silenciamento. Ela, apesar de ser uma escritora genial, não experimentou plenamente a emancipação e a dignidade financeira que lhe era necessária para viver com tranquilidade com os três filhos. Restou o documento duro, cortante, provocador, que nos tira do lugar de tranquilidade; que nos faz pensar nas milhares de “carolinas” que vivem pelo país uma realidades tão atrozes, muitas como Carolina Maria de Jesus.