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quinta-feira, setembro 03, 2026

Devaneios kiekergaardianos

O Sacrifício de Isaac (Caravaggio) - 1603. 

Certa vez, ao ler uma obra do filósofo dinamarquês Sören Kiekergaard, esbarrei na desassossegada afirmação: “Não consigo entender Abraão”. Essa frase tem feito eco em minha cabeça. Desde que a li, fico a pensar em seu significado. Ela reflete em espelhos côncavos de minha interioridade – “Não consigo entender Abraão”. O que o filósofo existencialista não entendia exatamente? Que detalhe específico da personalidade do patriarca bíblico criava essa inquietante incógnita? 

Em primeiro lugar é importante situar o contexto de onde a sentença é oriunda. Kiekergaard abordava o pedido feito por Deus a Abraão para que Isaque, o filho da velhice do patriarca, fosse oferecido como holocausto no monte Moriá (Gn 22.3). Esse episódio representa o ápice de uma prova imposta a um indivíduo. Biblicamente, Abraão é conhecido como “o pai da fé” (Hb 11.17-19). Kierkegaard o chama de “o cavaleiro da fé”.

O velho patriarca ao manifestar, silenciosamente, a intenção de sacrificar o filho da promessa, revela a incondicionalidade de um problema – os preceitos de uma ética horizontal, portanto, terrena, são substituídos por uma dimensão do singular. Vale mencionar que Isaque era aquele a quem foi feita a promessa. Era, portanto, o filho da velhice, aquele cuja concepção por si só fora um milagre. 

Há aqui uma suspensão dos preceitos das convenções da ética, conforme a conhecemos. Ela suplanta os enquadramentos racionais. Qual pai em sã consciência sacrificaria o próprio filho a fim de satisfazer a um pedido que parecia duvidoso? Na relação com Deus, há uma impossibilidade de tornar essa mesma relação em algo comunicável pela razão. Por isso, a fé ganha um contorno paradoxal. Somente uma fé inquebrantável, assumidamente compromissada com a paixão seria capaz de tal feito. Conforme expressa o próprio Kierkegaard, a fé é o que fica quando todas as outras realidades se esgotam. Ter fé é assumir uma postura radical diante da existência. É um gesto que faz transcender a própria vida. A fé passa a ser uma maneira radical de existir diante de Deus.

A fé carrega um paradoxo, pois Abraão, ao mesmo tempo que obedece a Deus, levando o próprio filho para ser sacrificado, acredita que Isaque, de algum modo, continua a ser o filho da promessa. Diante disso, ela se afasta dos cálculos e previsões à medida que tentamos aprisioná-la. Voa mais alto, enquanto desenhamos asas para apanhá-la. Ela é frágil e potente. Diante da fé, o que resta é o silêncio. Uma decisão que torna o universo um mero espectador. Um palco onde o jogo da própria existência será observado.

Abraão é “o pai da fé”, “o pai de todos aqueles que creem” (Rm. 4.11). Ele é assim denominado, pois carregava a esperança, uma certeza inabalável, uma convicção robusta sobre quem havia feito o pedido.

Também não compreendemos Abraão. A razão não o compreende. É a disposição mais geral sobre o seu procedimento. Não compreendemos, pois não conseguimos medir a dimensão mais radical de sua fé. Isso apenas sugere o quanto resistimos a viver esse compromisso de uma decisão radical. Olhando sob esse ponto de vista, também custa-me entender Abraão. 

 

quarta-feira, novembro 27, 2024

A história da confusão das línguas em Gênesis 11

 

Uma representação da torre. 

                No livro bíblico de Gênesis, há muitas passagens em que se percebe a existência de etiologias. Entendem-se as etiologias como mitos de fundação. Esses mitos existem com o intuito de justificar a existência do mundo ou de uma estrutura social. Por exemplo, os primeiros capítulos do Gênesis são manifestas etiologias. Observa-se, por exemplo, a descrição que o autor – ou que os autores -  dessa porção do texto realiza(m) ao descrever(em) a forma como supostamente Javé teria criado o mundo numa operação ex nihilo.  A ideia de mito fundador pode ser observada na forma como ocorre a suposta criação do mundo – os mares, as estrelas, o céu, a terra, os animais, etc. O movimento de como as ações são narradas é uma forma de explicação que justifica a realidade e tudo o que existe.

                No capítulo 11.1-9, do mesmo livro de Gênesis, há a descrição do conhecido episódio da Torre de Babel. Ao longo do tempo, já ocorreram inúmeras tentativas de explicação dessa passagem. Nessa descrição, é possível observar outra etiologia que procura explicar a existência das variedades linguísticas existentes no mundo. Certamente, o autor dessa parte do Pentateuco, ao olhar para a polifonia de vozes existentes ao redor de Israel, deve ter se baseado em alguma lenda para produzir o texto.

                O texto afirma que, após terem sobrevivido ao Dilúvio (outra etiologia), alguns homens marcharam para o leste e se estabeleceram na terra de Senaar (v.2)[1]. Em seguida, puseram-se a construir uma “cidade e uma torre cujo ápice penetre os céus” (v.3). O texto, logo em seguida, afirma o seguinte: “Ora, Iahweh desceu para ver a cidade e a torre que os homens tinham construído”. (v.5). O uso da partícula expletiva de realce “ora”, serve para introduzir a figura da divindade judaica na história. Funciona do ponto de vista retórico como a segunda parte do raciocínio que justifica o motivo pelo qual algo passou a ser de determinada forma. Iahweh “desce” de sua morada para realizar duas ações: (1) ver a cidade; e (2) a torre que os homens tinham construído. É importante dizer que a cidade e a torre já estavam construídas, mas, em algum momento, teria reprovado os eventos que ocorriam naquela inventiva comunidade. Seu olhar moralizante condena a ousadia dos homens. Ora, por que os homens não poderiam construir a cidade e a erguer a torre?

O autor dessa porção do texto bíblico aproxima Iahweh das divindades dos povos vizinhos aos israelitas. A ação de “descer” aproxima a divindade judaica aos deuses que habitavam o Olimpo, por exemplo. Zeus de tempos em tempos descia da sua morada para interferir ou mudar determinado aspecto da realidade. Segundo alguns estudiosos, essa é uma evidência da fonte javista[2]. Os registros da fonte javista ou fonte J, sugerem Iahweh como uma divindade antropomórfica. Por exemplo, em Gn 3.8 há a afirmação de que “Iahweh Deus (...) passeava no jardim à brisa do dia”, uma evidente antropormorfização da divindade.  Ao longo do Velho Testamento, principalmente nos livros proféticos, a figura de Iahweh vai ganhando aspectos transcendentes e perdendo a característica antropomórfica.

No versículo seguinte, após ter constatado os empreendimentos humanos, Iahweh afirma que nada seria “irrealizável” para os homens. Percebe uma potência incontrolável na humanidade. Não gosta do que vê. A Nova Tradução Internacional (NVI) está assim traduzida na parte B do versículo 6: “Em breve nada poderá impedir o que planejam fazer”.  Ou seja, depreende-se que nem mesmo Javé seria capaz de controlar essa expansão de poder.

A partir dessa constatação, a divindade suprema do povo judeu decidiu “confundir a linguagem” a fim de que aqueles que empreendiam o projeto desistissem da ação. Curiosamente, no versículo 7 – tanto na NVI quanto na Bíblia de Jerusalém (duas excelentes traduções) – os verbos que exprimem a ação de Javé  estão no plural, deixando implícito que a ação que baratinou a construção foi feita em concílio, ou seja, com mais de uma divindade[3]. Esse é um fenômeno que se repete em passagens do Gênesis. É conhecida a passagem dos capítulos iniciais do livro, em que pode ser lido: “Façamos o homem à nossa imagem e semelhança”. Pode ser percebido ainda que a Bíblia de Jerusalém mostra que Iahweh – no versículo 7 - utiliza praticamente os mesmos verbos usados pelos homens no versículo[4]. Há uma ação contrária àquela realizada pelos homens. Enquanto os homens procuram construir, Iahweh procura des-construir, colocar freios à ação humana.

Neste quesito, aponta-se outra característica da fonte javista, ou seja, a procura de distinção do homem e da divindade. A fonte J procura impor limite entre a falibilidade humana e a grandeza de Iahweh, que deve assinalar sua posição como divindade suprema acima do mundo. Ele governa e, se necessário, andará no meio dos homens para mostrar que eles não prevalecem.

Iahweh censura o empreendimento realizado pelos homens. A multiplicação de línguas teria se constituído em um fator de impedimento para que o projeto de expansão da “cidade” e da “torre” continuasse o seu curso. Javé põe freios à ousadia humana. Sua ação é deliberadamente melindrosa; sua interferência, ressentida.  Vale mencionar que os homens que decidiram construir a cidade e a torre faziam parte da geração pós-diluviana. Há ainda uma desconfiança de Iahweh nesses homens. Certamente, havia o entendimento de que a maldade deles era um fator que gerava insatisfação em Iahweh. Reside neste fato outra característica da fonte javista – ou seja, a descrição do crescimento da maldade entre os homens. Iahweh teria feito os homens de forma perfeita, mas eles foram alcançando escalas de ensandecimento cada vez mais acentuadas.

Representação de um zigurate. 

Nos versículos finais que retratam o mito, Iahweh “dispersa” aqueles obstinados homens “por toda a face da terra”. Aquele incidente ficou conhecido como “Babel”. Os judeus se reportavam a Babilônia como Babel, cujo significado é “confusão” ou “mistura”. A escrita dessa etiologia, certamente, procurava, a partir de uma lenda existente, fazer um revisionismo histórico, criando um mito fundador. Alguns estudiosos, indicam que a fonte javista foi redigida nos séculos VI e V a.C.

É importante dizer ainda que essa revisão histórica procurava obumbrar a grandiosidade da civilização apontada no texto. Como indicam as pistas do texto, é possível que os substratos da referência histórica remetam à Babilônia. Afirmar a supremacia de Iahweh sobre essa “torre” e essa “cidade” sugere que há uma animosidade contra o crescimento e a pujança daquela civilização. Alguns intérpretes apontam que, quando o texto fala de “torre”, talvez, estejam a sugerir os famosos zigurates. Essas construções eram comuns entre os assírios, babilônicos e sumérios. Elas possuíam a forma de uma pirâmide terraplanada e ostentavam uma função religiosa. Aos serem construídos, buscava-se colocar os homens mais próximos das divindades. Além da função religiosa, serviam de biblioteca, espaço de observação das estrelas e local para guardar grãos, o que indica uma importante função para aquelas civilizações. O registro dos primeiros zigurates remontam dois milênios antes de Cristo.

Em suma, ao escreverem o mito fundador da conhecida história da confusão das línguas, buscava-se produzir uma reinterpretação da história: (1) para rebaixar a grandiosidade da civilização babilônica; (2) para delimitar a soberania de Iahweh como divindade suprema; (3) para desacreditar a estrutura religiosa dos povos vizinhos; (4) para criar uma narrativa com objetivos doutrinários, com finalidade de formação identitária. Ou seja, e, a partir disso, neutralizar o reconhecimento da grandiosidade das outras nações vizinhas a Israel.

 

[1] Realizei a minha leitura na Bíblia de Jerusalém, por isso emprego o termo “Iahweh” conforme aprece na tradução. 

[2] A teoria das fontes ou críticas das fontes é uma hipótese desenvolvida por Julius Welhausen. Segundo esse estudioso alemão, o Pentateuco é o resultado da estruturação de quatro fontes principais: a eloísta, a javista, a sacerdotal e deuteronomista.

[3] (1) A Bíblia de Jesuralém diz: “Vinde! Desçamos! Confundamos a sua linguagem para que não mais se entendam uns aos outros”.  (2) A NVI afirma: “Venham, desçamos e confundamos a língua que falam, para que não entendam mais uns aos outros".

[4] No versículo 4 – os homens afirmam: “Vinde! Construamos uma cidade e uma torre cujo ápice penetre os céus!” No versículo 7 – Iahweh diz: “Vinde! Desçamos! Confundamos a sua linguagem para que não mais se entendam”.

terça-feira, novembro 28, 2023

A filosofia da história dos judeus

 


O atual massacre desfechado por Israel contra os palestinos possui uma justificativa semântica: há um entendimento, uma maneira de ser e existir para esse povo nômade. Ao passear de forma panorâmica pelas páginas do Antigo Testamento, encontrei ao menos três passagens bastante representativas de como os judeus apreendem e se impõem no mundo.

A primeira dessas passagens encontra-se em Números 31.17. Nela notamos a orientação de um líder militar ordenando que não houvesse piedade para com mulheres, crianças e animais que seriam conquistados. Na ocasião, os judeus peregrinavam pelo deserto, conforme descreve o Pentateuco. Receberam uma ordenança por parte de Javé para que o povo midianita fosse aniquilado. As meninas ainda virgens deveriam ser apropriadas, certamente para serem escravas sexuais.

Outra passagem bastante singular encontra-se em Josué 6.21. De acordo com esse livro, os judeus estavam num processo de disputa territorial com os povos que habitavam Canaã, a Terra Prometida. Diz o autor do livro, fazendo ecoar as palavras já expressas em Números que “homens, mulheres, crianças e velhos, assim como bois, ovelhas e jumentos, foram passados a fio de espada. Novamente, Javé, que pode ser definido como uma divindade guerreira, ordenou que não houvesse clemência. Afinal, o cerco à cidade de Jericó seria apenas uma etapa de algo que ele já havia determinado. A cidade e os seus homens já haviam sido conquistados (Js 6.2).

Mais representativo ainda é aquilo que se pode ler em 1 Sm 15. O texto enuncia explicitamente uma vingança da parte de Javé. Nota-se que a ordem que Samuel deu a Saul era resultado de um acerto de contas, uma revanche, uma vingança da divindade guerreira: “Resolvi punir o que Amalec fez a Israel cortando-lhe o caminho quando subia do Egito” (1 Sm 15.2; Dt 25.17-19; Ex 17.8-16). Os amalequitas ou amalecitas eram povos que viviam na parte Sul, próximo à fronteira com o Egito, nas imediações do Sinai. Esse povo geralmente pilhava tribos mais fracas. Raptavam mulheres, capturavam homens e vendiam-nos como escravos. Realizavam ataques oportunistas. Javé decide se vingar do povo de Amalec, conforme se nota no texto de Samuel. A ordem é dada de maneira meticulosa a Saul, aquele que é considerado o primeiro rei de Israel.

"Vai, pois, agora, e investe contra Amalec, condena-o ao anátema com o que lhe pertence, não tenhas piedade dele, mata homens e mulheres, crianças e recém-nascidos, bois e ovelhas, camelos e jumentos” (1 Sm 15.3). É importante notar que Saul poupou “Agag e tudo o que havia de melhor do gado miúdo e graúdo” (15.9). E nesse ponto residiu o seu equívoco, segundo nos aponta o texto bíblico. Javé se “arrependeu” (sic) de ter dado a Israel a realeza de Israel (15.11).

Salienta-se aqui que os escritos dos dois livros de Samuel têm por objetivo firmar um conceito de identidade nacional. Nota-se que os textos retratam um período em que os judeus já haviam se estabelecido no território de Israel. Era necessário consolidar uma ideia de reino como acontecia com os assírios. A crítica moderna entende que o texto surgiu no período entre 630 e 540 antes da era comum, ou seja, entre o período do exílio ou do período pós-exílico. Quando o texto foi escrito, buscava-se construir um discurso de conquista, fortalecendo um senso identitário de nação. Ou seja, ao longo de sua história Israel sempre precisou existir em torno de uma disputa. A batalha, o cisma e o exílio sempre fizeram parte da noção de judaicização. Ser judeu é também um conceito existencial. A própria criação de Javé como divindade que aglutina e organiza o povo para a conquista passa por essa compreensão.

Atualmente, quando se notam os ataques violentos e impiedosos contra o povo palestino  - embora não se aceite a violência desferida pelo Hamas contra a população civil de Israel -, depreende-se que para o seguimento mais radical de Israel não existe nenhuma anormalidade. Há base histórica no discurso criado por eles mesmos. Aquilo que eles denominam de Tanak (Torá ou Pentateuco – os cinco primeiros livros do Antigo Testamento – o Neviim – os profetas; e o Kentouvim – os escritos que compreendem os textos sapienciais) é misto de mitos, fabulações e construtos políticos a fim de legitimar um tipo de concertação para justificar a própria existência. Trata-se de textos altamente parciais, de visão tendenciosa, escritos por indivíduos que possuíam uma intencionalidade, textos estes transformados em sagrados.

Israel sempre utilizou de disputas para ser o que é. Aliás, é compreensível que assim o seja, pois estamos a falar de povo que possui quase quatro mil anos de história. É necessário reconhecer que os judeus foram vítimas de enormes injustiças ao longo da história como aconteceu ao longo da Idade Média ou o morticínio orquestrado pela máquina assassina de Hitler. Todavia, esperar do governo de extrema direita de Benjamin Netanyahu que haja compreensão e piedade para com mulheres e crianças é impensado.

O ministro da Defesa de Israel – Yoav Gallant – proferiu uma sentença que faz ecoar a mensagem de Javé enunciada por Moisés e por Samuel: “Estamos impondo cerco total à Gaza. Nem eletricidade, nem comida, nem água, nem gás, tudo bloqueado” (09/10/2023). Gallant sentencia como que fazendo ecoar o que encontramos nas páginas do Antigo Testamento: “Estamos lutando contra animais e agimos em conformidade”.

A fala do líder político israelita revela de maneira inesitante como Israel compreende o mundo, seja cercando Jericó, seja aniquilando os amalequitas ou exterminando os palestinos em pleno século XXI. Israel percebe-se como o povo escolhido por Javé, a divindade arrancada do panteão cananeu e eleita à força como a sua divindade única. Para fazer isso, os judeus possuem uma filosofia da história, estruturada em uma narrativa que mescla lendas, fabulações e revisionismos históricos. Por ser um povo que construiu a noção de deidade e espiritualidade do mundo Ocidental, possui a simpatia e a tolerância de boa parte da comunidade internacional. Eis aí a sua grande astúcia.

 

Salvador-BA, 15/10/2023.

               

segunda-feira, abril 24, 2023

A história, a mitologia judaico-cristã e as mulheres

 

Ao longo da história, observa-se um movimento que sempre procurou tornar as mulheres seres sem vontade. Em quase quatro milênios de história registrada, é proeminente a hegemonia do protagonismo do discurso masculino. A historiadora Gerda Lerner afirma que mais de 90% dos registros históricos desse período foram feitos por homens.

Observa-se o quanto as mulheres foram definidas a partir de uma valoração sobre o corpo. Elas sempre foram alvos de uma catalogação. Houve, por exemplo, a determinação de que as mulheres são seres maternais, frágeis, concebidas para as tarefas subalternas, domésticas. O espaço da rua, das ações, das decisões foi feito para os homens; já o espaço das mulheres é o “espaço do recôndito” – da cozinha, do quarto. Mesmo quando o homem está em casa, a casa passa a ser segmentada – a sala por ser o lugar dos encontros e da sociabilidade é do homem; à mulher, cabe a cozinha.

A catalogação fornece um lugar à mulher – os homens são seres da cultura; a mulher, um ser da natureza. No entendimento masculino, as mulheres existem para preencherem certas atividades. Passaram a ser acessórias ao homem.

O mito bíblico-judaico afirma que Javé (que personaliza o masculino), criou para Adão “uma auxiliadora idônea”. É necessário destacar que "idôneo" é aquele ou aquela que auxilia, que presta uma ajuda, uma assistência. Aparece como alguém que está ao lado; que não possui protagonismo, que está à sombra de algo. Esse ser só é quando está ligado ao elemento definidor de sua existência, pois surge como apêndice. A palavra “idoneus” significa “bom”, “útil” ou que “demonstra perfeito estado”. A Bíblia na Linguagem de hoje é mais reveladora no sentido de tornar mais explícita a despersonalização da mulher. Nota-se o que Javé afirma: “Não é bom que o homem viva sozinho. Vou fazer para ele alguém que ajude como se fosse a sua cara metade”. Ressalta-se, mais uma vez, que a mulher só é algo enquanto estiver ligada ao homem. Ela nunca está só; é sempre a partir de algo. A ideia de “cara metade” possui ecos da filosofia grega; todavia, o entendimento aproxima-se disso, pois a mulher nunca é inteira, completa. Ao longo de mais de quatro mil anos de história, houve sempre o discurso da incompletude; ou que sua missão é estar ao lado do homem para ser um com ele. Ou seja, ela nunca é algo estando sozinha.

A Bíblia de Jerusalém afirma que após Javé ter criado o homem, o próprio homem afirmou: “Ela será chamada mulher, porque foi tirada do homem”. O homem passa a ser uma espécie de tutor da mulher, dando-lhe um nome, definindo-lhe a forma, a natureza.

Ainda no livro de Gênesis, encontra-se estupefaciente passagem sobre a condição: "Teu desejo te impelirá ao teu marido e ele te dominará" (Gn 3.16). Fica subjacente no texto a nação de que mulher é uma entidade com instintos irrefreáveis e em constante ebulição. Somente contida pela força atávica do homem. 

A mulher, assim, ao longo da história, possui um desejo tutelado. Enquanto os homens são aqueles que registram a história, são os seres que produzem a cultura, as mulheres são os seres auxiliares, que existem para satisfazer os homens. A história foi feita por homens, por isso as mulheres nunca tiveram um lugar de protagonismo. A Bíblia corrobora aquilo que Gerda Lerner afirma, pois foi feita à imagem e semelhança do macho. Quando não é Javé que fala, é o homem que assume o seu lugar para definir os papéis das mulheres no mundo. Observa-se ainda que não há uma única autora em qualquer narrativa bíblica. Os registros dos mitos bíblicos foram feitos por homens. E daí surge uma perturbadora pergunta: Caso as mulheres tivessem escrito a Bíblia, quais seriam as noções sobre o sagrado? Javé seria um ente melindroso, violento e contraditória como aparece em todo Antigo Testamento?

sábado, dezembro 10, 2022

Um comentário sobre a Bíblia

                          

Hoje, enquanto ziguezagueava pelo Facebook, encontrei uma reportagem da BBC Brasil a respeito do dilúvio contadopela Epopeia de Gilgamesh, um fascinante relato sobre como se deu a luta entre homens e deuses nos primórdios dos tempos. A reportagem chamava a atenção para o fato de que, a Epopeia que é muito mais antiga que os relatos bíblicos, já descrevia a existência de um dilúvio com características bem próximas daquelas aludidas no texto bíblico do Gênesis.

Li certos comentários – poucos. Alguns que questionavam a autoridade da Bíblia; já, outros, enaltecian sua suposta grandiosidade. Vivendo em um país cristão e, deveras, religioso, é algo natural que se faça uma defesa apaixonada de suas prerrogativas. Também deixei um comentário. Ei-lo abaixo:


A Bíblia é a experiência religiosa de um povo, no caso, os judeus, que foi transformada em registro sagrado. O que há na Bíblia é antropologia. É o desejo do homem em alcançar a eternidade. É a fé erguida por meio da linguagem. Boa parte dos escritos bíblicos está eivado de relatos mitológicos, principalmente, certos trechos do Antigo Testamento. Dizer que a Bíblia foi escrita por mais de 40 escritores diferentes; que os relatos compreendem mais de 3 mil anos; que ela mudou gerações, civilizações, não quer dizer nada. Na Índia, o Bhagavad Gita também tem mudado gerações; o Alcorão, também, tem feito isso no mundo islâmico. O cristianismo se tornou uma religião hegemônica no Ocidente. Durante muito tempo, nascer no Ocidente era automaticamente se tornar um seguidor de Jesus nos seus mais variados eixos - católico, protestante, ortodoxo etc. Quem não o fizesse era perseguido sob o risco de perder a própria vida; ou pagava duramente com o ostracismo social e político.

Os judeus, um dos povos mais fracos da Antiguidade, que não tinham nada de mais a oferecer; que não possuíam um exército forte; que não manobravam em rotas comerciais pelo Mediterrâneo à semelhança dos fenícios, foi dono de uma das maiores estratégias da história da humanidade: que foi fundação de uma religião nacional monoteísta sob a égide de Javé. Daí pra frente, nós conhecemos o resultado. Dizer que a Bíblia transforma as pessoas que são expostas a ela também não quer dizer nada. Como um livro compilado por uma série de eventos, o principal ator nas suas páginas é o ser humano com todas as suas fragilidades e fragmentações, diante do desejo, do medo, da angústia, diante do numinoso, como diria Rudolf Otto.

P.S. Além disso, encontrei esse vídeo entusiasmante e esclarecedor no Facebook sobre a famosa Epopeia e sua relação com a Bíblia.

segunda-feira, junho 21, 2021

Algumas palavras sobre o capítulo 1 do livro de Jó

Propus-me a ler o livro de Jó, uma das obras magnânimas do Judaísmo e do Cristianismo. Pretendo ler um capítulo por dia. Jó é um livro bastante emblemático, pois possui uma teologia suscitadora de possibilidades interpretativas que chega ao terreno do mito. É inegável a sua magnificente estrutura poética. Já o li algumas vezes. Sempre ficou aquela sensação de que há, no livro, uma intenção sapiencial e moral em seu autor. Não se sabe ao certo quem é o seu autor.

Outro fato bastante curioso sobre o livro é a historicidade do seu personagem principal. Quem é Jó? O livro começa situando os leitores geograficamente: “Havia na terra de Hus um homem chamado Jó” (Jó 1.1)[1] .  É uma forma de posicionar o leitor para a história que vai começar. É muito parecido com “Era uma vez,...”, das histórias extraordinárias.

A personagem é apresentada e, de início, já se diz que ele é “um homem íntegro e reto, que temia a Deus e se afastava do mal”. A introdução procura estabelecer duas características para a personagem: (1) uma preocupação moral; e (2) uma preocupação religiosa.

No segundo versículo, os dez filhos de Jó são apresentados. E, somente em quarto lugar, aparece a fortuna da personagem. Não se fala nada a respeito, mas, nota-se que os anos se passam. Jó reúne a família. Há festas, banquetes, congraçamentos.  Um espírito de fraternidade e amor parece existir entre os irmãos. Mesmo com todas essas situações, Jó é escrupuloso ao ponto de oferecer sacrifícios ao seu deus (Jó 1.5).

A partir do versículo 6, há um deslocamento no texto. Assemelha-se a um efeito cinematográfico. “Os Filhos de Deus”, em certo dia, vieram se apresentar a Iahweh. Quem eram esses “Filhos de Deus”? Seriam deuses? Arcanjos? Entidades miríficas que habitam a eternidade? A imagem deixa a entender de que se trata de um panteão. Vale ressaltar que os povos vizinhos de Israel eram politeístas. Ou seja, acreditavam em vários deuses. Do ponto de vista histórico, acredita-se que os judeus absorveram muito da mitologia cananeia. Inclusive, há o entendimento por parte de alguns historiadores, que o próprio Yaweh tenha sido incorporado da mitologia dos cananeus.  

Outro aspecto curioso a respeito dessa narrativa é que entre esses “seres especiais”, apareceu “Satanás”. Observa-se, nesse sentido, que “Satanás” ainda não possui os atributos diabólicos que assume no Novo Testamento. Ainda não é o “Baal Zebuf” (“o senhor das moscas”). Ou seja, aquele que habita o mundo escuro. Questionado por Yaweh a respeito do que fazia, ele responde: “Venho de dar uma volta na terra, andando a esmo”. É como se vivesse de forma desgarrada dos demais seres eternos. Nessa separação, ele “espreita” a criação. É responsável pela fermentação de antagonismos.

Iahweh parece provocar a criatura que acabara de chegar: “Reparaste no meu servo Jó? Na terra não há outro igual: é um homem íntegro e reto, que teme a Deus e se afasta do mal”. (Jó 1.8). Nota-se nesse sentido, que a observação em tom de arrogância provocativa vem do próprio Iahweh. Satanás retruca, afirmando que era muito fácil para Jó possuir todos aqueles atributos. Ele era protegido. “Porventura não levantaste um muro de proteção ao redor dele, de sua casa e de todos os seus bens?”. (Jó 1.10).

O que mais impressiona nesse fato é que, a partir dali, inicia-se uma espécie de aposta meta-histórica. Algo que acontece numa dimensão imiscível, mas que passa a ter efeitos no mundo material. Iahweh autoriza que Satanás inicie um processo de teste extremo à fidelidade de Jó. “Pois bem, tudo o que ele possui está em teu poder, mas não estendas tua mão contra ele”. (Jó 1.12). Diz o texto que “Satanás saiu da presença de Iahweh”.  

Fenômenos terríveis começam a ocorrer com Jó. As suas posses são aniquiladas. Os seus filhos são assassinados ou mortos em desastres naturais. Mas, vale lembrar, que a manipulação dos elementos naturais, estava sendo realizada por Satanás. A consequência desses eventos é a miséria suprema de Jó. O ato de Jó foi ‘rasgar o manto’; ‘rapou a cabeça’; ‘caiu por terra’; ‘inclinou-se para o chão’. São gestos que atestam o não conformismo, mas, ao mesmo tempo, uma humildade, uma aceitação inquestionável. O capítulo 1 finaliza com a sentença objetiva: “Apesar de tudo isso, Jó não cometeu pecado nem protestou contra Deus”.

Nota-se nesse primeiro capítulo de Jó, pelo menos, duas perspectivas:

(1)    O destino e a sorte dos homens são decididos, muitas vezes, em “jogos” ou “apostas” meta-históricas. Iahweh parece ignorar todos os sofrimentos que seriam experimentados por Jó. Há um claro equívoco na perspectiva da bondade divina. A fidelidade como fica evidenciada nos versículos iniciais do livro, não é uma garantia de proteção e zelo divino. A principal preocupação de Iahweh é provar uma tese: a de que ele era temido por Jó, independentemente da situação. Ou seja, muitos dos eventos trágicos – enfermidades, acidentes variados, casos inexplicáveis – podem indicar a presença de um jogo. Isso do ponto de vista das leis naturais é absurdo. Há ainda uma clara falta de lógica no que tange ao controle dos fenômenos.

 (2)  A estrutura do texto possui claros elementos mitológicos. Assemelha-se às narrativas dos povos vizinhos a Israel. Afinal, a noção de seres eternos que reúnem para decidir o destino dos homens possui fortes relações com a mitologia grega, por exemplo. A intriga entre os desejos divinos, os caprichos que acometem os deuses, estão presentes na narrativa. Seres eternos estão preocupados com aquilo que os homens fazem ou deixam de fazer. Sentimentos humanos são direcionados a seres tidos como perfeitos. Essa personificação é comum em histórias de contos maravilhosos. Para aquele que crer, que aceita irrefletidamente os elementos do texto sem notar esses arranjos discrepantes, acomodam-se com facilidade esses eventos da narrativa.

Vamos ao capítulo 2.   



[1] Na leitura, estou usando a excelente tradução da Bíblia de Jerusalém.

 

sexta-feira, março 20, 2020

A justiça em um coportamento exemplar - o caso do irmão mais velho do filho pródigo

O Retorno do Filho Pródigo, de Rembrandt, séc. XVII


A parábola do filho pródigo ou do pai amoroso, encontrada no texto bíblico atribuído ao médico Lucas, é rica em significados. A enorme quantidade de reflexões procura colocar em evidência a jornada inconstante do jovem que abandona sua casa, seu velho pai e leva consigo parte da herança. Há ainda uma preocupação em tornar visível o amor incontido, silencioso, gracioso do pai. Ele ficava à porta esperando, diariamente, o retorno do filho inconsequente.

Por sua vez, ao se falar do filho mais velho, o que ficara em casa, aquele que vivera o luto do pai com a partida do irmão; que concentrara responsabilidades por causa da saída do irmão novo; que estivera trabalhando no campo e observou, ao voltar, uma algazarra, um vozerio, que vinha da casa e, simplesmente, perguntou para um criado o que acontecera. Ele é costumeiramente retratado como alguém amargo, ressentido, rancoroso. Reforça-se a noção de que ele seja uma pessoa dura. Parece não haver um esforço para entender o seu ponto de vista. Segundo Lucas, ao ouvir os sons do festim - e saber ainda que o pai matara o "o novilho gordo" - "encheu-se de ira". Ficou à distância. Nutria em seu silêncio, a indiferença do pai. Procurara, por meio de um comportamento justo, exemplar, ser um filho que orgulhava o pai. Os vizinhos certamente o admiravam. Viam nele um exemplo a ser seguido. Muitas jovens o queriam por marido.

Ele fizera tudo correto. Procedera de forma irretocável. Não havia juízos contra ele. Sua ira era é justa. Seu pai tentou consolá-lo. Arranjar razões. Por sua vez, o filho mais velho estava duro e inerte. Algumas lágrimas brotaram quentes. Rolam pela pele corada e escura. Chegam até à barba fechada - um sinal de dignidade. Prepara-se para falar. Os pensamentos estão em ebulição. As palavras marcham firmes de sua boca. "Olha! Todos esses anos tenho trabalhado como um escravo ao teu serviço e nunca desobedeci às tuas ordens". E, segue, como se as palavras viessem de uma fonte torrencial. "Tu nunca me deste nem um cabrito para eu festejar com os meus amigos. Mas quando volta para casa esse teu filho, que esbanjou os teus bens com as prostitutas, matas o novilho gordo para ele". 

A resposta do pai é desconcertante. Revela uma face para a qual o filho mais velho não estava acostumado. "Tudo o que tenho é seu". E justifica da seguinte forma as comemorações iniciadas: "Mas nós tínhamos que comemorar e alegrar-nos, porque este teu irmão estava morto e voltou à vida, estava perdido e foi achado". O pai diz "teu irmão" (lembrando que o irmão mais velho empregara a expressão "esse teu filho"), buscando reintegrar a familiaridade entre os dois. 

Diante desse episódio, a sua justiça, comportamento exemplar, são rebaixados. Não há exaltação à sua pessoa. Sua indignação se situa entre a injustiça e o amor. Ele é visto como um coadjuvante vingativo. Cheio de virulência. A história encerra-se com as palavras do pai. Não se sabe o que aconteceu: se ele entrou desconfiado e contrariado, e aos poucos, buscou observar o irmão com outros olhos; ou, simplesmente, continuou inarredável, inflexível em suas convicções de justiça. 

Na conhecida pintura de Rembrandt, ele fica de longe, com ar inerte, segurando um cajado, observando o abraço generoso do pai. O que passa por sua cabeça? Uma indignidade o que acontecia, certamente. Ele entende assim. Trata-se de um antagonismo forte nessa brilhante parábola: de um lado o amor incomensurável de um pai que perdoa; do outro, a justiça irretocável de um filho que levara uma vida exemplar. E uma pergunta surge: ele estava errado em sua ira?


sexta-feira, junho 05, 2015

Silas Malafaia e as certezas de uma cor só

"Todo homem irrefletido acha que somente a vontade é atuante; que querer é algo simples, puramente dado, não deduzível, em si mesmo inteligível. Está convencido de que quando faz algo, quando desfecha um golpe, por exemplo, é ele que golpeia, e que golpeou porque quis fazê-lo". 

Nietzsche, in A Gaia Ciência, Aforismo 127

Como deixei transparecer em outras postagens incipientes, já engrossei os filões do evangelicalismo. Já fui ao púlpito, lugar da prédica, e enchi os pulmões de ar a fim de publicizar as minhas certezas, tidas como honestas e inolvidáveis por todos os crentes. Dei aula na escola dominical, lugar de formação, de consolidação das premissas absolutas, que não podem ser contraditadas, posto que a verdade não é uma categoria relativa, capaz de ser posta à prova no mundo da religião.

E acabei aprendendo uma coisa: por mais que se tenha uma visão flexível em torno de determinados temas; por mais que se busque uma relação "frouxa" e de desobrigação com os pressupostos do absoluto, uma vez que você o abrace, essas convicções estreitarão a capacidade de entender a complexidade da totalidade que move o universo. O crente não sofre crises filosóficas, pois a verdade não é um problema para ele. Em seu interior mora a certeza, a fé, que é a capacidade de se acreditar em algo que não se ver, mesmo que não se tenha provas acerca disso. Assentado nessa convicção que é confirmada apenas pela sua experiência; pelos fiapos frágeis da experimentação que emanam dos sentidos, o crente contradiz tudo aquilo que não caiba ou que não possua as tonalidades pictóricas de sua linguagem. Para tornar o imaterial, o intangível em algo claro ou que se estribe na sedimentação de algo possível ou visualizável, cria-se o dogma. O dogma é a tentativa de tornar o imaterial, a ausência, em algo factível, que estrutura o absurdo. 

Pensemos a seguinte situação hipotética, para entendermos como o mundo do religioso é sedimentado. Imaginemos que em um determinado dia, uma força impensável, contrariando as leis naturais surja para algumas pessoas e segrede: "Essa é a minha luz, a minha glória azulácea. De hoje em diante, vestirás o azul. E todo aquele que não vestir azul me negará. E todo aquele me negar estará do lado do mal e não terás relação com ele". Ao que os seres privilegiados e estupefatos pela visão, poderiam indagar: "E o que faremos a partir de agora?" A criatura sobrenatural diria em voz cavernosa do meio da fumaça: "Vai e prega que pelo azul se viverá e qualquer outra cor não será tolerada". 

Claro, criei uma ficção absurda para ilustrar o quanto as religiões são estreitas em suas certezas dicotômicas. Para o religioso, o mundo está dividido entre o mundo dele ( o caminho certo, da vida, reto) e o caminho dos outros (o caminho da perdição, do pecado). Assim como na historieta que criei o  azul seria o absoluto e tudo aquilo que não tivesse essa cor (o vermelho, o amarelo, o branco, o roxo, o marrom, o preto) seria visto como a anti-cor, da mesma forma acontece com o mundo encerrado nos preconceitos da religião. 

O direito a ter uma religião é sustentado pela Constituição. Isso é inegável. Todos os sujeitos têm o direito a professar uma fé, desde que esta não ultrapasse os limites do bom senso e seja posta como aquela está acima de todas as demais - o que quase sempre acontece em nosso país. Outra coisa é a sensibilidade oriunda de uma espiritualidade salutar. Isso independe da religião. Para ser espiritual, uma prática saudável que pode ser cultivada por todo ser humano, não é necessário ser religioso. Ser espiritual é ser capaz de notar a beleza posta nas pequenas coisas. Ser espiritual é enxergar no ser humano um outro como a si mesmo. Acredito que verdadeiramente esteja aí o sentido do religare (religião), ideia que nos "conecta" ao numinoso,  ao halo misterioso que envolve todas as coisas. 

Ora, escrevo essas palavras por causa da propaganda de O Boticário que suscitou tanto ódio esta semana nos religiosos empedernidos de plantão, defensores de que "o azul" é a única cor que existe no mundo. E que qualquer outra tentativa de colorir a realidade com outra cor seja nocivo e pecaminoso. Para Silas Malafaia, um bravateiro de plantão, sujeito que "arrota" as suas convicções dubitáveis e cegas, obrigando-nos a sentir o mal-cheiro do jorro de suas ideias conservadoras, só existe uma forma de se relacionar no mundo. Segundo ele, a família é milenar. Talvez ele precisasse ler uma pouco de sociologia ou antropologia para perceber que a ideia de família é construída socialmente. Que há tribos na África, na Oceania ou mesmo em meio aos índios brasileiros, que a ideia de "papai" e "mamãe" (uma concepção burguesa) é subvertida. Mas, quando ele diz que "a família é milenar", sei, está apontando para a bíblia, pois lá, segundo ele, estão os verdadeiros modelos a serem seguidos. Ou seja, esquece ele que a bíblia foi escrita em um contexto social e histórico em que determinada cultura, a dos judeus, possuía as suas especificidades. Com isso, o caricato polemista (não somente ele) quando leva em conta o modelo preconizado pelos judeus, acaba por absolutizar o modus operandis de uma cultura em detrimento de outras. E, assim, confirma-se a nossa tese. 

A fossilização da história é o grande problema do religioso. Ele olha para determinados aspectos. Perscruta, avalia, tira conclusões e afirma, relegando a multiplicidade de forma do mundo: "Tudo agora será roxo, cinza ou azul", como quer nos fazer crer o senhor Silas Mala-faia e sua trupe acostumada a enxergar o mundo de forma monocromática. Triste! 

sábado, janeiro 24, 2015

As duas éticas e o evangelho

As parcas leituras da bíblia que realizei, levaram-me a entender que existe uma ética da contradição nas sentenças evangélicas. A bíblia é um livro dos livros. Quando afirmo isso quero dizer que lá dentro encontram-se uma quantidade grandiosa de discursos. Quem pretender lê-la, precisa estar sensível a isso. Há o discurso raivoso de um Javé melindroso no Antigo Testamento. Alguém que mata idosos, crianças, mulheres. Que culpa o rei Saul por ter poupado uma nação inimiga inteira, quando deveria ter dizimado todos os seus integrantes.

É o deus bélico. Que extermina povos inteiros para promover Israel. Muito cômodo para Israel que conta a sua história de protegido. Há o discurso da justiça social dos profetas menores.  A poesia que busca inspiração na natureza de alguns dos salmos. No chamado novo testamento, encontramos o discurso ressentido de Paulo. Alguém que, criativamente, sistematizou um código dogmático e que acabou criando o que conhecemos como doutrina da igreja cristã. Termos como predestinação, eleição, justificação, velho homem, novo homem, velho Adão, novo Adão, não são encontrados nos quatro relatos biográficos da vida de Jesus, conhecidos como evangelhos. Nesse sentido, é possível é distinguir uma mensagem paulina e uma mensagem cristocêntrica nessa teia complexa de discursos.

E acredito que o coração da mensagem cristã esteja justamente nessa pequena porção da bíblia. É como se ali estivesse o coração do sistema. O seu núcleo vital. Dali emanam a energia, a luz que irradia sobre a vida. Percebo que Mateus, Marcos, Lucas e João, os chamados biógrafos oficiais, reconhecidos pela igreja (outros escreveram também sobre Jesus), conseguiram captar ou construir um discurso de uma ética que é mais fina, mais nobre, do que aquela construída por Paulo e seguida pela igreja. Por isso, vislumbro dois horizontes distintos quando leio os evangelhos e enxergo aquilo que é praticado: 

(1) Cristo levou à frente um tipo de projeto que fazia com que os sujeitos saíssem de uma ética privativa, para uma ética coletiva. Para Jesus, o seu reino só faz sentido se levar a transformação do outro e do mundo como causa fundamental. Jesus pregou a misericórdia e disse que pobres são todos aqueles que se reconhecem como necessitados de uma mudança existencial, de uma guinada que passará a ser dirigida pelo amor, solidariedade. A moral predatória, porque desvinculada de um projeto de inclusão e solidariedade, não faz parte do seu reino. É do reino aquele que, na aceitação da diferença, vive isso como verdade incondicional. Como diz Jürgen Moltmann Cristo não é apenas o articulador de uma mensagem, mas o criador de um caminho. Esse caminho se alegra com toda causa que espalhe a justiça, que inclua o necessitado, que permita ao outro uma compreensão da sua condição e o faça buscar o bem-estar para todos os homens.

(2) Por outro lado, existe uma ética privatista, seguidora dos valores culturais do momento, como se esses fossem a exata medida daquilo que é ensinado. Seguidora daquilo que é articulado pelo sacerdote, que em muitos casos é mais ignorante, do que muitos fiéis (Mateus 23). Trata-se, no fundo, primeiro de uma compreensão que leva em conta uma tônica baseada em regra marcial de mercado: conquistar, crescer, avançar, bater no peito e alardear a sua própria justiça arrogante (Lucas 18.9-14). Ou seja, cresço à medida que conquisto, não levando em conta que o crescimento propugnado pelo evangelho se dá de dentro para fora. A água que revela que o chafariz funciona não brota de fora para dentro, mas de dentro para fora (João 7.38). Nietzsche diz que a existência do sacerdote é legitimada pela conivência do fiel; aquele possui um discurso reativo, negativo, em relação a este. Este aceita a autoridade daquele e chancela a sua autoridade.

Portanto, não acredito em um evangelho como visto por aí: de cara séria, sisudo, falso, perdulário, ufanista, irresponsavelmente despreocupado com a humildade, com o silêncio, com a reflexão sobre o mundo (não para julgar e se afastar), que não vive aquela fala de Jesus: "o que a tua mão direita faz, não conte à esquerda"; preocupado com o exterior do copo e não com o seu interior; um evangelho que segue uma ética mercantilista e que mesmo quando diz ser puro, está escondido nos recônditos de um discurso chauvinista e que não se transforma em vida.

Lendo uma entrevista do Papa Franscisco, cristalizei ainda mais essas certezas. Francisco tem sido perseguido pelo fundamentalistas conservadores por pregar, justamente, a ética coletiva que é tão evidente na mensagem de Jesus. O evangelho quer queira quer não queira faz uma opção pelos pobres. Tiago, o irmão de Jesus, em sua sede justiça, diz em sua carta (Tg 5.1-6) que os pobres foram injustiçados pelos ricos, que se aproveitaram de sua não resistência e lançaram aqueles na miséria.

Wolfgang Schrage, corroborando com o que diz Tiago em outro capítulo, diz que "fé e ação estão indissoluvelmente unidas" no cerne da mensagem evangélica. Por isso, perdi completamente a paciência com o discurso ufanista e conservador de determinados sujeitos, que levantam a bandeira de uma ética que não é o coração da mensagem evangélica; uma ética hipócrita e seletiva. Nesse sentido, quando alguém diz ser cristão analiso qual ética está inscrita em seu discurso: se privatista ou coletiva.

quarta-feira, janeiro 22, 2014

"Crimes e Pecados", de Woody Allen - um tratado sobre o comportamento humano

Vi ontem, com um olho aberto e outro e outro fechado, em decorrência do sono, o ótimo filme Crimes e Pecados, de Woody Allen. Assisti a esse filme sempre foi uma luta (risos!). Iniciei várias vezes e nunca terminei. Desejei, da última vez, iniciar e finalizar. O filme é imensamente agradável. Está dentro do gênero comédia, mas, ao fim, percebemos que se trata de uma tragicomédia, com forte sabor filosófico.

Crimes e Pecados constrói uma tese cristã sobre os homens: todos os homens são culpados; todos os homens cometem crimes morais e, por isso, são pecadores. Os personagens centrais possuem máculas em sua personalidade ou cometem delitos privados, omitidos na vida pública. O oftalmologista bem-sucedido, dono de uma aparente reputação ilibada; pai de família exemplar; segue um fluxo amplo nas relações sociais, mas acoberta um adultério. E quando a amante ameaça trazer o romance proibido à tona, ele decide matá-la. Depois, se ver acometido pelo remorso e pela culpa, já que descendia de forte educação judaica. E segundo seu pai, "Deus retribuirá com um prêmio ao homem bom e com o castigo o homem mal". 
Judah Rosenthal (Martin Landau) e Dolores Paley (Anjelica Huston
 Halley Reed (Mia Farrow), que aparenta ser um oceano de recato moral, acaba casando com Lester (Alan Alda), simplesmente, por interesse. Cliff Stern (Woody Allen), apesar de parecer um sujeito aparvalhado, por certo momento, decide trair a esposa com a companheira de profissão, Halley Reed. Queria levar à frente o romance, mas se ver impedido pela deferência da moça. Até mesmo a esposa de Cliff, nas cenas finais do filme, diz ao irmão Lester que havia conhecido uma pessoa. Ou seja, a consumação de mais um adultério. Claro, as minhas descrições ficam apenas no campo do imediatismo, sem esboçar contundentemente a gama complexa trabalhada no filme.

Cliff Stern (Woody Allen) e Halley Reed (Mia Farrow)
Frase lapidar é enunciada pelo personagem de Woody Allen: "Nós somos a soma de nossas decisões". Entendo que essa frase possua metade do devir pela qual somos acometidos. Ela é verdadeira. Mas entendo que não são apenas as nossas decisões que fazem cada um de nós. Somos resultado de conjunturas sociais, culturais etc. Mas, por sua vez, o que Cliff quer dizer é que muitas das decisões que tomamos acabam por trazer consequências e que nos colocam em caminhos que definem a nossa existência. Escolher uma estrada é optar, também, não caminhar por outra estrada. E os fatos e relações que estão presentes na estrada que decidi caminhar, criam ramificações que vão trazendo consequências e se instauram como fios tentaculares. Tais eventos acabam gerando fatos que estão para além do nosso controle, como acontece, por exemplo, com o oftalmologista a qual citei acima.

Nossas decisões encerram premissas morais. A tese do filme é pessimista em excesso - e porque não dizer niilista? Ou seja, todos os homens são corruptos ou passíveis de corrupção. Isso me faz lembrar uma passagem bíblica: "O homem pode prevaricar até por um pedaço de pão" (Pv 28.21). Uma das definições para "prevaricar", segundo o Aurélio, é "torcer a justiça", "faltar ao dever", dando a entender que se trata de algo que encerra um elemento moral. Nesse sentido, Crimes e Pecados confirma essa afirmação reputada a Salomão.

Excelente filme! Vale a recomendação.

O filme pode ser visto no Youtube.

terça-feira, junho 18, 2013

Para quem os protestos? O Brasil muda com o voto?

A bíblia, tida por sagrada pelos cristãos, é um livro notável. Gosto de sua profundidade espiritual. De sua profusão de temas literários. De seus conselhos altos. De suas sentenças proverbiais. Como em uma passagem da qual me lembrei hoje à noite. Recordei-me da passagem por está lendo algumas frases, amontadoados de sentenças, textos de opinião, jaculatórias insensatas de leigos, via Facebook, afirmando que o melhor protesto é saber votar em 2014. Rapidamente me veio à mente um texto bíblico. O texto está em um dos evangelhos. Jesus diz que é, simplesmente, impensado colocar vinho novo em odres velhos. Acho essa passagem fantástica. Aqui Jesus diz que o velho não comporta o processo novo. É inapropriado por causa da natureza daquilo que é velho e a natureza daquilo que é novo.

É bom ver a população brasileira saindo às ruas para exigir um país mais justo, menos corrupto, com lideranças comprometidas com justiça social, ética e honestidade. Todavia, penso que falte foco a essas manifestações. É  mais ou menos assim: chegamos até aqui. E agora, José? O que fazer? Seria interessante que se estudasse um texto de Vladimir Lênin - "Que fazer?" - que é bem oportuno ao momento. Fico receoso que após todas essas marchas o otimismo arrefeça e cada um volte para sua casa como naquela parábola de "Os gansos", de Kierkegaard, que outro dia aludi. E essas páginas belas que têm sido escritas não sejam apagadas pelo tempo.

Esses movimentos itinerantes que surgiram pelo Brasil indicam que o povo está cansando dos desmandos de um Estado, que nos últimos quinhentos anos, continua o mesmo. Quando analisamos a história brasileira notamos que não houve mudanças, rupturas significativas. O processo de Independência, de Proclamação da República, de Abolição da Escravatura, que teve uma participação popular bastante tímida, não afugentou o drama do rompimento com um estágio anterior. Ou seja, as mudanças mais importantes da história do nosso país foram realizadas por aqueles que estão no poder. O povo sempre viu tudo de longe. Quem foi "rei" continua como "rei"; e quem foi "vassalo" continua como "vassalo". Apesar de não vivermos na Índia, o nosso país possui um regime de castas. Talvez, seja por causa do povo não está envolvido nos processos, revoluções (se é que houve alguma!), que tenhamos um dos modelos de formação social mais árbitrários do mundo. 

O Estado brasileiro é violento. A chamada "democracia" existe só de fachada, pois as oligarquias dominaram no passado e continuam dominando no presente por meio dos diversos aparelhos do Estado. Essa mesma oligarquia está instalada nos vários escalões de poder e possui a seu favor o conservadorismo e o poder simbólico das mídias. Os grandes monopólios desse país estão construídos no campo das ideias. A televisão, infelizmente, ainda continua sendo a escola de muitos brasileiros. O que o William Bonner, esse grande ventríloquo global diz no "Jornal Nacional"(o jornal da ignorância nacional), ainda é tido como verdade irrefutável. Diante de um poder tão grande, essa entidade chamada Globo, aliançada com a Folha de São Paulo, Veja e todo a imprensa conservadora, constrói um muro de falsidades e reacionarismos, que busca crimizalizar os movimentos sociais e tudo aquilo que sugira a contradição.

É formidável ver o povo nas ruas, mas penso que as metas e objetivos dessas passeatas se tornem mais claros, transparentes e substantivos para que a mobilização não feneça. Está equivocado quem pensa que é votando que se melhora o país. Já tentamos de todas as formas fazer isso. Mas o que falta não é um candidato, mas um projeto que dê uma cara de Brasil ao Brasil. Erra quem acha que é determinado candidato que vai mudar o país. Esse messianismo é uma grande falácia. Esse ainda é o discurso da mídia que quer fazer todos acreditarem que determinada pessoa mudará o país. A história não feita por um homem, mas por homens que, juntos, constroem a história. 

Por isso, penso que a frase bíblica citada acima tenha tudo a ver com essa expectativa. O modelo novo que desejamos para o país não pode ser contido nessa estrutura arruinada que temos no presente. O cerne da alma brasileira está contaminado pela corrupção, pelo jeitinho, pelos desmandos e megalomanias vindos da casa-grande. Essas passeatas para terem um resultado profícuo precisam continuar pelos próximos anos, décadas. A monta de problemas é gigante. É preciso estabelecer uma agenda de atuação e lutar por isso - educação, saúde, transporte, transparência, salários de parlamentares pagos, fugindo da realidade do trabalhador assalariado, gastos com mancebias estranhas entre o público e o privado, etc. Ou seja, fazendo isso e realizando marchas reivindicatórias constantes, talvez mudemos esse país.

Euclides da Cunha diz algo fabuloso em "Os Sertões": "O que separa o litoral do interior não são quilômetros, são séculos". E essa frase é evocativa para que profiramos neste instante: "O que falta para transformar o Brasil em país decente não é uma marcha, duas marchas; são séculos de marchas. Pois não estamos atrasados cinquenta anos, mas talvez  trezentos". Continuemos a marchar com consciência.

terça-feira, março 05, 2013

Uma elucubração sobre os dois primeiros capítulos de Gênesis


Os capítulos iniciais do livro de Gênesis são intrigantes sobre vários aspectos. Durante a história muitas discussões foram suscitadas em torno da origem, da autoria e da literalidade desse livro. Para a tradição, Gênesis teria sido escrito por Moisés - bem como o restante do Pentateuco. Todavia, conforme narra o último livro do Pentateuco, Deuteronômio, Moisés morreu antes que o povo entrasse na terra prometida (e antes de se concluir o seu ciclo narrativo). A teologia traditiva tem buscado explicar este fato de forma a atribuir a Moisés a autoria do livro das origens. Não há evidências internas (em Gênesis) que atestem que Moisés  seja o autor do livro. No que diz respeito aos aspectos científicos, não há uma explicação fechada, objetiva, corroborando com a autoria mosaica. As explicações conservam-se sob o aspecto da fé. O autor de Hebreus, afirma: "Pela fé, entendemos que foi o universo formado pela palavra de Deus, de maneira que o visível veio a existir das cousas que não aparecem" (Hb. 11.3). Ficando assim claro que a fé é a base propulsora que autentica a atividade criadora do divino.

Encontramos no primeiro capítulo muitos aspectos que não devem ser interpretados literalmente. Uma interpretação literal do texto traz prejuízos para a compreensão de modo consequente. Percebe-se, pelo menos no capítulo primeiro, muitos elementos metafóricos. O texto deixa nas entrelinhas que a narrativa é resultado da compilação de uma tradição. Enxergam-se (dentro do livro de Gênesis) vários blocos avulsos que dão a entender que não se trata de um único autor. É importante entender que a Bíblia é um livro humano, pois usa a linguagem humana, os caracteres literários humanos, os dramas humanos, o mundo humano. Para muitos, ela é um livro híbrido - com caracteres humanos e divinos. É inspirada, por isso, é divina; e usa elementos que são próprias da realidade e do mundo, por isso, é humana. Por isso ela deve ser lida e interpretada nessa perspectiva. A maioria daqueles que leem a bíblia de acordo com a tradição, busca interpretá-la sob a ótica literal. Tal fato se deve a uma espécie de medo. Entende-se basicamente que uma vez que se faça isso, a bíblia sofre algum tipo de prejuízo. Essa atitude é fruto de um desarrazoamento. Estriba-se no entendimento que os assuntos divinos precisam ser protegidos, advogados. Não creio que assim seja. 

Os capítulos iniciais sobre a criação, conforme posso notar com minhas limitações, é uma espécie de explanação dada para explicar muitos dos fatos sobre a realidade. Na verdade, trata-se de um poema cujo sentido é incluir por meio de símbolos e arquétipos uma resposta para o mundo: o céu, a terra, os mares, as estrelas, a existência do homem, as florestas. Ou seja, como é porquê tudo isso existe. Tudo isso está incluído nos fatos descritos no capítulo primeiro. Interpretá-lo literalmente, passa-nos a ideia de que Deus um dia resolveu brincar de “fazer o mundo”.

Seguindo esse mesmo raciocínio, observa-se no versículo 31 do capítulo 1, uma afirmação interessante: “Viu Deus tudo quanto fizera, e eis que era muito bom”. A Bíblia na linguagem de hoje diz que “Deus viu tudo quanto havia feito e tudo era muito bom”. Quero enfatizar aqui o fato de Deus “ver” e se “impressionar” com aquilo que fizera. Ou seja, o que fica patente é o fato de que o próprio Deus da criação “toma um espécie de susto com aquilo que criou”. É como se Deus não conhecesse os seus próprios poderes. Deus toma sustos com sua própria atividade criativa. Não há base filosófica para entender tal fato. Há uma coerência no ser de Deus, conforme entende a teologia. Seria aquilo que Parmênides afirma em sua filosofia: “Aquilo que é, é”. O ser só pode ser sendo. Se Deus é, mas não possui constância em ser, ele não pode ser. Se Deus sendo perfeito cria, mas sendo perfeito, assusta-se com aquilo que cria, perde o atributo da perfeição. Nisso vejo residir certa ilogicidade - como muitas são as ilogicidades da bíblia.

Já no capítulo 2.1-2, percebe-se em primeiro lugar a criação da história para sustentação do fato. Em suma: a história de Israel mostra que o sábado é “sagrado”. Deve-se necessariamente isso ao fato do mundo ter sido criado em 6 dias e ao sétimo (sábado) Deus descansou de Sua criação. Por que o sábado deve ser tido como santo? Todas as coisas não foram criadas “boas”? E se Israel, por ter na sua história sacralizado o sábado, tivesse criado a narrativa com o fim de sustentar a crença histórica; em outras palavras, criado a narrativa do Gênesis para sustentar a sua própria história, tratando-se especificamente da “história de um povo”? E o raciocínio que se estabelece é o de, que, uma vez que o próprio Deus da criação descansou nesse dia, por que não santificar esse mesmo dia? Claro, o que falo aqui não passa de uma hipótese gratuita, livre. Afirmo tais coisas por enxergar essas possibilidades no texto. Analisando sem romance esse fato e sob o prisma literário, a alternativa que nos resta é o da interpretação não literal desses dois primeiros capítulos.

Quase todos os povos orientais têm uma espécie de narrativa muito assemelhada ao texto de Gênesis, o que nos dá a ideia de que se trata um texto que é resultado do inconsciente coletivo. Houve muitos povos que também desenvolveram um gênesis: os egípcios, os babilônicos, os acádios, assírios, hindus e etc. Parece haver para os antigos uma espécie de mito, uma tradição que era passada de pai para filho e que era fruto de um entendimento histórico. Não havia ciência conforme entendemos hoje. Buscava-se interpretar o mundo por meio do mito e da religião. Com isso não quero dizer que os antigos estivessem errados no seu entendimento. Eram os recursos de que dispunham para responder a uma inquietação. Entendo que as escrituras são o resultado desse fenômeno, dessa mitologização interpretativa por parte dos antigos. Quero dizer que é preciso interpretar esses fenômenos com as ferramentas certas e as escrituras, também.