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quarta-feira, abril 12, 2023

De um comentário político a um colega

 


Não existem governos perfeitos e invulneráveis - ainda mais quando se trata do Brasil. Quando se fala de um governo, penso que a análise deve ser da "forma" e do "conteúdo".  É importante lembrar o que foi o ano de 2013 e o estrago que a Lava Jato provocou na política nos últimos anos. Observe como passamos a lidar com a política. Note que desde o golpe contra a Dilma, os governos foram ruins na forma e no conteúdo. Com relação ao governo Lula 3, há algumas aberrações na forma, mas há coisas necessárias no conteúdo. Quiçá você não concorde com o meu argumento, entretanto não existia outro nome e outro projeto que pudesse desfazer o esfacelamento pelo qual o Brasil passou nos últimos quatros anos.

O radicalismo é uma doença infantil. É importante não medir o atual governo por causa da práxis de alguns radicais. O governo possui boas intenções. Há um quadro com importantes e respeitáveis nomes. Se há erros, é da competência do próprio governo resolver essas pendências. Há um Congresso adverso e imoral. O compromisso do Centrão não é com o Brasil.

No Brasil, existe uma mídia canina, ciosa dos interesses do mercado. No fundo, essa midialona gostaria que o Bolsonaro tivesse vencido o pleito eleitoral do ano passado, pois a lógica segundo eles é: eu não importo com a "forma" - se ele é um não democrata; se ele é limitado, misógino, anti-indigenista, preconceituoso -; o importante é saber se o conteúdo nos privilegia - se continuaremos lucrando; para esses arrivistas, pouco importa se haverá desmantelamento do estado, das leis trabalhistas; se o povo vai ficar mais pobre; se vai comer ou não comer. Em um país como o Brasil, escravocrata e violento por natureza, um governo que carrega o emblema "de popular" não será bem aceito.

Há uma entrevista do Lira Neto no Foro de Teresina que reflete a grandeza e as contradições de Lula. A entrevista procura fazer aproximações entre Lula e Getúlio; e como cada um lidou com as crises políticas que enfrentaram. Não existem nomes mais densos, sagazes e com uma visão política tão ampla na política brasileira quanto os dois. Lula é um estrategista. Confesso que ele começou bem esses quase três meses de governo. Não teria como ser diferente com um Congresso como o que temos e com uma conjuntura tão adversa como a que se mostra.

Penso que a tarefa histórica do Lula 3 é resgatar a política do possível. Lula só venceu a eleição por causa da astúcia política que possui. Esquece-se de que a frente montada por Lula é resultado de uma conciliação política. O objetivo era derrubar a caquistocracia erguida por Bolsonaro e sua trupe. É preciso ter um pouco de paciência. Lidamos, nos últimos quatro anos, como diria Joseph Conrad em “O coração das trevas” com “o horror”.

Impressiona como, no presente, utilizam o udenismo para fazer crítica. É aquela velha fantasmagoria de um moralismo montado contra a corrupção. Às vezes, esses mesmos atores se munem de um discurso que, no fundo, carrega a anomalia queixosa e hipócrita montada por Carlos Lacerda. Note que a beligerância estruturada contra o governo repete os mesmos elementos do passado. Trata-se de uma recorrência trazendo à tona um moralismo requentado, colocando em disputada ‘Estado versus mercado’; ‘capitalismo versus comunismo’; ‘valores cristãos versus imoralidade de esquerda’. Há sempre um maniqueísmo em jogo; uma prática baseada no cancelamento. E, no fundo, essa gente é saudosa da Ditadura, da escravidão, da violência institucional; do desmatamento das políticas públicas; da posse do latifúndio; do mandonismo; da não-democracia.

E, com isso, condena-se um projeto de governo que é amplamente desenvolvimentista e nacionalista. Lula é um dos presidentes mais capitalistas que já governaram o Brasil.  Lira Neto diz que Getúlio costumava questionar: “Por que esses caras não me dão paz? Será que esses tubarões do capital não percebem que eu quero salvar o capital pra eles?”. Penso que o Lula faça os mesmos questionamentos.

Lula não é um disruptivo. É um conciliador. Penso que temos mais a ganhar com ele do que sem ele.


segunda-feira, outubro 03, 2022

A vitória do bolsonarismo e a derrota do Brasil

 

            As eleições de 2022 evidenciaram que o bolsonarismo é um fenômeno consolidado na sociedade brasileira. Milhões de brasileiros decidiram dobrar a aposta e garantir ao atual governo a possibilidade de mais quatro anos de mandato. É simplesmente assustador. Não me refiro apenas à eleição presidencial. O que aconteceu nos estados – principalmente nas regiões do Centro-Sul – nas eleições para governador, senador e deputado federal, é um fenômeno que deixou desolado o indivíduo mais otimista. Em um país "normal", sem as fraturas psíquicas e as contradições que possuímos, Bolsonaro seria fragorosamente enxotado do cargo. 

            Os mais de 50 milhões de votos recebidos por Bolsonaro é um golpe impiedoso na sensatez e na razão. Como explicar algo assim? O governo Bolsonaro é um dos piores da história da República. Qualquer dado que seja estudado demonstra que houve mais retrocessos do que avanços em várias áreas. A gestão da pandemia por si só nos coloca diante de uma tragédia. A falta de humanidade, de simpatia para com milhões de brasileiros que morreram ou que tiveram seus familiares enlutados é indignador; o atraso intencional e sistemático na aquisição das vacinas também estarrece. O movimento antivacina. O incentivo ao uso de medicação equivocada também impressiona. O questionamento absurdo à ciência. O discurso violento. As falas desumanas. A misoginia. O cristianismo de faixada. As intenções destruidoras. O armamento sem precedentes da população brasileira. A retórica golpista. O desrespeito às instituições. O jogo constante que procura impor um olhar de descrédito a tudo aquilo que se refira aos pressupostos da razão. A falência econômica. A inflação. A fome que passou a assustar como um fantasma milhões de brasileiros pobres. O neoliberalismo em seu estilo mais cru. Todo esse repertório de políticas negativas deveria mobilizar o país para uma posição defensiva. 

            Todavia, parece que isso não importa. O brasileiro não parece, simplesmente, fazer um esforço para conectar os fatos. É como se ele ignorasse o quanto significam quatro anos de um novo mandato do atual governo. Com a pujança que conseguiu nas eleições parlamentares, o que ainda nos resta de proteção social e trabalhista na Constituição de 88, será simplesmente atropelado e solapado. A única música que o brasileiro consegue mimetizar é: “Lula não”. “PT nunca mais”. Sem pensar nas consequências da sua escolha.

            O país não está lidando com um indivíduo qualquer. Estamos lidando com um projeto miliciano, que tem por objetivo acabar com as conquistas civilizatórias do país. É a construção de uma ditadura explícita, assim como já se deu na Hungria ou na Turquia.  O bolsonarismo sai forte da eleição; e, o Brasil, enfraquecido.

segunda-feira, outubro 22, 2018

FHC e o medo de ousar

Fernando Henrique Cardoso, no auge dos seus 87 anos, é uma figura curiosa. Hoje, parece perceber que não alcançou aquilo que sempre pretendeu: ser um intelectual da cepa de um Florestan Fernandes, Caio Prado Jr. ou Darcy Ribeiro. Ao invés disso, tornou-se um "senhor" duro, meio orgulhoso e que não consegue fazer uma mea culpa pelas opções políticas que realizou. 

Líder de um dos principais partidos da política brasileira - o PSDB (Partido da Social Democracia Brasileira, que flerta com a social democracia somente na sigla) - percebeu que sua relevância política vai se obumbrando à medida que os efeitos do tempo chegam para ele. FHC, também como é conhecido, poderia ter um pouco de dignidade, de coragem para ousar nesse momento em que o país atravessa uma das suas crises, apontando para um futuro questionável e incerto. 

Lendo um dos seus artigos, no qual podemos perceber uma forte recusa em admitir o óbvio, fiquei meio penalizado com a sua arrogância, tudo para manter a postura de alguém que não se dobra diante da sua contraparte, o PT. Seu grande desejo era ser um Lula. Melhor: ter a grandeza de um Florestan Fernandes, segundo contam, seu orientador e mestre, e a penetração popular de que goza Lula. No seu artigo, cujo título é O futuro político do Brasil, escrito no El Pais, o "sociólogo de Higienópolis", como lhe alcunha Paulo Henrique Amorim, em dado momento do texto, diz algo que me estarreceu. Tentando fazer uma análise de conjuntura, mas negando as obviedades do momento ou tentando eufemizar por meio de uma retórica de isento, FHC diz sobre a ascensão da candidatura Bolsonaro: "Não se trata da volta ao fascismo: a história, no caso, não se repete. Trata-se de outras formas de pensamento e ação não democráticas".

Fiz sinal de incredulidade ao ler isto. Certamente, a capacidade analítica do potentado intelectual deve ter atingido níveis apoteóticos. Como assim? Há uma incongruência em seu pensamento. A afirmação não fecha; o raciocínio escorrega, decanta, aproximando-se daquelas pérolas extraídas das redações de vestibular. O fascismo, caro sociólogo, é antidemocrático. A história, de fato, não se repete, mas as implicações da síntese dialética continuam reverberando. O fascismo certamente não se repetirá como aconteceu na Alemanha ou na Itália, que são casos estritos de representação do movimento. Todavia, o fascismo possui uma filosofia da história. Ele é um filhote degenerado do capitalismo monopolista e concentrador ou de qualquer outro movimento que flerte com o autoritarismo e tenha, como preocupação, a supressão das individualidades. O fascismo possui uma direção, uma estética; uma linguagem, uma psicologia, um modus operandis. Vez ou outra, ele aparece com força, principalmente em momentos em que o capitalismo concentrador vislumbra o perigo do caos social.

Se as afirmações do candidato do PSL - e o que ele representa -  não são fascistas, o que são essas "formas de pensamento"? Elas caminham para qual direção? Elas estão pautadas nos direitos humanos? Respeitam as bases do estado democrático? Ontem, 21/10/2018, Bolsonaro afirmou em ato na Avenida Paulista, que os seus inimigos políticos (no caso "os vermelhos", metonímia que representa, principalmente, os petistas) serão varridos do mapa. Esta é uma clara manifestação fascista, a saber, a eliminação do diferente; a prisão, a perseguição, pois o fascismo não admite oposição. 

Vez ou outra, escutamos a sua fala "gelada", "mofada", pela falta de entusiasmo ou pela incapacidade ousar. Posa de "democrata", mas não reúne os seus para uma verbalização contundente. Acredito que o ato mais sublime para ele, neste momento, no auge de sua quase nonagenária situação, fosse um grito, um aceno claro, perceptível, objetivo, contra essa clara tendência fascista que toma o país. Isso lhe daria dignidade e redimiria o seu passado de escolhas políticas contra o país. 


terça-feira, outubro 16, 2018

O fascismo e os “homens bons” - Por Mauro Iasi

Abaixo, uma bela reflexão do professor Mauro Iasi.  Uma bela análise de conjuntura!

“Esse que em mim envelhece
assomou ao espelho
a tentar mostrar que sou eu.
Os outros de mim,
Fingindo desconhecer a imagem,
Deixaram-me, a sós, perplexo,
Com meu súbito reflexo.”

O Espelho – Mia Couto

Desde 2004 não voto no PT e me coloquei como oposição de esquerda a seus governos. No segundo turno entre Dilma e Aécio em 2014 votei nulo e não me arrependo dessa posição, inclusive pelo cenário que se desdobrou após o pleito e a vitória da petista. O que haveria de diferente neste segundo turno?


Em todas as outras oportunidades víamos um discurso que afirmava que era necessário garantir o governo petista diante do retrocesso que significaria apostar no PSDB e em sua declarada política privatista e pró-mercado, sua política externa entreguista e sua rendição aos ditames do capital financeiro. Sempre argumentamos que, ainda que houvessem diferenças importantes entre as propostas de governo de petistas e tucanos, havia uma campo de consenso no que dizia respeito a aspectos como a reforma do Estado, a política de superávits primários, a submissão à lei de responsabilidade fiscal, a lógica de parcerias publico privadas, o abandono da reforma agrária diante da prioridade ao agronegócio, a forma de governabilidade via concessões e negociatas e tantos outros.

Hoje acreditamos que a situação é qualitativamente diferente quando nos confrontamos com a extrema direita. Hoje defendemos um voto “crítico” em Fernando Haddad. Não se trata de programas de governo, ainda que uma breve análise do que está proposto pelas candidaturas seja mais que o suficiente para alertar sobre os graves perigos que a vitória do candidato do PSL representa. É muito mais do que isso. Não alimentamos ilusões sobre o caráter do programa petista e sabemos que sua inclinação ao centro e à centro direita será um fato certo, até mesmo pela chantagem entorno dos termos da chamada governabilidade.

Ocorre que o fracasso dos governos de conciliação de classe e a total falta de estabilidade do governo usurpador que se seguiu ao golpe institucional, parlamentar e midiático de 2016, gestou as condições para o fortalecimento da alternativa de extrema direita. Tal fato foi profundamente facilitado pelo braço jurídico do golpe e pela condenação sem provas do ex-presidente Lula que teria, muito provavelmente, ganho estas eleições.

A desarticulação do PT e a impossibilidade da direita golpista encontrar uma alternativa viável do ponto de vista eleitoral abriu o espaço para que a alternativa reacionária se apresentasse como possibilidade de governo. Programaticamente aponta para o que tem se chamado de “ultraliberalismo”, mas que, parodiando Lênin, poderíamos chamar de “ultrabobagens” que nem mesmo os mais neoliberais com ainda alguma capacidade de intelecção acreditam ser viáveis.  Isto é, coisas como realizar a total privatização dos serviços oferecidos pelo Estado, implementar uma simplificação grosseira do imposto de renda com porcentagens iguais diante de uma realidade de profunda desigualdade de rendimentos e rendas da população, levar a cabo o desmonte das universidades federais do ensino público gratuito, dotar o famigerado movimento “escola sem partido” de retaguarda legal para operar uma cruzada de perseguições políticas e obscurantismo no sistema educacional, eliminar todos aos “ativismos” (sabemos o que isso significa) e acabar com o 13 salário e do adicional de férias, entre outras sandices.

O verdadeiro sentido da extrema direita é outro. Acirrar as contradições para vender a alternativa da ordem imposta violentamente, seja pela interferência direta das forças armadas, seja através do controle da ordem institucional, legislativa e judiciária. O problema é que o acirramento é fundamental para ganhar as eleições, mas impossível para manter condições mínimas de governabilidade, daí a alternativa da força.

A história nos ensina que os verdadeiros planos aparecem depois da solução de força, como vimos na clara diferença entre os projetos da Aliança Liberal de Vargas em 1929, que falava da “vocação agrária do Brasil” e as prioridades do Estado Novo depois de 1937; da pregação moralista e anticorrupção das forças golpistas de 1964 e o entreguismo corrupto da ditadura por décadas.

Podemos ver esse processo mesmo nos clássicos casos do nazi-fascismo europeu, quando a retórica nacionalista e a crítica ao grande capital se transformou na aliança prática do capital financeiro e monopolista com o nazismo e o fascismo. É ridículo mas necessário lembrar que o fascismo e o nazismo foram projetos da extrema direita. Se seguirem o “raciocínio” que se tem feito esses dias, é capaz dos reacionários do futuro afirmarem que o Bolsonaro era de centro, pois eu partido se autodenomina “social e liberal”.

A extrema direita é um instrumento do grande capital que lança mão da barbárie para salvar sua civilização diante do risco da democracia. Seu método, como já discutíamos em outra oportunidade, é a estigmatização do inimigo, a manipulação dos valores da Nação, da família, da moral, do perigo comunista, deslocando a responsabilidade pela crise e seus efeitos para os ombros de seus adversários. Por isso, não nos espanta que a mentira seja a principal arma política daqueles que defendem os interesses de uma minoria e precisam do apoio das massas para suas aventuras. Não foi o Facebook nem o WhatsApp que criou o fenômeno. Ainda que esses dispositivos sejam veículos eficientes da mentira e das falsificações, a “propaganda” é reconhecidamente um instrumento do fascismo, pois a verdade os destrói como a luz aos vampiros.

Mas, por que devemos combater a extrema direita? Não é uma doutrina política como outra qualquer que devemos respeitar no sagrado debate de ideias e o direito ao divergente? Não acredito nisso, pelo simples fato que não há diálogo com aqueles que negam o diálogo e optam pela manipulação, a mentira, a manobra grosseira e pregam nossa eliminação física. Não devemos ser tolerantes contra a intolerância e o obscurantismo.

A extrema direita desperta na sociedade forças reacionárias que ameaçam a integridade física e moral da maioria da população. Não estão simplesmente apresentando suas propostas e disputando uma eleição, estão operando um golpe. Já passa de 50 o número de atentados notificados em que apoiadores de Bolsonaro constrangeram, ameaçaram ou agrediram ou mataram pessoas, como foi o caso do mestre Moa do Katendê, assassinado com doze facadas covardemente pelas costas na Bahia. Outro caso alarmante foi o da menina que teve uma suástica gravada a canivete em sua pele no Rio Grande do Sul.  Essas agressões dão corpo a uma escalada de violência política à qual poderíamos somar tantos outros casos como o assassinato de Marielle Franco, de Jorginho Guajajara e muitas outras lideranças indígenas ainda este ano.

Consolidou-se uma postura entre parte da população de que a resposta a ser dada ao PT (seja pelo que de fato fez e pelo que a ele se atribui através de diversas e inverossímeis alegações) é votar em Bolsonaro. Desta maneira, o deputado aparece como a forma vazia de conteúdo que recolhe o antipetismo e o transforma em alternativa política. O problema é que se a forma se presta perfeitamente a tal função, de modo algum esta candidatura é vazia de conteúdo e sua substância real fica obliterada pelo antipetismo.

Entre as milhares de pessoas que votaram no primeiro turno é possível que existam fascistas convictos, reacionários de todo tipo e conservadores, mas a grande maioria escolheu alguém para derrotar o PT. Caso retirássemos este fator, restaria uma trupe de pessoas muito estúpidas que acreditam que a terra é plana, que o Francis Fukuyama é comunista e que Rogers Waters, do Pink Floyd, nunca prestou atenção nas letras que ele mesmo escreveu. O problema é que estas pessoas, supostamente boas, estão acalentando a ilusão de que o mais importante é derrotar o PT, de que o maluco do Bolsonaro não fará tanto estrago como seus antecessores. O vice Mourão seria um militar simplório e racista que gosta de seu neto que está a cada dia mais branco e que prometeu acabar com o 13o salário, mas que não vai fazer isso. As “pessoas boas” só estão preocupadas em salvar a família tradicional, morrem de medo de jovens do mesmo sexo que passeiam de mãos dadas pela rua, mas ninguém vai sair nas ruas matando homossexuais a golpes de barra de ferro, ou queimar índios, ou estuprar mulheres, ou ligar fios desencapados nos testículos de ninguém, pendurar pessoas no “pau de arara”, espanca-las e depois de deixa-las nuas, cobertas de sangue e fezes, para em seguida trazer seus filhos de quatro anos para presenciar a cena. Ninguém vai pegar um jovem, tortura-lo, amarrar sua boca no escapamento de um Jipe e arrastá-lo pelo pátio do quartel. Ninguém enfiaria um rato na vagina de ninguém. Ninguém vai assassinar opositores, esquartejá-los e queimar os restos nos fornos de uma usina de açúcar no Rio de Janeiro. Pessoas boas preferem não pensar nisso.

Mas tudo isso aconteceu de verdade (o contrário do fake news é uma coisa chamada história) e já está acontecendo quer as “pessoas boas” queiram ou não. De alguma forma, elas são cumplices da barbárie. São elas que estão colocando a arma na mão dos assassinos, são elas que colocam as pedras nas mãos dos fanáticos que apedrejam meninas saindo dos cultos afros, são elas que estão dando a chave do cofre para as quadrilhas que as assaltarão. São elas que estão assinando um contrato no qual acreditam que há apenas uma clausula: impedir que o PT volte a governar.

Não. Bolsonaro não é maluco. Nem seu vice, um milico simplório. Nem seus asseclas, que não passam de profissionais bem remunerados para fazer uma “campanha eleitoral”. São políticos de extrema direita, alguns com claras características fascistas, que estão tentando encobrir suas pegadas e seus crimes, desde 1964 e o golpe, as torturas e a longa noite que se abateu sobre o Brasil, mas também suas falcatruas presentes, seu apoio inconteste ao governo do usurpador Temer e seus ataques aos trabalhadores e sua responsabilidade direta pela destruição do país. Não são anjos vindos do céus com a missão de derrotar o PT, como dizem alguns pastores coniventes e parceiros da farsa, em nome da fé, da família e do fim da corrupção. São, em poucas palavras, pessoas más que habitam os bastidores do terror e da barbárie, com negócios e interesses escusos.

Em 2015, quando essas forças iam as ruas pedir o afastamento da então presidente Dilma, ao fazer uma análise de conjuntura, eu dizia que com esses setores não poderia haver diálogo possível. Fui envolvido numa manipulação grosseira de minha fala para me apresentar como aquele que queria fuzilar “todos os conservadores” por conta de uma citação descontextualizada de poema de Brecht. Fui caluniado, perseguido, ameaçado, processado, ironicamente por aqueles que defendem e praticam o extermínio e os fuzilamentos. Mas o que o poeta alemão externava em seu poema, usando a imagem do fuzilamento, dizia respeito à responsabilidade daqueles que ajudaram o fascismo a chegar ao poder e que, depois da catástrofe, se diziam inocentes pois o fizeram na mais boa das intenções, porque, afinal, eram pessoas boas.

Na Alemanha de Weimar também haviam pessoas boas que só queriam um país grande e forte. Estavam descontentes com a crise, a inflação e o desemprego. Tinham críticas aos governos democráticos, muitas delas bastante pertinentes. Queriam defender a família, queriam uma raça pura, bonita e forte. Por isso votaram em massa pelos nazistas e os elegeram em 1932. Continuaram os apoiando quando em 1933 Hitler eliminou toda a oposição ao seu governo. Por isso, também, aceitaram quando apareceu a proposta de esterilizar pobres e pessoas com comportamento antissocial hereditário, assim como matar aqueles que tinham uma vida indigna de ser vivida. Estavam alegres e confiantes como as boas pessoas que eram… até que começaram a levar as crianças com problemas mentais para eventualmente serem mortas no projeto Aktion 4 (até 1945 foram mais de 5 mil crianças), e terem seus cérebros destinados à pesquisa de um prestigioso doutor (ele também uma boa pessoa) Depois foram os judeus, os ciganos, os homossexuais, os comunistas que passaram a ser levados para o extermínio nas câmaras de gás e nos fornos crematórios dos campos de concentração. Mas tudo isso para eliminar o crime, a corrupção e afastar o mundo perigo do comunismo. No final das contas, entretanto, foram os comunistas que ajudaram a salvar o mundo dos nazistas. Os homens de bem ficaram, compreensivelmente confusos. Será que estávamos do lado errado, pensavam em meio às cidades em ruinas e às bombas que caiam sobre suas cabeças, enquanto corriam para se livrar de todo símbolo que os pudessem associar ao mundo que ruía à sua volta.

Será possível que as pessoas de bem estivessem entre aqueles corpos esqueléticos jogados em valas comuns e cobertos de cal? Será que as crianças assassinadas não eram… pessoas boas? Seriam mesmo os judeus os culpados de tudo? Seriam os comunistas realmente nossos inimigos? Assim divagavam as pessoas que se achavam boas e apoiaram a barbárie fascista, mas toda e qualquer dúvida desaparecia quando confrontavam suas vítimas, porque seu lugar era entre os carrascos.

Então vamos combinar uma coisa: vote em que quiser. Se você é um fascista convicto, vote nos assassinos e torturadores, pois acredito mesmo que eles o representam. Mas, se você acredita que é uma pessoa boa, não diga depois que não sabia. O sangue de homens e mulheres de bem, gente simples e corajosa – Moas e Marielles e tantos outros – o sangue dessas pessoas já está caindo e tingindo o solo de nosso país de vermelho, jovens são agredidos no meio da rua e têm sua carne marcada com a suástica nazista. Você que se acha uma pessoa de bem e um cristão e votou no candidato da extrema direita já está com sangue nas mãos e nenhuma água ou esquecimento será capaz de limpar suas mãos e sua consciência desses crimes cometidos em seu nome.

Ainda temos uma chance de evitar uma catástrofe que já é reconhecida e temida por todos os órgãos de imprensa sérios do planeta. Você quer ser lembrado por ter ajudado a derrotar as forças do mal (e depois ajudar a organizar a oposição ao governo do PT) ou por ter dado seu apoio a um governo que será catastrófico do ponto de vista econômico, social, cultural e civilizatório? No futuro, quando você que não escutou todos os alertas, tentar negar sua responsabilidade, repetindo como um mantra que é uma pessoa boa, olhando para o espelho verá, inconfundível, os traços dos assassinos, o olho brutal da maldade e o horror de todas as vítimas consumindo suas pretensões de ingenuidade. Só podemos garantir uma coisa: nós estaremos lá, como estivemos no passado, todos os dias, para que você e ninguém jamais esqueça.

Daqui

quarta-feira, outubro 10, 2018

Uma quase carta

Boa noite, ...!

            Você perguntou pelo meu filho, o Bernardo, e eu não respondi. Ele está bem! No próximo sábado, dia 13, completará um mês. Este primeiro mês foi bastante difícil. Muitas adaptações – para ele e, principalmente, para mim e para a Liana. Mas, estamos indo. Acredito que o pior já passou. Ele chegou a ficar dez dias internado. Estava com uma dificuldade inicial em mamar. Aprendeu, entretanto, e agora o rapaz está crescendo e ganhando peso. 

            Foi colocado por você que não deseja “discutir política”. Entretanto, não há como tentar estabelecer um colóquio sem que o tema não venha à tona. Vou tentar colocar em tópicos para facilitar a compreensão. Claro, tudo aquilo que eu colocar aqui, é resultado de minha percepção – e, principalmente, de minhas limitações. Respeito o seu ponto de vista. O grande desafio da democracia é justamente o convívio, a relação na diversidade.

(1)  Por que o ódio PT?

O PT é um partido que surgiu dos movimentos populares. Possui uma história, pois. Nos quase quarenta anos de sua história, sempre foi alvo de muita polêmica. O partido conseguiu construir uma base bastante forte. Durante muito tempo, milhões de brasileiros desejaram que o PT chegasse ao poder máximo do país, a Presidência da República. A primeira tentativa se deu no ano de 1989. Na ocasião, Lula perdeu a eleição para Fernando Collor. Houve duas outras tentativas – 1994 e 1998 – com duas outras derrotas. Em 2002, após todo um período de desengano e melancolia política com o governo do PSDB, o PT chegou ao poder. Acontece uma repaginação do partido. Lula assumiu um discurso mais econômico e pacífico. Para governar, fez aliança com uma quantidade considerável de partidos. Formou um governo de coalizão. Distribuiu cargos aos aliados como uma contraprestação política. 

            Em 2005, ocorre o primeiro escândalo, o do Mensalão, como ficou conhecido. O governo foi colocado contra a parede. Todavia, Lula foi reeleito em 2006. No segundo mandato, o governo petista conseguiu seu melhor momento.  O país cresceu. A economia decolou. Os trabalhadores passaram a perceber um cenário positivo. Lula saiu do governo em 2010, com mais de 80% de aprovação, um feito realmente extraordinário. Tanto é assim, que ele conseguiu colocar a Dilma no seu lugar. Ela começou bem. Até 2012, tinha índices de aprovação acima dos 60%. A partir de 2013, as coisas começaram a perder o compasso. Com as manifestações de julho daquela ano, o governo passou para o campo defensivo. 

            A mídia passou a veicular sistematicamente reportagens que associavam o governo à corrupção. Todos os problemas do país foram direcionados ao PT. Em 2012, surge a Operação Lava Jato, que, segundo seus capituladores, é uma operação apartidária. Mas, notou-se um objetivo: as figuras do PT, tendo no seu principal nome, Lula, a seta direcionada. Observe-se que o partido que tinha/tem o maior número de nomes implicados na operação é o PP, mas ficou a noção de que era o PT. Associaram o nome do PT como de um partido corrupto, de ladrões. 

            Ora, a repetição de uma sentença e a aplicação do significado dessa sentença como sendo a verdade, passa a ter efeitos extraordinários. Isso já aconteceu em alguns momentos da história. O exemplo mais claro é o que Hitler fez com os judeus durante a Segunda Guerra. Naquele contexto, a Alemanha estava esfacelada por causa da Primeira Guerra e o Tratado de Versalhes. Havia crise, fome, desemprego; caos econômico, incertezas, medo. O astuto Hitler entendeu que nesses momentos você precisa criar uma narrativa e direcioná-la para um alvo. Hitler direcionou o seu discurso para as minorias - ciganos, comunistas, judeus, homossexuais, etc. É a lógica do “nós”, os injustiçados e sofredores e, “eles, os algozes, os autores de nossa crise. 

            Em 2014, a reeleição agravou a crise, pois, a partir dali, houve uma militância severa contra o PT. A destituição de Dilma, em 2016, foi outro momento complexo. Vale lembrar que 2016 foi o ano dos panelaços. Havia uma mesma fala que ia das crianças de colo aos anciãos: de que o PT era um partido de corruptos e ladrões. O Jornal Nacional, por exemplo, colocava reportagens de uma hora contra o partido, conectando a imagem do partido à corrupção. Era como se não houvesse nada de bom no PT. Nesse ínterim, chega ao poder Michel Temer, uma figura que não conseguiu nenhuma legitimidade: (1) por ter o seu governo associado a um impeachment duvidoso. Ficou claro que se tratou de um golpe, apesar de ter seguido o fluxo constitucional. A Constituição foi apenas um objeto que vestiu o feito de legalidade. Observe que os cristãos queimaram pessoas na Idade Média usando a Bíblia; ou que a mesma Bíblia foi usada para legitimar a superioridade de brancos sobre negros nos Estados Unidos. E, nem por isso, esses acontecimentos podem se dizer cristãos. Da mesma forma, o impeachment seguiu o rito constitucional, mas não havia base constitucional por não haver crime de responsabilidade. (2) destituíram a Dilma com a alegação de que era preciso acabar com a corrupção, todavia, os escândalos de corrupção continuaram a existir. Havia indícios claros de que o governo Temer era bem pior do que aquele suposto governo corrupto do PT. A mídia foi até complacente com Temer. Não houve um bombardeio como houve com o PT. Vemos, assim, a seletividade da mídia brasileira. 

            Vale mencionar que o trabalho da mídia serviu para esvaziar o debate político. Tanto a mídia como as figuras do Judiciário trabalharam para criminalizar a política. O cidadão comum não via mais motivos para acreditar na política e nos políticos. A boa política, aquela que estabelece o debate, que discute ideias, foi varrida do mapa. A sociedade não conseguiu mais dinamizá-la. O cenário era de completa feiura. De repente, passamos a enfrentar a crise econômica que agravou ainda mais o cenário. A política foi contaminada. Jogou-se toda a culpa no colo do PT.  Ora, raciocinemos, se o governo do país estava nas mãos do PT e todos os escândalos estavam associados ao PT, é natural que o ódio tenha um direcionamento. Atualmente, as pessoas não querem nem ouvir falar no nome do partido. Associam-no ao que de mais deplorável há no país; que estamos nessa situação de crise econômica, política e moral por causa do partido. 

(2) A quem interessava a saída do PT?

Some-se a isso que o PT foi tolerado pelas elites do poder, enquanto foi conveniente. A sociedade brasileira sempre foi adepta de teorias conspiratórias. Sempre houve “a crendice” de que há uma iminente ameaça de invasão comunista. Essa foi uma das desculpas utilizadas para sustentar a Ditadura Militar. De tempos em tempos isso acontece. Em momentos de crises, quando o medo, a insegurança, passam a funcionar como motores, esse fantasma aparece.  

Para princípio de conversa, o PT não é um partido socialista ou comunista. Ele é, no máximo, um partido com ideias que assentam numa preocupação com causas sociais por causa de sua origem. Isso é verdade pelo fato de o partido ter ficado treze anos no poder, sem que o Brasil tenha se transformado numa Coreia do Norte. Muito pelo contrário, foi um período de forte lucro para os capitalistas. A saída do PT foi desejada pelos grupos que mandam no país. Não se aceitou o resultado das urnas em 2014. O povo escolheu, mas o que é um povo, em um país em que o regime democrático é apenas um detalhe? Queriam apenas continuar lucrando facilmente sem que houvesse qualquer empecilho, qualquer muro, obstáculo.

(3) O PT é inocente?

            Certamente, que essa resposta é “não”. Ao fazer um governo de coalizão, o partido se abriu para as negociatas. Nomeou gente de todo tipo. Essas alianças fugiram ao controle do partido. Fazer política não é um negócio fácil. Exige exposição. Conversa. Diálogo. Exige que se sente com adversários pouco lisonjeáveis. Com figuras interesseiras. Com pessoas que não possuem compromisso ético; que desejam apenas benefício, sem qualquer preocupação ética. Enquanto era oposição, partido possuía um discurso. Com a ida para a situação, teve que refrear o discurso. 

             Vale mencionar, que em nome da governabilidade, o partido se expôs de maneira não detida. Não mediu consequências. Associou-se com o que há de pior na política brasileira e foram essas alianças que contaminaram o partido. É preciso que ele faça uma mea culpa, uma espécie de exame de consciência. 

(4) Por que não voto em Bolsonaro ou por que ele seria “um mau presidente”? 

            Primeiro é importante dizer que, com relação ao futuro, nós precisamos resgatar os fatos do passado. É nesse paradoxo que podemos conjecturar ou fazer análises.
            Bolsonaro já mostrou ao longo de sua história que é uma figura uma tanto quanto duvidosa. É um “politiqueiro” de carteirinha, daqueles que fazem carreira na política, sem qualquer compromisso com o país. Ao longo dos seus 28 anos no Congresso, possui um péssimo repertório de contribuições ao povo que paga o seu salário. Sempre que a imagem dele vem à minha mente, comparo-o ao Golum, aquele personagem do Senhor dos Anéis, uma criatura medíocre que foi enfeitiçada pelo poder e se tornou um ser digno de pena, completamente desumanizado. Ao longo de gerações, a triste e bizarra criatura viveu escondida no ventre de cavernas afastadas, alimentando-se de comida crua, vivendo única e exclusivamente para o anel que o enfeitiçava e transformava a sua personalidade cada vez mais despersonalizada. Penso que há uma relação muito curiosa entre essa imagem e a do candidato do PSL. Ele ficou durante muito tempo escondido, alimentando-se do poder. Colocou os seus filhos na política. De modo que aqueles que o comparam a um exemplo na política, talvez se esqueçam de que ele se assemelha a qualquer dessas oligarquias familiares – Sarneys, Barbalhos, Maias, Magalhães, Calheiros etc. E outra: Bolsonaro não seria ninguém se o país passasse por um momento de tranquilidade democrática. Ele se alimenta da crise e sabe isso.

            Saindo do campo da literatura e entrando no chão da história, é preciso afirmar que Bolsonaro é uma figura que construiu a sua carreira na política colecionando bravatas. Ele representa o valentão. Aquele que não tem medo de nada. O machão. Aquele sujeito destemido, masculinizado, e que ajuda a criar um imaginário beligerante na cabeça do brasileiro médio que convive com a ineficácia da justiça e com os escancarados escândalos de corrupção. Há no brasileiro médio um desejo de fazer justiça com as próprias mãos pelo fato de a justiça do Estado não fazê-lo. Afinal, ele grita muito porque não tem ideias. Literalmente, ele ganha no grito. Sempre colecionou polêmicas, pelo fato de ter uma inteligência (quando me refiro a inteligência, faço-o em sentido lato – emocional, política etc) questionável. Nota-se o seu completo despreparo. 

            Mas por que ele faz tanto sucesso, por que ele é uma unanimidade? (a) como falei acima, estamos em um momento de desalento, de completa descrença na política ou “na velha política”. As pessoas enxergam nele, a solução amarga para um crise que parece que não tem fim. (b) A crise econômica levou muitos brasileiros a desejarem uma mudança. Aquele modelo, entendem, defendido pelos governos anteriores não serve mais. Deseja-se que haja privatizações; que o Estado “diminua” (uma palavra que encerra alguns sentidos velados); o mercado assuma a dianteira do país. (c) os escândalos de corrupção revelaram uma face intolerável. Sendo assim, é preciso que surja alguém para colocar ordem “na casa”. Como Bolsonaro sempre vocalizou um discurso radical, histriônico, direto, viram nele a possibilidade de ele ser essa mudança. Se há violência, ele diz que o “cidadão de bem” não deve ficar na defensiva, mas partir para cima do ladrão. Que é preciso colocar armas na mão da população para que ela se defenda, confundido de maneira perigosa o que é segurança pública. É preciso diferenciar o que é a microviolência e a macroviolência. 

Sendo assim, é preciso chamar a atenção para algumas questões:

(a) Ao se escolher Bolsonaro, escolhe-se um candidato que já sinalizou ter pouca preocupação com o estado democrático de direitos. Um dos fundamentos do estado democrático são garantias dirigidas ao cidadão, radicadas no conceito de direitos humanos. É preciso considerar que todo ser humano é dotado de direitos e de garantias básicas – direito a vida, respeito à sua condição etc. Em um estado democrático, o fundamento que sustenta essa delicada teia é o respeito à singularidade do outro. Temos visto que algumas pessoas têm se sentido legitimadas, por causa do discurso ódio, a fazerem a coisas mais perigosas para o nosso equilíbrio social. Eu não voto em um candidato que diz que “bandido bom é bandido morto”. O bandido deve ser punido pela lei e não por mim. O Estado é a entidade que possui legitimidade para encabeçar juridicamente esse pleito.  Eu não voto em um candidato que vai ao estado do Acre e diz em um comício de forma irresponsável que era preciso “metralhar toda a petralhada do país”. Numa democracia, há limites para a minha fala. Nenhum direito é absoluto. O maior perigo é o efeito que isso causa nas massas. Isso pode ser visto, por exemplo, no filme “A onda”. Se não viu, veja-o e perceba o quanto determinados movimentos possuem um poder de coerção sobre as individualidades. Eu não voto em um candidato que afirma “que não estupra” determinada mulher, pelo fato de ele não merecer ser estuprada. Então há mulheres que merecem ser estupradas? Eu não voto em um candidato que afirma que teve “quatro filhos”, mas deu uma fraquejada e acabou vindo “uma mulher”. Eu não voto em um candidato que, quando perguntado sobre o que diria caso um dos seus filhos namorasse uma mulher negra e ele responde sem perturbações: “Eu eduquei muito bem os meus filhos”. 

(b) Bolsonaro é fruto de um momento. Assim foi também com Collor. Em 1989, aconteceu da mesma forma. Apareceu um jovem com uma linguagem sedutora, descolando-se “da velha política”. Dizia ele que acabaria com a corrupção, que caçaria “os marajás”. Que era preciso sumir com a bandeira “vermelha” do PT. Que a bandeira do país era “verde”, “amarela”, “branca” e “azul”. Seu partido inexpressivo, o PRN, elegeu mais de quarenta deputados o PSL elegeu 52, no último domino, um partido que elegera apenas um deputado em 2014. Collor foi um sucesso completo. Tratava-se de um jovem visionário, esportista, bonito, que falava bem, que possuía um discurso que sequestrou o coração da classe média. Todavia, suas medidas desastradas trouxeram grandes prejuízos para o país. A primeira medida econômica, quando assumiu, foi o confisco das poupanças. As pessoas não acreditaram. Na campanha, prometeu acabar com a inflação, mas, ao deixar o país, a inflação estava em mais de 1.200% ao ano. E o mais estarrecedor: o seu governo era alimentado com propinas, como ficou constatado naquilo que ficou conhecido como “Esquema PC”. Ou seja, esses eventos com figuras messiânicas e caricatas sempre redundam em desengano. 

(c) Do ponto de vista econômico, penso que mergulharemos o país numa crise medonha, trazendo consequências danosas para os mais pobres. Temos como “posto Ipiranga” no seu governo a figura de um banqueiro chamado Paulo Guedes, uma figura bastante controversa – assim como tivemos Zélia Cardoso de Melo durante o governo Collor. Muitas pessoas pensam que gerir um país é a mesma coisa que gerir uma empresa. Um país é diverso. Possui demandas mais complexas. Há pessoas necessitadas, pobres, que precisam de políticas públicas do Estado para terem uma dignidade mínima. Por exemplo, a maioria dos brasileiros não tem dinheiro para pagar saúde privada. A solução não é a privatização da saúde. Como se resolve a demanda da saúde? Investindo em saúde pública de qualidade. Como se resolve o problema da educação? Oferecendo uma educação de qualidade, com professores bem preparados e motivados. O grande problema desses economistas de mercado, como Paulo Guedes é que, para eles, os pobres, os desvalidos, aqueles que estão abaixo da linha de pobreza, não aparecem no orçamento. Eles se erguerão sozinhos, entendem. Bolsonaro e Paulo Guedes afirmaram que vão privatizar e fazer reformas que, certamente, vão acentuar as desigualdades nesse país. Eu, por exemplo, venho de uma família de pessoas humildes. Fiz o curso de Letras graças ao Prouni, criado pelo governo do PT. Estou empregado e exercendo a profissão de professor. E foi assim com milhões de pessoas que tiveram as suas vidas melhoradas. Graciliano Ramos diz “Memórias do Cárcere” que “quem dormiu no chão jamais deve esquecer essa experiência”. Eu já “dormi no chão” – tanto em sentido denotativo quanto em sentido conotativo – e não esqueço essa experiência. Sei de onde venho e entendo que é com políticas sociais sérias que a vida das pessoas passa por uma transformação. 

            É só raciocinar: se o sujeito já deixou claro que não tem nenhum compromisso com as palavras, que a sua personalidade é autoritária, que não possui nenhum autocontrole, quem prova que ele não jogará o país em um caos? 

Não peço para que você vote no PT, mas para que faça uma consideração profunda. O que está em jogo é o futuro da democracia no Brasil. Ela foi conquistada com muito esforço. Pessoas morreram, foram torturadas. A Constituição que temos trouxe uma série de avanços para o nosso país. É preciso respeitá-la. Defendê-la. Aqueles que amam o país precisam resistir. Não se muda um país com bravatas e falas autoritárias. É preciso que haja diálogo. Concessões. Esse é o grande desafio da democracia. É preciso respeitar o diferente e não impor a sua vontade à força.

domingo, outubro 07, 2018

De uma conversa via WhatApp


..., sua explicação faz sentido! Grande parte da esquerda pensa assim. Mas é preciso apontar  algumas coisas:

(1) Não sou cirista. Mas foi a primeira vez que votei para presidente em um candidato que não é do PT. Fiz com a faca entre os dentes e um peso enorme na consciência. Parece que eu estava cometendo um crime (risos!). Deve ser a consciência de classe! A minha relação com a história. Pensando por viés de coerência ideológica, todos deveríamos votar no Boulos, que apresenta uma pauta mais à esquerda e mais próxima das demandas dos trabalhadores. Mas, infelizmente, o PSOL ainda não é um partido de penetração popular. O PT é aquilo mais próximo do povo que conseguimos construir no campo progressista em 500 anos.  

(2) A campanha eleitoral de 2018 teve início logo após a de 2014. A vitória de Dilma foi tiro de misericórdia para a elite econômica e política do país. Eles sabiam que era preciso parar o PT. Neutralizar o governo Dilma e aniquilar o seu principal líder, Lula. Pelo transcorrer natural da história, Dilma sairia e Lula ganharia em 2018. Os donos do poder sabiam que isso aconteceria. Seria um processo para o qual não haveria freios. O golpe foi pensado com esse objetivo. Lula mesmo preso, tentou manter o PT na luta. Isso é legítimo, embora entenda que devesse haver apenas um candidato de esquerda em torno de uma coalizão. Lula deu um xeque-mate em Ciro, sem deixá-lo com muitas alternativas. Capturou as principais alianças. Recordo-me que Ciro recorreu até mesmo ao Centrão. Ainda bem que não deu certo. Ele pensava pragmaticamente,  mesmo sabendo o preço que pagaria caso fosse eleito. Não tendo muitas alternativas, formou uma chapa puro-sangue com a Kátia Abreu (um nome que causa arrepios nos eleitores da esquerda). Lembre-se de que, sendo do MDB de Temer, foi uma das mais aguerridas defensoras de Dilma durante o golpe. Isso a isenta das sinalizações políticas do passado? Não.  Todavia, é preciso olhar para ela com o pouco mais de parcimônia. 

(3) Ciro é um candidato para o qual muito esquerdista vira o rosto, mas, é uma alternativa no campo popular. Isso não pode ser negado. Não podemos dizer que Ciro está do lado de lá. Um dos graves erros do PT é entender que ele, somente ele, vocaliza as demandas da esquerda; que ele é a esquerda legítima. Essa estratégia apenas fortalece o lado oposto. Nesta eleição, por exemplo, a estratégia colocou o país em perigo, deixando-nos à mercê de um hitlerzinho medíocre dos trópicos chamado Jair Bolsonaro. 

(4) Ciro já foi ministro de Lula e já foi ministro de FHC. Atualmente, está no PDT de Brizolla, um dos sujeitos que mais entenderam as elites entreguistas do país. O PDT é um partido nacionalista. Possui incoerências como qualquer partido, mas possui um lastro histórico bastante respeitável. Se o discurso de Ciro não é arraigado no chão semântico daquilo que converge centralmente para a esquerda, o seu nacionalismo é autêntico. É preciso pensar numa liderança que consiga discernir a conjuntura sem paixões exacerbadas.

(5) Votei em Ciro, mas sei que o segundo turno será entre o Bozo e o Haddad. As chances do PT são imprecisas, mas a militância (e todos os democratas) precisa construir uma estratégia de luta para reverter a narrativa em torno da figura do candidato do PSL. É preciso apontar as incoerências, os blefes; o lodo que existe em torno de sua personalidade; o quanto um candidato como ele é pernicioso para os trabalhadores, para as mulheres, para os negros, quilombolas, para os gays etc. Bolsonaro é um fenômeno, e como todo fenômeno, há doses fortíssimas de psicologia em torno de dele. O fato dele não ter ido aos debates, ajudo-o a se fortalecer. No segundo turno, ele terá que comparecer aos debates e, acreditamos, que a sua mediocridade ficará exposta. Ele não poderá se esconder. Seja Ciro ou Haddad, vai ser preciso desconstruir a casca imantada que existe em torno dele; deixá-lo nu para que seja percebido o quanto é estúpido, boçal e um grande atraso civilizatório.