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sexta-feira, abril 22, 2022

Impressões sobre a releitura de "A metamorfose" de Franz Kafka



 “ – A senhora não precisa se preocupar com o jeito de jogar fora a coisa aí ao lado. Já está tudo em ordem.” Kafka em “A metamorfose”.

 

                Franz Kafka é um dos nomes literários mais importantes da história. É curioso observar que boa parte de sua obra não teria ficado para a posteridade, caso seu amigo Max Brod não tivesse levado à frente o projeto de divulgar os escritos do autor de A metamorfose. O autor nasceu em uma família de classe média. Cursou direito. Trabalhou em uma empresa que negociava seguros. Mas a sua grande paixão era a literatura; a escrita. Levava esse ato tão a sério que se comunicava com os seus amigos e familiares por meio de cartas.

                A literatura do escritor tcheco possui um imenso horizonte de interpretações. Quando analisamos sua não extensa produção, a impressão que fica é de pessimismo e niilismo. Kafka parece apontar para um aspecto da sociedade contemporânea e capitalista: existe uma mal-estar; um senso de asfixia que impede o homem de viver plenamente. Em seu texto, nota-se a presença de algo grandioso que possui uma força aterradora, que açambarca o indivíduo. O sistema é totalizante. É burocrático. Despersonalizado. Em O Processo, Joseph K.  não consegue localizar, tornar materializável, a entidade que engendrou o dispositivo judicial contra ele. A acusação surge de forma virtual. Sente-se a sua força, mas não se consegue identificá-la. O mecanismo é sempre ausente. Em O Castelo, o viajante chega ao limiar de um castelo, mas não consegue falar pessoalmente com o senhor que mora na propriedade. É o símbolo da burocracia fria, do sistema com a sua força opressora, totalizante. Essa força arquetípica é o que torna os seus textos desconcertantemente envolventes.

                A metamorfose é um dos poucos livros publicados com o escritor ainda vivo. Chegou a ter uma segunda edição, enquanto Kafka ainda vivia. Escrito em 1912 e publicado em 1915, o livro é um dos grandes acontecimentos literários do século XX. A obra tornou-se uma referência para várias áreas do conhecimento. Estudos variados foram realizados – e continuam a serem realizados.

                O livro é uma novela, aparentemente, singela. Mas, basta abrir a primeira página para que sejamos tomados pelo ímpeto das clássicas palavras: “Quando certa manhã Gregor Samsa acordou de sonhos intranquilos, encontrou-se em sua cama metamorfoseado num inseto monstruoso”. É curioso observar o quanto a história já inicia em um clímax. A desdita da personagem principal já é enunciada nos primeiros lances do romance. A partir desse ponto, questiona-se: o que aconteceu? O que levou Gregor a se tornar nesse “inseto monstruoso”? À medida que a leitura avança, não encontramos essas respostas. Pelo contrário, o que fica evidente é o quanto Gregor se torna alguém que incomoda. Sua distinta posição social de caixeiro viajante é esquecida. Enquanto era trabalhador, arrimo financeiro da família, Gregor era benquisto. Os seus pais o tratavam com respeito. Mas ao ser despido de sua posição de mantenedor e de uma pessoa produtiva, observa-se o quanto os papéis são trocados. Gregor não é tido mais como um membro condigno da família. Torna-se algo indesejado. Quando da sua morte, a irmã (aquela que parecia ter uma simpatia pelo irmão) diz: “Precisamos tentar nos livrar disso”. Ou o pai que diz após a morte de Samsa: “...agora podemos agradecer a Deus”.

                A desumanização da personagem é descrita com bastante frieza, como se alguém estivesse a dissecar um cadáver.  E, nesse sentido, é importante salientar a maneira como a história é contada. Há um aspecto de asfixia, como se o mundo de Gregor fosse se fechando. A maior parte do tempo Gregor está dentro do seu quarto, o espaço de seu confinamento, local este em que busca se esconder ou se proteger dos familiares ou de pessoas circunstantes – patrão, empregadas, inquilinos.

                Aos poucos, é possível observar como a metamorfose de Gregor é um evento que produz um imenso mal-estar. E, baseado nisso, é importante perguntar: o que é Gregor ou que representa Gregor? A sociedade capitalista com todas as suas técnicas, procura criar padrões, arquétipos. Esses padrões precisam criar um senso de conformação. Fugir desses padrões é experimentar o estranhamento dessa mesma sociedade. O julgamento da sociedade é implacável. Sanciona o expurgo. As comunidades humanas, geralmente, procuram eliminar a diferença. Nota-se que a uniformidade de comportamento é regra para convivência. A intolerância com o diferente é a regra do jogo.

                Kafka denuncia o exacerbamento dessa cultura da eliminação e do incômodo que o outro provoca, pelo simples fato, de possuir características destoantes dos padrões estabelecidos. É assim quando se dá a “metamorfose” para o fato de ter uma opção política ou religiosa diferente; quando se é idoso; quando se é estrangeiro; quando se é um morador de rua; quando se é alguém que pratica um crime e, mesmo tendo garantias jurídicas estabelecidas nos códigos jurídicos, há uma exigência pelo justiçamento.  As sociedades não toleram os seus metamorfoseados.

                A metamorfose é um livro rico de possibilidades. É de leitura desconcertante. Kafka o escreveu em pouca mais de vinte dias. Seu texto continua a gerar impressões variadas. Renova-se em sua potência, pois descreve de maneira magistral certo aspecto das relações humanas.  

domingo, março 14, 2021

As redes sociais - vídeo da BBC

Ilustração do polonês Pawel Kuczynski

A linguagem usada pelas redes sociais é bastante curiosa. A começar pelo termo “rede”. Rede é uma malha com aberturas regulares, usada para apanhar coisas ou seres. É assim que falamos em rede de pesca, que serve para capturar peixes ou outros animais provenientes de água doce ou salgada. A rede também serve como armadilha. Os aracnídeos, por exemplo, utilizam-nas como um artifício para armar emboscadas.

A teia construída pela aranha é uma rede resistente e serve como elemento indispensável para a própria sobrevivência. É nesse espaço delicado e resistente que capturam certos animais para se alimentarem deles. Os animais distraídos que caem ali são incapazes, uma vez presos ao material na teia, de sair e acabam servindo de alimento para a aranha.

Outro termo bastante curioso utilizado pelas redes sociais é a ideia de “usuário”. Como diz a reportagem da BBC (vídeo abaixo), apenas duas indústrias classificam seus consumidores com tal termo – a indústria do narcotráfico e a poderosa e narcotizante indústria das redes sociais. No caso dessa última, os seus consumidores são chamados de usuários, talvez, pelo potencial viciante que ela possui.

Já pensei diversas vezes em largar Facebook, Instagram, Whatsapp e toda essa parafernália que nos tornam seres passivos e dopados pelo seu poder espetacularizante. Por trás disso tudo, existem pessoas que pensam 24 horas como tornar os chamados “usuários” em seres cada vez mais dependentes. Com essa “dependência” por parte de adultos, adolescentes, crianças, são geradas cifras bilionárias. As poderosas corporações que lucram com esse sistema de vigilância sabem muito bem como proceder para tornar “os usuários” em reféns. A matéria consumida é o tempo. Horas e horas são tragadas pelos usuários diariamente.  Segundo pesquisa da Global Digital Overview, em 2021, os brasileiros ficaram, em média, 3 horas 31 minutos, por dia, expostos às redes sociais.  De acordo com essa mesma pesquisa, cada usuário fica 100 dias por ano conectado à internet. Um número que impressiona. Trata-se de um fenômeno novo, causador de dependência psicológica.

Como a excelente reportagem da BBC explicitou, “somos seres carentes de atenção”. As redes sociais potencializam esse lado das carências psicológicas. Os usuários permanecem presos, pois se tornam adstritos às “curtidas” e respostas dos supostos amigos – “seguidores”. Cada curtida gera uma sensação de bem-estar, de reconhecimento. Na selva dos individualismos gestados pela modernidade, quanto mais uma postagem é curtida, mais a sensação de recompensa é satisfeita. No fundo, o vício é oriundo dessa relação entre aquilo que eu posto e aquilo que obtenho dos outros com quilo que posto.

Os inventores e administradores dessas redes entenderam isso. É a partir da relação de dependência que eles lucram cifras altíssimas. O vídeo explica muito bem isso:

 


sábado, agosto 06, 2016

Pokémon Go e a falsificação do real

Não quero acreditar que se trate apenas de envelhecimento e casmurrice exacerbada de minha parte; ou ainda de uma personalidade assentada no mau-humor, que se indispõe contra todas as novidades, alegando uma suposta conspiração de forças secretas, dispostas a dominarem o mundo. Quero crer que não se trata disso. Peremptoriamente, não. O fato é que não consigo tirar da cabeça a indisposição contra a nova atração da indústria cultural do entretimento: o Pokemón Go. O jogo inventado pela Nintendo tem capturado a atenção de indivíduos de todas as faixas etárias e criado, mais uma vez,  uma febre como o foram a Macarena ou o Lepo Lepo. É uma espécie de "A coisa", aquele filme da década de oitenta, que mostrava um iogurte de marshmallow que se transformava em um sucesso comercial, uma febre coletiva, mas, que no fundo, era uma força de outro mundo que dominaria o planeta.

Pelo que li, o jogo é baseado em dados virtuais de geolocalização. O jogador precisa instalar o jogo no celular e sair à cata de "monstrinhos" que vão surgindo como desafios a serem capturados. Assim, o sujeito recebe os dados para localização do ente virtual, observa as informações geográficas que são disparadas por coordenadas e, com a tecnologia do celular - câmera, GPS etc - vai, meio que bestializado, à procura da nova aventura. 

Quando vejo algo assim, vem-me à mente aquela passagem da Odisseia em que Ulisses precisa enfrentar as sereias. Desejando ouvir as criaturas mágicas sem enlouquecer, Ulisses pede para ser amarrado ao mastro do navio e solicita aos seus marinheiros que tapem os ouvidos com cera para não serem atingidos pelo feitiço, ou seja, pelo canto enganador. As sereias eram entidades que se travestiam de mulheres belíssimas, encantadoras, que se colocavam em determinados locais. Quando avistavam viajantes desatentos, iniciavam um canto maravilhoso que acabava por enfeitiçar aqueles que as escutavam. Uma vez capturado pelo força inebriadora do canto, o sujeito tornava-se uma presa fácil e era devorado pelas sereias. No fundo, aquelas entidades eram monstros terríveis. 

Essa história ilustra como em uma sociedade capitalista é preciso manter-se atento "ao canto das sereias" da idiotização. O quanto é necessário refletir a nossa relação com o mundo real. Jogos como Pokemon Go expõem o quanto o capitalismo precisa criar "fugas" do mundo material. O quanto é preciso confundir materialidade com virtualidade, fazendo com que esta última, em sua dimensão enfeitiçadora, torne-se mais significativa que o mundo desigual em que vivemos. Ao se confundir, por meio de uma indução os elementos do real e os elementos da aparência das coisas, cria-se uma falsificação do mundo real e das coisas reais. Assim, a falsificação é poderosa, pois desvia a atenção do sujeito para aquilo que não é, fazendo com que o real se esconda ou não seja desejado. O "espectro do virtual" torna-se mais interessante. Essa "confusão" é induzida e não deve ser entendida como gratuita. O que a indústria cultural do capital mais deseja é manter os indivíduos expostos ao canto enfeitiçador do entretenimento fácil e falto do uso da razão; da suspensão do juízo crítico.

Adorno e Horkheimer, no clássico A dialética do esclarecimento, afirmam que uma das estratégias do capital é a produção de uma indústria cultural. Neste enquadramento, "o indivíduo é ilusório não apenas por causa da padronização do modo de produção. Ele só é tolerado na medida em que sua identidade incondicional com o universal está fora de questão" (p.128). Ou seja, a consciência de si é um dado inexistente. O sujeito desvia o olhar de si para elementos externos à sua condição. Padroniza-se a realidade, convence-se o sujeito por meio da celebração dos espetáculos e das mercadorias, que existe uma naturalização do mundo tal qual ele é. Vive-se, assim, uma ditadura "do falseamento" criada pela imanência do estilo de vida criada pelo capital.

No filme O show de Truman (1998), de Peter Weir, a personagem Truman encenada por Jim Carrey, vive em um mundo de faz de conta. Ele não sabia quem era. Suas ações cotidianas, seus sentimentos, suas relações sociais estavam confinadas a um esquematismo de uma equipe de televisão que o mantinha preso dentro de um estúdio, vivendo uma espécie de reality show para divertir os telespectadores. Desde criança, Truman havia sido confinado naquele cenário. Ele era apenas um joguete, uma objeto manipulável, sem consciência de si, da sua condição, de sua origem, de sua história pessoal. Com o tempo a personagem passa a desconfiar de que algo "estranho" acontecia, que os eventos sempre se repetiam. Mas, todas as vezes que buscava uma pista que explicasse o seu drama pessoal, os questionamentos em torno de sua história, os organizadores do programa (a força externa e coercitiva), impedia a sua busca.

Jogos como Pokemon Go são formas dissimuladas de criar zumbis. Ele preenche o vazio criado pelo capital - o vazio que é o grande ethos de nossa época. Consome-se tudo de forma suína. Não distingue-se o produto, o artefato, o objeto, tudo vira matéria para distração. Engole-se qualquer coisa. Tudo é novidade. E o novo em sua rutilância tem a capacidade de seduzir. Poucos são os viajores do mar da história que prestam atenção "à música que escutam". Poucos são aqueles que distinguem a melodia enfeitiçadora que produz estragos. Poucos são aqueles que conseguem perceber o véu de falsificação produzido pela indústria que banaliza sujeitos e os transformam em títeres dóceis e zumbificados. 

É preciso atentar para a advertência de Ulisses. 

quarta-feira, janeiro 22, 2014

"Crimes e Pecados", de Woody Allen - um tratado sobre o comportamento humano

Vi ontem, com um olho aberto e outro e outro fechado, em decorrência do sono, o ótimo filme Crimes e Pecados, de Woody Allen. Assisti a esse filme sempre foi uma luta (risos!). Iniciei várias vezes e nunca terminei. Desejei, da última vez, iniciar e finalizar. O filme é imensamente agradável. Está dentro do gênero comédia, mas, ao fim, percebemos que se trata de uma tragicomédia, com forte sabor filosófico.

Crimes e Pecados constrói uma tese cristã sobre os homens: todos os homens são culpados; todos os homens cometem crimes morais e, por isso, são pecadores. Os personagens centrais possuem máculas em sua personalidade ou cometem delitos privados, omitidos na vida pública. O oftalmologista bem-sucedido, dono de uma aparente reputação ilibada; pai de família exemplar; segue um fluxo amplo nas relações sociais, mas acoberta um adultério. E quando a amante ameaça trazer o romance proibido à tona, ele decide matá-la. Depois, se ver acometido pelo remorso e pela culpa, já que descendia de forte educação judaica. E segundo seu pai, "Deus retribuirá com um prêmio ao homem bom e com o castigo o homem mal". 
Judah Rosenthal (Martin Landau) e Dolores Paley (Anjelica Huston
 Halley Reed (Mia Farrow), que aparenta ser um oceano de recato moral, acaba casando com Lester (Alan Alda), simplesmente, por interesse. Cliff Stern (Woody Allen), apesar de parecer um sujeito aparvalhado, por certo momento, decide trair a esposa com a companheira de profissão, Halley Reed. Queria levar à frente o romance, mas se ver impedido pela deferência da moça. Até mesmo a esposa de Cliff, nas cenas finais do filme, diz ao irmão Lester que havia conhecido uma pessoa. Ou seja, a consumação de mais um adultério. Claro, as minhas descrições ficam apenas no campo do imediatismo, sem esboçar contundentemente a gama complexa trabalhada no filme.

Cliff Stern (Woody Allen) e Halley Reed (Mia Farrow)
Frase lapidar é enunciada pelo personagem de Woody Allen: "Nós somos a soma de nossas decisões". Entendo que essa frase possua metade do devir pela qual somos acometidos. Ela é verdadeira. Mas entendo que não são apenas as nossas decisões que fazem cada um de nós. Somos resultado de conjunturas sociais, culturais etc. Mas, por sua vez, o que Cliff quer dizer é que muitas das decisões que tomamos acabam por trazer consequências e que nos colocam em caminhos que definem a nossa existência. Escolher uma estrada é optar, também, não caminhar por outra estrada. E os fatos e relações que estão presentes na estrada que decidi caminhar, criam ramificações que vão trazendo consequências e se instauram como fios tentaculares. Tais eventos acabam gerando fatos que estão para além do nosso controle, como acontece, por exemplo, com o oftalmologista a qual citei acima.

Nossas decisões encerram premissas morais. A tese do filme é pessimista em excesso - e porque não dizer niilista? Ou seja, todos os homens são corruptos ou passíveis de corrupção. Isso me faz lembrar uma passagem bíblica: "O homem pode prevaricar até por um pedaço de pão" (Pv 28.21). Uma das definições para "prevaricar", segundo o Aurélio, é "torcer a justiça", "faltar ao dever", dando a entender que se trata de algo que encerra um elemento moral. Nesse sentido, Crimes e Pecados confirma essa afirmação reputada a Salomão.

Excelente filme! Vale a recomendação.

O filme pode ser visto no Youtube.

terça-feira, outubro 15, 2013

In Utero, do Nirvana, 20 anos do lançamento - algumas considerações


Motivos iniciais - a fecundação do caos

Este texto, resultado de uma pensata pouco convincente, deveria ter saído há um mês atrás. Devido a circunstâncias pouco favoráveis eu não pude escrever. Mas vamos lá: há um mês atrás a indústria fonográfica mundial - dia 13/09 - comemorou 20 anos do lançamento do álbum In Utero, último disco de estúdio da banda de Kurt Cobain, lendário líder do Nirvana. Falar do Nirvana é lembrar a minha adolescência. É voltar ao início dos anos de 1990, época da explosão do movimento grunge, época esta também em que descobri o rock.

Quando me analiso e tento encontrar explicações plausíveis que expliquem o fato de até hoje ouvir a banda de Kurt Cobain, entendo que se trata de um apelo das emoções. A banda musicalmente era ruim. A voz de Kurt era um grunhido gritado. Em muitos momentos ele desafinava. As suas performances eram irracionais. Mas o selo da rebeldia estava em tudo aquilo e, talvez, esse fato seja um combustível para as nossas necessidades mais primitivas. 

Alex Ross em seu excelente livro Escuta Só, diz que Cobain escolheu voluntariamente "um caminho para a morte". Ou seja, sua trajetória estava marcada e traçada por conta de uma vida de abandono e instabilidade emocional desde o início de sua carreira. Charles Cross, por sua vez, na biografia Mais pesado que o céu, livro este em que é pintada com cores bem vivas a conturbada e cinzenta vida do líder do Nirvana, deixa muito claro o sujeito complexo e emocionalmente instável que era Kurt Cobain. Para entendê-lo é necessário mergulhar em sua história familiar. Na separação dos pais. A mãe Wendy e seu pai Don, formaram um casal instável. Parecia haver uma condição psicológica perturbada na família da mãe de Cobain. Segundo Cross, Wendy separou-se de Don sem maiores explicações e a partir daí começa a desagregação existencial de Kurt.

Passou a viver de favores na casa de amigos. A receber salários ordinários em sub-empregos. Kurt não era muito disposto ao trabalho. Gostava mesmo era de rock. O movimento punk em alta no final dos anos 70 e início dos anos 80 era sua grande atração. Sua vida era "vagabundar" pelos bairros de Aberdeen, sua cidade natal, no estado de Washington, extremo oeste americano. 

Ao formar o sua primeira banda, a Fecal Matter ("Matéria Fecal"), em 1985, nota-se o tom de escracho e ao mesmo tempo, de insubordinação adolescente e que seria a sua marca. Tal alusão subjacente foi cantada inconscientemente em Smell like teen spirit ("Cheira a espírito adolescente"). A Fecal Matter não fez nenhum show. Foi uma proto-ideia daquilo que mais tarde seria o Nirvana. O certo é que Kurt sempre mostrou-se introspectivo. Mesmo antes de se tornar famoso, sempre mencionava a possibilidade do suicídio.

Bleach e Nervemind - organizando o caos

Em 1989, Cobain lançaria o disco que seria uma espécie de panfleto de sua estética. É um disco muito importante para o movimento grunge. Ele consolida aquilo que já vinha sendo feito por bandas como Melvins ou Mudhoney. O disco foi gravado pela famosa e marginal gravadora Sub-Pop, que logo em seguida despejaria para o mundo uma quantidade de bandas desconhecidas, acreditando que no meio desse caudal haveria "outros nirvanas". Bleach é um disco barulhento, de som sujo e gritado. As músicas possuem uma marca que seguiria a banda em sua trajetória efêmera: o som se amalgamava com a voz feita sob encomenda de Kurt Cobain. Os solos de guitarra são desarmônicos. Existe uma não-linearidade nesse sentido, como se a banda quisesse formar uma nova plástica musical. Outras duas músicas chamam a atenção pela "violência plástica": Paper Cuts e Negative Creep.

Era um bofete em bandas hegemônicas do mainstream como Guns n' Roses, Metallica ou Iron Maiden. Aquilo era cru e sujo ao extremo. Um exemplo disso (a música que escuto agora enquanto digito essas linhas) é Floyd the Barber, que trazia um som encorpado, pegajoso, untado pela voz desesperada de Kurt. A música nos transmite uma forte impressão de que se trata de uma algo feito por colegiais que resolvem se divertir na garagem para desespero dos pais. Àquela altura, Kurt já tinha 22 anos de idade. Começava a fazer shows em vários locais dos Estados Unidos. Foi à Europa. Tocou na Inglaterra. Kurt Cobain ao vivo impressionava. Era um tipo diferente fazendo rock. Suas performances chamavam atenção. Sua música possuía uma energia extraída dos subterrâneos, de cavernas escuras. Era levada ao mundo por meio de vagidos agônicos. Músicas como Love Buzz ou School apareciam em momentos altos dos shows para delírio dos fãs, que quando não entendiam o espetáculo, ficavam a olhar os desvarios artísticos do profeta da nova geração, uma espécie de Jim Morrison redivivo.

Em 1991, o grupo gravava com a poderosa Geffen. Saía o disco comercial que consagraria a banda - Nevermind. Nevermind é um marco da indústria fonográfica. Impossível falar em rock sem mencioná-lo. Talvez esteja ao lado de discos como Sargent Peppers, dos Beatles, ou Led Zeppelin IV, do Led Zeppelin, em matéria de importância. Nevermind unia a semântica comercial ao som vocacionado para embalar uma geração. Era um disco feito sob recomendação. Os acordes iniciais de Smell like teen spirit, a música que abre o disco, era uma espécie de brincadeira. Mas a música era terrivelmente boa. A diferença de Nevermind em relação ao Bleach é gritante. A estética do grito foi substituída pelo uso convincente de letras fáceis e grudentas e uma harmonia que ficava presa na cabeça. Os sentidos pareciam exigir aquela música que trazia uma "fragrância nova", que "cheirava a liberdade". Parecia falar às necessidades dos jovens. Não percebíamos que tudo aquilo eram solilóquios, monólogos, de uma alma achacada. Kurt era um sujeito indefeso que encontrava nas drogas a sua válvula criadora. Ele parecia estar fazendo expiação às contradições do mundo burguês. A juventude que via nele o ícone de uma nova geração, não percebia que ali estava um sujeito que também pedia socorro. Os desencontros e as contradições geradas na sociedade de classe leva os homens a se automutilarem.


Com Nevermind, Kurt ganhou rios de dinheiro. Tornou-se herói. Mas tudo aquilo parecia ser insignificante para ele. Seu vício contumaz. Suas tentativas malogradas de largar as drogas. Sua personalidade introspectiva parecia dizer para o mundo que sua vida corria perigo. Ele era o seu pior inimigo.

In Utero - o paroxismo do caos

Em 1993, começava o projeto para gravar aquele que seria o terceiro disco de estúdio  - e último também. Kurt queria fugir dos clichês comerciais e propagandísticos do disco anterior. Queria regressar aos momentos iniciais da banda. Tanto é assim, que In Utero esteticamente está mais próximo de Bleach do que de Nevermind. A diferença é que In Utero está dentro de um invólucro de dor, de desespero, de ácidos sujos, de uma atmosfera doentia. Em quatro anos de sucesso constante e meteórico, a banda na pessoa de Kurt havia alcançado um "nirvana paradoxal". Não se tratava da quietude perpétua como apregoa a doutrina do budismo, mas o paroxismo do caos. Era a consagração do paradoxo. O disco nos coloca uma pergunta: "no útero de quê?" Talvez, tenhamos encontrado o enunciado mais verdadeiro e repleto de significados existenciais saído da garganta de Cobain.

In Utero começou a ser gravado em fevereiro de 1993. A banda escolheu Steve Albini, um mago do rock independente da cena americana. É curioso notar a mudança perpetrada no itinerário da banda. A sonoridade de In Utero é uma das coisas mais viscosas da história do rock. Um exemplo que pode ser contraposto é a On Plain, de Nevermind, e Milk It, do comentado disco. Enquanto aquela soa como uma lufada de vento "em uma planície", esta possui uma sonoridade sufocante, repleta de agonia e uma letra desconexa ("her milk is my shit/ My shit s her milk" ["O leite dela é minha droga/ Minha droga é o leite dela"].

Havia a desconfiança de que o disco não emplacaria. Mas aconteceu o contrário. A sua perspectiva lírica gira em torno de sexualidade, nascimento, morte, doença, vício. Era a agonia de Kurt. Sua alma, finalmente, mostrava-se. Vivera alguns anos querendo voar. O disco exatificava seus sentimentos. Dali para frente seria a derrocada. Tanto é assim que em 5 de abril (possivelmente) de 1994, ele atirou contra a própria cabeça com uma espingarda, pondo fim à sua curta história de fama e solidão existencial.

Os ecos do caos

O espectro de Kurt Cobain ainda assombra a muita gente. Sua voz ainda continua poderosa. Sua música encanta muitos jovens em torno do mundo. Ele derramou "o cheiro" de sua música por todos os cantos. O Nirvana ainda é uma banda comercialmente rentável. Estima-se que a banda tenha vendido mais de 50 milhões de discos em todo o mundo. Somente o In Utero já vendeu mais 10 milhões de cópias desde o lançamento. O disco está ao lado de discos dos Beatles, Bob Dylan, Rolling Stones, Queen, Led Zeppelin e Pink Floyd na lista dos cem discos mais importantes da história, segundo a revista americana Blender.

Curiosamente, continuo ouvindo Nirvana - especialmente o In Utero. Ao ouvi-lo, é como se eu voltasse no tempo. A primeira vez que o escutei foi em 1994. Comprei em uma loja de discos. Era um fita K-7. Não sei onde ela foi parar. Ouvi-a tanto... gritei tanto... Os ecos do caos continuam a produzir a sua música gritada e agônica - e o pior é que existe uma satisfação nisso tudo.

quinta-feira, março 08, 2012

O que a esquerda deveria aprender com os evangélicos

Impossível não postar uma análise tão profunda e tão visceral. Uma análise contrastante do universo prático e não burocrático dos evangélicos e do progressismo de gabinete. Aquela atitude velha e que só promove alardes e radicalismos supostamente intelectualizados da esquerda. Segue o texto:

O que a esquerda deveria aprender com os evangélicos

Ultimate Fighting Championship: Marx vs. Cristo

"As massas de homens que nunca são abandonadas pelos sentimentos religiosos
então nada mais vêem senão o desvio das crenças estabelecidas.
O institnto de outra vida as conduz sem dificuldades
ao pé dos altares e entrega seus corações aos preceitos
e às consolações da fé."


Alexis de Tocqueville, "A Democracia na América" (1830), p. 220.

No Brasil, um novo confronto, na forma como dado e cada vez mais evidente e violento, será o mais inútil de todos: o do esclarecimento político contra o obscurantismo religioso, principalmente o evangélico, pentecostal ou, mais precisamente, o neopentecostal. Lamento informar, mas na briga entre os dois barbudos – Marx e Cristo – fatalmente perderemos: o Nazareno triunfa. Por uma razão muito simples, as igrejas são o maior e mais eficiente espaço brasileiro de socialização e de simulação democrática. Nenhum partido político, nenhum governo, nenhum sindicato, nenhuma ONG e nenhuma associação de classe ou defesa das minorias tem competência e habilidade para reproduzir o modelo vitorioso de participação popular que se instalou em cada uma das dezenas de milhares de pequenas igrejas evangélicas, pentencostais e neopentecostais no Brasil. Eles ganharão qualquer disputa: são competentes, diferentemente de nós.

Muitos se assustam com o poder que os evangélicos alcançaram: a posse do senador Marcello Crivela, também bispo da Igreja Universal do Reino de Deus, no Ministério da Pesca e a autoridade da chamada “bancada evangélica” no Câmara dos Deputados são dois dos mais recentes exemplos. Quem se impressiona não reconhece o que isso representa para um a cada cinco brasileiros, o número dos que professam a fé evangélica ou pentecostal no Brasil. Segundo a análise feita pela Fundação Getúlio Vargas (FGV), a partir dos microdados da Pesquisa de Orçamento Familiar 2009 do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), a soma de evangélicos pentecostais e outras denominações evangélicas alcança 20,23% da população brasileira. Outros indicadores sustentam que em 1890 eles representavam 1% da população nacional; em 1960, 4,02%.

O crescimento dos evangélicos não é um milagre, é resultado de um trabalho incansável de aproximação do povo que tem sido negligenciado por décadas pelas classes mais progressistas brasileiras. Enquanto a esquerda, ainda na oposição política, entre a abertura democrática pós-ditadura e a vitória do primeiro governo popular no Brasil, apenas esbravejava, pastores e missionários evangélicos percorreram cada canto do país, instalaram-se nas regiões periféricas dos grandes centros urbanos, abriram suas portas para os rejeitados e ofereceram, em muitos momentos, não apenas o conforto espiritual, mas soluções materiais para as agruras do presente, por meio de uma rede comunitária de colaboração e apoio. O que teve fome e dificuldade, o desempregado, o doente, o sem-teto: todos eles, de alguma forma, encontraram conforto e solução por meio dos irmãos na fé. Enquanto isso, a esquerda tinha uma linda (e legítima) obsessão: “Fora ALCA!”.

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O crescimento dos evangélicos não é um milagre,
é resultado de um trabalho incansável
de aproximação com o povo

Desde Lutero, a fé como um ato de resistência (Life of Martin Luther and and the Heros of Reformation, litografia, 1874)

O mapa da religiosidade no Brasil revela nossa incompetência social: os evangélicos e pentecostais são mais numerosos entre mulheres (22,11% delas; homens, 18,25%), pretos, pardos e indígenas (24,86%, 20,85% e 23,84%, respectivamente), entre os menos instruídos (sem instrução ou até três anos de escolaridade: 19,80%; entre quatro e sete anos de instrução: 20,89% e de oito a onze anos: 21,71%) e na região norte do país, onde 26,13% da população declara-se evangélica ou pentecostal. O Acre, esse Estado que muitos acham que não existe, blague infantilmente repetida até mesmo por esclarecidos militantes de esquerda, tem 36,64% de evangélicos e pentecostais. É o Estado mais evangélico do país. Simples: a igreja falou aos corações e mentes daqueles com os quais a esquerda nunca verdadeiramente se importou, a não ser em suas dialéticas discussões revolucionárias de gabinete, universidade e assembleia.

O projeto de poder evangélico não é fortuito. Ele não nasceu com o governo Dilma Rousseff. Ele não é resultado de um afrouxamento ideológico do PT e nem significa, supõe-se, adesão religiosa dos quadros partidários. Ele é fruto de uma condição evangélica do país e de uma sistemática ação pela conquista do poder por vias democráticas, capitalizada por uma rede de colaboração financeira de ofertas e dízimos. Só não parece legítimo a quem está do lado de fora da igreja, porque, para cada um dos evangélicos e pentecostais, estar no poder é um direito. Eles não chegaram ao Congresso Nacional e, mais recentemente, ao Poder Executivo nacional por meio de um golpe. Se, por um lado, é lamentável que o uso da máquina governamental pode produzir intolerância e mistificação, por outro, acostumemo-nos, a presença deles ali faz parte da democracia. As mesmas regras políticas que permitiram um operário, retirante nordestino e sindicalista chegar ao poder são as que garantem nas vitória e posse de figuras conhecidas das igrejas evangélicas a câmaras de vereadores, prefeituras, governos de Estado, assembleias legislativas e Congresso Nacional. O lema “un homme, une voix” (“um homem, uma voz”) do revolucionário socialista L.A. Blanqui (1805-1881), “O Encarcerado”, tem disso.

Afora a legitimidade política – o método democrático e a representação popular não nos deixam mentir – a esquerda não conhece os evangélicos. A esquerda não frequentou as igrejas, a não ser nos indefectíveis cultos preparados como palanques para nossos candidatos demonstrarem respeito e apreço pelas denominações evangélicas em época de campanha, em troca de apoio dos crentes e de algumas imagens para a TV. A esquerda nunca dialogou com os evangélicos, nunca lhes apresentou seus planos, nunca lhes explicou sequer o valor que o Estado Laico tem, inclusive como garantia que poderão continuar assim, evangélicos ou como queiram, até o fim dos tempos. E agora muitos militantes, indignados com a presença deles no poder, os rechaçam com violência, como se isso resolvesse o problema fundamental que representam.

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A esquerda nunca dialogou com os evangélicos,
nunca lhes apresentou seus planos,
nunca lhes explicou sequer o valor do Estado Laico

George Whitefield (1714-1770) pregando nas colônias britânicas

Apenas quem foi evangélico sabe que a experiência da igreja não é puramente espiritual. E é nesse ponto que erramos como esquerda. A experiência da igreja envolve uma dimensão de resistência que é, de alguma forma, também política. O “não vos conformeis com este mundo, mas transformai-vos pela renovação do vosso espírito” (Paulo para os Romanos, capítulo 12, versículo 2) é uma palavra de ordem poderosa e, por que não, revolucionária, ainda que utilizada a partir de um ponto de vista conservador.

Em nenhuma organização política o homem comum terá protagonismo tão rápido quanto em uma igreja evangélica. O poder que se manifesta pela fé, a partir da suposta salvação da alma com o ato simples de “aceitar Jesus no coração como senhor e salvador”, segundo a expressão amplamente utilizada nos apelos de conversão, transforma o homem comum, que duas horas antes entrou pela porta da igreja imundo, em um irmão na fé, semelhante a todos os outros da congregação. Instantaneamente ele está apto a falar: dá-se o testemunho, relata-se a alegria e a emoção do resgate pago por Jesus na cruz. Entre os que estão sob Cristo, e são batizados por imersão, e recebem o ensino da palavra, e congregam da fé, não há diferenciação. Basta um pouco de tempo, ele pode se candidatar a obreiro. Com um pouco mais, torna-se elegível a presbítero, a diácono, a liderança do grupo de jovens ou de mulheres, a professor da escola dominical. Que outra organização social brasileira tem a flexibilidade de aceitação do outro e a capacidade de empoderamento tal qual se vêem nas pequenas e médias igrejas brasileiras, de Rio Branco, das cidades-satélite de Brasília, do Pará, de Salvador, de Carapicuíba, em São Paulo, ou Santa Cruz, no Rio de Janeiro? Nenhuma.

Se esqueçam dos megacultos paulistanos televisionados a partir da Av. João Dias, na Universal, ou da São João, do missionário R.R. Soares. Aquilo é Broadway. Estamos falando destas e outras denominações espalhadas em todo o território nacional, pequenas igrejas improvisadas em antigos comércios – as portas de enrolar revelam a velha vocação de uma loja, um supermercado, uma farmácia – reuniões de gente pobre com sua melhor roupa, pastores disponíveis ao diálogo, festas de aniversário e celebrações onde cada um leva seu prato para dividir com os irmãos. A menina que tem talento para ensinar, ensina. O irmão que tem uma van, presta serviços para o grupo (e recebe por isso). A mulher que trabalha como faxineira durante a semana é a diva gospel no culto de domingo à noite: canta e leva seus iguais ao júbilo espiritual com os hinos. A bíblia, palavra de ninguém menos que Deus, é lida, discutida, debatida. Milhares e milhares de evangélicos em todo o país foram alfabetizados nos programas de Educação de Jovens e Adultos (EJAs) para simplesmente “ler a palavra”, como dizem. Raríssimo o analfabeto que tenha sido fisgado pela vontade ler “O Capital”, infelizmente. As esquerdas menosprezaram a experiência gregária das igrejas e permaneceram, nos últimos 30 anos, encasteladas em seus debates áridos sobre uma revolução teórica que nunca alcançou o coração do homem comum. Os pastores grassaram.