Mostrando postagens com marcador Psicologia. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Psicologia. Mostrar todas as postagens

sexta-feira, dezembro 12, 2014

A fala de Bolsonaro contra Maria do Rosário e a lógica da violência

Acabei de ler o texto Lógica do Estupro, da filósofa Márcia Tiburi e fiquei a pensar o quanto existe de dimensão psicológica em nossos comportamentos aprendidos - e o quanto isso é externalizado em nossos preconceitos e pré-compreensões que emulam os comportamentos sociais. Nesta semana que finaliza, um dos acontecimentos que geraram reações escandalizantes em todo o país foi a fala truculenta, massiva em seu nível mais profundo de primitividade do deputado Jair Bolsonaro (PP-RJ) contra a deputada Maria do Rosário (PT-RS). A fala em si é condenável e digna de cominação legal. Mas o que me chama a atenção é o que está por trás da verbalização do parlamentar da bancada da bala. 

Lendo alguns comentários nas redes sociais sobre a repercussão da fala do truculento político, percebi a defesa implícita da atitude do deputado por parte de algumas pessoas. Algo assim: "Mas ela em outra situação o chamou de estuprador". Se a deputada havia agido dessa forma, que ele procurasse a justiça para reivindicar seu direito. A fala do deputado, enunciada do púlpito do plenário, não é justificável nem aqui no planeta terra, nem em qualquer outro lugar do universo. Outro sujeito chamou a deputada de "desgraçada". E fiquei a pensar sobre isso.

Na verdade, o que faz com que o deputado afirme: "Não a estupro porque você não merece" está centrado em duas realidades interpretativas, notadas até por um aluno de ensino fundamental: (1) ele é um estuprador; (2) a deputada não é digna de ser estuprada, mas há outras mulheres que são. Dita em um ato de desvario ou em sã consciência, a fala de Bolsonaro deixa latente, como diz Marcia Tiburi, citando o caso Gervais de Tilbury, personagem do livro Eva e os padres, de Georges Duby, grande medievalista, que o estuprador reivindica a lógica da força por ver na mulher um ser estuprável. Em entrevista ao Jornal Zero Hora, ele reitera o que disse, fazendo uma nova afirmação ("Ela não merece porque ela é muito ruim, porque ela é muito feia. Não faz meu gênero. Jamais a estupraria"). Com isso, ele exalta a prerrogativa de que é "macho", homem, potente, que encerra em si força superior. Age assim por ser um autoritário, que não consegue enxergar no outro a dignidade ou um sujeito de direitos em sua humanidade singular. O estupro é uma das maiores violências encontradas nas relações anômalas ditadas no mundo social. Ela é antiga. Cruel. Violenta por subjugar o outro e desonrá-lo. Torná-lo em um ser abjeto, subserviente, que estar ali apenas para ser um brinquedo descartável que servirá ao jogo de diversões egoístas do valentão. 

No fundo, o estuprador é um sujeito fraco, que não conseguiu sair da animalização para a humanização. É misógino. Ver a mulher e qualquer realidade que externe a figura do feminino como algo frágil. É, por isso, que ele ver no homossexual um ser desprezível, porque deixou de ser homem. Se há sexo entre homens (relação homoafetiva), ele acha desprezível. Mas, se ao contrário, a mesma relação se der entre mulheres, ele julgará como sendo menos nociva. Ou seja, o que sustenta tal comportamento é a força legitimidadora do falo. Quem tem e usa é "homem de verdade".  Subutilizá-lo é ser visto como ser reprovável, pois tal subutilização caminha em direção ao feminino. Isso explica, por exemplo, porque existe a figura do homem predador que sai na noite e diz que "comeu" muitas mulheres. Quanto mais se "pega", mais forte e viril é o sujeito nessa espiral gradativa da infantilização. E, como diz a Marcia, quando isso acontece, fica a demonstração da 'miséria subjetiva, no narcisismo infantilóide (por que parece com uma caricatura infantil da época em que ele mostrava sua genitália aos coleguinhas no banheiro) que, arranjados na lógica do estupro definem a condição inumana na qual ele se compraz'. 

É essa relação que define, por exemplo, o tratamento do estado para com os pobres. Do valentão da escola. Do marido que bate na esposa. Da polícia que bate em negro, que violenta os pobres da periferia. Vez ou outra os sentimentos do valentão vem à tona pelo simples fato de o sujeito ter um pênis e uma impressão que pode fazer determinadas coisas por ser homem. Já ouvir algumas pessoas afirmarem: "Mas ele é homem. Ele pode fazer. Não vai acontecer com ele". A estrutura psicológica dessa frase foi construída histórica e socialmente. Quando isso acontece a lógica do estuprador se instalou.

sexta-feira, outubro 18, 2013

Qual romance você está lendo?

Excelente texto do italiano Contardo Calligaris. Eu sabia que os normais são os que leem literatura ficcional!

Sempre pensei que fosse sábio desconfiar de quem não lê literatura. Ler ou não ler romances é para mim um critério. Quer saber se tal político merece seu voto? Verifique se ele lê literatura. Quer escolher um psicanalista ou um psicoterapeuta? Mesma sugestão. E, cuidado, o hábito de ler, em geral, pode ser melhor do que o de não ler, mas não me basta: o critério que vale para mim é ler especificamente literatura --ficção literária. Você dirá que estou apenas exigindo dos outros que eles sejam parecidos comigo. E eu teria que concordar, salvo que acabo de aprender que minha confiança nos leitores de ficção literária é justificada. 

Algo que eu acreditava intuitivamente foi confirmado em pesquisa que acaba de ser publicada pela revista "Science" (migre.me/gkK9J), "Reading Literary Fiction Improves Theory of Mind" (ler ficção literária melhora a teoria da mente), de David C. Kidd e Emanuele Castano. Uma explicação. Na expressão "teoria da mente", "teoria" significa "visão" (esse é o sentido originário da palavra). Em psicologia, a "teoria da mente" é nossa capacidade de enxergar os outros e de lhes atribuir de maneira correta crenças, ideias, intenções, afetos e sentimentos. 

A teoria da mente emocional é a capacidade de reconhecer o que os outros sentem e, portanto, de experimentar empatia e compaixão por eles; a teoria da mente cognitiva é a capacidade de reconhecer o que os outros pensam e sabem e, portanto, de dialogar e de negociar soluções racionais. Obviamente, enxergar o que os outros sentem e pensam é uma condição para ter uma vida social ativa e interessante. 

Existem vários testes para medir nossa "teoria da mente" -- os mais conhecidos são o RMET ou o DANVA, testes de interpretação da mente do outro pelo seu olhar ou pela sua expressão facial. Em geral, esses testes são usados no diagnóstico de transtornos que vão desde o isolamento autista até a inquietante indiferença ao destino dos outros da qual dão prova psicopatas e sociopatas. Kidd e Castano aplicaram esses testes em diferentes grupos, criados a partir de uma amostra homogênea: 1) um grupo que acabava de ler trechos de ficção literária, 2) um grupo que acabava de ler trechos de não ficção, 3) um grupo que acabava de ler trechos de ficção popular, 4) um grupo que não lera nada. 

Conclusão: os leitores de ficção literária enxergam melhor a complexidade do outro e, com isso, podem aumentar sua empatia e seu respeito pela diferença de seus semelhantes. Com um pouco de otimismo, seria possível apostar que ler literatura seja um jeito de se precaver contra sociopatia e psicopatia. Mais duas observações. 

1) A pesquisa mede o efeito imediato da leitura de trechos literários. Não sabemos se existem efeitos cumulativos da leitura passada (hoje não tenho tempo, mas "já li muito na adolescência"): o que importa não é se você leu, mas se está lendo. 

2) A pesquisa constata que a ficção popular não tem o mesmo efeito da literária. A diferença é explicada assim: a leitura de ficção literária nos mobiliza para entender a experiência das personagens. 

"Como na vida real, os mundos da ficção literária são povoados por indivíduos complexos cujas vidas interiores devem ser investigadas, pois são raramente de fácil acesso."
"Contrariamente à ficção literária, a ficção popular (...) tende a retratar o mundo e as personagens como internamente consistentes e previsíveis. Ela pode confirmar as expectativas do leitor em vez de promover o trabalho de sua teoria da mente." 

Em suma, o texto literário é aquele que pede esforços de interpretação por aquelas caraterísticas que foram notadas pelos melhores leitores do século 20: por ser ambíguo (William Empson), aberto (Umberto Eco) e repleto de significações secundárias (Roland Barthes). Na hora de fechar esta coluna, na terça-feira, encontro a mesma pesquisa comentada na seleção do "New York Times" oferecida semanalmente pela Folha. A jornalista do "Times" pensou que a leitura literária, ajudando-nos a enxergar e entender os outros, facilitaria nossas entrevistas de emprego ou nossos encontros românticos. 

Quanto a mim, imaginei que, na próxima vez em que eu for chamado a sabatinar um candidato, não esquecerei de perguntar: qual é o romance que você está lendo? E espero que o candidato mencione um livro que conheço, para verificar se está falando a verdade

Daqui

quinta-feira, março 14, 2013

O Brasil e uma explicação para aquilo que se é

O blog está à míngua. O tempo anda escasso. Tenho trabalhado em excesso, o que tem, consequentemente, impedido-me de escrever. As ideias estão presentes, mas as oportunidades são raras para que elas se materializem. As leituras estão emperradas. Já estou há mais de um mês com O Idiota, de Dostoiévsky, estacionado. Mas, há alguns dias atrás, lendo sobre os conceitos de Lacan e a educação, encontrei uma afirmação interessante sobre Contardo Calligaris, um psicanalista europeu que estudou a sociedade brasileira. O trecho me pareceu bastante esclarecedor:

"Contardo Calligaris (1992), uma renomado psicanalista lacaniano europeu, porém com bastante vivência da cultura brasileira, faz uma leitura interessante das nosssas fundações e dos seus reflexos na nossa subjetividade. Ele busca na história da nossa cultura, nas nosssas herenças mais longínquas, elementos capazes de escalarecer alguns de nossos hábitos e costumes, particularmente relacionados ao tratamento que damos às crianças e como concebemos a infância e a educação.

Segundo ele, a ocupação do Brasil pelos europeus se deu pela miragem subjetiva dos invasores de encontro ao paraíso, um lugar de riquezas, de gozo fácil e de felicidade absoluta. Tal miragem corresponderia à visada infantil de acesso pleno e irrestrito ao corpo materno: fonte de todos os prazeres, da satisfação de todos os desejos. A ausência de uma resistência significativa às miragens ensandecidas dos exploradores teria esmaecido a noção de lei, um interdito que pudesse colocar algum freio na sanha dos conquistadores, tal como a palavra do pai coloca limites para a criança.

Assim, a nossa herança cultural, nossas fundações, seria marcada principalmente por esse sonho primevo de felicidade e gozo sem limites que teria atravessado o tempo e estaria presente ainda hoje, direcionando nossa subjetividade.

Com efeito, reconhecemos facilmente entre nós o 'jeitinho brasileiro', expressão direta do esmaecimento da lei ou da disposição para burlá-la e transgredi-la, como se estivéssemos reencenando a chegada dos primeiros exploradores ávidos para usufruir a posse da terra e exauri-la, sem nenhuma restrição ou sendo de responsabilidade". 

Creio que essa leitura sob um viés lacaniano explique muita coisa sobre o nosso país tão propenso a burlar, a esmaecer os códigos reguladores da vida social. Está na psicologia de nossa formação. 

Introdução à psicologia da educação - seis abordagens. Kester Carrara (org.), in: A psicanálise lacaniana e a educação. Avercamp. 2004, p. 90

sábado, abril 07, 2012

Alguns filmes e Persona, de Ingmar Bergman

Meu feriado está sendo regado a um pouco de trabalho, música e filmes. Já vi alguns filmes muito bons e isso me dá uma sensação de refrigério e alívio. Penso apenas que poderia ter lido mais. Já tive a oportunidade, por exemplo, de ver Má educação (2004), do espanhol metido a polemista, Pedro Almodóvar; vi também Pecados Íntimos (2006), de Todd Field, um filme que me surpreendeu pela singeleza e pela qualidade; Star Wars - episódio 4: Uma nova esperança (1977), o épico filme de ficção científica que inicia a série, do papa dos efeitos George Lucas. Mas nada me chamou tanto a atenção quanto Persona (1966), de Ingmar Bergman. Isso filme que foge a qualquer classificação.

Confesso que após ter assistido ao filme hoje à tarde, ainda me encontro me refazendo da experiência. Trata-se de um filme curto - possui pouco mais de oitenta minutos. Mas, mesmo sendo curto, é uma filme que diz - diz muito. Bergman é um mistério. A começar pela fotografia, que é um deslumbramento, a obra precisa ser vista mais de uma vez para que nos apercebamos de detalhes. Tudo é feito em preto e branco - de uma beleza impecável - como em O Sétimo Selo (1957) ou Morangos Silvestres (1957).

A densidade e a  dramaticidade da obra nos lança num caleidoscópio de sensações espantosas. Tudo converge para tomadas quase inexplicadas. Um garoto de aspecto sofredor deitado numa cama num ambiente asséptico, tentado alcançar, tatear a imagem intangível numa tela. A cara plástica que muda de aspecto. A densidade de uma conversa, como a que acontece entre Alma (Bibi Andersson) e Elisabeth (Liv Ullmann), quando aquela conta a esta uma esperiência amorosa inexplicada numa praia deserta com um garoto. O aborto que segue e o sentimento impiedoso de culpa. O mutismo voluntário de Elisabeth. Seu silêncio nos atinge. Em dados momentos em que Alma tenta arrancar uma palavra de Elisabeth, indignamo-nos com a personagem de Liv Ullmann. Por que não falar?

E, afinal, o que querem significar aquelas cenas bizarras de entranhas sendo rasgadas ou uma mão sendo atravessada por um cravo enorme? Ou a equipe de filmagem aparecendo do nada no final do filme? O ainda o filme sendo queimado? Talvez, uma amostra surrealista da capacidade de dizer o inaudito com cenas deslocadas e, aparentemente, sem nexo. Fez-me lembrar de O espelho de Tarkovski. Assistir a um filme como esse é mergulhar numa viagem existencial e psicológica. O filme parece possuir uma força diabólica engolfante, que sufoca. Bergman nunca é claro num primeiro lance. A melhor palavra a qualificá-lo é "enigmático". Seu ofício: dizer muito, absurdamente, com poucas palavras e com diálogos densos. 

Em dado momento, as duas personagens acabam se fundido. O silêncio de uma e a loquacidade da outra parece se tornar um fenômeno complementar. Enquanto uma fala e a outra decide pelo silêncio, acabamos descobrindo mais fatos sobre aquela que nada diz. O que ela diz está nos gestos, no sorriso magistralmente esboçado. Uma questão fundamental levantada pelo filme é até que ponto podemos descobrir o nosso "eu", fechado pela cortina das aparências, que é viver em sociedade. Nossas personas serão os papéis que representamos? Como diálogo (descrito abaixo) entre Elisabeth e a terapeuta:

- Pensa que não entendo?  O inútil sonho de ser. Não parecer, mas ser. Estar alerta em todos os momentos. A luta: o que você é com os outros e o que você realmente é. Um sentimento de vertigem e a constante fome de finalmente ser exposta. Ser vista por dentro, cortada, até mesmo eliminada. Cada tom de voz, uma mentira. Cada gesto, falso. Cada sorriso, uma careta. Cometer suicídio? Nem pensar. Você não faz coisas desse gênero. Mas pode se recusar a se mover e ficar em silêncio. Então, pelo menos, não está mentindo. Você pode se fechar, se fechar para o mundo. Então não tem que interpretar papéis, fazer caras, gestos falsos… Acreditaria que sim, mas a realidade é diabólica (…).

Persona é uma obra aberta no sentido mais claro definido por Umberto Eco e por mais que se diga algo, ainda haverá muito por se dizer. Ou seja, por mais que se diga algo, aquilo que se diz será sempre aleatório. Somente assistindo ao filme para se entender essa experiência estupefaciente.

quarta-feira, dezembro 21, 2011

Anticristo, de Lars von Trier

Na última segunda-feira, fui à locadora aqui perto de casa e loquei Anticristo de Lars von Trier. Relutei ao máximo em vê-lo. Adiei o quanto pude a tarefa de assistir à película. Não gosto de filmes de terror nem de suspense. O estresse proporcionado por aquelas cenas tensas; as surpresas que são maquinalmente feitas para chocar o telespectador para mim são cacetes; a taquicardia, ao meu modo de ver, é desnecessária. Mas o filme de Trier me assediou por dois dias. Até que na manhã de hoje, eu resolvi vê-lo em meu notebook. Quis evitar maiores dissabores. E que surpresa me esperava. Descobri que o filme não é um terror. Poderia classicá-lo como um drama com fortes doses de suspense. Mas há apenas a utilização deste último artíficio para causar os efeitos possíveis, desejados pelo diretor.

O filme proporciona uma experiência tão densa que, após tê-lo visto, tenta-se reorganizar o caos mental, a experiência dorida a qual se enfrentou. De certa forma, ainda estou tentando ordenar os vários elementos, ou seja, cada peça que constitui a obra. Trier prende o telespectador, machuca-o, fere-o com cenas de violência, de uma eroticidade acachapante, de uma uma plasticidade quase que desnecessária. Mas como disse, nada no filme é desnecessário.

A príncipio, a história está colocada entre dois espaços, conectados a um "Prólogo" e um "Epílogo", momentos da mais intensa beleza surgida nos últimos tempos no cinema. O "Prólogo" e o "Epílogo" representam os dois espaços lumisos do filme. No intervalo desses dois espaços, está o escuro, o agonizante, o desespero e a depressão (“Luto", "Dor (Caos Reina)", "Desespero (Genocídio)" e "Os Três Mendigos"). Os cinco minutos iniciais do filme é de uma beleza e pureza enlevantes. O casal, representado pelo extraordinário Willem Dafoe e pela extraordinária Charlotte Gainsbourg, está fazendo sexo no banheiro. Trier busca ser realista. Mostra a genitália dos amantes - o pênis penetrando a vagina - talvez para sugerir o natural, o primitivo, a união profunda do homem e da mulher. As cenas se sucedem em câmera lenta. Tudo em preto e branco. Uma ária de Handel (Lascia Ch’io Pianga, com interpretação da soprano norueguesa Tuva Semmingsen) embala as emoções. A água do chuveiro cai. Fora da casa onde o casal está, a névoa despenca do céu em flocos suaves, como se fosse uma farinha celestial. O pequeno filho do casal sai do berço e ver a mãe e o pai realizando o gesto amoroso. Vira as costas. Faz uma cadeira de apoio e sobe até a janela. Brinca com a neve. E despenca. A queda parece ser uma poesia. Os pais não veem a queda do filho. Uma cena do filme, mais à frente, sugere que a mãe viu o filho caindo. Mas nada no filme de Trier é demasiadamente lógico.

Do evento trágico da morte do filho, desencadea-se o sofrimento para o casal. A mãe se ver aturdida pela dor e pelo desespero. É acometida por distúrbios psicológicos. E aqui começa de fato a viagem bíblica e psicanalítica proporcionada pela obra. Os personagens não possuem nome. Estão presente no filme a força do homem (a inteligência), contra o impulso da mulher (a demência). O marido mostra-se no filme como a energia racional, capaz de pensar os processos, de organizar o caos. É quem conduz, do ponto de vista da psicanálise, o tratamento psicológico da esposa. E é curioso o fato do casal se refugiar no interior de uma cabana chamada Éden, no coração de uma floresta. Éden segundo a Bíblia significa "paraíso" ou "jardim das delícias" e foi o local criado por Deus para que nele morasse e vivesse o primeiro casal humano - Adão e Eva. É somente após a queda, acepção bíblica, que a mulher recebe o nome de Eva. Ou seja, antes da queda ela não possuía nome. Já o homem é considerado "o pai de todos os homens" - Adão, do hebraico "adamar" ou "aquele que foi tirado da terra".

Éden, no filme de Trier, é o lugar da tentativa de cura, da busca pelas lembranças prazerosas e remidoras. Mas é em meio à natureza que os medos e reações mais intempestivas da esposa se voluntarizam. Cena curiosa e instigante é aquela que a esposa escuta um choro de uma criança. Ela procura em toda parte, mas não encontra nenhum personagem para protagonizar aquele vagido. De repente, a câmeta foca a netureza. A imensidão é mostrada. É a pópria natureza que chora. Uma agonia cósmica, metafísica, se insinua. A dor, então, é uma faceta natural do cosmos. Uma frase enunciada pelo marido no início do filme parece corroborar com esta ideia: "O sofrimento não é uma doença. É uma reação saudável e natural".

Na floresta, em meio à natureza, os instintos mais tenebrosos da esposa se avivam. Ela um ser frágil, vai adquirindo uma energia animalesca, pornográfica. Sua ânsia por sexo é um retrato curioso. Numa cena, ela atinge o falo do esposo com um objeto e este, com a dor, acaba desmaiando. E o que se sucede até o final é de uma audácia incrível. Numa cena de demasiada crueza, a esposa mutila o próprio clítoris com uma tesoura e tenta matar o marido. O marido como para se libertar da pulsão de destruição da esposa, acaba por enforcá-la e matá-la. Esse ato representa a liberdade. Ele fica livre da dor, da agonia, do selvagem que habita o feminino.

No "Prólogo", após ter matado a esposa: ele caminha cambaleante. Alimenta-se de frutas silvestres. É a harmonia com a natureza. Enquanto caminha, dezenas de fêmeas vêm ao seu encontro. Sobem o monte. O que seria esse monte? O Gólgota? - lugar da crucificação de Cristo. Mas essas mulheres não possuem rosto. E de repente, a película termina e por dois segundos, num fundo escuro, aparecem os dizeres: "Dedicado a Andrei Tarkovski (1932 a 1986)”. Tarkovski, nascido na antiga Uniãpo Soviética, foi um dos maiores diretores da história.

Lars von Trier tem gerado as mais distintas reações com os seus filmes. Polemista, "arengueiro", como se diz no Nordeste do Brasil, o diretor dimarquês tem arrancado uma beleza descomunal de suas obras. Os filmes de Trier possuem o poder de nos fazer pensar por dias. É daquelas obras que encerram efeitos densos. Deixando de lado maiores polêmicas quanto às suas afirmações sobre posicionamento político ou postura pessoal (o diretor se intitulou como o melhor do mundo e, em outro momento, disse admirar Hitler), Trier é um dos nomes mais importantes da arte cinematográfica da atualidade. Incensado por uns, odiado por outros, o diretor alimenta aquele tipo de sentimento que reside em torno dos grandes artistas.

sábado, abril 03, 2010

O julgamento dos Nardoni e a vontade do povo

Fato que me chamou a atenção foi o julgamento do casal Nardoni realizado na penúltima semana de março passado. Segundo a mídia nativa, que se aproveita das tragédias sociais e do caos para se vender e se promover, era um dos julgamentos mais importantes da História do Judiciário brasileiro. Houve um engradecimento do caso. Não escusamos aqui a fatalidade. Mas o que me deixou silencioso em meus pensamentos foi a reação da massa que cercou o fórum na cidade de São Paulo. Pessoas dos mais distintos lugares foram ao local para apreciar o caso num acesso de "justiçamento". Todos acompanhavam o caso com muita atenção. Não quero entrar em pormenores quanto a quem matou a menina de cinco anos, filha do casal Nardoni. Fato interessante é que antes do julgamento o casal já estava condenado. A mídia já havia condenado os dois. Nem o princípio constitucional de que a culpa só se efetiva com o trânsito em julgado da sentença - no juridiquês do Direito - foi levado em conta. Quando o juiz leu a sentença, resultado da apreciação do tribunal do júri, que tem competência para julgar os crimes contra a vida, houve "um salva de vivas". Havia uma lascísvia de contentamento nos olhos daqueles que estavam lá acompanhando o caso desde o primeiro dia. Era como se aqueles que acompanhavam o caso quisessem fazer justiça a toda força. Estranhos são os homens. Pensei que fosse uma final de campeonato. A psicologia do caso me aponta que havia um senso de raiva e ira represado no coração de cada um daqueles que estavam ali - e de tantos outros que estavam pelo Brasil afora. torcendo para que, se possível, o casal fosse estripado. A massa dispersa ganhou forma e a vontade individual tornou-se uma no que diz respeito ao desejo de solução pela força, nem que fosse pelo "esfolamento" ou pela morte. Fico a imaginar se os jurados tivessem absolvido das acusações de que era objeto o casal. O povo teria invadido o tribunal. Uma confusão generalizada poderia grassar. O Brasil é um país violento, que tem a sua guerrilha particular. A violência urbana mata mais do que a guerra histórica travada entre judeus e palestinos. A televisão "espetaculariza" todos os dias os casos de violência e isso faz brotar na paiquê da coletividade um medo mesclado de ódio e auto-justiçamento. Com relação a este fato (o julgamento dos Nardoni), achei uma extraordinário texto do filósofo Paulo Ghiraldelli sobre o caso.

Leia o texto na íntegra logo abaixo:

Isabela Nardoni enterra os seus mortos


Terminado o julgamento do casal Nardoni e passada a gritaria e rojões dos desocupados que ficaram em frente ao Fórum ou que, em suas casas, não faziam mais nada senão se alimentar do noticiário bestializado do caso, veio o inexorável silêncio. Mais uma vez a vida dessas pessoas que gritaram e comemoraram voltou a encher-se de nada. Todas elas caminharam para a mediocridade de onde saíram. Cada vida ali, cheia de nada, talvez tenha menos a fazer no mundo do que os Nardoni, que irão envelhecer na cadeia. Cada uma daquelas pessoas, até chegar ao ouvido delas a morte de mais uma Isabela qualquer, estará tão morta quanto a própria Isabella. Nada dentro de casa, nada no horizonte.

Uma vida cheia de nada.
As vidas dessas pessoas que se dispõem a se engajar em alguma causa que não é causa nenhuma, quando não há nenhum Hitler para recrutá-las para “fazer justiça”, é uma vida intermitente. Na falta de mais uma causa que não é causa nenhuma, tudo é um grande e eterno vazio. Nenhum emprego interessante, nenhum casamento gostoso, nenhum lar sadio, nenhum objetivo político; somente um horizonte social totalmente transparente – é tudo o que possuem. Quando William Bonner anunciará algo novo, possível de ser assimilado pelos cérebros simplórios, para que seus proprietários se levantem de seus túmulos? Essa é a pergunta que paira no ar na casa de cada um que soltou rojão ou que ficou no Fórum gritando “por Isabela”. “Uma vida cheia de nada” é o tema do ganhador do Oscar de melhor filme estrangeiro este ano, a belíssima película argentina “O segredo dos seus olhos” (José Campanella, 2009). Vale a pena ver. Há ali uma história. Mas “a vida cheia de nada” dos que gritaram por Isabela não dá um filme. Tudo ali é tão realmente cheio de nada que nem mesmo a narrativa sobre a pobreza de espírito é possível nesse caso. É o deserto avassalador que cresce dentro de cada alma que nem mesmo é uma alma, apenas uma cavidade encurtada capaz de fazer eco a um distante som metálico de noticiários de TV voltado para questões policiais. Hitler não vem. Mussolini não chega. Hiroíto não passa. Franco não dá bola. Pinochet não é ninguém. Castelo Branco é um desconhecido.

Todos os ditadores, dos maiores aos menores, capazes de poder fazer viver a turba que deseja vingança – vingança contra algo que a turba não sabe o que é e que, por conta da pouca educação social, diz que é “justiça” – não estão disponíveis. Resta então implorar por Datena. Talvez ele ponha alguma adrenalina em uma vida ressentida e cheio de nada. Mas Datena não vai adiante, ele é o Afanásio Jazadi dos novos tempos, da época “pós-politicamente correto”. Ele quase lança o ódio, mas recua. Ele não dá o que a turba pede. Por sua vez, Serra, que canaliza a direita hoje, é um candidato com um gosto tão entusiasmante quanto Alckmin. Picolé d xuxu era seu parceiro, ele próprio, Serra, é picolé de nabo. A turba almeja mesmo é por Hitler. Mas, eu garanto, ele não vem. Então, que Deus se apiede de todos e jogue alguma Isabela de outro edifício, caso contrário, cada uma dessas pessoas terá que ficar mais tempo no seu cemitério. Não poderá ganhar a luz do dia.
Uma vida cheio de nada. Quando uma vida é cheia de nada, nos cartazes dos manifestantes (como uma parte de nossa população está ficando igual aos setores conservadores americanos!) sempre aparece uma palavra suficiente mente vazia para dar razão ao vingadores: “Deus”. Deus não aparece para apaziguar, diminuir ódio ou promover a paz. Ele aparece para que exista vingança, não a respeito de Isabela, mas de qualquer outra coisa, talvez seja a vingança contra a própria vida cheio de nada. “Deus” surge para promover o ressentimento que ganha o nome , no caso, de “justiça”. Que sorte que Collor deu no que deu, pois, caso tivesse continuado, ele poderia aproveitar essa gente. Sendo ele agora apenas um senador marcado, tudo fica mesmo por conta de Bonner falar de outra desgraça. Enquanto as coisas ficarem só nisso, não há perigo.

Paulo Ghiraldelli Jr., filósofo.

DAQUI

Por Carlos Antônio M. Albuquerque
Data: Sábado, 03 de abril de 2010.