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terça-feira, junho 23, 2026

"Evocação Mariana" - Carlos Drummond de Andrade


A igreja era grande e pobre. Os altares, humildes.
Havia poucas flores. Eram flores de horta.
Sob a luz fraca, na sombra esculpida
(quais as imagens e quais os fiéis?)
ficávamos.

Do padre cansado o murmúrio de reza
subia às tábuas do forro,
batia no púlpito seco,
entranhava-se na onda, minúscula e forte, de incenso,
perdia-se.

Não, não se perdia. . .
Desatava-se do coro a música deliciosa
(que esperas ouvir à hora da morte, ou depois da morte, nas campinas do ar)
e dessa música surgiam meninas — a alvura mesma — cantando.

De seu peso terrestre a nave libertada,
como do tempo atroz imunes nossas almas,
flutuávamos
no canto matinal, sobre a treva do vale.

Ando a ler o livro “Claro Enigma”, de 1951, de Carlos Drummond de Andrade. Este é o segundo livro do poeta mineiro que leio. O primeiro foi “Rosa do Povo” (1945). “Claro Enigma” é uma obra completamente distinta de “A Rosa do Povo”, escrita no calor da Segunda Guerra. Em “Claro Enigma”, encontramos um Drummond dialogando com a inquietação, com o passado, com o amor; com a incerteza, com ansiedades. Em vários momentos, encontramos uma poesia negativa, ambivalente, que olha para trás e lamenta o que foi perdido. Mas não se trata de simples lamento. A perda se anuncia como fato inquietante, como um passado irremediável.

O livro é divido em “Seções”. Cada pedaço desses, ocupa-se de um tema. Na seção “Selo de Minas”, encontrei um dos poemas drummondianos mais bonitos e expressivos que já li. Trata-se de “Evocação Mariana”. O poema é repleto de possibilidades interpretativas a começar pelo título, que remete a uma ambiguidade: Maria, mãe de Jesus ou a cidade de Mariana? O título é denso em sua simplicidade. Talvez, do ponto de vista das descrições, seja um dos poemas mais delicados já escritos na poesia brasileira.

Por “Selo de Minas”, há a noção de marca identitária, aquilo que confere originalidade, um distintivo que afirma e confirma algo; o registro de uma natureza. Dessa maneira, pode-se dizer que o poeta queria atestar um emblema ao universo mineiro. Afinal, o que confere originalidade a Minas? Quais são os sinais, as marcas definidoras daquele grande estado? Ser mineiro é possuir certa demanda existencial? Seria ser gouche?

Após esse trabalho de inserção do poema em uma categoria ontológica, o eu lírico descreve o local, o espaço da evocação. Trata-se de uma igreja “grande e pobre”. A conjunção “e” possui uma intencionalidade adversativa. A igreja é grande, mas não é rica; a expectativa de magnificência é frustrada pela pobreza material. Em seguida, apresentam-se os altares com economia de palavras – “humildes”. O eu lírico utiliza uma elipse para criar um efeito, como se convidasse o leitor a imaginar o espaço tacanho. No ato de omitir, existe uma insinuação. Até mesmo as flores do altar merecem uma atenção, pois não são nobres; foram extraídas da horta. Os homens e mulheres que estavam ali eram modestos camponeses. A fé é humilde, doméstica; possui o selo do comunitário. 

“Na sombra esculpida” não há é possível distinguir quem são os fiéis e quais as inertes imagens. Trata-se uma assembleia de seres indivisíveis. A pouca luminosidade mistura os elementos. Imagens – de gesso ou madeira - com as fisionomias beatíficas são acompanhadas por corpos de carne e o osso.

“O padre” não é um Josué a conduzir o povo pelo deserto; mostra-se cansado, murmurava palavras que subiam e se misturavam à “onda”, “minúscula e forte” “de incenso”. A reza contida, murmurada, contada do sacerdote, certamente encorajava os fiéis; criava uma irmandade. Todavia, a força da evocação não nasce de sua prece, de sua condição de mediador entre Deus e os homens. A força da experiência não nasce do sacerdote, mas da experiência de fé dos irmãos. 

Uma nuvem subia, perdia-se. “Não”, reitera o eu lírico. Daquela experiência de devoção nada “se perdia”. Tudo era contado. Uma matemática dos céus levava em conta os gestos verdadeiros e medidos da congregação. Uma “música deliciosa” ganhava ar; torna-se uma antessala do paraíso. Era daquelas músicas “que esperas ouvir na hora da morte, ou depois da morte, nas campinas do ar”.

A última estrofe é sublime. Nela, encontramos os elementos simbólicos da espiritualidade. Um movimento ascensional acontece. Drummond cria uma imagem altamente barroca. Percebemos a evocação que ele busca recriar, aludindo à paisagem das cidades históricas de Minas Gerais. Da humildade emanada dos homens simples, algo tão caro à dimensão cristã, alcança-se o idílio espiritual. Aquele espaço descola-se de sua aparente singeleza, de sua melancolia, de seu cansaço e se torna em uma “nave libertada”. O “canto matinal” derramava-se, no início da manhã ou ao final do dia?, sobre “a treva do vale”. Não existe referência ao tempo, pois a experiência espiritual é da ordem do atemporal. É capaz de nos isentar do tempo - "como do tempo atroz imunes nossas almas". 

Observa-se que os elementos singelos – e até mesmo cinzentos, pouco iluminados da primeira estrofe – do plano terrestre, misturam-se ao diáfano do plano espiritual. Há uma integração dos dois mundos. Um aspecto místico se irmana àquelas personagens daquele local “pobre”. O divino passeia pela terra nas preces murmuradas, no incenso e na música deliciosa produzida por aquele ajuntamento.

O poema faz ecoar a simplicidade das bem-aventuranças encontradas no evangelho segundo Mateus, pois, em linguagem evangélica, "bem-aventurados os pobres de espírito, porque deles é o Reino dos Céus"; e "bem-aventurados os mansos, porque herdarão a terra" (versão da Bíblia de Jerusalém - Mt. 5.3-4). É dessa espiritualidade sem pompa, que se volta para dentro que torna a mensagem do poema tão bonita e delicada. 

 


quarta-feira, janeiro 01, 2020

"Ética e moral - a busca dos fundamentos", de Leonardo Boff

"Tudo no mundo é dialético...", p. 94

Este foi o último livro que li no ano de 2019, portanto, o último da década. A leitura iniciou na metade do ano. Foi concluída apenas no último dia do ano. Resultado do muito trabalho e das poucas horas de que dispus para ler e contemplar as ideias, desvelando as intenções dos pensamentos. O que me levou ao livro foi uma intrigante vontade de entender o conceito filosófico de ética e moral tão comuns em debates; palavras repletas de menções, mas desconhecidas por boa parte daqueles que as proferem. 

O título do livro sugere isso - Ética e moral: a busca dos fundamentos, mas, Leonardo Boff não se ocupa em abordar filosoficamente esses dois conceitos. As referências são bem superficiais. Ele até busca fazê-lo. Há uma singela explicação etimológica para as duas palavras. Segundo Boff, as duas palavras gregas - ethos e daimon - são importantes para compreender o conceito de ética e moral. A primeira significa "morada humana"; já a segunda significa "anjo bom, gênio protetor". O conceito de "morada" extrapola o sentido do físico. É algo existencial. É o reconhecimento do bem-estar e possui uma relação globalizante consigo e com o cosmos. Já o "anjo protetor" tem a ver com a boa consciência, "com o sentimento do conveniente e do justo". Sendo assim, essa boa consciência nos permitirá morar bem na casa em que habitamos - seja o sujeito individual, a cidade, o país, o Planeta, o Universo em que habitamos. Tudo que se faça permitirá, munido desse "boa consciência", será ético e bom. Fora disso, tudo será antiético e mau. 

Ética é, então, o ramo da filosofia preocupado em orientar os homens a estabelecer os princípios e valores que tornam a vida possível em sociedade.  Já a moral é parte da vida concreta. Uma pessoa é moral quando age de acordo com os princípios e valores consagrados. Portanto, ela pode ser moral sem ser ética.

É a partir desse pensamento que Boff faz a sua reflexão, estabelecendo a relação do sujeito consigo e com o outro para a existência de uma ética que conduza o homem a uma mudança. Segundo ele, o modelo construído pela sociedade capitalista não tem permitido a formação dessa boa consciência, conduzindo o homem do nosso tempo a uma ignorância, que se não for observada, será fatal a manuntenção de todos os seres no Planeta. Para reverter isso, é preciso que haja (1) um ethos que procura; (2) um ethos que ama, pois "quando o outro irrompe à minha frente, nasce a ética"; (3) um ethos que cuida, porquanto o cuidado é anterior, "é o a priori ontológico", aquilo que deve existir antes para que a vida e as coisas se tornem possíveis; (4) o ethos que se responsabiliza, porque "responsabilidade surge quando nos damos conta das consequências de nossos atos sobre os outros e a natureza"; (5) o ethos que se solidariza, "pois somos todos interdependentes uns dos outros"; (6) o ethos que se compadece, porquanto necessitamos incorporar a compaixão; (7) o ethos que integra, pois procura ser sensível às demandas do mundo, às suas necessidades. 

Como em outras leituras que fiz de Leonardo Boff, há um forte apelo para o despertar de uma nova consciência, que fuja do tecnicismo da modernidade, com suas respostas prontas, com as suas demandas desumanizantes. Boff está preocupado com a agenda ética de Francisco de Assis, de Jesus Cristo, de Gandhi, de Dalai Lama; com ética dos povos originais e suas tradições ancestrais. A espiritualidade é um elemento importante para a existência do daimon. Sem ela, não se pode desenvolver a boa consciência, a sensibilidade para as boas práticas. 

É preciso desconstruir a cultura da satanização do outro, pois ela só produz tragédias - guerras, preconceitos, xenofobias, misoginias, racismos. "O caminho da paz é a própria paz". Essas preocupações devem ser o debate atual, caso queiramos que nossa espécie tenha sobrevida neste planeta. A cultura da violência contra tudo e contra todos, por meio da agressão ao meio ambiente; a imposição da ideologia do capitalismo, o neoliberalismo, devem ser detidos. E isso só é possível colocando um outro fundamento, numa prática (moral) condizente com valores verdadeiros e princípios humanísticos (ética). 


sábado, setembro 13, 2014

Jesus virou menino e mora em uma aldeia - por Alberto Caeiro

O poema abaixo é de uma beleza sublime, capaz de provocar epifanias variadas. Ontem estava a lê-lo e senti o meu coração bater mais forte. Penso que Alberto Caeiro (um dos heterônimos de Fernando Pessoa) teve uma revelação em sentido bíblico para escrever o poema. Atualmente, esta é a espiritualidade e a oração requerida e proferida por mim; é o desejo mais forte que existe em minha alma. Execro os exegetas apocalípticos de lábios espumantes, dispostos a observarem as regras estapafúrdias da dogmática teológica; fujo dos fundamentalismos enviesantes, pobres e estéreis, que criminalizam a humanidade potencializada em cada um de nós. A religiosidade é anti-humana; é estreita e radical em sua violência monocromática. O menino Cristo desceu do céu, pois lá não tinha poesia; não havia sensações; não havia flores, o vento, os regatos coleantes que driblam as pedras a cada nova marcha pela ladeira abaixo; queria rir e brincar com os outros meninos. Queria chapinhar as poças d'águas; brincar de roda; cantar canções e olhar o vermelho do por do sol. Poema lindo! Preciso lê-lo todas as semanas para não esquecer o quanto é importante se tornar menino e brincar. Até mesmo o menino deus desceu da eternidade para experimentar as emoções certas que somente nós podemos experimentar. Não é um Jesus guerreiro, arrogante, capaz de condenar ao inferno; ou o Jesus sofredor, causador de penas. Não.  Não o Jesus do símbolo nefasto, mas que é capaz de morar em cada um de nós e adormecer em nosso colo e ninar os nossos sonhos.

Ler o poema - AQUI

Abaixo, Antonio Abujamra declama o poema:

domingo, abril 27, 2014

“A beleza salvará o mundo”: Dostoiewski nos ensina como - de Leonardo Boff

Belo texto de Leonardo Boff - mais um!

Dos gregos aprendemos e isso atravessou  os séculos, que todo ser, por diferente que seja, possui três características transcendentais (estão sempre presentes pouco importa a situação, o lugar e o tempo): ele é o unum, o verum e o bonum, quer dizer ele goza de uma unidade interna que o mantem na existência, ele é verdadeiro, porque se mostra assim como de fato é e é bom porque desempenha bem o seu lugar junto aos demais ajundando-os a existirem e coexistirem.

Coube aos mestres franciscanos medievais, como Alexandre de Hales e especialmente São Boaventura que, prolongando uma tradição vinda de Dionísio Aeropagita e de Santo Agostinho, acrescentarem ao ser mais uma característica transcendental: o pulchrum vale dizer, o belo. Baseados, seguramente na experiência pessoal de São Francisco que era um poeta e um esteta de excepcional qualidade, que “no belo das criaturas via o Belíssimo,” enriqueceram nossa compreensão do ser com a dimensão da beleza. Todos os seres, mesmo aqueles que nos parecem hediondos, se os olharmos com afeição, nos detalhes e no todo, apresentam, cada um a seu modo, uma beleza singular na maneira como neles tudo vem articulado com um equilíbrio e harmonia surpreendentes.

Um dos grandes apreciadores da beleza foi Fiodor Dostoiewski. A beleza era tão central em sua vida, conta-nos Anselm Grün, monge beneditino e grande espiritualista, em seu último livro “Beleza: uma nova espiritualidade da alegria de viver”(Vier Türme Verlag 2014) que o grande romancista russo desolocava-se pelo menos uma vez ao ano até Dresde, na Alemanha, só para contemplar na capela a formosa Madona Sixtina de Rafael. Permanecia longo tempo em contemplação diante daquela esplêndida figura. Tal fato é surpreendente, pois seus romances penetraram nas zonas mais obscuras e até perversas da alma humana. Mas o que o movia, na verdade, era a busca da beleza pois nos legou a famosa frase:”A beleza salvará o mundo”dita no livro O Idiota.

No romance Os irmãos Karamazov aprofunda a questão. Um ateu Ipolit pergunta ao príncipe Mynski como “a beleza salvaria o mundo”? O príncipe nada diz mas vai junto a um jovem de 18 anos que agonizava. Aí fica cheio de compaixão e amor até ele morrer. Com isso nos quis dizer: beleza é o que nos leva ao amor condividido com a dor; o mundo será salvo hoje e sempre enquanto houver essa atitude.

Para Dostoiewski a contemplação da Madona de Rafael era a sua terapia pessoal, pois sem ela desesperaria dos homens e de si mesmo, diante de tantos problemas que vivia. Em seus escritos descreveu pessoas más e destrutivas e outras que mergulhavam nos abismos do desespero. Mas seu olhar, que rimava amor com dor compartida, conseguia ver beleza na alma dos mais perversos personagens. Para ele, o contrário do belo não era o feio mas o espírito utilitarista e o uso dos outros, roubando-lhe assim a dignidade.

“Seguramente não podemos viver sem pão,mas também é impossível existir sem beleza”repetia. Beleza é mais que estética; possui uma dimensão ética e religiosa. Ele via em Jesus um semeador de beleza. “Ele foi um exemplo de beleza e a implantou na alma das pessoas para que através da beleza todos se fizessem irmãos entre si”. Ele não se refere ao amor ao próximo; a contrário: é a beleza que suscita o amor e nos faz ver no outro um próximo a amar.

A nossa cultura dominada pelo marketing vê a beleza como uma construção do corpo e não da totalidade da pessoa. Então surgem métodos e mais métodos de plásticas e botoxs para tornarem as pessoas mais “belas”. Por ser construída, é uma beleza sem alma. E se repararmos bem, nesta estética fabricada, emergem pessoas com uma beleza fria e com uma aura de artificialidade, incapaz de irradiar. Daí irrompe a vaidade, não o amor, pois a beleza tem a ver com amor e a comunicação. Dostoiewski observa, nos Irmãos Karamazov, que um rosto é belo quando você percebe que nele litigam Deus e o Diabo entorno do bem e do mal. Quando percebe que o bem venceu, irrompe a beleza expressiva, suave, natural e irradiante. Qual beleza é maior? A do rosto frio de uma top-model ou a do rosto enrugado e cheio de irradiação da Irmã Dulce de Salvador, Bahia, ou a da Madre Tereza de Calcutá? A beleza, característica transcendental, se revela como irradiação do ser. Nas duas Irmãs, a irradiação é manifesta, na top-model existe mas é esmaecida.

O Papa Francisco conferiu especial importância na transmissão da fé cristã à via pulchritudinis (a via da beleza). Não basta que a mensagem seja boa e justa. Ela tem que ser bela, pois só assim chega ao coração das pessoas e suscita o amor que atrái ( Exortação A alegria do Evangelho, n 167). A Igreja não visa o proselitismo mas a atração que vem do amor e da beleza da mensagem que causa fascínio e produz esplendor.

A beleza é um valor em si mesmo. É gratuita e sem interesse. É como a flor que floresce por florescer pouco importa se a olham ou não, como diz o místico Angelus Silesius. Quem não se deixa fascinar por uma flor que sorri gratuitamente ao universo? Assim devemos viver a beleza no meio de um mundo de interesses, trocas e mercadorias. Então ela realiza sua origem sânscrita Bet-El-Za que quer dizer:”o lugar onde Deus brilha”. Brilha por tudo e nos faz também brilhar pelo belo que se irradia de nós.

Leonardo Boff escreveu A força da ternura, Editora Mar de Idéias, Rio 2011.


segunda-feira, julho 01, 2013

Sobre deuses e rezas - por Rubem Alves

Li a crônica abaixo há pouco e me pus a pensar sobre ela. Resolvi, então, compartilhá-la. Está em um dos livros do Rubem Alves cuja leitura estou terminando de realizar - Teologia do Cotidiano - meditações sobre o momento e a eternidade). Como nos bons textos desse mineiro sensível e poeta, a provocação emulada por penas filosóficas suaves, sempre nos cutuca, colocando-nos
numa posição reflexiva.


Sobre deuses e rezas


Perdida no meio dos viajantes que enchiam o aeroporto, ela era uma figura destoante. A roupa largada, os passos pesados, uma sacola de plástico pendurada numa das mãos – esses sinais diziam que ela já não mais ligava para a sua condição de mulher: não se importava em ser bonita. Pensei mesmo que se tratava de uma freira. Seu comportamento era curioso: dirigia-se às pessoas, falava por alguns momentos, e como não lhe prestassem atenção procurava outras com quem falar. Quando vi que ela tinha uma Bíblia na mão compreendi tudo: ela se imaginava possuidora de conhecimentos sobre Deus que os outros não possuíam e tratava de salvar a alma deles.

Meu caminho me obrigou a passar perto dela – e quando olhei para o seu rosto de perto levei um susto: eu o reconheci de outros tempos, quando ela era uma moça bonita que ria e brincava e para quem olhávamos com olhares de cobiça.

Não resisti e chamei alto o seu nome. Ela se espantou, olhou-me com um olhar interrogativo, não me reconheceu. Com razão. Os muitos anos deixam suas marcas no rosto.

– Eu sou o Rubem!

Seu rosto se iluminou pela lembrança, sorriu, e pensei que poderíamos nos assentar e conversar sobre as nossas vidas. Mas sua preocupação com a minha alma não permitia essas perdas de tempo com conversa fiada. E ela tratou de verificar se o meu passaporte para a eternidade estava em ordem:

– Você continua firme na fé!?

– Mas de jeito nenhum. Então você deixou de ler a Bíblia? Pois lá está dito que Deus é espírito, vento impetuoso que sopra em todo lugar, o mesmo vento que ele soprou dentro da gente para que respirássemos, fôssemos leves e pudéssemos voar. Quem está no vento não pode estar firme. Firmes são as pedras, as tartarugas, as âncoras. Você já viu um papagaio firme? Papagaio firme é papagaio no chão, não voa. Pois eu estou mais é como urubu, lá nas alturas, flutuando ao sabor do imprevisível Vento Sagrado, sem firmeza alguma, rodando em largos círculos.

Ela ficou perdida, acho que nunca havia ouvido resposta tão estranha, mudou de tática e tentou pegar a minha alma do outro lado, desatou a falar de Deus, informou-me que ele é maravilhoso etc., etc., etc., como se estivesse no púlpito em celebração de domingo.

Refuguei e disse:

– Acho que quem não está firme em Deus é você. Olha, passei a noite toda respirando, estou respirando desde que acordei, e juro que agora é a primeira vez que penso no ar. Não pensei nem falei no ar porque somos bons amigos. Ele entra e sai do meu corpo quando quer, sem pedir licença. Mas a história seria outra se eu estivesse com asma, os brônquios apertados, o ar sem jeito de entrar, ou, como naquele anúncio antigo do xarope Bromil, o coitado do homem sufocado por uma mordaça, gritando pelo ar que lhe faltava. Por via das dúvidas até andaria com uma garrafa de oxigênio na bagagem, para qualquer emergência.

E continuei:

– Pois Deus é como o ar. Quando a gente está em boas relações com ele não é preciso falar. Mas quando a gente está atacado de asma, então é preciso ficar gritando pelo nome dele. Do jeito como o asmático invoca o ar. Quem fala com Deus o tempo todo é asmático espiritual. E é por isso que andam sempre com Deus engarrafado na Bíblia e outros livros e coisas de função parecida. Só que o vento não pode ser engarrafado...

Aí ela viu que minha alma estava perdida mesmo e, como consolo, fez um sinal de adeus e disse que iria orar muito por mim. Aí eu protestei, implorei que não o fizesse. Disse-lhe que eu tinha medo de que Deus ficasse ofendido. Pois há rezas e orações que são ofensas. É óbvio: se vou lá, bater às portas de Deus, pedindo que ele tenha dó de alguém, eu lhe estou imputando duas imperfeições que, se fosse comigo, me deixariam muito bravo.

Primeiro, estou dizendo que não acredito no amor dele, deve ser meio fraquinho, sem iniciativa, preguiçoso, à espera do meu cutucão. Se eu não der a minha cutucada, Deus não se mexe. E isso não é coisa de ofender Deus? Segundo, estou sugerindo que Ele deve andar meio esquecido, desmemoriado, necessitado de um secretário que lhe lembre suas obrigações. E trato de, diariamente, apresentar-lhe a sua agenda de trabalho. Mas está lá nos salmos e nos evangelhos que Deus sabe tudo antes que a gente fale qualquer coisa. Ora, se a gente fica no falatório é porque não acredita nisso. Não acredito em oração em que a gente fala e Deus escuta. Acredito mesmo é na oração em que a gente fica quieto para ouvir a voz que se faz ouvir no meio do silêncio.

Voltei à minha amiga:

– Veja você. Tive um filho que estudava longe. Eu gostava dele. Ele gostava de mim. De vez em quando a gente se falava ao telefone. E o dinheiro da mesada ia sempre, com telefonema ou sem telefonema. Agora imagine: de repente começo a perceber telefonemas dele três vezes por dia e mensagens por sedex, cartas e telegramas louvando o meu amor, agradecendo a minha generosidade... Você acha que isso me faria feliz? De jeito nenhum. Concluiria que o meu pobre filho havia endoidecido e estava acometido de um terrível medo de que eu o abandonasse. Pois é assim mesmo com Deus: quem fica o dia inteiro atrás dele, com falatório, é porque desconfia dele. Mas o pior é o gosto estético que assim se imputa a Deus. Uma pessoa que gosta de passar o dia inteiro ouvindo os outros repetindo as mesmas coisas, as mesmas palavras, as mesmas rezas, pela eternidade afora, não deve ser muito boa da cabeça. Para mim isso é o inferno. Quem reza demais acha que Deus não funciona bem da cabeça. Acho que ele ficaria mais feliz se, em vez do meu falatório, eu lhe oferecesse uma sonata de Mozart ou um poema da Adélia...

Mas aí o alto-falante chamou o meu vôo, tive de me despedir, e imagino que ela ficou aflita, temerosa de que Deus derrubasse meu avião com um raio. Mal sabia ela que Deus nem mesmo havia ouvido a nossa conversa pois, cansado das doidices dos adultos, ele foge sempre que vê dois deles conversando e se esconde deles, disfarçado de criança.

Extraído do livro Teologia do Cotidiano - meditações sobre o momento e a eternidade. Editora Olho D'Água.