sexta-feira, maio 25, 2018
Uma resposta
quinta-feira, novembro 14, 2013
Direito ao delírio...
quarta-feira, dezembro 26, 2012
Devaneios ou como se aplica um golpe na consciência II
quinta-feira, outubro 25, 2012
Apenas uma provocação
Um pensamento provocativo de Rubem Alves, extraído do livro "Entre a ciência e a sapiência".
terça-feira, janeiro 11, 2011
Sobre reality shows
Escrito há quase três anos, numa ocasião como esta. No dia 10 de janeiro de 2008, eu cheguei cansado em casa à noite. Deitei no sofá. O desejo veemente de descansar após um dia estafante de aborrecimentos, de profunda insalubridade. Acordara cedo aquele dia como de praxe. Não sou muito dado a assistir programas de televisão. Mas naquele dia estava sozinho em casa. Peguei o controle e pensei comigo. “Vamos ver o que está passando nessa caixa maluca”. Busquei ser razoável, consciencioso. Tenho pensamentos negativos sobre a televisão. Imagino aquelas pessoas que ficam expostas de 20 a 30 horas da semana diante das imagens. Julgo que isso é um exercício absurdo. Afirmo num acesso de deslocamento que a televisão brasileira precisa passar por um processo de reforma moral e educativa. Os programas em sua maioria são de péssima qualidade e de uma pobreza intelectual bastante indesejável.
Naquela noite eu busquei ser solidário, mas a minha aquiescência não sobreviveu às investidas dos fatos. Deti-me no Big Brother Brasil. Simulei uma experiência. Limitei-me. Arquitetei mentalmente que ficaria exposto àquelas imagens por uns 20 minutos. Todavia não suportei mais que dez. Vi um Pedro Bial tentando ser simpático. Esforçando-se para ser agradável. Expunha sua indigência intelectual. Justificava-se. No dia anterior insistira numa opinião equivocada. Errara sobre o similar de Dionísio na mitologia romana – Baco. Aproveitava o momento para fazer conexões despropositadas e vexatórias com os participantes do programa. A uma chamava de musa a outro de um dos personagens da mitologia greco-romana. Estava nítido que o sujeito desgraçadamente não levava jeito para ser animador de circo. Moços de corpanzil atlético; de jeito e maneiras saudáveis; com aparente autonomia intelectual. Por sua vez, moças de corpos sensuais, de seios fartos. Ou seja, em minha análise vejo que o que está em jogo é a corporeidade atlética dos participantes, a saúde física, pois o que se busca é o caos, o nascimento da mediocridade que se insinua por meio das imagens recepcionadas pelos telespectadores.
Vi às imagens de uma festa que acontecera um dia antes. Uma espécie de evento “com objetivo para potencial de orgia”. As investidas dos moços que, seminus, insinuavam os corpos na tentativa de requestar as moças participantes para um “programa” dês-compromissado. O álcool destrancava os sentimentos mais escondidos. Lançava fora os pudores. No fundo o que se buscava era justamente que essas tentativas se tornassem substanciais, pois há milhões de brasileiros assistindo àquelas imagens. O público está sedento por luxúria, leviandades e voyeurismo. O desejo dos telespectadores é que “aquele mundo” – o da dita casa – se torne no pior dos mundos. Isso alimentará com lixo as suas almas. A falência da moral é desejada; a penúria espiritual é o que o público deseja em sua veleidade atomizada.
George Orwell escreveu o livro 1984. Neste livro, o escritor insinua um controle do Estado através da televisão, instalada em cada residência, ligada a um maquinismo central controlador. Dessa base coordenadora seria possível controlar a vida dos cidadãos. O Estado “assistiria às ações dos seus súditos”. Esse ente controlador é chamado de “Grande Irmão” (Big Brother) por Orwell. Já no programa da Rede Globo há uma inversão. O "estado" é representado pelos telespectadores que espionam as ações dos participantes confinados naquela jaula cercada de câmeras. Todavia, no dizer de Muniz Sodré em seu excelente ensaio O Monopólio da Fala – Função e Linguagem da Televisão no Brasil, “a eficiência da dominação, portanto, consiste em ocultar, do melhor modo possível, o controle totalitário dos pensamentos, dos gestos, da palavra, enfim do desejo”[1]. Assim, com relação ao livro 1984 há paradoxalmente uma inversão, pois enquanto este mostra um estado de controle, no programa em questão as pessoas pensam que assistem, mas na verdade estão presas pelo feitiço do controle. Por intermédio do poder com potencial lúbrico e de simulacro da realidade que a imagem possui. De alguma forma o sistema controla os desejos individuais do consumidor final, aquele que ab-sorve as imagens. O telespectador representa um mundo de desejos e aspirações que precisa ser preenchido pelo poder controlador de um centro que estabelece o que é e não é em termos de riqueza cultural e estética. Ou seja, o telespectador é um viajante passivo, pois apenas recepciona sem interagir com as imagens. Trata-se de um pacote pronto que é lançado a ele. Cabe aceitar ou reprovar.
O poder encatátório das imagens penetra no mais íntimo da privacidade do indivíduo. Aonde ninguém chega a imagem chega, pois a individualidade supõe “separação”, “ruptura” com o outro. A imagem pré-estabelecida por uma equipe técnica com as ânsias do mercado, promove um desfecho para a trama, que necessita ser a pior possível, pois os consumidores do produto precisam de intrigas triviais e relações banalizadas. Desse desenlace brota o lucro e o controle. O controle ideológico não é estereotipado. Não aparece aprioristicamente. Os verdadeiros ladrões não roubam fazendo escarcéu. Eles buscam o silêncio discreto – o mais que possam. Da mesma forma, o controle ideológico da mass-media busca eliminar com ‘uma aparência’(e aí está o nó-górdio da pós-modernidade) a questão de sua verdadeira finalidade, insinuando como ‘natural’ a necessidade geral de uma informação centralizada e abstrata[2].
Abaixo segue um texto escrito por Frei Betto. Em 2002 ele escreveu estas palavras publicada no sítio ADITAL. O texto é poético em sua essência e denuncia o abandono daquele que se devota diante do programa.
Reality Show
Frei Betto
Sim, quero ver a tua vida em detalhes, minuto a minuto, e ouvir as palavras que jorram de tua boca, rir o teu riso e enraivecer-me com o teu rancor, assistir à tua paquera, ao teu namoro, ao teu gesto de carinho, à tua transa, espelhando tua beleza em minha indigência.
Quero deixar de lado amizades, trabalhos, livros e lazer e, de olhos pregados em tua magia, absorver a tua arte de movimentar-se no labirinto da quimera, livre de dores e afazeres, mergulhado na fama e na fortuna.
Venerarei o teu ócio na vitrine, exibindo-te sem pudor a milhões de olhos, despido por infinitas imaginações, liberto das grades odiosas dessa existência de penúria anônima, escrava da rotina atroz de quem jamais aprendeu a voar, nem foi aquinhoado pela sorte. Abrirei em meu monitor a porta da tua casa mágica e, sob o peso de minhas carências, ingressarei virtualmente em tua liberdade, no teu gozo, no teu charme, no teu riso, na tua sensualidade, como quem toca com os olhos os veneráveis ícones que nos fazem transcender da mediocridade cotidiana.
Minha fidelidade ao teu exibicionismo será a chancela que sacramentará a tua vida como real e, do lado de cá, buscarei a alforria de minha indigência em tuas loucuras, em teus jogos e em tuas danças. Quero decifrar em ti a minha própria intimidade, rasgar a minha alma em tuas mãos e deixar a minha mente impregnar-se dessa ilusão que faz de mim teu pequeno irmão.
Recobrirei a minha realidade com a tua fantasia e farei de teu espetáculo o brilho de meus olhos vazados, nessa permuta hipnótica de quem busca a complacência com seus próprios limites para tentar encobrir a mesquinhez que me corrói. Ficarei atento ao teu banho, ao teu sexo, à tua ira e às tuas refeições, fiel à exposição perene deste teu ser desprovido de preocupações e conteúdos, entregue a esta liberdade que faz de ti o que não sou, e me permite projetar em teu vigor as minhas fraquezas e em teu esplendor o sabor amargo de meu anonimato.
Verei em tua janela, que se abre para a minha casa, a subversão de todos os valores, como se nos cômodos que te abrigam findassem todos os princípios, escorrendo pelo ralo tudo aquilo que num lar soava como sinônimo de família. Ampliados pela eletrônica, meus olhos contemplarão as tuas intimidades mais ousadas. Sentirei os teus odores e beberei o teu suor.
Esticarei o meu olhar até os limites proibitivos do escárnio e, quem sabe, verei o teu rancor extirpar toda a inveja que jaz em meu peito e a tua voracidade explodir em taras que haverão de suprir os meus desejos mais ignóbeis e saciar as minhas pulsões mais abjetas. Deste lado da tela, sentirei os teus sentimentos e comungarei as tuas emoções, vendo-te virar pelo avesso nesse zoológico de luxo, exposto à multidão como carne no açougue, a engordar no balcão do voyeurismo a gorda soma dos teus patrocinadores.
Em ti livrar-me-ei de todo ideal que não seja fazer da vida um jogo de entretenimentos, a sedução epidérmica como sucedâneo de quem não atinge as profundezas do amor, vendo-te representar a ti mesmo sob os aplausos invejosos de meu olhar sequioso, preso ao teu desempenho huit-clos.
Aprisionarei a tua vida em meu olhar, tornar-me-ei teu carcereiro eletrônico, decidindo o teu presente e o teu futuro, absolvendo-te ou condenando-te, juiz supremo que se ignora refém do próprio equívoco.
Inebriado com as tuas loucuras, te elegerei objeto supremo de minha admiração, deixando-me devorar pelo teu sucesso, do qual farei tema de todas as minhas conversas.
À espera de que os corvos venham devorar o meu coração, e agora que a nossa história foi para os quintos dos infernos, quero ser consumido e consumado por ti, arrancando de meus olhos todas as escamas, até que eu possa ver também ao vivo, na busca desenfreada de audiência, o marido espancar a mulher; o filho estuprar a mãe; o pai assassinar a filha; enfim, o horror, pois sei que o show não pode parar e que o seu limite é não ter limites.
31 de janeiro de 2002
Fonte: ADITAL
[1] SODRÉ, Muniz, O monopólio da Fala – função e linguagem da televisão no Brasil, Editora Vozes, Petrópolis – RJ, 1978, p. 45.
[2] Idem, p. 49
Por Carlos Antônio M. Albuquerque
sábado, julho 17, 2010
A UDN vestida de azul e amarelo
Há 52 anos, um homem cunhou uma frase belíssima sobre um então candidato a presidente. “Juscelino não pode ser candidato, se candidato não pode ser eleito, se eleito não pode ser empossado, se empossado não pode governar.” O nome do sujeito era Carlos Lacerda. Homem absurdamente brilhante — certamente mais brilhante que a grande maioria da oposição de hoje –, mas também um dos maiores cancros que a sociedade brasileira já produziu. Felizmente, apesar dos apelos de Lacerda, Juscelino foi candidato, eleito, empossado e realizou um governo memorável.Enquanto a oposição bate há tempos e de maneira burra na tecla do baixo crescimento econômico do Brasil, o que o povo entende é outra coisa: que as classes mais baixas, nesses quatro anos, melhoraram e muito de vida. O que ele percebeu — e por isso é chamado de ignorante — é que há uma diferença ideológica clara entre o governo Lula e a nova UDN, diferença traduzida no crescimento econômico para quem mais precisa dele. É por isso que hoje, ao contrário do que acontecia até o início de 2005, a oposição abandonou o discurso de que Lula voltou as costas para os pobres. Não que tivesse algum pudor em apelar para isso: mas a dissonância cognitiva é tão grande que até eles, nesta reta de final de campanha tentando tirar o último caldo de virtualmente todos os escândalos acontecidos no país nos últimos tempos, sabem que não funciona mais.
A UDN que se alcunha PSDB, hoje, é uma vergonha para o Brasil.
Originalmente publicado em 23 de outubro de 2006
Extraído DAQUI
terça-feira, maio 04, 2010
Fragmentos de uma referência nietzscheniana
“O mundo é caos. A lógica do mundo está em nós, não no mundo. A forma tem aparência de algo durável, mas a forma é também um acomodamento que inventamos de acordo com a economia de nosso psiquismo. Há uma ilusão em acreditarmos na intransitoriedade da forma ao observarmos a continuidade através das aparências constitucionais. Há pequenas modificações que passam muitas vezes despercebidas. Nós somos constrangidos a formar o conceito de espécie , de forma, de fins e de leis, buscando sempre as identidades pela lei psicológica do menor esforço, como pelo desejo de acomodar o mundo a uma forma adaptável à nossa existência – o mundo que nos seja mais compreensível, em que não sejamos contradição. Este desejo é que explica a nossa ânsia de simplificação, porque temos o instinto de fugir ou de combater o desequilíbrio. Não vamos afirmar daí que o desequilíbrio seja a “causa” das nossas insatisfações, ou pelo menos a “causa” única, e que o desejo de equilíbrio seja o fim humano, embora seja um fim. A luta contra o desequilíbrio, em busca do equilíbrio, quando este é alcançado, gera novo desequilíbrio.
Esse é o aspecto dialético. A razão é uma síntese da atividade dos sentidos, é um acomodamento. (...) Ela e uma simplificação, uma sistematização, uma acentuação, uma interpretação, limitada à perspectiva do momento.
(...)
Possuímos, não há negar, o desejo da verdade. Esse desejo de estabilização é a ânsia de equilíbrio que dá um rumo aos impulsos na luta contra a instabilidade. É ele quem provoca o ímpeto de tornar o mundo verdadeiro, pela supressão do “falso”. A “verdade” não é, portanto, algo que exista, mas algo incriado que desejamos obter, apreender, tomar. É uma direção, um destino de nosso desejo de potencializarão, de realização de nossa vontade[1]”
Data: terça-feira, 4 de maio de 2010, 19:10:37.
[1] NIETZSCHE, Friedrich. Vontade de Potência – parte I. São Paulo: Editora Escala. 2003. pp.30-32
quarta-feira, abril 21, 2010
Brasília 50 anos
Nestas duas últimas semanas, muitas foram as reportagens mostradas pela televisão sobre os 50 anos de Brasília. Em todas essas reportagens, destacou-se um forte senso civista, sacralizante. As reportagens mostravam a Brasília dos grandes monumentos; a cidade que parece ter surgido como um evento ex nihilo; a cidade que se destaca pelas suas largas avenidas; a cidade de construções com curvas sinuosas, sensuais; a cidade que se destaca pelo verde que se alastra nas quadras, criando um misto de prédios arquitetados entre as alamedas; de árvores frutíferas – jaqueiras, mangueiras, amoreiras, abacateiros e etc. A Brasília do poder – da Esplanada dos Ministérios. Da Praça dos Três Poderes. A Brasília imponente, vestida pela glória. Ou seja, pintava-se a Brasília dos cartões postais.
E, de fato, Brasília é uma cidade sui generis. Sua estrutura física diferencia-se das demais cidades brasileiras. Eu, por exemplo, quando vou à Goiânia, cidade situada a pouco mais de 200 quilômetros da Capital Federal, penso está em outro mundo. As ruas estreitas, a sensação encurralamento, de asfixia urbana é incomparável. O trânsito amalucado, tenso, de desrespeito e imprudência parece ser uma prática constante. A estrutura, o modelo arquitetônico de Brasília, não permite que se experiencie tais aspectos.
O que a televisão esqueceu de mostra
r foi a Brasília dos contrastes. Das invasões que grassam por todos os lados. Da esperteza dos especuladores de terra; a Brasília, sonho das grandes construtoras, que fazem “encarecer” o custo de vida, dificultando a existência do trabalhador de baixa renda. A Brasília dos caciques políticos. Dos coronéis que ainda praticam o voto de cabresto em pleno século XXI. Que se utilizam da máquina pública para se perpetuarem no poder às custas da ignorância do povo. A Brasília dos escândalos, da ineficiência. A Brasília de monumentos frios. A Brasília dos desencontros. A cidade que parece ter sido feita para “afugentar” qualquer possibilidade de arregimentação social.O simbolismo do que é Brasília acontece num entroncamento das Asas Sul e Norte – a Rodoviária. Por ali passam milhares de pessoas todos os dias, vindas das mais diversas regiões do Distrito Federal e das cidades do entorno, aqueles que formam um cinturão de necessidades ao redor do “sonho chamado Brasília”. É possível distinguir todo Brasil na Rodoviária do Plano Piloto. Afinal, ali estão sulistas, nordestinos, pessoas vindas da Região Sudeste entre outras cidades brasileiras. Todos “se encontram ali”, mas ninguém se conhece. Estão todos atomizados. É a Brasília fria e impessoal. Que foi feita para que os seus habitantes não se encontrem. O homogenismo
de Brasília e superficial e heterodoxo.O sonho chamado Brasília é patente, existente, para os moradores do Plano Piloto ou dos Lagos Sul e Norte; ou do Setor Sudoeste, Park Way ou qualquer condomínio, a medievalização da modernidade – a Brasília dos burgueses. Para os moradores das cidades-satélites, principalmente as surgidas da “grilagem” de terras ou da imposição de “alastramento” forçado, Brasília não está vestida de sonho, de fantasia. Não se constitui numa ilha, num paraíso em meio ao cerrado. A Brasília dessa gente está vestida por um realismo cruel, o realismo do dia a dia – a Brasília do proletariado. Do ônibus lotado. Do morar na periferia – cidades dormitórios, que revela a sua face na exclusão social – criminalidade alta, juventude sem perspectivas, do uso indiscriminado de drogas (álcool e crack), pelos jovens.
As melhores palavras que encontrei para definir o que é Brasília estão escritas no livro Tudo o que é sólido desmancha no ar[1], do escritor americano Marshall Berman:
Tive a oportunidade de vivenciar e mesmo participar de um choque muito int
enso entre modernismos quando estive no Brasil em agosto de 1987 para participar de um debate sobre o presente livro. Minha primeira escala foi Brasília, a capital criada por decreto, ex nihilo, pelo presidente Juscelino Kubitschek, no final dos anos de 1950 e início dos anos 1960, exatamente no centro geográfico do país. A cidade foi planejada e projetada por Lúcio Costa e Oscar Niemeyer, discípulos esquerdistas de Le Corbusie[2]r. Vista do ar, Brasília parecia dinâmica e fascinante de fato, a cidade foi feita de modo a assemelhar-se a um avião a jato tal como aquele do qual eu (e quase todas as outras pessoas que lá vão) a vemos pela primeira vez. Vista do nível do chão, porém, do lugar onde as pessoas moram e trabalham, é uma das cidades mais inóspitas do mundo. Não caberia aqui uma descrição detalhada do projeto da cidade, mas sensação geral que se tem – confirmada por todos os brasileiros que conheci – é a de enormes espaços vazios em que o indivíduo se sente perdido, tão sozinho quanto um homem na Lua. Há uma ausência deliberada de espaços públicos em que as pessoas possam se reunir para conversar, ou simplesmente olhar uma para outra e passar o tempo. A grade tradição do urbanismo latino, em que a vida urbana se organiza em torno de uma grande praça, é rejeitada de modo explícito.
O projeto de Brasília talvez fiz
esse sentido para uma ditadura militar, comandada por generais que quisesse manter a população a certa distância, isolada e controlada. Como capital de uma democracia, porém, é um escândalo. Para que o Brasil possa continuar democrático, declarei em debates públicos e aos meios de comunicação, ele precisa de espaços públicos democráticos aonde pessoas vindas dos quatro cantos do país possam convergir e reunir-se livremente, conversar uma com as outras e dirigir-se a seus governantes – porque numa democracia, afinal de contas – o governo pertence às pessoas – para discutir suas necessidades e desejos, e para manifestar sua vontade.
Depois de algum tempo, Niemeyer respondeu. Após uma série de comentários pouco lisonjeiros a meu respeito, ele disse algo mais interessante: Brasília simbolizava as aspirações e esperanças do povo brasileiro, e qualquer ataque ao projeto da cidade era um ataque ao próprio povo. Um dos seus seguidores acrescentou que era sinal de meu vazio interior ou pretender ser modernista e ao mesmo tempo tacar uma obra que figura entre as maiores encarnações do mod
ernismo.
Tudo isso me fez pensar. Num ponto Niemeyer estava certo: quando foi concebida e planejada, nos anos de 1950 e início dos anos de 1960, Brasília de fato representava as esperanças do povo brasileiro, em particular seu desejo de modernidade. O grande hiato entre essas esperanças e sua realização parece dar razão ao homem subterrâneo: para homens modernos, pode ser uma aventura criativa construir um palácio, e no entanto ter de morar nele pode virar um pesadelo.
Esse problema é particularmente crucial para um modernismo que impede ou hostiliza a mudança – melhor dizendo, um modernismo que busca uma única grande mudança, e depois não aceita mais nenhuma. Niemeyer e Costa, tal como Le Corbusier, acreditavam que o arquiteto moderno deve usar a tecnologia para concretizar certas formas ideais , clássicas, eternas. Se isso pudesse ser feito na escala de uma cidade inteira, ela seria perfeita e completa; suas fronteiras poderiam se estender, mas ela jamais deveria se desenvolver a partir de dentro. Tal como o Palácio de Cristal imaginado por Dostoievski, a Brasília de Costa e Niemeyer não deixava a seus cidadãos – e aos outros brasileiros – “nada mais a fazer”.
Em 1964, pouco depois da inauguração da nova capital, a democracia brasileira foi derrubada, sendo instaurada uma
ditadura militar. Durante o período de governo militar (ao qual Niemeyer se opôs), a população teve de enfrentar crimes muito mais sérios do que as falhas no projeto da capital. Mas quando os brasileiros reconquistaram a liberdade, no final dos anos de 1970 e início dos anos de 1980,, era inevitável que muitos deles manifestassem seu descontentamento com a cidade, que parecia ter sido projetada com o fim de mantê-los calados. Niemeyer deveria ter percebido que uma obra modernista que negava alguma das mais básicas prerrogativas modernas dos cidadãos - falar, reunir-se, discutir, manifestar suas necessidades – fatalmente conquistaria muitos inimigos. Em meus pronunciamentos no Rio, São Paulo e Recife, terminei atuando como porta-voz de uma indignação generalizada a respeito de uma cidade que, muitos brasileiros me disseram, não tinha lugar para eles[3].
Por Carlos Antônio M. Albuquerque
Data: 21 de abril de 2010, 12:40
[1] BERMAN, Marshall. Tudo o que é sólido desmancha no ar. São Paulo: Companhia de Bolso. 2007. 463p.
[2] Arquiteto, urbanista e pintor francês de origem suíça, nascido em 1887 e morto em 1965. A sua influência estendeu-se principalmente ao urbanismo. Foi um dos primeiros a compreender as transformações que o automóvel exigiria no planejamento urbano. A cidade do futuro, na sua perspectiva, deveria consistir em grandes blocos de apartamentos assentes em pilotis, deixando o terreno fluir debaixo da construção, o que formaria algo semelhante a parques de estacionamento. Grande parte das teorias arquitectónicas de Le Corbusier foram adoptadas pelos construtores de apartamentos nos Estados Unidos da América. Le Corbusier defendia, jocosamente, que, "por lei, todos os edifícios deviam ser brancos", criticando qualquer esforço artificial de ornamentação. As estruturas por ele idealizadas, de uma simplicidade e austeridade espartanas, nas cidades, foram largamente criticadas por serem monótonas e desagradáveis para os peões. A cidade de Brasília foi concebida segundo as suas teorias. Depois da sua morte, os seus detractores têm aumentado o tom das críticas, apelidando-o de inimigo das cidades. É, no entanto, absolutamente, um nome de referência na história da arquitectura contemporânea. Disponível em http://pt.wikipedia.org/wiki/Le_Corbusier. Acessado em 21 de abril de 2010.
[3] BERMAN. Op. cit. p. 12-14
sábado, abril 03, 2010
O julgamento dos Nardoni e a vontade do povo
Fato que me chamou a atenção foi o julgamento do casal Nardoni realizado na penúltima semana de março passado. Segundo a mídia nativa, que se aproveita das tragédias sociais e do caos para se vender e se promover, era um dos julgamentos mais importantes da História do Judiciário brasileiro. Houve um engradecimento do caso. Não escusamos aqui a fatalidade. Mas o que me deixou silencioso em meus pensamentos foi a reação da massa que cercou o fórum na cidade de São Paulo. Pessoas dos mais distintos lugares foram ao local para apreciar o caso num acesso de "justiçamento". Todos acompanhavam o caso com muita atenção. Não quero entrar em pormenores quanto a quem matou a menina de cinco anos, filha do casal Nardoni. Fato interessante é que antes do julgamento o casal já estava condenado. A mídia já havia condenado os dois. Nem o princípio constitucional de que a culpa só se efetiva com o trânsito em julgado da sentença - no juridiquês do Di
reito - foi levado em conta. Quando o juiz leu a sentença, resultado da apreciação do tribunal do júri, que tem competência para julgar os crimes contra a vida, houve "um salva de vivas". Havia uma lascísvia de contentamento nos olhos daqueles que estavam lá acompanhando o caso desde o primeiro dia. Era como se aqueles que acompanhavam o caso quisessem fazer justiça a toda força. Estranhos são os homens. Pensei que fosse uma final de campeonato. A psicologia do caso me aponta que havia um senso de raiva e ira represado no coração de cada um daqueles que estavam ali - e de tantos outros que estavam pelo Brasil afora. torcendo para que, se possível, o casal fosse estripado. A massa dispersa ganhou forma e a vontade individual tornou-se uma no que diz respeito ao desejo de solução pela força, nem que fosse pelo "esfolamento" ou pela morte. Fico a imaginar se os jurados tivessem absolvido das acusações de que era objeto o casal. O povo teria invadido o tribunal. Uma confusão generalizada poderia grassar. O Brasil é um país violento, que tem a sua guerrilha particular. A violência urbana mata mais do que a guerra histórica travada entre judeus e palestinos. A televisão "espetaculariza" todos os dias os casos de violência e isso faz brotar na paiquê da coletividade um medo mesclado de ódio e auto-justiçamento. Com relação a este fato (o julgamento dos Nardoni), achei uma extraordinário texto do filósofo Paulo Ghiraldelli sobre o caso.Leia o texto na íntegra logo abaixo:
Isabela Nardoni enterra os seus mortos

Terminado o julgamento do casal Nardoni e passada a gritaria e rojões dos desocupados que ficaram em frente ao Fórum ou que, em suas casas, não faziam mais nada senão se alimentar do noticiário bestializado do caso, veio o inexorável silêncio. Mais uma vez a vida dessas pessoas que gritaram e comemoraram voltou a encher-se de nada. Todas elas caminharam para a mediocridade de onde saíram. Cada vida ali, cheia de nada, talvez tenha menos a fazer no mundo do que os Nardoni, que irão envelhecer na cadeia. Cada uma daquelas pessoas, até chegar ao ouvido delas a morte de mais uma Isabela qualquer, estará tão morta quanto a própria Isabella. Nada dentro de casa, nada no horizonte.
Uma vida cheia de nada. As vidas dessas pessoas que se dispõem a se engajar em alguma causa que não é causa nenhuma, quando não há nenhum Hitler para recrutá-las para “fazer justiça”, é uma vida intermitente. Na falta de mais uma causa que não é causa nenhuma, tudo é um grande e eterno vazio. Nenhum emprego interessante, nenhum casamento gostoso, nenhum lar sadio, nenhum objetivo político; somente um horizonte social totalmente transparente – é tudo o que possuem. Quando William Bonner anunciará algo novo, possível de ser assimilado pelos cérebros simplórios, para que seus proprietários se levantem de seus túmulos? Essa é a pergunta que paira no ar na casa de cada um que soltou rojão ou que ficou no Fórum gritando “por Isabela”. “Uma vida cheia de nada” é o tema do ganhador do Oscar de melhor filme estrangeiro este ano, a belíssima película argentina “O segredo dos seus olhos” (José Campanella, 2009). Vale a pena ver. Há ali uma história. Mas “a vida cheia de nada” dos que gritaram por Isabela não dá um filme. Tudo ali é tão realmente cheio de nada que nem mesmo a narrativa sobre a pobreza de espírito é possível nesse caso. É o deserto avassalador que cresce dentro de cada alma que nem mesmo é uma alma, apenas uma cavidade encurtada capaz de fazer eco a um distante som metálico de noticiários de TV voltado para questões policiais. Hitler não vem. Mussolini não chega. Hiroíto não passa. Franco não dá bola. Pinochet não é ninguém. Castelo Branco é um desconhecido.
Todos os ditadores, dos maiores aos menores, capazes de poder fazer viver a turba que deseja vingança – vingança contra algo que a turba não sabe o que é e que, por conta da pouca educação social, diz que é “justiça” – não estão disponíveis. Resta então implorar por Datena. Talvez ele ponha alguma adrenalina em uma vida ressentida e cheio de nada. Mas Datena não vai adiante, ele é o Afanásio Jazadi dos novos tempos, da época “pós-politicamente correto”. Ele quase lança o ódio, mas recua. Ele não dá o que a turba pede. Por sua vez, Serra, que canaliza a direita hoje, é um candidato com um gosto tão entusiasmante quanto Alckmin. Picolé d xuxu era seu parceiro, ele próprio, Serra, é picolé de nabo. A turba almeja mesmo é por Hitler. Mas, eu garanto, ele não vem. Então, que Deus se apiede de todos e jogue alguma Isabela de outro edifício, caso contrário, cada uma dessas pessoas terá que ficar mais tempo no seu cemitério. Não poderá ganhar a luz do dia. Uma vida cheio de nada. Quando uma vida é cheia de nada, nos cartazes dos manifestantes (como uma parte de nossa população está ficando igual aos setores conservadores americanos!) sempre aparece uma palavra suficiente mente vazia para dar razão ao vingadores: “Deus”. Deus não aparece para apaziguar, diminuir ódio ou promover a paz. Ele aparece para que exista vingança, não a respeito de Isabela, mas de qualquer outra coisa, talvez seja a vingança contra a própria vida cheio de nada. “Deus” surge para promover o ressentimento que ganha o nome , no caso, de “justiça”. Que sorte que Collor deu no que deu, pois, caso tivesse continuado, ele poderia aproveitar essa gente. Sendo ele agora apenas um senador marcado, tudo fica mesmo por conta de Bonner falar de outra desgraça. Enquanto as coisas ficarem só nisso, não há perigo.
Paulo Ghiraldelli Jr., filósofo.
DAQUI
Por Carlos Antônio M. Albuquerque
Data: Sábado, 03 de abril de 2010.
terça-feira, novembro 18, 2008
O efeito das palavras
Passionalidade
Honestidade
Tentativa de acerto
Grandes atropelos.
Palavras pungentes.
Da força de um raio.
Brilho revoluteante.
Assensos.
Dissensos...
Tento mostrar-me...
Expor-me com toda
A minha feiúra.
Assusto-te...
Não cedes...
Tuas palavras...
Apenas palavras.
Já tentei outras vezes
Desaturdir-me.
Renitência...
As horas que passam.
Inocência?
Há alguma?
Tudo um show de cruezas
Paciência como elemento
Das horas nuas.
Angústia e tristeza surgidas
Com potência infinita.
Palavras, apenas as tuas palavras.
Aposto nas melhores intenções.
Crueza nos fatos,
Danação nos gestos dos sentidos.
Pareço-me incompreendido.
Mas pareço, também, não compreender.
Às vezes acho-te tão dura,
Parece-me que enxergas a
Vida apenas com os teus olhos,
Apenas com as tuas intenções.
Já se faz tarde!
As palavras brotam,
Apenas palavras.
O desejo de estar perto de ti,
Confundido com tuas
Palavras acerbas, azedas,
doces, agridoces.
Apenas palavras!
Por Carlos Antônio Maximino de Albuquerque
Data: domingo, 18 de novembro de 2007, 17:18:03.
domingo, novembro 09, 2008
Vieira – o riso da beleza e as lágrimas da arte
Terminei de ler uma seleção de seis sermões do Padre Antônio Vieira. Vieira é um jardim fecundo de aromas e estilos. Uma enciclopédia que abriga em si a ciência do cultismo, mas da simplicidade também. Ele falava aos catedráticos, aos reis e rainhas, ao escol de tudo o que mais distinto havia, mas se pronunciava também aos índios e à gente simples da terra. Falar de Vieira é afirmar a cristalização, a materialização de um gênio poderoso, que com a sua palavra arrebatava a platéia e dizia: “que o ouvinte não deveria sair contente com o pregador, mas triste consigo mesmo, pois se aconteceu isso é porque algo poderoso aconteceu àquele coração”. Em Vieira é tão possível sair feliz quanto triste do sermão: triste pelos confrontos sugeridos em sua oratória imaculada; feliz pelas sentenças refinadas, brilhantes. Como ele mesmo atesta no Sermão da Sexagésima “cada palavra era um trovão, cada cláusula um raio, cada razão um triunfo”[1]. Assim era Vieira – um trovão do Céu, que assombrava e fazia tremer o mundo de sua época.A sua vida volumosa, cheia de acontecimentos significativos já é um grande livro. Nasceu em Portugal. Veio para o Brasil ainda muito jovem. Decide estudar para ser padre. O pai não concordava com as intenções de Vieira. Tinha outras missões para o filho. Quando no seminário, os padres começaram a perceber-lhe os prodígios, as habilidades, as larvas da inteligência que fervilhavam em seu potente cérebro. Isso é tão significativo, que ainda não havia completado 18 anos, mas já era responsável por escrever em latim as cartas que seriam enviadas à Sé. Foi enviado a Olinda como eminentíssimo professor de oratória. Vieira parecia compreender que a palavra era uma grande arma, que ela poderia ser usada a favor da justiça. Ele usou a palavra para apaziguar os calores no Maranhão. Os ânimos dos colonos estavam eriçados, por causa do edito real a fim de que se libertasse todos os índios. O padre prega dois sermões impetuosos: O Sermão das Tentações – “Que vós, que vossas mulheres, que vossos filhos, e que todos nós nos sustentássemos dos nossos braços; porque melhor é sustentar do suor próprio, que do sangue alheio”[2]; e o Sermão de Santo Antônio (ou dos Peixes) – “A primeira coisa que me desedifica de vós – peixes – é que vós comeis uns aos outros. Não só vos comeis uns aos outros, senão que os grandes comem os pequenos. Se fora pelo contrário, era menos mal. Se os pequenos comessem os grandes, bastaria um grande para muitos pequenos; mas como os grandes comem os pequenos, não bastam cem pequenos, nem mil, para um só grande e para que vejais como estes comidos na terra são os pequenos, e pelos mesmos modos que vós vos comeis no mar...”[3]. O que é impressionante em Vieira é saber como alguém consegue ser tão prolífico, tão erudito, tão intenso, tão profundo. A sua inteligência era versátil. Passa-nos a impressão que tudo aquilo que lia conseguia assimilar sem qualquer titubeio.
Vieira visitou os salões reais. Viajou pelos locais mais afastados do Brasil. Instalou-se no Maranhão. Estendeu a missão jesuíta. Aprofundou a sua relação com os índios. Era conhecido pelos índios como Paiaçu (grande padre). Constituiu-se numa espécie de apóstolo da palavra. O termo apóstolus do grego significa “mensageiro”, “enviado”, “embaixador”, “ministro”, “caminhante”. Foi o próprio Cristo quem chamou os seus discípulos de apóstolos. Eles seriam os pregoeiros das boas novas. Vieira é o eminente “embaixador” da Palavra, que leva em seus lábios a certeza da equidade. Para ele: Subir ao púpito e não dizer a verdade era contra o ofício[4]. Por isso, todas as vezes que se colocava de pé com a missão de proferir o Evangelho, era invadido pelo calor do Espírito Divino. Pregava com tamanha beleza, erudição; com uma inspiração tão irradiada que os salões das igrejas ficavam pequenos para a quantidade de pessoas que viam ouvi-lo. Esse poder de Vieira levou o poeta Fernando Pessoa a dizer que ‘se não houvesse mais ninguém para falar a língua portuguesa, mas se em compensação ficassem os sermões de Vieira, a língua lusa jamais morreria’. Em suma: Vieira consegue reunir em seus sermões o que de mais belo há na língua portuguesa. Ele soube utilizá-la como ninguém. Extraiu dela todo o encanto; os vernáculos harmônicos e dissonantes; a versatilidade e a flexibilidade dos termos necessários. Proferiu com tamanha graça a língua de Camões que ler os seus sermões após tanto tempo, causa-nos uma impressão singular.
Neste ano de 2008 são completados quatro séculos do seu nascimento. Ouvi poucos falarem desse acontecimento. Até mesmo os estudantes de Letras não atentaram para o fato de que no dia 6 de fevereiro de 1608, nascia em Lisboa, Antônio Vieira, estadista, teólogo, missionário, padre – e por que não dizer filósofo? A homenagem que vi aconteceu na Câmara dos Deputados da República. Ouvi José Sarney solitariamente proferi um discurso com rasgos de uma erudição afetada, tentar lançar luzes sobre as trevas da memória opaca da nação. A pouca memória do país para com os seus ilustres personagens históricos não permitiu que rendesse a ele, Vieira, homenagens dignas, do mais alto jaez. Lamentavelmente a memória é suprimida, a História é apagada e os grandes homens de espíritos livres borrados e negligenciados.
Viveu 91 anos (morreu no dia 18 de julho de 1697). Muito tempo para a expectativa de vida da época. Todavia, todo este tempo foi dedicado em sua integralidade à justiça e à defesa dos direitos humanos – especialmente dos índios. Não poderia deixar de finalizar sem que mencionar Vieira num dos sermões mais belos e altivos que já foram pregados – O Pranto e o Riso ou as Lágrimas de Heráclito defendidas em Roma pelo padre Antônio Vieira contra o Riso de Demócrito. Este sermão foi proferido no Palácio da rainha Cristina da Suécia, no ano de 1674: “Quem verdadeiramente conhece o mundo, precisamente há de chorar; e quem ri, ou não chora, não o conhece”[5]. É pertinente dizer que a vida de Vieira foi bela por que riso; e foi arte por que lágrimas. Ele conhecia o mundo e a alma humana como ninguém.
Por Carlos Antônio Maximino de Albuquerque
Data: sexta-feira, 25 de julho de 2008, 21:28:13.
quinta-feira, novembro 06, 2008
Sobre os flamboyants - parte II
Sempre fui fascinado pela beleza silenciosa das árvores. Trata-se de uma beleza para ser escutada com os olhos. Encontrei o texto de Rubem Alves sobre os flamboyants, mas não encontrei muitas informações sobre a árvore em si. Perto da Administração de Ceilândia – DF, cidade onde moro, há uma alameda dessas árvores fantásticas de origem africana. Passar próximo a essas árvores é um estímulo para o espírito. O flamboyant é uma visão que excita os olhos é o ânimo. Li certa vez o romance o romance O Prisioneiro de Érico Veríssimo, refere-se aos flamboyants como “tachas escarlates e estáticas”. O romance passa-se numa cidadezinha do sudeste asiático. História muito bem urdida, com profundidade psicológica, os flamboyants são um personagem do livro. Recordo que quando li o livro há alguns anos atrás não sabia exatamente o que eram os tais flamboyants, embora já tivesse visto um. Conhecia a árvore, mas não sabia o seu nome.Como nessa época do ano aqui em Brasília, os flamboyants vicejam, surgem com suas cabeleiras inflamadas e nos enche os olhos, não podem passar despercebidos. Impossível. Mesmo os mais desatentos de uma forma ou outra detêm a sua atenção. O jornal Correio Braziliense trouxe uma pequena reportagem sobre essas árvores de nome afrancesado.
Não transcreverei o texto integralmente. Deterei atenção apenas na parte que trata da origem da árvore:
“O nome com o qual a árvore ficou conhecido é francês. Significa flamejante, ardente – referência à cor mais comum das flores que caem em cascata. A procedência da espécie é da costa da África, de Madagascar e de ilhas do Oceano Índico. ‘É uma espécie exótica, mas se adaptou muito bem ao clima brasileiro’, conta Ozanan Coelho. As primeiras mudas foram trazidas para o Brasil ainda no século XIX, na época de D. João VI e, desde então, os flamboyants são usados intensamente para o ajardinamento das cidades.
Apesar da beleza, a espécie têm duas desvantagens. O fato de ser exótica, portanto, não adequada para a alimentação da fauna local. E a característica das raízes serem superficiais, o que pode destruir as calçadas próximas aos locais onde estão plantadas. No Distrito Federal, o plantio de novos flamboyants tem sido evitado nos últimos anos. ‘Estamos dando preferência a espécies nativas porque elas são importantes para a vida da fauna local’, explica Ozanan Coelho, do DPJ.
As floradas dos flamboyants acontecem entre outubro e dezembro. Com o tempo, as pétalas vão caindo e aí o terreno próximo às plantas é que ficam pintados de vermelho, laranja ou amarelo. As árvores atingem até 15 metros de altura, mas as que estão em Brasília chegam, em média, a 10 metros por conta das características do solo. A copa das árvores se espalha até por 10 metros de diâmetro, tornando o impacto visual da planta maior à distância. Já as flores são delicadas, têm apenas sete centímetros de comprimento. Nos cachos, uma ou outra flor aparece com uma das pétalas salpicada de branco, mas esse detalhe só é percebido quando se observa a planta bem de perto.
Profundo conhecedor das árvores brasilienses, Ozanan Coelho garante que ainda hoje se emociona quando vê um flamboyant amarelo florir. ‘Todos eles são lindos, mas o amarelo é especial por ser mais raro’, comenta. Segundo Ozanan Coelho, o tom amarelo é alcançado quando a planta apresenta uma variação de genes recessivos”[1].
Por Carlos Antônio Maximino de Albuquerque
Data: Quinta-feira, 6 de novembro de 2008, 09:31:16.
[1] Edição número 16.608. Brasília, quinta-feira, 6 de novembro de 2008, p. 40.
sexta-feira, agosto 08, 2008
O fluxo da cosciência
O fluxo da consciência traz paisagensIntrigantes à nossa mente.
Vemos-nos por espelho.
A visão às vezes não é nada otimista.
A vida parece não ter sentido.
Tudo depende de como olhamos para os
Fatos.
Os fatos são fatos.
São acontecimentos que sendo o que são,
Continuarão sendo o que sempre serão.
Impressiona essa coisa.
O que define novos rumos é como se olha
Para esses mesmos fatos.
Pensar e logo existir é uma capacidade
Unicamente humana.
A maneira como se olha para vida
Define a qualidade dos caminhos por
Onde se deve trilhar.
Posso enxergar o belo numa gota
De orvalho, no ato de latir de um cachorro.
Ao mesmo passo posso me sentir infeliz
E determinar a feiúra, mesmo estando no mais
Belo jardim, morando na melhor casa do mundo.
A vida é um ente.
Se ela vai ser bela, se ela vai ser linda,
Vai depender da relação que estabeleço
Com ela.
Como anda a minha consciência essa manhã?
Por Carlos Antônio Maximino de Albuquerque
Por Carlos Antônio Maximino de Albuquerque
terça-feira, julho 22, 2008
Motivações
A desmotivação é um ácido fatal.É uma espécie de gangrena.
Somos aturdidos por algumas pressões.
O mundo se apresenta com determinadas
Tendências, com uma direção.
Sociedade de valores materiais.
Valorização extremada de certas mercadorias,
De certo comportamento.
A expectativa para que se veja cumprido
Certos prazos:
Crescer, estudar, conquistar, viver medianamente
Não refletir e se adequar burguesamente às condições
De um modo de ser.
Os espíritos sensíveis gostam de valores frágeis.
Apreciam não a correria, mas a beleza in natura
Dos elementos universais.
A vida é mais do que uma correria em busca de realização.
Casar, ter carros, usufruir de mulheres, ter dinheiro.
Essa é uma preponderação esdrúxula.
O alvo mais absurdo contemplado como o mais significante.
Tudo se tornou um grande contra-senso.
Os valores frágeis se desmontam e se transformam
Em força sensível.
A latência da dor rói os emplastos da motivação.
A alegria envelhece.
O céu se enche de escaras.
O mundo segue na direção equivocada.
A vida a ser preenchida por um vazio sem causa.
A matéria com seu poder erótico a enfeitiçar
Os homens que amanhã não mais serão – assim como eu.
Carlos Antônio Maximino de Albuquerque
terça-feira, julho 08, 2008
Algumas palavras
A tolerância, a paciência, as virtudes.Somos forçados a agir de certa forma.
Quando nascemos encontramos um mundo
Pronto: com seus valores, princípios éticos.
Temos que nos moldar irremediavelmente
Aos ditames da sociedade a que pertencemos.
Se a sociedade diz: “É necessário que a família
Seja nuclear”.
O indivíduo aceita essa imperatividade e certamente
Entende que o arranjo nuclear de família é o mais “correto”.
De certa forma, o ser humano com seus ideais julga o próprio
Comportamento como o mais acertado.
Temos por tendência defender os nossos princípios e
Pontos de vistas até que o outro seja “derrotado” – vencido.
Isso revela um estado cruel de beligerância.
Penso que devemos ponderar acerca daquilo que é cultural
E aquilo que é ideal.
É claro que entendo que o artifício que conduz esse texto
Está desbotado desde o princípio narrativo, mas
Não devo deixar de acrescentar
Que aprender a ouvir e falar deve ser um imperativo
De valor universal.
Essa postura não denunciaria nenhum tipo de beligerância,
Mas de sabedoria.
Por Carlos Antônio Maximino de Albuquerque
sábado, junho 28, 2008
Das verdades da vida
A esperança restou vã.
As horas de sonhos tornaram-se pesadelos.
A alegria é motivo frívolo.
Descobre-se em certos momentos o não
Sentido das coisas.
A seriedade é motivo fútil.
Para quem escrever?
Quem dará importância a um emplasto
Verbal ordinário?
Resta apenas o cansaço e os seus
Motivos alarmantes.
Fica o silêncio em cada palmilhar.
A percepção que o conjunto vital
Nada é.
Vive-se por muito pouco.
A paga é injusta.
A competição que mutila
Os fracos.
Premia os fortes.
Os fortes... apenas os fortes...
A selvageria que não
Deve ser contestada.
A contestação para quê serve?
Quando vai embora o momento satisfatório
Fica apenas o resíduo insatisfatório.
A fraqueza molesta os fortes
E os opressos.
A coisa assim é.
Por Carlos Antônio Maximino de Albuquerque
Data: 31/03/2008, segunda-feira.
quarta-feira, junho 18, 2008
O mundo é pequeno
A sua circunferência cabe em meu coração.
As suas distâncias são transitáveis.
As estradas que trago comigo são infinitas.
Mal consigo contá-las.
Elas se multiplicam.
Conduzem a outros mundos.
Grandes são as perguntas,
Os questionamentos, os tensionamentos.
Os livros trazem uma letra impressa.
Em meu coração há matéria para
Bibliotecas que preenchem o universo inteiro.
As horas são contadas ciclicamente.
Mas moram comigo relógios plangentes.
Que andam aos saltos nessa noite sem fim.
Discursos são proferidos pelos doutos.
As melhores palavras são as não ditas.
Os melhores poemas ainda estão por nascer.
Os rios correm para o mar.
Trago comigo rios que já nascem abortados.
São fontes de secura.
Seu corpo sinuoso é vestido pela liquidez árida
De um deserto distante.
Enquanto espero imagino coisas,
Porque sei que não existe mundo mais
Vasto do que o meu coração.
Por Carlos Antônio Maximino de Albuquerque
sexta-feira, maio 23, 2008
Mundo líquido
Tudo renovas com o teu bafo;
Desenhas novas formas, paisagens;
Tales afirmou num passado distante
Que tu eras o um;
A unidade vital, a que tudo davas vida;
Fazias e desfazias.
Olhou para o mundo azul, verde,
Ardósia, cristalino, incolor e
te inseriu no seu sistema.
Fez nascer o pensamento especulativo.
Analiso o resultado do teu trabalho.
Os gramados estão verdes,
As paisagens estão multicolores.
A desolação foi completamente assolada.
Já não se têm os dias quentes,
As tardes de secura pegajosa.
Árvores se alegram;
As pastagens tornam à vida.
O seco, gretado, crepitado
É transformado num imenso mar verde.
A poeira encarnada foi vencida.
Tudo por causa de ti.
As poças se ajuntam.
A vida ali brota.
A fecundidade mora em tua ação.
Habito num mundo líquido.
Sou uma consciência imersa
Num oceano caudaloso de água.
Meu mundo é aquoso.
Meu corpo é um córrego.
Minhas emoções nascem em
Meio à água.
E eu me impressiono com o teu
Potencial de vida.
Por Carlos Antônio Maximino de Albuquerque
Data: domingo, 2 de dezembro de 2007, 16:08:52.
domingo, maio 11, 2008
Pensamento livre sobre o homem
A presença da espécie humana no planeta terra é deveras recente. O homem foi forjado, com relação à origem do Universo, nos últimos segundos do estágio formativo. Denomino estágio formativo àqueles momentos cruciais que deram condições para que surgisse o homo sapiens.A se julgar por essa exigüidade, o potencial pensante do homem determinou a dominação do planeta. É irônico e interessante que uma das últimas espécies a entrar em cena no palco da criação viesse a dominar todas as demais realidades naturais. O que é inquietante com relação a isso é que um destino nefasto, luctífero, se aproxima com bastante velocidade da realidade humana. Pode ser avaliada como certa a destruição do homem. Essa afirmação é forte e, portanto, para muitos, constitui-se como inaceitável. A vaidade e o orgulho humanos não admite algo com essas implicações.
A Bíblia hebraica possui algumas metáforas que chamam a atenção. Quando caminho por entre os homens, sinto-me como um daqueles profetas. Seria arrogância pensar assim? Prossigamos. O que me distingue com certeza daqueles profetas tão apaixonados é que não tenho voz para gritar. Melhor seria andar com uma lanterna como o fez Diógenes buscando um homem sensato em plena luz do dia. Os profetas eram homens comuns chamados para anunciar a vontade divina. As intervenções dos profetas eram sempre ornadas de complexidade, pois eles vaticinavam a vontade divina, mas quase sempre presenciavam o povo caminhando na direção contrária às suas anunciações. O destino do povo era agônico.
Se houvesse uma mudança no comportamento, a triste realidade impositiva teria uma outra “história”; se a conduta fosse renitente, não haveria outra saída senão o desterro. Jeremias, por exemplo, padeceu desses sofrimentos. Anunciou a escravidão inextricável: se o povo não repensasse os passos da caminhada na direção da desobediência o resultado seria a escravidão. As palavras do profeta foram descartadas. Não houve qualquer adesão. Jeremias sentia o que via e lamentava profundamente o destino infausto do povo.
Analisando essa metáfora bíblica é inegável que aqui não seja visto um paradigma bastante contundente: a extinção do homem é certa se um fenômeno reflexivo não se apoderar das mentalidades e fizer surgir um novo “modelo de mundo”. Utilizo o termo “extinção” em sentido lato. O modelo de organização social construído pelo homem consagra a desigualdade. Filosoficamente existe um conceito de liberdade, mas empiricamente esta não possui qualquer concretude em termos reais. Que modelo deve ser construído? Como a equidade deve ser tornar uma possibilidade e não apenas uma utopia? A resposta a estas perguntas constitui-se um grande desafio.
Analiso o destino da humanidade que fulmina a natureza, incinera florestas, ocupa todos os espaços do planeta de forma predatória; que construiu um modelo perverso e imoral, numa sociedade que privilegia alguns e consagra os demais a um estado crônico de miséria. Ando como Jeremias.
Por Carlos Antônio Maximino de Albuquerque
sábado, março 29, 2008
Sentidos de uma deformação
O presente texto é um inspiração sentida a partir de O sentimento do mundo de Carlos Drummond de Andrade. Li, senti, escrevi!Tenho apenas duas mãos
E as dores caladas do mundo.
Um corpo magérrimo
Crivado pela insolvência
Do mundo.
No meu interior, a alma
Transige na confluência
Labiríntica do amor que já não é.
Quando me erguer de minha prostração
O céu não mais estará azul.
Haverá um missal de cantos
Fúnebres seguindo em grande préstito.
Ao me erguer estarei morto,
O meu desejo e o meu sonho, também.
Os meus companheiros não me disseram
Que havia uma grande guerra,
Que era necessário trazer mantimentos,
Matéria, um alforje de precauções.
Em minha alma transita a dispersão,
Anterior às fronteiras.
Perdoeis as minhas prevaricações.
Quando a turba passar eu ficarei
A recordar os corpos, os sorrisos,
E as mãos grossas no trabalho inculto.
Tudo isso crescerá com o amanhecer.
O amanhecer será mais noite
Que todas as noites do sentimento do mundo.
Por Carlos Antônio Maximino de Albuquerque




