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sábado, outubro 27, 2012

Graciliano Ramos - 120 anos de literatura

Hoje, o Brasil comemora o nascimento de um dos seus filhos mais ilustres, Graciliano Ramos, o célebre escritor alagoano. O velho Graça (como era conhecido pelos mais íntimos) nasceu em 27 de outubro de 1892, no munícipio de Quebrangulo. Não é minha intenção falar da vida desse escritor fantástico que abriu as portas do mundo da literatura para mim. Quero apenas externalizar a minha devoção ao texto de Graciliano Ramos. 

No final do Ensino Médio, eu estava estudando o Modernismo Brasileiro. Entrei em contato com trechos de livros do escritor alagoano. Li trechos de São Bernardo e de Vidas Secas, principalmente. Acabei seduzido por aquela linguagem econômica, mas profundamente precisa; cortante como uma navalha. Fui à biblioteca da escola. E lá acabei me deparando com os livros as quais eu conhecia somente algumas passagens. Iniciei a leitura de Vidas Secas. Achei aquilo sério demais. Graciliano era capaz de universalizar os dramas humanos. Havia ali mais do que simplesmente um relato regional. Um mundo polifônico estava contido naquela obra. A caminhada cega da  família de retirantes que se arrasta por uma paisagem que acaba se alastrando no interior de cada personagem me impressionou. Depois de algumas leituras acabei percebendo que o mundo interior das personagens é resultado de uma transformação da consciência, como diria Marx em sua A Ideologia Alemã. A consciência do mundo se inseriu na consciência das personagens, Graciliano não queria apenas falar de seca, de privação. Ele queria fazer psicologia com a alma humana.


Os personagens de Vidas Secas são privados da palavra - e a palavra para o escritor possuía uma importância capital. Encontramos em outros textos escritos por ele uma espécie de explicação para o seu ofício. Na crônica "As lavadeiras", ele firma algo emblemático. Diz ele que 'a palavra foi feita para dizer e não deveria brilhar como um ouro falso'. Em seu extraordinário Infância, que conheci mais tarde, encontramos a seguinte afirmação: "Na escuridão percebi o valor enorme das palavras". É por causa dessa preocupação exarcebada com a palavra, que percebemos os seus livros como mosaicos. Não há execessos. Apenas o exato. Uma peça fora da estrutura derruba o restante do todo.

E é justamente munido dessa preocupação, que o velho Graça constrói aquele que um dos maiores romances já escritos em toda a história da tradição literária brasileira. A palavra que era a sua preocupação, torna-se um enigma para as personagens. Cena curiosa é aquela em que a família vai a uma festa de natal e os meninos ficam impressionados com a quantidade de coisas que havia ali. Ficaram bestificados, tentando entender se era possível todas as aquelas coisas terem nomes para que as pessoas dominassem. Como era possível a um ser humano dominar tantos nomes? O mutismo ou a realidade da não-palavra das personagens é um dos elementos mais impressionantes do livro. A palavra que é a porta de entrada para o mundo humano é negada aos personagens. Se as personagens são privadas da palavra, não é necessário  dizer que  elas são privadas de serem, de se comunicarem, de se projetarem; de se afirmarem enquanto sujeitos históricos; são privadas da possibilidade de enfrentar o mundo, de se humanizarem; de reivindicarem direitos perante o Estado (personificado pelo "Soldado Amarelo" que era, no fundo, alguém espoliado de direitos e que se ancorava apenas na farda que dava-lhe uma consciência de poder). 

Mais tarde li São Bernardo e aquilo me deixou com a impressão de que se tratava de uma obra filósofica sobre a natureza humana - novamente, Graciliano universaliza o regional. Os livros de José Lins do Régo ou Jorge Amado também trazem um regionalismo. Uma narrativa memorialística. Eivada de realismo. Mas o que difere Graciliano Ramos desses dois escritores é que ele trabalha perspectivas que amplificam valores por intermédio das personagens. Paulo Honório é uma figura que me fez pensar no quanto a natureza humana pode ser desmantelada pelo poder. Nele notamos a vontade-de-poder nietzscheana, mas que acaba por induzi-lo ao niilismo completo. O desejo fáustico de ser grande, de conquistar o mundo o transforma em monstro. Tudo ele transforma em algo a ser conquistado. Até mesmo Madalena, que acaba se suicidando. Paulo Honório acaba solitário. Com a alma dilacerada. E o último capítulo de São Bernardo é uma das coisas mais lindas que já li em minha vida. Paulo Honório enxerga dentro de si, por meio de uma reflexão amarga, os monstros do orgulho e da ganância. Ele pensa sobre si mesmo: "... a culpa foi desta vida agreste, que me deu uma alma agreste". 

Mais tarde, eu li Memórias do Cárcere. E o turbilhão do testemunho de Graciliano Ramos produziu mais efeitos impressionantes. Vale mencionar que em Graciliano não notamos a criação da fantasia. O autor de Vidas Secas não criava mundos como um Machado de Assis, por exemplo. Sua literatura é resultado da observação. Desde Caetés, um retrato da vida provinciana, até Viagens, que é o seu testemunho sobre impressões colhidas no leste europeu, percebemos essa característica. Quando lemos, por exemplo, os seus relatórios administrativos da prefeitura de Palmeira dos Índios ao governador do estado de Alagoas, notamos que existe em Graciliano uma vocação - a de ter uma capacidade crítica para refletir sobre a realidade em que está inserido. Portanto, é assim que notamos o quanto as Memórias do Cárcere se constituem em um relatório feroz. O modo a qual Graciliano descreve a arbitrariedade de uma força invisível e que avilta, torna os seres humanos em pulgas e ratos. A condição humana, mais uma vez, é diminuída a níveis opressivos. Os presos políticos vivem a humilhão física, da dignidade humana, uma espécie de submissão moral. 

Li os outros livros de Graciliano Ramos (Angústia, Insônia, Infância, Linhas Tortas, Caetés etc) e acabei assimilando uma admiração ímpar pelo homem e pela sua obra. Há alguns meses atrás, li o livro Graciliano - Retrato Fragmentado, escrito pelo seu filho Ricardo Ramos. Pude perceber um pouco da intimidade narrada por Ricardo. Graciliano Ramos era alguém de disciplinado e com forte pendor político. Era um de poucas palavras e sempre dizia o que pensava. Ricardo escreve algumas experiências que aumentam-lhe a mítica de alguém que possuía um largo anedotário. Como este abaixo:

"E no cinquentenário do Correio da Manhã, comemorado com larga programação, transformado em feriado, meu pai ficou em casa de pijama, para no outro dia chegar ao jornal e ouvir de Paulo:
- Graciliano, você me fez uma!
- Quê?
- Não foi à missa.
- Eu sou lá homem de missa?
- Não foi ao banquete.
- Eu não sabia.
- Seu lugar ficou vazio, ao meu lado.
- Bem feito. Eu não me sento ao lado de patrão.
- Mas eu sou um patrão diferente.
- Você que pensa. Todo patrão é filho da puta
Paulo Bittencourt de uma gargalhada. Papai também. Depois, muito provavelmente, foram beber".

O fato é que Graciliano continua sendo para mim a mesma paixão de quando conheci. Sua obra será sempre atual, porque narra questões próprias do ser humano - a dor humana, a incompreensão a determinados fenômenos e a incapacidade de mudar os fatos do mundo exterior, que parecem determinados por uma força coercitiva e invisível. Graciliano transfigura o mundo com a palavra. Ele é um analista contumaz. Existe em seus textos um lirismo que não é música, mas voz calada, represada, uma angústia de seres que não são; um não dinamismo que dissolve o mundo agitado e fixa, estabilizando a realidade, como se fosse um quadro no qual cada detalhe é um mosaico constitutivo e significativo.

Esta semana comprei uma biografia do escritor, escrita por Dênis de Moraes ("O Velho Graça"). Comprei na Livraria Cultura e estou esperando, com certa ansiedade. Quero lê-la no feriado. 

Obrigado, mestre Graça! Você é uma inspiração!

segunda-feira, outubro 15, 2012

Memórias - como se deu o meu primeiro contato com a escola (homenagem ao dia do professor)

Escrevi este texto há muito tempo atrás. Faz parte de umas memórias que principiei a escrever em 2006. Naquela época, eu havia lido o livro "Infância", de Graciliano Ramos, pela segunda vez e acabei me entusiasmando. O texto abaixo constitui um dos trechos dessas memórias. Fala como se deu o meu primeiro contato com a escola e como a minha primeira professora foi marcante para mim. Agradeço a todos os demais professores que logo em seguida eu conheci na minha caminhada como estudante. Todos eles foram fundamentais. Eis alguns nomes que eu consigo lembrar: Marina, Ivanete, Geovanete, Ana Sueli, Adalbertos, Popó de Magalhães, Paulo, Luis Fernando, Mário Bispo, Carlos Mota, Ricardo, Cíntia, Consuelo, Soraia, Francisca, Dioney, Veruska e tantos outros que a memória não consegue fazer o exercício de lembrar. Obrigado a todos vocês!

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Recebi um livro corpulento... Papel ordinário, letra safada. Apesar disso emaranhei-me em regras complicadas, resmunguei expressões técnicas e encerrei-me num embrutecimento admirável.

Graciliano Ramos, in Infância, p.120

            Aos sete anos de idade, numa certa tarde, minha mãe me relatou que eu iria à escola. Meu primeiro contato que tive com as letras se deu por uma curiosidade assistida, por uma observação imaginosa. Minhas tias estudavam numa escola rural. Todos os dias eu as via preparadas para ir à escola. Precisava de um ritual: banhos, cabelos penteados, sapatilhas, saias pinçadas – os homens com shorts que iam até os joelhos – camisa branca impecável. Às vezes pegava o caderno e me aturdia na letra miúda e embaraçosa. Certamente aqueles códigos impressos na folha branca do caderno fazia parte de uma gente superior. Estudar era privilégio. Decodificar as regras, também. A escola com certeza era um local de pessoas limpas, de aprendizado para aqueles que queriam ser gente. Eu andava descalço. Meus pés haviam adquirido uma camada grossa no chão quente. Os espinhos não me fustigavam mais. Os tocos da chã eram-me insensíveis. Menino afeito à rusticidade, queriam me introduzir no local das regras civilizadoras.
             Eu iria à escola. Como seria esse mundo de pessoas limpas, de gente que desembrulhava códigos, que aprendia regras para ser gente? Possivelmente – imaginava – eu nem brincaria mais. Não andaria mais descalço. Deixaria de tomar banho no riacho. Atinaria para a repreensão dos mais velhos. Conceitos poderosos seriam alinhavados na minha mente. A notícia de minha mãe gerou ansiedade. Possivelmente, eu ingressaria num local de gente sabida. Sairia da classe dos iletrados e me alistaria no exército dos doutos. Leria livros. Minha avó me solicitaria a fim de que eu escrevesse cartas para os meus tios que tinham ido para São Paulo. Teria importância pelo fato de me tornar um menino sabido como meu primo Roberto que estudava na cidade e lia livros debaixo das mangueiras e jaqueiras nas tardes quentes da Zona da Mata pernambucana.
            A primeira impressão funda que se apresentou a mim foi a necessidade surgida de esfregar as unhas dos pés e das mãos; limpar os ouvidos; tirar os cascões dos pés rachados; pentear os cabelos. Minha mãe dizia que menino educado tinha que mudar a postura. Dali para frente, dizia minha mãe, todos os dias eu teria que andar bem vestido, com os cabelos alinhados e com as unhas impecáveis. Hoje penso em regras militares. Metodismo draconiano.
            Minha mãe engomou a minha roupa. Comprou alpercatas. Meteu-me dentro de um uniforme limpo e de calçados apertados. A princípio caminhei desenvolto, mas aos poucos o calçado ordinário maltratou-me os pés. Primeiro dia: minha mãe acompanhou-me. Foi entregar-me à professora. Fazer recomendações. Falar quem eu era. A professora olhou-me gentilmente. Não tinha mais que a oitava série. Era a instrutora dos “bichos” acanhados colocados na sala de aula. Filhos de agricultores que viviam da subsistência. Matutos. A maioria, homens que mal sabiam assinar o nome. Totalmente cegos para a escrita. Entrevados para os livros. Desde cedo haviam sido treinados na tarefa rude. Ajuntaram-se com mulheres como eles. Tiveram proles como os coelhos e agora os enfiavam numa escola rural. Saga cruel. A maior parte do dias esses meninos passavam na roça, carpindo, plantando, adubando e na outra parte se dedicavam à escola. Eu seria mais um integrado ao grupo.
Olhava curioso para a sala. A casa onde funcionava a escola era tosca. Não se distinguia muito da que eu morava. A diferença se estabelecia no fato de que esta tinha vãos, e, aquela, não. Era uma sala pejada de bancos duros, chãos. Ali, mais de cinqüenta seres se emaranhavam na tarde quente e seca  – as aulas eram sempre à tarde. No turno da manhã a escola não funcionava. Ali estavam os alunos da primeira à quarta série. Todos ajuntados como bichos-de-ruma. Os mais adiantados já sabiam assinar o nome e ostentavam desembaraço ao recitar a cartilha.
Minha mãe deixou-me. Fiquei sozinho na selva desconhecida. Algumas criaturas eu conhecia de brincadeira. Ali estava o filho de Antônio Fragoso, o filho de João da Horta, de Bil Nunes, de seu Suneca. Olhos a me despirem. A professora gorda, de cocó enorme no meio da cabeça, vestido florido, alegre, de rosto fino, nariz aquilino e óculos capenga, disse:
-          Gente, olha só... esse é o Carlos. Ele é o novo colega de vocês.
Procurei um lugar para sentar e me escondi. Afundado em mim mesmo, tentava capturar a explicação ininteligível para os alunos mais adiantados. O seu modo tranqüilo de professora enfeitiçava os meus olhos. Parecia uma fada madrinha a ensinar receitas de mágicas para os aprendizes. Distribuía tarefas. Finalmente, aproximou-se de mim e me entregou uma cartilha de folhas amarelas. Cartão interessante. Ainda lembro das frases: “Rui tinha uma rede”. “O rato roeu a roupa do rei de Roma”. Frases cantadas, sibiladas, densamente musicais. Pareciam feitas para serem decoradas. Fiquei impotente ali parado com aquele papel que continha códigos estranhos.
Os primeiros aprendizados se deram com força e resistência. Linhas semidesenhadas precisavam ser cobertas. Ficava ali mergulhado naqueles códigos pontilhados a cobrir o “a”, o “b”, o “c”, o alfabeto. A mão emperrava. Parecia resistir arduamente à domesticação. Resignava-me. A professora pegava-me as mãos e ajudava o lápis a correr pela folha pardacenta. Minhas mãos eram pesadas. Ficava ali o tempo inteiro a memorizar o alfabeto; repeti-lo, grifá-lo na mente; riscá-lo; sublinhá-lo no interior. Escrevê-lo à lápis nas folhas alvas da memória. Aquilo era exorbitante. Doía-me o juízo. Certamente aprender era tarefa difícil.
À hora da tabuada, a mente enchia-se de espaços, de branquidão total. Os números se emaranhavam num cipoal desconexo.
- Quanto que é 4x4? – perguntava-me a professora de régua na mão.
A sensação de que levaria um bolo me afundava ainda mais num embrutecimento enorme. A professora olhava-me. Penalizava-se do meu desconcerto. Indicava-me, ajudava-me com sua pachorra que promovia grandes torturas.
-          Quanto que é 4x1?
-          Quatro – respondia.
-          4x2?
-          Oito – respondia.
-          4x3? – perguntava de novo.
-          Doze, professora.
-          Então, quanto que é 4x4, Carlos? - Olhos lacrimejavam no esforço incontido.
-          Dezesseis!!!!
Eu, criatura tímida, percebia o suor se empastar na testa. Após cada teste, saía como de uma luta. Para livrar-me da palmatória era preciso entregar-me ao estudo. Deve ser por isso que gosto tanto de estudar e ler. São as reverberações de um tempo que eu me via premido a aprender por conta da férula da professora Marina. A mestra dizia do alto da sua autoridade:
- Vocês estão muito fracos. Aqueles que não estudarem vão levar um bolo na mão – sentado no meu banco desconfortável, olhava o objeto longo, de madeira, ao lado da criatura enorme.
Todas as tardes, nós somente íamos para casa após recitar a cartilha ou mostrar que estávamos com a tabuada na ponta da língua. Não sabia ler ainda, mas havia decorado, pelas figuras que a cartilha apresentava o que cada um dos desenhos queria dizer. Uma palavra que repetia muito era “árvore”. Ao enunciar esta palavra, geralmente a citava, não por saber o que os morfemas significavam, mas por causa da prática comum, de saber que os vegetais graúdos que davam frutos eram chamados de árvores. A professora corrigia-me:
- Você falou errado. Não se diz árvore e sim arvore. Ia para casa com aquela sentença na algibeira da desconfiança. Certamente havia um equívoco na pronúncia da professora. Os mestres poderiam errar! Aquele “arvore” pronunciado sem o acento agudo, como vim a saber mais tarde, dava uma identidade nova à palavra. A “árvore” que eu conhecia não era a “arvore” repetida com tanta contumácia pela professora todas as vezes que recitava a cartilha. Era tudo um grande desconcerto. Resignava-me ao engano da professora.
Até hoje me concentro nesse erro daquela professora. Porque ela dizia “arvore” ao invés de “árvore” eu não sei até hoje. Olhava para os vegetais maiores não como arvores, mas como árvores. Certamente a minha professora estava errada. Entendi que a escola nem sempre ensina a ler o mundo corretamente.

terça-feira, maio 01, 2012

Graciliano Ramos e o "valor enorme das palavras"



Graciliano Ramos é um mundo vasto, mas medido pelas palavras. Da afirmação encontrada em Infância, autobiografia mesclada com elementos fictícios, de que o autor percebeu "o valor enorme das palavras", resta uma explicação para a sua obra tão ajustada, tão arrojada, como aquelas prensas utilizadas pelos nordestinos para tirar o veneno da mandioca e preparar farinha. Graça, como era conhecido pelos mais íntimos, coseu cada vócabulo como estivesse produzindo um tecido raro, medido, para o baile perfeito da literatura. Cada palavra é um tijolo de sustenção, capaz de estruturar magicamente cada um dos seus livros. Se uma palavra for extraída dessa grande estrutura, todo o restante vem abaixo. Nada se torna prescindível. Tudo está lá, posto. A argamassa de Graciliano é a literatura.

Descobri Graciliano Ramos quando estava no final do ensino médio. Ainda lembro do primeiro livro que li: São Bernardo, para mim, a sua obra mais visceral. A introspecção-reflexão de Paulo Honório no último capítulo, não perde para nenhum autor de qualquer lugar do mundo. Aquilo é de fazer chorar. Logo em seguida veio Vidas Secas, o popular tornado em elegante e erudito; e, Memórias do Cárcere, livro que me abriu olhos, deixou-me com uma impressão de que precisava daquele mundo. Em Memórias do Cárcere, percebi o peso de cada uma das palavras. Se em Vidas Secas e São Bernardo houve a preocupação com o sentido da leveza de cada uma das palavras que, juntas, constroem o peso de uma literatura capaz de aturdir, em Memórias do Cárcere a crueza e o ceticismo-realista úmido de cada palavra, lança-nos num mundo de injustiças, caos e na bárbarie dos bichos acossados pela insânia do governo getulista. Em logo em seguida, ainda no ensino médio, li Angústia. O romance me fisgou por completo. O retrato do mofino Luis da Silva dá a Graciliano, o epíteto de "dostoiévski do sertão". Crime e Castigo à brasileira.

A despeito de não ter lido apenas Viagem, conheço o restante das obras do escritor alagoano. Graciliano é uma paixão. Na minha humilde concepção, um dos maiores escritores do século XX aqui no Brasil. Citaria ainda Clarice Lispector e Guimarães Rosa para formular a tríade perfeita da literatura brasileira. O homem do sertão e de alma com impressões agrestes; de fala parca; de gestos sóbrios. Ateu. Indiferente à música. Fumante inveterado marcou a literatura. O filho biógrafo Ricardo Ramos uso o termo "rompante" para descrever esse fenômeno. Ou "diapsão alagoano". O filho privilegiado, que conviveu com o escritor durante pouco mais de vinte anos, afirma que viu o pai chorar apenas em dois episódios: (1) quando do suicídio do filho Márcio; e (2) e a outra foi na ocasião da morte de Stálin, no ano de 1953. 

Este ano, o mundo comemora 120 anos dos nascimento de Graciliano Ramos. Um dos escritores brasileiros mais respeitados do mundo.

Depois comentarei o livro Graciliano - Retrato Fragmentado, de Ricardo Ramos, que chegou à sua nova edição.

sexta-feira, outubro 21, 2011

Memórias - os itinerários do tempo (I)

A treva se enchia de mistérios, as labaredas fumacentas do fogão viviam, acompanhavam a dança das bruxas. Ali, porém, na claridade forte do sol, os terrores se dissipavam.

Graciliano Ramos, in
Infância, p.169


Cresci num ambiente profundamente rústico. Meus dias eram cheios. Dormia cedo e acordava com a alvorada. Parecia as aves do quintal. De manhã, cozinhava-se o cuscuz numa tigela de barro feita para esta finalidade. Um fumaceiro cobria a casa. A cozinha era um local negro. As paredes de barro estavam pintadas pelo pretume da fumaça fuliginosa. As panelas eram objetos bojudos feitos de barro completamente envernizados pela fumaça, resultado da combustão da madeira seca. A casa onde morava era uma tapera. Um local acanhado feito de madeira trazida da mata. Paus tortos que resultavam numa casa torta. Com o passar dos anos foram ruídos pelos cupins. Víamos pelos cantos das paredes o farelo da decomposição dos bichos miúdos que eram operários silenciosos. Na frente, uma porta mal dimensionada e uma janela escandalosamente mal projetada. Do lado direito, um oco ridículo. Dentro de casa, três cômodos estreitos e despidos de qualquer conforto. As paredes em alguns locais pareciam adquirir formas arredondadas. Quem teria sido o arquiteto daquela casinhola? Talvez matutos tivessem se ajuntado num final de semana, e, no meio da cachaça, e da conversa capenga, tivessem construído sem muitos cuidados, como era costume na região.

Dormia numa rede. A rede ficava na sala tosca. Durante o dia era enrolada e trepada na parede. Quando a noite chegava, a luz do candeeiro ajudava a nos desembaraçar do negrume. A luz mortiça do candeeiro balançava à brisa da noite. Uma fumaça escura se erguia da queima do pavio embebido no querosene. Tratava-se de uma lata com um bico feito para abrigar o pavio que, mergulhado no combustível contido no seu interior, proporcionava uma chama frouxa que alumiava a noite. Os vizinhos ficavam distantes: Mané Ivo, Zé Pequeno, João Severo, Seu Bastião, eram os mais próximos. Os mais afastados eram o meu avô Jeremias, que logo à frente contarei a importância dele para a minha educação, Bil Jorge, Vevé, Antônio Fragoso. Enxergava ao longe luzes anêmicas produzidas pelos candeeiros. Pequenos olhos acesos duelando contra o cobertor escuro da noite. As bananeiras que cercavam a minha casa produziam vozes na noite escura. Dentro de casa, criaturas – eu, minha mãe, meu pai e meu irmã. Geralmente, dormíamos cedo. Meu pai às vezes delongava-se na taverna do Seu Bastião em conversas e divertimentos com os amigos. À noite a rede era armada. Durante muitos anos dormi em redes. Quando estava na rede achava-me protegido dos entes fantasmagóricos que colhia nas conversas e que à noite trazia à minha imaginação. Cobria-me dos pés à cabeça e entedia que com este gesto estava totalmente isento de qualquer surpresa. Entedia que o pano que me cobria, proteger-me-ia do mundo, dos caiporas, das comadres fulosinhas e de todos os entes mal intencionados que surgissem. Arregalava os olhos tentava enxergar na treva medonha que me cercava.


Não me recordo bem da ocasião, mas certa vez minha mãe adquiriu um calendário com uma fotografia da Nossa Senhora Aparecida. O calendário foi afixado na parede da sala. A imagem da santa perturbava-me profundamente. A fisionomia negra da santa grudava-se na minha mente como matéria pegajosa. As vestes negras causavam-me pânico. O rosto duro, minúsculo, sumido no meio dos trajes quais plumagens de graúna, infundiam medo à noite quando os candeeiros se apagavam. Reclamava para a minha mãe.


- Deixa de se besta, menino! – dizia a minha querida mãe.


Não conseguia compreender como é que uma santa poderia provocar medo. A celestialidade dos santos estava coberta de luz, com ornamentos esbranquiçados, com faces angélicas; mas aquela santa era diferente. Era negra, de trajos negros, de fisionomia que me provocava sensações negras. Por causa disso, desde pequeno a cor preta está associada a fatos desagradáveis, a situações cavernosas na minha mente.


Quando ia para a casa do meu avô e tinha que voltar sozinho, uma apreensão grossa, graúda, abraçava-me. Por todos os lados eu estava cercado por canaviais. Mangueiras de troncos grossos, de folhagens enormes como um cogumelo gigante, que se tornavam imperceptíveis na noite escura. Embaixo delas, nos troncos, almas pelintras poderiam confabular como atacariam os humanos. Corria. Faltava-me o fôlego. Eriçava-me todo. Sentia uma mão fria pousar nas minhas costas. Espantava-me. Não tinha ânimo em olhar para trás. Com certeza havia no meu encalço seres de outro mundo. Corpos feitos de fumaça que voejavam na noite escura. Apreensão. Coração aos pulos. Tonto, não distinguia muito bem o caminho. Era guiado pelo instinto. Quando deitava, embrulhava-me embaixo da rede e me punha a pensar o que as criaturas espectrais estariam com suas legiões a fomentar contra a vida dos humanos. Mas por que tais criaturas tinham que ter raiva dos seres humanos? Não conseguia compreender.


Quando sentávamos à roda da fogueira na noite escura – eu meus colegas - , via as nossas sombras se mexerem misteriosamente na ramagem das plantas. Imaginava confabulações sendo feitas ali próximo de nós. Invisibilidade camuflada, mostrada unicamente por meio de nossas próprias figuras deformadas. Ali estavam seres de olhos de brasas, de corporatura indistinta, que se arrastavam à semelhança de vermes gigantes na treva noturna. A agonia me paralisava.


Com isto quero dizer que este cenário fantástico construiu em mim a capacidade para interpretar o mundo de modo fantasioso. De modo que hoje, ainda guardo em mim o poder da contemplação e da fantasia. Aquelas experiências amendrontadoras não incutiram medo em mim, mas a crença involuntária de que existe um outro além deste mundo. Hoje, por exemplo, quando leio uma poesia ou uma história mitológica sou remetido diretamente, sem dificuldades, ao mundo descrito no texto. Imagino realidades fantásticas com muita facilidade. Acredito, assim, que isto seja resultado dos anos mais incríveis da minha infância quando fui iniciado na arte da imaginação.


*Escrito em 2006, para uma pequena biografia que comecei a tecer. Postarei outros capítulos da pequena análise feita por mim.

terça-feira, agosto 09, 2011

Reflexões natalícias II - quando se olha para trás e se aprende que viver é agora

O filósofo dinarmarquês Soren Kierkegaard disse certa vez que "vivemos a nossa vida para frente, mas a entendemos quando olhamos para trás". Por outro lado, temos aquela metáfora bíblica sobre a mulher de Ló. Diz a Bíblia que a cidade de Sodoma e Gomorra seria destruída por Deus por causa da maldade dos seus moradores. Deus pediu que Ló e sua família (que eram os únicos justos da cidade) saíssem do lugar, pois ela seria subtraída, deixaria de existir. Seria queimada com pedras inflamadas que cairiam do céu. Ló e sua família receberam a ordem para que não olhassem para trás. No dia em que aquilo que foi avisado que aconteceria começou a se dar, Ló e sua família iniciaram a fuga da cidade. A mulher de Ló cheia de curiosidade resolveu olhar para trás, talvez, para verificar o que estava acontecendo. Mas, de repente, ela se tornou numa estátua de sal. Quiça esta metáfora tenha por finalidade deixar claro que enquanto o homem caminha não lhe é lícito ou permitido olhar para trás. Quem olha para trás esquece as promessas do presente e as possibilidades de construção do futuro.

Os romanos eram mais criativos. Para lidar com imagem do tempo, eles criaram a pessoa de Janus, o porteiro celestial. Ele era retratado com duas cabeças, representando os términos e os começos, ou seja, passado e futuro. Inlusive, o nome janeiro, primeiro mês ou mês inaugural de cada ano, foi dado em homenagem a esse deus. Mas a frase de Kierkegarrd, filósofo de palavras sábias, introduz em mim uma possibilidade reflexiva. Vivemos para frente, pois o tempo é como uma locomotiva feroz que corre em sua fúria, sem parar, sem se compadecer dos passageiros que leva.

Quando olho para trás, o que vejo? Às vezes, faces de acontecimentos indistintos; em outros momentos, faces de acontecimentos distintos. Os indistintos são aqueles que passaram e que com o tempo vão se apagando. Mas há os distintos, aqueles que tatuaram as suas marcas em mim. Que não tive como escapar de suas influências em meu ser. Outro dia eu estava pensando enquanto caminhava como a cada dia que passa vamos nos tornando num espaço habitado pela saudade. Viver é um constante sentir saudade. Sentir saudade daquilo que foi; das pessoas que já passaram por nós; das experiências que tivemos; do beijo que damos; dos caminhos que cruzamos; daquele vento povoado por fragrâncias. Eu, por exemplo, todos as vezes que sinto cheiro da terra molhada pela chuva, naqueles primeiros instantes em que tudo começa, sou reportado à minha infância.

Eu sou um baú de estético de sensações. Dentro de mim moram as memórias daquilo que o meu corpo já viveu. Sou uma imensa esponja que vai guardando fatos, acontecimentos, eventos. Por isso, enquanto eu viver serei aquilo que aprendi a ser sendo. Heidegger disse certa vez que "o ser humano é aquele não-poder-ficar e também não-poder-sair do lugar". Ou seja, somos aquela indecisão. Aquela expectativa que gera insatisfação com o agora, mas ao mesmo tempo estamos sujeitos à facticidade do nosso tempo que acontece nesse exato momento. Sofre aquele que não consegue celebrar o presente. Certa vez li uma frase curiosa do Rubem Alves: "Cheguei onde estou por caminhos que não planejei". Esta afirmação é uma afirmação de respeito para com a vida. Primeiro, porque leva em conta o aspecto dialético da vida. A vida vai nos tornando aquilo que somos em cada momento do nosso existir. Não nascemos programados e isso é extraordinário. Não caminhamos pela mesma estrada duas vezes. Caminho uma vez, mas quando volto a caminhar a estrada terá mudado e, eu, também. Esse devir dá à vida uma mecânica poética. Segundo, pois é uma afirmação que mostra alguém maduro, que aprendeu a fazer as peguntas certas à vida.

Sofre muito pela vida a fora que faz os questionamentos errados, aprende a sibilar, a produzir garatujas verbais, a balbuciar em demasia, reclamar que nada é. E o Rubem arremata: "Plantei árvores, tive filhos, escrevi livros, tenho muitos amigos e, sobretudo, gosto de brincar. Que mais posso desejar? Se eu pudesse viver novamente a minha vida, eu a viveria como a vivi porque estou feliz onde estou". O lamento é sempre uma força que enfraquece, que debilita, que nos torna murmuradores ressentidos, que não consegue enxergar nada de bom naquilo que já viveu. Nietzsche costumava dizer que feliz é o sujeito que possui memória fraca, pois ele pode viver as mesmas eexperiências como se estas fossem a primeira vez.

Portanto, é preciso aprender a olhar para trás. Não ter medo de olhar para trás como faziam os judeus. Mas saber olhar para trás e enxergar uma vasta planície pedagógica, uma campo de possibilidades que explicam o meu presente e que me conduz a um caminho certo, plano.

Ao completar mais uma ano de vida, sou grato por tudo aquilo que vivi. Pelas pessoas maravilhosas que conheço. Pelas dificuldades que sempre me forçam a aprender a ser mais, querer sempre partir, no dizer de Heidegger. Sou grato pela esposa que tenho. Não fiz planejamentos para muito daquilo que sou e tenho. Agradeço pela minha infância. Pelos dias em que celebrei o barulho e o perfume da chuva; quando pisei descalço no chão pernambucano. Sinto mudanças em meu corpo físico. Está tudo escrito no pergaminho do meu rosto - eu sou a soma de tudo aquilo que vivi - sorrisos de pessoas, abraços, livros que li, músicas que ouvi, conversas que guardei, despedidas, lágrimas que derramei, escolhas que a vida me permitiu fazer. Preciso ser como Janus - olhar para o passado porque ele me forjou, viver o presente como uma dádiva e apostar no futuro, pois é para lá que a vida nos leva.

Que venha a próxima primavera!