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quarta-feira, março 01, 2023

30 anos de um regresso

 


Minha família migrou para a Capital Federal em 1989. Eu recém completara nove anos de idade. Foi um evento grandioso, capaz de sugerir mudanças e descobertas. Eu era um sujeito matuto – e de certa forma ainda sou. Essa palavra deriva do latim “matto” (‘floresta’, ‘arbusto’), acrescida do sufixo “–uto”, cujo significado exprime ‘aquilo que se liga a algo’. Verifica-se assim que matuto é aquele que veio da zona rural, do mato; ou aquilo que faz referência ao mato. No Brasil, essa palavra ganhou acepções para indicar, de forma depreciativa, aquele que é rústico, acanhado, tímido.

                No Nordeste, a palavra possui grande resplandecência. Ser chamado de matuto indica objetivamente aquele que possui dificuldades para, como diz o antropólogo Roberto DaMatta, realizar a “navegação social”.

                Ser criança na periferia do Distrito federal no início dos anos 90 foi algo curioso. Fiquei quatro anos sem voltar ao meu Pernambuco. Esperei três anos para realizar o épico caminho da volta. Dessa vez, eu, meu irmão e minha mãe íamos na condição de visitantes. Para um sujeito recém-entrado na adolescência como eu, aquilo possuía uma inebriante fragrância. Fomentava imagens, ficções; assinalava enredos.

                Recordo precisamente o dia que saímos. Possivelmente, tenha sido numa sexta-feira à noite. Era o costume. Dessa forma, chegava-se ao Recife no domingo pela manhã. Não consigo esquecer os efeitos daquela saga. A primeira noite forneceu-nos uma acomodação ignominiosa. O ônibus ziguezagueava em meio à estrada calamitosa. A BR-020 era um queijo suíço. Os solavancos recorriam com abreviada recorrência. A suspensão mole do ônibus fazia-me crer que estava em uma gangorra. Em dados momentos, o motorista direcionava o veículo para uma estrada clandestina que se formara paralela à rodovia. Era o resultado da peleja dos outros motoristas tentando fugir da estrada com aspectos lunares.

                Tudo me parecia grandioso: o mundo, as paisagens, as paradas que aconteciam em intervalos irregulares – 15 minutos, 20 minutos, 30 minutos. O motorista da vez verbalizava: “Esta é cidade tal. Pararemos aqui por 15 minutos”. Era o tempo que os assustados, atarantados passageiros teriam para ir ao banheiro; ou espicharem o corpo cansado pela refrega contínua da viagem. Ficava de olhos arregalados. O ônibus não possuía ar condicionado. Viajávamos com as janelas abertas. Recebíamos o bafo quente, mesclado pelas partículas do tempo.

                Minha mãe com duas criaturas que não foram iniciadas no traquejo social – eu e meu irmão -  fazia advertências. Espavorido, eu arregalava os olhos. Memorizava, como se estivesse verbalizando um credo forçado, os números de registro do ônibus. Movia-me com metódico cálculo. O medo de ficar para trás era um fantasma que revoluteava como uma sacola agitada pelo vento ao meu redor. Ficávamos com os olhos grudados no ônibus da Itapemirim. Íamos assim até o nosso destino final. Toda parada envidava uma operação com estratégias estudadas com esforço.

                Transposta a tumultuada primeira noite, os passageiros gestavam uma curiosa solidariedade.  Conversavam. Pareciam velhos amigos. Entravam em minudências. Segredavam os destinos para onde iam. Compartilhavam – em certos momentos – os tímidos repastos. Minha mãe se munira com biscoitos, maçãs e farofa para realizar a heroica travessia e saciar a fome de sua prole.

                Aquela viagem me ensinou a entender o movimento de volta, o regresso. Ao voltar, nota-se o efeito do tempo. O regresso permite a gestação de expectativas. Passa-se a compreender certas coisas. Olha-se com desvelo o corriqueiro. É a saudade que nos empurra para trás. E como diz Guimarães Rosa: “Toda saudade é uma espécie de velhice”. Mais tarde, eu compreendi que por estar voltando, eu era um Ulisses com a expectativa de reencontrar a minha Ítaca.  

quarta-feira, outubro 19, 2022

Viagem a Ouro Preto - algumas impressões históricas


Museu dos Inconfidentes

            Ao longo de três dias, tive o grato privilégio de visitar Ouro Preto, uma das cidades mais bonitas e icônicas do Brasil. Ao longo de minha jornada estudantil, havia aprendido que a cidade fora um importante palco da história do país – principalmente, por causa da Inconfidência Mineira e pelo grande acervo de obras artísticas.

Cheguei à cidade à noite. Ainda à distância, a primeira imagem que pude testemunhar, enquanto descia de carro uma escarpa que leva à cidade, foi uma igreja iluminada. A construção se destacava em meio ao casario que se ocultava na escuridão e revelava na treva apenas os olhos pequenos e notívagos das janelas iluminadas. Fiz uma pequena caminhada pelo pátio da Praça principal da cidade. Olhei o obelisco construído no lugar em que a cabeça de Joaquim José da Silva Xavier, mais conhecido como Tiradentes, ficou exposta após receber a pena capital. Desta posição, o prédio que mais se destaca é o Museu dos Inconfidentes, lugar dedicado à memória da Inconfidência. Deambulei pelo pátio de pedra. Senti as emanações do vento agradável que soprava nos mais de mil e cem metros de altitude.

Tive dois dias completos para poder explorar a cidade. Pouco. Muito pouco. Poderia ter passado uma semana por lá. Como pude logo perceber, quando se visita a cidade, a impressão que passamos a ter é a de que a história continua viva; que os principais personagens que a fizeram ainda continuam por ali. As pedras do calçamento revelam os segredos das violências ali urdidas. Ladeiras imensas. Dirigir é um grande desafio. Há ladeiras que nos enche de incredulidade sobre a possibilidade do carro conseguir galgá-las.

Altar da Igreja de Santa Ifigênia

            Ouro Preto possui mais de 320 anos desde a sua fundação. Ela é resultado da ânsia da Coroa Portuguesa pelo achamento de pedras preciosas. O comércio do açúcar havia esgotado ainda no século XVII. Os holandeses levaram a tecnologia da produção para o Caribe. A técnica melhor aplicada e a proximidade física com a Europa impuseram a Portugal uma avassaladora derrota no antigo posto de grande produtor de açúcar no Ocidente. Os primeiros indivíduos que chegaram à cidade à procura de metais preciosos – principalmente diamantes e ouro – foram os bandeirantes. Descobriram ouro no leito dos rios. O nome da cidade deriva desse fato, pois o ouro encontrado estava misturado a pedras escuras por causa do minério de ferro. Todavia, inicialmente ela foi chamada de Vila Rica e foi tornada capital da província de Minas Gerais até o final do século XIX, quando houve o projeto de mudança para Belo Horizonte.

A partir da descoberta do ouro, houve uma vertiginosa corrida para a cidade. Ouro Preto se tornou um dos centros mais populosos da América Latina. Estima-se que a sua população passasse dos cem mil habitantes em pleno século XVIII, uma população dez vezes maior do que a população da cidade de São Paulo. O fluxo passa a ser intenso. Minas passam a ser exploradas, o que torna a cidade em um verdadeiro “queijo suíço”. Essas minas eram exploradas quase 24 horas por dia pela mão-de-obra escrava. Estima-se que mais de quatrocentas minas foram abertas na cidade. Todas elas indicam o quanto foi intensa a atividade mineradora.

Monumento construído no lugar em que a cabeça de Tiradentes foi exposta

            Portugal desde o princípio, procurou impelir um movimento para controlar essa produção. Foram instituídas as Casas de Fundição, que imprimiam o selo real ao ouro que era achado. Instituiu-se a Derrama, um imposto de vinte por cento de tudo aquilo que era achado. Com isso, havia cotas estabelecidas no padrão de 100 arrobas ou 1500 quilos de ouro anuais que deveriam ser achados e entregues à Metrópole. O objetivo dessa exploração era quitar dívidas com a Inglaterra. Apenas uma pequena porção desse ouro ficou na cidade. Ele pode ser encontrado no altar das belas igrejas. A grande maioria do ouro se encontra na Inglaterra.

Como a atividade mineradora foi entrando em declínio e Portugal continuava com a sua sanha para arrecadar os mesmos valores, as dívidas dos colonos passaram a números absurdos. Bens, propriedades, joias, móveis, passaram a ser confiscados. A Inconfidência nasce como um movimento que buscava acabar com os abusos cometidos pela Coroa Portuguesa. Havia ainda uma iniciativa separatista. Outro projeto era a criação de uma universidade na cidade. Os inconfidentes como ficaram conhecidos, foram motivados pelas mudanças que estavam acontecendo na Europa e pela independência das 13 Colônias na América do Norte, formando aquilo que conhecemos hoje como Estados Unidos. A independência de um país com moldes liberais como se dera nos Estados Unidos, em 1776, mobilizava o entusiasmo de nomes como o do poeta e jurista Tomás Antônio Gonzaga, autor de “Cartas Chilenas”, “Marília do Dirceu” e um manual de direito natural, escrito pela ocasião da sua formação em Portugal. Gonzaga é um dos grandes nomes do Arcadismo. Outro importante nome é o do advogado e poeta Claudio Manuel da Costa, que acabou, segundo versão canônica dos livros de história, se matando na prisão. Esse é um fato controverso, conforme pude apurar com alguns guias. É possível que ele tenha sido morto por tudo aquilo que sabia. Alvarenga Peixoto é outro nome importante. Peixoto acabou sendo degredado de forma permanente para a África. Ele é o responsável pela escrita da frase latina da bandeira de Minas – “Libertas quae sera tamen”, extraído de um verso do poeta romano Virgílio. Além desses há a figura de alguns cônegos e o caso emblemático do alferes Joaquim José da Silva Xavier, “o Tiradentes”, que teve a sua pena assinada pela rainha Maria I. O movimento foi traído por Joaquim Silvério dos Reis.

Igreja de São Francisco de Assis

           Vale mencionar que o Iluminismo também foi uma importante influência. Claudio Manuel da Costa e Tomás Antônio Gonzaga talvez sejam os dois grandes mentores intelectuais do movimento. Os dois haviam estado na Europa e certamente entraram em contato com os textos dos contratualistas franceses e ingleses. A vocação liberal era um dos lemas do movimento.

Enquanto caminhava pelo calçamento de pedra e sentia o cheiro dos monumentos, percebia o quanto a força dos escravos foi responsável pela construção da cidade. Isso está posto nos museus, nas igrejas, nas pedras das ruas, nas paredes dos casarões, no silêncio escuro e úmido das minas. Os escravos foram a força motriz que ergueu a cidade. Os rastros da violência institucionalizada estão colocados nas esquinas, na forma como se organizavam as missas, na obrigatoriedade de seguir a fé cristã, mesmo sendo oriundo de um local em que essa tradição não existia.

Um exemplo dessa relação de violência pode ser demonstrada no processo de construção da Igreja de Nossa Senhora do Rosário e Santa Ifigênia, erguida entre os anos de 1733 e 1785. Ifigênia segundo reza a tradição era de Noba – na Etiópia -, e teria se convertido pela pregação do evangelista Matheus. Era negra. Consagrou a sua virgindade a Deus. Mais tarde, sendo obrigada a casar com um tirano, recusou de forma peremptória. O cruel monarca decidiu, por isso, incendiar o convento onde Ifigênia e outras mulheres se dedicavam ao serviço religioso. Quando as chamas devoravam a construção, elas decidiram invocar o nome de Jesus. Milagrosamente, o incêndio apagou e iniciou no palácio do rei. Em sua imagem, nota-se uma chama em uma das suas mãos. Ela é a padroeira da igreja. A Igreja de Santa Ifigênia foi construída pelos e para os escravos. É a única na cidade com esse objetivo. Nas demais igrejas históricas (quase vinte), os escravos não ocupavam dignamente os espaços de culto. Assistiam à missa do lado de fora. E, nesse sentido, notamos a terrível violência praticada contra eles e: (1) por não terem direito ao culto, já que a premissa básica do cristianismo é de que todos são iguais perante Deus; (2) a obrigatoriedade de cultuarem as mesmas divindades dos seus algozes. Não fazia sentido, assim como hoje não faz sentido.

Muitas expressões usadas até os nossos dias, principalmente em Minas Gerais, são resultado da relação de violência perpetrada contra os escravos. A sociabilidade brasileira está saturada por um imaginário de encobrimento do outro. São exemplos: “dar no couro”; “enquanto descansa, carrega pedra”; “levar a égua”; “serviço de meia tigela”; “encher o bucho”; “olha o passarinho”; “cair no conto do vigário”; “santo do pau oco”; “tirar o cavalo da chuva”; “estar com o burro na sombra”; “para inglês ver” entre outras. Essas expressões indicam o quanto a violência e as relações de dominação e expropriação fazem parte do nosso imaginário. Expressões racistas também são repetidas, às vezes, sem que se faça a devida reflexão da violência simbólica que elas disseminam – “Você está me denegrindo”; “A coisa tá preta”; ou “Isso é magia negra”.

Basílica Matriz de Nossa Senhora do Pilar

             Outra página importante são igrejas. Todas construídas para indicar a opulência de um momento importante da história do Brasil e da cidade. E, nesse sentido, Ouro Preto é um dos mais importantes centros do mundo com essa característica. Na cidade, o barroco e o rococó se firmaram como movimentos complementares. Tive a oportunidade de visitar quatro das mais bonitas igrejas da cidade – a já mencionada Igreja de Santa Ifigênia e outras três que revelam o apuro e a meticulosidade do trabalho de embelezamento: Igreja de São Francisco de Assis, repleta de obras de Aleijadinho e um dos tetos barrocos mais bonitos do mundo; Igreja de Nossa Senhora do Carmo, com forte estilo fincado na tradição rococó; e a Basílica Matriz de Nossa Senhora do Pilar, que possui um dos altares com maior quantidade de ouro do Brasil (mais de quatrocentos quilos).

Nota-se em cada igreja a preocupação com o significado dos elementos. O fiel ao entrar em cada igreja deveria ser absorvido por aquilo que via. Sendo assim, há uma imposição de elementos aos sentidos e à cognição. A monumentalidade das construções deveria “dizer” algo. Há uma profusão de referências explícitas ou, às vezes, veladas. O observador comum e desatento deixa passar a maior parte dos detalhes. O teto, o altar, os afrescos, os azulejos; nas referências sagradas ou profanas, há uma indução para que o fiel seja direcionado à divindade. O que importa é o esfuziamento de detalhes e as impressões geradas. Pode-se ficar por horas e horas contemplando o multíplice conjunto de minúcias. E aqui assinalamos uma importante questão: pode-se fazer uma viagem à cidade, simplesmente, para observar as igrejas. São extraordinárias.

Enquanto saía da Igreja de São Francisco de Assis, um senhor fez uma indagação que me deixou pensando. A pergunta veio sem que eu esperasse e, por isso, causou um súbito efeito. Perguntou ele: “A turma de há duzentos anos deixou isso para que nós pudéssemos ver; e, nós, o que vamos deixar para aqueles que viverão daqui a duzentos anos?”. Fiquei sem saber o que dizer. Seu questionamento é inquietante. 

Ouro Preto, assim como as outras cidades mineiras que compõem o Ciclo do Ouro – Mariana, Congonhas, São João del Rey, Sabará, Tiradentes etc – são textos abertos para que possamos ler e nos deleitar. Depois de visitá-la (espero um dia voltar novamente) pude compreender um pouco mais a nossa história tão “ignorada e tão mal contada” e me bateu um desejo profundo de saber mais sobre os eventos que envolvem essa página do país.

 

           

domingo, fevereiro 21, 2016

Crônica de uma viagem - parte 2

Como deixei transparecer na última postagem sobre a viagem que eu e minha esposa realizamos, saímos da rústica e atraente Lençóis e rumamos para Aracaju. Saímos por volta de 11 horas da manhã. O sol estava a pino. Incidia diretamente no calçamento pedregoso e criava uma expectativa por sombra. Tiramos algumas fotos do lugar. Olhei lânguido para os morros que cercam a cidade. Lençóis foi construída em um vale. Por dentro do seu organismo, há um rio com o nome da cidade, que a atravessa como se fosse uma veia femural.

Entramos no carro. Dirigimos os onze quilômetros da BA 144, que separam Lençóis da BR 242. Rumamos em velocidade regular. Bebericava a paisagem. Engolia-a. Sorvia o máximo possível. Tenho uma paixão por viajar de carro. Faz-me lembrar aquele música de Luis Gonzaga: "Estrada de Canindé". É indo pela estrada que vemos a natureza em sua largueza primeva - "O orvalho beijando a flor; o galo-de-campina, que quando canta muda de cor; as águas do riacho... que água fresca, nosso Senhor". Essa paráfrase surgia mansa por entre as folhagens da floresta enorme de contentamento. Todas as vezes que escuto essa música, sou atravessado pela certeza de que são as pequenas coisas que trazem gozos singelos e necessários. 

A velocidade do avião - para mim - é uma metáfora do mundo moderno. Estamos sempre correndo - até mesmo na hora em que viajamos. Não tenho pressa. Alguns detalhes acabam ficando para trás quando nos arvoramos, quando aceitamos a tresloucada indisciplina do nosso tempo. Estamos sempre correndo. E, por corrermos em excesso, deixamos passar alguns elementos que tornam a nossa vida mais plena de sentido. Pensando nessas coisas, eu conversava com a minha esposa. 

A estrada ia ficando para trás. As cidades a se sucederem, enquanto empreendia marcha tranquila - Tanquinho, São Miguel, Itaberaba, Argoim, Feira de Santana. Desde criança, desejava dirigir por esses trechos. Lembro-me de que em tempos de criança, eu, minha mãe e meu irmão costumávamos percorrer esse trajeto no ônibus da Viação Itapemirim. Íamos para Pernambuco praticamente todos os anos. Ficávamos quase três dias dentro do caixote amarelo motorizado. Até hoje, quando vejo um ônibus da empresa, vêm a mim os aromas indeléveis da infância. E, nesse sentido, recordo-me de uma frase de Rubem Alves. Diz ele que 'a felicidade é o que descobrimos quando voltamos ao mesmo lugar'. Sim. Para mim, voltar àquele lugar significa sentir os eflúvios de um tempo que não é mais matéria, mas é saudade. 

Chegamos a Feira de Santana por volta das três da tarde. Entreguei o volante à minha esposa. Ela dirigiu um pequeno trecho pela BR 324, que segue para Salvador. Pegamos desvio. Seguimos pela BR 101, uma das maiores rodovias do Brasil. O pesado fluxo de caminhões torna a direção um negócio que exige paciência. Alguns sujeitos acabam assumindo uma postura de doidivanas. Fiam-se por um estouvamento inconsequente. Fazem ultrapassagens impossíveis como se estivessem fugindo de ameaça poderosa. Metem-se em brechas. Costuram pelo acostamento. Põem em risco a vida do cidadão tranquilo que segue alheio a esses rompantes de imprudência. Absurdifiquei-me em alguns momentos. Arreliei-me. Engrossei o discurso em um protesto arrepiado. Tentei meter juízo em minha razão incrédula. Fazer um exercício de compreensão. Mais protestos. Minha esposa achou que minha expansão era pouco razoável. Voltei a mim. Fiquei a pensar como o sujeito se mete em desatinado empreendimento.  Certamente, tal ação é desnecessária. O procedimento do pequeno-burguês ajuda a aumentar as estatísticas com acidentes terríveis pelas estradas brasileiras. Dentro do seu modelo SUV, o patife sente-se protegido. Exibe sua pretensa potência para o mundo. O carro é uma armadura. O pulha se acha encapsulado, protegido das refregas do mundo exterior. Seu senso de liberdade é uma ameaça a sujeitos que buscam apenas seguirem com tranquilidade para os seus destinos como eu estava naquele momento. 

Trecho complexo entre Feira de Santana-BA e Estância-SE. E minha esposa aguentou a premência da situação. Uma admiração silenciosa cresceu em mim. Chegamos a Aracaju por volta de sete e meia da noite. Em um primeiro instante, julguei o trânsito caótico. Ao passar pela Rodoviária Interestadual da cidade, lembrei o fato de ter estado lá dois anos antes. Achamos o hostel onde ficaríamos por seis dias. Saímos para comer. Fizemos um reconhecimento inicial da orla simpática de Atalaia. Nunca havia visto tanto lugar onde se pode tomar açaí. Pensei em associação invisível entre os sergipanos e paraenses.  

Ficamos na cidade do dia 29 de dezembro até o dia 4 de janeiro. A experiência foi positiva. A capital sergipana é cheia de atrativos. A logística do trânsito funciona de forma satisfatória. Enquanto estive por lá, a cidade estava empanturrada de turistas. Sair para comer à noite era sempre disputado. Os restaurantes e lanchonetes estavam lotados.

Suas praias não são das mais belas. O mar é bastante recuado. Caminha-se mais de cem metros para se chegar até a praia em alguns trechos. As ondas são sempre agitadas. Quem gosta de vagas mais tranquilas, certamente não as encontrará em Aracaju. Todavia, a cidade possui um charme particular. O povo é receptivo e conversador.

Dois locais deixaram marcas salientes em minha visita a Sergipe. O primeiro deles é a visita que fiz à Usina de Xingó, localizada a aproximadamente duzentos e trinta quilômetros da capital, localizada no município de Canindé de São Francisco. Compramos o passeio. A empresa apareceu por volta de sete e meia da manhã. O café da manhã da pousada ficou incompleto. Não concluímos o repasto matinal. A vã deu várias voltas pela cidade para pegar outros sujeitos que se fiariam na viagem também. Viajamos por cerca de três horas e meia para chegar até lá.

O motorista da condução aparentava sinais de cansaço. Os olhos eram duas esferas vermelhas. Disse em outro momento para mim que acordara às cinco e meia da madrugada. Um átimo de preocupação acometeu os circunstantes. Certos indivíduos resolveram puxar conversa com o sujeito. Com esse mister seguimos pelo sertão sergipano. Casas acanhadas no meio da vegetação seca, estorricada. Árvores distantes, separadas por distâncias enormes. As catingueiras a surgirem floridas em ilhas no meio da paisagem agreste. Em planícies ressequidas, povoadas pelas manchas amarelas dos pau d'alhos, o gado magro se alimentava de uma vegetação inexistente e seca. Plantações de cactos nos quintais das casas criavam uma paisagem diversa. Fiquei a pensar na utilidade da planta; como o sertanejo arranjava emprego para a palma espinhosa.

Ao passarmos por Poço Redondo, o guia nos comunicou que aquele foi o lugar em que Lampião e seus cabras foram apanhados pelas tropas policiais e depois tiveram suas cabeças cortadas, sendo exibidas em seguida como se tratasse de um aviso sinistro, terrível. Pelo que entendi, existe um passeio que é feito para se conhecer o local da emboscada montada pelos sicários do governo para apanhar a grande lenda do cangaço.

De Poço Redondo a Canindé de São Francisco a viagem deve demorar, no máximo, quarenta minutos. Seguimos. Chegamos à cidade. Coleamos um trecho íngreme. Descemos. Debaixo, pude avistar as paredes e as turbinas da Hidroelétrica. Um trecho pedregoso se avizinhou. Chegamos a um plano mais alto. De lá, pude avistar o imenso lago da Usina. O motorista tentou arranjar uma vaga no estacionamento impossível. Uma renque de ônibus e carros de passeio a equilibrarem-se numa ladeira. Descemos do veículo. O sol inclemente golpeava o meu cocuruto. Criava uma sensação de asfixia. Gotículas davam a sensação de que ribeiros insignificantes corriam por baixo da camisa. Queria uma sombra. Fomos conduzidos a um espaço exíguo. O guia foi comprar os ingressos. Fiquei a observar o espaço no meio da grande chusma. Vozerio imenso. Sujeitos passavam. Uma música capenga de tom festivo se misturava a uma voz que dava instruções para as viagens que sairiam mais tarde nos catamarãs.

Ingressos conseguidos, eu e minha esposa entramos numa debate sobre a possibilidade de almoçar. A fila para comprar os ingressos para o almoço era uma serpente de extensão considerável. Dava voltas. Adquiria formas novas. Fundia-se. Era atravessada por ela mesma. Os cozinheiros levavam panelas enormes para um espaço contíguo. Faziam-se solicitações a fim de lograrem espaço ocupado por copiosa gente. Eu e e minha esposa chegamos à beira do caixa para sermos atendidos. Encetamos novo debate. Seria possível almoçar em meio a tão grande magote? Perderíamos a embarcação? Por fim, desistimos.

Fato interessante se deu quando eu estava sozinho, encostado à amurada de madeira, observando as susceptibilidades. Alguém chegou e perguntou em qual fila seria possível comprar o ingresso para o almoço. Senti-lhe o sotaque. Percebi que se tratava de um habitante da comunidade lusófona. Fiz algumas indagações e iniciamos uma parolagem que se estendeu por quase uma hora. Tratava-se de um sujeito de nome Wagner Bichó, nascido em Guiné Bissau, professor da Universidade Federal de Alagoas (UFAL), que estava por ali com finalidades prescrutadoras. A conversa ziguezagueou por temas diversos. O sujeito falava dos assuntos do nosso nanismo nacional com conhecimento, agudeza e tenacidade. Não pude deixar de admirar-lhe a capacidade. Sua visão humanística. A elasticidade da fala. O primor na análise. A docilidade do dialeto. Os tropos a se derramarem em aplicações exatas. Entusiasmei-me. Gostei daquela figura. Havia um vínculo invisível em nossas histórias. Aproximava-nos por causa dos lastros de exploração sofridos pelo continente africano e o colonialismo impingido ao Brasil e ao restante da América Latina. O encontro com o Wagner valeu a minha ida até o Xingó. Desejei conversar mais. Despedi-me. A embarcação fazia a chamada para o passeio.

Aprumamo-nos na prancha da embarcação. O sol inclemente do início da tarde molestava selvagemente. Recebemos instruções. A embarcação saiu leve, singrando pelas águas esverdeadas do Velho Chico. A extensão líquida de cor de esmeralda criava um contraste intrigante com a paisagem severa que se espalhava ao redor. Dentro da embarcação, procurei um lugar adequado para fazer algumas fotografias. Um falatório grosso não possibilitava qualquer compreensão. A massa sonora era um afluente da música que tocava. As duas braças sonoras se encontravam. Formavam um organismo confuso. O consumo de cerveja esticava os ânimos. Mais falatório. No canto, eu procurava me nutrir da paisagem. Trata-se de um lugar de beleza exótica. A água, potencializadora da vida, estava ali em excesso, costurada nas várias ramificações do corpo do lago e, mesmo tempo, do outro lado, a secura, a paisagem pedregosa e inamistosa, polvilhada pelo sol abrasivo, fazia surgir dualidades. Não deixei de pensar sobre esse fato. Grotas enormes. Pedras. Escarpas vermelhas. Imaginei os bichos que se abrigavam por ali - serpentes venenosas, escorpiões, lagartixas.

A viagem durou cerca de quarenta minutos. Ao chegar ao destino, ficamos uma hora. Retornamos próximo das quatro. A viagem de volta foi longa. Desejei retornar logo. Imaginei os bugalhos vermelhos do motorista. O cansaço acumulado. O corpo a reclamar o descanso. Finalmente, Aracaju apareceu por volta da oito da noite.

Outro fato gostoso que se deu foi a visita ao Museu da Gente Sergipana. O espaço é dedicado à divulgação da cultura e da história do povo sergipano. Procura-se com isso dignificar os costumes, tradições, os falares, as personagens, que construíram e constroem o modo de ser de Sergipe. Algumas revindicações do museu, pelo que observei, podem ser encontradas em outros estados nordestinos - Pernambuco, Paraíba, Alagoas, por exemplo. Refiro-me a determinadas expressões, festas, objetos variados da cultura. O visitante desavisado acaba achando que se trata de algo privativo da cultura de Sergipe. Não. Penso que além de exaltar o Estado, o museu enobrece a bela e rica cultura nordestina.

Um aspecto muito importante do museu é a interatividade. Em todos os espaços, o visitante pode participar, jogar, manipular, verbalizar com os objetos, vídeos, telas animadas. Pode-se ficar bastante tempo por ali. Enriquecer-se com o enxurro de informações.

Aracaju deixou-me impressões grossas e prazenteiras. Saí de lá bastante feliz. Valeu a visita. Pretendo revisitá-la.



Saímos de lá dia quatro de janeiro e fomos para João Pessoa, a capital paraibana. 

Últimos instantes em Lençóis

BR 242 - próximo a Argoim-BA

Sertão sergipano




Chegada ao lago de Xingó. No centro, São Francisco
Praça Lampião - Poço Redondo- SE


Lago de Xingó-SE


O ludismo do tempo na pasiagem
Minha senhora a contemplar a beleza esverdeada
Eu em frente ao Museu da Gente Sergipana
Algumas palavras que povoam o falar do sergipano - não somente do sergipano



segunda-feira, janeiro 25, 2016

Crônica de uma viagem - parte 1

Escreverei dois ou três textos sobre a minha viagem de férias, realizada entre os dias 26 de dezembro e 21 de janeiro por cinco estados nordestinos. A princípio a coisa se parece com aquelas tarefas escolares de início de ano: "Como foram as minhas férias!" Tentando fugir dessa característica, a minha intenção é manter vivo aquilo que experimentei. Ao escrever imortalizamos aquilo que é mortal; damos carne e substância ao tempo que já não existe e que mora dentro de nós como memória. Meu corpo é um museu habitado por muitas memórias. Há inúmeros quadros espalhados por galerias imensas no meu ser, povoadas por paisagens singulares. 

Pois, no dia 26 de dezembro, eu e minha esposa partimos para Lençóis, na Bahia. Saímos às cinco horas da madrugada. Viajamos mil e cem quilômetros. Chegamos à cidade que preserva as marcas do garimpo de pedras preciosas por volta da sete da noite. Tudo já estava escuro. Foi uma viagem tranquila. Saímos do DF, entramos no Goiás; saímos do Goiás e  "rumamos" pela imensa Bahia. 

Estabelecemo-nos na cidade de Lençóis durante três dias. Visitamos alguns pontos importantes do lugar. Um dos referenciais da cidade é o turismo natural. O Parque Nacional da Chapada da Diamantina, criado em 1985, possui uma área de quase 153 mil hectares, situado nos municípios de Lençóis, Mucugê, Palmeiras, Iramaia, Itaetê, Andaraí, Ibicoara, entre outros. A região vive basicamente do turismo. Enquanto estava por lá, notei a quantidade de estrangeiros - canadenses, alemães, franceses, ingleses, estadunidenses e gente de muitas regiões do Brasil. 

Visitamos a Gruta da Pratinha, situada em uma fazenda particular. É preciso pagar R$ 10,00 para entrar. O lugar dispõe de banheiros. A comida vendida no quilo é gostosa. Possui um sabor bem caseiro e, levemente, conserva as nuances do tempero nordestino. 

Visitei ainda o Morro do Pai Inácio, um dos poucos morros da Chapada no qual se pode subir. A escalada é tranquila. É preciso ter força física, destreza e fôlego. Todavia, com tranquilidade e perseverança se consegue chegar ao alto. O prêmio é uma visão privilegiada. Avistam-se os morros da região; os vales próximos; e é possível tirar fotos que são verdadeiros cartões postais. 

Dois outros locais interessantes que visitei foram o Ribeirão do Meio e a Cachoeira do Mosquito. Aquele pode ser visitado a pé, já que se encontra próximo à cidade. Esta fica distante. É preciso ir de carro. Segue-se pela BR 242. Em seguida, percorre-se um trecho de vinte quilômetros numa estrada de terra. Fato inusitado se deu quando eu, minha esposa, meu irmão, sua esposa e algumas amizades que fizemos na cidade, debatíamos sobre como chegaríamos ao Ribeirão. Um senhor da cidade ficou observando. Era negro. Simpático. Circunspecto. De meia idade. E depois pude observar que apresentava apenas dois dentes em seu sorriso. Aproximou-se e proferiu com singeleza:

 - Com licença... Eu estava ouvindo vocês falando sobre o caminho para o Ribeirão... - e, e logo em seguida, debulhou o itinerário do Ribeirão numa fala grávida pelo sotaque mavioso da Bahia.

Perguntei para alongar a conversa e me deliciar com seu dialeto:

- Lá é legal? 

E aí escutei a exclamativa e musical afirmação:

- Olhe! Lá é massa!!! - e logo em seguida saiu pedindo desculpas pela intromissão com seu passo pachorrento, com as mãos para trás. 

Aquela expressão "Lá é massa!" abriu um imenso clarão de alegria dentro de mim, que nessas linhas chochas e inexpressivas não consigo recriar a cadência de sua voz; a expansão ou o intervalo de sua entonação. Todos do grupo ficamos rindo. 

Outra experiência gratificante na cidade foi ter comido no único restaurante mexicano da cidade - o Burritos y Taquitos. O dono do restaurante morou por algum tempo no México e trouxe de lá a cabala dos temperos da terra dos maias. Para comer lá é necessário agendar com alguma antecedência, porquanto é bastante visitado. O espaço possui fragrâncias exóticas, resultado do incenso que busca recriar os feitiços da rica e complexa cultura mexicana. Gostei tanto da experiência, que eu e minha esposa nos vimos obrigados a comer mais uma vez naquele lugar ao voltarmos para casa. 

De Lençóis, no dia 29 de dezembro, rumamos para Aracaju, que fica a 650 quilômetros da cidade baiana. Dirigi de Lençóis a Feira de Santana; e a minha encantável esposa conduziu-nos até Aracaju, a capital sergipana. 

Outro dia, continuarei a contar os fatos ocorridos em Sergipe e na Paraíba.  

Abaixo, algumas fotos tiradas em meu celular. 

Gruta da Pratinha

Vista privilegiada do Vale. De cima do Morro do Pai Inácio

Minha linda senhora!

A fera!

Entrada da Cachoeira do Mosquito

Cachoeira do Mosquito


Uma das ruas de Lençóis



terça-feira, julho 21, 2015

Registro Crônico IV

No quintal da casa de Pablo Neruda
Valparaíso, en cambio, abre sus puertas al infinito mar, a los gritos de las calles, a los ojos de los ninõs. 
Pablo Neruda

Um dos momentos mais especiais da viagem que realizei ao Chile foi a chance de visitar duas importantes cidades - Viña del Mar, a cidade jardim, e a velha e mítica Valparaíso, lugar que como diz Neruda na ode que escreveu para a cidade é um "puerto loco/ qué cabeza/ con cerros/ desgreñada". Viña del Mar é a moça jovem, formosa, povoada por prédios modernos e recantos para os ricos; lugar de flores, de praias convidativas durante o verão. Valparaíso, por sua vez, é uma senhora "louca", com suas encostas vestidas por casas; suas ladeiras íngremes escondem segredos e proporcionam uma visão indelével para "o infinito mar". 

A visita foi bastante prazerosa - e repleta de ensinamentos. A começar pelo divertido e competente guia: um senhor chileno que havia lido praticamente toda a obra em prosa de Machado de Assis; conhecia as literaturas inglesa, estadunidense e francesa; que conhecia o cinema produzido nas décadas de 30, 40 e 50 e citava com uma desenvoltura impressionável os nomes dos principais atores e atrizes que brilharam àquela época. Havia viajado por boa parte dos países da América do Sul e vivera quatro anos no Rio de Janeiro. Sabia falar francês e inglês, além de arranhar o português. Conversamos bastante. Seu nome era Alejandro. 

Conseguia narrar a história dos prédios públicos, dos espaços importantes e simbólicos, ligando-os à história social, militar e política do Chile. Acredito que o passeio tenha se tornado, em parte, repleto de encantos por sua presença. 

O Pacífico em Viña del Mar
Em Viña del Mar visitamos o famoso relógio de flores, que fica a poucos minutos da entrada da cidade. Fomos ao cassino, à praia e foi de lá que avistei o imenso Pacífico. Suas águas geladas a esconder mistérios. Os pássaros a voarem, os pelicanos com seus papos enfunados a delimitarem as superfícies pedregosas. Fiquei olhando a imensidão de um verde que oscilava para o escuro. Sua água gelada, influenciada pelas correntes glaciais vindas do extremo Sul do Planeta. 

Como afirmei acima, Viña del Mar é uma moça de corpo jovem a exalar as fragrâncias de mocidade moderna. Já Valparaíso, a cidade ao lado, é mais velha. Ao se chegar a Valparaíso é possível enxergar de longe as casas humildes e como dizia Neruda: "Valparaíso... en los cerros se derrama la pobretería como una escada". Sim! Debaixo é possível enxergar construções mais suburbanas. Valparaíso é uma cidade que foi se empoleirando pelas encostas para enxergar a distância do imenso mar. 

Ela é a porta de entrada para a vida econômica do Chile. Seu porto possui uma importância fundamental para o país. No passado, foi um dos locais por onde mais passavam riquezas no hemisfério sul. Os navios que vinham do Oriente ou do oeste americano, tinham que passar por lá para chegar ao Atlântico, passando pelo Estreito de Magalhães. É possível que o biólogo inglês Charles Darwin tenha passado por lá. Com a construção do Canal do Panamá, na primeira metade do século XX, sua importância foi empalidecendo. Todavia, ainda é o local por onde entram as mercadorias que abastecem todo Chile. Além desse aspecto econômico, Valparaíso é uma das primeiras cidades a serem fundadas no Chile. Estima-se que ela tenha surgido na década de 50 do século XVI. Suas lojas podem ser notadas próximas aos prédios antigos. Outra curiosidade sobre a cidade é o fato de o Legislativo do Chile funcionar lá, desde a Ditadura de Pinochet. O sádico ditador buscou descentralizar o poder, construindo a sede da casa que faz as leis no litoral do país. Por ser uma cidade muito importante para o país, a presença de militares é bastante satisfatória. É comum encontrar estátuas de militares pelas praças.
O porto de Valparaíso e suas casas esparramadas pelos cerros

Em Valparaíso tive a oportunidade de visitar uma das casas de Pablo Neruda. O poeta tinha cinco casas no território chileno. Quatro foram transformadas em museus e uma foi doada ao Partido Comunista do Chile. Fica em um local privilegiado. A casa tem uma vista privilegiada para o mar, para o porto e o restante da cidade que se derrama pelos cerros. Sobre isso, vou escrever depois.

Enquanto voltava para Santiago, que está situada a pouco mais de cento e dez quilômetros de Valparaíso, atravessava os vales frios e pedregosos e tinha a minha visão mesclada pela névoa que escondia a cabeça gelada da Cordilheira e  avistava as vinícolas, pensava nos elementos míticos que tornam Valparaíso uma cidade repleta de encantos e mistérios. Pensei como é importante conhecer e refletir sobre o feitiço que as novidades que se abrem para cada um nós no mundo. E aí pensei em Neruda e o tecido fino e transparente de sua poesia. E entendi aquilo que ele afirma sobre Valparaíso, dizendo que ela tem 'uma estrela' e que essa estrela 'possui um pulso magnético que nos atrai'.