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quarta-feira, fevereiro 25, 2015

O "FORA DILMA" e as "opiniões"

O Brasil atual, do ponto de vista político, tem sido um palco para uma profunda crise de representatividade. O governo atual é responsável por um pouco desse aspecto cinzento que se abateu sobre a política nacional. Mas, penso que essa realidade seja sustentada, principalmente, pelo desserviço que a mídia conservadora presta diariamente em seus veículos ditos informativos - sejam eles escritos, visuais ou falados (no caso das emissoras de rádio). Um forte movimento fascista e golpista se instalou de forma silenciosa a serviço de certos interesses e, como se fosse um vírus, passou a fazer parte do vocabulário do homem médio (algo que se estende das crianças aos idosos) contra o governo. Ora, se existe esse consenso e uma forma homogeneizada de discurso raivoso, canino, babão, contra o governo petista, o "FORA DILMA" não é nada mais nada menos do que uma espécie de "catapora coletiva" pulverizada pelos jornalões que têm uma clara posição ideológica e que acometeu a sociedade. 

Não defendo o governo petista. Votei em Dilma o ano passado como um último recurso político. Penso que a base hegemônica que comanda o PT há muito esmaeceu o sonho inicial de fundação do partido. Nas eleições do ano passado, quando os movimentos sociais e vários intelectuais apoiaram o partido, fiquei de longe observando os passos do governo, e, principalmente, do explícito interesse midiático e do mercado em torno do projeto de cada um dos candidatos. Havia duas possibilidades: a guilhotina (Aécio), que era a decapitação certa, sem possibilidade de graça, indulgência ou anistia a e cruz (Dilma), mas que trazia em seu bojo toda aquela força esperançosa e simbólica que o objeto representa. Boa parte dos brasileiros optou pela cruz. Todavia, a esperança se mostrou mole, frouxa, como uma chuva de dois minutos. Simplesmente, ela não aconteceu, pois o braço hegemônico do PT, que tem em Dilma Rousseff a sua base, optou por uma saída pela direita em meio à crise. O fato é que a crise está posta com toda a sua latência. Mas o PT ao invés de sair pela esquerda, com a opção clara pelo trabalhador e pelos movimentos sociais, o que fortaleceria o governo e o tornaria defensável, ficou sem titubeios com o mercado.

Mauro Iasi já apontava isso em seu lúcido e esclarecedor artigo O sexto turno, escrito quinze dias antes do segundo turno da corrida presidencial. Nele, o intelectual falava sobre a opção clara que o Partido dos Trabalhadores havia feito desde o primeiro mandato de Lula e, que não seria naquele momento, que as coisas mudariam. Analisando a atual conjuntura à luz da reflexão de Iasi a realidade se torna mais clara. A mídia sabe do "alheamento político" do brasileiro médio - e faz política em cima disso. São hábeis jogadores. Buscam desgastar o governo por causa de suas últimas decisões para salvar o mercado - aumento da gasolina, alta dos impostos, corte nos direitos trabalhistas etc; os escândalos de corrupção, principalmente, aquele que tem ajudado a lançar abaixo os flancos táticos do governo, o caso Petrobras. Trata-se de um jogo em que, aquele que tem o poder de formação da "opinião", acaba levando a partida. Aconteceu isso, por exemplo, em 1992 com os caras pintadas. Isso parece clichê: mas não foi o povo que necessariamente que impeachtmou Fernando Collor; mas sim, a Globo que fez isso. Ela o colocou e ela o tirou.

O atual movimento antidilmista possui uma fonte clara. Só não não enxerga quem diz "FORA DILMA!". Não é o PT de Dilma que é incompetente. É o tipo de política a favor do mercado e do capital rentista que traz essas consequências. Foram as escolhas e as alianças costuradas a favor do deus mercado. Com Aécio não seria diferente, já que o seu partido é a personificação de um projeto de política que possui um rio que se sabe onde desemboca: no mar do conservadorismo e do atraso. Como diz Alysson Leandro Mascaro em Estado e forma política, sob o capitalismo, até mesmo o estado tornou-se uma mercadoria para a burguesia. Ou seja, o estado se tornou uma força que age a favor do lucro e dos interesses do capital. Uma prova disso, como se pode atestar, é o lucro absurdo do Banco Itáu. Em um tempo de arrocho e suposta crise, como se pode explicar uma entidade financeira que lucra 20 bilhões de reais em um ano, sendo que o recorde se consuma ano a ano?

Mas, por que escrevi essas linhas? Ontem olhava de forma descompromissada algumas coisas no Facebook. Percebi que o Milton Ribeiro havia curtido determinado comentário. Quando o li, percebi que ali estava uma das declarações mais felizes que li nos últimos meses. Fez-me lembrar o livrinho que tenho aqui em casa de Schopenhauer, em que ele fala sobre o perigo dos textos ou de leituras mal feitas. No caso em questão, o grande perigo é a leitura de opiniões de colunistas que escrevem claramente aquilo que o chefe manda e depois apregoam os termos carunchados imparcialidade e independência, como se isso fosse possível, quando interesses de classe estão postos. Não conheço o dono do comentário, mas penso que "papagaios de plantão" antes de proferirem o baboso "Fora Dilma", deveriam ler algum livro de ciência política; ao invés de ouvir o Bonner, deveriam ler os iluministas (Hobbes, Locke, Rousseau, Montesquieu etc), que são responsáveis pela elaboração da concepção de estado moderno; ao invés de fixarem atenção naquilo que os colunistas (animais amestrados das redações) falam a mando do patrão, deveriam ler algum livro de história para entender a complexidade que é o Brasil e quais foram os interesses que o formaram.

Segue o texto:



O objetivo de se estudar e ler muito (num primeiro momento descartem os jornais e partam para os livros) não deve ser o de querer mudar o mundo, mas o de mudar a si mesmo, de se proporcionar a possibilidade de olhar em volta com olhar crítico, analisando as situações e os fatos de forma coerente, racional. A leitura (filosofia, história, antropologia, sociologia, literatura) te dá a capacidade de entender as nuances, os jogos, as distorções, a má intenção por trás do que é escrito em notícias e principalmente do que é dito por comentaristas. Ler jornal não torna ninguém inteligente. Dizem (não sei se é verdade) que certa feita Luis Fernando Veríssimo afirmou que em certos dias a única coisa verdadeira em um jornal é a data. Há alguns anos eu lia muito jornal. Hoje leio bem menos, e o aumento diário de dedicação aos livros melhorou a qualidade da minha leitura de jornais - quando os leio. A notícia é para informar. Opinião cada um deve ter a sua. Acontece que a grande maioria não distingue uma da outra, principalmente quando uma se disfarça de outra. E está cheio de gente aí que não tem opinião própria (acha que tem mas não tem), apenas replicam o que ouvem do marido, da esposa, do companheiro, da companheira, do pai, da mãe, do tio, do jornal, da TV etc. Tá cheio de gente opinando sobre política, sobre a economia do país, sobre corrupção, sem sequer pegarem em um livro. Sua inteligência e conhecimento resumem-se em adjetivar de vaca a mandatária do país. Apenas repetem feito papagaios (maritacas, caturritas) o que ouvem dos outros. Façam uma tabela com horário diário de trabalho e muita leitura, e só depois de se dedicarem DIARIAMENTE à leitura, aos estudos, por pelo menos uns quatro anos, poderão então opinar sobre algum assunto sem correrem o risco do ridículo. E olhem lá, tempo de estudo nem sempre é atestado de inteligência...             

terça-feira, outubro 23, 2012

"O macaco nu" e a crise de não-ser ante a natureza

Quando o que está em jogo é o ser humano, torno-me bastante pessimista. Carl Sagan costumava dizer que "somos uma espécie nova e curiosa e talvez haja salvação para cada um de nós". Não faço uso do otimismo de Sagan. A sua elegância o impelia a verbalizações nobres. Admiro essa sua capacidade. Mas, volto-me para uma outra direção. A direção que nos aponta um caminho incerto, infausto. Talvez haja em mim um pouco de Schopenhauer.

Somos uma espécie que pratica a rapina. Nossa história sobre o Planeta Terra é relativamente recente. Certa vez vi Carl Sagan fazer uma comparação que me impressionou. O célebre cientista americano disse que se pudessêmos colocar a história da Terra e do Universo dentro de um campo de futebol, desde o Big Bang, a história humana não seria mais do que um palmo dentro desse campo hipotético. Ou seja, a nossa história é recente, mas deixamos marcas profundas na história do Planeta. Talvez nenhuma espécie tenha mudado tanto o Planeta como nós o fizemos - nem mesmo os poderosos dinossauros.

Essa reflexão amarga se aprofundou ainda mais após a leitura que fiz do livro "O macaco nu", do zoólogo inglês Desmond Morris. Esse livro foi escrito na década de 60 do século passado. É profundo e arraigadamente científico em suas sentenças. Morris faz uma análise contundente sobre os hábitos dos seres humanos - sua origem, a questão da sexualidade, do crescimento, o poder de exploração tão próprio do ser humano, o alto grau de agressividade, a importância da alimentação e busca pelo conforto. O zoólogo não deixa passar nenhum dos hábitos daquele que ele cognominou de maneira irreverente como "macaco pelado". Tal classificação se deve ao fato de que, entre as 193 espécies de símios e macacos (da família dos primatas), a espécie humana é a única que não apresenta o corpo coberto por pelos. Mas tal fato não deve ser visto apenas como obra do acaso. Morris vai dizer que existe uma alta função para essa condição.

É no final da obra, que Morris profere uma frase belissimamente perturbadora: "...apesar de todos os nossos progressos tecnólogicos, continuamos a ser sobretudo um simples fenômeno biológico". Com isso ele está dizendo que não nos diferimos dos outros seres no que tange às necessidades vitais. Somos animais moldados pela evolução. Se no passado a atividade de caça nos ocupava a maior parte do tempo, hoje, é o trabalho, principal motor de troca da sociedade criada por esse mesmo ser gregário, que toma o nosso tempo. De modo que o nosso estilo de vida parece ter "sacralizado" o existir desse mesmo criador. Parece que perenizamos a realidade. Vivemos como se fossêmos eternos. Todavia, existe o esquecimento de que a natureza é lenta e as suas mudanças se perpetram de modo processual.

E baseado nisso, achamos outra afirmação desconcertante do cientista inglês: "Houve muitas espécies formidàveis que se extinguiram no passado, e nós não somos a exceção. Mais cedo ou mais tarde, teremos de partir e deixar lugar para qualquer outra coisa". E aqui, corroborando com Morris, penso que isso seja um fato mais que incontestável. Quanto tempo mais teremos? Mil anos? Dez mil anos? Um milhão de anos? Não se sabe! O fato é que somos uma espécie engenhosa. E essa capacidade de engenho não nos livrará da inexorabilidade do tempo. Chegará um tempo em que não mais seremos. E nem mesmo as nossas religiões nos "salvarão".

Somos um "fenômeno biológico", mas, somos, também, um fenômeno cultural. Tudo aquilo que construímos e fazemos está associado à necessidade de realizarmos aos instintos animais. Temos um forte impulso a buscar a sobrevivência e tirarmos vantagens de todas as coisas. Fomos moldados assim pela evolução. Nossos instintos sexuais, territoriais e agressivos não serão dominados e flexibilizados, pois somos, acima de tudo, seres biológicos que buscam a perpetuação. Até mesmo quando temos um filho, buscamos, nele, continuar a existir. Ora, para finalizar, o que são as religiões, senão uma necessidade de continuar a existir mesmo quando o nosso mais terrível  inimigo chegar - a morte - e militar contra a nossa sede territorial de continuar a ser?


segunda-feira, julho 16, 2012

Amarelo Manga de Claudio Assis e a tese naturalista

Sábado à tarde eu estava em casa e resolvi assistir a um filme. Selecionei o filme nacional Amarelo Manga (tratava-se de um projeto antigo), de Claudio Assis, de 2002, e me impressionei com o que vi. Hoje, segunda-feira, mesmo estando longe de casa (estou na Serra Gaúcha - Gramado) ainda penso no filme. Amarelo Manga me pareceu um daqueles painéis pintados pelos naturalistas do século XIX; ou um daqueles romances dos quais se convencionou a produzir por escritores brasileiros como Aluísio Azevedo (Casa de Pensão, O cortiço etc) ou Júlio Ribeiro (A carne); ou ainda aquela produção francesa alavancada pro Émile Zola (A besta humana, Naná, Thérese Raquin, Germinal etc). 

Claudio Assis posicionou o seu foco sobre seres anônimos, satélites, escondidos em meio à putrefação. Em meio aos mais escabrosos, grotescos ambientes e antros do Recife, mas que poderiam figurar em qualquer cidade brasileira. Os personagens são suburbanos. Entrelaçam-se na condição vil e isso os torna humanos. Segundo a fala de um padre (padre Jonas, o intelectual do filme) "O ser humano, hem! O ser humano é estômago e sexo. E tem diante de si uma condenação. Terá obrigatoriamente de ser livre. Mas ele mata e se mata com medo de viver". A sua tese é determinista, terrivelmente naturalista e existencialista - uma mistura de Sartre e Schopenhauer. Protistutas, ambulantes, açougueiros, homossexuais, pervertidos, alcóolatras, derrotados mambembes, traficantes, maníacos, funcionário público corrupto, donas de casas são responsáveis pela formatação dos vícios e comportamentos inesperados. O ser humano é uma matéria imprevisível. Desse ser pode advir o absurdo. Mas esse absurdo é uma condição insofismável da própria condição de ser humano.

Existe uma tese de ruína social, já que "a carne" está presente em todos os espaços da obra. Tanto no aspecto real do termo quanto no figurativo. Os homens e mulheres de Amarelo Manga são seres canibais. Entredevoram-se numa teia doentia. Consomem-se. Comem-se socialmente. Existe um desarranjo social em torno de todas as relações. Marxismo, psicanálise e naturalismo se misturam para compô-los. Mesmo dentro dessa suposta anarquia existe um feixe hierárquico que deterimana as relações.

Um exemplo curioso no filme é a personagem Kika, um cristã fervorosa, que busca a virtude. Recata-se. Usa as idumentárias da decência. Busca ser um bom modelo social. Uma esposa fiel. Mas, não tolera a traição. Seu marido Wellington, um machista típico que encarna a imagem do homem nordestino, tem um caso com Daisy, outra personagem suburbana dos arrabaldes. Assim, o personagem deseja Kika para ser a esposa para "a matéria de mesa" e Daisy para "a matéria de cama".

Quando Kika descobre o caso de Wellington com Daisy transforma-se completamente. Assume a sua animalidade oculta pelo tecido da religião e da aparência social. Arranca orelha da desafeta Daisy com uma mordida; sai sem destino, vagabundamente, e entrega-se ao primeiro sujeito que se aproxima dela. Eis aí aquela tese de que do homem pode se esperar qualquer coisa. Que aquilo que vemos esconde outra força que pode vir à tona quando estimulada. Ou seja, o animal que esconde os instintos por trás cortina erguida pela moral. Segundo a obra, "o pudor é a forma mais inteligente de perversão."

Amarelo Manga não é um filme para se ver com a família. É uma obra marginal. Palavrões. O sangue do abatedouro que parece respingar em nosso corpo; o órgão genital ornamentado por pentelhos amarelos, de Lígia (dona do Bar Avenida), sugere a estética do filme. Por que "amarelo manga"? Amarelo, segundo a obra, é a cor da ruína, da podridão; "dos cabos das peixeiras, da enxada e da estrovenga. Do carro de boi, das cangas, dos chapéus envelhecidos, da charque. Amarelo das doenças, das remelas dos olhos dos meninos, das feridas purulentas, dos escarros, das verminoses, das hepatites, das diarréias, dos dentes apodrecidos".

O filme é bastante rico. Cheio de simbolismos e metáforas. Deve ser visto com atenção. Amarelo Manga é daqueles filmes que você ama ou rejeita. É cru. Visceral. Foge daquela estética que visa apenas impressionar o mercado, tendo por finalidade última ser arrematado para um Oscar - nosso eterno sonho.

Em meu simplismo diletante: baita filme!

P.S. tenho outro filme de Claudio Assis. Chama-se Baixio das Bestas (2006) e ganhou vários prêmios nacionais e internarcionais. Pretendo vê-lo o mais rápido possível.

Gramado-RS

segunda-feira, novembro 28, 2011

Nietzsche e a religião


Rogério Miranda de Almeida

Todo aquele que se interrogar pela concepção de Friedrich Nietzsche com relação ao cristianismo e à religião em geral deve dar um passo a mais na sua interrogação e perguntar-se pela concepção que tem o filósofo dos valores que até então atravessaram a história da moral ocidental e a história de toda moral. Um passo a mais será ainda necessário na medida em que, para Nietzsche, o que realmente subjaz à criação e à destruição dos valores são as forças e as relações de forças que não cessam de se superar, de se recriar, de se repetir, de se renovar, de se excluir e de se incluir numa dinâmica recíproca que permeia, invade, domina e determina toda a realidade, todo o existir, todo o ser.

Com efeito, se existe um problema que acompanhou e obsedou o discípulo de Dioniso, esse foi o problema das forças e das relações de forças responsáveis pela criação e pela destruição, pela construção e pela demolição dos diferentes valores. Embora a vontade de potência só se encontre plena e explicitamente elaborada no terceiro e último período do filósofo – que, na minha leitura, começa com Aurora (1881) e se estende até os últimos escritos (1888) –, este conceito já se faz presente no primeiro período – dominado pelas análises em torno da tragédia e da cultura grega em geral – e também no segundo, com Humano, Demasiado Humano I e II (1878-1880), cuja característica principal é o deslocamento de acento para um determinado tipo de moral, a moral utilitária.

Dos três conceitos básicos de Nietzsche – a vontade de potência, o niilismo e o eterno retorno –, foram os dois primeiros que principalmente pontilharam e fundamentalmente marcaram o desenrolar e a dinâmica de seu pensamento e de sua escrita. O niilismo, que é essencialmente inerente à vontade de potência, é ambíguo na medida em que se desdobra como uma contínua destruição dos antigos valores e, simultaneamente, como uma construção de novas e imprevisíveis interpretações, valorações, significações. Recriações. Não há, pois, um demolir para depois construir; há antes uma aniquilação e uma reedificação que se fazem concomitantemente, simultaneamente, na repetição e na diferença, na satisfação e na insatisfação, no gozar e no querer-mais.

Convém ressaltar que as religiões, e o cristianismo em particular, não são sinônimos de niilismo, embora, na perspectiva de Nietzsche, não se possa conceber uma religião que não moralize e, consequentemente, não encerre uma tábua ou uma hierarquia de valores. A religião cristã e as religiões orientais não subsumem o niilismo, que é um movimento muito mais amplo e do qual, enquanto forças niilistas da decadência, estas se apresentam como expressões ou manifestações essenciais. Não se pode pensar na concepção nietzschiana do judeu-cristianismo e do budismo sem vinculá-la à sua visão da religião grega no tempo da tragédia e à crítica que, já na sua primeira fase, ele endereçara à filosofia de Schopenhauer.

Os deuses do Olimpo e o Deus judaico-cristão

Com efeito, já nos seus primeiros escritos, Nietzsche denuncia o fundo moral e as relações de forças a ele subjacentes que disputam entre si a potência sob os mais variados disfarces e os mais sublimes, nobres, elevados e espirituais atributos. Segundo Nietzsche, há basicamente dois tipos de forças: as forças que afirmam e enaltecem a vida e aquelas que, ao contrário, a denigrem, depreciam, caluniam e rebaixam. Eis a razão pela qual, já na Visão Dionisíaca do Mundo (1870) – escrito póstumo que data de dois anos antes da publicação do Nascimento da Tragédia –, o filósofo fazia ressaltar a superioridade da religião grega sobre as demais religiões, porquanto os deuses gregos que descrevem Homero, Hesíodo e Epicuro não são divindades que exprimem a indigência, a ascese ou o dever, mas, antes, criaturas que apontam para um excesso de força, de seiva e, consequentemente, para tudo aquilo que a vida tem de belo, de bom, de mau, de transbordante, de afirmativo e cruel. Os artistas que forjaram esses deuses eram, pois, senhores de uma fantasia genial que, projetando suas próprias imagens sobre o céu azul da Grécia, construíram um Olimpo onde essas formas podiam respirar o triunfo da potência juntamente com um sentimento de exuberância e justificação da existência e do mundo.

Curiosamente, num fragmento póstumo da mesma época – fim de 1869, primavera de 1870 –, Nietzsche analisa essa mesma problemática ao chamar a atenção para a figura do asceta cristão que, ao contrário do artista heleno, encarna o tipo do negador e destruidor da natureza. Para o autor de , as direções ascéticas são o que há de mais hostil e oposto à natureza e à fertilidade que esta encerra. No seu intuito e no seu trabalho subterrâneo de tudo negar e tudo emendar, elas já revelam o que realmente são: frutos enfezados e estiolados que a própria natureza se encarregou de rejeitar, porquanto ela não quer propagar uma raça ou uma espécie de depauperados e enfraquecidos. “O cristianismo só poderia triunfar num mundo degenerado”, diz Nietzsche.

A partir dessas considerações, súbito se adivinha: os deuses se apresentam para Nietzsche como reflexos da exuberância ou da indigência de um povo. De sorte que, quanto mais potente e aguerrida for uma nação, tanto mais exibirão os seus deuses as marcas da guerra, da conquista e do orgulho nacional. Inversamente, os deuses dos “bons”, dos falidos e dos fracos não terão senão sentimentos de vingança, de rancor e ressentimento contra tudo aquilo que eleva, transfigura e diz “sim” à vida. É o que Nietzsche já mostrava da maneira mais enfática no escrito de transição, Humano, Demasiado Humano I (1878). É o que ele também dirá num de seus últimos textos, O Anticristo, redigido no final de 1888 e publicado em 1895.

No parágrafo 114 de Humano, Demasiado Humano, que tem sintomaticamente por título “O Não-grego no Cristianismo”, o filósofo declara que os helenos não olhavam para os deuses homéricos como seres acima deles próprios, à maneira de senhores; não se viam tampouco abaixo dos deuses, como servos, ao modo dos judeus. “Viam como que apenas a imagem em espelho dos exemplares de sua própria casta que melhor vingaram; portanto, um ideal, não um contrário de sua própria essência.” Onde, porém, os deuses olímpicos se eclipsavam, a vida grega também se revelava mais sombria, mais inquieta e ameaçada de arruinar-se. “O cristianismo, por sua vez” – conclui o filósofo –, “esmagou e alquebrou completamente o homem, e o mergulhou como que em um profundo lamaçal.”

No Anticristo, Nietzsche verá essa mesma dialética em ação no seio do próprio judaísmo, na medida em que ele considera a época dos reis o período mais rico, mais próspero e potente da história de Israel. Consequentemente, Javé era a manifestação da consciência que este povo possuía da sua própria soberania, da sua força e alegria de viver. Portanto, através de Javé o povo esperava vitória e libertação; por meio dele depositavam confiança na natureza para que esta lhes concedesse aquilo de que mais necessitavam: chuva e uma colheita abundante. No entanto, essa época também devia chegar a um fim, ao qual Nietzsche atribui três causas principais: a anarquia interior, a ameaça assíria do exterior e a ascensão da classe sacerdotal ao poder. Gradualmente, portanto, o Deus de Israel, que até então refletia o orgulho e o amor-próprio de seu povo, viu-se reduzido a um Deus condicionado e vinculado a preceitos morais: toda felicidade era vista como uma retribuição pela obediência a Javé; todo infortúnio era, ao invés, recebido como uma punição pela desobediência a ele infligida.

Se esta é, pois, uma das perspectivas a partir das quais Nietzsche analisa a religião dos gregos e aquela que brotou do solo e do povo judeu, como então ele considera o budismo e a sua relação com a filosofia de Schopenhauer?

Schopenhauer, a tragédia e a negaçãobudista da vontade

Na época em que Nietzsche redigia O Nascimento da Tragédia – publicado em janeiro de 1872 –, ele se achava sob a quase total influência de Schopenhauer. Assim, para o discípulo de Dioniso, a sabedoria trágica reproduzia, por meio da ilusão apolínea e da música dionisíaca, a mais íntima essência do mundo, da natureza, dos homens, da vontade ou, em suma, do Uno originário. No que diz respeito especificamente à música dionisíaca, esta se apresentava como um espelho sobre o qual se refletia a própria vontade universal, que nos chega como a verdade eterna ou, mais exatamente, como a verdade que jorra do fundo ou do núcleo do Uno originário.

Sem embargo, na própria obra O Nascimento da Tragédia – e mesmo em alguns textos que a preludiam –, já se vê desenhar uma tomada de posição crítica vis-à-vis de Schopenhauer. E esta posição só tenderia a acentuar-se à medida que Nietzsche fosse também se distanciando do autor de O Mundo Como Vontade e Representação. Destarte, na seção 7 daquela obra, Nietzsche critica Schopenhauer justamente naquilo que o filósofo tem de comum com o budismo: a resignação e a negação da vontade diante do sofrimento que acarreta todo desejo. Ora, na perspectiva do discípulo de Dioniso, a consolação metafísica que suscita a tragédia, e que se encarna no coro satírico, é toda ela entretecida de gozo, o gozo na sua potência indestrutível que afirma a vida, apesar do caráter mutável do mundo fenomênico. Por conseguinte, o heleno profundo que o coro vem consolar – e que lança seu olhar sobre as forças demolidoras da natureza – corre ele também o risco de “aspirar a uma negação budística da vontade”. No entanto, a arte vem em seu socorro para redimi-lo, mas, “pela arte, é a própria vida que o redime para si mesma”.

Num fragmento póstumo do verão-outono de 1884, que faz parte de seu terceiro e último período, Nietzsche se mostrará ainda mais incisivo com relação às forças niilistas da decadência, que, por natureza, são negadoras da vida e de tudo aquilo que ela tem de fértil, de belo, de abundante, de potente, de tenso, de deleitoso e sensual. Com efeito, nada repugna mais a Nietzsche do que uma religião cuja moral recomenda a domesticação dos instintos e a supressão do prazer. Esta é “uma medida de emergência tomada por naturezas que não conhecem o critério da medida e que não têm outra escolha senão a de se tornarem libertinos e porcos, ou então ascetas”. Essas naturezas – continua o filósofo – encontraram no cristianismo e no budismo um modo de pensar que é, no mais alto grau, adaptado a toda a escória dos decadentes, dos doentes e malogrados da existência. Pode-se, pois, perdoar-lhes o fato de denegrirem um mundo onde foram malsucedidos. “Mas faz parte da nossa sabedoria considerar essas doutrinas e religiões como grandes manicômios e casas de reclusão.”

Em Para Além de Bem e Mal (1886), parágrafo 56, Nietzsche defenderá uma reflexão aprofundada sobre o pessimismo livre “da estreiteza e da simplicidade semicristã e semialemã” que, segundo ele, se exprimiram por último na filosofia de Schopenhauer. Assim, prossegue o filósofo, todo aquele que tiver lançado um olhar nos abismos do pensamento mais radicalmente negador – um olhar “para além de bem e mal e não mais, como Buda e Schopenhauer, na órbita da moral e de sua ilusão” – chegará talvez a abraçar um ideal totalmente oposto: o ideal do homem mais generoso, mais exuberante e mais afirmativo que possa existir.

Ora, conquanto o problema central da filosofia de Nietzsche esteja nas forças e nas relações de forças que não cessam de se superar e de se recriar, retorna inevitavelmente a questão: não seriam justificados todos os seus ataques contra a religião, ou as religiões, justamente por elas se apresentarem, na sua perspectiva, como as manifestações essenciais das forças niilistas da decadência?

segunda-feira, outubro 24, 2011

Ele foi tudo o que eu quero ser - menos com as mulheres

O título parece estranho. A enunciação parece misteriosa. Intricada. Uma verdadeira charada. Explico. Penso isso todas as vezes que imagino o filósofo de Dionísio - Friedrich Nietzsche. Nietzsche foi mais que um filósofo. Foi uma águia que voou. Que ignorou as convenções religiosas e dogmáticas. Que se projetou para o céu e disse que o infinito acontece na existência de cada um de nós. Que a vida, apesar da feiúra, deve ser transformada numa obra de arte. Que é necessário inventar uma música que toque e, ao passo que toca, deve transformar nossa existência numa canção.

Nietzsche não tolerava os sentimentos fracos. As anemias do espírito. As fraquezas que aviltam. Segundo ele, era preciso caminhar, mesmo que em meio às trevas, transformando a vida num sol que ilumina. Para ele não existia nem bem nem mal. As dicotomias impedem que interpretemos corretamente a vida. Zaratustra não era criação. Era a própria voz profética (não em acepção religiosa) do filósofo falando. Falou. Criticou. Analisou sob diversos aspectos as sensaborias da sociedade em que viveu e para onde aquilo tudo conduziria. E de repente, - alguns julgam loucura - silenciou. Até mesmo a paralisia que o acometeu parece ser poética. Segundo ele, "quanto mais nos elevamos, mais pequenos pareceremos aos olhos daqueles que não sabem voar". Extraordinário. É preciso ser ousado para se alçar voos. Nem todos estão prontos ou possuem coragem para o ruflar de asas, que alcançam os céus celestiais da dúvida, do julgamento, da transvalorização dos valores. É preciso alcançar o que está "dalém do homem".

Li certa vez um artigo sobre o filósofo em que o autor dizia que a doença de Nietszche foi um castigo por ele ter se metido com Deus. Esse juízo apocalíptico (e citando Manuel Bandeira - "sifilítico", "raquítico"), não se sustenta pelos fatos. A vida do filósofo é trágica. Mas o trágico não o deteve. Como ele mesmo diz: "É preciso fecundar uma estrela bailariana de dentro do caos". E ele o fez. Sua obra atesta isso.

Agora o título "menos com as mulheres". Nieztsche não teve sucesso com as mulheres. Sua vida foi infelicitante nesse aspecto. Também nunca tive sucesso. O meu lance-acerto foi único. Mas colhi uma bela açucena, que brilha, cheira, reluz. Em tudo isso não me lamento. No mais, ignoro fatos adjacentes pelo peso da vida. Todavia, como desejo ser autêntico, ousado, destemido, amante da vida e da arte como ele foi.

Atualmente, estou lendo um livro sobre Nietzsche (SAFRANSKI, Rüdiger. Nietzsche - biografia de uma tragédia: trad. Lya Luft - Geração Editorial: São Paulo. 2001. 364p.) - embora só leia nos intervalos e, na maioria das vezes, no metrô, a caminho do trabalho. Estou impressionado com a competência do Safranki, algo que eu já havia atestado na biografia sobre Heidegger. Pretendo ler ainda outra biografia importante escrita pelo mesmo autor sobre Schopenhauer, que possui uma ligação necessária com Nietzsche. O pensamento de Nietzsche possui ecos, um verbalizar, uma tonalidade, que nos faz distinguir o autor de O Mundo como Vontade e Representação. O que de fato tem me desagradado no livro de Safranki é o forte tom analítico e filosófico. Gostaria que o biográfo dialogasse mais com a vida do bigodudo. Com Nieztsche é assim: se não entedemos a vida, não entedemos a filosofia - em todos os sentidos.

Por Carlos Antônio M. Albuquerque
Data: 24 de outubro de 2011, segunda-feira.