quarta-feira, fevereiro 25, 2015

O "FORA DILMA" e as "opiniões"

O Brasil atual, do ponto de vista político, tem sido um palco para uma profunda crise de representatividade. O governo atual é responsável por um pouco desse aspecto cinzento que se abateu sobre a política nacional. Mas, penso que essa realidade seja sustentada, principalmente, pelo desserviço que a mídia conservadora presta diariamente em seus veículos ditos informativos - sejam eles escritos, visuais ou falados (no caso das emissoras de rádio). Um forte movimento fascista e golpista se instalou de forma silenciosa a serviço de certos interesses e, como se fosse um vírus, passou a fazer parte do vocabulário do homem médio (algo que se estende das crianças aos idosos) contra o governo. Ora, se existe esse consenso e uma forma homogeneizada de discurso raivoso, canino, babão, contra o governo petista, o "FORA DILMA" não é nada mais nada menos do que uma espécie de "catapora coletiva" pulverizada pelos jornalões que têm uma clara posição ideológica e que acometeu a sociedade. 

Não defendo o governo petista. Votei em Dilma o ano passado como um último recurso político. Penso que a base hegemônica que comanda o PT há muito esmaeceu o sonho inicial de fundação do partido. Nas eleições do ano passado, quando os movimentos sociais e vários intelectuais apoiaram o partido, fiquei de longe observando os passos do governo, e, principalmente, do explícito interesse midiático e do mercado em torno do projeto de cada um dos candidatos. Havia duas possibilidades: a guilhotina (Aécio), que era a decapitação certa, sem possibilidade de graça, indulgência ou anistia a e cruz (Dilma), mas que trazia em seu bojo toda aquela força esperançosa e simbólica que o objeto representa. Boa parte dos brasileiros optou pela cruz. Todavia, a esperança se mostrou mole, frouxa, como uma chuva de dois minutos. Simplesmente, ela não aconteceu, pois o braço hegemônico do PT, que tem em Dilma Rousseff a sua base, optou por uma saída pela direita em meio à crise. O fato é que a crise está posta com toda a sua latência. Mas o PT ao invés de sair pela esquerda, com a opção clara pelo trabalhador e pelos movimentos sociais, o que fortaleceria o governo e o tornaria defensável, ficou sem titubeios com o mercado.

Mauro Iasi já apontava isso em seu lúcido e esclarecedor artigo O sexto turno, escrito quinze dias antes do segundo turno da corrida presidencial. Nele, o intelectual falava sobre a opção clara que o Partido dos Trabalhadores havia feito desde o primeiro mandato de Lula e, que não seria naquele momento, que as coisas mudariam. Analisando a atual conjuntura à luz da reflexão de Iasi a realidade se torna mais clara. A mídia sabe do "alheamento político" do brasileiro médio - e faz política em cima disso. São hábeis jogadores. Buscam desgastar o governo por causa de suas últimas decisões para salvar o mercado - aumento da gasolina, alta dos impostos, corte nos direitos trabalhistas etc; os escândalos de corrupção, principalmente, aquele que tem ajudado a lançar abaixo os flancos táticos do governo, o caso Petrobras. Trata-se de um jogo em que, aquele que tem o poder de formação da "opinião", acaba levando a partida. Aconteceu isso, por exemplo, em 1992 com os caras pintadas. Isso parece clichê: mas não foi o povo que necessariamente que impeachtmou Fernando Collor; mas sim, a Globo que fez isso. Ela o colocou e ela o tirou.

O atual movimento antidilmista possui uma fonte clara. Só não não enxerga quem diz "FORA DILMA!". Não é o PT de Dilma que é incompetente. É o tipo de política a favor do mercado e do capital rentista que traz essas consequências. Foram as escolhas e as alianças costuradas a favor do deus mercado. Com Aécio não seria diferente, já que o seu partido é a personificação de um projeto de política que possui um rio que se sabe onde desemboca: no mar do conservadorismo e do atraso. Como diz Alysson Leandro Mascaro em Estado e forma política, sob o capitalismo, até mesmo o estado tornou-se uma mercadoria para a burguesia. Ou seja, o estado se tornou uma força que age a favor do lucro e dos interesses do capital. Uma prova disso, como se pode atestar, é o lucro absurdo do Banco Itáu. Em um tempo de arrocho e suposta crise, como se pode explicar uma entidade financeira que lucra 20 bilhões de reais em um ano, sendo que o recorde se consuma ano a ano?

Mas, por que escrevi essas linhas? Ontem olhava de forma descompromissada algumas coisas no Facebook. Percebi que o Milton Ribeiro havia curtido determinado comentário. Quando o li, percebi que ali estava uma das declarações mais felizes que li nos últimos meses. Fez-me lembrar o livrinho que tenho aqui em casa de Schopenhauer, em que ele fala sobre o perigo dos textos ou de leituras mal feitas. No caso em questão, o grande perigo é a leitura de opiniões de colunistas que escrevem claramente aquilo que o chefe manda e depois apregoam os termos carunchados imparcialidade e independência, como se isso fosse possível, quando interesses de classe estão postos. Não conheço o dono do comentário, mas penso que "papagaios de plantão" antes de proferirem o baboso "Fora Dilma", deveriam ler algum livro de ciência política; ao invés de ouvir o Bonner, deveriam ler os iluministas (Hobbes, Locke, Rousseau, Montesquieu etc), que são responsáveis pela elaboração da concepção de estado moderno; ao invés de fixarem atenção naquilo que os colunistas (animais amestrados das redações) falam a mando do patrão, deveriam ler algum livro de história para entender a complexidade que é o Brasil e quais foram os interesses que o formaram.

Segue o texto:



O objetivo de se estudar e ler muito (num primeiro momento descartem os jornais e partam para os livros) não deve ser o de querer mudar o mundo, mas o de mudar a si mesmo, de se proporcionar a possibilidade de olhar em volta com olhar crítico, analisando as situações e os fatos de forma coerente, racional. A leitura (filosofia, história, antropologia, sociologia, literatura) te dá a capacidade de entender as nuances, os jogos, as distorções, a má intenção por trás do que é escrito em notícias e principalmente do que é dito por comentaristas. Ler jornal não torna ninguém inteligente. Dizem (não sei se é verdade) que certa feita Luis Fernando Veríssimo afirmou que em certos dias a única coisa verdadeira em um jornal é a data. Há alguns anos eu lia muito jornal. Hoje leio bem menos, e o aumento diário de dedicação aos livros melhorou a qualidade da minha leitura de jornais - quando os leio. A notícia é para informar. Opinião cada um deve ter a sua. Acontece que a grande maioria não distingue uma da outra, principalmente quando uma se disfarça de outra. E está cheio de gente aí que não tem opinião própria (acha que tem mas não tem), apenas replicam o que ouvem do marido, da esposa, do companheiro, da companheira, do pai, da mãe, do tio, do jornal, da TV etc. Tá cheio de gente opinando sobre política, sobre a economia do país, sobre corrupção, sem sequer pegarem em um livro. Sua inteligência e conhecimento resumem-se em adjetivar de vaca a mandatária do país. Apenas repetem feito papagaios (maritacas, caturritas) o que ouvem dos outros. Façam uma tabela com horário diário de trabalho e muita leitura, e só depois de se dedicarem DIARIAMENTE à leitura, aos estudos, por pelo menos uns quatro anos, poderão então opinar sobre algum assunto sem correrem o risco do ridículo. E olhem lá, tempo de estudo nem sempre é atestado de inteligência...             

2 comentários:

Carlindo José disse...

Excelente postagem caro Carlinus, especialmente este último comentário citado definiu completamente a atual situação alienatória que as pessoas estão passando, a tática de desinformação empregada pela grande mídia vem gerando essa onda que chega a ser de ódio desmedido.

Longe de ser adepto as ideias da atual presidente, de seu partido e sua base aliada, que acabaram por cometer "suicídio eleitoral" com as medidas tomadas atualmente, sou um crítico mas consciente de que essa onda de "mudança" trás apenas o pior da política brasileira.

Um forte abraço.

Carlinus disse...

Obrigado pelo comentário, Carlindo!

Um forte abraço!

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