quarta-feira, fevereiro 11, 2015

Teilhard de Chardin, o compositor da sinfonia universal

Teilhard de Chardin (1881-1955)
Na última segunda-feira terminei a leitura de Sinfonia Universal, de Frei Betto. O livro se propõe a fazer uma apresentação bastante instigante, apaixonada e poética da visão do padre humanista Teilhard de Chardin. Trata-se de um livro pequeno - de pouco mais de cem páginas. Frei Betto foi um dos primeiros sujeitos, ainda na década de sessenta, a introduzir o pensamento do jesuíta em terras brasileiras. Chardin buscou conciliar teologia e ciência, algo que aparentemente não se integram - como água e óleo. O resultado foi o estranhamento dos seus colegas cientistas e a imposição do silêncio pela Igreja.

O livro está separando por dois momentos: (1) aquele que busca apresentar a problemática em torno da existência do homem diante dos mistérios infinitos do cosmos. Para isso, Frei Betto dialoga com Stephen Hawking. Por causa da imensidão cósmica, aliada a uma dinâmica estritamente racional, construiu-se uma separação entre o homem e a natureza. O mundo passou a ser interpretado como uma máquina. A razão durante muito tempo foi vista como a rede capaz de apreender todos os voos da realidade. Todavia, tal pensamento levou o homem a uma condição inferior diante dos eventos universais. (2) logo em seguida, Betto nos faz uma explanação das ideias do pensador francês, que buscou levar à frente um projeto que tem por compreensão conectar todas as realidades criadas e mostrar lugar do homem como o refinamento evolutivo da matéria. 

Teilhard de Chardin durante muito tempo foi mal visto pelas autoridades eclesiásticas da Igreja que viam em seu pensamento ranços extremos de panteísmo. Tal fato, estava ligado ao fato de que Chardin havia embebido o seu pensamento de esquemas da filosofia oriental. Ele havia passado uma temporada na China e aquilo acabou mudando as suas concepções. O autor de O fenômeno humano, desde muito jovem se enveredou pelos caminhos científicos. Estudou fósseis. Fez pesquisa de campo. Aproximou-se do pensamento evolutivo. Construiu um pensamento que afirmava que entre um protozoário e uma montanha; ou entre uma flor ou uma estrela existe uma força convergente, um halo invisível que liga tudo o que existe. 

O personagem principal dessa dança cósmica seria o homem. Para ele o homem é a matéria que ganhou consciência. É o silêncio cósmico que se tornou música. É o não movimento que se tornou movimento. Chardin, desse modo, entende que todos os ciclos e processos possuem uma razão de ser. Não existe desperdício cósmico. Tudo converge. Nada se perde. Tudo se transforma. Tudo faz parte de um sistema invísível. 

Seu pensamento se estrutura da seguinte forma: a história da vida e da matéria está assentada em três etapas ou grandes momentos: (1) a cosmogênese, que tem início com com a criação da matéria até o aparecimento da vida; (2) biogênese, que vai até o aparecimento do homem; (3) antropogênese, que é o aparecimento do homem como momento máximo dos processos evolutivos; tal fase se completa de forma plena com a vinda de Cristo à terra (cristogênese), que dá início a unidade de todas as coisas com Cristo. Essa elevação ou espiritualização, que funciona como um refinamento da condição humana, leva à etapa conhecida como noosfera.

O que é bonito em Teilhard de Chardin é a sua preocupação em construir uma missa para o mundo; uma sinfonia poética para o universo; dignificá-lo. Tudo o que existe é sagrado. Nada é inútil. A vida é sagrada e está ligada a cada som, cada átomo, cada grito de esperança ou desesperança; tudo é a transparência de uma energia que é espiritual. Carl Sagan costumava dizer que o homem é a consciência do universo. É a sua voz. Penso que se Teilhard o tivesse conhecido ficaria feliz com esse pensamento.

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