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quarta-feira, dezembro 18, 2019

A grandeza de Paulo Freire e a tolice de um imbecil

"Se não amo o mundo, se não amo a vida, se não amo os homens, não me é possível o diálogo". Paulo Freire

Um dos assuntos mais badalados da semana foi a cena caricata de um presidente despreparado, semialfabetizado, tecendo comentários sobre uma figura da educação. No caso em questão, trata-se nada mais nada menos do que Paulo Freire, uma das personalidades brasileiras mais conhecidas no mundo. Bolsonaro, sempre bolsonárico (uma condição ontológica), chamou o autor de A pedagogia do oprimido de "energúmeno". 

Verificando a acepção da palavra citada pelo presidente (talvez, ele nem conheça os matizes da palavra), verificam-se os seguintes significados: "uma pessoa possessa ou possuída por um demônio; alguém que possui um comportamento descontrolado; um desatinado". Ou em uma última acepção: "sujeito sem conhecimento, um imbecil". E, nesse sentido último, nota-se o quanto a palavra utilizada possui uma falta de nexo com a pessoa a quem ela foi dirigida. 

Certa vez, escutei uma história de um professor da Universidade de Brasília bastante emocionante e singela por tudo o que ela evoca e representa. Dizia ele que certa vez fez uma viagem para a China. Não para a China das grandes metrópoles populosas; de trânsito que beira ao cinematográfico por causa da quantidade de veículos. Não a China das cidades luminosas; não a China dos adjetivos pentagruélicos. Ele foi a um vilarejo do interior, lugar em que o antigo ainda continua com suas tradições; com seus riachos; com suas montanhas; a China da vida simples. Ele visitou uma escola rural. As pessoas do lugar ficaram curiosa para saber de onde procedia aquele ocidental. Insinuou timidamente que era do Brasil. 

E, para a sua surpresa, escutou algo que mexeu com o seu instinto de brasilidade. Ele escutou o nome de alguém que não era um jogador de futebol nem uma atriz de novela. Ele escutou a delicada, mas confortadora frase: "Terra de Paulo Freire". Aquilo colocou a certeza dentro dele de que Paulo Freire não era apenas uma figura pública do Brasil. O pernambucano era um cidadão do mundo. Um divulgador de belezas, dono de uma pedagogia construída com a palavra, a palavra que era tão importante para ele. É importante aprender a "dizê-la"; a desvelá-la. Trazê-la de dentro de si para "pronunciar o mundo, modificá-lo"; transformá-lo pelo entendimento da própria condição de si e do outro. 

A história contada pelo professor é especial, porquanto ilustra a grandeza do filósofo e educador brasileiro. Atualmente, há em movimento, no Brasil, uma marcha em defesa da ignorância, do irracionalismo;  uma corrente anti-iluminista; um macartismo à brasileira, encampado por figuras histriônicas e patéticas. Bolsonaro é uma dessas figuras mais proeminentes. No futuro, haverá risadas - talvez, constrangimento ou vergonha. O atual chefe do Executivo Federal será conhecido - ele sim - como o mais "imbecil" e "energúmeno" dos presidentes que governaram o país. Do contrário, Paulo Freire continuará a ser estudado e respeitado pelo mundo a fora - e reverenciado por pessoas que reconhecem o quanto a sua pedagogia é libertadora. 

segunda-feira, outubro 15, 2018

Não diga para mim "feliz dia dos professores", se você aprova um projeto que aniquila a educação e o papel dos professores

Uma das frases mais contundentes de Paulo Freire, entre as tantas proferidas pela boniteza de sua sabedoria, é a de que a "educação é um ato político". Hoje, dia 15 de outubro, é comemorado o dia do professor. É uma data que possui um sabor adstringente; que chega a por um travo, um leve e perceptível sabor amargo na boca. 

(1) Ser professor é uma das mais nobres profissões. Quando afirmo isso, não quero patinar em um lugar comum. Afirmo uma obviedade pela verdade que a afirmação encerra. O destino de um país, necessariamente, passa pelo nível dos professores que possui. Eles são um dos principais contribuidores à formação das novas gerações. Possuem uma importância política, econômica e cultural. Um professor mal preparado deixa marcas profundas em seus alunos; mas, o contrário, também é verdade: um professor sábio, rico em carisma e sensibilidade é capaz de despertar os mais necessários sentimentos que tornam um sujeito responsável e crédulo no ser humano. Em sociedades amadurecidas, os professores possuem um lugar de destaque. São respeitados; bem remunerados. Tidos como heróis. 

(2) Por sua vez, o momento político que vivemos reserva enormes dificuldades para os professores. Há uma hostilidade contra os professores. O famigerado Escola sem partido traz uma agenda policialesca contra os professores. Debater criticamente qualquer assunto, demonstrando os pontos de vista sobre determinado assunto, pode ser entendido como "doutrinação". Um exemplo se deu com meu irmão, professor de história de determinada escola. Ele resolveu trabalhar O atlas da violência, divulgado este ano pelo Ipea e pelo Fórum Brasileiro de Segurança Pública (FBSP). Neste documento oficial, produzido por pesquisadores do Brasil inteiro, que trabalharam com informações empíricas, fica constatado que os negros são as principais vítimas da violência - entre tantas outras violências existentes contra mulheres, gays, índios etc. Que nascer negro no Brasil - e numa periferia - já condena qualquer sujeito potencialmente a um fatalidade - viver menos. Uma mãe, também professora (sic.) de escola pública, foi até a direção da escola denunciar o tipo "de doutrinação esquerdista" que ele estava fazendo. Uma verdadeira lavagem cerebral contra o seu filho. A escola o demitiu. 

Neste período eleitoral, muitos professores votarão em Bolsonaro, atestando uma completa falta de sintonia com a responsabilidade docente. O plano de governo do candidato do PSL para a educação traz uma série de propostas genéricas e vazias de conteúdo. É importante denunciar que se trata de um retrocesso. Por exemplo, a construção de uma escola militar em cada capital do país, como se isso melhorasse por si mesmo a qualidade da educação no Brasil; ou incentivar a educação à distância ainda na educação básica, algo proibido pela atual LDB. Segundo o plano de governo do candidato do PSL, o estado brasileiro gasta imensamente com ensino superior. Por isso, é necessário reverter esses investimentos. Ou seja, o que se busca é colocar o país numa "idade média pedagógica". 

O que se nota no plano de governo do candidato que lidera as pesquisas até agora é que há uma tentativa de monitorar a educação e os professores. O objetivo é cercear os professores, extraindo a possibilidade de qualquer conteúdo crítico da educação escolar. Com isso, agravar-se-á ainda mais o problema da educação nacional. O país precisa abandonar uma educação voltada para o decoreba e estabelecer um currículo em que disciplinas como história, arte, filosofia, sociologia, literatura, sejam valorizadas a fim de propiciar uma intersecção com as outras disciplinas - matemática, português, química etc - para permitir que os alunos agucem a capacidade analítica. A perspectiva bolsonarística é mediocremente empobrecedora por não levar em conta a problemática da educação pública. 

Quando Paulo Freire dizia que "a educação é ato político", ele apontava que a educação é feita por sujeitos ativos; por pessoas que se reconhecem como sujeitos históricos, pois não existe uma educação neutra. Em sua intencionalidade, ela ajuda a elucidar, permitindo que se construa uma alternativa crítica e criadora; ou aquela perspectiva que apenas aceita, que se resigna diante das estruturas opressoras do mundo, sem fomentar nos sujeitos aprendentes uma generosidade humanizadora. 

Por isso, não diga para mim "feliz dia dos professores", se você aprova um projeto que aniquila a educação e o papel dos professores. Isso apenas revela incoerência. Não se ajuda a construir uma sociedade solidária com projetos autoritários e excludentes. 


domingo, outubro 15, 2017

15 de outubro. Dia do professor. O que há para comemorar?

Ser responsável no desenvolvimento de uma prática qualquer implica, de um lado, o cumprimento de deveres, de outro, o exercício de direitos. Paulo Freire

15 de outubro. Dia do professor. Sou professor. Mas não tenho muitos motivos para risos largos. Em um país como o Brasil, ser professor é não ter motivos para comemorar, ainda mais no momento em que vivemos, quando do ponto de vista político, enfrentamos uma situação caótica, preocupante, de disputa hegemônica clara. Fico a observar as congratulações vazias, destituídas de reflexões mais fundas. Afinal, quais seriam os motivos para a comemoração?

Antes de empinar o peito e esboçar uma jactância anêmica, seria importante pensarmos o quanto o professor é valorizado, primeiramente, pelo Estado, pelos mentores das políticas públicas. Atualmente, sobre o professor recai a culpa de ser doutrinador, de "fazedor de cabeças". Se isso fosse verdade, não estaríamos vivendo um dos momentos mais grotescos de nossa história, em que a profissão tem sido criminalizada pelo Escola sem Partido, uma das construções mais patéticas e incoerentes possíveis do ponto de vista epistemológico. Quando o professor doutrina, faz a cabeça das pessoas, se ainda há pessoas que votam em Jair Messias Bolsonaro e pedem a volta da Ditadura? 

Afinal, o que há para comemorar? O Governo Federal congelou os investimentos em educação por vinte anos para inflar os bolsos dos rentistas. Ou seja, a longo prazo, pensa-se no setor financeiro mais do que em um projeto de educação para o Brasil, capaz de colocar o país na esteira do desenvolvimento e construir uma projeto de nação. 

O que há para comemorar, quando há um desmonte da universidade pública? A pesquisa tem sido precarizada. Os investimentos só encolhem, impedindo que o país protaganize a ciência, em projetos capazes de fazer do país uma potência nessa área. Novamente, entende-se que o mercado redimirá os problemas do país. A educação é só um detalhe. Novamente, o professor é só um detalhe, uma profissão proletarizada, secundarizada, sem investimentos, sem formação adequada, continuada.

O que há para comemorar, quando poucos são os Estados e municípios que conseguem pagar o piso salarial nacional para os professores? Importante dizer que o piso é uma conquista histórica. 

O que há para comemorar, quando o PIB é disputado pelo rentismo e pelos setores  que se beneficiam imoralmente com os juros da dívida pública, relegando à educação as migalhas que sobram do fundo público? 

O que há para comemorar? Educação é luta. É uma campo em disputa. É uma atuação política fundamental. Ela gesta o cidadão que se con-forma ou que se in-con-forma. Não é campo neutro. Se há descaso, isso já enuncia um compromisso político daqueles que a pensam. Então, olhando por este ponto de vista, não há motivos para júbilos ou idealismos. 

Que há para comemorar?

A alienação?
A classe dividida?
O trabalho excedente não remunerado?
A ausência de final semana, porque este só existe para a preparação de aula?
Da falta de ócio, de leitura?
A falta de incentivos, de reconhecimento?
De estímulos do Estado e da sociedade?
...dos alunos?
A mão de obra barata?
A desvalorização grassante..?
A síndrome de burn out?
O trabalhar em três escolas para se conseguir pagar as contas?
A ignorância política?
A incapacidade de pensar histórica e dialeticamente a sua condição?

Afinal, tantas são os motivos para a seriedade, para não pensar messianicamente a profissão e poucos são os motivos para o júbilo, para o contentamento que a ocasião exige. 




sexta-feira, agosto 09, 2013

"Solto o meu bárbaro YAWP sobre os telhados do mundo". Um grande presente de aniversário


O que faz as coisas pararem no tempo é a saudade
Mario Quintana

O cimento que alicerça o mundo humano é a palavra. A palavra é um dos elementos identificadores da minha humanidade. Se eu não verbalizasse, estaria privado dessa dimensão tão intrinsecamente necessária à minha humanização. Paulo Freire diz que o sujeito humanizado é aquele capaz de praticar a "emersão", que é a existencialização de sua subjetividade, o externar de seu próprio mundo humano. Sujeitos humanizados exprimem o que sentem num gesto de liberdade plena. Quem não aprendeu "a dizer" o que sente, ainda não está plenamente emancipado. 

Proibir a fala é proibir a própria capacidade de ser do outro, pois o outro está naquilo que a sua fala diz. A fala é uma dimensão existencial da vivência social. Com ela, eu aprendi a dizer "mãe", "não", "obrigado", "vou", "não vou", "gosto" e "não gosto". O sujeito que verbaliza a palavra projeta o seu próprio ser. O indivíduo proibido de dizer a palavra está proibido, na verdade, de ser. Falar é colorir o mundo com as cores que acumulamos na história. É colocar minhas impressões sobre determinado assunto, sobre determinado aspecto da realidade. É não sentir em sua privacidade, mas compartilhar com o outro um pouco daquilo que somos. 

É, por isso, que que a raposa vai dizer para o Pequeno Príncipe: "A gente só conhece bem as coisas que cativou (...) Os homens não têm mais tempo de conhecer alguma coisa. Compram tudo prontinho nas lojas". Os homens são cativados pelo poder da palavra. E mesmo que haja silêncio no intervalo das falas, isso se constitui em "um dizer". Há silêncios que estão povoados de palavras. 

Divago com as palavras, porque a boca se enche de sorrisos quando o coração é cativado. Hoje é o dia de meu aniversário. Fui trabalhar pela manhã e recebi durante o dia vários gestos de afeto. Dois em especial me tocaram bastante. (1) primeiro do 9° ano A. Deram a mim um livro do Mário Quintana. Presente excelente. Quintana é um gênio. Um burilador de palavras. O pastor de palavras, como o Alberto Caieiro. (2) segundo foi um gesto de carinho do 8° C. Fizeram uma festinha. Todavia, o que mais me comoveu foram as palavras escritas pela turma e lidas pela Lorena Weil. Demonstra um alto nível de perspicácia ao dizer a palavra. Transcrevo-as abaixo:

"Quando me pediram para escrever esta carta, fiquei pensando em como começá-la, em como desenvolvê-la e em como terminar. Pois é. Não tinha ideia de como escrever algo para o cara que corrige nossas provas, mesmo com todas as caligrafias borradas e estranhas, mesmo com os erros ortográficos, ele consegue entender. Nossa caminhada vai se tornando cada vez mais longa, se olharmos para trás, e cada vez mais curta, se olharmos para frente. É estranho - eu sei. Mas pare para pensar nas crianças que éramos no 6° ano e olhe para nós agora, mesmo ainda não sabendo quase nada da vida. Estamos crescendo e evoluindo. 

Toda aula uma palavra carlina entra no nosso dicionário, aquelas aulas que te deixam com os cabelos, mesmo poucos, brancos. O sexto horário da segunda-feira em que já estamos exaustos, mas você está ali, de pé, passando o seu conhecimento para frente. Como não lembrar dos seus pulos de alegria quando acertamos alguma questão ou quando não sabemos a matéria? Aquele seu jeito desengonçado de andar, como você mesmo disse: "como boneco de Olinda". Esse jeito Carlos de ser nos deixa curiosos, afinal como alguém pode falar tão bonito de coisas tão bonitas? Ter sabedoria que você tem, não é para qualquer um. Pode não parecer, mas a admiração que temos por você é muito grande. E quem diria, ainda com essa vida agitada ainda sobre espaço para ler um livro? Um não: uns 10, 20, 30 quem sabe... É. Meu professor de Português também é uma biblioteca ambulante. E também uma discoteca dos mais variados rocks, dos mais diferentes clássicos. 

Como ele consegue é um grande mistério. Daqui a pouco tempo essa turma vai embora. Vamos enfrentar o temido Ensino Médio e cada um aqui vai lembrar daquela professor de Português do Santa Rosa. "Lembro-me de quando ele falou desse escritor". "Acho que li esse livro". Tudo isso vai deixar saudades. Parabéns, Carlos. Continue sendo esse homem de grande coração que você é. Obrigado por cada aula. Esperamos que você realize seus sonhos e conquiste seus objetivos".

Obrigado!

sexta-feira, maio 10, 2013

"As convicções são inimigas mais perigosas da verdade do que as mentiras"

Diz Paulo Freire em sua Pedagogia do Oprimido que não é possível manter uma relação dialógica com quem não comungue com o seu projeto ideológico. Pensava que existia um certo radicalismo nessa assertiva, até que ontem percebi que o educador pernambucano estava correto. Nietszche diz também em um dos seus livros que "as convicções são inimigas mais perigosas da verdade do que as mentiras". 

Faço essa divagação, pois ontem tive o desprazer de tentar estabelecer um diálogo com um sujeito o qual estudei em um seminário teológico. Nos anos de seminários, notava o quanto o sujeito era "quadrado", radical; o quanto baseava seus argumentos em convicções extremadas. Ontem, pelo Facebook, fiz uma correção a uma afirmação sem fundamento histórico colocada por esse ex-colega e ele me respondeu com uma ironia despropositada. Além do que, enviou-me um texto que, quando li, dei grandes risadas.

O texto busca desqualificar o marxismo, fazendo uma mixórdia de afirmações desencontradas. Fiquei com a impressão irônica de que a principal função de Marx era perseguir o cristianismo e acabar com a religião de Paulo. Um verdadeiro desbunde. Imaginei, ainda, que (se eles - construtores de teologias alienígenas - leram os textos de Marx) eles haviam lido outros textos, que não aqueles escritos pelo autor de O Capital. O nome dado pelos adeptos desse radicalismo esquizofrênico é "marxismo cultural". Marxismo cultural seria o movimento de cunho cultural, alimentado por intelectuais e pelos meios de comunicação de massa para arruinar os valores judaico-cristãos. 

 O que me chamou atenção foi a incapacidade do sujeito ler os fatos por uma perspectiva crítico-dialética. Ele se diz professor de Filosofia no estado do Maranhão. Temi pelo que o sujeito anda ensinando para os sues alunos. Afinal, ele colocou o socialismo, o nazismo e o fascismo na mesma esteira de comparação. Ele ignora o fato de que foi a União Soviética que derrotou o nazismo. Não quero entrar no aspecto do socialismo real implementado pela União Soviética, já que sempre associam o socialismo às ditaduras variadas. Todavia, vivemos, também, uma ditadura muito bem-disfarçada sob a égide da democracia e da liberdade.

Indicou-me alguns escritores aos quais já tive a oportunidade de conhecer - Peter Kreeft, Olavo de Carvalho, Nancy Pearcey, Charles Colson, William Craig, John C. Lennox. A maioria deles, da direita ultra-conservadora dos Estados Unidos. Ou seja, defensores da política de Bush.

O que me deixa impressionado é saber como um sujeito que se arroga a ser formador de opinião se mostra tão míope. Sua preocupação mais intensa é o movimento homossexual. Desconhece o sujeito que os valores morais  seguem a lógica de cada momento da dialética da história. E que a própria sociedade judia possuía os seus valores e esses foram cristalizados no tempo pelo movimento religioso que dogmatizou os seus aspectos culturais. Impressiona-me como os valores culturais de uma determinada sociedade, no caso a judia, por meio dos valores ditos bíblicos, cegam um ser humano ao ponto de descaracterizar, distorcer a própria realidade em que vive. Impressiona-me perceber que, como no Mito da Caverna de Platão, alguém enxerga o mundo por meio de sombras. Assusta-me o nível de embrutecimento gerado pelas convicções da fé. Isso explica, por exemplo, a atitude de um homem-bomba ou a capacidade de ser implacável com os diferentes. 

Paulo Freire e Nietzsche me fizeram entender um pouco mais sobre a natureza do humana, demasiado humana.

quarta-feira, maio 09, 2012

Breve comentário a uma leitura inicial de A Pedagogia do Oprimido de Paulo Freire

Quando Paulo Freire escreveu os seus primeiros trabalhos, o contexto mundial era de Guerra Fria. O mundo estava dividido entre americanos e soviéticos. Mesmo com essa divisão, criou-se a ideia de Primeiro Mundo e Terceiro Mundo. O Primeiro Mundo pertencia àquelas nações ricas, desenvolvidas. O Segundo Mundo pertencia aos países socialistas, que não faziam parte do Primeiro Mundo, mas também não poderiam ser classificados como de Terceiro Mundo. E, por fim, do Terceiro Mundo fazia parte aqueles países probres, nos quais as desigualdades sociais e econômicas eram alarmantes. 

A reflexão de Freire tem por finalidade refletir sobre a massa de opressos que vivia à margem nesse chamado Terceiro Mundo. Que eram explorados e consentiam com isso. Por conta disso, ele chamou um dos seus livros (que estou lendo nesse momento) de A Pedagogia do Oprimido. Seu discurso era direcionado aos oprimidos - embora também ao opressor. Analisando o seu texto (docemente poético e ao mesmo tempo visceral porquê trágico), nota-se o quanto permanece atual a reflexão feita no final da década de 60, enquanto estava exilado no Chile. Paulo Freire sempre buscou, dialeticamente, entender a condição do marginalizado, daqueles que nada são e que foram "proibidos de ser".

Gostaria apenas de citar um trecho de A Pedagogia do Orpimido: "Há, por outro lado, em certo momento da experiência existencial dos oprimidos, uma irresistível atração pelo opressor. Pelos seus padrões de vida. Participar destes padrões constitui uma incontida aspiração. na sua alienação querem, a todo custo, parecer com o opressor. Imitá-lo. Seguí-lo. Isto se verifica, sobretudo, nos oprimidos de "classe média", cujo anseio é serem iguais ao "homem ilustre" da chamada classe "superior"".

Notável síntese. Freire fala de uma violência trans-histórica de sedimentação de uma lei, pois "esta violência, como um processo, passa de geração a geração de opressores, que se vão fazendo legatários dela e formando-se no seu clima geral. Este clima cria nos opressores uma consicência fortemente possessiva. Possessiva do mundo e dos homens. Fora da pessoa direta, concreta, material, do mundo e dos homens, os opressores não se podem entender a si mesmos. [...] Daí que tendam a transformar tudo o que os cerca em objetos de seu domínio. A terra, os bens, a produção, a criação dos homens, os homens mesmos, o tempo em que estão os homens, tudo se reduz a objeto de seu comando. Nesta ânsia irrefreada de posse, desenvolvem em si a convicção de que lhes é possível transformar tudo a seu poder compra. Daí a sua concepção estritamente materialista da existência. O dinheiro é a medida de todas as coisas. E o lucro, seu objetivo principal".
Sigamos com a leitura do texto freiriano!

Abaixo, dois vídeos que trazem uma entrevista concedida por Freire em 1997, ano de sua morte.

quinta-feira, março 15, 2012

Após 129 anos da morte, a voz ainda fala

"A doutrina de Marx suscita em todo o mundo civilizado a maior hostilidade e o maior ódio de toda a ciência burguesa (tanto a oficial como a liberal), que vê no marxismo um a espécie de "seita perniciosa". E não se pode esperar outra atitude, pois, numa sociedade baseada na luta de classes não pode haver ciência social "imparcial". De uma forma ou de outra, toda a ciência oficial e liberal defende a escravidão assalariada, enquanto o marxismo declarou uma guerra implacável a essa escravidão"
Lenin

Ontem, dia 14 de março, foi o Dia da Poesia, mas também foi dia em que o mundo comemorou 129 anos da morte física de Karl Marx. É curiosa a força que o pensador alemão ainda possui. O século XX, foi o século de Marx. Após a queda do Muro de Berlim e o fim da União Soviética, há quem ache que falar em marxismo, comunismo, socialismo seja um grande contra-senso  Ledo engano. Marx é uma força rediviva. Seus textos ainda continuam vivos e atuais. Apenas para exemplificar, Karl nunca foi tão lido na Meca do Capitalismo, os Estados Unidos da América, como o é atualmente. Muitos são os exemplares de O Manifesto do Partido Comunista e O Capital que têm sido vendidos por lá.

Quando falamos em Karl Marx, falamos de uma potência. O pensador nunca nos deixa inertes. Sempre nos movemos em relação a ele. Se não o fazemos por amor, fazemo-lo por ódio. Se o movimento não é centrípeto é centrífugo - ou vice e versa. Lenin, um dos seus seguidores mais famosos, disse certa vez que o pensamento de Marx promove ódio à toda a ciência burguesa.

Marx se auto-explica, dizendo que a sua missão "não era explicar o mundo, como tantos outros filósofos fizeram". Que essa não deve ser a sina da filosofia e do engajamento de quem quer que seja. E talvez aqui resida a raiva ferina aos seus escritos. Para Marx, a função da filosofia e do engajamento "é mudar o mundo". Ou seja, estar em Marx é, a priori, está munido de um sentido de mudança. As páginas velhas da história, escritas com o sangue dos trabalhadores, precisam ser reescritas pelos próprios trabalhadores.

Desde o final de minha adolescência, sempre observei que, quando falam de Marx, ou falam com ódio ou com um amor religioso exagerado. Penso que descobri o porquê de tal aversão (olha a minha presunção!). A explicação de tal fato veio com uma frase de um dos seus discípulos - Antonio Gramsci. O pensador italiano disse que "dizer a verdade é sempre revolucionário". Quando nos debruçamos sobre qualquer texto de Marx, fica-nos a certeza de que estamos diante de um bisturi que cortou os membros da história. Karl foi fundo em sua descrição, em sua análise. Impiedoso em sua crítica da anatomia das sociedades. Constatou um modelo que perdura em todas as épocas - a batalha pela luta de classes.

Negar esse fato é negar a história. É, simplesmente, negar a condição de bilhões de homens e mulheres que vivem e já viveram a tirania opressiva. Que tiveram/têm os seus direitos negados; e a dignidade usurpada. A capacidade de alimentação e libertação olvidadas. Marx levantou as saias morais da história e denunciou a orgia e lascívia dos ricos sobre os pobres. O parasitismo das sociedades ditas "civilizadas" sobre os "incivilizados". Os antídotos que são forjados numa tentativa de explicar o inexplicável.

A frase clássica de Hobbes de que "o homem é o lobo do próprio homem" fez com que se criassem mecanismos para abafar o barbarismo dos homens sobre os homens. Para isso era necessário criar uma força que garantisse a ordem e impedisse que "o homem violentasse o homem". Uma força que fosse um agente imparcial para preservar a todos. Tal ente é o Estado Moderno, garantidor do bem comum.

Para Marx, a estrutura ficará viciada se, a sua formação ocultar a selvageria das relações. O Estado Moderno não é nada mais nada menos do que o desejo da burguesia. O que ele diria sobre a nossa sociedade atual? Sobre a nossa ideia ordinária de uma democracia, que nos dá a "liberdade" para escolher apenas quem serão os líderes que arrancarão nossos próprios ossos. Ou seja, os algozes que vão morder nossas carnes bambas pelo trabalho excessivo. Vivemos um ideal de sociedade que nos leva apenas à dominação e à domesticação da vontade. Julgamos que ter dinheiro e poder para consumir bens duráveis e não duráveis é o ideal para se viver bem. Esquecemos que essa é parte que nos cabe de nossa ração. Ou como diria o Chico Buarque na música Funeral de um Lavrador: "É a parte que te cabe deste latifúndio". Que esse modelo leva à barbárie e à selvageria. Ao predatismo da natureza. À cataclísmica situação ecológica que enfrentamos.

Se a infra-estrutura está viciada, a super-estrutura repetirá tais vícios. É por isso que as instituições que surgem numa sociedade capitalista, defenderão com unhas e dentes o capitalismo. Criarão linguagens. Explicações funcionalistas e positivistas do destino para o destino daquela sociedade. Falar-se-á em progresso. Em desenvolvimentismo. As demais instituições - a ciência, a religião, a política, as artes, a cultura em geral - reproduzirão esse anseio viciado. Não me assusta quando vejo alguém falando mal de Marx. Quando constato tal realidade, penso conjecturo duas hipóteses:

(1) Se o sujeito é proletário (apesar de ser um equívoco dorível ouvir um trabalhador falar mal de Marx), entendo que o veneno do "hospedeiro" o tomou. É como se o discurso do vencedor estivesse em seus lábios. Paulo Freire em seu texto clássico, A Pedagogia do Oprimido, disse que: "Os oprimidos, que introjetam a 'sombra' dos opressores e seguem suas pautas, temem a liberdade, na medida em que esta, implicando a expulsão desta sombra, exigiria deles que 'preenchessem' o 'vazio' deixado pela expulsão com outro 'conteúdo' - de sua autonomia". Em outras palavras, a liberdade que ostentam ter é a liberdade "cerceada" e ilusória dada pelo opressor. Em nossa sociedade, a liberdade que temos é a liberdade para consumir as mercadorias que o mercado nos oferece. Ficamos felizes à medida que consumimos mais e mais. A arte, o engenho, o conhecimento, os corpos, o saber, a cultura, o turismo, transformaram-se em fetiche e alimentam as nossas ânsias. Quanto mais os temos, mais nos sentimos livres.

(2) Se ele não gosta de Marx e sabe o motivo por que não gosta, não sendo proletário, creio que ele esteja correto. Quem é algoz, jamais gostará da vítima. Quem explora, jamais sentirá comiseração pelo explorado. Quem está na condição de verdugo, não sentirá conforto se a sua atividade for criticada e exposta cientificamente.

Então, termos a oportunidade para dizer: "Parabéns, Marx, você é imensamente atual. Necessário para que entendamos a situação do trabalhador que levanta todos os dias cedo. Que se ergue para alimentar a sua família. Que paga tributos. Que produz mais-valia".

Para finalizar, um trecho da música Pedro Pedreiro de Chico Buarque:

Pedro pedreiro penseiro esperando o trem
Manhã parece, carece de esperar também
Para o bem de quem tem bem de quem não tem vintém
Pedro pedreiro fica assim pensando
Assim pensando o tempo passa e a gente vai ficando prá trás
Esperando, esperando, esperando
Esperando o sol, esperando o trem
Esperando aumento desde o ano passado para o mês que vem
Pedro pedreiro penseiro esperando o trem
Manhã parece, carece de esperar também
Para o bem de quem tem bem de quem não tem vintém
Pedro pedreiro espera o carnaval
E a sorte grande do bilhete pela federal todo mês
Esperando, esperando, esperando, esperando o sol
Esperando o trem, esperando aumento para o mês que vem
Esperando a festa, esperando a sorte
E a mulher de Pedro, esperando um filho prá esperar também (...)
Letra completa AQUI
Carlos Antônio M. Albuquerque

quinta-feira, fevereiro 17, 2011

Comunicação e cultura em Paulo Freire: 30 anos depois

Hoje, a contribuição de Paulo Freire para o campo da comunicação é fonte de inspiração e referência. A situação, certamente, não era a mesma no final da década de 70. Embora reconhecido internacionalmente e estudado em várias disciplinas, seu pensamento era quase que totalmente ignorado nos estudos de comunicação, inclusive no Brasil.

Visitando a trabalho o sul da Índia, estado de Tamilnadu, no início de 2010, o professor de física da Universidade de Brasília, Amílcar Rabelo de Queiroz, deparou-se com uma situação reveladora. Em viagem para a região de Thanjavur conheceu um vilarejo pobre – Pattukkotta – que vive basicamente da pequena agricultura. Lá visitou uma escola de educação fundamental. Para facilitar sua apresentação e criar um clima amistoso, os colegas do Institute of Mathematical Sciences (IMSC), que com ele viajavam, informam aos professores da escola que Amílcar era brasileiro, da terra de Pelé. “Brasil? Pelé?”. Repetem várias vezes. De repente, um deles sorri e exclama: “ah, ah, Brasil, claro, terra de Freire, Paulo Freire!” E alcança na estante vários livros de um dos nossos maiores educadores, traduzido, estudado e reconhecido em todo o mundo.

Paulo Freire faleceu há quase 14 anos, em maio de 1997. Se estivesse vivo, completaria noventa anos em setembro. Sua obra, seu pensamento e sua ação deixaram marcas profundas em vários campos do conhecimento. Seu único ensaio especificamente sobre comunicação – Extensão ou Comunicação? – foi escrito no exílio chileno, em 1968, e publicado pela Editora Paz e Terra, no Brasil, em 1971.

Tenho afirmado recorrentemente que as reflexões de Freire sobre comunicação nunca estiveram tão atuais. [cf. nesta Carta Maior “Paulo Freire, direito à comunicação e PNDH3”].

Direito à comunicação
A necessidade de construção e positivação de um direito à comunicação foi identificada há mais de 40 anos pelo francês Jean D’Arcy, quando diretor de serviços audiovisuais e de rádio do Departamento de Informações Públicas das Nações Unidas, em 1969. Naquela época ele afirmava:

Virá o tempo em que a Declaração Universal dos Direitos Humanos terá de abarcar um direito mais amplo que o direito humano à informação, estabelecido pela primeira vez 21 anos atrás no Artigo 19. Trata-se do direito do homem de se comunicar.

A proposta de D’Arcy, na verdade, assumia e consagrava uma perspectiva “dialógica” da comunicação que já havia sido elaborada, do ponto de vista conceitual, por Paulo Freire no ensaio "Extensão ou comunicação"?

Freire recorre à raiz semântica da palavra comunicação e nela inclui a dimensão política da igualdade, a ausência de dominação. Para ele, comunicação implica um diálogo entre sujeitos mediados pelo objeto de conhecimento que por sua vez decorre da experiência e do trabalho cotidiano. Ao restringir a comunicação a uma relação entre sujeitos, necessariamente iguais, toda “relação de poder” fica excluída. O próprio conhecimento gerado pelo diálogo comunicativo só será verdadeiro e autêntico quando comprometido com a justiça e a transformação social. A comunicação passa a ser, portanto, por definição, dialógica, vale dizer, de “mão dupla”, contemplando, ao mesmo tempo, o direito de ser informado e o direito de acesso aos meios necessários à plena liberdade de expressão.

Como se vê, Freire teoriza a comunicação interativa antes da revolução digital, vale dizer, antes da internet e de suas redes sociais. No nosso tempo, quando as novas tecnologias [TICs] rompem com a unidirecionalidade da comunicação “de massa” tradicional, o conceito de comunicação relacional e transformadora oferece uma referencia normativa revitalizada e desafiadora.

História das idéias
Ao reafirmar a atualidade do pensamento de Paulo Freire, especificamente para o campo da comunicação, tomo a liberdade de registrar os trinta anos de "Comunicação e Cultura: as idéias de Paulo Freire", publicado pela Paz e Terra, em março de 1981 (2ª. edição 1984). O livro é uma adaptação de tese de doutorado defendida em agosto de 1979.

Na verdade, o argumento central sobre a importância de Freire para o estudo da comunicação já havia aparecido em artigo anterior que publiquei, com Clifford Christians, na revista inglesa Communication (vol. 4, n. 1, 1979) sob o título “Paulo Freire: the political dimension of dialogic communication”, traduzido e publicado em português pela revista Síntese (vol. VI, n. 16, maio/agosto de 1979).

A história das idéias nos diferentes campos do conhecimento – inclusive na Comunicação – muitas vezes contém omissões, deliberadas ou não, ao deixar de registrar contribuições feitas por autores que, por diferentes razões, não se situam no seu “mainstream” ou não se alinham aos grupos dominantes na academia. Daí, às vezes, a necessidade de auto-registros isolados como esse.

Hoje, a contribuição de Paulo Freire para o campo da comunicação é fonte de inspiração e referência. A situação, certamente, não era a mesma no final da década de 70 do século passado. Embora reconhecido internacionalmente e estudado em várias disciplinas – filosofia, sociologia, serviço social, religião, história – seu pensamento era quase que totalmente ignorado nos estudos de comunicação, inclusive na sua terra, o Brasil.

A incrível história do prof. Amílcar na Índia, de que só agora tomei conhecimento, serviu de mote para que fizesse, então, esse duplo registro: a permanente atualidade do pensamento do educador brasileiro e os trinta anos do Comunicação e Cultura: as idéias de Paulo Freire.


Venício A. de Lima é professor titular de Ciência Política e Comunicação da UnB (aposentado) e autor, dentre outros, de Liberdade de Expressão vs. Liberdade de Imprensa – Direito à Comunicação e Democracia, Publisher, 2010.

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