quarta-feira, dezembro 18, 2019
A grandeza de Paulo Freire e a tolice de um imbecil
segunda-feira, outubro 15, 2018
Não diga para mim "feliz dia dos professores", se você aprova um projeto que aniquila a educação e o papel dos professores
domingo, outubro 15, 2017
15 de outubro. Dia do professor. O que há para comemorar?
15 de outubro. Dia do professor. Sou professor. Mas não tenho muitos motivos para risos largos. Em um país como o Brasil, ser professor é não ter motivos para comemorar, ainda mais no momento em que vivemos, quando do ponto de vista político, enfrentamos uma situação caótica, preocupante, de disputa hegemônica clara. Fico a observar as congratulações vazias, destituídas de reflexões mais fundas. Afinal, quais seriam os motivos para a comemoração?sexta-feira, agosto 09, 2013
"Solto o meu bárbaro YAWP sobre os telhados do mundo". Um grande presente de aniversário
sexta-feira, maio 10, 2013
"As convicções são inimigas mais perigosas da verdade do que as mentiras"
Diz Paulo Freire em sua Pedagogia do Oprimido que não é possível manter uma relação dialógica com quem não comungue com o seu projeto ideológico. Pensava que existia um certo radicalismo nessa assertiva, até que ontem percebi que o educador pernambucano estava correto. Nietszche diz também em um dos seus livros que "as convicções são inimigas mais perigosas da verdade do que as mentiras". quarta-feira, maio 09, 2012
Breve comentário a uma leitura inicial de A Pedagogia do Oprimido de Paulo Freire
Quando Paulo Freire escreveu os seus primeiros trabalhos, o contexto mundial era de Guerra Fria. O mundo estava dividido entre americanos e soviéticos. Mesmo com essa divisão, criou-se a ideia de Primeiro Mundo e Terceiro Mundo. O Primeiro Mundo pertencia àquelas nações ricas, desenvolvidas. O Segundo Mundo pertencia aos países socialistas, que não faziam parte do Primeiro Mundo, mas também não poderiam ser classificados como de Terceiro Mundo. E, por fim, do Terceiro Mundo fazia parte aqueles países probres, nos quais as desigualdades sociais e econômicas eram alarmantes. Abaixo, dois vídeos que trazem uma entrevista concedida por Freire em 1997, ano de sua morte.
quinta-feira, março 15, 2012
Após 129 anos da morte, a voz ainda fala
"A doutrina de Marx suscita em todo o mundo civilizado a maior hostilidade e o maior ódio de toda a ciência burguesa (tanto a oficial como a liberal), que vê no marxismo um a espécie de "seita perniciosa". E não se pode esperar outra atitude, pois, numa sociedade baseada na luta de classes não pode haver ciência social "imparcial". De uma forma ou de outra, toda a ciência oficial e liberal defende a escravidão assalariada, enquanto o marxismo declarou uma guerra implacável a essa escravidão"Ontem, dia 14 de março, foi o Dia da Poesia, mas também foi dia em que o mundo comemorou 129 anos da morte física de Karl Marx. É curiosa a força que o pensador alemão ainda possui. O século XX, foi o século de Marx. Após a queda do Muro de Berlim e o fim da União Soviética, há quem ache que falar em marxismo, comunismo, socialismo seja um grande contra-senso Ledo engano. Marx é uma força rediviva. Seus textos ainda continuam vivos e atuais. Apenas para exemplificar, Karl nunca foi tão lido na Meca do Capitalismo, os Estados Unidos da América, como o é atualmente. Muitos são os exemplares de O Manifesto do Partido Comunista e O Capital que têm sido vendidos por lá.
Quando falamos em Karl Marx, falamos de uma potência. O pensador nunca nos deixa inertes. Sempre nos movemos em relação a ele. Se não o fazemos por amor, fazemo-lo por ódio. Se o movimento não é centrípeto é centrífugo - ou vice e versa. Lenin, um dos seus seguidores mais famosos, disse certa vez que o pensamento de Marx promove ódio à toda a ciência burguesa.
Marx se auto-explica, dizendo que a sua missão "não era explicar o mundo, como tantos outros filósofos fizeram". Que essa não deve ser a sina da filosofia e do engajamento de quem quer que seja. E talvez aqui resida a raiva ferina aos seus escritos. Para Marx, a função da filosofia e do engajamento "é mudar o mundo". Ou seja, estar em Marx é, a priori, está munido de um sentido de mudança. As páginas velhas da história, escritas com o sangue dos trabalhadores, precisam ser reescritas pelos próprios trabalhadores.
Desde o final de minha adolescência, sempre observei que, quando falam de Marx, ou falam com ódio ou com um amor religioso exagerado. Penso que descobri o porquê de tal aversão (olha a minha presunção!). A explicação de tal fato veio com uma frase de um dos seus discípulos - Antonio Gramsci. O pensador italiano disse que "dizer a verdade é sempre revolucionário". Quando nos debruçamos sobre qualquer texto de Marx, fica-nos a certeza de que estamos diante de um bisturi que cortou os membros da história. Karl foi fundo em sua descrição, em sua análise. Impiedoso em sua crítica da anatomia das sociedades. Constatou um modelo que perdura em todas as épocas - a batalha pela luta de classes.
Negar esse fato é negar a história. É, simplesmente, negar a condição de bilhões de homens e mulheres que vivem e já viveram a tirania opressiva. Que tiveram/têm os seus direitos negados; e a dignidade usurpada. A capacidade de alimentação e libertação olvidadas. Marx levantou as saias morais da história e denunciou a orgia e lascívia dos ricos sobre os pobres. O parasitismo das sociedades ditas "civilizadas" sobre os "inciv
ilizados". Os antídotos que são forjados numa tentativa de explicar o inexplicável.A frase clássica de Hobbes de que "o homem é o lobo do próprio homem" fez com que se criassem mecanismos para abafar o barbarismo dos homens sobre os homens. Para isso era necessário criar uma força que garantisse a ordem e impedisse que "o homem violentasse o homem". Uma força que fosse um agente imparcial para preservar a todos. Tal ente é o Estado Moderno, garantidor do bem comum.
Para Marx, a estrutura ficará viciada se, a sua formação ocultar a selvageria das relações. O Estado Moderno não é nada mais nada menos do que o desejo da burguesia. O que ele diria sobre a nossa sociedade atual? Sobre a nossa ideia ordinária de uma democracia, que nos dá a "liberdade" para escolher apenas quem serão os líderes que arrancarão nossos próprios ossos. Ou seja, os algozes que vão morder nossas carnes bambas pelo trabalho excessivo. Vivemos um ideal de sociedade que nos leva apenas à dominação e à domesticação da vontade. Julgamos que ter dinheiro e poder para consumir bens duráveis e não duráveis é o ideal para se viver bem. Esquecemos que essa é parte que nos cabe de nossa ração. Ou como diria o Chico Buarque na música Funeral de um Lavrador: "É a parte que te cabe deste latifúndio". Que esse modelo leva à barbárie e à selvageria. Ao predatismo da natureza. À cataclísmica situação ecológica que enfrentamos.
Se a infra-estrutura está viciada, a super-estrutura repetirá tais vícios. É por isso que as instituições que surgem numa sociedade capitalista, defenderão com unhas e dentes o capitalismo. Criarão linguagens. Explicações funcionalistas e positivistas do destino para o destino daquela sociedade. Falar-se-á em progresso. Em desenvolvimentismo. As demais instituições - a ciência, a religião, a política, as artes, a cultura em geral - reproduzirão esse anseio viciado. Não me assusta quando vejo alguém falando mal de Marx. Quando constato tal realidade, penso conjecturo duas hipóteses:
(1) Se o sujeito é proletário (apesar de ser um equívoco dorível ouvir um trab
alhador falar mal de Marx), entendo que o veneno do "hospedeiro" o tomou. É como se o discurso do vencedor estivesse em seus lábios. Paulo Freire em seu texto clássico, A Pedagogia do Oprimido, disse que: "Os oprimidos, que introjetam a 'sombra' dos opressores e seguem suas pautas, temem a liberdade, na medida em que esta, implicando a expulsão desta sombra, exigiria deles que 'preenchessem' o 'vazio' deixado pela expulsão com outro 'conteúdo' - de sua autonomia". Em outras palavras, a liberdade que ostentam ter é a liberdade "cerceada" e ilusória dada pelo opressor. Em nossa sociedade, a liberdade que temos é a liberdade para consumir as mercadorias que o mercado nos oferece. Ficamos felizes à medida que consumimos mais e mais. A arte, o engenho, o conhecimento, os corpos, o saber, a cultura, o turismo, transformaram-se em fetiche e alimentam as nossas ânsias. Quanto mais os temos, mais nos sentimos livres.(2) Se ele não gosta de Marx e sabe o motivo por que não gosta, não sendo proletário, creio que ele esteja correto. Quem é algoz, jamais gostará da vítima. Quem explora, jamais sentirá comiseração pelo explorado. Quem está na condição de verdugo, não sentirá conforto se a sua atividade for criticada e exposta cientificamente.
Então, termos a oportunidade para dizer: "Parabéns, Marx, você é imensamente atual. Necessário para que entendamos a situação do trabalhador que levanta todos os dias cedo. Que se ergue para alimentar a sua família. Que paga tributos. Que produz mais-valia".
Para finalizar, um trecho da música Pedro Pedreiro de Chico Buarque:
Pedro pedreiro penseiro esperando o trem
Manhã parece, carece de esperar também
Para o bem de quem tem bem de quem não tem vintém
Pedro pedreiro fica assim pensando
Assim pensando o tempo passa e a gente vai ficando prá trás
Esperando, esperando, esperando
Esperando o sol, esperando o trem
Esperando aumento desde o ano passado para o mês que vem
Pedro pedreiro penseiro esperando o trem
Manhã parece, carece de esperar também
Para o bem de quem tem bem de quem não tem vintém
Pedro pedreiro espera o carnaval
E a sorte grande do bilhete pela federal todo mês
Esperando, esperando, esperando, esperando o sol
Esperando o trem, esperando aumento para o mês que vem
Esperando a festa, esperando a sorte
E a mulher de Pedro, esperando um filho prá esperar também (...)
Letra completa AQUI
Carlos Antônio M. Albuquerque
quinta-feira, fevereiro 17, 2011
Comunicação e cultura em Paulo Freire: 30 anos depois
Hoje, a contribuição de Paulo Freire para o campo da comunicação é fonte de inspiração e referência. A situação, certamente, não era a mesma no final da década de 70. Embora reconhecido internacionalmente e estudado em várias disciplinas, seu pensamento era quase que totalmente ignorado nos estudos de comunicação, inclusive no Brasil. Venício Lima
Visitando a trabalho o sul da Índia, estado de Tamilnadu, no início de 2010, o professor de física da Universidade de Brasília, Amílcar Rabelo de Queiroz, deparou-se com uma situação reveladora. Em viagem para a região de Thanjavur conheceu um vilarejo pobre – Pattukkotta – que vive basicamente da pequena agricultura. Lá visitou uma escola de educação fundamental. Para facilitar sua apresentação e criar um clima amistoso, os colegas do Institute of Mathematical Sciences (IMSC), que com ele viajavam, informam aos professores da escola que Amílcar era brasileiro, da terra de Pelé. “Brasil? Pelé?”. Repetem várias vezes. De repente, um deles sorri e exclama: “ah, ah, Brasil, claro, terra de Freire, Paulo Freire!” E alcança na estante vários livros de um dos nossos maiores educadores, traduzido, estudado e reconhecido em todo o mundo.
Paulo Freire faleceu há quase 14 anos, em maio de 1997. Se estivesse vivo, completaria noventa anos em setembro. Sua obra, seu pensamento e sua ação deixaram marcas profundas em vários campos do conhecimento. Seu único ensaio especificamente sobre comunicação – Extensão ou Comunicação? – foi escrito no exílio chileno, em 1968, e publicado pela Editora Paz e Terra, no Brasil, em 1971.
Tenho afirmado recorrentemente que as reflexões de Freire sobre comunicação nunca estiveram tão atuais. [cf. nesta Carta Maior “Paulo Freire, direito à comunicação e PNDH3”].
Direito à comunicação
A necessidade de construção e positivação de um direito à comunicação foi identificada há mais de 40 anos pelo francês Jean D’Arcy, quando diretor de serviços audiovisuais e de rádio do Departamento de Informações Públicas das Nações Unidas, em 1969. Naquela época ele afirmava:
Virá o tempo em que a Declaração Universal dos Direitos Humanos terá de abarcar um direito mais amplo que o direito humano à informação, estabelecido pela primeira vez 21 anos atrás no Artigo 19. Trata-se do direito do homem de se comunicar.
A proposta de D’Arcy, na verdade, assumia e consagrava uma perspectiva “dialógica” da comunicação que já havia sido elaborada, do ponto de vista conceitual, por Paulo Freire no ensaio "Extensão ou comunicação"?
Freire recorre à raiz semântica da palavra comunicação e nela inclui a dimensão política da igualdade, a ausência de dominação. Para ele, comunicação implica um diálogo entre sujeitos mediados pelo objeto de conhecimento que por sua vez decorre da experiência e do trabalho cotidiano. Ao restringir a comunicação a uma relação entre sujeitos, necessariamente iguais, toda “relação de poder” fica excluída. O próprio conhecimento gerado pelo diálogo comunicativo só será verdadeiro e autêntico quando comprometido com a justiça e a transformação social. A comunicação passa a ser, portanto, por definição, dialógica, vale dizer, de “mão dupla”, contemplando, ao mesmo tempo, o direito de ser informado e o direito de acesso aos meios necessários à plena liberdade de expressão.
Como se vê, Freire teoriza a comunicação interativa antes da revolução digital, vale dizer, antes da internet e de suas redes sociais. No nosso tempo, quando as novas tecnologias [TICs] rompem com a unidirecionalidade da comunicação “de massa” tradicional, o conceito de comunicação relacional e transformadora oferece uma referencia normativa revitalizada e desafiadora.
História das idéias
Ao reafirmar a atualidade do pensamento de Paulo Freire, especificamente para o campo da comunicação, tomo a liberdade de registrar os trinta anos de "Comunicação e Cultura: as idéias de Paulo Freire", publicado pela Paz e Terra, em março de 1981 (2ª. edição 1984). O livro é uma adaptação de tese de doutorado defendida em agosto de 1979.
Na verdade, o argumento central sobre a importância de Freire para o estudo da comunicação já havia aparecido em artigo anterior que publiquei, com Clifford Christians, na revista inglesa Communication (vol. 4, n. 1, 1979) sob o título “Paulo Freire: the political dimension of dialogic communication”, traduzido e publicado em português pela revista Síntese (vol. VI, n. 16, maio/agosto de 1979).
A história das idéias nos diferentes campos do conhecimento – inclusive na Comunicação – muitas vezes contém omissões, deliberadas ou não, ao deixar de registrar contribuições feitas por autores que, por diferentes razões, não se situam no seu “mainstream” ou não se alinham aos grupos dominantes na academia. Daí, às vezes, a necessidade de auto-registros isolados como esse.
Hoje, a contribuição de Paulo Freire para o campo da comunicação é fonte de inspiração e referência. A situação, certamente, não era a mesma no final da década de 70 do século passado. Embora reconhecido internacionalmente e estudado em várias disciplinas – filosofia, sociologia, serviço social, religião, história – seu pensamento era quase que totalmente ignorado nos estudos de comunicação, inclusive na sua terra, o Brasil.
A incrível história do prof. Amílcar na Índia, de que só agora tomei conhecimento, serviu de mote para que fizesse, então, esse duplo registro: a permanente atualidade do pensamento do educador brasileiro e os trinta anos do Comunicação e Cultura: as idéias de Paulo Freire.
Venício A. de Lima é professor titular de Ciência Política e Comunicação da UnB (aposentado) e autor, dentre outros, de Liberdade de Expressão vs. Liberdade de Imprensa – Direito à Comunicação e Democracia, Publisher, 2010.



