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domingo, outubro 23, 2022

As contradições do mundo evangélico

 

O mundo evangélico é amplo e complexo. Afirmo isso, pois já estive lá. Há vertentes das mais variadas - protestantes históricos, pentecostais e neopentecostais. Dizer que todos são iguais é uma generalização perigosa. Mas, hoje, dois de cada três eleitores evangélicos optam por Bolsonaro, o que revela uma flagrante contradição a respeito dos valores cristãos que o segmento afirma defender.

Presos a chavões, a debates nulos e a clichês insossos, muitos evangélicos esquecem o fundamento da mensagem dos profetas e se agarram ardorosamente àquilo que é falado por pastores mal intencionados. Ignoram a dura mensagem do profeta Amós contra a aristocracia corrupta e mentirosa de Jerusalém. Abandonam a essência da mensagem dramática do profeta Jeremias, que pregou durante quarenta anos para que o povo convertesse o coração à justiça e à verdade. Esquecem a mensagem do profeta Habacuque, que esperava por dias em que a verdade e a justiça triunfariam, "mesmo que não houvesse frutos nas vinhas" (Hc 3.17).

E, acima de tudo, fecham os olhos para o coração da mensagem de Jesus, que é a paz, a tolerância e o amor ao próximo (Mt 5.38-48). Gosto, especialmente, de uma passagem do Sermão do Monte em que Jesus diz: "Portanto, se estiveres para trazer a tua oferta ao altar e ali te lembrares de que o teu irmão tem alguma coisa contra ti, deixa a tua oferta ali diante do altar e vai primeiro reconciliar-te com o teu irmão; e depois virás apresentar a tua oferta" (Mt. 5.23-24).

Há uma inversão a respeito desse ensinamento, pois alguns cristãos, tendo contenda consigo e com o mundo, levam primeiro suas ofertas a Deus (que deve ser entendida como culto, dádiva, entrega), ignorando completamente a noção de que não existe oferta aceita pela eternidade sem que haja concórdia, paz, acerto com o outro. Sem tolerância, sem amor ao próximo, oferecer a oferta é um grande erro. Fé sem amor é um ato fingido; esperança sem amor, é um equívoco em si mesmo. (1 Co 13.13)

No vídeo, o pastor Ed René Kivitz reflete um pouco sobre as contradições de uma igreja evangélica que faz opção por uma mensagem ostensivamente anticristã. 

quarta-feira, abril 01, 2020

"Dois papas", uma importante reflexão

Vi semana passado o filme Dois papas, do diretor brasileiro Fernando Meireles. A impressão que me passou foi das melhores. A produção mescla eventos históricos com ficção. A trama é tão convincente que nos passa a ideia de que tudo que vemos é história, ou seja, aconteceu de verdade.

Nos vinte anos do século XX, quatro eventos foram marcantes na história da Igreja Católica, uma das instituições mais longevas da terra. (1) a morte de João Paulo II (Karol Józef Wojtyła); (2) o pontificado de Bento XVI (Joseph Aloisius Ratzinger); (3) sua renúncia; (4) e o pontificado de Francisco I (Jorge Mario Bergoglio), o papa argentino; o primeiro não europeu da história. A renúncia de Bento gerou grande repercussão pública. Afinal, em poucos momentos da história isso havia acontecido. No período moderno da Igreja Católica, os papas ocupam o cargo até a morte. O último a abdicar da cadeira de Pedro havia sido Celestino V, em 1294. 

O filme enfoca a eleição de Joseph Ratzinger para o papado, após a morte de João Paulo II e a preterição de Jorge Bergoglio. Logo em seguida, há um enfoque na pessoa do argentino e o pedido de sua aposentadoria. Bergoglio é chamado a Roma. Encontra-se com Bento XVI no Castelo Gandolfo, a famosa casa de verão dos papas. Nas conversas que são travadas entre Bergoglio e Bento, nota-se o quanto este, o erudito, filósofo, parece viver uma crise de fé.

É a partir desse encontro que há a explanação de duas visões sobre a fé e sobre o papel institucional da Igreja Católica. Bento é o ardoroso defensor de uma Igreja "pesada", dogmática, preparada para enfrentar os dilemas da modernidade com uma resposta pontual, não fundada em relativismos. Segundo ele, como fica evidente no filme, a perda de fiéis por parte da Igreja é um problema do homem moderno que se deixou dominar pelo pecado, pela corrupção. A Igreja precisa combater de maneira enérgica esses desafios. Bento XVI é uma espécie de Bonifácio VIII, um dos papas que eram defensores do poder temporal da Igreja; defensor de uma igreja pesada, galante, institucionalmente, burocrática.

Por sua vez, Francisco é, como o próprio nome evoca, a voz da simplicidade, da renovação, que está aberta ao diálogo. Francisco é a Igreja que saiu à rua para conversar com os homens e mulheres. Bento é a Igreja trancada em seu gabinete, encerrada em sua frieza, em sua tradição teológico-dogmática. O sucessor de Bento XVI simboliza uma Igreja jovem, disposta a sentar com os jovens. A entender os dilemas políticos e éticos do nosso tempo. As transformações pelas quais tem passado o Planeta, estabelecendo profícuos debates ecológicos. Francisco tem criticado a ganância do capital em detrimento do ser humano.

De certa forma, o filme serve para estabelecer um antagonismo entre Bento XVI e Francisco I. Todavia, não se deve negar que Anthony Hopkins, que representou o papel de Bento XVI, consegue impingir uma face humana, dócil e, às vezes, leve e gentil ao pontífice. 

Trata-se de um filme agradável. Serve para nos fazer refletir as múltiplas possibilidades de um movimento, pois o que se procura enfocar é um cristianismo mais dogmático, encerrado em pesadas sentenças dogmáticas e uma face mais leve e generosa da fé. 


domingo, julho 29, 2018

O ser humano e a crença no sobrenatural (uma pequena reflexão)

"Ora, a fé é o firme fundamento das coisas que se esperam, e a prova das coisas que não se veem" - Hb 11.1

O que leva as pessoas a crerem? Esta pergunta é fundamental. Muitos psicólogos, filósofos e outros estudiosos do comportamento humano também a fazem. Como explicar a crença? Como explicar a convicção em algo que é intangível? Talvez, a resposta esteja no fato de a coisa mesma ser intangível. Quem sabe seja mais fácil crer naquilo que não se ver. É possível afirmar que algo existe (mesmo não se vendo), construir certezas psicológicas sobre isso e estruturar a existência a partir dessa crença. 

Fiquei pensando sobre esse fato após assistir ao documentário "O cérebro e a crença". O documentário mostra um grupo de fiéis em torno do líder Harold Camping, que após estudar a Bíblia, chegou a uma conclusão: o juízo final aconteceria no dia 21 de maio de 2011. O que acontece após essa determinação é curioso. Pessoas dos mais diversos nichos sociais e econômicos passaram a acreditar naquela afirmação: profissionais liberais, economistas, estudantes, etc. Muitos passaram a levar a mensagem do fim do mundo para outras pessoas. Procuraram advertir, conscientizar as pessoas para a data fatídica que se aproximava. Cruzaram o país. Fizeram caravanas. Alguns abandonaram suas profissões. 

Nas entrevistas concedidas pelo líder do grupo, as certezas eram pregadas com o máximo de firmeza. Quando perguntado pelos jornalistas se havia alguma possibilidade de o evento não acontecer, ele respondeu: "Esse é um fato que não se pode cogitar". Ou seja, não havia chances de não acontecer. A determinação de uma data para o fim do mundo já aconteceu em outros momentos da história. Por exemplo, Hilário, bispo de Poitiers, também profetizou o fim do mundo para o ano de 365. d.C. Como não aconteceu, ele adiou para o ano de 400 d.C. Outras profecias se deram no ano 1000 d.C. Ou em 1253, com o papa Inocêncio III. Próximo ao nosso tempo, temos as profecias de William Miller (que previu o fim do mundo para o ano de 1844). Mais tarde, Ellen G. White, uma das profetizas da Igreja Adventista, também vaticinou o fim do mundo para os anos de 1850 e 1856. 

Com relação a "Family Radio", o grupo que se reunia em torno de Harold Camping, quando o dia 21 de maio chegou, houve uma confusão. Muitos não entendiam o que estava acontecendo. Afinal, por que o mundo não havia entrado em colapso? Não havia terremotos. Cataclismos variados. O céu não escureceu. Os anjos não apareceram. As pessoas levavam as suas vidas tranquilamente, indiferentes às visões do grupo. Veio a manhã do dia 21, a tarde, a noite.

A partir daí instala-se a síndrome de dissonância, que é um estado de ansiedade profunda diante daquilo que não se realiza. Ela gera um estranhamento, um sentimento de inadequação, de confusão. Explicações? Harold Camping não as possuía. Dois dias após, ele concedeu uma entrevista e disse que a presença de Deus acontecera apenas espiritualmente. O fim efetivo do mundo aconteceria dia 21 de outubro. Àquela altura, muitos desistiram de crer.

O que impressiona diante de tudo isso é o fato de pessoas inteligentes, de um dos países que apresentam algumas demandas sociais básicas atendidas, embarcarem em algo repleto de incertezas. Em pleno século XXI, aquele lado indefinido da existência humana, agarrou-se com a expectativa da verdade, da crença. A fé modifica o modo como encaramos a vida. Ela modifica as atividades cerebrais. A crença cria certezas; e as certezas organizam a vida, construindo harmonias e dando a tranquilidade devida àquele que a experimenta. Quando cremos, tiramos dos nossos ombros as responsabilidades que temos que tomar na história. Delegamos a outro (o ente supremo de nossa crença) a capacidade de decidir por nós. Ou, simplesmente, entendemos que o fato de acreditarmos em algo, esse algo modifica a história ou a determina a nosso favor.

Essas questões acontecem pelo fato do ser humano precisar de uma organização interna que torna a vida mais tranquila. Se muitos sujeitos descobrissem que estão sozinhos, que a vida se limita àquilo que temos neste cosmos dado às leis de causa e efeito e, que as decisões que tomam, são o motor que determina a própria existência, certamente enlouqueceriam. É, por isso, que, enquanto o gênero humano estiver neste planeta, a crença o acompanhará. Elas organizam o caos. Constroem certezas. Estabilizam desencontros. É preciso criar signos para decodificar o mundo. E a crença é o símbolo máximo capaz de fazer as certezas respirarem.

sexta-feira, junho 02, 2017

Um livro há muito desejado

Quando estudei em um seminário teológico, sempre busquei ler o que me vinha à mão. Li principalmente os autores de teologia dogmática. Ou seja, aqueles autores que possuem uma preocupação apologética, que trilham pelos caminhos seguros do não questionamento; que não divergem com o pensamento teológico legado pela tradição - inerrância das escrituras, Cristo como salvador absoluto; divino e humano; Salvador, Messias; somente a graça é capaz de salvar, a trindade etc. São temas basilares, estruturais, que firmam a fé da igreja. Esses dogmas foram consolidados ao longo dos séculos por meio de debates acalorados. 

Por outro lado, havia aqueles autores "perigosos". Se lêssemos, passávamos a sermos olhados pelos colegas e pelos professores com certa preocupação. Estaríamos alimentando questionamentos e indiferença para com a fé ortodoxa? O ateísmo ter-nos-ia tomado de assalto? Estaríamos "esfriando", termo este que significa perder a paixão, até se tornar indiferente para com a fé.

Téologos como Rudolf Bultmann, Karl Barth, Paul Tillich, Emil Brunner, Jürgen Moltmann, Renan, Niebuhr ou Albert Schweitzer se pronunciados poderiam trazer um mal presságio. Tanto é assim que, enquanto estava no seminário, li apenas um opúsculo de Bultmann e outra pequena obra de Tillich. Ler o brasileiro Rubem Alves era tóxico também. Vale fazer uma pequena digressão aqui, pois muitos desses teólogos foram introduzidos no pensamento teológico brasileiro por intermédio de Rubem Alves, quando este estudou nos Estados Unidos nos anos 60 e 70 do século passado. Livros como Teologia de Esperança, Protestantismo e Repressão, O enigma da religião, O que é religião? e Dogmatismo e Tolerância, do grande filósofo e teólogo mineiro foram fundamentais para que eu criasse uma lastro crítico necessário para relativizar algumas construções teológicas tidas como inquebráveis e fundamentais. 

Recordo-me que certa vez encontrei um colega lendo A busca do Jesus Histórico, do alemão Albert Schweitzer. Inquiri o colega sobre o livro. Falou-me do que tratava. Fiquei interessado. Eu já ouvira falar sobre Albert Schweitzer pela caneta de Rubem Alves. Trata-se de um grande humanista, extraordinário organista e amante da música de Johann Sebastian Bach; um intelectual refinado; um homem com uma alma apaixonante; erudito que se radicou na África para cuidar de homens e mulheres doentes. Era um sujeito que conseguia conciliar a erudição do pensamento filosófico-teológico e ao mesmo tempo arregaçar a manga para cuidar do corpo moribundo de sujeitos padecentes. Este fato deu a Albert Schweitzer o Nobel da Paz, em 1953.  A busca do Jesus Histórico é a sua tese de doutoramento escrita no ano de 1899. 

   Albert Schweitzer (1875-1965)

Sempre procurei o livro para ler, mas nunca havia obtido sucesso. Até que no início do mês passado, ao fazer uma busca na internet, encontrei-o no sítio da Saraiva. Não hesitei. Comprei imediatamente. Hoje, demorados mais de vinte dias, recebi-o quando cheguei do trabalho. Fui imediatamente movido pela curiosidade e já bebi algumas páginas da obra de Albert Schweitzer.

O autor alemão nesta obra, centra a sua atenção, por meio de uma espécie de busca arqueológica, do Jesus histórico. Ou seja, o homem real, que talvez tenha vivido na Palestina há dois mil anos atrás. A Igreja sempre se preocupou em retratar o Cristo da fé, divinizado, celestializado e confirmado pela construção do dogma. O dogma cria muros. Suplanta relativizações. Impede os questionamentos. As informações que temos sobre a sua existência são rarefeitas. Não estão solidamente confirmadas em documentos relevantes. E o resultado da investigação de Schweitzer. é acachapante: o Jesus histórico não existe. O que existe é uma figura alimentada pela psicologia, projetada pela nossa própria auto-imagem. O Jesus da fé é diferente do Jesus histórico, pois este é inócuo em sua materialidade, mas aquele é agigantado pela fé, fazendo crescer naquele que crer, um sentimento que renova e transforma a sociedade e a história. 

É começar a leitura imediatamente.


domingo, outubro 19, 2014

Uma resposta à ignorância

O blog está abandonado ultimamente. Não é que me faltem ideias para novos textos magros - excessivamente magros. É que as coisas evoluem, passam, e eu acabo por postergar novas postagens. Nestes dias de eleições, tenho assistido a bastantes filmes e documentários, sempre voltados para uma temática mais política. Tal experiência tem sido positiva. Sem falar nos livros que tenho comprado. Há alguns dias atrás, vi uma afirmação medonhamente fascista plasmada com grande exultação pelo seu autor - como tantas que temos visto por brasileiros conservadores e cooptados pela mídia criminosa do nosso país. Aquilo encheu os meus olhos de sangue. Não pude deixar de dar uma resposta. É o texto que segue abaixo - claro, com algumas adaptações. Pretendo nos próximos dias tirar o blog da letargia, do silêncio

Em primeiro lugar, queria dizer que não tentei ser agressivo contra a sua pessoa, mas contra a ideia subjacente em sua fala. Que você é de direita dá para perceber pela objetividade da enunciação, completamente descontextualizada. É curioso notar que afirmar-se de direita no Brasil se tornou uma virtude. E mal sabem aqueles que supostamente se alegam como tal, que ser direita é afirmar está do outro lado da luta - é está do lado dos setores conservadores e atrasados da sociedade e, que a maioria das vezes, é contrário aos interesses dos debaixo. Quando leio os profetas, principalmente, Amós, Miquéias, Habacuque, Oséias, penso que esses homens não estavam na direita. Estavam na esquerda, lutando pela causa da viúva e do necessitado; enfrentado "as vacas de Basã", como disse Amós; lutando em favor dos desprezados pelas políticas mantenedoras do "status quo" das elites. 

Quando olho para Jesus, não penso que ele ficaria do lado da direita. Acredito que ele ficasse do lado dos oprimidos, dos enlutados, dos esfomeados, dos que não tinham emprego, das prostitutas, dos párias, dos estigmatizados, das minorias (Mt 9.10-13; 11.19;) ; daqueles que precisavam de uma palavra de transformação e esperança. A direita prega o preconceito, a desinformação, a não libertação. Acredito que o evangelho não seja da direita, mas o cristianismo dogmático que muitos defendem o seja. É, por isso, que o cristianismo prega a sua desimportância, por ser uma fé alienada, por não ser inserir nas lutas históricas. A suposta solidariedade pregada pelos cristãos é tacanha. Fica restrita ao ambiente eclesiástico. 

A igreja não olha para fora dos seus muros e, quando olha, vê apenas perdidos, desviados e pessoas que precisam ser "salvas". É por isso que vemos tanto obscurantismo e preconceito na igreja. Porque ela pensa na dicotomia "perdido" x "salvo". Esses são termos criados pelo dogma. O principal compromisso do evangelho é com a libertação do homem, com a sua dignidade. E eu penso que todo e qualquer processo que sirva para dá mais dignidade, esperança ao homem, é revolucionário. 

Uma segunda questão fica por conta do processo histórico do Nordeste. A região já foi um dos redutos econômicos mais viçosos do Brasil. Isso nos dois primeiros séculos de nossa história, quando do ciclo da cana-de-açúcar. Nesse momento da história, o Nordeste era farto. Os engenhos, que mantinham uma mão de obra escrava, enriqueciam a metrópole e geravam privilégios para a casa-grande. Após a derrocada do produto, por causa da intervenção dos holandeses, o comércio do açúcar definhou e a região amargou uma crise profunda. Com a descoberta do ouro na região Sudeste, o ciclo econômico muda-se para o centro sul. Vale ressaltar ainda que quando do ciclo do açúcar, os estados privilegiados pela produção eram Pernambuco, Paraíba e Alagoas. Estados como Piauí e Maranhão estavam afastados. Não havia atividade econômica relevante nesses estados. O homem comum tinha que submeter aos favores de algum oligarca e vender a sua força de trabalho. É, por isso, por exemplo, que no Piauí, as famílias Gurguéia, Martins e, atualmente, a família Portella, são tão fortes; ou os Sarneys no Maranhão, que se instalaram com tanta força. São famílias que desde tempos imemoriais fazem parte da oligarquia política da região. 

Esse cenário se estabeleceu pelos séculos seguintes. O Nordeste sempre foi visto como uma região de migrantes,  uma região de pessoas que saem para procurar melhores condições em outras locais. Mas isso se deu por conta da decadência econômica da região.  Esse ciclo tem permanecido ao longo da história.  Se deu assim no início do século XX , por exemplo, com o ciclo da borracha na Região Norte. O estado do Acre possui uma população cearense grandiosa, justamente, por causa do grande fluxo migratório. Ao longo do século XX, a leva grossa de migração continuou a sua marcha. Dessa vez para o Sudeste. E, quando se deu a construção de Brasília, para a nova capital. Mas o problema da pobreza não foi resolvido, pois como dizia Euclides da Cunha: "O que separa o interior do Nordeste do seu litoral não são cem quilômetros. São cem anos". Observe que a pobreza do Nordeste é uma questão histórica. O desemprego sempre foi algo sério. Muito gente sai de lá por entender que, lá, as chances são pequenas e inexpressivas. Eu, como você, somos um exemplo disso! É, por isso, que os nordestinos apoiam o governo do PT, pois foi a partir das políticas sociais de Lula e Dilma que os homens e mulheres daquela região viram as coisas mudar. Portanto, falar que o Bolsa Família está gerando uma leva de "não trabalhadores" é incorrer numa falácia histórica. 

E terceiro lugar, as políticas sociais do governo melhoraram a vida de milhões de pessoas. Meus familiares que estão em Pernambuco, boa parte deles, recebe Bolsa Família. Mas, nem por isso, são não trabalhadores ou "vagabundos" como se quer fazer crer. O Bolsa Família é uma política contingente. O instrumento que regula a política é a manutenção do filho estudando.  Se o menino deixa de ir para a escola, o programa é cortado. Falo isso, pois minha mãe já recebeu Bolsa Família. Meu pai havia morrido. Ficamos eu e mais dois irmãos e a minha mãe numa situação difícil. Naquela ocasião, meu irmão mais novo estava no ensino fundamental e não podia faltar a escola. E minha família era contemplada com R$ 70,00 que ajudava a engrossar o salário mínimo que minha mãe ganhava. O dinheiro ajudava bastante. Tínhamos que pagar aluguel, comprar comida e tudo aquilo que fosse necessário. Hoje, minha mãe não ganha mais o Bolsa Família – e continua a trabalhar como sempre fez. Muitas famílias passaram a comer mais depois do Bolsa Família. Quem disse isso foi a ONU. Pela primeira vez em 500 quinhentos anos, o Brasil não está mais no mapa mundial da fome. Penso que isso fosse motivo para a igreja ficar feliz. Claro, uma igreja coerente e comprometida com o necessitado. A fome não precisa de palavras soltas, vazias de conteúdos, precisa de substância material. Agostinho disse certa vez que toda verdade é verdade de Deus. Parafraseando Agostinho, podemos dizer que toda ação de solidariedade que venha trazer bem-estar, dignidade, é uma ação afirmativa em favor daquilo que prega o coração do evangelho. 

Em quatro lugar, termino com uma pergunta: onde estaríamos se tivéssemos continuado - você no Piauí e, eu, no Pernambuco? Não quis ser deseducado com você. Nunca mais tive oportunidade de conversar com você. Seria interessante fazê-lo. Um abraço!

domingo, agosto 04, 2013

Uma pensata a partir de um post da ATEA

Kierkegaard já dizia isso. É que a fé não lida com categorias materializáveis, mas com o invisível, com o intangível. Lembrando aquele velho princípio agostiniano: "Creio para depois pensar". Além do que o dogmatismo da fé é uma categoria não relatizável. O crente sente sua "existência" abalada quando essa suposta "verdade" é colocada em xeque. Daí, ou se aceita a fé como verdade incondicional ou se põe abaixo toda aquela epistemologia capaz de explicar todos os fenômenos universais. Se ele relativiza, aquilo que ele crer deixa de ser "verdade" e passa a ser apenas mais uma narrativa como as tantas que já existem. Para o crente, deixar de dialogar com essa "verdade" é "perder a fé" e correr um sério risco. Admirável a fala de Carl Sagan.

quarta-feira, março 28, 2012

Devaneios sobre o nada

Disse Nietzsche certa vez que "convicções são prisões". Fico a observar os movimentos dos radicais, dos religiosos, dos cínicos e vejo o quanto o ser humano é criador de suas próprias cadeias. Temos uma grande vocação para o ataque. Criamos antíteses em todo tempo. Se não gosto de algo, envido forças para objetar aquilo que me incomoda.

E aí me vem à mente outra frase de Nietzsche: "A verdade não é algo que alguém tenha e outro não". Talvez, um dos grandes males da humanidade seja essa necessidade de fecundar "verdades". Segundo o próprio Nietzsche, uma das perguntas mais relevantes feitas em toda a história da humanidade, encontra-se na bíblia. Ela não veio de Cristo ou de um dos profetas. Foi Pôncio Pilatos, o governador romano, quem a proferiu. Disse o famoso personagem histórico: "O que é a verdade?". Essa pergunta frágil e pertubadora é a grande questão a ser enfrentada por todo homem corajoso. 

Convicções estabilizam entendimentos. Estes supostos entedimentos geram uma garantia, uma sensação de segurança. Eximimo-nos de refletir por causa disso. De conseguir autonomia. Os homens mais felizes foram/são aqueles que, olhando para dentro de si, para os reveses, contradições e feiúras humanos, não se escandalizaram e acabaram avançando para uma nova etapa: a aceitação de sua condição enquanto criatura humana, colocado num universo imparcial, regido por leis naturais. 

Uma última afirmação nietzscheniana: "Quando não se coloca o peso da vida na própria vida, mas sim no 'além', no nada, então retira-se da vida toda a sua importância".

"O que é a verdade?"

Cito outro filósofo (Soren Kierkegaard): "Procuro uma verdade que seja verdadeira para mim". Eis a minha missão, eis a tua missão, eis a nossa missão.