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segunda-feira, setembro 14, 2026

13 motivos para votar em Lula

Texto escrito pelo professor Luis Felipe Miguel

Faltando 21 dias para o primeiro turno, com as revelações sobre o escândalo do Banco Master finalmente vindo todas à tona, o cenário está claro. Temos, de um lado, o presidente Lula, com todas as limitações de sua política de frente ampla e de sua aversão ao enfrentamento. Do outro, Flávio Bolsonaro, como principal representante de um projeto regressivo que aparece também nas figuras de Ronaldo Caiado, de Romeu Zema, de Renan Santos e, com uma roupagem menos agressiva, de Augusto Cury.

Serão Lula e Flávio Bolsonaro que, com certeza quase absoluta, se enfrentarão no segundo turno. Mesmo com toda a exposição das tramas escusas do filho de Jair, o império sobre sua base é tão grande que o derretimento de sua candidatura é muitíssimo improvável.

Por isso, a disputa que se avizinha difícil. E ela terá um profundo impacto no futuro do Brasil. Apresento aqui uma breve relação do que está em jogo na eleição do mês que vem – e que deve orientar o voto de todos nós. Sem triunfalismo lulista, mas com realismo.

1) Democracia

 Quando promulgou, em 1988, a nossa Constituição escrita “com ódio e nojo a ditadura”, Ulysses Guimarães enunciou aquilo que, então, era o consenso mínimo da elite política brasileira. Muitos se esforçaram, com grande sucesso aliás, para impedir qualquer punição pelos crimes cometidos durante o período autoritário. Mas ninguém, nem mesmo nos partidos de direita, se apresentava na esfera pública defendendo uma volta a ele – exceto meia dúzia de generais do pijama, que se julgava que eram politicamente irrelevantes.

Isso mudou no momento da agitação com vistas à deflagração do golpe de 2016. De forma surpreendente, o discurso de defesa da ditadura, da perseguição aos adversários, até mesmo da tortura, ganhou tração e passou a empolgar amplos setores da população.

Podemos e devemos discutir os motivos disso: os limites do nosso experimento democrático, a insuficiência das políticas igualitárias. Ainda assim, a erosão do tabu que impedia a defesa da ditadura representa um grave retrocesso.

Jair Bolsonaro, que passou de figura marginal a líder político de alcance nacional exatamente com este discurso, ocupou todo seu mandato tramando formas de permanecer na presidência mesmo sem autorização do eleitorado. Não apenas estimulou o descrédito nas urnas e perseguiu adversários como também não economizou medidas de força para desvirtuar o resultado – incluindo a tentativa de impedir que eleitores exercessem seu direito. Depois da vitória de Lula, buscou apoio dos chefes militares e mobilizou sua base popular para desferir um golpe, culminando no 8 de janeiro.

A punição aos golpistas foi um dos triunfos que a democracia brasileira teve nos últimos tempos. A vitória de Flávio significará não apenas a reversão dessa punição como também um ataque ainda mais feroz às instituições democráticas. Caso eleito, Flávio fará de tudo para ser o ditador que seu pai não conseguiu ser.

2) Liberdades

O governo do Bolsonaro pai nunca escondeu sua vocação liberticida. Perseguição à imprensa, às universidades e às escolas, à ciência, aos produtores culturais. O filho segue no mesmo caminho. Ditadura – a forma de governo que eles preferem – não combina com liberdade para ninguém.

3) Igualdade

A igualdade é um valor central da democracia e também está no coração de qualquer concepção de sociedade justa. A política dos Bolsonaro, porém, é contrária a todas as formas de promoção da igualdade. Defende vantagens para os mais ricos, recusando a tributação progressiva, a taxação das grandes fortunas, qualquer medida nesta direção. Opera contra os direitos dos trabalhadores, em nome da farsa ultraliberal da autonomia da negociação entre patrões e empregados, o que significa simplesmente se eximir de proteger o lado mais fraco. O discurso fajuto da meritocracia serve de justificativa para ser contra as políticas sociais que garantem condições de vida para os mais pobres.

4) Progresso social

Por isso, por ser visceralmente contra a igualdade, o bolsonarismo é inimigo do progresso social.

Apesar de ter sido obrigado a assumir o discurso contra a violência contra as mulheres, Flávio é aliado da manutenção das hierarquias que as oprimem, defendendo os papéis tradicionais, a família sob dominação masculina, tudo aquilo que alimenta agressões que elas sofrem em nossa sociedade. Poucas das lideranças bolsonaristas se assumem abertamente como racistas, mas a oposição cerrada que fazem contra todas as iniciativas de combate ao racismo deixa claro de que lado estão. Em suma, tudo aquilo que pode contribuir para construir uma sociedade mais justa, dos direitos dos trabalhadores ao combate à homofobia, enfrenta a oposição de Flávio Bolsonaro e de quem está com ele.

Os governos do PT não fizeram tudo o que podiam e deviam. Seu registro é problemático em muitos pontos, a começar pelo tema da legalização do aborto. Mas não há parâmetro de comparação com seus adversários.

5) Soberania

Soberania não é uma palavra vazia, como a extrema-direita tenta fazer crer (vide a propaganda de Flávia dizendo que o que importa é a “soberania da segurança pública”).

Soberania é a possibilidade de que o povo brasileiro decida o melhor caminho para si mesmo. Numa circunstância próxima da normalidade, um candidato presidencial que defendesse a submissão de seu país a uma potência estrangeira teria liquidado sua carreira política. Infelizmente, faz muito tempo que estamos longe de qualquer situação normal.

Jair Bolsonaro transformou o Brasil em chacota mundial. Adotou uma política externa de vassalagem e entregou o que pôde de nossas riquezas para o capital estrangeiro.

O horizonte do bolsonarismo e das elites que o apoiam é extrair do Brasil tudo o que puderem, sem dar nada em troca – e depois ir morar em Miami. Podem se enrolar na bandeira, se pintar de verde e amarelo o quanto puderem, mas nada apaga o fato de que “patriotismo” sem defesa da soberania é fake.

O cenário internacional é intrincado e desafiador, com o aumento da pressão imperialista dos Estados Unidos e o avanço, mais sutil, dos interesses chineses. Se o Brasil quer sonhar com ter uma posição no mundo compatível com aquilo que ele é – um país de dimensões continentais, com a sétima maior população do planeta e enormes riquezas naturais – não pode cair na mão de um capacho de Donald Trump.

6) Meio ambiente

Uma das características da extrema- direita, pelo mundo afora, é negar a gravidade da questão ambiental. Mas, como o noticiário nos lembra dia sim, dia também, o planeta está a caminho do colapso. O Brasil, por sua biodiversidade, pela importância de suas florestas na regulação climática global, é fundamental caso a humanidade deseje garantir um futuro para si mesma.

O registro do governo Lula na questão ambiental é, como em tantas outras áreas, ambíguo. Em muitos pontos, cede à pressão quer dos interesses econômicos, quer de uma ideologia desenvolvimentista que pouco entendeu dos desafios ecológicos atuais. Mas não é um governo negacionista. dá espaço para agenda ambiental e tem abertura para o diálogo. Já o que caracteriza os Bolsonaro é a vontade de, como disse celebremente um ministro de Jair, “passar a boiada”, eliminando qualquer controle sobre latifundiários, madeireiras, a indústria da extração mineral.

Reeleger Lula é uma exigência não só do Brasil, mas do planeta Terra. 

7) Segurança 

A direita gosta de se apresentar como aquela que se preocupa com a segurança pública. Seu discurso é sempre o mesmo: penas mais pesadas, presídios mais bárbaros, polícia mais assassina. Uma receita que é posta em prática há muito tempo e que nunca dá certo.

Ninguém vai negar que o registro dos governos do PT na área está muito abaixo do desejado. Há setores da esquerda que não compreendem a centralidade da pauta da segurança. Há quem romantize a bandidagem. Há outros que reproduzem, nos governos estaduais, o punitivismo brutal e acéfalo da direita.

Porém, é a família Bolsonaro que acumula evidências de ligações com o crime organizado. Flávio Bolsonaro empregou, homenageou e confraternizou com milicianos. São os bolsonaristas que são presos com arsenais de armas em suas casas, quando não trocando tiros com a polícia. São eles também que emperram o projeto de emenda constitucional que permitiria maior envolvimento do governo federal no combate ao crime organizado.

8) Honestidade 

A direita também gosta de se apropriar do discurso sobre a corrupção, mas a verdade é que ela concentra os grandes ladrões do dinheiro público no Brasil. Podemos questionar a leniência com que Lula tratou muitos escândalos em seus governos, por conveniência política, entendendo pragmaticamente que era impossível governar se fazer vista grossa para práticas da nossa elite política, ou por amizade. Mas não existe nenhuma dúvida de que ele é pessoalmente honesto; sua vida foi revirada e não conseguiram mais do que ilações falsas e processos enviesados. Já os Bolsonaro, tanto Jair quanto Flávio, vivem de rolo em rolo, ao longo de toda sua carreira política – ou mesmo antes, se lembramos dos negócios que o capitão fazia no Exército. Se fazia falta alguma prova, o caso do banco Master está aí, com o candidato envolvido até o pescoço nos esquemas do responsável pela maior fraude bancárias de nossa história.

Combater a corrupção é necessário para estabelecer uma disputa política mais sã no Brasil. A corrupção drena recursos de políticas necessárias para a população e também garante que os interesses da classe burguesa e dos ricos em geral sejam privilegiados nos processos decisórios – ela é uma daquelas “falhas estruturais”, que já estão previstas no funcionamento do sistema, ainda que contra suas regras explícitas. Uma presidência de Flávio Bolsonaro é a garantia de que não avançaremos nada nessa direção.

9) Competência

Flavio Bolsonaro passou sua vida à sombra do pai. Deputado por causa do sobrenome, depois senador por causa do sobrenome, agora candidato presidencial por causa do sobrenome, notabilizou-se por escândalos de rachadinhas, homenagens a milicianos e rolos com lojas de chocolate e mansões a preço de banana. Não tem experiência administrativa, nem tem capacidade de liderança e de negociação política. Pior, não agrega ninguém com estas qualidades, uma vez que seu projeto é um projeto de clã, acima de tudo.

Governar um país como o Brasil exige preparo, capacidade de diálogo, liderança. No momento, só Lula reúne estas qualidades.

10) Saúde

O SUS, uma das maiores conquistas do povo brasileiro, nunca foi perfeito. Mas nunca esteve tão más condições quanto no governo de Bolsonaro. É uma mistura de projeto, uma vez que se trata de beneficiar a medicina privada, negacionismo científico, emblematizado pela adesão às teorias da conspiração contra as vacinas, e o desprezo pela vida humana, uma característica marcante da visão de mundo da extrema direita.

O bolsonarismo é diretamente responsável pela morte de centenas de milhares de pessoas, durante a pandemia. Enquanto elas morriam, o presidente da República debochava delas. Aquela imagem – de Jair imitando um doente morrendo pela falta do oxigênio não entregava aos hospitais – devia bastar para que qualquer pessoa rejeitasse a continuidade de seu projeto político.

11) Educação

Os Bolsonaro não têm e não gostam.

12) Alimentação 

Sob Jair Bolsonaro, foi revertida a maior conquista dos governos do PT: tirar o Brasil do mapa da fome. Milhões de brasileiros voltaram a não saber se teriam o que comer. Os índices de desnutrição de crianças e adolescentes dispararam. Não foi um caso: foi o espelhamento das prioridades de seu governo.

No seu terceiro mandato, Lula voltou a priorizar a segurança alimentar. É necessário assegurar que não ocorra nova reversão. Qualquer que seja o modelo de país que nós queiramos construir, não pode ter gente passando fome nele.

13) A vida e o futuro de cada brasileiro


O que está em jogo, em suma, é a vida de cada brasileira e de cada brasileiro, por bem mais do que pelos próximos quatro anos. Nós já vimos a força destrutiva de um governo de extrema-direita, já vimos como é custoso desfazer todo mal que é feito.

Com um novo mandato de Lula, nada estará resolvido. Mas teremos espaço para lutar por uma vida melhor, por um país mais justo, por direitos garantidos para todos.

Já com o Flávio Bolsonaro, vamos sofrer um governo contra o povo e contra o país.

Em suma

A escolha não é nada difícil. Lula é o representante de um conjunto eclético de interesses. No seu próximo mandato, assim como no atual e nos anteriores, nada está garantido, mas há espaço para luta, para pressão, para promover avanços. Já Flávio Bolsonaro encarna um projeto de retrocesso em todas as áreas.

A experiência internacional mostra que, quando a extrema-direita retorna ao poder, é mais destrutiva do que quando vence pela primeira vez. No governo de Jair Bolsonaro, resistimos, aos trancos e barrancos, mas resistimos. No há dúvida de que seu filho virá com uma agenda ainda mais radical de destruição dos sistemas de controles e da autonomia das instituições do Estado. Derrotá-lo é a tarefa necessária, indispensável, prioritária.

Daqui

quarta-feira, junho 03, 2026

"Cinzas do Norte", de Milton Hatoum


Milton Hatoum é, hoje, um dos maiores fenômenos literários do Brasil. Traduzido para dezenas de países, indicado ao Nobel de Literatura e, recentemente empossado na Academia Brasileira de Letras, Hatoum se consolidou como um dos nomes mais respeitados das letras da atualidade. É presença constante em entrevistas, “podcasts” e feiras literárias.

Outro fator que chama atenção é o fato de o escritor ser manauara. Com exceção do poeta Thiago de Melo, não há nomes tão conhecidos nas letras oriundos dessa ignota região do país. É inquestionável que existam nomes da prosa e da poesia no Pará, no Amazonas de Hatoum ou no Acre, por exemplo. Historicamente, a tradição literária do Brasil se consolidou nas regiões Sul e Sudeste e, quando muito, no Nordeste.

Também é importante mencionar que Hatoum é um escritor cosmopolita. Viveu em Brasília, São Paulo, Rio de Janeiro e em países como França, Estados Unidos e Alemanha. Hatoum possui uma imponente visão de mundo, algo que transplanta para a sua literatura. Descendente de libaneses, o escritor cresceu na capital do estado do Amazonas. Observou argutamente as contradições sociais da região: a presença constante da floresta sendo gradualmente ameaçada pelo avanço predatório do progresso.

‘Cinzas do Norte” foi o primeiro romance que li do autor. Fiquei em dúvida se leria primeiro “Dois irmãos”, outro importante texto do escritor. O nome do primeiro pareceu-me mais sonoro – “cinzas” são resultado da combustão de alguma matéria; o resíduo que se transformou em algo diferente; “norte” faz lugar a um topônimo, a uma geografia. “Cinzas do Norte” transmitiu a impressão de que se tratava de memórias distantes daquela porção afastada do país; daquilo que sobrou após um denso processo.

Apesar de existir, necessariamente, um narrador no romance, percebemos a própria dicção memorialística do autor no romance. Afirmo isso, pois já assisti a diversas entrevistas do autor e fiquei com essa impressão. Analisando por essa perspectiva, pode-se dizer que o romance procura lançar luz para uma geração inteira, que viveu à sombra ignominiosa da Ditadura Militar.

Confesso que o romance não me pegou de início. Há um recorrente fluxo de consciência para recobrar os fatos atinentes aos personagens. Essa característica do romance exige bastante atenção.

Milton Hatoum

O narrador é Olavo, cujo apelido é Lavo. Aliás, os nomes das personagens passam por uma redução. Por sua vez, existem outros importantes nomes – Raimundo (Mundo), filho de Trajano (Jano), um aristocrata e conservador; a mãe de Mundo, a intensa Alícia. Mundo vive em disputas homéricas com o seu pai. O jovem Mundo ama a arte, possui inclinações humanistas e cosmopolitas, no entanto é reprimido pelo pai. Mundo é a negação da repressão, do estrangulamento da liberdade. A alcunha que recebe – Mundo – possui uma potência significante. Jano na mitologia romana era representado por duas faces – uma apontava para adiante; e, outra, para trás. No caso do pai de Mundo, ele se negava a olhar para frente. Sua perspectiva estava fincada no passado. Esse conflito é um dos mais interessantes no romance.

A narrativa é estruturada por meio de vozes que se cruzam. O futuro não é promissor na vida das personagens. Prevalece o choque de gerações, o conflito a partir dos pontos de vista. As verdades não são únicas. A história vai sendo costurada por meio de colisões de perspectivas.

Esse conjunto de vozes torna a leitura desafiadora, pois é preciso permanecer atento à história de cada personagem e como cada uma delas se encontra. Foi bastante interessante ler o livro, pois me tirou de um lugar de tranquilidade. É muito comum certos leitores buscarem os chamados truísmos literários, ou seja, a leitura fácil e conveniente. Hatoum não facilita do início ao fim. Não um escritor para esse tipo de leitor.

“Cinzas do Norte” é uma obra que exige paciência, mas que possui um enredo significativo, porquanto faz emergir a história recente do país. É aquele tipo de literatura que permite que conexões históricas sejam realizadas. Essa força faz de Hatoum um autor muito relevante.

quarta-feira, fevereiro 18, 2026

"A Normalista", de Adolfo Caminha

 

                Comecei a leitura das 12 obras de literatura brasileira para o ano de 2026, por “A normalista”, do cearense Adolfo Caminha. Em 2022, li “O bom crioulo” do mesmo autor. Estes são seus dois principais romances. O escritor não possui uma obra volumosa, pois faleceu aos 29 anos de idade, vitimado pela tuberculose.

                Adolfo Caminha é daqueles escritores que gostavam de uma boa polêmica. Isso pode ser dito tanto por causa de “A normalista” e, também, de “O bom crioulo”. No primeiro, Caminha desfere um golpe eciano contra a hipocrisia moral da capital cearense; no segundo, aponta para as relações hierarquizadas da Marinha e como a sociedade carioca tratava os diferentes. No caso em questão, Amaro, é um ex-escravo, marinheiro e homossexual.

                Caminha sentiu os efeitos da famosa Seca de 1877 em seu estado. Ficou órfão da mãe quando tinha dez anos de idade. O peso dessa intempérie ficou em seu imaginário. Em “A normalista”, a personagem principal, Maria do Carmo, também perde a mãe para a terrífica seca, que assolou o estado. Esse evento geofísico criou um movimento fenomênico no imaginário dos intelectuais cearenses. Essa força parece influenciar até mesmo intelectuais do século XX. Por exemplo, o famoso primeiro romance de Rachel de Queirós – “O quinze” -, de 1930, inscreve-se nesse lastro realista. Apesar de a escritora não retratar a seca de 1877; mas a seca de 1915. Mesmo havendo o afastamento de quase quarenta anos, o drama parece ser cíclico.

                Caminha, apesar do pouco tempo de que dispôs e da vida agitada,  diferentemente de outros escritores do seu tempo, não era alguém de posses. Durante algum tempo, esteve na Marinha. Acabou saindo por divergências. Depois, assumiu um cargo menor no funcionalismo graças aos arranjos e conformações políticas. Sua literatura era produzida nesses intervalos. Colocou em evidência as duas cidades onde mais viveu – Fortaleza e Rio de Janeiro.

                “A normalista” é daqueles romances naturalistas que possuem um esquema já conhecido – linguagem objetiva, visão determinista, zoomorfização, racionalismo e cientificismo. O cearense pode ser colocado ao lado de escritores como Aluísio Azevedo, Júlio Ribeiro, Rodolfo Téofilo, Inglês de Sousa e Raul Pompéia como um dos grandes dessa escola.

                No livro de 1893, Caminha descreve os descalabros das relações com um pessimismo inquestionável contra a capital do seu estado. O escritor parece realizar um acerto de contas por causa da relação clandestina que teve com uma mulher casada. Em uma cidade provinciana e conservadora, a crítica lhe causou desconforto. Essa mesma cidade preocupada com os valores morais alheios acobertava contradições. Ou seja, quem se preocupava com o comportamento alheio, não olhava para as próprias ações, para as próprias contradições. É nesse cadinho de misérias morais, que Caminha conta a história de Maria do Carmo e de como seu padrinho João da Mata a engravidou, enredando-a. Fortaleza é retratada como um palco de sordidez, de vícios torpes, apesar de não se perceber.

                A sociedade burguesa para Caminha é um espaço onde os jogos de aparência possuem uma dinâmica hipócrita. Nessa sociedade de moral rígida, consolidada por uma religiosidade de fachada, adultérios, golpes, exploração e dominação acontecem sem constrangimentos. A força é imperiosa e coercitiva, sobretudo sobre os mais fracos – mulheres e negros. A sexualidade feminina é tratada como um perigo social. Todavia, esses desejos reprimidos aparecem como força natural irreprimível.  Nessa mesma sociedade, a honra da mulher é tratada como um patrimônio da família.

                Com essas críticas – entre outras -, Caminha denuncia o provincianismo pequeno-burguês da elite citadina do seu tempo. Nessa sociedade, as fofocas existem como um uma tônica comum. Essa prática é alicerçada pela superficialidade e faz do indivíduo um alguém imensamente pequeno diante da força que o jogo social tem sobre ele.  

               

quarta-feira, outubro 22, 2025

"A alma encantadora das ruas", de João do Rio

 

"Se as ruas são entes vivos, as ruas pensam, têm ideias, filosofia e religião”.

João do Rio, in “A alma encantadora das ruas”.

 

                Durante certo tempo, alimentei um preconceito pueril, talvez, baseado em notícias propaladas pela mídia, de que o Rio de Janeiro era uma cidade caótica, babélica, sem quaisquer atrativos. Além disso, posso acrescentar que os atributos expansivos do carioca, causavam-me certa indisposição. Imaginava que o logro era o esporte favorito do carioca. Afirmava em minha aguda ignorância que o Rio de Janeiro seria o último lugar do país onde poria os pés. Meu radicalismo não permitia a admissibilidade de qualquer concessão.

                Em 2024, o que parecia impraticável acabou por se realizar. Passei cinco dias na cidade. Um tempo curto para averiguar, para flanar (uma francofilia muito usada por João do Rio) pela cidade. Fui a alguns locais importantes: Forte de Copacabana, Confeitaria Colombo, Museu do Amanhã, Pão de Açúcar, Cristo Redentor, à Academia Brasileira de Letras; caminhei pelo Centro histórico, lá tive a oportunidade de visitar o Gabinete Real de Leitura Português. Ainda ficou a sensação de que o Rio era uma cosmopólis, um local em que a história do país caminha ao seu lado; observa os seus passos. Em todos os bairros, há uma sensação de que uma personagem da cultura ou da política espreita você. As ruas e avenidas possuem nomes que fazem ecoar o passado como, por exemplo, o Bairro do Cosme Velho, local famoso por ter sido o bairro em que Machado de Assis viveu boa parte da sua vida; ou a famosa Rua do Ouvidor, um dos locais mais famosos e febricitantes das primeiras décadas do século XX. Ainda é possível encontrar a presença do Rio de Janeiro antigo na Rua do Ouvidor. Infelizmente, não fui até lá, apesar de ter me programado. O tempo foi insuficiente.

                Quando voltei do Rio, uma mutação havia se dado em mim – ainda bem. Os conceitos pequenos e apressados os quais eu possuía foram pulverizados pela certeza de que necessito voltar à cidade para uma nova incursão. Essa convicção se tornou mais patente após ler o indescritível “A alma encantadora das ruas”, de João do Rio. O livro reúne textos do autor sobre a cidade do Rio de Janeiro da primeira década do século XX. O Brasil era um país novo, governado por militares; monocultor, agrário, com uma população majoritariamente analfabeta; um país cuja fundação passava pela mistura de povos. O Brasil procurava se encontrar, modernizar-se. Afirmar a sua identidade. Daqui, olhava-se para a Europa, uma referência incontestável para as elites urbanas letradas. O próprio João do Rio era alvo dessa influência. O epíteto João do Rio, talvez, seja influência do nome “Jean de Paris”, que o escritor carioca encontrou em uma das suas viagens à capital francesa, tendo tomado de empréstimo o epíteto.

                O fato é que Paulo Barreto – o nome de batismo de João do Rio – era um indivíduo talentoso e que fez a sua fama no jornalismo.  Ele consolidou um estilo de jornalismo ambientado em locais, personagens do povo; em acontecimentos aparentemente banais. Seu estilo irônico em alguns momentos; realista ao extremo em outros, desenha as cores da cidade. Ele abre o texto do livro - crônica “A rua” -, com uma afirmação seca, direta, sem maneirismos, revelando o “amor” “absoluto” e “exagerado” que alimentava: “Eu amo a rua”. É assim, sem pudores, limpidamente, que ele declara, como se estivesse a justificar tudo o que vai ser lido nas 27 crônicas que povoam o livro.

                O escritor nasceu, em 1881, na cidade que tanto amou; morreu jovem, às vésperas de completar 40 anos de idade, em 1921. Caso tivesse vivido um pouco mais, teria testemunhado revoltas e a transformação da cidade. Antes mesmo que os intelectuais de 1922 lançassem seus manifestos, João do Rio já modernizava a prosa. O país com suas contradições estava presente em seus textos, pois João do Rio já era moderno antes dos modernistas. Luiz Antonio Simas afirma que “João do Rio é o escritor das encruzilhadas”. Ao afirmar isso, Simas chama a atenção para o fato de que os textos de João partem sempre de uma perspectiva da cidade que se vê e daquela que é ignorada, que fica em um plano secundário. E, talvez, nesse fato resida a maior qualidade dos seus textos: dar visibilidade àqueles fatos ignorados que constituem a cidade, a rua. Como ele dizia – “a rua tem alma”. A rua afirma o tempo todo; ela declara suas incongruências; perfila seus atores, seus exageros, suas vilanias, mas sua poesia também. “Há ruas honestas, ruas ambíguas, ruas sinistras, ruas nobres, delicadas, trágicas, depravadas, puras, infames, ruas sem história, ruas tão velhas que bastam para contar a evolução de uma cidade inteira, ruas guerreiras, revoltosas, medrosas, spleenéticas, snobs, ruas aristocráticas, ruas amorosas, ruas covardes, que ficam sem pinga de sangue...”

                João do Rio era um homem que “flanava” pela cidade. Para ele, só era possível se apropriar dos distúrbios mais comezinhos da rua, caso a alma que deseja entendê-la, materializasse as implicações necessárias desse verbo. Ele mesmo explica: “Que significa flanar? Flanar é ser vagabundo e refletir, é ser basbaque e comentar, ter o vírus da observação ligado ao da vadiagem. Flanar é ir por aí, de manhã, de dia, à noite, meter-se nas rodas da populaça, admirar o menino da gaitinha ali na esquina, seguir com os garotos o lutador do Cassino vestido de turco, gozar nas praças os ajuntamentos defronte das lanternas mágicas , conversar com os cantores de modinha das alfurjas da Saúde, depois de ter ouvido dilettanti de casaca aplaudirem o maior tenor do Lírico numa ópera velha e má; é ver os bonecos pintados a giz nos muros das casas, após ter acompanhado um pintor afamado até a sua grande tela paga pelo Estado; é estar sem nada e achar absolutamente necessário ir até um sítio lôbrego, para deixar de lá ir, levado pela primeira impressão, por um dito que faz sorrir, um perfil que interessa, um par jovem cujo riso de amor causa inveja”.

                O escritor começou cedo no jornalismo. Atuou por mais de vinte anos na profissão. Fundou o seu próprio jornal – A Pátria. Alcançou fama ainda em vida. Era bastante conhecido na cidade do Rio de Janeiro. Viajou mais de uma vez para a Europa. Vestia-se à maneira de um dândi. Era um Oscar Wilde tropical. Inclusive, chegou a traduzir obras do escritor inglês – a peça dramática do escritor Salomé é um exemplo. Essa aproximação com o estilo wildeiano alimentava polêmicas. Ele parecia ignorá-las. Para além disso, repousava o fato de ele ser homossexual – embora, de fato, nunca tenha assumido que o era. Tentou por duas vezes ingressar na Academia Brasileira de Letras – a primeira em 1907; tendo conseguido na segunda tentativa, em 1910.

                O livro “A alma encantadora das ruas” é um estudo etnográfico sobre o significado da rua. O livro é dividido em um movimento – (1) O que se vê na rua; (2) Três aspectos da miséria; e (3) Onde às vezes termina a rua. Para João do Rio, tudo se transforma em um texto que acaba por declarar o que é a cidade. Os tatuadores, as orações do povo; as pinturas e os dizeres da rua; as tabuletas que indicavam os endereços; a religiosidade do povo; os trabalhadores da estiva; os moradores de rua; as mulheres mendigas; as crianças que moravam nas ruas. Ele constrói uma visão bastante generosa a respeito dos seres inviabilizados no espaço social.

O escritor costumava visitar os espaços e instituições da cidade. Um famoso exemplo é a ida às prisões. Nesses espaços, ele procurava entender o que levava aqueles homens e mulheres a estarem naquele espaço. Ele observava: os crimes passionais; aqueles que ficavam nas galerias superiores; como era o dia de visita; como viviam as mulheres detentas.

O livro é necessário, pois nos permite a constituição de um olhar completamente novo para as cidades; ou seja, o espaço urbano em que vivemos. O Brasil do século XXI, é bem diferente do Brasil de João do Rio. As cidades se agigantaram. Todavia, mesmo com essas mudanças incontornáveis, as ruas possuem uma mística que suplanta o tempo. Ele mesmo afirma: “a rua é um fator da vida das cidades”. É sua face mais real; a artéria por onde corre a sua vida.

Para aprofundar meus conhecimentos sobre o autor carioca, comprei o livro “João do Rio – Vida, paixão e obra”, de João Carlos Rodrigues. A leitura já foi iniciada.