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quarta-feira, abril 01, 2020

"Dois papas", uma importante reflexão

Vi semana passado o filme Dois papas, do diretor brasileiro Fernando Meireles. A impressão que me passou foi das melhores. A produção mescla eventos históricos com ficção. A trama é tão convincente que nos passa a ideia de que tudo que vemos é história, ou seja, aconteceu de verdade.

Nos vinte anos do século XX, quatro eventos foram marcantes na história da Igreja Católica, uma das instituições mais longevas da terra. (1) a morte de João Paulo II (Karol Józef Wojtyła); (2) o pontificado de Bento XVI (Joseph Aloisius Ratzinger); (3) sua renúncia; (4) e o pontificado de Francisco I (Jorge Mario Bergoglio), o papa argentino; o primeiro não europeu da história. A renúncia de Bento gerou grande repercussão pública. Afinal, em poucos momentos da história isso havia acontecido. No período moderno da Igreja Católica, os papas ocupam o cargo até a morte. O último a abdicar da cadeira de Pedro havia sido Celestino V, em 1294. 

O filme enfoca a eleição de Joseph Ratzinger para o papado, após a morte de João Paulo II e a preterição de Jorge Bergoglio. Logo em seguida, há um enfoque na pessoa do argentino e o pedido de sua aposentadoria. Bergoglio é chamado a Roma. Encontra-se com Bento XVI no Castelo Gandolfo, a famosa casa de verão dos papas. Nas conversas que são travadas entre Bergoglio e Bento, nota-se o quanto este, o erudito, filósofo, parece viver uma crise de fé.

É a partir desse encontro que há a explanação de duas visões sobre a fé e sobre o papel institucional da Igreja Católica. Bento é o ardoroso defensor de uma Igreja "pesada", dogmática, preparada para enfrentar os dilemas da modernidade com uma resposta pontual, não fundada em relativismos. Segundo ele, como fica evidente no filme, a perda de fiéis por parte da Igreja é um problema do homem moderno que se deixou dominar pelo pecado, pela corrupção. A Igreja precisa combater de maneira enérgica esses desafios. Bento XVI é uma espécie de Bonifácio VIII, um dos papas que eram defensores do poder temporal da Igreja; defensor de uma igreja pesada, galante, institucionalmente, burocrática.

Por sua vez, Francisco é, como o próprio nome evoca, a voz da simplicidade, da renovação, que está aberta ao diálogo. Francisco é a Igreja que saiu à rua para conversar com os homens e mulheres. Bento é a Igreja trancada em seu gabinete, encerrada em sua frieza, em sua tradição teológico-dogmática. O sucessor de Bento XVI simboliza uma Igreja jovem, disposta a sentar com os jovens. A entender os dilemas políticos e éticos do nosso tempo. As transformações pelas quais tem passado o Planeta, estabelecendo profícuos debates ecológicos. Francisco tem criticado a ganância do capital em detrimento do ser humano.

De certa forma, o filme serve para estabelecer um antagonismo entre Bento XVI e Francisco I. Todavia, não se deve negar que Anthony Hopkins, que representou o papel de Bento XVI, consegue impingir uma face humana, dócil e, às vezes, leve e gentil ao pontífice. 

Trata-se de um filme agradável. Serve para nos fazer refletir as múltiplas possibilidades de um movimento, pois o que se procura enfocar é um cristianismo mais dogmático, encerrado em pesadas sentenças dogmáticas e uma face mais leve e generosa da fé. 


domingo, maio 21, 2017

"O Capital" (2011), um filme de Constantin Costa-Gavras

A mulher de Marc pergunta: - "O que você quer?"
Ele responde: "Dinheiro!"

O filme O Capital (2011), do cineasta greco-francês, Constantin Costa-Gavras, é uma reflexão profunda e brutal de como o capital financeiro domina o mundo. Costa-Gavras ao longo da carreira tem produzido filmes sempre buscando estabelecer algum tipo de debate político. Se não me engano, este é o segundo filme que vejo dele. O primeiro foi Amem (2002), que foca na indiferença consentida da Igreja Católica em relação às medidas diabólicas nazistas contra os judeus.

Em O Capital, encontramos as lentes do diretor fazendo-nos refletir como se dão as relações no mundo do capital. O pano de fundo, certamente, foi a crise que abalou os mercados no ano de 2008 e que continua a promover as suas consequências. Quando falamos em filmes que buscam retratar o cenário de poder do mundo capitalista é sempre bom lembrar Wall Street - poder e cobiça (1987), de Oliver Stone, e outro mais recente: A grande aposta, (2015), de Adam McKay, que revela o background da crise com a eclosão da bolha especulativa do ano de 2008. 

O Capital intriga por nos fazer entrar no mundo das especulações, do capital intangível, virtualizado, imaterial e que não está preocupado com a produção de riqueza social. A lógica do capital é a transformação dele mesmo, gerando lucros cada vez mais absurdos. O poder do capital é a força que muda, manipula cenários a fim de que ele mesmo prevaleça acima de tudo e todos. 

Marc Tourneuil é um jovem inteligente e ambicioso. Ele assume a presidência de um dos maiores bancos europeus, o Banco Prenix, quando o seu presidente-fundador - Jack Marmande - se ver impossibilidade por causa de um câncer nos testículos. O nome do banco faz referência à ave mitológica capaz de ressurgir das cinzas cada vez que morre. O capital também sempre ressurge após as suas crises, exibindo novas feições para objetivar o lucro. O cargo era almejado por diversos integrantes do conselho deliberativo do banco. Aos poucos, Marc vai mostrando suas habilidades como gestor, tendo que tomar decisões difíceis como, por exemplo, a demissão de um número considerável de funcionários para que o banco se tornasse mais rentável. No filme, fica claro que o banco passa por uma valorização na bolsa de valores, feita pelos investidores, após o corte de dezenas de milhares de vagas de emprego.

A personagem rapidamente percebe o jogo que se arma contra ele. Nesse sentido, é importante prestar atenção à cena inicial do filme, que mostra uma tacada de golfe realizada por Jack Marmande. Ou seja, o mundo frio, instrumental do dinheiro, é um verdadeiro jogo. Para prevalecer nele é preciso saber jogar. Dentro desse espaço, não há lugar para as relações, que passam a ser sempre interesseiras e pragmáticas. 

O filme deixa-nos a impressão de que o contato humano passa a ser sempre artificial e virtual. Marc vive a viajar em jatinhos e se locomovendo de um espaço a outro em limusines como se não houvesse qualquer necessidade do homem social, o homem das relações humanas, que enxerga no outro a imagem de si. Quando ele fala é sempre por meio de uma tela ou de um aparelho celular. Esse excesso de virtualidade no filme é para mostrar quanto que o capital também se metamorfoseou em imaterialidade. 

As objetivações supremas do espírito humana ficam sempre secundarizadas. Notam-se no filme quadros de artistas como Matisse ou Modigliani.  O capital perdeu a sua materialidade e se tornou mera ficção a se converter em papéis, em títulos virtuais, em movimento especulativo que não gera riqueza para a sociedade por não ter preocupação com o trabalho. Esse movimento implacável, é resultado das sucessivas crises que o próprio capital tem acumulado desde a década de 70. Para que tivesse sobrevida e alcançasse seu objetivo supremo - o lucro - ele precisou espoliar-se das amarras sociais do estado de bem-estar-social, principalmente com uma das suas faces atuais, o neoliberalismo. 

Hoje, no Brasil, vemos esse jogo cada vez mais com força e factibilidade desde o golpe contra a presidenta Dilma, em 2016. O golpe foi para dar força e lucro ilimitado ao capital. As forças que patrocinaram o golpe partiram do capital financeiro e seus diversos braços. As ditas "reformas" trabalhistas realizadas a contragosto pelo governo ilegítimo de Michel Temer, um serviçal invertebrado do sistema capitalista, sem expressão, fraco, débil de carisma, intentam justamente extrair as amarras para que o capital seja sempre mais forte e soberano. Não há preocupação com os trabalhadores, que passam a ser meras peças acessórias, facilmente substituíveis. Precariza-se o trabalhador, pelo fato de o financismo não está preocupado com o trabalho. As ilusões com o trabalho passaram a ser coisas do passado. Os sindicatos, como instituições que representam e protegem o trabalhador, perdem a musculatura. Transformam-se em grêmios anêmicos, sem forças, e, finalmente, em uma realidade desnecessária, já que o capital não deseja obstáculos quaisquer. 

Em dado momento, encontramos essa pérola no filme que serve como reforço argumentativo. Quando Marc está conversando com acionistas estadunidenses, estes buscam tornar a face francesa do banco Phenix cada vez mais rarefeita, pois a França é o país das regulamentações que incomodam o capital financeiro-parasitário: "Gostam de Paris, mas não da França. Muitas leis sociais". Nota-se, aqui que a palavra "regulamentar" possui uma essência que torna exata o jogo do capital. O Capital especulativo está sempre mudando de lugar; sempre procurando locais mais atraentes, independemente da geografia. Qualquer ameaça a ele, ele voa, some, desaparece em lances céleres. As crises surgem assim. 

As reformas do trabalho, que também possuem o título eufemístico-dourado de "modernização das leis trabalhistas", são, no fundo, a face mais grotesco do jogo manipulador do capital em busca de mais lucro. As leis trabalhistas retiram do capitalista o seu principal desejo: ter mais dinheiro. No filme, só há uma referência a sindicatos. O que notamos é a onipresença poder da ontologia do capital, que é uma força em si e para si. 

Claro, existem outros elementos no filme, que poderiam ser abordados. À medida que fui lembrando, coloquei os que foram abordados acima. verdadeiramente, um filme espetacular.

sexta-feira, abril 18, 2014

A Sexta-Feira Santa e uma pequena reflexão sobre a fé

Rogier van der Weyden, Sepultamento, 1450.
Após ler um belo texto de Leonardo Boff, bateu-me uma sensação de frescor espiritual. Além disso, estou ouvindo o Stabat Mater, do compositor italiano Antonio Caldara, que nasceu no século XVII e morreu no século XVIII. Hoje se comemora a dita Sexta-Feira Santa, momento de imensa significação para a cristandade. É o dia que, segundo a tradição cristã, Jesus morreu por amor aos homens a fim de remi-los dos pecados e injustiças. 

Passados dois mil anos dessa possível morte, fico a pensar na atual situação do mundo, cujo nível de violência, dessacralização, vilanias, cinismos e irreverências se tornaram insuportáveis - não que isso não tenha existido em outras épocas. E a consequência disso tudo é o medo, a bestialização, a perca da capacidade do afeto.  E a mensagem de amor e esperança parece ter se diluído no horizonte aziago da história. Parece que caminhamos para a barbárie. Para a selvageria absoluta. Nesse sentido, penso que aí se faz importante a mensagem cristã de amor. Não somente a cristã, mas todas aquelas que enchem o coração dos homens de luz e pacificação. 

A cristã, especialmente, ergueu um monumento de esperança. Serenou angelicamente um gesto de beleza com o objetivo de tornar os homens mais homens; mais justos; mais cheios de dignidade e capazes de reconhecerem o outro como sendo alguém vestido pela imagem santificada do absoluto. Entendo que a mensagem do Evangelho seja um das mais bonitas que já foram semeadas na história da humanidade. Ela por si só, sem o fungo fermentador dos radicalismos da fé, sem a dogmática castrante que existe em torno da religião institucionalizada, é capaz de promover revoluções interiores. É capaz de fazer nascer a vida. É como o próprio Cristo diz em uma das passagens dos evangelhos, afirmando de forma belíssima que o amor, a descoberta de si, o caminhar religado com esse espírito de sensibilidade e transformador, faz com que esse mesmo sujeito se torne uma espécie de "chafariz ambulante", do qual do seu interior brotam as águas que transformam a própria vida (Jo 7.38)

Quando olho para a história da arte, não deixando de pensar no poder e pompa ostentada pela Igreja durante vários séculos, cujo resultado foi perseguição, morte, abusos, vilanias, negociações extravagantes, numa afronta deliberada àquilo que ensinou Cristo, não posso me desvencilhar das emoções geradas a partir da contemplação da fé. Como, por exemplo, a bela Missa  Dolorosa do Antonio Caldara, que escuto agora; ou ainda uma missa ou cantata de Bach; ou uma obra de Palestrina, Lassus, Gesualdo ou Victoria. Ou ainda a contemplação de uma obra de Rogier van de Weyden, Caravaggio ou Giotto.

Allain de Boton escreveu em seu livro Religião para ateus que "o cristianismo nunca nos deixa qualquer dúvida sobre para que serve a arte: é um meio para nos lembrar daquilo que importa. Existe com o intuito de nos guiar para o que deveríamos cultuar e condenar, se desejamos ser pessoas boas e sãs em posse de almas bem-ordenadas. É um mecanismo por meio do qual nosssas memórias são exercitadas à força a respeito do que devemos amar e ser gratos, assim como do que devemos nos afastar e temer". Agostinho nos aponta para isso quando diz que um sacramento é um símbolo capaz de representar uma ausência; é um sinal da presença da graça. O cristianismo como um todo é um apontar para a possibilidade de que os há esperança, de que a bondade e o amor, essa capacidade tão humana, podem ser experimentados.

Assim, passo a ser simpático para com a fé a partir do momento em que ela me torna uma pessoa mais singela, mais humana e, a partir disso, abre uma porta dimensional capaz de me fazer pensar em minha finitude e como Pascal posso dizer: "Sou o nada diante do tudo; e o tudo diante do nada". A sentido da religião repousa justamente nessa compreensão belíssima que nos leva a cultivar paisagens interiores. E uma vez que as paisagens interiores estejam cultivadas, do lado de fora verão a cachoeira, a cascata interior aludida por Jesus. E aí tudo ganha o sentido daquela afirmação de São Francisco: "Prega o Evangelho em todo tempo; se necessário, usa as palavras".

quinta-feira, dezembro 19, 2013

"Habemus Papam" - Por Mauro Saytayana. Uma contribuição contra a imbecilidade

Quando vejo disposições "sacadas" do lugar comum contra Marx, vêm a mim dois sentimentos: primeiro de indignação e, segundo, de consciência da ignorância do oponente. O capitalismo conseguiu cooptar, por meio do deus mercado e da construção de um estilo de vida manco, a naturalização do niilismo e do individualismo massacrante. Tal estilo de vida tem levado o planeta ao colapso e, a humanidade, à barbárie. Confundem experiências ou tentativas de materialização do socialismo com a filosofia de Marx. Marxismo é acima de tudo uma força que busca a liberdade, a humanização e a dignificação do ser humano. Um excelente antídoto (texto) contra o fascismo e a imbecilidade.

 Habemus Papam

Por Mauro Saytayana. Extraído do site do Leonardo Boff.  

Acusado por um conservador norte-americano de ser marxista, Jorge Mario Bergoglio, o papa Francisco, negou sê-lo, mas disse que não se sentia ofendido, por ter conhecido ao longo de sua vida muitos marxistas que eram boas pessoas.

A declaração do papa, evitando atacar ou demonizar os marxistas, e atribuindo-lhes a condição de comuns mortais, com direito a ter sua visão de mundo e a defendê-la, é extremamente importante, no momento que estamos vivendo agora.

A ascensão irracional do anticomunismo mais obtuso e retrógrado, em todo o mundo — no Brasil, particularmente, está ficando chique ser de extrema direita — baseia-se em manipulação canalha, com que se tenta, por todos os meios, inverter e distorcer a história, a ponto de se estar criando uma absurda realidade paralela.

Estabelecem-se, financiados com dinheiro da direita fundamentalista, “museus do comunismo”; surgem por todo mundo, como nos piores tempos da Guerra Fria, redes de organizações anticomunistas, com a desculpa de se defender a democracia; atribuem-se, alucinadamente, de forma absolutamente fantasiosa, 100 milhões de mortos ao comunismo.

Busca-se associar, até do ponto de vista iconográfico, o marxismo ao nacional-socialismo, quando, se não fossem a Batalha de Stalingrado, em que os alemães e seus aliados perderam 850 mil homens, e a Batalha de Berlim, vencidas pelas tropas do Exército Vermelho — que cercaram e ocuparam a capital alemã e obrigaram Hitler a se matar, como um rato, em seu covil — a Alemanha nazista teria tido tempo de desenvolver sua própria bomba atômica e não teria sido derrotada.

Quem compara o socialismo ao nazismo, por uma questão de semântica, se esquece de que, sem a heroica resistência, o complexo industrial-militar, e o sacrifício dos povos da União Soviética — que perdeu na Segunda Guerra Mundial 30 milhões de habitantes — boa parte dos anticomunistas de hoje, incluídos católicos não arianos e sionistas, teriam virado sabão nas câmaras de gás e nos fornos crematórios de Auschwitz, Birkenau e outros campos de extermínio.

Espalha-se, na internet — e um monte de beócios, uns por ingenuidade, outros por falta de caráter mesmo, ajudam a divulgar isso — que o Golpe Militar de 1964 — apoiado e financiado por uma nação estrangeira, os Estados Unidos — foi uma contrarrevolução preventiva. O país era governado por um rico proprietário rural, João Goulart, que nunca foi comunista. Vivia-se em plena democracia, com imprensa livre e todas as garantias do Estado de Direito, e o povo preparava-se para reeleger Juscelino Kubitscheck presidente da República em 1965.

1964 foi uma aliança de oportunistas. Civis que há anos almejavam chegar à Presidência da República e não tinham votos para isso, segmentos conservadores que estavam alijados dos negócios do governo e oficiais — não todos, graças a Deus — golpistas que odiavam a democracia e não admitiam viver em um país livre.

Em um mundo em que há nações, como o Brasil, em que padres fascistas pregam abertamente, na internet e fora dela, o culto ao ódio, e a mentira da excomunhão automática de comunistas, as declarações do papa Francisco, lembrando que os marxistas são pessoas normais, como quaisquer outras — e não são os monstros apresentados pela extrema-direita fundamentalista e revisionista sob a farsa do “marxismo cultural” — representam um apelo à razão e um alento.

Depois de anos dominada pelo conservadorismo, podemos dizer, pelo menos até agora, que Habemus Papam, com a clareza da fumaça branca saindo, na Praça de São Pedro, em dia de conclave, das veneráveis chaminés do Vaticano.

Um Papa maiúsculo, preparado para fortalecer a Igreja, com o equilíbrio e o exemplo do Evangelho, e a inteligência, o sorriso, a determinação e a energia de um Pastor que merece ser amado e admirado pelo seu rebanho.

sexta-feira, março 15, 2013

Entrevista de Leonardo Boff à Folha de São Paulo (que não foi publicada na íntegra)

Há alguns dias atrás escrevi algumas garatujas sobre a Igreja Católica. Acredito que esta semana, um dos assuntos mais propalados pela TV, pelas redes sociais e pelas mais diversas mídias tenha sido a eleição do novo papa, autodenominado Francisco I. Na entrevista abaixo (profundamente reveladora e com forte tom reflexivo e crítico, Leonardo Boff fala sobre a renúncia de Bento XVI e sobre o papel da Igreja na história. Muito boa a entrevista.

Dei generosamente uma entrevista à Folha de São Paulo que quase não aproveitou nada do que disse e escrevi. Então, publico a entrevista inteira a seguir para reflexão e discussão entre os interessados pelas coisas da Igreja Católica. As perguntas foram reordenadas.
1. Como o Sr. recebeu a renúncia de Bento XVI?
Eu, desde o principio, sentia muita pena dele, pois pelo que o conhecia, especialmente em sua timidez, imaginava o esforço que devia fazer para saudar o povo, abraçar pessoas, beijar crianças. Eu tinha certeza de que um dia ele aproveitaria alguma ocasião sensata, como os limites físicos de sua saúde e o menor vigor mental, para renunciar. Embora mostrou-se um Papa autoritário, não era apegado ao cargo de Papa. Eu fiquei aliviado, porque a Igreja está sem liderança espiritual que suscite esperança e ânimo. Precisamos de um outro perfil de Papa mais pastor que professor, não um homem da instituição-Igreja, mas um representante de Jesus que disse: “se alguém vem a mim eu não mandarei embora” (Evangelho de João 6,37), podia ser um homoafetivo, uma prostituta, um transexual.
2. Como é a personalidade de Bento XVI já que o Sr. privou de certa amizade com ele?
Conheci Bento XVI nos meus anos de estudo na Alemanha entre 1965-1970. Ouvi muitas conferências dele, mas não fui aluno dele. Ele leu minha tese doutoral: "O lugar da Igreja no mudo secularizado” e gostou muito a ponto de achar uma editora para publicá-la, um calhamaço de mais de 500 páginas. Depois trabalhamos juntos na revista internacional Concilium, cujos diretores se reuniam todos os anos na semana de Pentecostes em algum lugar na Europa. Eu a editava em português. Isso entre 1975-1980. Enquanto os outros faziam sesta, eu e ele passeávamos e conversávamos temas de teologia, sobre a fé na América Latina, especialmente sobre São Boaventura e Santo Agostinho, do quais é especialista e eu até hoje os frequento a miúde.
Depois, em 1984, nos encontramos num momento conflitivo: ele como meu julgador no processo do ex-Santo Ofício, movido contra meu livro “Igreja: carisma e poder” (Vozes 1981). Ai tive que sentar na cadeirinha onde Galileo Galilei e Giordano Bruno, entre outros, sentaram. Submeteu-me a um tempo de “silêncio obsequioso”; tive que deixar a cátedra e fui proibido de publicar qualquer coisa. Depois disso nunca mais nos encontramos. Como pessoa é finíssimo, tímido e extremamente inteligente.
3. Ele como Cardeal foi o seu Inquisidor depois de ter sido seu amigo: como viu esta situação?
Quando foi nomeado Presidente da Congregação para a Doutrina da Fé (ex-Inquisição) fiquei sumamente feliz. Pensava com meus botões: finalmente teremos um teólogo à frente de uma instituição com a pior fama que se possa imaginar. Quinze dias após me respondeu, agradecendo e disse: vejo que há várias pendências suas aqui na Congregação e temos que resolvê-las logo. É que praticamente a cada livro que publicava vinham de Roma perguntas de esclarecimento que eu demorava em responder. Nada vem de Roma sem antes de ter sido enviado a Roma.
Havia aqui bispos conservadores e perseguidores de teólogos da libertação que enviavam as queixas de sua ignorância teológica a Roma a pretexto de que minha teologia poderia fazer mal aos fiéis. Ai eu me dei conta: ele já foi contaminado pelo bacilo romano que faz com que todos os que ai trabalham no Vaticano rapidamente encontrem mil razões para serem moderados e até conservadores. Então, sim, fiquei mais que surpreso, verdadeiramente decepcionado.
4. Como o Sr. recebeu a punição do “silêncio obsequioso”?
Após o interrogatório e a leitura de minha defesa escrita, que está como adendo da nova edição de “Igreja: carisma e poder” (Record 2008), são 13 cardeais que opinam e decidem. Ratzinger é um apenas entre eles. Depois submetem a decisão ao Papa. Creio que ele foi voto vencido, porque conhecia outros livros meus de teologia, traduzidos para alemão, e me havia dito que tinha gostado deles, até, uma vez, diante do Papa numa audiência em Roma fez uma referência elogiosa. Eu recebi o “silêncio obsequioso” como um cristão ligado à Igreja o faria: calmamente o acolhi. Lembro que disse: “é melhor caminhar com a Igreja que sozinho com minha teologia”. Para mim foi relativamente fácil aceitar a imposição, porque a Presidência da CNBB me havia sempre apoiado e dois Cardeais, Dom Aloysio Lorscheider e Dom Paulo Evaristo Arns, me acompanharam a Roma e depois participaram, numa segunda parte, do diálogo com o Cardeal Ratzinger e comigo. Ai éramos três contra um. Colocamos algumas vezes o Cardeal Ratzinger em certo constrangimento, pois os cardeais brasileiros lhe asseguravam que as críticas contra a teologia da libertação que ele fizera num documento saído recentemente eram eco dos detratores e não uma análise objetiva. E pediram um novo documento positivo; ele acolheu a ideia e realmente o fez dois anos após. E até pediram a mim e ao meu irmão teólogo Clodovis, que estava em Roma, que escrevêssemos um esquema e o entregássemos na Sagrada Congregação. E num dia e numa noite o fizemos e o entregamos.
5. O Sr deixou a Igreja em 1992. Guardou alguma mágoa de todo o affaire no Vaticano?
Eu nunca deixei a Igreja. Deixei uma função dentro dela, que é de padre. Continuei como teólogo e professor de teologia em várias cátedras aqui e fora do país. Quem entende a lógica de um sistema autoritário e fechado, que pouco se abre ao mundo, não cultiva o diálogo e a troca (os sistemas vivos vivem na medida em que se abrem e trocam), sabe que se alguém, como eu, não se alinhar totalmente a tal sistema, será vigiado, controlado e eventualmente punido. É semelhante aos regime de segurança nacional que temos conhecido na América Latina sob os regimes militares no Brasil, na Argentina, no Chile e no Uruguai. Dentro desta lógica, o então Presidente da Congregação da Doutrina da Fé (ex-Santo Oficio, ex-Inquisição), o Cardeal J. Ratzinger, condenou, silenciou, depôs de cátedra ou transferiu mais de cem teólogos. Do Brasil fomos dois: a teóloga Ivone Gebara e eu. Em razão de entender a referida lógica, e lamentá-la, sei que eles estão condenados a fazer o que fazem na maior das boas vontades. Mas como dizia Blaise Pascal: “Nunca se faz tão perfeitamente o mal como quando se faz de boa vontade”. Só que esta boa vontade não é boa, pois cria vítimas. Não guardo nenhuma mágoa ou ressentimento, pois exerci compaixão e misericórdia por aqueles que se movem dentro daquela lógica que, a meu ver, está a quilômetros luz da prática de Jesus. Aliás é coisa do século passado, já passado. E evito voltar a isso.
6. Como o Sr. avalia o pontificado de Bento XVI? Soube gerenciar as crises internas e externas da Igreja?
Bento XVI foi um eminente teólogo, mas um Papa frustrado. Não tinha o carisma de direção e de animação da comunidade, como tinha João Paulo II. Infelizmente ele será estigmatizado, de forma reducionista, como o Papa onde grassaram os pedófilos, onde os homoafetivos não tiveram reconhecimento e as mulheres foram humilhadas como nos EUA, negando o direito de cidadania a uma teologia feita a partir do gênero. E também entrará na história como o Papa que censurou pesadamente a Teologia da Libertação, interpretada à luz de seus detratores, e não à luz das práticas pastorais e libertadoras de bispos, padres, teólogos, religiosos/as e leigos que fizeram uma séria opção pelos pobres contra a pobreza e a favor da vida e da liberdade. Por esta causa justa e nobre foram incompreendidos por seus irmãos de fé, e muitos deles presos, torturados e mortos pelos órgãos de segurança do Estado militar. Entre eles estavam bispos como Dom Angelelli, da Argentina, e Dom Oscar Romero, de El Salvador. Dom Helder foi o mártir que não mataram. Mas a Igreja é maior que seus papas e ela continuará, entre sombras e luzes, a prestar um serviço à humanidade, no sentido de manter viva a memória de Jesus, de oferecer uma fonte possível de sentido de vida que vai para além desta vida. Hoje sabemos pelo Vatileaks que dentro da Cúria romana se trava uma feroz disputa de poder, especialmente entre o atual Secretário de Estado Bertone e o ex-secretário Sodano, já emérito. Ambos têm seus aliados. Bertone, aproveitando as limitações do Papa, construiu praticamente um governo paralelo. Os escândalos de vazamento de documentos secretos da mesa do Papa e do Banco do Vaticano, usado pelos milionários italianos, alguns da mafia, para lavar dinheiro e mandá-lo para fora, abalaram muito o Papa. Ele foi se isolando cada vez mais. Sua renúncia se deve aos limites da idade e das enfermidades, mas foram agravadas por estas crises internas que o enfraqueceram e que ele não soube ou não pode atalhar a tempo.
7. O Papa João XXIII disse que a Igreja não pode virar um museu, mas uma casa com janelas e portas abertas. O Sr. acha que Bento XVI não tentou transformar a Igreja novamente em algo como um museu?
Bento XVI é um nostálgico da síntese medieval. Ele reintroduziu o latim na missa, escolheu vestimentas de papas renascentistas e de outros tempos passados, manteve os hábitos e os cerimoniais palacianos; para quem iria comungar, oferecia primeiro o anel papal para ser beijado e depois dava a hóstia, coisa que nunca mais se fazia. Sua visão era restauracionista e saudosista de uma síntese entre cultura e fé, que existe muito visível em sua terra natal, a Baviera, coisa que ele explicitamente comentava. Quando na Universidade, onde ele estudou e eu também, em Munique, viu um cartaz me anunciando como professor visitante para dar aulas sobre as novas fronteiras da teologia da libertação, pediu ao reitor que protelasse esse dia, o convite já acertado. Seus ídolos teológicos são Santo Agostinho e São Boaventura, que mantiveram sempre uma desconfiança de tudo o que vinha do mundo, contaminado pelo pecado e necessitado de ser resgatado pela Igreja. É uma das razões que explicam sua oposição à modernidade, que a vê sob a ótica do secularismo e do relativismo e fora do campo de influência do cristianismo que ajudou a formar a Europa.
 8. A igreja vai mudar, em sua opinião, a doutrina sobre o uso de preservativos e em geral a moral sexual?
A Igreja deverá manter as suas convicções, algumas que estima irrenunciáveis como a questão do aborto e da não manipulação da vida. Mas deveria renunciar ao status de exclusividade, como se fora a única portadora da verdade. Ela deve se entender dentro do espaço democrático, no qual sua voz se faz ouvir junto com outras vozes. E as respeita e até se dispõe a aprender delas. E quando derrotada em seus pontos de vista, deveria oferecer sua experiência e tradição para melhorar onde puder melhorar e tornar mais leve o peso da existência. No fundo, ela precisa ser mais humana, humilde e ter mais fé, no sentido de não ter medo. O que se opõe à fé não é o ateísmo, mas o medo. O medo paralisa e isola as pessoas das outras pessoas. A Igreja precisa caminhar junto com a humanidade, porque a humanidade é o verdadeiro Povo de Deus. Ela o mostra mais conscientemente, mas não se apropria com exclusividade desta realidade.
9. O que um futuro Papa deveria fazer para evitar a emigração de tantos fiéis para outras igrejas, e especialmente pentecostais?
Bento XVI freou a renovação da Igreja incentivada pelo Concílio Vaticano II. Ele não aceita que na Igreja haja rupturas. Assim que preferiu uma visão linear, reforçando a tradição. Ocorre que a tradição a partir dos séculos XVIII e XIX se opôs a todas as conquistas modernas, da democracia, da liberdade religiosa e outros direitos. Ele tentou reduzir a Igreja a uma fortaleza contra estas modernidades. E via no Vaticano II o cavalo de Troia por onde elas poderiam entrar. Não negou o Vaticano II, mas o interpretou à luz do Vaticano I, que é todo centrado na figura do Papa com poder monárquico, absolutista e infalível. Assim se produziu uma grande centralização de tudo em Roma sob a direção do Papa que, coitado, tem que dirigir uma população católica do tamanho da China. Tal opção trouxe grande conflito na Igreja até entre inteiros episcopados, como o alemão e francês, e contaminou a atmosfera interna da Igreja com suspeitas, criação de grupos, emigração de muitos católicos da comunidade e acusações de relativismo e magistério paralelo. Em outras palavras, na Igreja não se vivia mais a fraternidade franca e aberta, um lar espiritual comum a todos. O perfil do próximo Papa, no meu entender, não deveria ser o de um homem do poder e da instituição. Onde há poder, inexiste amor e desaparece a misericórdia. Deveria ser um pastor, próximo dos fiéis e de todos os seres humanos, pouco importa a sua situação moral, étnica e política. Deveria tomar como lema a frase de Jesus que já citei anteriormente: “Se alguém vem a mim, eu não o mandarei embora”, pois acolhia a todos, desde uma prostituta como Madalena até um teólogo como Nicodemos.
Não deveria ser um homem do Ocidente que já é visto como um acidente na história. Mas um homem do vasto mundo globalizado, sentindo a paixão dos sofredores e o grito da Terra devastada pela voracidade consumista. Não deveria ser um homem de certezas, mas alguém que estimulasse a todos a buscarem os melhores caminhos. Logicamente se orientaria pelo Evangelho, mas sem espírito proselitista, com a consciência de que o Espírito chega sempre antes do missionário e o Verbo ilumina a todos que vêm a este mundo, como diz o evangelista São João. Deveria ser um homem profundamente espiritual e aberto a todos os caminhos religiosos, para juntos manterem viva a chama sagrada que existe em cada pessoa: a misteriosa presença de Deus. E, por fim, um homem de profunda bondade, no estilo do Papa João XXIII, com ternura para com os humildes e com firmeza profética para denunciar quem promove a exploração e faz da violência e da guerra instrumentos de dominação dos outros e do mundo. Que nas negociações que os cardeais fazem no conclave e nas tensões das tendências, prevaleça um nome com semelhante perfil. Como age o Espírito Santo ai é mistério. Ele não tem outra voz e outra cabeça do que aquela dos cardeais. Que o Espírito não lhes falte.

domingo, março 03, 2013

O poder e o carisma da Igreja

Na última semana, enquanto assistia ao noticiário que tratava da renúncia do papa e a nova movimentação dos cardeais da Igreja para a escolha de um novo pontífice, fiquei "especulando" sobre a imagem do Chefe da Igreja Católica: Josef Hatzing, o papa Bento XVI, sentado no trono que segundo a tradição representa o "o lugar-tenente de Pedro", cercado por mais de cem clérigos de todas as partes do mundo. Ao ver aquela cena mostrada pela Band News, não deixei de pensar no significado simbólico daquele gesto.

Por trás daquela cena estão séculos de uma instituição que possui quase dois mil anos de história. Uma instituição que existe em torno de uma dogma e que continua firme e forte a sua marcha. Não conheço outra organismo que tenha resistido durante tanto tempo. A Igreja possui bastante dinheiro - isso é inegável. O Banco do Vaticano é uma das entidades financeiras mais seguras e tradicionais do mundo. Mas não é isso que a torna forte. A Igreja possui um patrimônio invejável. No passado, chegou a ser dona de quase metade da Europa. Mas, também, não é isso que a torna uma instituição que esbanja viço.

Penso que a sua força esteja assentado em um poder invisível. O fato é que a Igreja consegue, diferentemente do protestantismo, por exemplo, preservar a sua unidade no meio da diversidade. Ela preserva o dogma, sua dimensão simbólica. E é uma instituição que vive de pregar uma promessa invisível. Sua maior riqueza está estruturada sobre um código não tangível, mas que é visualizado em elementos  materiais. Partindo desse paradoxo, ela diz ter as chaves do céu. O papa está assentado sobre o trono de Pedro. A hóstia é o próprio corpo de Cristo. O vinho da eucaristia é o sangue do Filho de Deus. Ou seja, a Igreja consegue criar símbolos para uma ausência e justifica a sua existência. 

Folheando o livro  Igreja - carisma e poder, de Leonardo de Boff,  livro que lhe rendeu excomunhão da Igreja - diz que a Igreja é resultado de dois momentos históricos: (1) deriva da comunidade dos primeiros cristãos, baseado no carisma, na fé e na caridade e que vai até 312 d.C; (2) que deriva da era do imperador romano Constatino (que se autoproclamou papa no Concílio de Nicéia, 325 d.C), que foi responsável pela burocratização da Igreja. Boff vai dizer que a partir daí:

A Igreja transformou-se num grande feudo dos imperadores, que dispunham dos cargos eclesiásticos e os tratavam à maneira secular. (...) O poder sagrado Igreja-instituição lançou mão de todas as artimanhas, até a falsificação de decretais e da falsificação do Testatmentum Constatini, para justificar as suas pretensões, o que confirma a tese de que o poder, seja qual for o signo sob o qual é exercido, seja cristão ou pagão, sagrado ou secular, segue imperturbavelmente a mesma lógica interna de querer mais poder, de ser um dinossauro insaciável e de submeter tudo e todos aos próprios ditames do poder. (BOFF, 1981, p. 81)

Boff afirma que essa instituição complexa, esse reino de poder, faz dos dogmas verdadeiras cartas jurídicas para balizar a conservação do poder. Assim, a Igreja do alto de sua complexidade é um organismo habitado por nuanças variadas - ela possui esse peso de ser mãe que acolhe - a caridade. Mas é também um império de burocratas, de politicagens. 

Não se sabe ainda quais foram as causas que levaram Bento XVI a renunciar. Saúde frágil? Escândalos sexuais por parte dos cardeais e dos padres? Não são tais "escândalos" que abalarão essa grande nave, que viaja no tempo, chamada Igreja Católica. Em outros momentos históricos ela já amargou crises muito mais intensas - cismas, rachas, escândalos com papas, alianças estranhas, mas isso não fez com que ela naufragasse. Ela ainda permanecerá por bastante tempo. Nos momentos difíceis de vanguardas dos últimos dois mil anos - tanto na fundação das universidades, ainda na Idade Média; e no crítico silêncio praticado pelo papa Pio XII, filmado por Costas Gravas no filme Amém, sobre o não posicionamento da Igreja quando do extermínio dos judeus pelos nazistas, a a Santa Sé esteve presente 

Pensei em tudo isso quando vi a figura frágil do papa sentado sobre um trono carregado por reverberações simbólicas; vestindo uma indumentária carregada de significado diante de centenas de cardeias. Mais que um encontro de despedida do papa, aquilo dizia muito sobre a história dos últimos dois mil anos aqui no Ocidente. Ali havia poder e um halo invisível de carisma. 

BOFF, Leornardo. Igreja - carisma e poder. Editorial Inquérito. Lisboa - Portugal. 1981. 230p.