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segunda-feira, janeiro 01, 2024

Filmes e documentários vistos em 2024.

Truffaut em ação.
 

Vamos para o quinto ano com a estratégia de escolher doze filmes de um determinado diretor. Cada filme é visto ao longo de um mês. Não é uma tarefa difícil. Com essa estratégia, torna-se possível assistir a clássicos imortais. Ou seja, é possível ver aquelas obras imemoriais que fazem do cinema uma das mais belas dimensões da criatividade humana.  Já escolhi Tarkovsky, Bergman, Kurosawa e Buñuel. No ano de 2024, será a vez do francês François Truffaut.

O diretor foi um figura proeminente do cinema francês. É considerado o fundador da Nouvelle Vague ("Nova Onda"), um movimento do cinema que atualizava as produções ao momento político e social do pós-guerra. Nas produções oriundas desse movimento, as personagens eram contestadoras, insubmissas. Os criadores do movimento, entre eles Godard, Resnais e Rohmer, além do próprio Truffaut, fundaram uma nova estética. Com pouco dinheiro, mais com o desejo de imprimir uma percepção nova sobre o cinema, os diretores queriam fugir dos clichês costumeiros do cinema comercial. O foco passou a ser dado ao psicológico das personagens; em suas impressões sobre o cotidiano e os pequenos eventos nunca antes enquadrados pelo cinema.

Segue a lista dos 12 filmes escolhidos:

1 - Os incompreendidos - Ok!

2 - A noite americana - Ok!

3 - Beijos roubados - Ok!

4 - Antoine e Colette / A noiva estava de preto

5 - Domicílio conjugal - Ok!

6 - Um só pecado Ok!

7 - Atirem no pianista

8 - Na idade da inocência

9 - Fahrenheit 457

10 - O homem que amava as mulheres

11 - A mulher do lado

12 - Uma jovem tão bela como eu


Filmes vistos em 2024:

01 - Os incompreendidos

02 - A grande testemunha

03 - O maestro

04 - Priscila

05 - Boulevard do crime

06 - Roma - cidade aberta

07 - Dias perfeitos

08 - Pobres criaturas

09 - A noite americana

10 - Zona de interesse

11 - Amor à flor da pele

12 - Gosto de cereja

13 - Anatomia de uma queda

14 - Domicílio conjugal

15 - A vida de uma mulher

16 - Pollock

17 - Réquiem para um sonho

18 - Beijos roubados

19 - Duna - parte 2

20 - Napoleão

21 - Minha noite com ela

22 - A vingança está na moda

23 - A fraternidade é vermelha

24 - Pacto de sangue

25 - O homem que fazia chover

26 - Terra Selvagem

27 - O júri

28 - Um homem bom

29 - Lionhart

30 - Spencer

31 - O vingador do futuro

32 - Coco antes de Channel

33 - Pompeia

34 - Divertidamente 2

35 - Pai e Filha

36 - As mães do terceiro Reich

37 - Um só pecado

38 - Inimigos Públicos

39 - Blonde

40 - Vidas passadas

41 - Uma rua chamada pecado

42 - Ratatouille

43 - Marshall - igualdade e justiça

44 - Atirem no pianista. 

45 - Oppenheimer

46 - O clube do imperador

47 - Alien - o oitavo passageito

48 - Filadélfia

49 - Marcas da violência

50 - Amor e tulipas

51 - Fahrenheit 451

52 - Furiosa - uma saga de Mad Max

53 - Mad Max

54 - Barry

55 - Tudo por justiça

56 - Luca

57 - Mad Max 2

58 - Mad Max - além da cúpula do trovão

59 - Tempo esgotado

60 - O terceiro homem

61- O novo mundo

62 - Churchill

63 - Michelangelo - infinito

64 - O homem que amava as mulheres

65 - Contra o gelo

66 - Medo e delírio em Las Vegas

67 - A vítima invísivel - o caso Eliza Samúdio

68 - Amor esquecido

69 - O último metrô

70 - Harry Potter - a câmara secreta

71 - A virgem vermelha

72 - Embriaguez do sucesso

73 - As duas inglesas e o amor

74 - 


domingo, janeiro 01, 2023

Filmes e documentários vistos em 2023

Posso afirmar que uma das mais felizes experiências que empreendi nos últimos três anos foi a possibilidade de sistematizar a forma como passei a ver algumas obras cinematográficas. O método é o seguinte: escolho o diretor, seleciono os filmes; estabeleço um filme por mês, o que não é uma tarefa complexa, e vejo-os diligentemente. Durante os doze meses do ano, dedico-me à tarefa. O resultado do empreendimento é prolífico e enriquecedor. 

Em 2020, dediquei-me ao mestre russo Andrei Tarkovski. Sua filmografia não é extensa. Foi possível assistir a todos os filmes que eu ainda não havia visto. Não vi "Solaris", por exemplo; mas pude rever "O Espelho". Em 2021, foi a vez do mestre sueco Ingmar Bergman, o homem da psicologia profunda. Dos silêncios desconcertantes; da poesia de alto valor. Em 2022, dedicamo-nos ao mestre Akira Kurosawa. Devo afirmar que foi uma das experiências mais lindas e seminais as quais eu já experimentei com a arte. Kurosawa é um mestre do rigor e da beleza. Um gênio acima de qualquer de qualquer possibilidade de contestação.

Em 2023, vamos nos dedicar às obras do diretor espanhol - naturalizado mexicano - Luis Buñuel. Segue a lista com os 12 filmes:

 1 - janeiro - "Viridiana"; Ok!

2 - fevereiro -  "O discreto charme da burguesia" Ok!

3 - março - "O anjo exterminador"- Ok!

4 - abril - "A bela da tarde" Ok!

5 - maio - "O alucinado" Ok!

6 - junho - "Este obscuro objeto de desejo" Ok!

7 - julho - "Nazarin" OK

8 - agosto - "O fantasma da liberdade" OK

9 - setembro - "O diário de uma camareira" OK

10 - outubro - "Uma mulher sem amor" OK

11 - novembro - "O rio e a morte" OK

12 - dezembro - "Susana, mulher diabólica" OK

Além dos filmes de Buñuel, o objeto é assistir a aproximadamente 70 filmes. Infelizmente, em 2022, eu não consegui cumprir a minha meta, também, de 70 filmes. 


1 - Viridiana

2 - Bardo - falsa crônica

3 - O milagre

4 - Ela disse

5 - Aftersun

6 - Banshees de Inisherin

7 - Do outro lado do Atlântico

8 - Discreto charme da burguesia. 

9 - Noche de fuego

10 - Os homens que pisaram na cauda do tigre

11 - Querida, Alice

12 - O suplente

13 - Racionais

14 - Pureza

15 - Narvik

16 - A qualquer custo

17 - A Baleia

18 - Tudo em todo lugar ao mesmo tempo

19 - Entre mulheres

20 - Dúvida

21 - The Naked Island

22 - O anjo exterminador

23 - Triângulo da tristeza

24 - O pagador de promessas

25 - Toda nudez será castigada

26 - Almas gêmeas

27 - Oscar Wilde

28 - Além das palavras

29 - Retratos de uma obsessão

30 - O padre e a moça

31 - O atalante

32 - A General

33 - Deus e o diabo na terra do sol

34 - A bela da tarde

35 - Close

36 - O acontecimento

37 - Luzes da cidade

38 - O pior vizinho do mundo

39 - Vidas Secas

40 -  Um assunto de mulheres

41 - Cinco semanas num balão

42 - Só dez por cento é mentira

43 - Os fuzis

44 - Corrida contra o destino

45 - El

46 - Já era hora

47 - Rio, 40 graus

48 - O castelo de vidro

49 - A falecida

50 - Cinema Novo - documentário

51 - Os cafajestes

52 - Jules e Jim

53 - Esse obscuro objeto do desejo

54 - The best of enemies

55 - Chavalier

56 - Tempo de despertar -

57 - Tigertail

58 - O ano em que comecei a vibrar por mim

59 - Nazarin -

60 - Eldorado

61 - As irmãs Brontë

62 - Um marido fiel

63 - To end All: Oppenheimer & The Atomic Bomb

64 - No portal da eternidade

65 - Outro Sertão (documentário) -

66 - A antena

67 - A conspiração

68 - Uma lição de esperança

69 - A canção da estrada

70 - As silenciadas

71 - O fantasma da liberdade

72 - O grande golpe

73 - O diário de uma camareira

74 - Saneamento básico

75 - A morte de Stalin

76 - A arca russa

77 - Ilusões perdidas

78 - Cantando na Chuva

79 - Uma mulher sem amor

80 - O assassino

81 - Mar de dentro

82 - O rio e a morte
 
83 - Susana, a mulher diabólica
 
84 - Morte a Pinochet
 

segunda-feira, janeiro 03, 2022

Filmes e documentários vistos em 2022

 

Nos últimos três anos, tenho tentado dedicar o meu ano cinematográfico a alguns diretores. Em 2020, dediquei o ano a assistir a alguns filmes do diretor russo Andrei Tarkovsky. A incursão permitiu que eu revisitasse a alguns filmes e visse, em definitivo, aqueles os quais ainda eu não conhecia. Em 2021, foi a vez do sueco Ingmar Bergman, para mim, outro diretor essencial. Vi menos do que que queria. Ainda pretendo visitar algumas outras obras do diretor este ano. Há filmes que ainda pretendo ver - “Sarabanda”, Sonata de outono” e “Sorrisos de uma noite de amor”.

Para o ano de 2022, resolvi visitar algumas das obras icônicas do diretor japonês Akira Kurosawa. O japonês é uma espécie de mito cinematográfico. Seus filmes foram responsáveis por criar tendências; determinar as marcas criativas para certos diretores. Assisti “somente” a três dos seus filmes pelo que lembro – “Rashomon”, “Os sete samurais” e “Derzu Uzala”. Os três são pérolas inquestionáveis. Revelam a genialidade do japonês. Impossível vê-los e não ser visitado pelo aturdimento. Estão entre os filmes mais importantes que vi na vida.

Para o ano de 2022, escolhi doze filmes - um para cada mês. São eles

1 – janeiro – “Ran” - Ok! - 27/01;

2 – fevereiro – “Escândalo”;  Ok!

3 – março – “Yojimbo – o guarda-costas”;  Ok!

4 – abril – “Trono manchado de sangue”; Ok!

5 – maio – “Sanjuro”; Ok!

6 – junho – “ Kagemusha, a sombra do samurai”; Ok!

7 – julho – “Viver”; Ok!

8 – agosto – “Rapsódia em agosto”; Ok!

9 – setembro – “A fortaleza escondida”; Ok!

10 – outubro – “Céu e inferno”; Ok!

11 – novembro – “O homem mau dorme bem”;  Ok!

12 – dezembro – “O barba ruiva”. Ok!

Ainda elenquei alguns outros filmes com prioridade – “Sonhos”; “Os homens que pisaram na cauda do tigre”; “Duelo silencioso”; “Dodles´Ka-Den – o caminho da vida”; “Kagemusha – A sombra do samurai”.

Lista de filmes vistos em 2022:

1 - Matrix - Ressurreição. dir. Lana Wachowski. Ficção, Drama. EUA. 2021. 148 min. 8,7;

2 - #Nudes. dir. Guily Machovec. Comédia, Drama. Brasil. 2018. 105 min. 8,5;

3 - Cabeça de Nêgo. dir. Déo Cardoso. Drama. Brasil. 2021. 85 min. 7,5;

4 - Os farofeiros. dir. Roberto Santucci. Comédia. Brasil. 2018. 99 min. 8,0;

5 - "Ran". dir. Akira Kurosawa. Ação, Drama. Japão. 1985. 160 min. 27/01. 9,7. 

6 - Duna - dir. Denis Villeneuve. Aventura, Ficção. EUA. 2021. 155 min. 9,6.

7 - A mão de Deus. dir. Paolo Sorrentino. Drama, Biografia. Itália. 2021. 9,3.

8 - Tick... Tick... Boom. dir. Lin-Manuel Miranda. Drama, Biografia. EUA. 2021. 9,0;

9 -  O golpista do Tinder. dir. Felicity Morris.  Documentário. EUA. 2022. 9,7

10 - Ataque de cães - dir. Jane Campion. Drama, Western. Austrália, Nova Zelândia. 2021. 9,6.

11 - No limite da guerra -

12 - Bravura Indômita -

13 - Escândalo -

14 - Munique - No limite da Guerra -

15 - Belfast -

16 - O quinto elemento -

17 - Imperdoável -

18 - Um dia de chuva em Nova York -

19 - A odisseia dos tontos -

20 - Queda Livre - a tragédia do caso Boeing -

21 - O violino do meu pai -

22 - Red - crescer é uma fera -

23 - Doutor Gama -

24 - No ritmo do coração -

25 - Yojimbo, o guarda-costas -

26 - Benedetta -

27 - A filha perdida -

28 - Viajo porque preciso, volto porque te amo -

29  - Meu pai

30 - Três anúncios para um crime

31 - Capitães da areia - 16/06

32 - Os lobo atrás da porta

33 - Zuzu Angel

34 - Trono manchado de sangue

35 - Os miseráveis

36 - Gig - a uberização do trabalho

37 - Medida Provisória

38 - Sanjuro

39 - Notas sobre um escândalo

40 - Não por acaso

41 - O guerreiro Genghis Khan

42 - Sonhos

43 - Viver

44 - Sorrisos de uma noite de amor

45 - Bem-vindo aos 40

46 - O feitiço de Aquila

47 - Céu e inferno

48 - A fortaleza escondida

49 - O substituto

50 - Rapsódia em agosto

51 - A troca

52 - Homem mau dorme bem

53 - Argentina - 1985

54 - A mãe

55 - Conflito silencioso

56 - Festim diabólico

57 - O Barba Ruiva - 

58 - Nada de novo no Front

59 - Eu não sou um homem fácil

60 - Um domingo maravilhoso. Akira Kurosawa. Drama. Japão. 1947. 108 min. 

61 - Kuarup. 

62. Pinóquio. Guilherme del Toro. Animação. EUA, Inglaterra. 2022. 117 min.

63. As linhas tortas de Deus. 

sábado, julho 31, 2021

"Monika e o Desejo", de Ingmar Bergman.

 

“Monika e o Desejo” é um filme de 1953, dirigido por Ingmar Bergman. Entre os filmes bergmanianos já vistos por mim, este foi aquele que mais diverge das características peculiares encontradas nas películas do diretor sueco. Em uma leitura ligeira, parece-nos de que se trata de uma obra preocupada apenas com a hedonística irresponsável da vida de dois jovens. Todavia, há elementos na obra que apontam a genialidade destacada de Bergman. A personagem Monika esbanja liberdade, desenvoltura para lidar com os problemas que a cerca. É decidida. Corajosa. Não leva desaforo para casa. Seu romance com o jovem e confuso Harry é uma metáfora das relações jovens e descomprometidas. Após o casamento, a atmosfera de aventura e romance acaba. Instala-se a melancolia. Após o nascimento do filho, Monika mostra-se inadaptada e insatisfeita com a maternidade. O final do filme surpreende, pois coloca em evidência uma crítica aos padrões esperados pela sociedade. Trata-se de um filme em que Bergman abusou das simbologias. É ver com calma para entender qual é o desejo de Monika.

 

quarta-feira, janeiro 21, 2015

O cinema em dezembro - 2014

 O ano de 2014 é um dado da história. Já passou. Ficou na curva do tempo. E como me prontifiquei a escrever uma crônica bamba sobre os filmes a que assisto em cada mês, infelizmente, não pude fazê-lo mês passado. Estabelecendo um balanço sobre todos os filmes vistos ano passado, o total chega a noventa e dois. Um número considerável. Não possuo números factíveis na superfície da memória. Mas, certamente, foi o ano o qual mais filmes eu vi. Passei a entender a relevância do cinema. Um bom filme nos faz ficar por dias com a sua temática presa em nossa cabeça. O poder da fotografia; a posição da câmara; a atuação dos atores; a genealidade dos bons diretores, que são capazes de transportar o espectador ao mundo imagético das telas, tudo isso gera fascínio e nos prende por horas no sofá.

Se no ano de 2014 eu vi mais filmes, no mês de dezembro eu tentei me disciplinar para ver o que pude. Vi um total de quinze filmes. Entremeei aquilo que vi com obras sérias e outras não muito sérias. Não estou com disposição para fazer resumos de cada um dos filmes. Contarei sucintamente o que de mais relevante ficou preso na teia das ideias. Começarei por aquilo que julguei "obra não sérias". Diria sem assombros que a terceira parte de O Hobbit - a batalha dos cinco exércitos me pareceu uma grande porcaria. Gosto do mundo mágico de Tolkien. Celebro sua capacidade criativa. Peter Jackson, um apaixonado pelo escritor, teve a ventura de filmar o Senhor dos Anéis e obteve um astronômico sucesso. Dirigiu-se para o O Hobbit, uma espécie de pré-história da Terra Média, e conseguiu criar um "ramerrão cinematográfico". Os dois primeiros foram até suportáveis, mas o terceiro, como diz um tio da minha esposa, ficou um verdadeiro "filme espada - longo e chato". Passei quase três horas entediado no cinema. Os adolescentes gritando em polvorosa. Batalhas insossas senso perpetradas na tela. E a certeza de que aquilo já não encanta. 

Outro filme que julgo "não sério" - e que já perdi a quantidade de vezes que já vi - foi Um príncipe em Nova York (1988), que possui toda aquela atmosfera risível dos anos 80. O filme em si não possui nada de notável. Todavia, proporciona momentos de alegria estrepitosa. O musical Chicago (2002), coloco-o entre as obras menores. Mas ele possui um background que nos transporta para a cidade de mesmo nome, celeiro do jazz, dos cassinos, dos prostíbulos, da máfia e dos sujeitos oportunistas à procura de sucesso. Não vejo muitos musicais (a não ser Jesus Cristo Superstar (1972), de Norman Jewison).

Maria Antonieta (2006) é outro filme que é um atentado à história. A diretora Sofia Coppola foi convincente com a fotografia e esqueceu de afinar os eventos dos filme aos fatos históricos. 

Resolvi voltar a ver Star Wars, filme que destila em mim aquela paixão nerd de adolescência e que me impele a repetir as falas, prever os lances, utilizar toda a feitiçaria jedi no dia a dia. Star Wars sempre me fascinou por criar um amálgama de tecnologia e tradições milenares orientais com virtudes medievais. O filme faz-nos refletir sobre o uso da moral, o conhecimento de si e os limites estabelecidos pela disciplina e o desejo de poder, que é capaz de conduzir ao "lado sombrio". Ou seja, a dimensão insaciável do poder pelo poder. Vi os três primeiros filmes - Uma nova esperança (1977), O império contra ataca (1980) e O retorno de Jedi (1984). Pretendo ver os outros três o mais rápido possível.

E a partir daqui, entramos em uma seara em que as obras vão ganhando uma maior substãncia - ou pelo menos uma feição mais underground. Nesse sentido, busquei revisitar dois filmes brasileiros: o excelente Tapete Vermelho (2005) e o visceral Amarelo Manga (2002). O primeiro é uma celebração à figura do caipira e àquele que o imortalizou no cinema - Amácio Mazzaropi. Matheus Nachtergaele consegue uma das suas melhores atuações. É uma aula de brasilidade. Uma celebração ao universo caipira - a religiosidade, a todo o espectro linguístico, à simplicidade, às lutas, à inocência etc. O segundo filme é de tirar o folêgo. Amarelo manga é, ao meu modo de ver, um dos melhores filmes brasileiros de todos os tempos. Como nos outros filmes de Cláudio Assis, há crueza, sexo, sangue; o cheiro do homem da periferia; do mangue; da linguagem saída das locas da alma, chegando ao mundo para estabelecer ou dirimir os conflito primitivo dos costumes azedos, escusos ou socialmente desbragados.

Outros três filmes que vi e que me chamaram a atenção foram Choros e Sussurros (1972), de Ingmar Bergman, que possui uma atmosfera de beleza enfermiça. Fotografia bela - talvez, uma das mais bonitas da cinematografia do século passado. Personagens acometidas pelo infortúnio. Atuações assustadoramente perfeitas. Jhonny e June (2005), uma cinebiografia, que busca retratar a carreira de artista folk de Jhonny Cash. O diretor James Mangold retrata com muita felicidade as vicissitudes desse que foi um dos maiores artistas americanos. Joaquim Phoenix atua muito bem nesse filme. Leva-me a lembrar de Os contos proibidos do Marquês de Sade (2000), filme que mostra outra atuação fantástica desse grande ator. Interestelar (2014) foi outro filme que me deixou pensando por dias. Que me levou a reler capítulos inteiros de O fim da terra e do céu, de Marcelo Gleiser. O diretor Christopher Nolan certamente consultou um corpo de cientistas ou professores competentes para escrever a obra. O labirintos criados por Nolan, como em Amnésia (2000) estão presentes mais uma vez. Tiremos toda aquela atmosfera hollywoodiana do filme e fiquemos com debate científico. Tudo o que de mais moderno tem sido debatido em matéria de ciência, Nolan busca retratar como, por exemplo, a viagem no tempo, os multiversos, a teoria das cordas, a complexidade da física quântica etc. E, talvez, a principal mensagem seja a problemática sobre a possibilidade da exaustão do planeta terra e, por conta disso, a necessidade de encontrar um outro lugar para a espécie humana. Eu com minha veia fortemente schopenhaueriana rechaço tal expectativa.

Vi ainda outros filmes como o excelente Biutiful (2010) com a boa atuação de Javier Barden. O diretor Alejandro Gonzalez Iñarritu acertou novamente. Embora, pense que seu melhor filme seja Amores Brutos (2000). Sétimo (2013), que traz o incansável Ricardon Darín é mais um bom filme argentino. Ele não possui nada de extraordinário. É um suspense, vestido por um drama. Todavia, Darín consegue tornar a coisa intrigante e dá liga até o final. Factotum (2005) é baseado no livro homônimo de Charles Bukowski. O filme cheira a banheiro sujo de rodoviária. É visceral. Derrotista. Revela a ausência de fixações geográficas, de vontades plenas, de organização vital da personagem principal. É uma mostra da geração beat a qual o próprio Bukowski esteve ligado. Ficaram ainda o iraniano Um instante de inocência (1996), de Mohsen Makhmalbaf e Histórias Proibidas (2001), do excelente diretor Todd Solondz, capaz de revelar como ninguém as misérias e contradições da sociedade americana.

sábado, julho 19, 2014

Rubem Alves e o meu aprendizado a respeito do tempo e da vida

  "Poesia é uma qualidade do olhar"/ "O mundo para mim é um instrumento cósmico onde dormem as mais belas melodias". - Rubem Alves

O tempo como agente

Diz Agostinho que "o tempo produz efeitos admiráveis dentro de nós". O tempo possui um cinzel invisível que vai nos esculpindo tanto física quanto espiritualmente. Recordo-me das frases iniciais de Erico Veríssimo em Solo de Clarineta, quando ele diz que "as marcas do tempo estavam impressas no pergaminho do seu rosto". Uma metáfora que define os enunciados do tempo escritos em nós. É trivial. É natural. Mas todos morrem. Já perdi tantas pessoas queridas - meu pai, meu avô materno, minha avó paterna, conhecidos, amigos. E cada novo dia, o movimento irrefreável do rio da vida dobra mais uma curva em sua viagem. O tempo é aliado da morte. É seu companheiro. Os dois caminham de mãos dadas como no filme de Ingmar Bergman. A morte aparece para jogar com a sua vítima. Ele tenta enganá-la. Tenta negociar, mas bastou o tempo para fulminá-lo. Quando ele menos esperava, ela apareceu com sua face fria e o tragou.

A morte nos machuca, pois aqueles a quem ela faz de vítima, sabemos, nunca mais se verá. É um "sequestro", uma violência abrupta, um laceração nas emoções. Uma cisão, um corte, um passar a esponja na existência de cada um de nós. Quem vai não volta. Quando se morre, tudo termina. A expectativa da morte é a realidade mais trágica para o ser humano. 

Hoje, o tempo trouxe consigo a sua companheira e ceifou a vida de uma das figuras responsáveis por um pouco de minha formação ontológica - Rubem Alves. Fiquei sabendo da morte de Rubem Alves no início da tarde de hoje. Há dias eu acompanhava o sofrimento pelo qual ele passava. Enquanto corria hoje no final da tarde, eu ouvia a End of the Road, de Eddie Vedder, que faz parte da trilha sonora do filme Dentro da Natureza  Selvagem, pensei sobre esse "fim da estrada" a qual todos nós chegaremos, enquanto olhava para as nuvens alaranjadas, com feições sanguinolentas. A aragem fria do início da noite produziu reverberações poderosas. Acabei ficando triste.

O tempo da descoberta

Descobri Rubem Alves nos idos de 2002. Estudava em um seminário. E ao conhecer as suas crônicas, impressionei-me com sua sensibilidade. De repente, passei a procurar para ler tudo que dizia respeito a ele. Contudo, percebia que quando falava de Rubem Alves, alguns dos meus colegas seminaristas me encaravam com certa desconfiança. Afinal, entendi o porquê de tanto medo dos meus colegas. Rubem havia sido um seminarista, assim como eu o era; chegou a ser pastor, mas sua liberdade de pensamento e sua forma de "caminhar" acabaram por criar problemas. Em plena Ditadura Militar, a Igreja Presbiteriana do Brasil o denunciou ao serviço de repressão do Regime. Se ele ficasse por aqui, certamente seria preso, torturado e teria um destino incerto. Enfim viajou para os Estados Unidos e lá fez mestrado e doutorado, contribuindo proficuamente para lançar as bases daquilo que se tornou conhecido como Teologia da Libertação. Sua Teologia da Esperança é o embrião que deu feições ao movimento que teria nomes como o peruano Gustavo Gutierrez e o brasileiro Leonardo Boff como ícones. 

O pensamento teológico de Rubem Alves, de certa forma, acabou por me influenciar. Desvinculei-me do dogmatismo da fé quando li Protestantimo e Repressão e Dogmatismo e Tolerância. Estes, acredito, são livros que me marcaram e que inscreveram em mim o discernimento filosófico e estético que tenho sobre a espiritualidade; me tiraram o"cabresto religioso" que estava em meu pescoço e me fazia olhar somente para o chão. Quando li Rubem Alves, pude olhar para o céu e me maravilhar com as cintilações de um azul que nunca enxergara. Os dois livros estão guardados carinhosamente em minha biblioteca e, de vez em quando, pego-os, admiro-os, folhe-os e termino tudo com um grande sorriso.

Passei a perceber que em Rubem Alves se torna fato aquela frase dele: "As palavras têm o poder de fazer acordar os desejos adormecidos dentro do corpo". É como se o corpo fosse uma lápide, um jazigo, onde estão congelados os rios simbólicos. As palavras são sóis capazes para dar vida a esse mundo inóspito. São elas, tão próprias do mundo humano, elementos capazes de fazer morar em nós a faculdade da alegria. A palavra é capaz de fazer ressuscitar o corpo. Ela é a eucaristia vivificadora. O corpo é uma realidade biológica, orgânica, mas o que nos torna humanos é a capacidade de criação dos símbolos. Criamos, pois isso é inerente aos seres humanos. Portanto, esse corpo é o espaço gerador de novas ideias, da capacidade de apreensão do mundo. Ou seja, tudo mora no corpo. A vida e a morte. Os abismos e as montanhas. Os jardins e os pântanos. O céu e o inferno. Os dias e as noites. E para subverter a logicidade da matéria, é necessário treinar o olhar. Rubem costumava repetir uma frase do poeta inglês William Blake: "O tolo ao ver uma árvore, enxerga somente uma árvore; o sábio, por sua vez, ao ver uma árvore, enxerga uma poesia". 

Após entender que existe um jogo simbólico por traz das coisas, transformei isso em uma realidade para os meus devaneios teológicos e espirituais. Rubem costumava apontar para o ritual cristão da santa ceia, dizendo que ali estava "o símbolo de uma ausência" - o pão e o vinho. Observem como ele conseguia fazer poesia com as mínimas coisas. E que o mundo estava repleto de metáforas. "E toda metáfora é um salto sobre o abismo". É esse jogo com a palavra que torna o universo de Rubem Alves tão encantador. Flertar com o seu pensamento é passar a viver com os arco-íris, com os arrebóis mais encarnados, com os jardins mais coloridos, com a sensação de que estamos saboreando as carnes delicadas de um caqui.

O pensamento de Rubem Alves se funde com um dos seus mestres - Nietzsche. Diz o alemão: "Estou convencido de que a arte representa a tarefa realmente metafísica do homem... A existência do muno só se justifica como um fenômeno estético". Acredito que estas palavras definam o que foi e como deve ser compreendido Rubem Alves.

O tempo do real (tempus fugit)

Ao saber da notícia nefanda, fez-se uma noite escura dentro de mim. Fiquei com um mal-estar horrível. É como se eu tivesse perdido alguém muito querido e que vivia comigo todos os dias. Fiquei triste por saber que não teremos textos inéditos; as palestras sempre encantadoras; as palavras embriagadas pelo cheiro de capim gordura, pelos ipês floridos, pelo barulho dos carros de boi, dos mistérios da terra de Riobaldo - Minas Gerais. Rubem nunca se afastou completamente de suas origens. Apesar de viver boa parte de sua vida em Campinas, interior de São Paulo, trazia em sua alma as aprendizagens iniciadas em Boa Esperança-MG - sua cidade natal. É como aquele poema ontológico de Carlos Drummond de Andrade, Confidência do itabirano.

Seu corpo, onde morou tantas poesias, será cremado e possivelmente as cinzas serão atirados ao vento, para que possam polinizar as flores a fim de que elas se tornem mais belas; para que as pintagueiras surjam mais vermelhas e atraentes; para que os flamboyants e ipês surjam como cabeleiras inflamadas a produzir beleza; para que os jardins sejam fecundados e possam se fortalecer. 

Em um país e em um tempo como o nosso, perder Rubem Alves é algo de muita seriedade. Mas ficarão as suas palavras, que virão como revoadas de pássaros e farão morada em mim, em nós... Marcharão numa procissão em direção ao interior de catedrais secretas. Proferirão discursos, declamarão poesias e atestarão com um verso de Manuel de Barros - repetido tantas vezes por ele: "É mais presença em mim aquilo que me falta". 

Obrigado, Rubem! Se eu não tivesse encontrado os seus textos, talvez eu não fosse aquilo que sou. O rio continua a correr e suas águas são sempre novas. Olhemos para as árvores e encontremos poemas.

domingo, abril 20, 2014

"Educação Sentimental", de Júlio Bressane

Vi na sexta-feira ao perturbador filme de Júlio Bressane Educação Sentimental. Talvez o termo "perturbador" crie uma expectativa negativa em torno do filme, mas é, no mínimo, assim que poderíamos defini-lo. Emprego o termo aqui no bom-sentido. Não quero espicaçar a obra, que é de boa qualidade. Em primeiro lugar é preciso esclarecer que assistir a um filme de Júlio Bressane exige um exercício bastante intenso de disciplina e de relativa maturidade. O telespectador pouco afeito à estética bressaniana pode chegar a conclusões apressadas como esta: "Que porcaria é essa?!"

Ademais, Bressane é um dos diretores mais eruditos do nosso país com seu cinema experimental. Seus roteiros são densos e estão permeados por temas diversos da literatura, filosofia, religião e mitologia. Como, por exemplo, em Dias de Nietzsche em Turim ou São Jerônimo, que de tão bonito e sublime provoca uma náusea estomacal.

Educação Sentimental conta a história de Áurea e Áureo. Até aí tudo bem, já que os nomes parecem revelar uma grande brincadeira. Mas no transfundo disso tudo está o mito grego de Endimião e Selene. Ou seja, a lua que se apaixona pela beleza física de um jovem pastor. No caso do filme, a professora que se apaixona pelo aluno. Ela, uma letratada que conhece os meandros da literatura. Que disserta para o garoto, que em alguns momentos, parece não entender aquilo que ela diz. Seu tom professoral é erguido com afetamento e artificialidade. Sua voz é alambicada; todavia, impecável. Seus modos, completamente livres e telúricos, como na cena em que ela caminha e dança num frenesi primitivo. Ao fundo, ouvimos o sons de animais da fauna brasileira - tucanos e outros pássaros e animais

O filme revela uma poesia muda. As referências ao mito surgem a todo instante. No caso do mito, Zeus provoca um sono profundo em Endimião, que dorme e não pode despertar; e todas as noites a lua vem beijar a beleza de Endmião com sua claridade prateada. A professora, por sua vez, ensina tudo ao jovem Áureo. Beija-lhe a mocidade com sua erudição. Seu saber arqueológico é, na verdade, um grito a serviço da arte. E aqui notamos a genialidade de Bressane ou a sua voz protesto a favor de um cinema que faça emanar a poesia e deixe de lado o anelo comercial. Tal desejo inveterado pelo lucro tem tirado a roupagem artística do cinema. A indústria cinematógrafica sufoca e impede que a poesia de um Bressane, de um Tarkovski, de um Bergman, de um Kubrick seja apreciada.

Filme bom é aquele que nos faz pensar. Que sugere misteriosamente e nos deixa por dias com suas imagens tatuadas em nossa mente.  O filme de Bressane se inscreve nessa categoria. É um filme curto e, ao final, existe uma revelação das cenas dos bastidores (making of), chamado de Circuncena, que mostra a cozinha onde os sonhos do cinema são produzidos. Educação Sentimental não faz referência à obra homônima de Gustave Flaubert.

terça-feira, janeiro 21, 2014

"Ninfomaníaca, Volume I" - de Trier - ainda penso...

Na sexta-feira, dia 10 de janeiro, quando fiquei sabendo da estreia do mais novo filme de Lars Von Trier - Ninfomaníaca  - Volume I (2013) - fiquei com uma vontade imensa de ir ao cinema. Infelizmente, não pude ir naquele dia, pois chegara de Pirenópolis-GO e estava arrumando as malas para partir, no outro dia, para o Nordeste. Cheguei de Pernambuco no domingo, dia 19, e fomentei para o outro dia a possibilidade de ir ver o filme. E assim fiz numa sofreguidão incrível.

Tratava-se de um filme de Trier. O diretor dinamarquês é daqueles sujeitos talentosos e sabem vender bem a imagem que possui. Megalomaníaco em excesso, Trier já foi responsável por afirmações que, no final, sabemos, resulta em ganhos mercadológicos. Em 2009, por exemplo, no Festival de Cannes, afirmou ser o melhor diretor do mundo. E, talvez, até o seja! Estamos em uma época em que o cinema anda em um marasmo terrível com aquelas porcarias vindas de Hollywood.

Trier é um sujeito que sabe usar explorar bem isso. Tem sido assim com seus últimos dois filmes - O Anticristo (2009) e Melancolia (2011). O simples fato de ser um filme de Trier já desperta a curiosidade e aí temos a tese confirmada. Não sabemos ao certo se Trier é um artista erguido pelas qualidades geniais ou pelo mero marketing. Suas pretensões são, quiçá, de deixar o seu nome na história como um Bergman ou Tarkovsky. Mas, claro, trata-se de especulação. 

Após ter visto Ninfomaníaca, ainda continuo pensando que sua grande obra é Dogville (2003), cuja análise sobre a natureza humana e beleza estética estão longe de serem superadas por qualquer filme lançado neste século XXI. Em Ninfomaníaca, o diretor busca criar uma tese moral e usa como ingrediente o sexo, assim como alguém usa açúcar para atrair formigas. Falar sobre sexo na sociedade judaico-cristã ocidental é gerar dois sentimentos, no mínimo: (1) ou de interesse voyeurista; (2) condenação afetada pelo julgamento moralista.

Trier é sabedor dessa estratégia e busca com isso gerar estupefação na audiência. Percebi isso enquanto via o filme. Pelos menos três casais saíram da sala do cinema. Quero crer que se trate de uma fenômeno isolado. Todavia, analisando os recursos cinematográficos utilizados pelo diretor, notei que em dados momentos as cenas vão gerando uma "agonia", um "enjoo" filosófico. É como se ele tivesse por intenção provocar o espectador; mexer com suas veleidades morais; afrontá-lo em suas convenções de burguês-cristão.

Ninfomaníca - Volume I, pelo menos para mim, não causou impacto profundo como causou o já aludido Dogville ou Dançando no Escuro (2000), ambos de grande beleza plástica. O que Trier buscou insinuar com a Ninfomaníaca? O sexo é mau? Buscou criar sofisticação com um tema-tabu para a sociedade ocidental e com isso aumentar a audiência para a sua obra? Quis justificar seus próprios problemas pessoais? O filme confirma a tese de que Trier é alguém com ideias muito bem definidas do ponto de vista das especulações.

Penso que Ninfomaníca, desde 2000, tenha sido o filme mais fraco de Trier. A tentativa de fazer um estudo (psicanalítico? moralista? metafísico?) sobre a vida da personagem Joe, vivida por Charlotte Gainsbourg (sempre presente nos filmes do diretor) e a estreante Stacy Martin (que faz Joe ainda jovem), não se mostrou convicente. Percebi algo cuja finalidade é uma tentativa de pirotecnia com um tema sempre polêmico quando vem à baila - sexo. Outro fato é a tentativa de associar a "catedral numérica" na tentativa de encontrar a perfeição de Deus da música de Bach, a fatos relacionados com a vida da personagem. Isso é corriqueiro em Trier.

Talvez, aquilo que ainda não foi revelado em sua efetividade fique claro na segunda parte do filme, já que a obra foi separada em duas partes. Originalmente possui mais de cinco horas, mas essa extensão será exibida somente nas salas de festivais.

Tratam-se de impressões pessoais e aqui estão as minhas: rápidas e descuidadas!

segunda-feira, julho 15, 2013

"Febre do Rato", de Claudio Assis, a poesia 'esperneante' que vem debaixo

"É a coletividade que vai dar uma lapada nas leis e uma bicuda no ovo da ordem" - Zizo, in Febre do Rato

Fazia um certo tempo que eu não assistia a um filme que me perturbava tanto. O último, talvez, que me vem à memória é o Sétimo Selo, de Ingmar Bergman, que vi em 2011. Fiquei dias ruminando os efeitos filosóficos e teológicos da película de Bergman. Dessa vez, o filme que me deixou em transe foi Febre do Rato, do brasileiro Claudio Assis. O cineasta pernambucano, fugindo das preocupações do mainstream, tem produzido obras significativas, o que já o coloca como um dos grandes do cinema nacional. Assis produziu pouco. Três filmes apenas - Amarelo Manga (2002), Baixio das Bestas (2006) e o febricitante Febre do Rato (2011). Antes dos filmes, Assis produziu alguns documentários e curtas.

Não cheguei a fazer uma pesquisa, mas acredito que o termo 'febre do rato' esteja circunscrito ao mundo linguístico pernambucano. Cresci ouvindo o meu pai dizer (sou pernambucano e de família pernambucana): "Ele não está com a febre do rato", quando queria dizer que alguém não deveria exceder o bom senso, extrapolar a realidade e se fiar pelo mundo da loucura. Assim, 'febre do rato" é a realidade daquilo que não é comum, que está fora do padrão; que assume uma natureza para além do corriqueiro.

E talvez não exista nome mais adequado do que este para a película de Cláudio Assis. Como os outros dois filmes, a história se passa em Pernambuco - especificamente Amarelo Manga se passa em Recife e Baixio das Bestas centra a sua temática na zona rural pernambucana. Febre do Rato em sua exposição crua, em sua visceralidade extasiante, é o foco sendo dado ao submundo dos centros urbanos. As palavras iniciais do narrador (o poeta Zizo) aturdem, mescladas ao mundo insalubre dos cortiços à beira do mangue: "Logo ali por trás do mangue, descansa insone a faca, o serrote, o trabalho, o sexo e o sangue. Abismo, mundo escuro, profundo buraco; lateja o fardo de tuas ruas, lateja o grito ruminante, gritos de não. Não de abismo".

O filme é uma poesia desvestida. A começar pela película em preto e branco, que confere à obra uma aspecto atemporal, sublime e de funda envergadura metafísica. Não há uma fotografia corriqueira, daquelas produzidas para agradar. Tudo é feito para contrariar a estética do belo e realçar a estética do "cuspe" e do "escarro" de Augusto dos Anjos. O que existe é o movimento. O movimento da poesia, que é embriagada e embriagante como o personagem principal da obra - Zizo (Irandhir Santos, que está impecável na obra!).

A obra de Assis foge ao convencional. O grupo de amigos, que está sempre junto do poeta, composto por traficantes, vagabundos, travesti, coveiro, embriagados, parece constituir os habitantes de Sodoma e Gomorra. Ou seja, as personagens suprimem a lógica burguesa. Poeta e obra buscam pregar uma atitude anárquica ante as coisas. Não se trata diretamente ou meramente da supressão do Estado ou da ordem burguesa instituída. O filme busca fazer com que o homem médio saia de sua letargia, de seu sono profundo. Que se posicione diante do descalabro da irgonorância e do ventriloquismo a que é submetido. Em certa altura do filme, Zizo diz: "As pessoas ficam falando em futuro, em mudança, mas não estão nem aí para as coisas que estão realmente mudando. Perderam a capacidade de espernear". ( o destaque é meu)



É justamente essa capacidade "de espernear" a que o filme faz alusão. Zizo é o porta-voz, o profeta sem deus, cuja religião é a poesia. O Antônio Conselheiro, o Sandino, o Zumbi, o messias do gueto, do submundo, do mundo-abismo da periferia, obumbrado pela inferno da indiferença burguesa. Zizo é a poesia esperneante que chama os homens a trazerem vasilhas para encherem de liberdade; a que tragam as vasilhas para que encham de cumplicidade; que tragam as vasilhas para encherem de força.


Claudio Assis se aproximou dos grandes nomes ao dirigir Febre do Rato. Talvez, tenha se aproximado de um Glauber Rocha em sua capacidade dançante de construir enredos eivados de força ou de um aludido Bergman capaz de fazer grandes discursos por meio das imagens. Febre do rato é a extrapolação de qualquer consideração metódica . Fez-me refletir como a palavra pode ser utilizada como libelo que constroi realidades desestabilizadoras; que suprime as névoas do olhar; que emancipa o sujeito; que traz os atores (vítimas da omissão) a serem protagonistas de uma nova verdade dialógica. 

Penso que Claudio de Assis tenha conseguido fazer um dos filmes mais belos e delirantes da história do cinema brasileiro. Que bom saber que estamos chegando a esse nível de maturidade. 

É possível assistir ao filme no Youtube

P.S. Aviso: os moralistas burgueses e religiosos podem se chocar com algumas cenas. Afinal, é preciso ser louco para ser livre. Desculpem a afirmação que soa a clichê. Mas acredito que Zizo gostaria dessa frase.