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segunda-feira, julho 31, 2023

"As meninas", de Lygia Fagundes Telles

 

 

Terminei, há semanas, “As meninas”, de Lygia Fagundes Telles. Trata-se de uma das leituras que resolvi realizar ao longo do ano de 2023. Confesso que o livro somente me capturou da metade para o final.

“As meninas” é um dos romances da escritora paulista. É o seu livro mais famoso; aquele que alcançou maiores ressonâncias críticas e repercussões. Escrito em um período sensível da história do Brasil, “As meninas” é um livro de coragem porquanto problematiza uma série de temas tidos como tabu naquele período conturbado de nossa história. O livro foi publicado em 1973. Àquela altura, Lygia já se encontrava com 55 anos de idade. Era uma intelectual respeitada. Não precisava provar nada a ninguém. Sendo assim, o livro é uma prova cabal do papel dos intelectuais em um período de repressão. A onipresença do controle da Ditadura Militar, não impediu que o livro eclodisse como um destemido e ousado estampido. Talvez – e isso é apenas uma suposição – o censor não tenha conseguido apreender o intrincado enredo da obra, com aquelas constantes idas e vindas do fluxo de consciência das personagens.

“As meninas” é uma obra que foge a determinismos. Lygia se utiliza de um artifício, que permite que os leitores conheçam o momento histórico em que os eventos ocorrem a partir do ponto de vista das personagens – Lorena, Lia e Ana Clara. As três são imensamente diferentes. Possuem densidades e personalidades heterodoxas. É possível notar – a partir da vocalização dos anseios de cada uma delas – que se está diante dos anseios dos jovens daquela geração.

Interessante que Lygia tenha resolvido dar destaque a três figuras femininas, colocando em evidência a voz das mulheres. Naquela sociedade constrita pelo controle e com papéis definidos, as mulheres (as meninas) tinham uma mensagem importante; alimentavam sonhos; inquietações; desejos; medos; vaidades; possuíam uma vontade de poder que estava para além das convenções mesquinhas do conservadorismo rasteiro, propugnado por certos segmentos da sociedade. Cada uma das personagens, representava a verbalização sobre algo:

Lorena – era a filha da burguesia; rica, possuía gostos bem diferentes. Culta e virgem, sua grande ânsia era entabular um tórrido caso de amor com um médico casado e mais velho que ela, que recebe a alcunha de M.N.

Lia – é a intelectual do grupo. Seu engajamento é explícito. Oriunda do Nordeste, mete-se em organizações clandestinas a fim de combater o horror patrocinado pelos militares. Filha de um ex-militar nazista, Lia vive a angústia de saber que o namorado está preso.

Ana Clara – é a personagem mais nebulosa. Sua soturna personalidade, faz com que Lia e Lorena chamem-na de “Ana Turva” – um trocadilho, já que de “claro” ela não tinha nada. Ana é mais bonita das três. Parece luminosa por fora, mas existem noites misteriosas em seu interior. Seu namorado é um traficante e ela é viciada em drogas.

Lygia realiza enormes digressões ao longo da obra. Às vezes, a história é contada em primeira pessoa; mergulha-se na cabeça das personagens; e elas assumem o protagonismo sobre si mesmas. Em seguida, ela utiliza o discurso indireto livre. Ou seja, o narrador passa a conduzir a história sob o seu ponto de vista, assumindo a descrição dos meandros psicológicos de cada personagem.

Alguns temas surgem no enredo do livro, explicitando a coragem da autora: uso de drogas – uma das personagens é viciada. Sexo – as três conversam abertamente sobre sexo; menciona-se a masturbação feminina. Em uma época em que se pregava a pureza das mulheres e havia uma noção vigente de que as mulheres eram tímidas e frígidas, Lygia subverte o consenso. Suicídio – trata-se de um tema que gravita em torno da história de uma das personagens. O terror da Ditadura – há a descrição pormenorizada de uma sessão de tortura. Vale mencionar que à época, havia uma noção pública de que a tortura e o sumiço de prisioneiros políticos existiam, mas era um assunto velado. Lygia de forma destemida, decide abordar com desassombrada galhardia o assunto.

“As meninas” é um livro que transmite uma noção de inquietação – os jovens agem, são ousados, leves e densos, porém carregados de ânsias, inseguranças e muitos sonhos. É como afirma uma das personagens, explicitando a ética que estrutura o desejo dos jovens: “Se a gente tem vontade, tudo é bom”.

Abaixo, a descrição da sessão de tortura:

Quero que ouça o trecho do depoimento de um botânico perante a justiça, ele ousou distribuir panfletos numa fábrica. Foi preso e levado à caserna policial, ouça aqui o que ele diz, não vou ler tudo: Ali interrogaram-me durante vinte e cinco horas enquanto gritavam, traidor da pátria, traidor! Nada me foi dado para comer ou beber durante esse tempo. Carregaram-me em seguida para a chamada capela: a câmara de torturas. Iniciou-se ali um cerimonial frequentemente repetido e que durava de três a seis horas cada sessão. Primeiro me perguntaram se eu pertencia a algum grupo político. Neguei. Enrolaram então alguns fios em redor dos meus dedos, iniciando-se a tortura elétrica: deram me choques inicialmente fracos que foram se tornando cada vez mais fortes. Depois, obrigaram-me a tirar a roupa, fiquei nu e desprotegido. Primeiro me bateram com as mãos e em seguida com cassetetes, principalmente nas mãos. Molharam-me todo, para que os choques elétricos tivessem mais efeito. Pensei que fosse então morrer. Mas resistia e resisti também às surras que me abriram um talho fundo em meu cotovelo. Na ferida o sargento Simões e o cabo Passos enfiaram um fio. Obrigaram-me a então a aplicar os choques em mim mesmo e em meus amigos. Para que eu não gritasse enfiaram um sapato dentro da minha boca. Outras vezes, panos fedidos. Após algumas horas, a cerimônia atingiu seu ápice. Penduraram-me no pau-dearara: amarraram minhas mãos diante dos joelhos, atrás dos quais enfiaram uma vara, cujas pontas eram colocadas em mesas. Fiquei pairando no ar. Enfiaram-me então um fio no reto e fixaram outros fios na boca, nas orelhas e mãos. Nos dias seguintes o processo se repetiu com maior duração e violência. Os tapas que me davam eram tão fortes que julguei que tivessem me rompido os tímpanos: mal ouvia. Meus punhos estavam ralados devido às algemas, minhas mãos e partes genitais completamente enegrecidas devido às queimaduras elétricas. E etcétera, etcétera.

 

segunda-feira, julho 10, 2023

"Antes do Baile Verde" - algumas breves palavras

 


                Terminei a leitura do livro de contos “Antes do baile verde”, da escritora paulista Lygia Fagundes Telles. Desde que terminei o livro, fui acometido por um grande interesse por outros textos lygianos. Esse desejo é uma forte reverência resultante do contato com a literatura sob medida da autora de “As meninas”.

                Lygia, morta no início do ano de 2022, aos 103 anos de idade, é uma das autoras mais singulares das letras brasileiras do século XX. E, por extensão, pode-se afirmar que também o é da grande literatura do século XX. Seu texto primoroso é feito sob medida. Não há desperdícios. As palavras estão amarradas, urdidas, alinhavadas em feixes de ideias. Em sua escrita, não existem sobras. Tudo é por demais preciso e singelo. A impressão transmitida pela sua escrita é a de que ela sentou à mesa e, em trinta minutos, escreveu - sem qualquer transpiração – aquilo que lemos. Lygia é a elegância. A exuberância.

                Nascida na capital paulista, sua vida representou a quebra de padrões.  Ainda muito jovem – e de beleza física invulgar – ingressou na tradicional Faculdade de Direito do Largo do São Francisco. Dos quase trezentos aprovados no ano em que passou no processo seletivo, apenas seis destemidas mulheres contrastavam a paisagem no rígido ambiente dominado por homens. Em alguns momentos, havia o questionamento por parte de alguns machos, explicitando o que a maioria pensava: “O que vocês estão fazendo aqui?” Tudo parecia ser feito para que as mulheres permanecessem estáticas em espaços de inamovibilidade e invisibilidade. Lygia quebrou esses padrões sendo, por exemplo, casada por duas vezes, passando em concurso público (que lhe deu liberdade econômica) e publicou livros.

                Ainda muito jovem, começou a escrever contos. Orientada por um julgamento implacável, afirmaria mais tarde de que se tratava de textos juvenis, inexperientes, apoucados, que não deveriam distrair o leitor. Para ela, a relação autor/leitor deve ser de respeito, reverência. Antônio Cândido disse algo definitivo a respeito da obra de Lygia. Em sua concepção, a guinada que a levou ao amadurecimento, deslocando-a para a galáxia dos grandes escritores se deu com o lançamento do romance “Ciranda de Pedra”. Os nomes escolhidos para nomear os seus textos também constituem um nível de perfeição – “A estrutura da bolha de sabão”, “As horas nuas”, Seminário dos ratos”, “A disciplina do amor”, “Antes do baile verde”. Os nomes são sinestésicos, esteticamente delicados, capazes de revirarem a imaginação.

                “Antes do baile verde” é uma das obras mais importantes da escritora. Lançado em 1970, o livro reúne 18 preciosos contos, escritos em um período de vinte anos (1949-1969). Alguns desses contos estão entre os escritos mais conhecidos da autora. É caso, por exemplo, do conto que inspirou o livro “Venha ver o por-do-sol”; vale ainda a menção de “Natal na barca” e o “Jardim selvagem”. São criações literárias que transcendem a condição do indivíduo numa sociedade, permeado por eventos psíquicos, a maior parte deles inconscientes, que os conduzem a situações inopinadas, extremas. O texto lygiano capta as fagulhas, os lances indecisos, indivisos, incongruentes; os gestos misteriosos, contidos a priori, mas que acabam se tornando em epifania.

                Lygia sabe explorar os vãos onde estão as emoções das personagens. Ela não faz insinuações grandiloquentes. Sua habilidade se fixa na exploração dos pequenos gestos; para insinuações comedidas. Como afirma o professor Antonio Dimas, Lygia é uma escritora com hábitos felinos. Seus passos são moderados, cautelosos, medidos. Ela acumula detalhes de uma maneira quase imperceptível. Cria camadas de fatos, de contradições, silêncios, medos. Põe tudo diante do leitor e encerra o conto. Como um felino, ela deixa a sua marca com unhas retráteis em nossa imaginação. Uma fisgada breve, leve, mas que nos faz sentir.

Carlos Drummond e Lygia Fagundes - um galáxia de literatura
                Dois dos seus contos mais brilhantes são “O menino” e “Venha ver o pôr-do-sol”.  Os dois possuem os fechos mais surpreendentes e geniais da literatura do século XX. Tudo parece muito singelo, mas estão repletos de crueldade, de desumanidade. De um lado, um ex-namorado abandonado por uma moça de valores fúteis. Ele procura atraí-la para um jazigo. A influência do texto de Edgar Allan Poe é incontestável. Há uma ironia macabra no convite: ver de um cemitério abandonado, o mais lindo pôr-do-sol. “Ficou atento. Nenhum ouvido humano escutaria agora qualquer chamado. Acendeu o cigarro e foi descendo a ladeira. Crianças ao longe brincavam de roda”. Os períodos são curtos. As ações indicam a concretização de um cálculo. Há um movimento, uma ação consciente, um desfecho planejado. A vingança. A retaliação. A desforra. Lygia encerra o conto e abandona o leitor com um fato intrigante e, aparentemente, insolúvel, angustiante. A solidão não é só da personagem. É do leitor também, que se vê recluso por um dilema. O que acontecerá com a mulher dentro daquele jazigo abandonado? As crianças que brincam à distância escutarão os brados agônicos de Raquel? O desejo é de correr até aquele lusco-fusco e arrancá-la daquele espaço lúgubre e, potencialmente, assombrado.

                No conto “O menino”, Lygia faz sucumbir os sonhos mais inocentes de uma criança. A masculinidade juvenil, permeada por emoções edipianas, vai ao chão. É cruel assistir a tudo isso. A sua tentativa de ser mais maduro do que é: “Pô! Homem não usa perfume! ” Para ele, sua mãe é a perfeição. Ele a exibe. Ela é um patrimônio. Seu orgulho. Deseja que os colegas a vejam. Invejem-no. Todavia, a cena que constatou no cinema, foi o suficiente para terminar com as suas fantasias. A volta para casa é a inversão dos sentimentos da ida – “Saiu crianças e voltou homem”.

                Ao encontrar o pai, fica evidente a tristeza. O menino olha-o, na sala, lendo o jornal. “O menino encara-o demoradamente. Aquele era o pai. O pai. Os cabelos grisalhos. Os óculos pesados. O rosto feio e bom”.

                - “Pai... – murmurou, aproximando-se. E repetiu num fio de voz: - Pai...”

                - “Mas, meu filho, que aconteceu? Vamos, diga!”

                - “Nada. Nada”.

                Fechou os olhos para prender as lágrimas. Envolveu o pai num apertado abraço!

                A atitude do narrador é excessivamente fria. Como dito anteriormente, tudo parece frágil, mas está eivado pela própria cruel da própria vida. O mundo não possui as tinturas da alegria da fantasia apenas. Há o lado insuportável da maldade, da feiura.  Até mesmo a heroína, a agente que constitui o modelo mais alto de perfeição para uma criança – sua mãe – pode ser canalha. Atroz. Inclemente. Hedionda.

                Quando se ouve a fala da escritora nas entrevistas que dava, notamos sempre o tom de entusiasmo. Todavia, mesmo com toda essa leveza, com a fala carregada por cintilações de bom-humor, seus textos são rios subterrâneos com o potencial de provocar inundações. Afinal, a vida, no fundo, deve ser isso: uma paisagem ensolarada, com um rio plácido, que pode mudar as características a depender dos humores do tempo.

 

quinta-feira, janeiro 12, 2023

As 10 principais leituras de 2022

Os dias começaram intensos em 2023. Essa postagem era para ter sido feita nos primeiros dias de janeiro ou no final de dezembro. O trabalho e o excesso de atividade não deixaram. De qualquer forma, o mais importante é que ela sairá. 

O objetivo dela é apontar as dez leituras mais importantes que fiz ao longo do ano de 2022. Um ano difícil. Repleto de tensionamentos e cansaços. De perdas e danos que deixaram arranhões. Por sua vez, não largamos as leituras. As leituras aconteceram a conta gotas. Nos intervalos. Nas caminhadas. No embalo do ônibus. Nos cochilos assustados do metrô. À noite, enquanto punha o meu filho pra dormir. Difícil. Mas seguimos com um senso de dever cumprido. 

Como afirmo todos os anos, gostaria de ter lido mais do que li. Todavia, consegui ler aquilo que me foi possível. Sendo assim, seguem as dez leituras mais importantes que li ao longo do ano que passou. 

01 - "Os Sertões" - Euclides da Cunha;

02 - "Antes do baile verde" - Lygia Fagundes Telles;

03 - "1984" - George Orwell;

04 - "O milagre de Espinosa" - Frédéric Lenoir;

05 - "O ventre" - Carlos Heitor Cony;

06 - "A metamorfose" - Franz Kafka;

07 - "Fascismo à brasileira" - Pedro Doria;

08 - "Lula - uma biografia - vol. 1 - Fernando Morais;

09 - "Capitães de Areia" - Jorge Amado;

10 - "Úrsula" - Maria Firmina dos Reis.

quinta-feira, julho 08, 2021

"Clarice", a famosa biografia escrita por Benjamin Moser - algumas palavras.

  

Terminei a leitura da aclamada biografia sobre Clarice Lispector, escrita pelo laureado estudioso estadunidense Benjamin Moser. O calhamaço com mais de setecentas páginas chegou por aqui nos idos de 2013. Foi um sucesso imediato. Moser fez um trabalho à altura da magnitude da escritora brasileira, nascida na Ucrânia no início da década de 1920. O trabalho apresentou Clarice para o mundo. Em locais onde ela ainda não era conhecida com os encômios devidos, ela gerou, no mínimo, uma curiosidade. Certamente, como aconteceu ao longo da vida da escritora, houve a indagação: quem é essa escritora de nome tão minimalista – Clarice – digna de ganhar uma biografia tão volumosa?

Moser explica que chegou aos textos de Clarice Lispector por um lance inopinado. Era estudante de línguas. Tinha a intenção de estudar uma língua pouco vulgar. Pensou no russo. Mas acabou optando pelo português do Brasil. Como um processo natural de aprofundamento da língua, teve como tarefa a leitura de escritores brasileiros contemporâneos que produziram textos curtos. Entrou em contato com “A hora da estrela”, o último texto escrito por Clarice. Foi uma paixão inconteste no primeiro encontro. Quem era aquela escritora densa, de texto com uma carga epifânica que beirava o atordoamento? É o que ele tenta descrever ao longo de sua deliciosa prosa.

Clarice Lispector nasceu em Tchecenilk, uma pequena cidade da Ucrânia, no dia 10 de dezembro de 1920. Seu nome de nascimento era Chaya Pinkhasovna Lispector. Nascida em uma família judia, os Lispector tiveram que sair do país em decorrência de uma Guerra Civil. Estudaram vários destinos como possibilidade de uma nova morada. Os dois últimos destinos foram os Estados Unidos e o Brasil. Como possuíam parentes já estabelecidos no Brasil, optaram pelo distante e singular país da América do Sul. De forma ainda mais emblemática, foi o estabelecimento em Maceió, uma cidade pequena, de clima peculiar e que não abrigava uma comunidade judaica. Os parentes ali estabelecidos haviam chegado anos antes e haviam conseguido se estabelecer junto ao comércio. Na ocasião da chegada, Clarice tinha apenas dois anos de vida.

A família de Clarice acabou indo, após algumas dificuldades na capital alagoana, para uma das mais importantes econômica, política e culturalmente capitais nordestinas, o Recife. A família ficou ali por praticamente dez anos. Moraram no bairro da Boa Vista, que possuía uma sólida comunidade judaica. Ali as irmãs Clarice, Tânia e Elisa viveram anos tranquilos. Clarice era a mais nova das três irmãs. Moser registra que, mais tarde, Clarice foi interpelada sobre a sua nacionalidade. Ela afirmou sem embaraços que era brasileira e pernambucana. Nutria uma grande admiração pelo estado nordestino onde passara boa parte de sua adolescência. Gostava da culinária, do sotaque característico, do clima da cidade; do caldo cultural tão próprio da capital pernambucana. Alguns dos seus contos são ambientados em Recife; algumas de suas memórias afetivas estavam carregadas pelos acontecimentos nos dez anos em que viveu no bairro da Boa Vista. Na capital pernambucana foi alfabetizada. Iniciou as primeiras leituras. Encontrou-se com os russos; com Herman Hesse, cuja livro “O lobo da estepe” foi tão significativo.

Benjamin Moser

Mais tarde, muda-se para o Rio de Janeiro com o pai e as irmãs. No Rio, notam-se os eventos que foram fundamentais para a formação profissional e o pleno amadurecimento da carreira de escritora. Quando morou no Recife, Clarice já escrevera algumas singelas histórias. Envia-as para o jornal Diário de Pernambuco. Todavia, os seus textos nunca foram escolhidos. A preterição ocorria com frequência. Ela mesma explicou aquilo talvez tenha ocorrido por causa do intimismo dos textos que escrevia. As pessoas estavam acostumadas a lerem coisas do tipo: “Era uma vez...”. Seus textos não traziam nada dessa marca previsível.

Muda-se com a família de Recife para a Capital do país, o Rio de Janeiro. Iniciou o curso de Direito na Faculdade de Direito da Universidade do Rio de Janeiro. E ao concluir o curso, escreve “Perto do Coração Selvagem”, que causou uma sensação enorme. Acabou por chamar atenção de críticos e intelectuais. À época, ela tinha pouco mais de vinte anos. Quem seria aquela mulher com sobrenome estranho? Seria um pseudônimo, alguém que buscava permanecer anônimo? Afinal, quem era a dona daquele texto tão impregnado de psicologismo; de uma estar consigo? Quem era aquela mulher que não ligava para as paisagens externas, que tinha como material para os seus romances as “estepes” interiores?

Procurou conciliar o Direito com a prática do jornalismo. Publica alguns contos. A produção desse material ajuda-lhe a consolidar o manejo do gênero o qual dominou com grande maestria. Ao lado de Lygia Fagundes Telles, Machado de Assis, Graciliano Ramos, Osman Lins entre outros nomes, Clarice se estabeleceu como uma das mais importantes contistas da literatura brasileira.

Por essa época, entra em contato com Lúcio Cardoso, um dândi, um boêmio, um intelectual inquieto, por quem ela se apaixona. Ela veio, mais tarde, a descobrir que Lúcio era homossexual. Havia uma impossibilidade de levar à frente um relacionamento com Lúcio. Ao longo de sua vida, pelo que se sabe, Clarice envolveu-se emocionalmente somente com três homens – Lúcio Cardoso, Mauri (pai dos seus filhos) e Paulo Mendes Campos.

Mais tarde se casaria com Mauri. O relacionamento consolidou-se enquanto ela ainda cursava Direito. Mauri passou em um concurso para o Itamarati. Foi por conta disso, que Clarice morou por alguns anos fora do Brasil – Itália, Suíça, Estados Unidos.

Enquanto estava morando na Suíça, Clarice ganhou primeiro filho. Escreveu seu segundo romance – “O Lustre”. A escritora era uma jovem recém-entrada na casa dos vinte anos. Uma das marcas que mais incutiram força em Clarice, foi a solidão e a saudade do Brasil. Apesar dos amigos, apesar das oportunidades de conviver com eventos diferentes, Clarice era povoada por grande inquietação. Aliás, esta foi uma característica que a perseguiu por todos os anos de sua vida.

Essa inquietação foi responsável pelo questionamento sobre as condições do seu casamento. Estar casada – e longe do Brasil – gestava questionamentos. Nesse sentido, Clarice oscilava em reflexões à semelhança de Joana, personagem central do seu romance de estreia, “Perto do coração selvagem”. A escritora escavava suas emoções; fazia perquirições sobre suas intenções mais íntimas. Por fim, decidiu voltar para o Brasil com os filhos. Mauri ficou nos Estados Unidos. Ele, ainda apaixonado; buscando reatar o relacionamento. Ela, esquiva. Tentaram uma última vez a aproximação, mas não foi possível. Clarice era imensa, possuía sentimentos indefiníveis e incógnitos. Novamente, pode-se evocar a célebre frase da personagem de “Perto do coração selvagem”: “Liberdade é pouco. O que desejo ainda não tem nome”. O inominável sempre foi o desejo das personagens criadas pela escritora. A vida de Clarice também foi repleta por uma tentativa de entender o indefinível.

Clarice Lispector.

De acordo com os depoimentos de Moser, Clarice era uma mulher que despertava paixão à primeira vista. Fisicamente ela era bastante atraente. Dos seus olhos emanava uma energia envolvente, misteriosa, capaz de criar uma funda impressão em quem, por muito tempo, ficasse próximo a ela. Sua voz possuía um sotaque carregado. Mas este não era resultado da dificuldade de pronunciar os verbetes da língua portuguesa. Ela viera, afinal, para cá, com dois anos. Fora alfabetizada em português. Tratava-se de uma anomalia que ela possuía na língua – e que poderia ser resolvida com uma cirurgia – mas que ela se negou a fazer.

Ao longo de sua vida, Clarice construiu amizades que duraram a vida toda. Mencionam-se, por exemplo, a íntima correspondência que estabeleceu com Fernando Sabino. A amizade construída com Érico Veríssimo, principalmente, com Mafalda, esposa de Érico. E, nos anos finais, com Olga Borelli, que organizou o seu espólio e foi fundamental como amiga e companheira.

A grande questão que se sobressai sobre Clarice é que ala foi uma mulher inquieta, dona de uma alma selvagem; de uma vontade indômita. Sua literatura é fruto de sua personalidade misteriosa e inquieta. À medida que a biografia avança, chegando aos anos finais da vida da escritora, nota-se o quanto ela se tornou uma mulher depressiva e excessivamente pessimista. Ou, talvez, aquilo representasse uma forma de estar consigo.

Na famosa entrevista que concedeu Júlio Lerner, no ano em que morreu, 1977, fica claro o quanto ela se tornara excessivamente dura – com a vida e com ela mesma. O entrevistador pergunta por quem ela sentia raiva. Ela responde indefectivelmente: “Comigo mesma!” Ele vai mais a fundo e questiona: “Por que Clarice?” Ela responde meio displicente: “Sei lá... eu tô meio cansada”. Júlio estica a pergunta um pouco mais: “De quê, Clarice!” Ela volta à carga: “De mim!” É um pebolim existencial. Num último questionamento, que buscava conciliar a inspiração da escritora com a própria vida, Júlio pergunta: “Mas você não nasce e se renova a cada trabalho novo?” Clarice responde de forma enigmática: “Bom... agora eu morri. Vamos ver se eu renasço de novo; por enquanto, eu estou morta. Estou falando do meu túmulo”. Uma pessoa que se revela de forma tão pungente, não poderia escrever outra coisa senão aquilo - e do modo - que ela escreveu.

A impressão que transmite é de uma pessoa que alcançara os cumes da amargura. Em outro momento da entrevista, ela diz que era uma pessoa “alegre”. Se deixava entrever, naquele momento, uma postura negativa era pelo fato de estar cansada. Talvez, como diz Olga Borelli em uma entrevista, fosse o resultado da doença que a mataria – o câncer nos ovários.

O livro de Moser é excelente. O texto possui clareza jornalística. Não enfada. Há uma excelente contextualização histórica. O escritor procura conciliar os dados biográficos da vida de Clarice, mas relaciona os fatos históricos com a habilidade incomum de um bom pesquisador. 

Abaixo, a última entrevista concedida pela escritora.








domingo, dezembro 27, 2020

Um pequeno balanço livresco


 Acredito que tenha conseguido ler o meu último livro do ano de 2020. Uso a palavra "acredito", pois penso que não terei condições de terminar nenhuma outra leitura, entre aqueles que estou fazendo, ao longo da última semana do ano. Pais e filhos, de Ivan Turgueniev, era um projeto antigo de leitura - como tantos que possuo. Terminei-o ontem.

Não foi um ano fácil. Li menos do que eu queria, todavia, mais do que eu podia. Para leitores com uma compulsão megalomaníaca como eu, que ficam esmorecidos quando não conseguem ler, perceber a existência de obstáculos para a consecução da leitura é sempre uma tragédia. 

O ato de ler é uma atividade curiosa. Esse ano difícil em vários cenários, serviu para mostrar para mim que livros são como montanhas - algumas, quando olhamos debaixo, parecem intransponíveis. Mas elas são e continuam assim até que nos decidamos a subir. 

Há livros que, ao olharmos a sua lombada, a sua espessura extensa, assustamo-nos. Um retraimento covarde nos convence a não enfrentá-los. Isso é uma advertência enganosa. Arrumamos tempo para fazer tantas coisas, por que não organizamos o tempo para realizar algumas necessárias leituras? 2020 permitiu que eu realizasse alguns desejos. Por exemplo, consegui ler A besta humana, do escritor francês Émile Zola. Li ainda o delicioso O lobo do mar, do Jack London. Outro livro lido - e esse ficou entre os grandes que já li - foi O senhor da moscas, do nobelino William Golding. 

Outro livro de fundamental leitura foi o extraordinário Nada de novo no front, do alemão Erich Maria Remarque. O livro é uma aula sobre as transformações ocorridas no interior de um combatente durante a Primeira Guerra Mundial. O brilhantismo da narrativa aproxima-o de Os contos de Kolimá, do russo Varlam Chalámov.

Acredito que o maior desafio do ano tenha sido a leitura da extraordinária biografia sobre o chefe da propaganda nazista - Joseph Goebbels - escrito por Peter Longerich. A leitura aconteceu de forma lenta. Arrastada. Em alguns momentos, pensei realizar uma tarefa que nunca teria fim. O livro aproxima-se das novecentas páginas. Ao terminá-lo, fiquei com um senso de dever cumprido e uma sensação gratificante de que eu era capaz de enfrentar desafios aparentemente assustadores. 

É baseado nessa experiência que, no ano de 2021, tenho três grandes montanhas para galgar: (1) Brasil - uma biografia, da Lilia Moritz Schwarcz; (2) Os demônios, de Dostoiévski; (3) Jane Eyre, da Charlotte Brontë (a belíssima edição da Zahar). 

Penso ainda em ler de maneira mais detida (pelo menos uns cinco livros de cada) Clarice Lispector - por causa de seu centenário - e Lygia Fagundes Telles, para quem as apresentações são dispensáveis. Pretendo ainda ler três ou quatro obras de Jorge Amado, projeto que iniciei em 2020.

Claro, em 2020 houve outras leituras. Mas, acredito que o mais significativo tenha sido isso. 

No próximo ano, o horizonte (observando à distância) apresenta as mesmas tinturas melancólicas - filho, dois empregos, acordar cedo, grandes deslocamentos diários; tempo escasso etc. Mas, é importante continuar fazendo menos do que eu queria, todavia, mais do que eu podia.