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domingo, maio 08, 2016

Cinco de maio, aniversário de Karl Marx e Kierkegaard

Kiekergaard (esq.) e Karl Marx (dir.)
"A nossa existência é vivida para frente, mas entendida quando olhada para trás". Esta frase sempre me serviu de bússola. Em vários momentos em que me vi incompreendido, sem saber que direção tomar ou, simplesmente, buscando entender um evento, um comportamento meio autômato, ela surgiu sorrateira como um luzeiro e me fez colocar os pés no chão e continuar a caminhada. A frase pertence ao filósofo dinamarquês Sorem Aabye Kierkegaard. Ora, por que me remeto a ele assim de forma gratuita? Quinta-feira, dia cinco de maio, o mundo comemorou 203 anos do seu nascimento. 

Coloco Kierkegaard entre as minhas preferências filosóficas, assim como outras criaturas preocupadas com a existência - Agostinho, Pascal e Nieztsche. Os dois primeiros inequivocamente cristãos e, o último, alguém que buscava o conhecimento de si, desvencilhando-se de tudo aquilo que cheirasse a niilismo, sendo que o cristianismo se constituía uma grande abertura que impelia a um mundo de farsa, de negação da vontade, de resignação a um moral de escravo. Enquanto estivermos ocupados com deuses e uma moral mesquinha, jamais nos auto-determinaremos como sujeitos.

Curiosamente, no dia cinco de maio, outro filósofo que aprendi a admirar também, completou aniversário - 198 anos do nascimento do filósofo alemão Karl Marx. Marx anda na direção contrária de Kierkegaard. Aquele não olhava para dentro de si para determinar o mundo, como este procurava fazer. O alemão entendia que as relações que constituem o sujeito são forjadas na história. A base abstrata do homem, algo tão caro para o pensamento kierkegaardiano, é para Marx forjada a partir de determinada forma social. Ou seja, aquilo que é sentido e criado, é "a consciência invertida do homem", conforme diz Marx. O único ponto em comum dos dois é Hegel. Os dois haviam sido hegelianos quando jovens.

O que explica a minha predileção por dois filósofos que são antípodas? É possível conciliar essa discrepância? Como suavizar por meio de uma uniformização frases como estas: "A verdade é a subjetividade" (Kierkegaard); e "Não é a consciência dos homens que determina seu ser, mas, pelo contrário, seu ser social é que determina sua consciência"? (Karl Marx). 

Não é minha pretensão amarrar as pontas desse lençol de costura intrincada. Todavia, tento conciliar uma explicação, romantizando o presente fato. Kierkegaard, assim como os filósofos que citei acima, preenche minha parte mais intuitiva, mais propensa às metáforas, ao sentir poético; às projeções idealistas. Embora Kierkegaard estivesse à procura de um sentido que determinasse a sua existência ("procuro uma verdade que seja verdadeira para mim"), a frase que inicia o texto possui de forma subjacente elementos do devir, que é tão necessário para fecundar o pensamento de Marx. Olhando para trás, percebendo as curvas silentes, os saltos por vales cerrados, por escarpas longínquas, a história me forjou tal qual sou. Se sinto, se poetizo a vida, se procuro sentir, se mesmo não acreditando na religião institucional, fio-me por "uma vida na fé", acercando-me da terceira etapa do pensamento de Kierkegaard (estética, moral e fé) - claro, guardando as devidas proporções. Fé aqui não deve ser entendido em sentido comum. Fé a possibilidade de destruir todas as finitudes e transformar a existência em algo que está acima das pequenas coisas da vida.

Já Karl Marx me ajuda a colocar os pés no chão da história. Ajuda-me a despistar as convenções sociais forjadas, construídas para amarrar e impedir que compreendamos que existe um movimento latente, capaz de mudar o curso do mundo material. São os homens que constroem a história. Interpretá-la apenas não a torna um palco favorável à minha condição. Marx afugenta as ilusões. Em Marx, sentimos que a realidade é dura, que ela tem um corpo afiado e inquieto. Na teríamos essa consciência, não sentiríamos como sentimos; não leríamos o mundo como lemos; não perceberíamos como percebemos; não seríamos iludidos como somos; as estruturas jurídicas, políticas, religiosas, educativas, artísticas, filosóficas, morais seriam outras, se outras fossem as determinantes econômicas, se outras fossem as estruturas que determinam o ser social. 

Kierkegaard me impele ao ser; Marx, à ação. Em mim não há antagonismos. Antagônicas são as ideias. O ser tenta acolhê-las. Agasalhá-las. Tendo a consciência de que o fluxo contínuo de movimento forja as ideias, cria pessimismos e alegrias; cria a dureza para suportar e a sensibilidade que nos leva ao choro; a melancolia incontida e o gozo pela expectativa de vitória, sou enquanto sigo; mas sou sabedor de que a caminhada me marca, risca-me com o seu cinzel. Se tenho a percepção que tenho, não foi de forma gratuita. Sou assim, porque não sou de outro modo; mas, sendo como sou, posso ser de outro modo, desde que lute para sê-lo. Em quando assim for, olharei para trás compreenderei o ser que levo e tenho.

Parabéns, Marx e Kierkegaard!

domingo, junho 02, 2013

200 anos de Kierkegaard - algumas palavras de admiração

Aprendi a admirar o filósofo dinamarquês Soren Kierkegaard ainda nos anos de seminário. A primeira vez que li algo a respeito dele, fiquei estarrecido com a sua paixão pelo paradoxo. O texto que li àquela época falava sobre o noivado do filósofo com a bela Regina Olsen. Kierkegaard após consumar o noivado, pede logo em seguida para desfazê-lo. Sua personalidade complexa aplicou um golpe nos sonhos da jovem Regina, que ainda tentou reatar o noivado, mas sem sucesso.

Durante muito tempo procurei informações sobre o filósofo. Comprei livros. Li a respeito dele. E, sobretudo, li alguns livros dele - Diário de um sedutor, Temor e tremor e O desespero humano. Kierkegaard sempre foi para mim um grande mistério. Sou um admirador do seu ideal de espiritualidade. É possível colocá-lo na categoria de um Agostinho ou de um Pascal, que foram nomes que viveram de maneira exponencial a fé cristã em uma época em que a razão prevalecia sobre os anseios existencializantes da interioridade humana.

Mês passado, precisamente, dia 5 de maio, o mundo comemorou duzentos anos do nascimento do filósofo. Kierkegaard passou um bom tempo no anonimato, pelo menos até as décadas de 40 e 50 do século XX, quando se deu uma onda existencializante na filosofia - Sartre, Jaspers, Heidegger, Camus e até mesmo os filósofos de Frankfurt etc, resgataram a filosofia do dinamarquês. Tanto foi assim que ele recebeu o epíteto de "pai do existencialismo". Não é de se estranhar que ele tenha ficado algum tempo incógnito. Afinal, a fria e distante Dinamarca ficava fora do cenário dos grandes debates. Kierkegaard escrevia em dinamarquês. A língua da filosofia era o francês ou alemão, sendo tolerado, quando muito, o inglês. O que poderia vir da longínqua Jutlândia?

O filósofo era uma figura, no mínimo, estranha. Escrevia sobre determinadas categorias as quais não eram referenciáveis. Os seus patrícios não o entendia. Nascido em 1813 e morto em 1855, Kierkegaard mesmo estando longe da arena filosófica não ficou alheio às grandes controvérsias filosóficas do seu tempo. Viajou à Alemanha para ouvir, por exemplo, uma palestra de Schelling. O século XIX é o século do idealismo hegeliano e, mais tarde, dos ideias materiais de Darwin, Comte e Marx. Onde se poderia colocar a filosofia singular de Kierkegaard que postulava que o individual prevalece sobre o universal? Ou seja, ao invés de se começar a análise do gênero para a espécie, deve se fazer o contrário, colocando o indivíduo sobre todas as coisas. É a existência singular do sujeito que o torna único ante todas as realidades.

Ele parecia "o patinho feio" da filosofia, fazendo uma referência ao seu conterrâneo Hans Christian Andersen. Enquanto a filosofia hegeliana explicava todas as coisas, bem como a ciência em vertiginoso desenvolvimento, Kierkegaard diz que faltava discutir sobre o indivíduo com toda a sua singularidade. Era pelo crivo do individual que a história deveria ser medida. Para ele, o sujeito precisa "decidir ser". E o instante da decisão é a loucura pela qual o universo inteiro deve parar, observar. O homem é aquilo que escolhe ser, é aquilo que se torna. E "tornar-se" é a maior das aventuras. Daí, que surge a sua máxima: "procuro uma verdade que seja verdadeira para mim", pois tudo para diante do indíviduo. São os seus olhos que observam a contigência, pois a existência é o reino do devir na história. 

Kierkegaard é o homem avesso a qualquer sistema que prenda a possibilidade de ser do sujeito individual. A possibilidade é a mais pesada e árdua das categorias, pois sugere uma escolha de fé e 'a fé é aquilo que deve sobrar quando tudo acaba'.

Kierkegaard era um "poeta cristão". Cena curiosa é aquela em que o diabo aparece para a personagem principal de Doutor Fausto, de Thomas Mann. Quando da chegada do diabo, este percebe Adrian lendo um dos livros do filósofo dinamarquês. O diabo então profere: "Então, lendo o cristão?" Em outras palavras: Kierkegaard foi aquilo que escreveu. Tornou a sua noção de fé e suas experiências em algo com sentido. Podemos dizer que ele encontrou a sua verdade. Sua filosofia era um estilo de vida. Como ele mesmo dizia: "ninguém pode se pôr em meu lugar diante de Deus". 

Selo de comemoração aos 200 anos de nascimento do filósofo
É diante de Deus, que o sujeito fica nu e se torna aquilo que deve se tornar. Daí, deerivam dois conceitos que são inextricáveis à obra do filósofo - o conceito de angústia e o conceito de desespero. A angústia é típica do homem na sua relação com o mundo; e o desespero é próprio do homem na sua relação consigo mesmo. As raízes do desespero estão em não querer se aceitar nas mãos de Deus. Quem está em desespero ainda não está consigo mesmo, ainda não se achou plenamente. Aqui cria-se a ideia do paradoxo, pois ao passo que mais me firmo na fé e me aproximo de Deus e, fujo do desespero, mais abomino o mundo e me torno pronto para a eternidade. 

Nesse sentido, é necessário mencionar os três estágios - o estético, o ético e o religioso. O estético seria aquele se vale dos prazeres. É o nível na qual os homens naturais se encontram.  O segundo estágio é o ético em que prevalece a observação das regras morais, dos códigos jurídicos. E o terceiro e último é o religioso, ou seja, o estágio em que o sujeito individual se torna a si mesmo e vive reconciliado com a eternidade.

Esse sujeito que possui uma consciência psicológica da sua condição é o "cavaleiro da fé". Fé não é meramente crer, mas é ressignificar a realidade. A filosofia de Kierkegaard sempre se constituiu em algo a ser admirado para mim. Sempre lembro dele uma hora ou outra. Ele falava daquilo que é mais fundamental na vida: tornar-se a si mesmo com todos os seus implicativos. Numa era a qual notamos um nível tão grande barbarismo e superficialidades, o pensamento de Kierkegaard surge como um desafio para que possamos nos encontrar na curva da existência do devir histórico.


terça-feira, fevereiro 12, 2013

Uma pensata... um devaneio... uma constatação

Assisti a este documentário há pouco. Uma verdadeira aula sobre o mistério inextricável do surgimento do universo, da vida e o destino de todas as coisas. Ao final do documentário, resta-nos uma sensação de humildade. Uma percepção de que somos aquilo que Carl Sagan afirmou: "A consciência do cosmos". Pois a nossa condição de seres pensantes, dá-nos o privilégio para que entendamos que as mesmas moléculas que estavam nos milésimos iniciais do surgimento do universo, estão em nosso corpo e, quando dia um desaparecermos desse lindo planeta, por conta dos processos entrópicos subjacentes ao cosmos, restará o universo, que poderá também chegar ao fim. Isso é belo. É lindo! E nos dá uma missão fantástica. É preciso olhar para cima e nos espantarmos com esse halo tênue e terrível que nos envolve nesse grande mistério que é o nosso destino. O nosso destino depende do universo. Não somos maiores do que ele. Somos a poeira das estrelas. O resultado inevitável da dialética do caos primordial. Ou como dizia Pascal: "Caniços pensantes!" 

Esse é um tema que sempre suscitou em mim uma sensação maravilhosa de espanto e curiosidade. Talvez, estes devam ser os efeitos causados por aquilo que é grande, maior do que a gente. Pascal tem uma outra célebre frase que explica esse pasmo: "O silêncio desses espaços infinitos me apavora". Existimos contingentemente.  Somos matéria, mas também somos uma consciência que pensa; que sabe que está consciente. Um ser complexo e ao mesmo tempo frágil em sua constituição material. O espírito de vida que habita em nós murcha com o tempo e voltamos a nos integrar aos elementos orgânicos da matéria. Os poemas sagrados dos judeus afirmam: "Tu és [homem] pó; e ao pó voltarás". Essa percepção nos torna suscetíveis a pensamentos errantes e devaneios enormes. Emula fascínio e pessimismo. Esse fato direcionará as minhas próximas leituras: A teia da vida (Fritjof Kapra); Do sentimento trágico da vida (Miguel Unamuno); Pensamentos (Pascal). 

Abaixo, o maravilhoso documentário do History Channel:




segunda-feira, janeiro 21, 2013

Meditações sobre Pascal - Luís Felipe Pondé

Havia postado esta entrevista em um outro blog que eu possuía. Encerrei-o por indisposição. Tratava de temas religiosos. Percebi a inutilidade dele. Achei por bem colocar os posts eventuais que por lá escrevia em O SER CARLINO. Hoje, dando uma olhada nos posts que por lá disponibilizei, encontrei esta entrevista com o filósofo Luís Fernando Pondé, uma autoridade em Pascal - pensador muito querido por mim! A entrevista é bastante eclarecedora. Blaise Pascal tinha como referência epistemológica teológica a condição do homem perante o Infinito. Boa leitura!

 

(...) Ao contrário do que se propaga o senso comum, que distingue Pascal como um cientista que larga a razão para se dedicar à religião, a espiritualidade sempre esteve presente na vida de Pascal. Mas dói a partir de sua conversão ao jansenismo que a religião se tornou ainda mais evidente em sua obra.
O contato mais intenso de Pascal com a religião se dá por influência de sua irmã, que se tornara freira na abadia de Port-Royal. Além disso, algun fatos marcaram definitivamente o direcionamento espiritual na vida de Pascal, como a morte de seu pai e a “milagrosa” cura de sua sobrinha, que sofria de uma fístula lacrimal maligna. Essa recuperação ocorreu quando ela, desenganada pelos médicos, tocou o Santo Espinho que existia em Port-Royal. Entretanto, essa fase da vida de Pascal é rica em especulações. Para alguns, a sua conversação aconteceu quando escapou ileso de um acidente com uma charrete; para outros, o cientista abraçou a vocação religiosa após ter visões.
O fato é que a partir daí, em 1653, Pascal abandona seus trabalhos e estudos matemáticos para se voltar à teologia. Nesse período, seus textos apologéticos se direcionam para críticas aos jesuítas e a Descartes. Pascal achava que os jesuítas reduziam a religião a ritos e dogmas, sem se preocuparem com a reflexão metafísica. Estes escritos estão em Cartas Provinciais, um conjunto de dezoito cartas em defesa do jansenismo. Sobre Descartes, registrou: “Não posso perdoar Descartes; bem quisera ele, em toda a sua filosofia, passar sem Deus, mas não pode evitar de fazê-lo dar um piparote para pôr o mundo em movimento; depois do que, não precisa mais de Deus”.
Para discutir a questão da influência do jansenismo na obra de Pascal e de como seu trabalho se opôs e se opõe ao pensamento cartesiano, a CULT conversou com Luís Felipe Pondé, filósofo e professor do Programa de Estudos Pós-graduados e Ciência da Religião da PUC-SP e de comunicação da Faap. Ele é o autor de O Homem insuficiente: comentários de antropologia pascaliana (2001), Conhecimento na Desgraça: ensaio de epistemologia pascaliana (2004), ambos pela Edusp, e de Crítica e Profecia: Filosofia da religião em Dostoievski (2003), pela Editora 34.

 

CULT – De que maneira a religião está presente na obra de Pascal antes de sua aproximação do pensamento jansenista?
 

Luís Felipe Pondé – É difícil falar em obra antes da aproximação com o jansenismo, porque mesmo em momentos iniciais, como sua perseguição ao clérigo Saint Ange (Jacques Forton, senhor de Saint-Ange-Montcard, com quem Pascal teve suas primeiras discussões teológicas), já há uma tendência agostiniana; se o jansenismo venceu em parte da comunidade intelectual cristã francesa do século 17, é porque já havia – inclusive por conta da sensibilidade calvinista forte na França, e o jansenismo é muito próximo do calvinismo em termos de espiritualidade – uma predisposição espiritual para tal. O Pascal importante é já jansenista, mesmo que o cientista e matemático já “brincasse” há muito tempo.

CULT – Talvez alguns dos conceitos mais “populares” de Pascal sejam os matemáticos. O senhor acha que esse lado do trabalho dele seja menor de o compararmos com sua herança para a filosofia?
 

L.F.P – Quero dizer que ele era tão bom em matemática que mesmo criança brincava com isso e assustava seu pai e seus amigos matemáticos e filósofos. De modo algum o Pascal matemático é menor, ele é fundamental em probabilidades, nas bases do cálculo infinitesimal, matrizes, geometria etc. Outra coisa: para ele isso era “brincadeira” porque tudo era divertissement (divertimento) para ele, mesmo a filosofia ou qualquer atividade intelectual. Lembre-se, segunda concupiscência, Agostinho, curiosidade vã do intelecto. Conta-se que quando ainda era criança seu pai o pegou deduzindo tudo o que se sabia da geometria euclidiana, e que ficou e, pânico com medo que o menino pirasse e proibiu seus amigos de falarem com ele para não piorar sua situação mental.

CULT – Como foi possível a ele promover uma conciliação entre sua obra antes e depois de sua conversão ao jansenismo?
 

L.F.P – Sua obra “posterior”, ou sua obra tout court, é um desdobramento que põe em diálogo a sensibilidade teológica jansenista com sua cultura filosófica e de ciências naturais e matemáticas; não acho um problema essa “conciliação”, porque não é a rigor uma “conciliação”, mas uma efetivação de uma obra que encontra na espiritualidade jansenista um campo para a crítica ao humanismo antropocêntrico. Quando ele escreve, ele já escreve como jansenista.

CULT – Como essas mudanças na vida e na obra de Pascal foram vistas por cientistas de seu tempo?

L.F.P – Muitos cientistas a sua volta partilhavam de atitudes religiosas semelhantes ou contrárias, mas ainda assim dentro do escopo religioso. É importante lembrar que controvérsias teológicas eram dadas dentro de ambientes filosóficos e científicos, muitos eram padres e não leigos como Pascal – na obra dele mesmo temos cartas e padres cientistas; o foco maior de disputa era a base teológica. Pascal era um cientista de sucesso em sua época, com sua pouca idade. Contudo, e isso é uma questão complexa para pouco tempo e espaço, é que sua teoria da ciência – ou sua epistemologia – é bastante avançada para sua época e aí está parte de sua crítica à lógica, geometria e físicas de cepa “fundacionalistas” ou essencialista de viés cartesiano. Sua lógica é muito mais formal e bem menos conteúdista, e muito mais de nomes do que de entes; a raiz disso é sua teologia agostiniana da insuficiência do homem em fazer algo além do que conhecimento local. Também entra aí sua crítica à linguagem, que é muito próximo às críticas neopragmáticas e wittgensteinianas. Mas no caso de Pascal, toda essa inconsistência cognitiva é fruto da desgraça teológica; sua ciência está dentro de sua teologia.

CULT – A questão da religião em Pascal o tornou uma espécie de “caso” na história da filosofia, por oposição a Descartes?
 

L.F.P – Não, Pascal não é quem é porque se opôs a Descartes. Inclusive para ele, este era “incerto e inútil”. A idéia nietzschiana de que Pascal era um grande moralista ( no sentido de um anatomista da alma e da moral), mas infelizmente atormentado pela religião, é típica dos reducionismos errados de Nietzsche e de autores similares ao que poderíamos chamar de um intelecto religioso como o do Pascal. A religião em Pascal é o centro de sua preocupação, e daí que parte sua antropologia, sua moral, sua política e sua espistemologia. Sua oposição teológica é ao humanismo de cepa renascentista do tipo “Pico de La Mirândola”. Descartes representa pouco nesse cenário. Para Pascal, Descartes era apenas um filósofo-cientista, que não sabia ao certo qual era o problema do ser humano, alguém que se divertia com objetos pouco produtivos em termos de salvação humana, leia-se, em termos de um aumento da consciência filosófica da condição humana. Pascal é uma ancestral do existencialismo e do pensamento da angústia. Para ele, Descartes era um ilustre e inteligente equivocado.

CULT – Foi ele o primeiro crítico da razão?

L.F.P – O termos “razão” é variável na história da filosofia. Pascal não é o primeiro crítico da “razão”, mas é o primeiro no período mais próximo a Descartes e, por ser matemático e cientista prático, sua crítica pesa muito.

CULT – O pensamento de Pascal consegue manter um diálogo com as questões contemporâneas?
 

L.F.P – Sim, muitas, não dá para falar delas aqui, mas seguramente com a lógica formal e axiomática, com o neopragmatismo, com o ceticismo, com descrença no ser humano, com o ceticismo político – críticas da democracia -, com a psicologia profunda de cepa freudiana – seu pessimismo com relação à estrutura psíquica humana e não à coisa sexual -, com crítica ao hedonismo materialista, à cultura da auto-estima – essa coisa brega que está virando objeto da academia – etc.

CULT – O senhor considera que a obra de Pascal é devidamente reconhecida nos dias de hoje?
 

L.F.P – Ela está em processo de reconhecimento. É uma obra difícil e pouco trabalhada no Brasil. Sua teologia dura e “anti-humanista”, pouco simpática ao humanismo hedonista de nossa época, tende a assustar as pessoas. Todavia, qualquer pessoa que gosta de pensar a condição humana a sério em Pascal tende a trabalhá-lo.

CULT – E em outros países, como é esse cenário?
 

L.F.P – Na França, evidentemente, é muito trabalhado. Fora de lá, Inglaterra um tanto. No Japão, há um scholar pascaliano. Não há nenhum trabalho que eu conheça importante publicado sobre Pascal fora da França. Seu pessimismo antropológico é que afasta muita gente dele e não sua matemática.

CURI, Fabiano (jornalista). Meditações. REVISTA CULT. Número 88, Ano VII, pp. 58-60.

sexta-feira, dezembro 21, 2012

Pascal, Cristo e o cristianismo

Sou um sujeito grávido de espiritualidade por natureza. As ideias eternas andam comigo. Sou um ser moral. Procuro viver virtuosamente, numa espécie de socratismo inevitável. Cidadão que cumpre o dever ordinário, busco viver em paz com os homens, criaturas estúpidas e com essa força que nos alimenta e faz viver. Existe uma lei inscrita em meu coração que me leva a proceder de tal modo. Todavia, apesar dessa inclinação, angustio-me com a ausência de fundamento da fé institucionalizada. 

Tenho chegado a conclusões contudentes sobre as religiões - principalmente a cristã cuja doutrinação se deu desde pequeno. Não me tornei contrário a tudo aquilo que diga respeito a Cristo; tornei-me contrário, por sua vez, a tudo aquilo que diga respeito ao cristianismo. A mensagem de Cristo é uma mensagem autêntica. Já, por sua vez, a mensagem do cristianismo atua como uma anti-vontade contrária à liberdade. O cristianismo é uma religião doente. Enfermante. Segregadora. Arrogante. Inimiga da natureza. Cristo foi fiel àquilo que pregou. Havia bondade em sua mensagem - era "a boa-nova", que chamava aquele de coração cativo a ter em si o reino de deus. O reino de deus não era uma realidade metafísica, invisível, mas era a essência do evangelho que mora no coração. Cria tanto naquilo que falava, que morreu por aquilo que pregou. O cristianismo, de outro modo,  é uma vontade ressentida contra as forças do mundo, desejoso por afirmação e glória. 

O cristianismo enquanto sistema religioso é a negação da vida. É o escoderijo de uma metafísica arrogante, triunfalista e inimiga do mundo - porque inimiga da vida. É uma religião para homens com sentidos deformados e que buscam refúgio na culpa e na doença. 

Afirmo tais coisas, porquanto, ontem assisti ao filme Blaise Pascal (1972), do diretor italiano Roberto Rossellini. Na década de 70, Rossellini gravou filmes sobre a vida de alguns filósofos. Abordou a vida de Sócrates, Santo Agostinho, Blaise Pascal e Descartes. Tenho os quatro filmes do diretor italiano. Reservei três dos quatro para assisti neste final de ano - Sócrates, Blaise Pascal e Descartes. Mas é certo que eu assista à película sobre Agostinho também. 

Voltando: o retrato pintado a respeito do francês gerou curiosidade para que eu conheça mais profundamente o inquieto pensador. Há muito que tenho intenção de ler os Pensamentos, projeto que pretendo encetar no próximo ano. Comprei, há alguns dias, um livro sobre Pascal na livraria Paulus aqui em Brasília ("Blaise Pascal - conversão e apologética", de Henri Gouhier). Pretendo lê-lo assim que terminar os Pensamentos

O que me interessa em Pascal é a sua acuidade intelectual e filósofica. Pascal era dono de uma inteligência rara, capaz de se expandir em especulações sobre os mais variados campos do saber - era físico, astronômo, filósofo, matemático, teólogo. 

 O que é curioso nessa argúcia do pensador é o quanto a religião cristã foi responsável por oprimir o espírito de Pascal; o quanto isso lhe amofinou o engenho, a capacidade. O quanto ele sofreu. O quanto a sua saúde se tornou frágil por causa dos sofrimentos infligidos pela fé. Ele chega quase a sofrer uma paixão. Buscava suprimir um questionamento, uma ausência, uma ânsia pelo infinito. Para isso, fiou-se pelo cristianismo. Anulou-se. E aquilo acabou por matá-lo. A crença o assassinou de forma lenta, gradual, terrificante.

É conhecida a fala sarcástica e irônica de Voltaire sobre Pascal. Conta-se a lenda que Pascal se converteu ao cristianismo após ter caído de um cavalo. Voltaire disse, que, nesse tombo, Pascal bateu a cabeça e, a consequência, foi a perda da inteligência. 

Pascal poderia ter sido uma das mentes mais destacadas dos últimos mil anos, já que habitava nele uma sede pela especulação. Segundo ele, a existência não deveria se organizar apenas por intermédio de um método racional, como fica explícito em sua conversa com Descartes no filme de Rossellini. Além disso, é conhecida a frase de Pascal - "o coração tem razões que a própria razão desconhece" - que foi proferida para se constituir em antítese ao cartesianismo.

Sendo assim, penso que a religião constrói cadeias, esconde a vida da vida. A mensagem que abarca a existência é resultado de uma explosão luminosa chamada devir, que é sempre uma força criadora. Ela pode trazer eventos ditos positivos ou negativos; mas seja bom ou ruim, tudo é vida. Esconder-se por trás de promessas inócuas, debéis, com a consistência de eflúvios gelatinosos é jogar, se conduzir,  de forma inautêntica. Talvez tenha faltado isso a Pascal.