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domingo, maio 25, 2014

Uma reflexão...



"Caminhante, não existem caminhos. Os caminhos se fazem ao caminhar". 
Rubem Alves

É curioso como o tempo nos leva a aceitar determinadas coisas - e a rechaçar outras. Torná-las menos palatáveis.   Eventos que mereçam atenção, projeção de perspectiva. Vivi por quase uma década metido com a religião. Converti-me à fé protestante no final de 1999. Conheci pessoas. Fui a cultos. Direcionei minhas preces ao céu para ter um melancólico silêncio. O cicio perdeu-se no espaço. Caiu da altura para a qual eu o direcionei. E o meu grito é apenas um eco represado dentro de mim.
                Estudei para ser clérigo. Li bastante. Debati com os meus iguais. Enchi-me de romantismo. Realizei prédicas. Instei a tantos quantos achei pelo meu caminho. Quis revelar o fantástico mundo ideal da religião. Descortinar a “salvação” – afinal, vivemos em um mundo de perdidos (aqueles que ainda não aceitaram “a salvação”) e os eleitos remidos (aqueles que foram visitados pela “salvação” e aceitaram-na). Tornei-me “chato” para com alguns que não quiseram dar ouvidos àquilo que eu dizia. Tentava empurrar o meu “entendimento” de garganta abaixo gerando, consequentemente, sequelas indesejáveis nos outros. Quando estamos convictos de algo, não respeitamos as singularidades. E por isso que Nietzsche disse certa vez que “existem determinados pressupostos, certas credulidades, que são demoníacas”. Ou seja, elas fazem mal, pois são mesquinhas, aviltadoras, inquisidoras, geradoras de vítimas por não conseguirem lidar com a diferença.
                Entendem que o mundo está cindido em duas cores: o verde e o roxo, hipoteticamente. Colocam óculos que determinam uma única visão; um víeis preconceituoso e reducionista.  Então se o bem é representado pelo verde, todas as demais cores são nocivas por não serem verdes. Se o roxo é a cor da virtude, tudo aquilo que não tenha essa semelhança, torna-se sem graça e é tratado sem deferência. É daí que brotam os conflitos religiosos.
                O tempo em que vivi em meio ao nicho religioso conheci pessoas de todos os calibres – mansos, eufóricos, fingidos, solidários, gananciosos, arrogantes etc. Toda fauna humana encontradiça em qualquer lugar do planeta.  Minhas leituras, minhas reflexões, fizeram-me refletir sobre determinados fenômenos:

(1) A fé é um fenômeno humano: inquestionavelmente a fé é um fenômeno pertencente apenas ao mundo humano. Se os cavalos tivessem uma fé, os deuses dessa fé teriam uma fisionomia equina. O ser humano criou a religião como uma tentativa de lidar com alguns medos, receios e eventos trágicos que estão longe do seu controle. Fico a pensar no homem da pré-história. Os fenômenos naturais eram eventos não controláveis. Não se pode mandar no sol; na água da chuva; nas estações dos anos. Esse mesmo homem quando sentia a necessidade de buscar aquilo que lhe era necessário para a subsistência, dependia necessariamente dos “humores” da natureza. Por não possuir a previsibilidade científica que atualmente nos é banal, esse mesmo homem precisava invocar um poder capaz de subjugar as forças da natureza.  Ao olhar para o céu numa noite escura, os nossos antepassados deveriam morrer de pavor por perceber um mistério intangível escondido atrás de cada sinal luminoso que brilhava no céu. Afinal, se tudo está aqui e eu não tenho controle sobre isso, existe alguém que possui. Como diz Marcelo Gleiser: “os céus eram vistos como manuscritos sagrados”. E nos “manuscritos” estão escritos os mistérios recônditos de sinais milenares, redigidos por forças inumanas que coordenam o destino de todos os seres. Avançamos enquanto civilização humana. Mudamos a forma como lidamos com a matéria. Subjugamos determinados fenômenos que no passado eram impensáveis. Mas trouxemos conosco, apesar de tudo, determinadas compreensões que são atemporais. E talvez nisso achemos a resposta na assertiva de Pascal: “Esses espaços infinitos nos apavoram”. De certo. O medo da morte, das tragédias, das doenças, da ausência de pessoas queridas, leva-nos a criar uma força que nos acalente, que nos erga de nossas dores, de nossos terrores que nos atormentam. Nesse sentido, a religião constrói um muro em torno de nós para nos trazer consolo. Como diz Rubem Alves: “A religião é um dique construído contra o caos”. Se ela fosse extirpada do planeta muitos indivíduos ficariam loucos, matariam a si mesmos, por se negarem a aceitar tal fato, pois a religião é um fenômeno unicamente dos seres humanos. Nossa existência Planeta Terra é algo imensamente recente. Não vivemos nem uma décima parte daquilo que os dinossauros, por exemplo, viveram no planeta. Mas temos a presunção de formular julgamentos e sistemas que ultimam todas as coisas; que torna toda a realidade explicável pela teoria da lacuna. Deus, por isso, torna-se a “causação” de todo evento; a resposta justificável a todo movimento, força ou circunstância do cosmos. Enquanto estivermos neste planeta, enquanto tivermos a consciência de que estamos conscientes seremos animados por tal diligência.

(2) A espiritualidade está em todo canto: Já que a religião é fenômeno intrínseco ao ser humano; adorno de sua existência, pois desde os tempos ancestrais carregamos tão grande intuição, não podemos negar a espiritualidade. Todavia, não podemos confundir espiritualidade com o fenômeno religioso. A espiritualidade é aroma colhida pela alma, resultante da estética da natureza. Existe, inegavelmente, uma estética na natureza e uma capacidade humana para criar. Agimos assim por sermos seres complexos e que trazemos à existência a beleza. Escrevemos poesias, livros; pintamos belos quadros; compomos músicas encharcadas de delicadeza; construímos determinados objetos que trazem satisfação aos olhos; ouvimos determinados sons que nos emulam o interior; ou simplesmente enxergamos determinados espaços, eventos ou situações produzidas que trazem efeitos incríveis sobre os nossos sentidos.  Assim, a espiritualidade independe de forças religiosas. Ser espiritual é poder fruir um poema; uma voz delicada que faz balançar o nosso coração; uma poesia que nos aquece o interior; a visão de uma planície ou colina que faz erguer a admiração, enchendo os nossos lábios de contentamento e um riso sempiterno. Sou daqueles que acreditam que a espiritualidade está em toda parte e, pode até mesmo, estar dentro do nicho religioso. Todavia, ela não está reservada apenas ao nicho; ela não é fruto privativo de determinadas pessoas. Espiritualidade é sensibilidade. É por isso que Alberto Caieiro, um dos heterônimos de Fernando Pessoa, diz em seu lindo e espiritual O guardador de rebanhos:

(...) Não acredito em Deus porque nunca o vi
Se ele quisesse que eu acreditasse nele,
Sem dúvida que viria falar comigo
E entraria pela minha porta adentro

Dizendo-me, Aqui estou!
(Isto é talvez ridículo aos ouvidos
De quem, por não saber o que é olhar para as coisas,
Não compreende quem fala delas
Com o modo de falar que reparar para elas ensina)

Mas se Deus é as flores e as árvores
E os montes e o sol e o luar,
Então acredito nele,
Então acredito nele toda a hora,
E a minha vida é toda uma oração e uma missa
E uma comunhão com os olhos e pelos ouvidos

Mas se Deus é as árvores e as flores
E os montes e o luar e o sol,
Para que lhe chamo eu Deus?
Chamo-lhe flores e árvores e montes e sol e luar;
Porque, se ele se fez, para eu o ver,
Sol e luar e flores e árvores e montes,
Se ele me aparece como sendo árvores e montes
E luar e o sol e flores,
É que ele quer que eu o conheça
Como árvores e montes e flores e luar e sol

(...) Sejamos simples e calmos,
Como os regatos e as árvores,
E Deus amar-nos-á fazendo de nós
Belos como as árvores e os regatos,
E dar-nos-á verdor na sua primavera,
E um rio aonde ir ter quando acabemos...
E não nos dará mais nada, porque dar-nos mais
Seria tirar-nos mais.

(3) Está em determinado igreja (seita) não me torna uma pessoa necessariamente melhor: Não sinto inveja ou qualquer manifestação de pesar por não estar em uma comunidade, assim como aqueles que estão presos e circunscritos em determinadas geografias religiosas. Em muitas situações as patologias de determinado grupo, ou seja, a psicologia social do grupo é instilada nos membros daquele grupo. Isso acontece com muitas agremiações políticas e outros ajuntamentos humanos. Num dado sentido, está no grupo legitima ou consolida as minhas crenças, pois ali estão pessoas que coadunam com a minha visão de mundo. Assim, dependendo do modo como eu me relaciono com os códigos expressos neste ajuntamento, a transposição desses códigos para o mundo material, para a vida real, pode me tornar em um sujeito limitado e encerrado em meus preconceitos.

(4) A psicologia da fé: a religião é um fenômeno lingüístico, que por sua vez se torna em consciência para aquele que crer. A linguagem é um instrumento de mediação entre o homem e o mundo. É por meio dos signos criados pelo homem ao longo de sua história que esse mesmo homem encontra sentido para as coisas que estão no mundo. Por não contemplarmos a realidade face a face, precisamos de algo que sirva de veículo simbólico que porte as intenções determinadas naquilo que criamos. Para isso utilizamos a linguagem que, também, é um fenômeno complexo no mundo humano. E nesse sentido, determinada linguagem nos conduz a determinadas interpretações. É justamente na interpretação que apreendemos o símbolo que ressignifica o mundo. Ou seja, o mundo e as minhas emoções se abraçam nessa interpretação. E a partir daí que crio minhas preferências e determinado ponto de vista sobre determinado fenômeno, pois interpreto o fenômeno e esse fenômeno ganha carne em minhas emoções, mas isso não se dá diretamente. Acontece por meio de uma interpretação que é inculcada em minha consciência, criando uma estruturação, uma segurança em meu mundo interior. Falar é sempre revelar algo o qual eu já experimentei pela interpretação daquilo que fui, senti, vivenciei. O mundo que defendo é aquele que gira em torno dos meus valores e crenças internalizados. Eu freqüento as coisas e as coisas me freqüentam. Reproduzo e sou reproduzido. Julio Cabrera, filósofo da Universidade de Brasília, em seu livro A ética e suas negações diz que “Se os deuses e demônios da nossa sobrevivência nos aparecem como independentes, é porque nós mesmos lhes demos independência”. Ou seja, a linguagem quando naturalizada tende a não ser questionada. É assim que se explica a psicologia da fé. Chama-se a isso de conversão. Converter-se é mudar o referencial interpretativo. É, por isso, que Paulo, o criador dos “esquemas dogmatizantes”, um dos sujeitos mais habilidosos da história da Igreja, vai dizer que o sujeito que se “converteu” se fez “nova criatura”; que tudo se fez novo e as coisas velhas já passaram.  Pois ele sabia que essa conversão é um processo de reestruturação e reconstrução dos esquemas interpretativos que sustentam determinados valores dos indivíduos. A conversão gera crise por revelar ao sujeito um conjunto terrível de axiomas que levam, quase sempre, o sujeito à crise. Após passar por uma catarse, o sujeito se apresenta a esse novo mundo com uma nova linguagem; com uma nova forma de portar-se; de se relacionar com o mundo, pois os seus referenciais mudaram também. Na verdade, o que muda é a linguagem e seus valores implícitos que acabam por se coadunarem com as emoções do converso. As mudanças ocorrem como fenômeno, primeiramente, emocional e psicológico. Logo em seguida, essa mudança ocorre no modo como articulamos a sociedade e a história. E por isso, que se mata em nome da religião – e que se morre também -, pois se mudou o modo de relação com o mundo. Explica-se ainda o porquê das orações. Quando o crédulo ora, não significa que sua prece está sendo ouvida; representa meramente o fato de que criamos a expectativa de que alguém está a nos ouvir. Essa consciência gera um conforto, um consolo capaz de nos fazer serenar todos os desmazelos existenciais. O que muda não é o mundo ou a história, mas a minha forma de me relacionar com o mundo e com a história. O sujeito crer pelo fato de ser apresentado a ele um panorama trágico e caótico. Após esse abalo, o sujeito “aceita” os novos códigos, a nova cosmovisão, os novos valores que devem servir de óculos para que ele veja o mundo. Paulo quando escreve aos romanos chama esse evento de metanoia (no grego), que significa “mudança de um determinado tipo de racionalidade ou forma de pensar”.  Assim, ao assumir o discurso da fé, estou “agasalhando” em minha interioridade um conjunto de lentes interpretativas que trabalharão em mim os seus efeitos, gerando um novo tipo de consciência sobre os eventos da materialidade. É com esse aparato que passo a julgar o que é bom e o que é mal; o que é pecado e o que é virtude.

(5) Antropologia da fé: para a fé (aqui me refiro à cristã), o homem possui uma antropologia, que é a antropologia da queda. O homem é um ser imperfeito desde o evento do jardim do éden. A maldade que existe no homem não está condicionada a priori por eventos históricos ou sociais. O mal no homem não é um fenômeno que passa a morar nele em decorrência da materialidade como apregoa, por exemplo, Karl Marx. O mal no homem está ligado a um problema ontológico.  Em decorrência disso, só existe uma forma de “reformar” o mundo, aceitando ao Cristo da fé, ao dogma da conversão, que é uma docilização, um funcionalismo operante. Os homens conversos não pertencem a esse mundo. São de outro plano. Como diz Agostinho em suas Confissões: “Criaste-nos para ti e nossa alma vive inquieta enquanto não repousa em ti” (não sei se está correta a frase, já que estou citando de cabeça). Em sentido kieekergaardiano, existir perante Deus é estar destinado à culpa, pois a nossa ontologicidade é maculada. Deus é o sempre santo; e, nós, os seres partidos e finitos. O único remédio é a conversão, ou seja, a mudança matricial da forma de ler e enxergar o mundo. É na vida que se decide a morte, pois aquilo que escolhemos ser, será – peremptoriamente.
                Escolhi escrever essas palavras, pelo fato de hoje ouvir que determinada pessoa mudou o seu comportamento para comigo por eu ter feito algumas afirmações que feriu a sua fé. O sujeito freqüenta uma determinada igreja evangélica – portanto, portadora de determinada linguagem. Segundo ele, eu por ter estudado teologia e ter um conhecimento relativo sobre os fenômenos ditos “sacros” , serei cobrado com contundência no dia do juízo, corroborando com aquilo que está escrito em uma das cartas bíblicas – se não me engano, a carta de Tiago. Eu poderia escrever – algo que talvez eu faça qualquer dia desses – sobre o significado “sagrado” da bíblia, que para mim é um livro humano que narra os eventos religiosos e a compreensão de um povo sobre determinados pressupostos de sua experiência de fé.
                Quero deixar bem claro que sou uma pessoa religiosa – não no sentido ordinário o qual estamos acostumados. Para mim a espiritualidade é um fenômeno capaz de me tornar livre, mais compreensivo, compassivo, sendo entendedor que o outro para ser bom, não precisa aceitar a minha fé. Crença é um fenômeno pessoal. Não devo cindir com as pessoas somente pelo fato delas não crerem naquilo que creio. Não devo ser tão presunçoso a esse ponto. Como diz Rubem Alves, “o Deus dos protestantes é o Deus da causalidade inflexível”. E quando notamos tais coisas, apenas achega-se a nós certeza de que somos seres curiosos. E como dizia Nietzsche mais ou menos com essas palavras: “Criamos o in-criado e acabamos sendo dominados pela nossa própria criação”.  

sexta-feira, agosto 10, 2012

Reflexões natalícias III - o tempo como grande artífice

O astrofísico brasileiro Marcelo Gleiser diz algo belíssimo em seu livro  O fim da terra e do céu sobre o tempo. Segundo ele, "um mundo sem movimento é um mundo triste, fadado a jamais se reinventar. O tempo é a ausência de perfeição". Ou seja, o tempo nos lança em um dinamismo, em uma ciranda; em um cipoal de movimento e é a consciência do tempo o artífice que nos molda. Para ele, a eternidade é a ausência do movimento. Agostinho afirmou certa vez que "a eternidade é o eterno presente". O estático. A ausência de movimento; de um fluxo dinâmico que atualize e se posicione entre o que passou e o que será.

Quando penso sobre o tempo, penso em coisas admiráveis - ainda evocando Santo Agostinho. Ao contrário da expectativa de Agostinho que viveu boa parte da vida pensando na eternidade, penso na terra, penso na dialética da história, que me trouxe até à casa dos 33 anos. Há 33 anos eu nasci, num dia de quinta-feira como este, às 11:15 hs da manhã, no Engenho Cacimba, município de Vitória de Santo Antão, Pernambuco. Quando pensava em minha idade há algum tempo atrás, achava o momento natalício um grande martírio. Curei-me disso. Hoje, aos 33 anos, aceito a vida, aceito o fatum como diria Nietzsche. Tudo se movimenta. É a razão por que estamos aqui. Abraçar o destino. A vida. Assumi-la. Não esquivar-se dela. Aceitar cada movimento como se este fosse uma escola multifacetada - que ora mostra um pântano, mas em outros momentos nos apresenta um belo jardim.

Passamos a ser no tempo. Sofremos no tempo. Choramos no tempo. Despedimo-nos de nossos entes e amigos no tempo. Mas amamos, sobretudo, no tempo. Rimos no tempo. Ou seja, a vida brota, floresce e morre no tempo. Eis o campo de batalha. O combate. Zaratustra, o herói nietzscheano afirma algo extraordinário sobre isso:

Tudo vai, tudo volta; a roda da vida gira sem cessar. Tudo morre; tudo volta  a florescer; correm eternamente as estações da vida. Tudo se destrói, tudo se reconstrói, eternamente se edifica a mesma casa da existência. Tudo se desagrega, tudo se saúda outra vez; o anel da vida conserva-se eternamente leal a si mesmo. A todos os momentos a vida principia; ao redor de cada aqui, gira a bola acolá. O centro está em toda parte. O caminho da eternidade é tortuoso. 

Sigamos no fluxo rumo aos 34, pois é o tempo que define o ritmo da nossa existência. É ele que nos conecta com a percepção de tudo aquilo que existe cosmologicamente. Tudo flui. E fecho com Glaiser: "A cada batida de nossos corações, incontáveis insetos saem de seus ovos enquanto incontáveis outros morrem, ondas quebram em todas as praias do planeta e galáxias se distanciam um pouco mais, e estrelas espalhadas pelo Universo nascem e morrem". E eu serei sendo enquanto no tempo estiver.

terça-feira, julho 31, 2012

A propósito de uma leitura sobre Marcelo Gleiser II

 "A ciência moderna revelou as causas desses eventos, mostrando que o que antes era atribuído aso deuses é só uma manifestação de fenômenos naturais segundo leis específicas. Essa mudança de atitude com relação á Natureza é muitas vezes condenada por líderes religiosos mais extremos ou por aqueles que acreditam que "entender" a Natureza tira a sua beleza, que entender a física por trás dos fenômenos celestes exerciza a sua magia. Muitos pelo contrário; eu afirmo que a compreensão da dinâmica celeste apenas aumenta nossa admiração pela beleza do cosmo". 
Marcelo Gleiser, O fim da terra e do céu, p. 146

Aos dois leitores impacientes que chegaram a esse espaço por causa de uma conflagração de um "acidente internético", dirijo as palavras incipientes que se seguem. Atualmente estou lendo Doutor Fausto, de Thomas Mann (que está de lado por enquanto) e O fim da terra e do céu, de Marcelo Gleiser (que estou simplesmente embasbacado). Gleiser é um sujeito de uma mente fina, de pensamento especulativo rico, que nos faz imaginar coisas e afirmar: "Minha nossa! Eu sou uma minhoca cósmica. Alguém que está aqui pelos sucessivos poderes criativos da natureza e não por uma teleologia eminentemente divina". 

Quando leio a respeito da grandiosidade do cosmos e os números que exatificam as proporções infinitas daquilo com a qual não estamos acostumados mensurar, lembro imediatamente da frase de Pascal: "Esses espaços infinitos me apavora". E, de fato, olhar o céu, esse grande pergaminho que serve a tantas interpretações e que no decorrer da história foi alvo de tantas leituras, aturde-nos. Foi com medo ou talvez admirado com aquilo que não podia controlar que os homens forjaram "mundos" para tentar explicar aquilo que não conseguiam entender. Mas ao criar o sobrenatural, a finalidade dessa busca era afirmar a si mesmo.

O que somos? Qual o nosso valor? Hoje, enquanto vinha para casa e me encontrava no metrô, fiquei observando as várias pessoas que estavam no mesmo vagão em que eu estava. Os mais variados tipos: adolescentes com ar despreocupado, o almofadinha da repartição pública, o operário da construção civil, o tipo importante a portar o celular da última geração; mulheres ostentando a aparência de importância. Olhei aquilo como que vendo um desfile de tipos. Não estou julgando aquelas pessoas, apenas argumentando que vivemos como se fossêmos os mais importantes dos seres e não percebemos que somos seres passageiros em um planeta que também é passageiro. Segundo os cientistas, o Sol está na metade da vida. Atualmente ele possui cerca de 10 bilhões de anos. Viverá mais 10 e aí virá o fim. E com o fim dele, virá também o fim de todos os corpos e seres que dependem da energia liberada pela queima de gases.

Num passado bem longíquo não existíamos. Passamos a existir graças aos ciclos naturais, às mudanças perpetradas no decorrer de milhões de anos. Os dinossauros, por exemplo, ficaram sobre a Terra por cerca de 150 milhões de anos. Mas, em dado momento do tempo, deixaram de existir e se assim aconteceu foi por causa das condições naturais: climáticas, atmosféricas etc. Para que existamos e não sucumbamos diante de um cataclismo, não é necessário a priori que tenhamos inteligência, mas que as condições ambientais nos sejam favoráveis. A natureza que fez com que os dinossauros deixassem de existir é a mesma que fez com que o homem surgisse. Todavia, essa mesma natureza que cria, pode também destruir. Na natureza, não existem julgamentos morais do que é bom ou é ruim. O bom e o mal só existem a nível humano.

Afirmamos que existem o bem e o mal, porque criamos um índice de valoração para os eventos que existem a nível de mundo humano. Ou seja, uma alga não sabe o que é o bem nem o que é o mal. A gravidade não conhece o que é bonito nem feio. Um aminoácido não sabe o que é o pecado nem a virtude. Ela apenas é e obedece a comandos determinados por uma lei natural. Foram condições proporcionadas pelo mundo natural que permitiram ao homem chegar a ser o que é. 

Sendo assim, enquanto os dinossauros estiveram sobre a terra por mais de cem milhões de anos e foram extintos há sessenta milhões de anos atrás, os primeiros hominídeos (da qual o homem faz parte) surgiram aproxidamente há dois milhões de anos atrás. Ou seja, um lastro de tempo consideravelmente insignificante. O homem como o conhecemos hoje está por aqui há cerca de cinquenta mil anos. Com isso, notamos que esse ser que é capaz de criar juízos de valores e se impressiona com os artefatos que produz é um ser que não percebe o tamanho do seu desvalor.
Criamos cultura. Altares para nossas divindades. Tronos para os nossos reis. Pedestais para o nossos ídolos. Música para nos alegrar. Poesia para nos embevecer. E em um Planeta pequeno, composto por gases, água e rocha, vive um ser que até hoje não conseguiu se achar. E para que deixemos de existir não é necessário que algo extraordinário aconteça, que uma força sobrenatural nos trague.

Por exemplo, em 1994, eu ainda era um adolescente. Aconteceu algo que poucas pessoas lembram, mas que marcou minha adolescência. Recordo que a TV mostrou os fragmentos do cometa Shoemaker-Levy 9 se chocando com a atmosfera do planeta Júpiter. Dudante seis dias, o planeta gigante do Sistema Solar foi bombardeado por esses corpos. Foi um espetáculo que produziu beleza e terror, pois se o Shoemaker-Levy 9 tivesse se chocado com a Terra não estaríamos aqui agora para contar história. Os fragmentos do cometa estavam soltos pelo Sistema Solar por aproximadamente 5 bilhões de anos e foram atraídos para a atmosfera de Júpiter. Segundo as palavras de Glaiser:

O cometa permaneceu nessa órbita alongada em torno do Sol até o século passado, quando a atração gravitacional de Júpiter acabou por provocar a colisão; cada um dos seus fragmentos chocou-se com a parte superior da atmosfera a velocidades acima de 200 mil quilômetros por hora, liberando mais de 25 megatóns de TNT de energia. O planeta Júpiter é onze vezes maior do que a Terra, e sua massa, trezentas vezes maior do que a do nosso planeta. [...] Cada fragmento foi identificado por uma letra, na mesma ordem de impacto. O fragmento A atingiu a parte superior da atmosfera de Júpiter pouco antes das dezesse horas do dia 16 de julho. Sua explosão devido ao impacto criou uma bola de fogo gigantesca, levantando uam coluna de detritos com mais de 3 mil quilômetros de altitude. Ao retornrar ao planeta, os detritos criaram uma mancha negra com um diâmetro equivalente a um terço do diâmetro da Terra. E essa foi a primeira colisão! O mesmo padrão repetiu-se após o impacto de um dos fragmentos observados (alguns escaparam ao campo de observação): [...]  O fragmento G, um dos maiores, deicou uma mancha de dimensão comparável à dimensão da Terra. (o destaque é meu).

O que é curioso nisso tudo é que isso não nos inclina a refletirmos o quanto somos frágeis em nossa condição. Não somos sustentados por uma vontade divina ou sobrenatural. Somos o resultado da combinação de "acasos naturais" - embora, a natureza em seu curso nunca permita que algo exista sem que leve a uma nova etapa. Ou seja, nada é gratuito na natureza. Tal pensamento não deve nos deve lançar em um fatalismo, mas admirar essa harmonia da dança cósmica. Essa harmonia que como disse certa vez Carl Sagan: "Deve nos fazer admirar esse milagre". O milagre não é algo essencialmente sobrenatural, mas natural. O acontecimento fantástico não reside a nível extra-humano, mas no tempo e na conjuntura em que se encontram os homens. Sigamos com a leitura!

Abaixo, dois vídeos explicitando o evento com o Shoemaker-Levy 9. 


 

sexta-feira, julho 27, 2012

A propósito de uma leitura sobre Marcelo Gleiser I

Após a leitura do capítulo 1 do livro do astrofísico brasileiro Marcelo Gleiser (O fim da terra e do céu - o apocalipse na ciência e na religião - comprado na cidade de Gramado-RS)  fui impregnado por uma sensação de que minhas convicções estão corretas quando penso que o fulcro do fenômeno religioso é algo necessariamente humano. Vale ressaltar que o livro em comento foi ganhador do Prêmio Jabuti no ano de 2002. Gleiser com toda a sua simplicidade e clareza didática expõe como os homens ao longo da história sentiram a necessidade de criar determinadas explicações para darem sentido às suas próprias existências. 

O professor expõe que a maioria das religiões possui uma escatologia do fim dos tempos. E faz uma análise das religiões semíticas e o quanto essas tradições (masdaísmo, religião egípcia e babilônica) formam a base da religão judaico-cristã. A ideia de uma corte celestial que julga os justos (masdaísmo), com promessas de uma vida eterna (egpícia) e com criações simbólicas idênticas que foram adotadas tanto pelos cristãos quanto pelos judeus - o caso do grande dilúvio. 

O autor ainda faz uma extraordinária exposição sobre o simbolismo profético do livro de Daniel. Para Gleiser, o livro de Daniel é resultado da compilação histórica de dois momentos distintos - o primeiro narrado no quinto século antes de Cristo; e, o segundo, escrito no segundo século antes de Cristo. O profetismo, fenômeno comum às religiões, é uma tentativa de apaziguar o medo do caos - ou seja, o império da Natureza com suas leis imparciais. O texto profético e, por consequência apocalíptico, constrói uma segurança. Gleiser ainda trabalha aspectos do apocalipse de João. Algo importante a ressaltar diz respeito à resistência que se mostrou nos primeiros séculos a esse texto repleto de simbolismos para a igreja.

Notável. Assistindo a algumas entrevistas com Marcelo Gleiser, percebemos a simplicidade e o eruditismo do professor Dartmouth College nos Estados Unidos e uma das figuras divulgadoras da ciência mais respeitadas naquele país. Dá orgulho saber que Gleiser é brasileiro.

Continuemos a leitura amanhã e durmamos, pois acordarei às 5 e meia da manhã - já passou da meia-noite!