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terça-feira, março 26, 2024

"A hora da estrela", de Clarice Lispector, algumas palavras

Cena do filme "A hora da estrela" (1985), de Suzana Amaral

 

“...ela era café frio”.

“Você sabe mesmo é chover”

 

                Realizei a terceira leitura – embasbacado – de “A hora da estrela”, o último romance de Clarice Lispector. Nessa última leitura, prestei atenção ao movimento e ao efeito das palavras e, sem qualquer apelo hiperbólico, resta a impressão de que se trata de um texto que beira à perfeição. Enquanto prestava atenção à condução da história pelo narrador Rodrigo S.M., fazia a seguinte pergunta: afinal, o que tinha Macábea?

               "A hora da estrela" foi publicada em 1977, mesmo ano em que morreu a autora. Talvez, seja seu romance de leitura mais fácil. Todavia, a palavra “fácil” nunca quer dizer “tranquilo” em Clarice. A autora emprega o fluxo de consciência, como técnica tão costumeira como, por exemplo, em “A Paixão segundo G.H.”, o que torna o texto em uma massa psicológica densa. Há descrições singulares que misturam o mundo simples de Macábea à voz emulante e meticulosa do narrador.

                O texto prescindiria de um narrador, talvez. Rodrigo S.M. é um alter ego de Clarice, certamente. Todavia, perderia em análise; perderia em força, pois o narrador estabelece um diálogo tácito com o leitor. Ele faz a promessa de que vai entregar algo. A maneira como que ele despe Macábea e coloca um facho de luminosidade na modesta existência da personagem é um movimento de crueldade. Como Macábea há milhões de pessoas que passam pelo mundo sem atentar para o ato complexo que é existir. A personagem ignora os elementos mais complicados da vida. Existe uma beatitude em sua ignorância. Ela não consegue observar o trânsito caótico em sua vida. Sua avassaladora ignorância sobre si e sobre o mundo a torna em um ser caricato.  

                O que tinha Macábea? Ao tentar responder essa pergunta, é inevitável não pensar no estranho paradoxo presente no título da obra. Por que “estrela”, se não havia nenhum brilho em Macábea? A alagoana era “café frio”; “era capim”. Não havia qualidades ou vantagens a serem destacadas; uma nesga de relevo em sua existência achatada; uma dignidade a ser ostentada. Tanto física quanto existencialmente, o que se percebe na personagem é um conteúdo opaco, sem força e com potência insignificante.

                O que tinha Macábea? Em certa altura da narrativa, encontra-se essa pérola que revela a ignorância de si e a ignorância do mundo presentes na personagem: “Quero afiançar que essa moça não se conhece senão através de ir vivendo à toa. Se tivesse a tolice de perguntar “quem sou eu?” cairia estatelada e em cheio no chão”. Ou esta: “Quanto à moça, ela vive num limbo impessoal, sem alcançar o pior nem o melhor. Ela somente vive, inspirando e expirando, inspirando e expirando”.

                “A hora da estrela” é a reflexão sobre o insignificante. Enquanto os outros personagens – Olímpico de Jesus e Glória – ostentam (até mesmo no nome) uma grandiloquência no modo de ser e no nome, Macábea é pequena e indefesa. Olímpico possui um nome que ostenta força, além do sobrenome que sugere uma ideia de redenção, de sacralidade. Glória exprime a semântica do triunfo. Enquanto Macábea sugere o nome dos Macabeus, povo que conseguiu criar uma resistência contra o domínio de Antíoco IV, no século II antes da era comum, e acabou sendo conquistado de forma tácita pelos romanos. Há imensas ironias e sugestões sutis na obra. Nada é gratuito.

                Macábea representa aquele tipo de indivíduo que passa pelo mundo sem que seja dada conta da sua vida. A ignorância de si impõe o anonimato dela para com ela e para com o mundo. Seu mundo apoucado, colocado em um território cinzento sem qualquer fato expressivo, é a síntese da miséria e da ignorância. Analisar a vida da personagem sugere imediatamente um quadro de advertência, pois é preciso ter uma noção mínima sobre aquilo que somos. Nietzsche em “Para além do bem e do mal” afirma que “Quando adestramos a nossa consciência, ela beija-nos ao mesmo tempo que nos morde”. Macábea, coitada, não percebia nem o adestramento nem a mordida.


terça-feira, novembro 14, 2023

"A via-crucis do corpo", de Clarice Lispector. Algumas palavras.

 


A escrita clariceana não é fácil. O leitor desavisado não conseguirá avançar para além da quinta página de alguns dos seus textos. Um exemplo é “O lustre” ou “Perto do coração selvagem”.  Por sua vez, Clarice não é uma escritora difícil. Ora, como se situar nesse aparente paradoxo? O que acontece com os seus textos é que eles lidam com uma matéria de difícil tradução, com o indefinível que é a interioridade humana. Falam sobre os desvãos, sobre o que existe quando não há a palavra. A escritora faz uma autópsia na alma humana. Cada um dos períodos escritos por ela preocupa-se em auscultar as emoções ambivalentes do complexo mundo humano. 

Essa noção sobre a criação clariceana é importante para que alcancemos o exato sentido de suas palavras. É preciso persignar-se para ler os seus textos. Clarice possui método: seu trabalho é desnudar a alma, as entranhas, os segredos escondidos nos interstícios do corpo. 

Peguei o magro volume de “A via crucis do corpo”. É preciso atentar para o título. Há um imediato chamado religioso. Um convite para que se reflita sobre o sofrimento. Afinal, a “via-crucis” é uma expressão latina, cujo significado é “caminho da cruz”. Faz referência ao percurso palmilhado por Jesus da sala do procurador romano ao Calvário. Ou seja, do lugar do julgamento ao lugar da morte.

O corpo é aquele que padece. Ele também carrega a sua cruz. À guisa de explicação, no texto que abre o volume, Clarice adverte os leitores como se algo muito arriscado estivesse pronto a eclodir – “Todas as histórias desse volume são contundentes”. Conforme ainda essa advertência inicial, as histórias nasceram em jorro febril; estavam dentro da autora, a reclamar a vinda ao mundo.

O livro foi escrito por encomenda. São treze curtas histórias. Algumas com no máximo duas páginas. Transmitem a ideia de que foram escritas de forma apressada, o que confirma a tese do “jorro”. Coloca em evidência uma Clarice menos misteriosa. Não há jogos de palavras. Sentenças tartamudeadoras; que deslocam o leitor como em “A paixão segundo G.H”. As epifanias cessam. A metafísica e o mistério são colocados num plano secundário. O elemento que fala é o corpo. O reclamante é o corpo. O desejante é o corpo, com a sua fome, com os seus maneirismos.

As histórias falam sobre sexualidade, mas não há insinuações pornográficas. O corpo possui a sua própria linguagem e, às vezes, fala mais quando está em silêncio. Há uma singularidade em sua semântica. É no interstício entre o que se diz e o que se cala, que reside o desejo. As personagens são femininas. Clarice procura dar voz ao desejo feminino. Talvez, isso tenha chocado muitos leitores dos anos 70 em plena Ditadura Militar.

Clarice deixa uma mensagem com esse pequeno, mas revelador livro: tudo está no corpo. Nele moramos; por meio dele acessamos o mundo; ele cansa; ele sente fome e sede; e é habitado por reclames primitivos. Em momentos de solidão, como lidar com esses reclames? A maior parte dos personagens de cada uma das histórias se ver diante desse dilema. É a “via-crucis”. É o movimento que se realiza do nascimento até à morte.

 

               

quinta-feira, abril 14, 2022

"Sargento Getúlio", de João Ubaldo Ribeiro

 

                “Eu sou Getúlio Santos Bezerra e meu nome é um verso e meu avô era brabo e todo mundo na minha raça era brabo e minha mãe se chamava Justa e era braba e no sertão daqui não tem ninguém mais brabo do que eu, todas as coisas eu sou melhor”.

João Ubaldo Ribeiro, em “O Sargento Getúlio”

 

                O livro “O Sargento Getúlio” é uma obra moderna, escrita no ano de 1971, pelo baiano com espírito sergipano, João Ubaldo Ribeiro. O livro foi reconhecido imediatamente como uma obra de fôlego, recebendo encômios de grandes autoridades literárias como, por exemplo, Jorge Amado. Morto em 2014, João Ubaldo Ribeiro é uma das grandes figuras literárias da literatura brasileira contemporânea. Ao longo de sua trajetória, atuou em diversas áreas – foi advogado, jornalista, professor. Em 2008, ganhou o Prêmio Camões, o maior para um escritor em língua portuguesa.

                Ubaldo era um escritor que procurava fugir dos rituais. Era possível encontrá-lo na Ilha de Itaparica, na Bahia. Caminhava pela rua despretensiosamente. Conversar com ele era sempre um evento prazeroso. Assistindo à entrevista ao Roda Viva, gravada em 2012, é possível perceber o despojamento de sua linguagem e as idiossincrasias que o tornaram uma pessoa sempre de conversa agradável.   

                Ubaldo era uma figura, no mínimo, engraçada. Dono de uma voz grave, de um sotaque delicioso, ouvir João Ubaldo falando sobre qualquer tema gerava uma enorme satisfação.  Sua fala estava repleta por uma baianidade graciosa. Tenho buscado assistir aos vídeos disponíveis no Youtube que trazem palestras, entrevistas etc.

                “Sargento Getúlio” é um livro curto, aparentemente sucinto, que não impressiona em um primeiro olhar. Todavia, trata-se de um livro com enormes sutilezas e de leitura difícil. A dificuldade se expressa pelo fluxo de consciência de como a história é contada. Outro aspecto de bastante importância no livro são alguns termos regionalistas empregados pela personagem principal do romance. Alguns desses termos são de criação do próprio João Ubaldo.  Dessa forma, a leitura do pequeno livro não se torna fácil. Somos acertados por certo estranhamento no início. Mas, à medida que a leitura toma fôlego, realizamos um movimento para dentro da cabeça do personagem. Assimilamos os seus trejeitos; os aspectos mais cruentos e primitivos de sua personalidade agreste. Ele é um Paulo Honório acentuado pelo rigor moral.

                O romance é grandioso. Repleto de significados. Do ponto de vista do regionalismo, aproxima-se da linguagem de Guimarães Rosa. Do ponto de vista do enredo, aproxima-se do realismo mágico praticado por grandes escritores latino-americanos. 

                O livro inicia com uma epígrafe estranha – “Essa é uma história de aretê”. De início julguei, que fosse um termo indígena. Mais tarde, descobri que “aretê” é uma palavra grega, que designa a “excelência”, qualidade daquilo que se liga à honra. Liga-se essencialmente “a “virtude moral”, de cumprimento de um objetivo, de um propósito ou da função a que o indivíduo se destina. A epígrafe não poderia ter sido melhor escolhida, pois é ela que vai nortear todos os eventos da vida da personagem Getúlio.

                O enredo da história é bastante simples. Getúlio deve conduzir um prisioneiro de Paulo Afonso, na Bahia, a Aracaju, capital do estado de Sergipe. Ele vai acompanhada por um chofer, que dirige um Hudson, carro produzido na década de 1950, pela Hudson Motor Car Company, uma empresa automobilística estadunidense. Ao longo dessa jornada do interior para o litoral, a personagem se faz conhecer. Notamos o seu rígido código moral. Getúlio é um homem primitivo. Ele é um símbolo de um tipo de Brasil violento, desumano, afeito apenas a uma forma de existir; Getúlio é cruel. Ostenta a quantidade de pessoas que matou. Arranca alguns dos dentes do prisioneiro com um alicate. Não chama o prisioneiro pelo nome. Emprega nomes que buscam desumanizá-lo – “traste”, “coisa”, “peste”, além de outros termos.

                Um outro aspecto que deve ser pensado é a relação com “Os Sertões” de Euclides da Cunha. Na obra que descreve o conflito ocorrido, na Bahia, no final do século XIX, nota-se que o Brasil do litoral entranha o Brasil profundo do interior. No caso em questão, o Estado brasileiro leva a morte, a violência, aquilo que se convencionava chamar de modernidade para o interior do país, aniquilando os rudes sertanejos do interior. Já em “Sargento Getúlio”, a personagem leva a violência do interior para o litoral. Getúlio não se desvencilha da missão. Ele é a força indômita e bravia que revela o lado mais hostil de um país atrasado e que encontra na violência sua única linguagem e força de expressão, mesmo diante da ordem de não mais levar o prisioneiro a Aracaju.

                O romance é considerado o maior do ponto de vista da densidade entre aqueles escritos por Ubaldo. Há ressonâncias variadas que vão do campo estético, histórico e político. O autor não inova, não é criador de nada. De certa forma, tudo o que há de mais sensacional no romance, já estava disseminado na literatura brasileira. A paisagem romanesca é pintada por cores encontradas em uma Clarice, em um Graciliano ou em um Guimarães Rosa. Todavia, há uma urdidura com a fórmula que cria uma força impressionável no texto de Ubaldo.

               

 

quinta-feira, julho 08, 2021

"Clarice", a famosa biografia escrita por Benjamin Moser - algumas palavras.

  

Terminei a leitura da aclamada biografia sobre Clarice Lispector, escrita pelo laureado estudioso estadunidense Benjamin Moser. O calhamaço com mais de setecentas páginas chegou por aqui nos idos de 2013. Foi um sucesso imediato. Moser fez um trabalho à altura da magnitude da escritora brasileira, nascida na Ucrânia no início da década de 1920. O trabalho apresentou Clarice para o mundo. Em locais onde ela ainda não era conhecida com os encômios devidos, ela gerou, no mínimo, uma curiosidade. Certamente, como aconteceu ao longo da vida da escritora, houve a indagação: quem é essa escritora de nome tão minimalista – Clarice – digna de ganhar uma biografia tão volumosa?

Moser explica que chegou aos textos de Clarice Lispector por um lance inopinado. Era estudante de línguas. Tinha a intenção de estudar uma língua pouco vulgar. Pensou no russo. Mas acabou optando pelo português do Brasil. Como um processo natural de aprofundamento da língua, teve como tarefa a leitura de escritores brasileiros contemporâneos que produziram textos curtos. Entrou em contato com “A hora da estrela”, o último texto escrito por Clarice. Foi uma paixão inconteste no primeiro encontro. Quem era aquela escritora densa, de texto com uma carga epifânica que beirava o atordoamento? É o que ele tenta descrever ao longo de sua deliciosa prosa.

Clarice Lispector nasceu em Tchecenilk, uma pequena cidade da Ucrânia, no dia 10 de dezembro de 1920. Seu nome de nascimento era Chaya Pinkhasovna Lispector. Nascida em uma família judia, os Lispector tiveram que sair do país em decorrência de uma Guerra Civil. Estudaram vários destinos como possibilidade de uma nova morada. Os dois últimos destinos foram os Estados Unidos e o Brasil. Como possuíam parentes já estabelecidos no Brasil, optaram pelo distante e singular país da América do Sul. De forma ainda mais emblemática, foi o estabelecimento em Maceió, uma cidade pequena, de clima peculiar e que não abrigava uma comunidade judaica. Os parentes ali estabelecidos haviam chegado anos antes e haviam conseguido se estabelecer junto ao comércio. Na ocasião da chegada, Clarice tinha apenas dois anos de vida.

A família de Clarice acabou indo, após algumas dificuldades na capital alagoana, para uma das mais importantes econômica, política e culturalmente capitais nordestinas, o Recife. A família ficou ali por praticamente dez anos. Moraram no bairro da Boa Vista, que possuía uma sólida comunidade judaica. Ali as irmãs Clarice, Tânia e Elisa viveram anos tranquilos. Clarice era a mais nova das três irmãs. Moser registra que, mais tarde, Clarice foi interpelada sobre a sua nacionalidade. Ela afirmou sem embaraços que era brasileira e pernambucana. Nutria uma grande admiração pelo estado nordestino onde passara boa parte de sua adolescência. Gostava da culinária, do sotaque característico, do clima da cidade; do caldo cultural tão próprio da capital pernambucana. Alguns dos seus contos são ambientados em Recife; algumas de suas memórias afetivas estavam carregadas pelos acontecimentos nos dez anos em que viveu no bairro da Boa Vista. Na capital pernambucana foi alfabetizada. Iniciou as primeiras leituras. Encontrou-se com os russos; com Herman Hesse, cuja livro “O lobo da estepe” foi tão significativo.

Benjamin Moser

Mais tarde, muda-se para o Rio de Janeiro com o pai e as irmãs. No Rio, notam-se os eventos que foram fundamentais para a formação profissional e o pleno amadurecimento da carreira de escritora. Quando morou no Recife, Clarice já escrevera algumas singelas histórias. Envia-as para o jornal Diário de Pernambuco. Todavia, os seus textos nunca foram escolhidos. A preterição ocorria com frequência. Ela mesma explicou aquilo talvez tenha ocorrido por causa do intimismo dos textos que escrevia. As pessoas estavam acostumadas a lerem coisas do tipo: “Era uma vez...”. Seus textos não traziam nada dessa marca previsível.

Muda-se com a família de Recife para a Capital do país, o Rio de Janeiro. Iniciou o curso de Direito na Faculdade de Direito da Universidade do Rio de Janeiro. E ao concluir o curso, escreve “Perto do Coração Selvagem”, que causou uma sensação enorme. Acabou por chamar atenção de críticos e intelectuais. À época, ela tinha pouco mais de vinte anos. Quem seria aquela mulher com sobrenome estranho? Seria um pseudônimo, alguém que buscava permanecer anônimo? Afinal, quem era a dona daquele texto tão impregnado de psicologismo; de uma estar consigo? Quem era aquela mulher que não ligava para as paisagens externas, que tinha como material para os seus romances as “estepes” interiores?

Procurou conciliar o Direito com a prática do jornalismo. Publica alguns contos. A produção desse material ajuda-lhe a consolidar o manejo do gênero o qual dominou com grande maestria. Ao lado de Lygia Fagundes Telles, Machado de Assis, Graciliano Ramos, Osman Lins entre outros nomes, Clarice se estabeleceu como uma das mais importantes contistas da literatura brasileira.

Por essa época, entra em contato com Lúcio Cardoso, um dândi, um boêmio, um intelectual inquieto, por quem ela se apaixona. Ela veio, mais tarde, a descobrir que Lúcio era homossexual. Havia uma impossibilidade de levar à frente um relacionamento com Lúcio. Ao longo de sua vida, pelo que se sabe, Clarice envolveu-se emocionalmente somente com três homens – Lúcio Cardoso, Mauri (pai dos seus filhos) e Paulo Mendes Campos.

Mais tarde se casaria com Mauri. O relacionamento consolidou-se enquanto ela ainda cursava Direito. Mauri passou em um concurso para o Itamarati. Foi por conta disso, que Clarice morou por alguns anos fora do Brasil – Itália, Suíça, Estados Unidos.

Enquanto estava morando na Suíça, Clarice ganhou primeiro filho. Escreveu seu segundo romance – “O Lustre”. A escritora era uma jovem recém-entrada na casa dos vinte anos. Uma das marcas que mais incutiram força em Clarice, foi a solidão e a saudade do Brasil. Apesar dos amigos, apesar das oportunidades de conviver com eventos diferentes, Clarice era povoada por grande inquietação. Aliás, esta foi uma característica que a perseguiu por todos os anos de sua vida.

Essa inquietação foi responsável pelo questionamento sobre as condições do seu casamento. Estar casada – e longe do Brasil – gestava questionamentos. Nesse sentido, Clarice oscilava em reflexões à semelhança de Joana, personagem central do seu romance de estreia, “Perto do coração selvagem”. A escritora escavava suas emoções; fazia perquirições sobre suas intenções mais íntimas. Por fim, decidiu voltar para o Brasil com os filhos. Mauri ficou nos Estados Unidos. Ele, ainda apaixonado; buscando reatar o relacionamento. Ela, esquiva. Tentaram uma última vez a aproximação, mas não foi possível. Clarice era imensa, possuía sentimentos indefiníveis e incógnitos. Novamente, pode-se evocar a célebre frase da personagem de “Perto do coração selvagem”: “Liberdade é pouco. O que desejo ainda não tem nome”. O inominável sempre foi o desejo das personagens criadas pela escritora. A vida de Clarice também foi repleta por uma tentativa de entender o indefinível.

Clarice Lispector.

De acordo com os depoimentos de Moser, Clarice era uma mulher que despertava paixão à primeira vista. Fisicamente ela era bastante atraente. Dos seus olhos emanava uma energia envolvente, misteriosa, capaz de criar uma funda impressão em quem, por muito tempo, ficasse próximo a ela. Sua voz possuía um sotaque carregado. Mas este não era resultado da dificuldade de pronunciar os verbetes da língua portuguesa. Ela viera, afinal, para cá, com dois anos. Fora alfabetizada em português. Tratava-se de uma anomalia que ela possuía na língua – e que poderia ser resolvida com uma cirurgia – mas que ela se negou a fazer.

Ao longo de sua vida, Clarice construiu amizades que duraram a vida toda. Mencionam-se, por exemplo, a íntima correspondência que estabeleceu com Fernando Sabino. A amizade construída com Érico Veríssimo, principalmente, com Mafalda, esposa de Érico. E, nos anos finais, com Olga Borelli, que organizou o seu espólio e foi fundamental como amiga e companheira.

A grande questão que se sobressai sobre Clarice é que ala foi uma mulher inquieta, dona de uma alma selvagem; de uma vontade indômita. Sua literatura é fruto de sua personalidade misteriosa e inquieta. À medida que a biografia avança, chegando aos anos finais da vida da escritora, nota-se o quanto ela se tornou uma mulher depressiva e excessivamente pessimista. Ou, talvez, aquilo representasse uma forma de estar consigo.

Na famosa entrevista que concedeu Júlio Lerner, no ano em que morreu, 1977, fica claro o quanto ela se tornara excessivamente dura – com a vida e com ela mesma. O entrevistador pergunta por quem ela sentia raiva. Ela responde indefectivelmente: “Comigo mesma!” Ele vai mais a fundo e questiona: “Por que Clarice?” Ela responde meio displicente: “Sei lá... eu tô meio cansada”. Júlio estica a pergunta um pouco mais: “De quê, Clarice!” Ela volta à carga: “De mim!” É um pebolim existencial. Num último questionamento, que buscava conciliar a inspiração da escritora com a própria vida, Júlio pergunta: “Mas você não nasce e se renova a cada trabalho novo?” Clarice responde de forma enigmática: “Bom... agora eu morri. Vamos ver se eu renasço de novo; por enquanto, eu estou morta. Estou falando do meu túmulo”. Uma pessoa que se revela de forma tão pungente, não poderia escrever outra coisa senão aquilo - e do modo - que ela escreveu.

A impressão que transmite é de uma pessoa que alcançara os cumes da amargura. Em outro momento da entrevista, ela diz que era uma pessoa “alegre”. Se deixava entrever, naquele momento, uma postura negativa era pelo fato de estar cansada. Talvez, como diz Olga Borelli em uma entrevista, fosse o resultado da doença que a mataria – o câncer nos ovários.

O livro de Moser é excelente. O texto possui clareza jornalística. Não enfada. Há uma excelente contextualização histórica. O escritor procura conciliar os dados biográficos da vida de Clarice, mas relaciona os fatos históricos com a habilidade incomum de um bom pesquisador. 

Abaixo, a última entrevista concedida pela escritora.








quinta-feira, março 25, 2021

100 anos de Clarice; algumas leituras

 


Em 2020 – mais precisamente, no dia 10 de dezembro -, o universo comemorou o nascimento de uma das mais geniais e enigmáticas romancistas. Daqueles seres que não somente a obra, mas a própria vida é um evento literário. Refiro-me à Clarice Lispector. Um astro enigmático que, com a sua face escura, esconde segredos e mistérios sempre por serem desvelados. Talvez, aí resida verdadeiramente os seus mistérios. Poderíamos inventar a expressão, quando percebêssemos um nível razoável de mistério ou de propensão a segredos escondidos: “Ele ou ela possui os mistérios de Clarice”. A escritora que nos remete ao "claro", mas que escondia em sua personalidade segredos eclipsados.

Meu contato com Clarice se deu ainda na minha adolescência. Quando em idade escolar, estabeleci contato com “A hora da estrela”, um livro relativamente curto, mas de leitura lancinante. Impressiona o que a narradora faz com a sua personagem. Esses dias, assistindo a um documentário sobre a escritora, escutei da diretora – Suzana Amaral (falecida o ano passado) - que adaptou a obra para o cinema, que a personagem do livro – Macábea – um símbolo do que é o Brasil. Achei a relação imensamente feliz. Nunca havia parado para pensar sobre a personagem a partir desta perspectiva. Macábea do alto de seu alheamento, de seu simplismo selvagem, de seu contentamento ingênuo, é o averso do Macunaíma de Mário de Andrade.

Mais tarde, li “A paixão segundo G.H.”, obra que ficou comigo por vários meses. Ler Clarice é mergulhar em um oceano largo e denso, de profundidade recôndita, que nos abraça, que nos embriaga, que nos toma e que acaba gerando transbordamentos reflexivos. Clarice é uma promotora de epifanias verbais. Não saímos ilesos de seu texto apaixonado. G.H. é a metáfora transfigurada de todo aquele que vive, mas não sabe que existe. Cada frase escrita por Clarice está repleta de larguezas, de abismos espelhados, onde nos vemos. E se demoramos demais a contemplar, somos tragados pela sua força irresistível.

Foi pensando nesse fato – os cem anos do seu nascimento – que decidi ler, ao longo do ano de 2021, pelo menos seis das suas obras – “Perto do coração selvagem” (já lido; farei alguns comentários sobre a obra em outro momento), “O lustre”, “Laços de Família”, “A maçã no escuro”, “Uma aprendizagem ou o Livro dos Prazeres” e “A descoberta do mundo”. São livros para os quais sempre tive curiosidade.

Em paralelo à leitura das obras, estou lendo a excelente biografia escrita por Benjamin Moser. O biógrafo é estadunidense. Chegou ao texto clariceano por acaso. Mas, como não poderia deixar de ser, acabou sendo tragado pelo magnetismo do texto da dama da literatura brasileira. Em outro momento, procurarei “rascunhar” algumas palavras sobre o seu texto.

Sigamos.  

domingo, dezembro 27, 2020

Um pequeno balanço livresco


 Acredito que tenha conseguido ler o meu último livro do ano de 2020. Uso a palavra "acredito", pois penso que não terei condições de terminar nenhuma outra leitura, entre aqueles que estou fazendo, ao longo da última semana do ano. Pais e filhos, de Ivan Turgueniev, era um projeto antigo de leitura - como tantos que possuo. Terminei-o ontem.

Não foi um ano fácil. Li menos do que eu queria, todavia, mais do que eu podia. Para leitores com uma compulsão megalomaníaca como eu, que ficam esmorecidos quando não conseguem ler, perceber a existência de obstáculos para a consecução da leitura é sempre uma tragédia. 

O ato de ler é uma atividade curiosa. Esse ano difícil em vários cenários, serviu para mostrar para mim que livros são como montanhas - algumas, quando olhamos debaixo, parecem intransponíveis. Mas elas são e continuam assim até que nos decidamos a subir. 

Há livros que, ao olharmos a sua lombada, a sua espessura extensa, assustamo-nos. Um retraimento covarde nos convence a não enfrentá-los. Isso é uma advertência enganosa. Arrumamos tempo para fazer tantas coisas, por que não organizamos o tempo para realizar algumas necessárias leituras? 2020 permitiu que eu realizasse alguns desejos. Por exemplo, consegui ler A besta humana, do escritor francês Émile Zola. Li ainda o delicioso O lobo do mar, do Jack London. Outro livro lido - e esse ficou entre os grandes que já li - foi O senhor da moscas, do nobelino William Golding. 

Outro livro de fundamental leitura foi o extraordinário Nada de novo no front, do alemão Erich Maria Remarque. O livro é uma aula sobre as transformações ocorridas no interior de um combatente durante a Primeira Guerra Mundial. O brilhantismo da narrativa aproxima-o de Os contos de Kolimá, do russo Varlam Chalámov.

Acredito que o maior desafio do ano tenha sido a leitura da extraordinária biografia sobre o chefe da propaganda nazista - Joseph Goebbels - escrito por Peter Longerich. A leitura aconteceu de forma lenta. Arrastada. Em alguns momentos, pensei realizar uma tarefa que nunca teria fim. O livro aproxima-se das novecentas páginas. Ao terminá-lo, fiquei com um senso de dever cumprido e uma sensação gratificante de que eu era capaz de enfrentar desafios aparentemente assustadores. 

É baseado nessa experiência que, no ano de 2021, tenho três grandes montanhas para galgar: (1) Brasil - uma biografia, da Lilia Moritz Schwarcz; (2) Os demônios, de Dostoiévski; (3) Jane Eyre, da Charlotte Brontë (a belíssima edição da Zahar). 

Penso ainda em ler de maneira mais detida (pelo menos uns cinco livros de cada) Clarice Lispector - por causa de seu centenário - e Lygia Fagundes Telles, para quem as apresentações são dispensáveis. Pretendo ainda ler três ou quatro obras de Jorge Amado, projeto que iniciei em 2020.

Claro, em 2020 houve outras leituras. Mas, acredito que o mais significativo tenha sido isso. 

No próximo ano, o horizonte (observando à distância) apresenta as mesmas tinturas melancólicas - filho, dois empregos, acordar cedo, grandes deslocamentos diários; tempo escasso etc. Mas, é importante continuar fazendo menos do que eu queria, todavia, mais do que eu podia.

domingo, junho 21, 2020

Lista com os 200 romances ocidentais necessários, segundo Idelber Avelar

Serviço de utilidade pública para quem deseja mergulhar nos profundos e inefáveis mundos da literatura. O professor Idelber Avelar, grande especialista no assunto, fez uma lista com 200 romances que ele, simplesmente, nominou como "os 200 maiores romances ocidentais". Sabemos que as listas são controversas. São resultado de experiências individuais, por isso, são idiossincráticas. Todavia, como se trata de alguém que conhece o assunto sobre o qual está falando, devemos, minimamente, prestar atenção. 

Trata-se de tarefa difícil. Certamente, muita coisa boa fica de fora. Mas, estão ali Cervantes, Dostoiévski, Machado de Assis, Flaubert, James, Graciliano, James, Musil, Saer, Virginia Woolf, Tolstói, Auster, Clarice Lispector e até mesmo meu querido José Lins do Rego com o espetacular Fogo Morto

Segundo o próprio Idelber, os critério utilizados foram:  "qualidade (realização estética), influência (legado no cânone) e importância (que pode não ser redutível nem à qualidade nem à influência), combinados, claro, com minhas próprias idiossincrasias pessoais". 

E, ainda, eclarece: "Em geral, nessas listas, o romance europeu, especialmente de línguas inglesa e francesa, costuma estar sobrerrepresentado. Esta lista concede o protagonismo que julgo merecido à América Latina. Dez dos romances listados aqui são brasileiros. Doze são argentinos. Sete são mexicanos, e Colômbia, Peru e Uruguai estão representados por dois títulos cada. Há três romances cubanos".

Uma das facetas mais interessantes do trabalho do professor Idelber foi ter procurado os links espalhados pela internet e disponibilizá-los na sequência. Isso é que trabalho de humanização.  

Segue a lista: 


1 — Ulysses, James Joyce.

2 — Don Quijote de la Mancha, Miguel de Cervantes.

3 — Grande sertão: veredas, João Guimarães Rosa.

4 — Os irmãos Karamazov, Fiódor Dostoiévski.

5 — Moby Dick, Herman Melville.

6 —Madame Bovary, Gustave Flaubert.

7 — The ambassadors, Henry James.

8 — Der Prozess, Frank Kafka.

9 — Light in August, William Faulkner.

10 — Paradiso, José Lezama Lima.

11 — Anna Kariênina, León Tolstói.

12 —Der Zauberberg, Thomas Mann.

13 —To the lighthouse, Virginia Woolf.

14 —Museo de la novela de la eterna, Macedonio Fernández.

15 —Die Wahlverwandtschaften, Goethe.

16 — Voyage au bout de la nuit, Louis-Ferdinand Céline.

17 —A tale of a tub, Jonathan Swift.

18 — Der Mann ohne Eigenschaften, Robert Musil.

19 — El entenado, Juan José Saer.


21 — La vida breve, Juan Carlos Onetti.

22 —The golden bowl, Henry James.

23 — Illusions perdues, Honoré de Balzac.

24 — Pedro Páramo, Juan Rulfo.

25 —Memórias póstumas de Brás Cubas, Machado de Assis.


27 — The sound and the fury, William Faulkner.

28 — The wings of the dove, Henry James.

29 — A book of memories, Péter Nádas.

30 — Guerra e paz, León Tolstói.

31 —Emma, Jane Austen.

32 — The U.S.A. trilogy, John dos Passos.

33 — Le rouge et le noir, Stendhal.

34 —Darconville’s cat, Alexander Theroux.

35 — Frankenstein, Mary Shelley.

36 — Les misérables, Victor Hugo.

37 — Recuerdos del porvenir, Elena Garro.


39 —Crime e castigo, Fiódor Dostoiévski.

40 — Die Angst des Tormanns beim Elfmeter, Peter Handke.

41 — Gulliver’s travels, Jonathan Swift.

42 — The New York Trilogy, Paul Auster.

43 —As I lay dying, William Faulkner.

44 — Orlando, Virginia Woolf.

45 — The picture of Dorian Gray, Oscar Wilde.

46 — La traición de Rita Hayworth, Manuel Puig.

47 — Austerlitz, W.G. Sebald

48 — À la recherche du temps perdu, Marcel Proust.

49 — Conversación en la catedral, Mario Vargas Llosa.

50 — The man in the high castle, Philip K. Dick.

51 — Yo, el supremo, Augusto Roa Bastos.

52 — Das Schloss, Franz Kafka.

53 — El luto humano, José Revueltas.


55 — A relíquia, Eça de Queiroz.

56 — Glosa, Juan José Saer.

57 — Tom Jones, Henry Fielding.

58 — The lord of the rings, J.R.R. Tolkien.

59 — Gravity’s Rainbow, Thomas Pynchon.

60 — The narrative of Arthur Gordon Pym, Edgar Allan Poe.

61 — Sabbath’s Theater, Philip Roth.

62 — Adán Buenosayres, Leopoldo Marechal.

63 — The map of love, Ahdaf Soueif.


65 — Pais e filhos, Ivan Turguêniev.

66 — Lady Chatterley’s lover, D. H. Lawrence.

67 —Respiración artificial, Ricardo Piglia.

68 — Die Verwandlung, Franz Kafka.

69 — Il nome della rosa, Umberto Eco.


71 — Moll Flanders, Daniel Defoe.

72 —2666, Roberto Bolaño.

73 — Porque parece mentira la verdad nunca se sabe, Daniel Sada.

74 — Bartleby, Herman Melville.

75 — Perto do coração selvagem, Clarice Lispector.

76 — The female Quixote, Charlotte Lennox.


78 — It, Stephen King.


80 — Cien años de soledad, Gabriel García Márquez.

81 — Mansfield Park, Jane Austen.

82 — Lord of the flies, William Golding.

83 — Vineland, Thomas Pynchon.

84 —A confederacy of dunces, John Kennedy Toole.

85 — Los pasos perdidos, Alejo Carpentier.

86 — Berlin Alexanderplatz, Alfred Döblin.

87 — Gargantua et Pantagruel, François Rabelais.

88 — L'amica geniale, Elena Ferrante.

89 —The talented Mr. Ripley, Patricia Highsmith.

90 — Blood Meridien, Cormac McCarthy.

91 — Les mystères de Paris, Eugène Sue.

92 — Le Père Goriot, Honoré de Balzac.

93 — The man who was Thursday, G. K. Chesterton.

94 — Les trois mousquetaires, Alexandre Dumas.

95 — The awakening, Kate Chopin.

96 — Venus im Pelz, Sacher-Masoch.

97 — El pasado, Alan Pauls.

98 — L’étranger, Albert Camus.

99 — How the dead live, Will Self.

100 — Midnight’s children, Salman Rushdie.

101 — Jude the Obscure, Thomas Hardy.

102 — Murder on the Orient Express, Agatha Christie.

103 — Song of Solomon, Toni Morrison.

104 —Los trabajos de Persiles y Segismunda, Miguel de Cervantes.

105 — Die Blechtrommel, Günter Grass

106 — La modification, Michel Butor.

107 — Fogo morto, José Lins do Rego.

108 — Les Mandarins, Simone de Beauvoir.

109 — The big sleep, Raymond Chandler.

110 — El zorro de arriba y el zorro de abajo, José María Arguedas.

111 — Germinal, Émile Zola.

112 — The war of the worlds, H. G. Wells.

113 —Os cus de Judas, António Lobo Antunes.

114 — Brave new world, Aldous Huxley.

115 — La coscienza di Zeno, Italo Svevo.

116 — Breakfast at Tiffany’s, Truman Capote.

117 — The last September, Elizabeth Bowen.

118 —Farabeuf, o la crónica de un instante, Salvador Elizondo.

119 — Jane Eyre, Charlotte Brontë

120 —Main street, Sinclair Lewis.

121 — Terra Nostra, Carlos Fuentes.

122 — Avalovara, Osman Lins.

123 —Santa Evita, Tomás Eloy Martínez.

124 — The scarlet letter, Nathaniel Hawthorne.

125 — Candide, Voltaire.

126 — The red badge of courage, Stephen Crane.

127 — Bouvard et Pécuchet, Gustave Flaubert.

128 — Go tell it on the mountain, James Baldwin.
 
129 — Wilhelm Meister, Goethe.

130 —Atonement, Ian McEwan.

131 — Les faux-monnayeurs, André Gide.

132 — Catch-22, Joseph Heller.

133 — La vie: mode d’emploi, Georges Perec.

134 — The handmaid’s tale, Margaret Atwood.

135 — Memoires d’Hadrien, Marguerite Yourcenar.

136 — Doña Bárbara, Rómulo Gallegos.

137 — Lolita, Vladimir Nabokov.

138 — The waves, Virginia Woolf.

139 — Slaughterhouse five, Kurt Vonnegut.

140 — Winnesburg, Ohio, Sherwood Anderson.

141 — Heart of darkness, Joseph Conrad.

142 — Infinite jest, David Foster Wallace.

143 — La invención de Morel, Adolfo Bioy Casares.

144 — American pastoral, Philip Roth.

145 — Kindred, Octavia E. Butler.

146 — Dom Casmurro, Machado de Assis.

147 — A clockwork orange, Anthony Burgess.

148 — Juntacadáveres, Juan Carlos Onetti.

149 — Crônica da Casa Assassinada, Lúcio Cardoso.

150 — Os demônios, Fiodor Dostoiévski.

151 — A farewell to arms, Ernest Hemingway.

152 — Oppiano Licario, José Lezama Lima.

153 — Great expectations, Charles Dickens.

154 — Histoire de l’ oeil, Georges Bataille.

155 —Rebecca, Daphne du Mourier.

156 — American Psycho, Bret Easton Ellis.

157 — Their eyes were watching god, Zora Neale Hurston

158 — Ragtime, E. L. Doctorow.

159 — Um defeito de cor, Ana Maria Gonçalves.

160 — The grapes of wrath, John Steinbeck.

161 — Clarissa, Samuel Richardson.

162 — Los siete locos, Roberto Arlt.

163 — The hound of the Bakersville, Arthur Conan Doyle.

164 — The Maltese falcon, Dashiel Hammet.

165 —Oficio de tinieblas, Rosario Castellanos.

166 — Underworld, Don DeLillo.

167 — Le paysan de Paris, Louis Aragon.

168 — Doktor Faustus: Das Leben des deutschen Tonsetzers Adrian Leverkühn, erzählt von einem Freunde, Thomas Mann.

169 — The violent bear it away, Flannery O’Connor.

170 — The great Gatsby, Scott Fitzgerald.

171 — L’éducation sentimentale, Gustave Flaubert

172 — The gods themselves, Isaac Asimov.

173 — Invisible man, Ralph Ellison.

174 — O mestre e a margarita, Mikhail Bulgakov

175 — Les liaisons dangereuses, Choderlos de Laclos.

176 — I promessi sposi, Alessandro Manzoni.

175 — La pelle, Curzio Malaparte.

176 — Doktor Zhivago, Bóris Pasternak.

177 — Eugene Oneguin, Alexander Pushkin.

178 — Pale fire, Vladimir Nabokov.

179 — Cicatrices, Juan José Saer.

180 — Native son, Richard Wright.

181 — The bell jar, Sylvia Plath.

182 — The last of the mohicans, James Fenimore Cooper.

183 —El beso de la mujer araña, Manuel Puig.

182 — To kill a mocking-bird, Harper Lee.

183 — Dracula, Bram Stoker.

184 —Fahrenheit 451, Ray Bradbury.

185 — Wuthering Heights, Emily Brontë.

186 — Under the volcano, Malcolm Lowry.

187 — Hasta no verte, Jesús mío, Elena Poniatowska.

188 — The color purple, Alice Walker.

189 — Murphy, Samuel Beckett.

190 —Changó, el gran putas, Manuel Zapata Olivella.

191 — Justine ou les malheurs de la vertu, Marquês de Sade.


193 — Sister Carrie, Theodore Dreiser.

194 — Brideshead revisited, Evelyn Waugh.

195 — São Bernardo, Graciliano Ramos.

196 — Voyage au centre de la Terre, Jules Verne.

197 — Almas mortas, Nikolai Gógol.

198 — Indiana, George Sand.

199 — Middlemarch, George Eliot.

200 —Dois irmãos, Milton Hatoum.

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