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quinta-feira, setembro 03, 2026

Devaneios kiekergaardianos

O Sacrifício de Isaac (Caravaggio) - 1603. 

Certa vez, ao ler uma obra do filósofo dinamarquês Sören Kiekergaard, esbarrei na desassossegada afirmação: “Não consigo entender Abraão”. Essa frase tem feito eco em minha cabeça. Desde que a li, fico a pensar em seu significado. Ela reflete em espelhos côncavos de minha interioridade – “Não consigo entender Abraão”. O que o filósofo existencialista não entendia exatamente? Que detalhe específico da personalidade do patriarca bíblico criava essa inquietante incógnita? 

Em primeiro lugar é importante situar o contexto de onde a sentença é oriunda. Kiekergaard abordava o pedido feito por Deus a Abraão para que Isaque, o filho da velhice do patriarca, fosse oferecido como holocausto no monte Moriá (Gn 22.3). Esse episódio representa o ápice de uma prova imposta a um indivíduo. Biblicamente, Abraão é conhecido como “o pai da fé” (Hb 11.17-19). Kierkegaard o chama de “o cavaleiro da fé”.

O velho patriarca ao manifestar, silenciosamente, a intenção de sacrificar o filho da promessa, revela a incondicionalidade de um problema – os preceitos de uma ética horizontal, portanto, terrena, são substituídos por uma dimensão do singular. Vale mencionar que Isaque era aquele a quem foi feita a promessa. Era, portanto, o filho da velhice, aquele cuja concepção por si só fora um milagre. 

Há aqui uma suspensão dos preceitos das convenções da ética, conforme a conhecemos. Ela suplanta os enquadramentos racionais. Qual pai em sã consciência sacrificaria o próprio filho a fim de satisfazer a um pedido que parecia duvidoso? Na relação com Deus, há uma impossibilidade de tornar essa mesma relação em algo comunicável pela razão. Por isso, a fé ganha um contorno paradoxal. Somente uma fé inquebrantável, assumidamente compromissada com a paixão seria capaz de tal feito. Conforme expressa o próprio Kierkegaard, a fé é o que fica quando todas as outras realidades se esgotam. Ter fé é assumir uma postura radical diante da existência. É um gesto que faz transcender a própria vida. A fé passa a ser uma maneira radical de existir diante de Deus.

A fé carrega um paradoxo, pois Abraão, ao mesmo tempo que obedece a Deus, levando o próprio filho para ser sacrificado, acredita que Isaque, de algum modo, continua a ser o filho da promessa. Diante disso, ela se afasta dos cálculos e previsões à medida que tentamos aprisioná-la. Voa mais alto, enquanto desenhamos asas para apanhá-la. Ela é frágil e potente. Diante da fé, o que resta é o silêncio. Uma decisão que torna o universo um mero espectador. Um palco onde o jogo da própria existência será observado.

Abraão é “o pai da fé”, “o pai de todos aqueles que creem” (Rm. 4.11). Ele é assim denominado, pois carregava a esperança, uma certeza inabalável, uma convicção robusta sobre quem havia feito o pedido.

Também não compreendemos Abraão. A razão não o compreende. É a disposição mais geral sobre o seu procedimento. Não compreendemos, pois não conseguimos medir a dimensão mais radical de sua fé. Isso apenas sugere o quanto resistimos a viver esse compromisso de uma decisão radical. Olhando sob esse ponto de vista, também custa-me entender Abraão. 

 

domingo, maio 08, 2016

Cinco de maio, aniversário de Karl Marx e Kierkegaard

Kiekergaard (esq.) e Karl Marx (dir.)
"A nossa existência é vivida para frente, mas entendida quando olhada para trás". Esta frase sempre me serviu de bússola. Em vários momentos em que me vi incompreendido, sem saber que direção tomar ou, simplesmente, buscando entender um evento, um comportamento meio autômato, ela surgiu sorrateira como um luzeiro e me fez colocar os pés no chão e continuar a caminhada. A frase pertence ao filósofo dinamarquês Sorem Aabye Kierkegaard. Ora, por que me remeto a ele assim de forma gratuita? Quinta-feira, dia cinco de maio, o mundo comemorou 203 anos do seu nascimento. 

Coloco Kierkegaard entre as minhas preferências filosóficas, assim como outras criaturas preocupadas com a existência - Agostinho, Pascal e Nieztsche. Os dois primeiros inequivocamente cristãos e, o último, alguém que buscava o conhecimento de si, desvencilhando-se de tudo aquilo que cheirasse a niilismo, sendo que o cristianismo se constituía uma grande abertura que impelia a um mundo de farsa, de negação da vontade, de resignação a um moral de escravo. Enquanto estivermos ocupados com deuses e uma moral mesquinha, jamais nos auto-determinaremos como sujeitos.

Curiosamente, no dia cinco de maio, outro filósofo que aprendi a admirar também, completou aniversário - 198 anos do nascimento do filósofo alemão Karl Marx. Marx anda na direção contrária de Kierkegaard. Aquele não olhava para dentro de si para determinar o mundo, como este procurava fazer. O alemão entendia que as relações que constituem o sujeito são forjadas na história. A base abstrata do homem, algo tão caro para o pensamento kierkegaardiano, é para Marx forjada a partir de determinada forma social. Ou seja, aquilo que é sentido e criado, é "a consciência invertida do homem", conforme diz Marx. O único ponto em comum dos dois é Hegel. Os dois haviam sido hegelianos quando jovens.

O que explica a minha predileção por dois filósofos que são antípodas? É possível conciliar essa discrepância? Como suavizar por meio de uma uniformização frases como estas: "A verdade é a subjetividade" (Kierkegaard); e "Não é a consciência dos homens que determina seu ser, mas, pelo contrário, seu ser social é que determina sua consciência"? (Karl Marx). 

Não é minha pretensão amarrar as pontas desse lençol de costura intrincada. Todavia, tento conciliar uma explicação, romantizando o presente fato. Kierkegaard, assim como os filósofos que citei acima, preenche minha parte mais intuitiva, mais propensa às metáforas, ao sentir poético; às projeções idealistas. Embora Kierkegaard estivesse à procura de um sentido que determinasse a sua existência ("procuro uma verdade que seja verdadeira para mim"), a frase que inicia o texto possui de forma subjacente elementos do devir, que é tão necessário para fecundar o pensamento de Marx. Olhando para trás, percebendo as curvas silentes, os saltos por vales cerrados, por escarpas longínquas, a história me forjou tal qual sou. Se sinto, se poetizo a vida, se procuro sentir, se mesmo não acreditando na religião institucional, fio-me por "uma vida na fé", acercando-me da terceira etapa do pensamento de Kierkegaard (estética, moral e fé) - claro, guardando as devidas proporções. Fé aqui não deve ser entendido em sentido comum. Fé a possibilidade de destruir todas as finitudes e transformar a existência em algo que está acima das pequenas coisas da vida.

Já Karl Marx me ajuda a colocar os pés no chão da história. Ajuda-me a despistar as convenções sociais forjadas, construídas para amarrar e impedir que compreendamos que existe um movimento latente, capaz de mudar o curso do mundo material. São os homens que constroem a história. Interpretá-la apenas não a torna um palco favorável à minha condição. Marx afugenta as ilusões. Em Marx, sentimos que a realidade é dura, que ela tem um corpo afiado e inquieto. Na teríamos essa consciência, não sentiríamos como sentimos; não leríamos o mundo como lemos; não perceberíamos como percebemos; não seríamos iludidos como somos; as estruturas jurídicas, políticas, religiosas, educativas, artísticas, filosóficas, morais seriam outras, se outras fossem as determinantes econômicas, se outras fossem as estruturas que determinam o ser social. 

Kierkegaard me impele ao ser; Marx, à ação. Em mim não há antagonismos. Antagônicas são as ideias. O ser tenta acolhê-las. Agasalhá-las. Tendo a consciência de que o fluxo contínuo de movimento forja as ideias, cria pessimismos e alegrias; cria a dureza para suportar e a sensibilidade que nos leva ao choro; a melancolia incontida e o gozo pela expectativa de vitória, sou enquanto sigo; mas sou sabedor de que a caminhada me marca, risca-me com o seu cinzel. Se tenho a percepção que tenho, não foi de forma gratuita. Sou assim, porque não sou de outro modo; mas, sendo como sou, posso ser de outro modo, desde que lute para sê-lo. Em quando assim for, olharei para trás compreenderei o ser que levo e tenho.

Parabéns, Marx e Kierkegaard!

quinta-feira, janeiro 02, 2014

Alguns devaneios e um livro de Paul Tillich - "História do pensamento cristão"

Paul Tillich
Sempre fui religioso. Durante muito tempo, o medo e a culpa foram as minhas principais religiões. Fiz minhas preces. Li a Bíblia quatro ou cinco vezes. Frequentei igreja. Elaborei prédicas. Semeei esperanças e julgamentos. Tudo em nome de um dogma. Estudei em um seminário. Formei-me em teologia. Perscrutei como são as entranhas da religião. Senti o cheiro de seus órgãos. Como são estruturados os seus tecidos. A régua de cálculo é a teologia. É com ela que se mede os espaços; que se estabelece aquilo que é certo ou errado. A religião é, por natureza, dicotômica. Ela não existe sem um "sim" e sem um "não". Ou seja, ela não consegue existir sem a ideia de "bem" e sem a ideia de "mal". De "bem" se chama aquilo que está harmonizado com os ditames do dogma; de "mal" se chama aquilo que não está de acordo com as sentenças do dogma.

Analisando friamente a história da evolução do homem, chegamos a conclusões desconcertantes. Tudo está na história. Ela explica o presente. A questão essencial passa a existir quando negligenciamos a análise dos processos históricos. O mundo sempre foi o mesmo? Os antigos não estruturaram as nossas consciências? A resposta para as certezas do presente não estariam no passado? 

Hoje temos a tecnologia por todos os lados. Ela nos pervade. Estamos tão acostumados a ela, que achamos estranho quando ficamos sem nosso celular ou sem acessar a rede mundial de computadores; ou quando a energia elétrica tem o fornecimento prejudicado. Acostuma-nos às informações. Quando queremos saber algo vamos ao Google. Lá encontramos todas as respostas. Tudo é tão óbvio. A medicina caminha a passos largos. Conseguimos coibir boa parte da enfermidades que eram capazes de dizimar populações inteiras.  Temos ressonâncias computadorizadas sofisticadíssimas. Enxergamos, hoje, o núcleo essencial da vida. Mapeamos geneticamente o DNA. Vimos que não estamos distantes dos outros seres do ponto de vista genético. Existe um nível de parentesco muito grande - principalmente, com os primatas. Podemos escolher o sexo, a cor dos olhos, do cabelo das crianças.

Sören Kierkegaard

Mas tudo foi assim? E quando queríamos entender essas coisas e não tínhamos um aparato científico tão desenvolvido? É, justamente, aí que entra a religião. Ela foi a primeira forma de explicação. Os mitos surgiram como forma de explicar a materialidade. Os antigos, simplesmente, disseram: "É vontade dos deuses!" Era a forma de construir diques contra o caos de uma existência fincada no nada. Em momentos de solidão, de agonia, de dor, o melhor remédio é saber que não se está sozinho. Daí, ao se criar um "ser invisível", "onipotente", "onipresente", que vigia e guarda os nossos desejos, passamos a experimentar uma estabilidade psicológica. Feuerbach, filósofo alemão do século XIX, costumava dizer que religião é "antropologia". Eu diria, também, que religião é "psicologia". Tudo é resultado de uma consciência depositada em receptáculo onipotente (deus), que passa a guardar, salvar, premiar, privilegiar e explicar a totalidade do universo. 

O crente encontra tudo o que ele procura em sua fé. Ela explica tudo. Tire-se a fé e ele tem as suas estruturas psicológicas abaladas. Todavia, ele não sabe que tudo está em nós. Ou seja, a religião revela intimidade do próprio homem. Seus medos. Inseguranças. Seus desejos velados. Sua necessidade de justiça ante a injustiça. Sua vingança contra os cataclismos de um mundo desordenado. É a saudade sentida por algo que ele nunca experimentou, que se transforma em torrente psicológica quando ele verbaliza para um ente invisível. Deus é o próprio homem querendo achar a si mesmo na noite escura da alma. 

Ocorreram-me esses devaneios, depois que li o livro História do Pensamento Cristão, de Paul Tillich, um dos maiores teólogos da história do cristianismo protestante. Tillich era polonês e após ter participado da Primeira Guerra Mundial teve as suas percepções sobre o ser humano e a história completamente alterados. Por ter vivenciado as agruras da guerra como capelão, observou o quanto o ser humano é habitado por uma torpeza absurda. Abraçou uma epistemologia existencialista. Kierkegaard é um dos progenitores do seu pensamento. Leciounou teologia em um seminário que tinha nomes como Heidegger e Rudolf Bulltmann. E a partir desse entendimento buscou trazer lampejos de esperança ao homem do século XX. A desolação de uma época fundada na desesperança fez com que Tillich construísse uma teologia que respondia a um questionamento: "Onde está Deus em meio a tudo isso? Onde achar esperança?" E Tillich respondia: "A mensagem de esperança está escondida em ti. Deus é um evento relativo que está escondido em ti mesmo, ó homem do caos". 
 
A mensagem, necessarimente relevante, é aquela que responde a uma necessidade pessoal. A religião fica nua, sem os seus dogmas, sem as suas folhagens; sem seus códigos construídos pelos "eminentes" teólogos. Ou seja, a filosofia passa a está à frente da fé. Não é a fé que, agostianamente, dita o que é certo ou errado em matéria de crença, mas a existência que determina o ser ou não-ser.  Poderia dizer que é um quase tomismo sem o método escolástico. 

O livro de Tillich solidificou uma desconfiança que há muito me acompanhava. Vi como os dogmas do cristianismo, as polêmicas e o pensamento hegemônico se consolidaram. O mundo que está aí foi montado por alguém. E essa deve ser a premissa. Ora, quem "construiu" os dogmas do cristianismo? Por que se crer desse jeito e não de outro? Por que o mundo ocidental é cristão e não politeísta ou não se tem uma fé gnóstica? Por que se crer na trindade? Esse conceito sempre existiu? A dupla natureza de Cristo é algo que sempre foi acreditado dessa forma? E os livros bíblicos ditos sagrados, quem os tornou "santos"? E o dogma do pecado original? 

São questões que devem ser respondidas com máxima urgência. Quando se olha para a história, nota-se que determinados sujeitos construíram esses conceitos. Os concílios fomentaram aquilo que se deveria crer e aquilo que não se deveria crer. Ou seja, o mundo ocidental acredita naquilo que foi construído pela institucionalização de um movimento. A cultura hegemônica de um povo tornou-se a referência absoluta incomparável. Gramsci afirma de forma lapidar sobre esse tema: 

Antonio Gramsci
"(...) A história da filosofia, como é comumente entendida, isto é, como história das filosofias e dos filósofos, é a história das tentativas e das iniciativas ideológicas de uma determinada classe de pessoas para mudar, corrigir e aperfeiçoar as concepções do mundo existentes em todas as épocas determinadas e para mudar, portanto, as normas de conduta que lhes são relativas e adequadas, ou seja, para mudar a atividade prática em seu conjunto"
"A filosofia de uma época não é filosofia deste ou daquele filósofo, deste ou daquele grupo de intelectuais, desta ou daquela grande parcela das massas populares: é uma combinação de todos estes elementos, culminando em uma determinada direção, na qual sua culminação torna-se norma de ação coletiva, isto é, torna-se "história" concreta e completa (integral)". 
"A filosofia de uma época histórica, portanto, não é senão a história desta mesma época, não é senão a massa de variações que o grupo dirigente conseguiu determinar na realidade precedente: neste sentido, história e filosofia são inseparáveis, formam um "bloco". (GRAMSCI, 1981, p.32).

Assim, nota-se que a construção de determinada massa ideológica ou determinado força filosófica hegemônica se dá em determinado momento histórico pelo grupo majoritário, pelo jogo de interesses do grupo dominante. Os dogmas ou os sentidos da fé são resultado da força da Igreja que açambarcou a estrutura do Estado romano e se tornou a força ideológica totalizante. Os filósofos, teólogos, são, simplesmente, debatedores de uma dogma criado superestrutura que tinha a Igreja como força oficial. Ou seja, debatiam o status quo filosófico.

O livro do Tillich é relevante. Ele faz um passeio pela história. Discute o pensamento de cada filósofo e as querelas suscitadas pelas filosofias de cada um deles. Boa parte do livro é dedicado a discutir o pensamento teológico e filosófico dos primeiros séculos da era cristã. Explica os principais movimentos filosóficos religiosos que faziam parte do background dos mundos grego e romano e que foram extirpados pelo cristianismo. Teólogos importantes como Pelágio, Orígenes, Filo de Alexandria, Ário, Sabélio, tiveram seus pensamentos colocados na marginalidade pela força oficial da Igreja. As cidades importantes que fomentaram importantes debates - Alexandria, Antioquia, Bizâncio, Calcedônia.

Discute os principais nomes da filosofia e da teologia medieval - Tomás de Aquino, Abelardo, Bernardo de Claraval, Joaquin de Fiori, Anselmo, Guilherme de Ockham, Meister Eckhart. Discute os principais dogmas da Reforma e da Contra-Reforma. Discute, em seguida, o movimento escolástico protestante e o iluminismo. O livro é excelente para quem quiser conhecer profunda e filosoficamente como a fé ocidental está estruturada. O livro, na verdade, é resultado das aulas de Tillich dadas no período em que ele morou nos Estados Unidos.

Tinha o livro desde 2007 e li no final de dezembro último. O interesse foi tão salutar que comprei o outro livro do teólogo (Perspectivas da Teologia Protestante nos séculos XIX e XX), em que Tillich aborda a filosofia e a teologia dos séculos XIX e XX. Consegui-o em um sebo de Goiânia pela bagatela de vinte e um reais. Está novinho em folha.

GRAMSCI, Antonio. Concepção Dialética da História. Civilização Brasileira. trad. Carlos Nelson Coutinho, São Paulo. 1981, pp. 341

TILLICH, Paul. História do pensamento cristão. ASTE. São Paulo. 2004, pp. 293

terça-feira, agosto 13, 2013

Um comentário sobre (D)(d)eus...

 Comentário escrito no blog do Charlles

"Bonita a sua confissão sobre (D)deus, Charlles. Aproxima-se bastante daquilo que creio, também, sobre espiritualidade. Há muito frequentei uma igreja presbiteriana. Contaram-me a história de um deus institucional, zangado, cheio de caprichos e caricaturado à imagem e semelhança dos judeus. Deixei de lado, ri sardonicamente na cara desse deus. Disse que ele era uma mentira. Uma fraude cosmológica. Alguém recalcado. Disse ainda que a mitologia grega era mais bonita do que tudo aquilo que me falaram sobre ele.

Solidarizo-me com as suas palavras. Existe no ser humano uma voz lancinante que clama por espiritualidade. Uma espécie de necessidade do belo. E aí encontro a ideia de deus. É, por isso, que passei a me relacionar com a ideia de deus melhor quando dessacralizei a bíblia e passei a lê-la como um livro de literatura, evocando um grande teólogo alemão chamado Rudolf Bulltmann de espistemologia kierkegaardiana e heideggeriana. Um personagem como Jesus certamente se assemelha a um Dom Quixote em sua sede pela verdade; ou um príncipe Michkin com sua necessidade de justiça. E aí encontro um apaziguamento necessário às minhas necessidades. Existem hinos mais bonitos que as sonatas de Beethoven ou de Mozart; ou a obra espiritual de Bach?

Ser espiritual é encontrar poesia em cada átomo da existência, em cada centelha da vida. Nesse sentido, encontro a espiritualidade da afirmação da vida, sempre - como diria Nietzsche. Julgo o movimento ateísta essencialmente radical. É um fundamentalismo sem deus. Ou seja, uma religião radical que prega a ausência de algo, mas que torna essa mesma ausência em uma entidade que se sobrepõe a tudo.

Abraços cordiais, Charlles!"

domingo, agosto 04, 2013

Uma pensata a partir de um post da ATEA

Kierkegaard já dizia isso. É que a fé não lida com categorias materializáveis, mas com o invisível, com o intangível. Lembrando aquele velho princípio agostiniano: "Creio para depois pensar". Além do que o dogmatismo da fé é uma categoria não relatizável. O crente sente sua "existência" abalada quando essa suposta "verdade" é colocada em xeque. Daí, ou se aceita a fé como verdade incondicional ou se põe abaixo toda aquela epistemologia capaz de explicar todos os fenômenos universais. Se ele relativiza, aquilo que ele crer deixa de ser "verdade" e passa a ser apenas mais uma narrativa como as tantas que já existem. Para o crente, deixar de dialogar com essa "verdade" é "perder a fé" e correr um sério risco. Admirável a fala de Carl Sagan.

terça-feira, junho 18, 2013

Para quem os protestos? O Brasil muda com o voto?

A bíblia, tida por sagrada pelos cristãos, é um livro notável. Gosto de sua profundidade espiritual. De sua profusão de temas literários. De seus conselhos altos. De suas sentenças proverbiais. Como em uma passagem da qual me lembrei hoje à noite. Recordei-me da passagem por está lendo algumas frases, amontadoados de sentenças, textos de opinião, jaculatórias insensatas de leigos, via Facebook, afirmando que o melhor protesto é saber votar em 2014. Rapidamente me veio à mente um texto bíblico. O texto está em um dos evangelhos. Jesus diz que é, simplesmente, impensado colocar vinho novo em odres velhos. Acho essa passagem fantástica. Aqui Jesus diz que o velho não comporta o processo novo. É inapropriado por causa da natureza daquilo que é velho e a natureza daquilo que é novo.

É bom ver a população brasileira saindo às ruas para exigir um país mais justo, menos corrupto, com lideranças comprometidas com justiça social, ética e honestidade. Todavia, penso que falte foco a essas manifestações. É  mais ou menos assim: chegamos até aqui. E agora, José? O que fazer? Seria interessante que se estudasse um texto de Vladimir Lênin - "Que fazer?" - que é bem oportuno ao momento. Fico receoso que após todas essas marchas o otimismo arrefeça e cada um volte para sua casa como naquela parábola de "Os gansos", de Kierkegaard, que outro dia aludi. E essas páginas belas que têm sido escritas não sejam apagadas pelo tempo.

Esses movimentos itinerantes que surgiram pelo Brasil indicam que o povo está cansando dos desmandos de um Estado, que nos últimos quinhentos anos, continua o mesmo. Quando analisamos a história brasileira notamos que não houve mudanças, rupturas significativas. O processo de Independência, de Proclamação da República, de Abolição da Escravatura, que teve uma participação popular bastante tímida, não afugentou o drama do rompimento com um estágio anterior. Ou seja, as mudanças mais importantes da história do nosso país foram realizadas por aqueles que estão no poder. O povo sempre viu tudo de longe. Quem foi "rei" continua como "rei"; e quem foi "vassalo" continua como "vassalo". Apesar de não vivermos na Índia, o nosso país possui um regime de castas. Talvez, seja por causa do povo não está envolvido nos processos, revoluções (se é que houve alguma!), que tenhamos um dos modelos de formação social mais árbitrários do mundo. 

O Estado brasileiro é violento. A chamada "democracia" existe só de fachada, pois as oligarquias dominaram no passado e continuam dominando no presente por meio dos diversos aparelhos do Estado. Essa mesma oligarquia está instalada nos vários escalões de poder e possui a seu favor o conservadorismo e o poder simbólico das mídias. Os grandes monopólios desse país estão construídos no campo das ideias. A televisão, infelizmente, ainda continua sendo a escola de muitos brasileiros. O que o William Bonner, esse grande ventríloquo global diz no "Jornal Nacional"(o jornal da ignorância nacional), ainda é tido como verdade irrefutável. Diante de um poder tão grande, essa entidade chamada Globo, aliançada com a Folha de São Paulo, Veja e todo a imprensa conservadora, constrói um muro de falsidades e reacionarismos, que busca crimizalizar os movimentos sociais e tudo aquilo que sugira a contradição.

É formidável ver o povo nas ruas, mas penso que as metas e objetivos dessas passeatas se tornem mais claros, transparentes e substantivos para que a mobilização não feneça. Está equivocado quem pensa que é votando que se melhora o país. Já tentamos de todas as formas fazer isso. Mas o que falta não é um candidato, mas um projeto que dê uma cara de Brasil ao Brasil. Erra quem acha que é determinado candidato que vai mudar o país. Esse messianismo é uma grande falácia. Esse ainda é o discurso da mídia que quer fazer todos acreditarem que determinada pessoa mudará o país. A história não feita por um homem, mas por homens que, juntos, constroem a história. 

Por isso, penso que a frase bíblica citada acima tenha tudo a ver com essa expectativa. O modelo novo que desejamos para o país não pode ser contido nessa estrutura arruinada que temos no presente. O cerne da alma brasileira está contaminado pela corrupção, pelo jeitinho, pelos desmandos e megalomanias vindos da casa-grande. Essas passeatas para terem um resultado profícuo precisam continuar pelos próximos anos, décadas. A monta de problemas é gigante. É preciso estabelecer uma agenda de atuação e lutar por isso - educação, saúde, transporte, transparência, salários de parlamentares pagos, fugindo da realidade do trabalhador assalariado, gastos com mancebias estranhas entre o público e o privado, etc. Ou seja, fazendo isso e realizando marchas reivindicatórias constantes, talvez mudemos esse país.

Euclides da Cunha diz algo fabuloso em "Os Sertões": "O que separa o litoral do interior não são quilômetros, são séculos". E essa frase é evocativa para que profiramos neste instante: "O que falta para transformar o Brasil em país decente não é uma marcha, duas marchas; são séculos de marchas. Pois não estamos atrasados cinquenta anos, mas talvez  trezentos". Continuemos a marchar com consciência.

domingo, junho 02, 2013

200 anos de Kierkegaard - algumas palavras de admiração

Aprendi a admirar o filósofo dinamarquês Soren Kierkegaard ainda nos anos de seminário. A primeira vez que li algo a respeito dele, fiquei estarrecido com a sua paixão pelo paradoxo. O texto que li àquela época falava sobre o noivado do filósofo com a bela Regina Olsen. Kierkegaard após consumar o noivado, pede logo em seguida para desfazê-lo. Sua personalidade complexa aplicou um golpe nos sonhos da jovem Regina, que ainda tentou reatar o noivado, mas sem sucesso.

Durante muito tempo procurei informações sobre o filósofo. Comprei livros. Li a respeito dele. E, sobretudo, li alguns livros dele - Diário de um sedutor, Temor e tremor e O desespero humano. Kierkegaard sempre foi para mim um grande mistério. Sou um admirador do seu ideal de espiritualidade. É possível colocá-lo na categoria de um Agostinho ou de um Pascal, que foram nomes que viveram de maneira exponencial a fé cristã em uma época em que a razão prevalecia sobre os anseios existencializantes da interioridade humana.

Mês passado, precisamente, dia 5 de maio, o mundo comemorou duzentos anos do nascimento do filósofo. Kierkegaard passou um bom tempo no anonimato, pelo menos até as décadas de 40 e 50 do século XX, quando se deu uma onda existencializante na filosofia - Sartre, Jaspers, Heidegger, Camus e até mesmo os filósofos de Frankfurt etc, resgataram a filosofia do dinamarquês. Tanto foi assim que ele recebeu o epíteto de "pai do existencialismo". Não é de se estranhar que ele tenha ficado algum tempo incógnito. Afinal, a fria e distante Dinamarca ficava fora do cenário dos grandes debates. Kierkegaard escrevia em dinamarquês. A língua da filosofia era o francês ou alemão, sendo tolerado, quando muito, o inglês. O que poderia vir da longínqua Jutlândia?

O filósofo era uma figura, no mínimo, estranha. Escrevia sobre determinadas categorias as quais não eram referenciáveis. Os seus patrícios não o entendia. Nascido em 1813 e morto em 1855, Kierkegaard mesmo estando longe da arena filosófica não ficou alheio às grandes controvérsias filosóficas do seu tempo. Viajou à Alemanha para ouvir, por exemplo, uma palestra de Schelling. O século XIX é o século do idealismo hegeliano e, mais tarde, dos ideias materiais de Darwin, Comte e Marx. Onde se poderia colocar a filosofia singular de Kierkegaard que postulava que o individual prevalece sobre o universal? Ou seja, ao invés de se começar a análise do gênero para a espécie, deve se fazer o contrário, colocando o indivíduo sobre todas as coisas. É a existência singular do sujeito que o torna único ante todas as realidades.

Ele parecia "o patinho feio" da filosofia, fazendo uma referência ao seu conterrâneo Hans Christian Andersen. Enquanto a filosofia hegeliana explicava todas as coisas, bem como a ciência em vertiginoso desenvolvimento, Kierkegaard diz que faltava discutir sobre o indivíduo com toda a sua singularidade. Era pelo crivo do individual que a história deveria ser medida. Para ele, o sujeito precisa "decidir ser". E o instante da decisão é a loucura pela qual o universo inteiro deve parar, observar. O homem é aquilo que escolhe ser, é aquilo que se torna. E "tornar-se" é a maior das aventuras. Daí, que surge a sua máxima: "procuro uma verdade que seja verdadeira para mim", pois tudo para diante do indíviduo. São os seus olhos que observam a contigência, pois a existência é o reino do devir na história. 

Kierkegaard é o homem avesso a qualquer sistema que prenda a possibilidade de ser do sujeito individual. A possibilidade é a mais pesada e árdua das categorias, pois sugere uma escolha de fé e 'a fé é aquilo que deve sobrar quando tudo acaba'.

Kierkegaard era um "poeta cristão". Cena curiosa é aquela em que o diabo aparece para a personagem principal de Doutor Fausto, de Thomas Mann. Quando da chegada do diabo, este percebe Adrian lendo um dos livros do filósofo dinamarquês. O diabo então profere: "Então, lendo o cristão?" Em outras palavras: Kierkegaard foi aquilo que escreveu. Tornou a sua noção de fé e suas experiências em algo com sentido. Podemos dizer que ele encontrou a sua verdade. Sua filosofia era um estilo de vida. Como ele mesmo dizia: "ninguém pode se pôr em meu lugar diante de Deus". 

Selo de comemoração aos 200 anos de nascimento do filósofo
É diante de Deus, que o sujeito fica nu e se torna aquilo que deve se tornar. Daí, deerivam dois conceitos que são inextricáveis à obra do filósofo - o conceito de angústia e o conceito de desespero. A angústia é típica do homem na sua relação com o mundo; e o desespero é próprio do homem na sua relação consigo mesmo. As raízes do desespero estão em não querer se aceitar nas mãos de Deus. Quem está em desespero ainda não está consigo mesmo, ainda não se achou plenamente. Aqui cria-se a ideia do paradoxo, pois ao passo que mais me firmo na fé e me aproximo de Deus e, fujo do desespero, mais abomino o mundo e me torno pronto para a eternidade. 

Nesse sentido, é necessário mencionar os três estágios - o estético, o ético e o religioso. O estético seria aquele se vale dos prazeres. É o nível na qual os homens naturais se encontram.  O segundo estágio é o ético em que prevalece a observação das regras morais, dos códigos jurídicos. E o terceiro e último é o religioso, ou seja, o estágio em que o sujeito individual se torna a si mesmo e vive reconciliado com a eternidade.

Esse sujeito que possui uma consciência psicológica da sua condição é o "cavaleiro da fé". Fé não é meramente crer, mas é ressignificar a realidade. A filosofia de Kierkegaard sempre se constituiu em algo a ser admirado para mim. Sempre lembro dele uma hora ou outra. Ele falava daquilo que é mais fundamental na vida: tornar-se a si mesmo com todos os seus implicativos. Numa era a qual notamos um nível tão grande barbarismo e superficialidades, o pensamento de Kierkegaard surge como um desafio para que possamos nos encontrar na curva da existência do devir histórico.


terça-feira, dezembro 11, 2012

Notas do subsolo e a largueza existencial de um personagem

Há livros cujas palavras iniciais tornam-se sentenças vivas, epigramáticas. Um desses casos é Notas do subsolo, de Dostoiévsky. A personagem, um sujeito de personalidade complexa e filosoficamente densa, representa o discurso anticientífico. O homem do subsolo de Dostoiévsky é um sujeito que se insurge contra as normas vigentes, que busca autenticidade em meio ao status quo e a ebulição de uma discurso determinante. Ele racionaliza a sua existência e diz num discurso kierkegaardiano que "o homem não é uma tecla". Ou seja, que o homem não é apenas uma engrenagem que faz girar um mecanismo social. Que ele é amplo! Que guarda mistérios e amplidões. A ideia de civilização molda os instintos, mas existe uma força subterrânea que desafia as convenções morais. Não se é apenas aquilo que se vê.

Fiquei impressionado com as vicissitudes e a largueza da personagem, que ergue um discurso anti-humano. O escritor faz uma viagem no mundo escuro das personagens. Constrói uma teia psicológica espessa. As verbalizações e o monólogo da personagem, o homem-do subsolo, o homem-do-lodo, o homem-do-escuro, o homem-barata, impinge nele a condição de anti-herói. No livro há força, energia, medo, loucura, demência, ressentimento, vergonha, escárnio, desespero, contradição, desejos autênticos, desprezo.

Segue o trecho inicial que já nos bota um gosto amargo na boca e nos faz penetrar em um mundo elétrico, lancinante.

"Sou um homem doente... Sou mau. Nada tenho de simpático. Julgo estar doente do fígado, embora não perceba nem saiba ao certo one reside meu mal. Não me trato, e nunca me tratei, por muito que considere a medicina e os médicos, pois sou altamente supersticioso, pelo menos o bastante para ter fé na medicina. (Possuo instrução suficiente para não ser supersticioso e, no entanto, sou...) Não, se não me trato é por pura maldade; é assim mesmo. O senhor não compreenderá isto, por acaso? Pois compreende-o e basta. Não há dúvida de que eu não conseguiria explicar a quem prejudico neste caso, com a minha maldade. Compreendo perfeitamente que, não me tratando, não prejudico a ninguém, nm sequer os médicos: sei melhor do que ninguém que só a mim próprio prejudico. Não importa; se não me trato é por maldade. Tenho o fígado doente? Pois que rebente!"

sábado, dezembro 01, 2012

Uma parábola de Kierkegaard - Os gansos

Após ter encontrado a imagem acima, lembrei de uma parabóla contada pelo filósofo dinamarquês Sören Kierkegaard. Li essa história em um livro religioso cujo título não me é lembrado. Todavia, ela se inscreveu dentro de mim e se tornou uma lição que sempre dimensiono às mais variadas situações. Serve para grupos religiosos, partidos políticos, agremiações estudantis e aos mais variados ajuntamentos que vivem do discurso sem tornar o verbalizado numa práxis. Ou àquelas pessoas que não se decidem por nada. A história dizia mais ou menos assim. Contá-la-ei de cabeça:

Havia em um quintal enlameado da Dinamarca um grupo de gansos. Todos os domingos esses gansos se reuniam em um determinado lugar do quintal. Um ganso aparentemente mais sábio e com fumos de orador, subia na cerca e iniciava a sua prédica à plateia atenta.

- Irmãos, camaradas, nós somos gansos. Somos seres privilegiados. Não fomos feitos para vivermos aqui nesse quintal sujo e imundo - e todos assentiam com gestos de aprovação. 

- Somos grandiosos! Não somos galináceos. Temos uma linhagem. 

No instante em que falava, um grupo de gansos voava com uma formação em "V", migrando para o sul em busca de ares mais quentes. O ganso no auge do entusiasmo olhava para o céu, estufava o peito emplumado e dizia:

- É para lá que precisamos ir. Nosso lugar é o céu, irmãos.

E sua prédica terminava naquele ponto. Descia da cerca. Baixava a cabeça. A plateia era desfeita e cada um dos gansos voltava para o seu canto. Cada um daqueles gansos durante a semana se ocupava com a sua rotina - ciscar o chão, procurar insetos, tomar banho nos charcos. Mas, aos finais de semana, as falas do orador apaixonado se repetiam sem produzir efeitos.

quarta-feira, março 28, 2012

Devaneios sobre o nada

Disse Nietzsche certa vez que "convicções são prisões". Fico a observar os movimentos dos radicais, dos religiosos, dos cínicos e vejo o quanto o ser humano é criador de suas próprias cadeias. Temos uma grande vocação para o ataque. Criamos antíteses em todo tempo. Se não gosto de algo, envido forças para objetar aquilo que me incomoda.

E aí me vem à mente outra frase de Nietzsche: "A verdade não é algo que alguém tenha e outro não". Talvez, um dos grandes males da humanidade seja essa necessidade de fecundar "verdades". Segundo o próprio Nietzsche, uma das perguntas mais relevantes feitas em toda a história da humanidade, encontra-se na bíblia. Ela não veio de Cristo ou de um dos profetas. Foi Pôncio Pilatos, o governador romano, quem a proferiu. Disse o famoso personagem histórico: "O que é a verdade?". Essa pergunta frágil e pertubadora é a grande questão a ser enfrentada por todo homem corajoso. 

Convicções estabilizam entendimentos. Estes supostos entedimentos geram uma garantia, uma sensação de segurança. Eximimo-nos de refletir por causa disso. De conseguir autonomia. Os homens mais felizes foram/são aqueles que, olhando para dentro de si, para os reveses, contradições e feiúras humanos, não se escandalizaram e acabaram avançando para uma nova etapa: a aceitação de sua condição enquanto criatura humana, colocado num universo imparcial, regido por leis naturais. 

Uma última afirmação nietzscheniana: "Quando não se coloca o peso da vida na própria vida, mas sim no 'além', no nada, então retira-se da vida toda a sua importância".

"O que é a verdade?"

Cito outro filósofo (Soren Kierkegaard): "Procuro uma verdade que seja verdadeira para mim". Eis a minha missão, eis a tua missão, eis a nossa missão.

quarta-feira, dezembro 28, 2011

Os votos de final de ano e as crenças

Viver entre os homens é considerar comportamentos e contradições. Nos últimos dias, e com a proximidade das últimas horas que nos conduzirão ao ano de 2012, notamos o discurso do otimismo, das supertições de final de ano. No noticiário que vi esta manhã, como que por meio de uma instigação a um otimismo para fecundação de um ato, mostrava-se como as pessoas reagem ao esperarem melhores dias no novo ano que vai começar. Já me acostumei com esse comportamento de final de ano. Todos os anos essa corrida à supertição acontece.

Para alguns, a cor da roupa determina o ano que se vai ter. A peça intíma feminina também. A comida que se come também é um fator determinante àquilo que se vai ter durante todo o ano. É comum se comer lentilhas para atrair dinheiro. Alguns outros vão para a praia e depositam nas águas as suas esperanças. Outros ainda, refulgiam-se em igrejas buscando proteção divina no período de 365 dias do próximo ano. Seja uma crença institucionalizada ou não, o fato é que tudo isso é resultado de um comportamento religioso.

O que é a crença? É a percepção dos valores que sustentamos. Uma coisa só vale mais do que outra porque assim o estabelecemos e desejamos. A fé é uma disposição biológica. Parece haver no cérebro humano um lugar para o numinoso. Quando debato sobre a fé de alguém, piso no terreno do indiscutível. "Fé é porque é"; "vejo algo e dou fé do que vi". É aquilo que Kierkegaard disse certa vez: "Fé é fé e eu procuro uma que seja verdadeira para mim". Ou seja, a crença é algo vinculado ao ser humano, ao mundo humano.

No século XIX, Auguste Comte, conhecido por muitos como o pai da sociologia e também do positivismo, dizia que a religião é resultado de um primitivismo. O "primitivismo" em acepção comteana estava relacionado a um valor negativo. Não cabia ao homem moderno, na era da razão, da ciência, conviver com este "estigma" que o inferiorizava. Era preciso dar voz à razão científica. Sem perceber, invonluntariamente, Comte estava fundando uma religião - a religião científica.

O homem é, por natureza, um animal religioso. O propalado ateísmo da modernidade é, no fundo, uma crença na não-crença. O fato é que o ser humano não se acostuma com a materialidade e busca sempre um significado para aquilo que está por trás dela. Para que apazigue seu medo, sua pulsão-tensão em torno do desconehcido, cria um desejo de transferência para aquilo que está ausente dele. De maneira inconsciente, precisamos de algo que nos oriente. O caos seria insurportável. Descasamos, somos pacificados, uma carga sai dos nossos ombros, quando sentimos ou cremos que um ser superior (ou sentimento simbólico) cuida dos nossos medos, de nossa ansiedade, do desejo que se alastra pelo nosso ser. É aí, que se abre espaço para a crença, para o religioso.

Não existem seres humanos sem crenças. Crer não é, necessariamente, depositar fé em um deus, em uma religião institucional - cristianismo, judaísmo, islamismo, hinduísmo etc. Durkheim afirma que os nossos critérios de julgamento da realidade estão balizados na crença. É isso que faz criar os valores. Julgamos o que é certo e o que errado diante de validações com características duais - o bom e o ruim. Posso afirmar que sou ateu ou agnóstico, mas no fundo há reservas quanto a determinados fatos cotidianos. Se o meu time joga e desejo que ele seja campeão, deposito em relação a isso, uma confiança (crença não institucional). A minha torcida é confiante. É em outro sentido, uma confiança positiva. Se estou desempregado e busco emprego, no fundo, creio que posso encontrar um emprego. O garoto que se apaixona e investe no flerte, acredita que pode namorar a moça dos seus desejos. O jogo com a crença se estabelece como uma relação com o imaterial, com simbólico, com o intangível.

Na atualidade, há um movimento de esvaziamento da religiosidade institucional, ou seja, um movimento de "dessacralização do mundo". Mas a ideia do religioso está camuflado por trás de movimentos que se dizem laicos ou até anti-religiosos. A institucionalização do mercado não deixa de ser um evento religioso. De certa forma, este assume o poder de uma entidade absoluta, invisível, que tudo regula. Os investidores têm fé nessa força, senão ninguém arriscaria seus recursos em algo que só no futuro trará benefícios. O mercado possui sacerdotes - os economistas. Estes sacerdortes são os agentes autorizados para interpretar os humores do deus mercado. O mercado possui templos - os shopping centers - as "catedrais luminosas e limpas" do deus mercado. Richard Dawkins, um dos mais instigados defensores da ciência, no fundo, é "um religioso", que busca fundar uma outra crença: a possibilidade de que o homem possa viver no mundo sem a ideia do deus institucional.

Pensando sobre comportamento dos homens, lembro da frase daquele sofista antigo: "O homem é a medida de todas as coisas". O ser humano é o único animal capaz de criar abstratamente. De engendrar mundos. De fantasiar. De ter a consciência de que está consciente. E de criar perspectivas quanto ao seu futuro. Como o futuro é uma força indomável, preciso lhe dar com ele baseado na expectativa em torno do incerto. O futuro é incerto porque está ausente das nossas mãos. É um fato intangível. Parafraseando o filósofo pernambucano Evaldo Coutinho: "O tempo é a aproximação ininterrupta do fato".

Vivemos por causa da crença. Trabalhamos por causa da crença. Estudamos por causa da crença. Militamos em partidos políticos por causa da crença. Frequentamos igrejas e vamos ao culto ou à missa por causa da crença. Constituímos famílias por causa da crença. Votamos e esperamos uma sociedade mais justa por causa da crença. Lemos livros ou escutamos música por causa da crença. Fazemos votos de melhores dias, mesmo que não tenhamos controle sobre isso, por causa da crença.

Por Carlos Antônio M. Albuquerque

terça-feira, agosto 09, 2011

Reflexões natalícias II - quando se olha para trás e se aprende que viver é agora

O filósofo dinarmarquês Soren Kierkegaard disse certa vez que "vivemos a nossa vida para frente, mas a entendemos quando olhamos para trás". Por outro lado, temos aquela metáfora bíblica sobre a mulher de Ló. Diz a Bíblia que a cidade de Sodoma e Gomorra seria destruída por Deus por causa da maldade dos seus moradores. Deus pediu que Ló e sua família (que eram os únicos justos da cidade) saíssem do lugar, pois ela seria subtraída, deixaria de existir. Seria queimada com pedras inflamadas que cairiam do céu. Ló e sua família receberam a ordem para que não olhassem para trás. No dia em que aquilo que foi avisado que aconteceria começou a se dar, Ló e sua família iniciaram a fuga da cidade. A mulher de Ló cheia de curiosidade resolveu olhar para trás, talvez, para verificar o que estava acontecendo. Mas, de repente, ela se tornou numa estátua de sal. Quiça esta metáfora tenha por finalidade deixar claro que enquanto o homem caminha não lhe é lícito ou permitido olhar para trás. Quem olha para trás esquece as promessas do presente e as possibilidades de construção do futuro.

Os romanos eram mais criativos. Para lidar com imagem do tempo, eles criaram a pessoa de Janus, o porteiro celestial. Ele era retratado com duas cabeças, representando os términos e os começos, ou seja, passado e futuro. Inlusive, o nome janeiro, primeiro mês ou mês inaugural de cada ano, foi dado em homenagem a esse deus. Mas a frase de Kierkegarrd, filósofo de palavras sábias, introduz em mim uma possibilidade reflexiva. Vivemos para frente, pois o tempo é como uma locomotiva feroz que corre em sua fúria, sem parar, sem se compadecer dos passageiros que leva.

Quando olho para trás, o que vejo? Às vezes, faces de acontecimentos indistintos; em outros momentos, faces de acontecimentos distintos. Os indistintos são aqueles que passaram e que com o tempo vão se apagando. Mas há os distintos, aqueles que tatuaram as suas marcas em mim. Que não tive como escapar de suas influências em meu ser. Outro dia eu estava pensando enquanto caminhava como a cada dia que passa vamos nos tornando num espaço habitado pela saudade. Viver é um constante sentir saudade. Sentir saudade daquilo que foi; das pessoas que já passaram por nós; das experiências que tivemos; do beijo que damos; dos caminhos que cruzamos; daquele vento povoado por fragrâncias. Eu, por exemplo, todos as vezes que sinto cheiro da terra molhada pela chuva, naqueles primeiros instantes em que tudo começa, sou reportado à minha infância.

Eu sou um baú de estético de sensações. Dentro de mim moram as memórias daquilo que o meu corpo já viveu. Sou uma imensa esponja que vai guardando fatos, acontecimentos, eventos. Por isso, enquanto eu viver serei aquilo que aprendi a ser sendo. Heidegger disse certa vez que "o ser humano é aquele não-poder-ficar e também não-poder-sair do lugar". Ou seja, somos aquela indecisão. Aquela expectativa que gera insatisfação com o agora, mas ao mesmo tempo estamos sujeitos à facticidade do nosso tempo que acontece nesse exato momento. Sofre aquele que não consegue celebrar o presente. Certa vez li uma frase curiosa do Rubem Alves: "Cheguei onde estou por caminhos que não planejei". Esta afirmação é uma afirmação de respeito para com a vida. Primeiro, porque leva em conta o aspecto dialético da vida. A vida vai nos tornando aquilo que somos em cada momento do nosso existir. Não nascemos programados e isso é extraordinário. Não caminhamos pela mesma estrada duas vezes. Caminho uma vez, mas quando volto a caminhar a estrada terá mudado e, eu, também. Esse devir dá à vida uma mecânica poética. Segundo, pois é uma afirmação que mostra alguém maduro, que aprendeu a fazer as peguntas certas à vida.

Sofre muito pela vida a fora que faz os questionamentos errados, aprende a sibilar, a produzir garatujas verbais, a balbuciar em demasia, reclamar que nada é. E o Rubem arremata: "Plantei árvores, tive filhos, escrevi livros, tenho muitos amigos e, sobretudo, gosto de brincar. Que mais posso desejar? Se eu pudesse viver novamente a minha vida, eu a viveria como a vivi porque estou feliz onde estou". O lamento é sempre uma força que enfraquece, que debilita, que nos torna murmuradores ressentidos, que não consegue enxergar nada de bom naquilo que já viveu. Nietzsche costumava dizer que feliz é o sujeito que possui memória fraca, pois ele pode viver as mesmas eexperiências como se estas fossem a primeira vez.

Portanto, é preciso aprender a olhar para trás. Não ter medo de olhar para trás como faziam os judeus. Mas saber olhar para trás e enxergar uma vasta planície pedagógica, uma campo de possibilidades que explicam o meu presente e que me conduz a um caminho certo, plano.

Ao completar mais uma ano de vida, sou grato por tudo aquilo que vivi. Pelas pessoas maravilhosas que conheço. Pelas dificuldades que sempre me forçam a aprender a ser mais, querer sempre partir, no dizer de Heidegger. Sou grato pela esposa que tenho. Não fiz planejamentos para muito daquilo que sou e tenho. Agradeço pela minha infância. Pelos dias em que celebrei o barulho e o perfume da chuva; quando pisei descalço no chão pernambucano. Sinto mudanças em meu corpo físico. Está tudo escrito no pergaminho do meu rosto - eu sou a soma de tudo aquilo que vivi - sorrisos de pessoas, abraços, livros que li, músicas que ouvi, conversas que guardei, despedidas, lágrimas que derramei, escolhas que a vida me permitiu fazer. Preciso ser como Janus - olhar para o passado porque ele me forjou, viver o presente como uma dádiva e apostar no futuro, pois é para lá que a vida nos leva.

Que venha a próxima primavera!

segunda-feira, agosto 09, 2010

Reflexões natalícias

Escrito há dois anos numa ocasião como esta.

Penso que a vida seja um dos elementos mais difíceis de serem cultivados. Ideais sem fim surgem como cenas fixas em oásis imaginários. Fazemos desses espectros, materializações a que denominamos de metas alcançadas. Somos convencidos de quanto mais as alcançamos, mais realizados somos. Tenho entendido que isso é uma grande mentira. Assustado e, ao mesmo tempo resignado por esses malabarismos da existência, assenta-me a convicção de que viver seja um imenso, um enorme desafio.
À medida que os anos chegam vão se definindo algumas tendências a que denominamos apenas de intuição. Mas no fundo não se trata apenas de intuição. É como se de uma hora para outra olhássemos efetivamente para a realidade e enxergássemos manchas derramadas no ar. Como se de repente víssemos mundos escondidos por trás de uma cortina-obstáculo. A intuição que era impulsividade, torna-se num olhar sábio. A serenidade nos torna mais cautelosos. Se não nos tornamos pensadores, pelo menos somos revestidos interiormente com a calma de monges veneráveis.
Pensar é uma capacidade que diferencia o ser humano dos demais seres. Mas mesmo entre os que potencialmente são capazes de pensar há aqueles que não o fazem. Resta-lhes a inércia, a inação. Aquilo que Nietzsche chamava de “mergulho na massa”. Ou seja, caminhar no fluxo inconsciente da moral dos escravos. Em outras palavras: viver como todo mundo vive; fazer o que todo mundo faz. Mesmo pensando, discernindo, o homem não possui privilégios em relação aos demais seres. O muito pensar conduz ao enfado. Gera o fardo do cair em si. Refletir como homem é ver-se dentro do turbilhão trágico do acaso.
Vivemos para frente, mas somente compreendemos a vida quando olhamos para trás. A resposta para as perguntas que são feitas no presente se encontram no passado. Vivo para frente, todavia compreendo-me quando olho para o ontem. Esses lampejos de consciência são necessários. Os anos passam e marcam o meu rosto com o cinzel implacável do tempo. Já não sou mais a mesma criança de ontem. Vejo os fatos acontecendo como se eu estivesse num trem. As paisagens ficam pelo caminho. À minha frente o desconhecido, apenas. Em meu interior, algumas expectativas, esperanças, planos, nacos de um otimismo cultural.
Abjuro algumas convicções e me agarro a outras. Homem supersticioso sou eu. Elevo-me em nuvens ilusórias de pensamentos. Pareço divisar coisas por demais sensíveis. Espanto-me com isso. O simples gesto de caminhar é por demasia pesado para mim. É um portal que me conduz a outros mundos. Estou crivado incontinentemente ao pensamento. As flechas da reflexão me alcançaram. Atravessaram-me com seus poderes miraculosos. Mudaram-me o semblante. Minha mãe disse-me hoje que eu caminhava como um velho – “Caminha como um velho! Penso para um lado”. Não me impressiono com isso. Kierkegaard dizia que há homens que já nascem velhos. É um paradoxo com toda certeza – “nascer velho”. Somos concebidos novos, por isso à fase de menor idade chamamos de infância. Acredito que o filósofo dinamarquês se referisse a contingências existenciais. A idade é um aspecto mesclado de relatividade. Há indivíduos que nascem velhos e há aqueles que, sendo velhos, possuem uma interioridade jovem. Somente aos homens é reservada a captação desses fenômenos estranhos.
Fazer 29 anos é acontecimento extraordinário. Vêem-me a idéia de que a vida é maior do que a minha sensibilidade seja capaz de abarcá-la. Capto sinais invisíveis. Vislumbres de que por mais que tivesse condições de viver mil vidas, não seria capaz de saber nada. Estranho. Aprendo enquanto vivo; vivo para aprender, mas por mais que aprenda, sou sabedor de que não saberei nada efetivamente como se deve saber. Viver é ser limitado. Limitado por circunstâncias físicas, espirituais, tangenciais, contingenciais, sigo a cada dia com a prudência e com a frugalidade dos monges. Vamos aprendendo a rir dos próprios desatinos e ponderar a condição dos fatos. Atitude ignara. Própria dos seres que pensam. Própria dos monges veneráveis.

Por Carlos Antônio Maximino de Albuquerque
Data: terça-feira, 12 de agosto de 2008, 20:15:03.

domingo, maio 04, 2008

Comentário ao livro "O que é religião" de Rubem Alves

Rubem A. Alves, O que é religião?(São Paulo: Edições Loyola, 2002).

Rubem Alves nasceu em Boa Esperança, MG, em 1933. É psicanalista, bacharel em teologia pelo Seminário Presbiteriano de Campinas, mestre em teologia pelo Union Theological Seminary em New York, doutor em Filosofia pelo Princeton Theological Seminary, Princeton.
O autor nesta obra busca dá uma definição, apontar caminhos – sejam eles filosóficos, antropológicos, sociológicos – para o que é religião. A religião que fascina o homem, que são os sonhos de amor do homem com o homem, como assim menciona o autor citando Feuerbach.

O autor inicia a sua obra explicando o fenômeno religioso na contemporaneidade. Afirma que a religião não perdeu seu poder em nossos dias. Embora se viva num tempo muito especial da história, apesar do advento de técnicas revolucionárias da ciência, do aprimoramento industrial, do desenvolvimento de métodos econômicos, verifica-se que o fascínio da religião tem permanecido como em todas as eras e gerações humanos. Ele se instala como um fenômeno subjacente, vinculado ao ser humano, posto que o homem é em si um ser religioso.

A consciência do religioso é como uma teia que se expande e amarra os elos relacionais do existir humano. Negar o sentimento do religioso seria negar o próprio sentido que toma norteios e se torna uma cartilha que inscreve as respostas que dão segurança à vida do homem. Rubem Alves diz que não se liquida a religião com abstinência dos atos sacramentais e a ausência dos lugares sagrados, da mesma forma que o desejo sexual não se elimina com os votos de castidade. Ou seja, mesmo negando ou omitindo a visibilização do religioso nos altares de fora – templos, catedrais, imagens... símbolos – a presença do religioso nos altares da alma é que dá condução à construção para o que existe como objeto externo. Deste modo, “é quando a dor bate à porta e se esgotam os recursos da técnica”, segundo Rubem Alves, “que nas pessoas acordam os videntes, os exorcistas, os mágicos, os curadores, os benzedores, os sacerdotes, os profetas e poetas, aquele que reza e suplica, sem saber direito a quem...”.

É justamente nas horas de indômitas certezas, de existência vacilante, de crise vocacional, de resoluções vencidas que o sentimento religioso se instala como fator mais arraigadamente sisudo na alma humana. Lidar com o religioso, segundo Rubem Alves, não seria lidar simploriamente com idéias primitivas, de uma civilização atrasada ou de uma sociedade com propensões animistas. O religioso extrapola o fetiche. A existência do fetiche é apenas uma objetização do sentimento abstrato que pervaga no interior do ser humano. Os homens erguem catedrais porque dentro de si possuem gritos, sussurros, incompreensões, expectativas e todas elas em um momento ou outro são abraçadas pelo mistério. Daí, a necessidade de se construir um símbolo para a materialização ou visibilização do ser sagrado que primeiramente nasceu no centro da alma como projeção das respostas que são feitas do lado de fora do ser humano.

Enquanto os animais conservam apenas um instinto de preservação e instinto, os homens pelo contrário, a partir da imaginação, construíram ou têm o poder de manipular o mundo para darem a forma que bem entenderem. Tudo isso é feito por uma teia simbólica cujo princípio é entender e decodificar a realidade. Os homens construíram estradas, plantaram jardins, fizeram bandeiras e deram um significado a cada uma delas; os homens laboraram na construção de intricados mecanismos e deram nomes a essas invenções. Assim, o homem tem o poder de manipular a realidade por meio da construção de símbolos que determinam o sentido do mundo. Essa transformação ou leitura própria do mundo é que se pode chamar de cultura. Ou seja, cultura seria o nome que se dá às coisas e o modo de como se interpreta a realidade. Cultura é o modo de vida de um povo, o ambiente que um grupo de seres humanos, ocupando um território comum. A cultura se cria na forma de idéias, instituições, linguagem, instrumentos, serviços e sentimentos.

Para Rubem Alves, “a religião nasce com o poder que os homens têm de dar nomes às coisas, fazendo uma discriminação entre coisas de importância secundária e coisas nas quais seu destino, sua vida e sua morte se dependuram”. Assim, entende-se que a religião seria propriamente um fenômeno da cultura de cada povo. Afinal, quantos são os povos, tantas são as religiões. Não há uma explicação para o fenômeno da religião, porque pode se detectar que cada cultura tem os seus próprios rituais – desde as mais primitivas e simples às mais complexas.

Diz Rubem Alves que a partir desta leitura da realidade, o homem dá vários significados à morte; a vida passa a ser encarada com os seus diversos matizes de acordo com a construção simbólica ou com o sentido de crença de cada indivíduo – o ateu diz não acreditar na existência de Deus e busca viver como se Deus não fosse uma realidade para ele. Já o crente em Deus, guia as ações da sua vida a partir desse sentido de crença. É essa construção simbólica que direcionou milhares de monges para mosteiros na Idade Média. O símbolo condiciona a vida. Ou seja, “com os símbolos sagrados o homem exorciza o medo e constrói diques contra o caos”.

A religião surge como um encantamento. Ela abriga em si o mistério. A religião por ser uma construção simbólica, lida com poderes ideais. Não existe objetividade na religião, segundo Rubem Alves. Com o advento dos poderes científicos, a religião foi sacudida, trepidada, balançada. A ciência lida com a presença. A religião com a ausência. Na ciência, para que algo seja real e verdadeiro é preciso que seja percebido e visto. O que não é visto não é real, posto que o pensamento tem que se materializar como presença e visto como verdade. Os raciocínios devem ser experimentados.

O materialismo da ciência engoliu o abstracionismo da religião nos últimos séculos. A religião pouco a pouco foi sendo periferizada. Todavia, o “exílio do sagrado” não significou um completo abandono da religião. No ser humano ou fora da capacidade da ciência existem alguns fatores que estão cobertos com o lençol do mistério. Existem realidades que não são objetos estudáveis da ciência – a alma, a morte., etc. Estas realidades não são verificáveis ou quantificáveis e exercem um fascínio misterioso sobre o ser humano.

Rubem Alves também se vale do sociólogo francês Émile Durkheim para afirmar que a religião funciona como uma reguladora social. A ausência da religião instauraria um processo de completa anomia na sociedade. Para Durkheim, todas as religiões seriam verdadeiras. É por causa da capacidade de imaginar do homem que a religião veste o real com o sagrado. Não existem comunidades que eximam em suas estruturas o sentimento pelo religioso. A religião pode se transformar, para Durkheim, mas nunca desaparecerá como fenômeno humano. Para ele a religião se dá como fenômeno dinâmico. Deuses nascem e deuses morrem, deuses aparecem como projeção das necessidades que os homens têm para formar seres ou coisas ideais. Os deuses são necessários, pois se transformam em guias para a humanidade.

Já para Karl Marx a religião não surge como consciência autônoma fora do homem. Não existe uma estrutura chamada religião fora do homem – “não é a consciência que determina a vida; é a vida que determina a consciência”. A religião em Marx é desnecessária porque ela, simplesmente, não existe. Ela não merece qualquer tipo de consideração. A religião surge apenas como um produto da alienação (“a religião é o ópio do povo”). A religião seria uma necessidade do homem oprimido para da cor a uma existência sem cheiro e sem brilho. Ela seria consciência não-consciente no individuo, “porque é o homem que faz a religião; e não a religião que faz o homem”.

De acordo com a concepção marxista, exterminando as agruras da existência humana, a necessidade do religioso teria fim. Os sentimentos e as inclinações que se dão na vida variam de uma classe para outra. Dependendo da classe onde o individuo humano estar há uma influência no seu modo de se vestir, na sua forma de pensar, no seu gosto musical, na sua qualidade alimentícia, nas supertições e crenças, na forma como se encara a vida e a morte. Em suma, nestes aspectos Marx observava que a consciência estabelecida pela ordem de classe determinava a vida. A consciência varia de classe para classe. Assim a religião também toma forma de classe para classe.

Religião é uma forma de alienar o ser humano. Explica-se na obra de Rubem Alves o verdadeiro sentido que Marx usa do termo “alienação”. O termo alienação não é posto como é bem compreendido pelo vulgo. Não se trata de um sentimento que torna o individuo “idiotado”. Em Marx, alienar é “transferir para outrem o domínio de; tornar alheio; alhear; desviar, afastar”. A religião surge como alheamento na consciência do individuo. Ou seja, o individuo alienado é aquele que teve o seu desejo violado pelo desejo de outrem. A religião processa o seu poder neste ponto, embora ela mesma não possua nenhum poder intrínseco, posto que ela “ilumina com ilusões que consolam os fracos e legitimações que consolidam os fortes”. Ainda para Marx, a religião é um analgésico ineficaz dado pelos fortes para adormecer a vontade dos fracos. Marx dizia que em nome de uma entidade superior, argumentos são silenciados. Quem contesta o que é superior e arbitrário? “A religião é nada mais que o sol ilusório que gira em torno do homem, na medida em que ele não gira em torno de si mesmo” (Marx).
Já em Feuerbach a religião aparece como um sonho da mente humana. A religião surge como projeção do sonho, que se deriva da voz do desejo. O desejo existe no interior do ser que é, mas que tem de se adequar ao que se coloca como realidade. A realidade é a negação do desejo. O desejo fala da própria essência do homem. Deste modo “as verdades” mentirosas devem ser abolidas para que o desejo no ser humano torne-se verdadeiramente consumado. E nisto é que Feuerbach afirma que “a religião é o solene desvelar dos tesouros ocultos do homem, a revelação dos seus pensamentos mais íntimos, a confissão pública dos seus segredos”.
A afirmação de Feuerbach remete a religião ao próprio homem, porque para ele falar de Deus é falar do próprio homem. Ter consciência de Deus é ter consciência de si mesmo. Deus no homem surge como uma imagem refletida na parede do ser, porque Deus varia no homem, de ser para ser. Existem várias consciências de Deus no homem, quantos são os homens, tantos são o número de projeções de Deus. Deus se relativiza no ser. Deus, assim, é criado pelo desejo humano. Decodificando as características ou a personalidade de Deus para uma determinada pessoa, descobre-se os desejos desta pessoa. Deus é subjetividade. O ser determina a imagem em sua objetividade e transforma-se em objeto perante a imagem, e, a imagem, por sua vez, toma forma de sujeito.
A realidade última da religião não estaria inclinada para fatores eminentemente metafísicos. A religião encerra-se aqui na contingência do mundo humano. Não existem fenômenos do lado de lá, puramente espirituais. Lidar com o sagrado, seria em outros termos, lidar com a antropologia. Religião é antropologia. O homem é próprio ser divinizado. A necessidade de uma divindade para o homem fala dos próprios anseios humanos. A religião é um sonho que o individuo religioso não compreende. Para Feuerbach, a partir do momento que se interpreta o sonho, a necessidade de Deus e da religião deixa de existir.
Outra perspectiva abordada por Rubem Alves diz respeito à visão da religião como uma força propulsara dos oprimidos. Deus, na concepção dessa visão, surgiria como a razão ou a base de toda utopia. Segundo o autor, os profetas contestam a ordem presente, vociferam contra o status quo, segurador da ordem social, regulador das esperanças dos mais fracos. A base contestatória dos profetas está no presente, mas o anúncio da esperança (utopia) do Reino de Deus está no futuro. Para o autor a religião, seria um objeto que teria duas faces relacionais: (1) “Para iluminar”, “libertar”, “para dar coragem”, “para fazer voar”; ou (2) “para cegar”, “paralisar”, “atemorizar”, “escravizar”. A religião funcionária de modo paradoxal. Ou sendo para os fracos e não sendo para os poderosos; ou sendo para os poderosos e não sendo para os fracos.
Com o advento da “ciência histórica”, tornou-se possível compreender de modo crítico as interpretações suscitadas pelos poderosos. A linguagem mono-focal dos poderosos foi interpretada com uma premissa inteiramente nova. A base era: “o que Antônio fala acerca de Pedro contém mais informações acerca de Antônio do que de Pedro”. Entendeu-se, assim, que “aquilo que os opressores denunciavam nos oprimidos não é a verdade dos oprimidos, mas o que os opressores temem”. As versões oficiais são sempre o fruto da pertubabilidade dos poderosos. Os movimentos messiânicos tidos por marginais são assim denominados pelos poderosos por causa do poder. Para revestir de não santo os movimentos que “fogem da ordem”, é preciso evocar o dogma do absoluto. Assim, a maneira como se interpreta a vida está diretamente “condicionada pela textura social da vida”. Não se contesta o absoluto (Deus). Lidar com o absoluto é absolutamente lidar com a eternidade.
O discurso religioso é, antes de tudo, o discurso da força – dominadores sobre os oprimidos. Os sonhos dos dominados não se enraízam no chão do presente, mas se projetam para uma possibilidade futura. Os pensamentos religiosos são utópicos. Para Rubem Alves, os textos escatológicos (Apocalipse) são utopia. Ou seja, dimensiona-se para o futuro aquilo que não é no presente, todavia existe no ser como esperança concretizável.
É por causa da consciência oprimida do indivíduo que se faz fermentar o contentamento dos sonhos religiosos. É por isso, que os pobres e oprimidos se sentem mais à vontade junto aos “curandeiros”, dos “mágicos”, dos “milagreiros”, que são pretensos prognosticadores, vendedores de esperança. Eles sempre apontam para o futuro com palavras que entusiasmam e geram esperança.
No último capítulo do livro, Rubem Alves faz a “Aposta”. Para ele, esta aposta é um arriscar-se. É, simplesmente, “dar uma chance para a religião”. Ele mesmo diz: “Teremos de ouvir a voz da religião, ainda que ela esteja mais próxima da poesia que da ciência”. Para ele, o objetivismo frio da ciência não possui todas as respostas. A ciência “empalhou”, “imobilizou” o vôo do sagrado. A ciência é fria e míope em seus conceitos. Ela “nos coloca num mundo glacial e mecânico, matematicamente preciso e tecnicamente manipulável, mas vazio de significações humanas e indiferente ao nosso amor”.
O autor diz que bem gostaria que os deuses existissem. Só assim a vida ganharia certezas e exorcizaria as dúvidas e os estalos da alma. A vida teria sentido se assim fosse. Mas por não o ser, o sentido da vida é “experimentado emocionalmente”. É apenas sentimento. Esse sentimento é experimentado como intensificação da vontade de viver a ponto de dar coragem para morrer, se necessário for, por aquelas coisas que dão à vida o seu sentido. O sentido da vida se debruça, para Rubem Alves, diante do mistério. É como afirmou Pascal certa vez: “O silêncio desses espaços infinitos me apavora”. Ao passo que a vida é mistério, a morte mostra-se como um abismo cuja a sociedade é tragada para a sua escuridade. A morte é a inimiga dos homens. Ela se mostra insensível com qualquer que seja o individuo. Todos serão abraçados pelos seus braços frios e pela suas mãos pegajosas.
Para Rubem Alves, religião tem o poder de transformar a morte em irmã. Assim, “livres para morrer, os homens estão livres para viver”. Mas, o que acontece é que na concepção de Rubem Alves, Deus é apenas uma esperança. Não é algo que é concretamente, mas pode ser. Deus é objeto da “magia da imaginação”. O direcionamento mais correto que quiser experimentar Deus , de acordo com o autor, seria se aventurar. Seria, mesmo na inexatidão da certeza, crer. Seria o salto no escuro de Kierkegaard. Seria a possibilidade de total entrega ao incompreensível, ao inimaginável, só possível pela fé. Ele não tem certeza acerca da existência de Deus. “Não sei”. Mas ele gostaria que a esperança que o tomava se concretizasse em certeza e o objeto (Deus) se transformasse em verdade.
Esta posição pode ser considerada como um meio vacilante de se questionar a validade da fé. A posição em que Rubem Alves se coloca pode ser colocada como neutra. Ele quer crer, mas não tem certeza naquilo que crer. Cheira a irracionalismo – embora a fé não esteja dentro das categorias racionalizáveis. Embora eu concorde com a assertiva de Kierkegaard em “Temor e tremor”, "O paradoxo da fé não pode reduzir-se a nenhum raciocínio, porque a fé começa precisamente onde acaba a razão". Ou no dizer de Pascal: “A distância infinita que há entre a certeza do que se aventura, e a incerteza do que se ganhará, iguala o bem finito, que certamente se expõe, ao infinito, que é incerto”.
O fato é que a posição de Rubem Alves embora belamente poética e estética, não é bíblica. Deus não pode ser provado objetivamente, mas se eu creio não devo ter sentimentos ambíguos em relação a Ele. Seria como se pulasse do avião sem se verificar se o pára-quedas está funcionando. Fica-se a mercê do não ou do funcionamento do pára-quedas. O individuo que assim se expusesse estaria, na verdade, se aventurando, posto que ele não sabe se o pára-quedas vai ou não funcionar.
Em Kant e em Hegel, a existência de Deus passou a ser um problema para epistemologia. Em Kierkegaard, passou-se a verificar que todo sistema construído e absolutizado é merecidamente identificável com o ser. O ser é vasto, amplo e a subjetividade é quem diz o que deve se ser para o ser. Kierkegaard se aventurava pela fé para acreditar que Deus existe.
Paulo disse no seu discurso para os filósofos em Atenas que Deus “de um só fez toda raça humana para habitar sobre toda a face da terra, havendo fixado os tempos previamente estabelecidos e os limites da sua habitação; para buscarem a Deus se, porventura, tateando, o possam achar, bem que não está longe de cada um de nós”(At 17.26,27). Segundo a Palavra inspirada, homem foi criado com propensões para buscar a Deus, mesmo que tateando. As religiões são os “tateamentos”, as apalpadelas no escuro dados pelo homem em busca de algo que o coração deseja. O coração humano grita inconscientemente por Deus (não O deseja no sentido de querer relacionar-se com Deus, mas porque dentro do ser a ausência grita pela presença) sem o homem o saber, e, por isso, existe uma exteriorização, uma construção visibilizável do elemento religioso. Constrói-se fora para se ver, o que o coração deseja dentro.
É interessante notar que os povos primitivos compreenderam isso de uma maneira involuntária. Ao se observar as comunidades primitivas, verifica-se que o pendor para o infinito sempre existiu. Os antropólogos têm detectado que nunca existiu uma sociedade organizada que não houvesse a icononização de Deus. Por mais bizarros e personificados pelo natural, o senso de Deus, o criador do infinito, sempre existiu. O homem é isso: síntese de finito com infinito. Entende-se daí, os conflitos e os mistérios gerados e criados que ocorrem sucessivamente na existência atribulada do homem.
Os gritos, os símbolos, os mistérios, as dúvidas, as utopias e as certezas existem, porque dentro da alma humana existe a eternidade. Existe o caos que busca equilíbrio diante do infinito. “Finito que diante do infinito se aniquila, torna-se um puro nada”, no dizer de Pascal. A obra de Rubem Alves é importante no sentido de nos informar a temática do religioso de acordo com várias escolas do pensamento humano. Isso apenas serve para comprovar a tese do feitiço humano perante religioso.
Outras obras utilizadas:

AGOSTINHO, Santo, As Confissões – Os pensadores, Nova Cultural, 2000.

PASCAL, Blaise, Os imortais do pensamento humano vol.6, Ed. Universidade de São Paulo, Goiânia, 1.981.

KIERKEGAARD, Sören, Os pensadores, Diário de um sedutor; Temor e tremor; o desespero humano, traduções de Carlos Grifo, Maria José marinho, Adolfo Casais Monteiro – São Paulo, Abril Cultural, 1979.


Por Carlos Antônio M. Albuquerque

quarta-feira, dezembro 26, 2007

Sobre a religião

Andei refletindo sobre a religião este final de semana. O final de ano se apresenta como um momento para reflexões, análises, promessas, eminentemente. Como não poderia deixar de ser, a religião se mostra como uma prática que une o indivíduo aos seus desejos mais íntimos. Afinal as promessas, desejos, fantasias, expectativas são gestadas e alimentadas por uma profunda unidade mística do ser com o mundo empírico. A religião é a força que impulsiona o ser na direção das suas conquistas.


Falar sobre minha preferência religiosa é algo complexo, pois a crença em algo é um universal humano. Pelas nomenclaturas identificáveis posso ser denominado como cristão protestante. O ser humano não se contenta apenas com a explicação da matéria em si (materialismo). Ele busca uma explicação para aquilo que está além dela (metafísicameta do grego: além, para além; físico(phisys) do grego: matéria física. Ou seja, aquilo que está para além da matéria). A religião ordena o caos da matéria. Ela é um dique que represa nossas inquietações nos dando uma sensação de conforto e segurança. O caos seria insuportável. Seriamos destruídos pela anomia e pela rudeza da vida. O sagrado é a dimensão valorativa da perfeição, da pureza, do absoluto. Daí o absoluto da crença. Se não estou equivocado foi Rudolfo Otto que afirmou que a religião está em todas as coisas da vida humana; que as realizações humanas são religiosas. Mas penso como C.S. Lewis. Num sentido não muito distinto, as mesmas inquietações de C. S. Lewis, são as minhas inquietações no que diz respeito à fé. Ele escreveu em seu livro Surpreendido pela Alegria: “A maneira mais segura de estragar um prazer era[é] começar examinar a sua satisfação”. Porque

“Ninguém jamais tentou mostrar em que sentido o cristianismo cumpriu
o paganismo, ou como o paganismo prefigurou o cristianismo.
A posição aceita parecia ser a de que as religiões eram normalmente uma
Mera miscelânea de absurdos, embora a nossa – feliz exceção – fosse
Perfeitamente verdadeira. As outras religiões não eram sequer explicadas,
Segundo o primitivo modo cristão, como obra de demônios. Nisso,
Possivelmente, eu podia ser levado a crer. Mas a impressão que tive foi de que
A religião, em geral, embora totalmente, era um desenvolvimento natural,
Uma espécie de absurdo endêmico no qual a humanidade tendia a tropeçar.
Em meio a um milhar dessas religiões, lá estava a nossa, a milésima
Primeira, rotulada Verdadeira. Mas com base em que eu poderia crer nessa
Exceção? Ela obviamente era, num sentido geral, o mesmo que todas as
Outras. Por que então era tratada de modo tão diferente? Será, afinal,
que eu precisava continuar tratando-a de forma diferente?
Desejava ardentemente não ter de fazê-lo.”

Como poderemos justificar o injustificável? Exercemos fé naquilo que não vemos. E regozijamos com isto. Cremos no absurdo. Adoramos sem ter certeza táctil com relação àquilo que cremos. Fechamos os olhos e descerramos os lábios em preces quentes. Gestos ou soluços da alma. Instituições se organizam com o objetivo de defender a devoção. Pessoas matam, explodem por causa da religião. Entendem que todo sacrifício é necessário e valido para justificar a fé. Quanto maior é a dor, o dispêndio de energia, maior é a devoção. Fico aturdido com este pensamento. Imagino que esta tendência tão extremada seja apenas resultado da inventividade humana. Penso que a singularidade humana é responsável por criar todas as realidades relativas àquilo que justifica e dá sentido à existência humana. Ou seja, é o próprio homem que classifica o mundo e extrai dele os significados que deseja empregar para tornar a vida cheia de respostas eloqüentes. O mundo existe como vontade e representação, pois o homem é a medida que dá forma a todas as coisas. Assim, vou pensando enquanto entendo que estou sendo trepidado por este fato que me abraça e sufoca como uma grande serpente. A religião é um sonho que mente humana alimenta para colorir os seus pesadelos existenciais. Dar-se expressão ao injustificável. Assim, não abraço a fé com adesismos externos. Fé para mim é fé para morrer e viver. É categoria máxima, filosófica, que abarca as categorias da vida. Não identifico a religião apenas com o fato de se ir a igreja ou a qualquer lugar que se queira ir para exercer a fé. Sören Kierkegaard afirma em seus escritos que há três estágios geralmente vivencialmente vinculados ao ser humano. (1) O modo estético. Ligado ao indivíduo que se envereda pelo caminho externo dos vícios, da matéria; pela diversidade a que conduz o desejo. Esse estágio não realiza o ser humano (2) O modo ético ou moral é aquele governado essencialmente pelas normais morais. Mas a vida ética não possui um potencial de realizar os desejos humanos. E (3) o modo religioso que ela afirma como o estágio sublime. Não a religião parasitária, instrumentalizada pelos dogmas e ritos externos. Isso aparece com total evidência na sua obra Temor e Tremor onde trabalha filosoficamente sobre o significado do sacrifício de Abraão no monte Moriá. “Seu objetivo é mostrar através do sacrifício de Abraão que o estágio ético não é absoluto, pelo contrário fica até ofuscado diante de exigências superiores do estágio religioso. Como apelo à subjetividade profunda, o estágio religioso pratica uma devoção ao Deus que não aparece e comunica-se através do silêncio que provem desta relação. Isto nos faz perceber que os dois primeiros estágios são mais populares do que o terceiro. Kierkegaard entendia que os estágios estéticos e éticos não podiam existir sem o estágio religioso. Em outras palavras, o religioso estava presente tanto no estético quanto no ético. O religioso é um estágio conseqüente, pois é a partir da desordem dos estágios inferiores que se tem a possibilidade de encontrar a realidade superior da vida religiosa”. Para mim a religião só tem significado se entendida e compreendida em sua radicalidade. A fé é em si uma decisão. Uma realidade que tem que ser experienciada existencialmente. Termino com uma frase de Kierkegaard dita na sua obra O Desespero Humano: “Varia o escândalo segundo a paixão que o homem põe na admiração”.

Por Carlos Antônio M. Albuquerque