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quinta-feira, outubro 04, 2012

A espetacularização e a ideologização do Judiciário, por Leonardo Boff

O que me deixa impressionado com relação ao julgamento do suposto Mensalão do PT é o quanto a opinião da maior parte da sociedade brasileira está assentada no lugar-comum; o quanto o público se muniu com "setas maquiadas", atirando para um alvo político. Parece que o único sujeito que está dentro do turbilhão e que não baseou suas convicções em querelas meramente políticas; que não leu a Veja, a Folha de São Paulo, O Estado de São Paulo ou O Globo para balizar as suas convicções foi Ricardo Lewandowski. Há muito que deixei de simpatizar com o PT. Mas é drástico quando percebemos o protesto do opressor dentro da garganta do oprimido, evocando Paulo Freire. É lamentável quando a interpretação dos fatos é repetida com homogeneidade, sem distinções claras, por meio de reificações. É preciso protestar contra o óbvio. Lewandowski levantou-se ousadamente e contrariou a voz de determinados setores privilegiados da sociedade brasileira que utiliza ventríloquos para coadunar com a sua vontade. A extraordinária reflexão de Leonardo Boff (abaixo) fala sobre isso.
 A espetacularização e a ideologização do Judiciário
É com muita tristeza que escrevo este artigo no final da tarde desta quarta-feira, após acompanhar as falas dos ministros do Superemo Tribunal Federal. Para não me aborrecer com e-mails rancorosos vou logo dizendo que não estou defendendo a corrupção de políticos do PT e da base aliada, objeto da Ação Penal 470 sob julgamento no STF. Se malfeitos foram comprovados, eles merecem as penas cominadas pelo Código Penal. O rigor da lei se aplica a todos.

Outra coisa, entretanto, é a espetacularização do julgamento transmitido pela TV. Ai é ineludível a feira das vaidades e o vezo ideológico que perpassa a maioria dos discursos.

Desde A Ideologia Alemã, de Marx/Engels (1846), até o Conhecimento e Interesse, de J. Habermas (1968 e 1973), sabemos que por detrás de todo conhecimento e de toda prática humana age uma ideologia latente. Resumidamente, podemos dizer que a ideologia é o discurso do interesse. E todo conhecimento, mesmo o que pretende ser o mais objetivo possível, vem impregnado de interesses.

Pois, assim é a condição humana. A cabeça pensa a partir de onde os pés pisam. E todo o ponto de vista é a vista de um ponto. Isso é inescapável. Cabe analisar política e eticamente o tipo de interesse, a quem beneficia e a que grupos serve e que projeto de Brasil tem em mente. Como entra o povo nisso tudo? Ele continua invisível e até desprezível?

A ideologia pertence ao mundo do escondido e do implícito. Mas há vários métodos que foram desenvolvidos, coisa que exercitei anos a fio com meus alunos de epistemologia em Petrópolis, para desmascarar a ideologia. O mais simples e direto é observar a adjetivação ou a qualificação que se aplica aos conceitos básicos do discurso, especialmente, das condenações.

Em alguns discursos, como os do ministro Celso de Mello, o ideológico é gritante, até no tom da voz utilizada. Cito apenas algumas qualificações ouvidas no plenário: o mensalão seria “um projeto ideológico-partidário de inspiração patrimonialista”, um “assalto criminoso à administração pública”, “uma quadrilha de ladrões de beira de estrada” e um “bando criminoso”. Tem-se a impressão de que as lideranças do PT e até ministros não faziam outra coisa que arquitetar roubos e aliciamento de deputados, em vez de se ocuparem com os problemas de um país tão complexo como o Brasil.

Qual o interesse, escondido por detrás de doutas argumentações jurídicas? Como já foi apontado por analistas renomados do calibre de Wanderley Guilherme dos Santos, revela-se aí certo preconceito contra políticos vindos do campo popular. Mais ainda: visa-se a aniquilar toda a possível credibilidade do PT, como partido que vem de fora da tradição elitista de nossa política; procura-se indiretamente atingir seu líder carismático maior, Lula, sobrevivente da grande tribulação do povo brasileiro e o primeiro presidente operário, com uma inteligência assombrosa e habilidade política inegável.

A ideologia que perpassa os principais pronunciamentos dos ministros do STF parece eco da voz de outros, da grande imprensa empresarial que nunca aceitou que Lula chegasse ao Planalto. Seu destino e condenação é a Planície. No Planalto poderia penetrar como faxineiro e limpador dos banheiros. Mas nunca como presidente.

Ouvem-se no plenário ecos vindos da Casa Grande, que gostaria de manter a Senzala sempre submissa e silenciosa. Dificilmente, se tolera que através do PT os lascados e invisíveis começaram a discutir política e a sonhar com a reinvenção de um Brasil diferente. Tolera-se um pobre ignorante e mantido politicamente na ignorância. Tem-se verdadeiro pavor de um pobre que pensa e que fala. Pois, Lula e outros líderes populares ou convertidos à causa popular como João Pedro Stedile, começaram a falar e a implementar políticas sociais que permitiram uma Argentina inteira ser inserida na sociedade dos cidadãos.

Essa causa não pode estar sob juízo. Ela representa o sonho maior dos que foram sempre destituídos. A Justiça precisa tomar a sério esse anseio a preço de se desmoralizar, consagrando um status quo que nos faz passar internacionalmente vergonha. Justiça é sempre a justa medida, o equilíbrio entre o mais e o menos, a virtude que perpassa todas as virtudes (“a luminossísima estrela matutina” de Aristóteles). Estimo que o STF não conseguiu manter a justa medida. Ele deve honrar essa justiça-mor que encerra todas as virtudes da polis, da sociedade organizada. Então, sim, se fará justiça neste país.

Leonardo Boff é teólogo e escritor.
 Daqui

domingo, fevereiro 19, 2012

Se não pode ficar com os livros, leve-os com você

Não queria ter saído de casa neste carnaval. Gostaria de ter ficado me refestelando com obras fílmicas programadas, muita música (do rock setentista do Sabbath, passando pelo jazz, ao clássico, que são verdadeiramente os estilos que me apetecem); além disso queria colocar as leituras atrasadas em dia. Nas últimas duas semanas eu trabalhei de maneira operosa. Cansei. Fatiguei-me com as exigências da profissão que exerço: professor. Estando posto nestas condições, quando surge um desses feriados que se assemelham a um oásis, ficamos imensamente ansiosos. A gente vem numa caminhada alucinante, angustiante, e, de repente, encontramos essas ilhas de possibilidades. E o resultado é que grandes expectativas são grassadas.

Mas a minha mulher acabou me convencendo a sair de casa. Arrancou-me da minha ilha imaginária. E penso que isso seja uma característica da espécie. Acredito que num tempo primal, os homens por viverem fora de casa (as mulheres, por sua vez, por estarem sempre recolhidas no antro doméstico a cuidar da prole e dos afazeres do lar), num momento ou outro queriam, quando voltavam das caçadas e do trabalho agrícola, recolherem-se pachorrentamente, sem serem incomodados. As mulheres por viverem numa condição inversa, sentiam uma necessidade de saírem, de socializarem, de verem as novidades do mundo. Claro, vivemos em um outro tempo, mas isso ainda continua inscrito num código invisível, em alguma região adormecida do vulcânico cérebro feminino.

Ao sair de casa, trouxe comigo o volume maravilhoso - Karl Marx - ou o espírito do mundo - de Jacques Atalli. A leitura das primeiras páginas causaram uma funda impressão poética. Attali faz uma análise 'secular' de Marx, alguém que parece ter se constituído numa entidade hagiográfica. As análises, geralmente, sobre Marx ou são apaixonadas e sacralizantes ou rasteiras e criminalizantes; ou o amam ou o odeiam. Pelo que que pareceu, Attali decinge-se de uma visão acachapante e unilateral de Marx, como tantos têm feito. O filósofo alemão é uma das mentes mais engenhosas e influentes da história. Poucos filósofos falaram tanto nos últimos quinhentos anos quanto o pensador nascido em Trier. Nenhum filósofo provocou tanta especulação quanto ele. Enormes disputas - militares, ideológicas, estratégicas - surgiram por causa de supostas interpretações exegéticas feitas dos seus escritos que abarcam a economia - o modo de produção e a vida dos homens. E até os dias de hoje, o mundo se "re-arranja" após a Guerra Fria, resultado de uma nação que se levantou para fazer óbice ao capital, personalizado na figura dos Estados Unidos da América. As crises cíclicas do capitalismo já eram apontadas pelo informado jornalista Marx.

Marx disse que as nossas lutas acontecem na história. Não há outro mundo possível. A não ser aquele que nascerá como resultado da luta dos trabalhadores, sobrepujando as contradições da sociedade capitalista. Nesse sentido, como dizia Nietzsche, a doutrina de Marx se assemelha ao cristianismo, por ser proponente de um mundo balizado no idealismo. Continuarei a leitura. Conaterei as novidades.

Ontem à tarde, após ter chegado à capital goiana fui a um shopping da cidade e após ter entrado na Livraria Saraiva, acabei cometendo algumas extravagâncias. Não gosto de ir a lojas de livros. Isso me faz sofrer. Olhar aquelas volumes indeléveis e deixá-los intactos, sem poder levar para casa, me é muito difícil. Adio ao máximo esse fato. Mas acabei cedendo. Comprei quatro livros - On the Road - Pé na estrada, livro de Jack Kerouac ao qual eu estava há muito tempo com o intento de comprar; Por que não sou cristão - Bertrand Russell, este talvez por ter sido influenciado pelo Charlles Campos (embora eu goste bastente do estilo frugal e elegante de Russell); Um artista da fome e outros contos, de Kafka (ando na minha fase Franz Kafka. Tenho tetando lê-lo ao máximo). O estilo do escitor polonês me deixa com a impressão de que um louco resolveu fazer literatura, criando metáforas incríveis e sofisticadas; e o último foi A origem da família, da propriedade privada e do Estado, de Friedrich Engels, um clássico do amigo de Marx. Possuo este livro em casa, todavia numa edição ordinária. Resolvi comprá-lo pela surpreendente editora Expressão Popular, que tem realizado um trabalho extraodinário no sentido de publicar os grandes clássicos do marxismo.

Sendo assim, a minha viagem não está sendo de todo ruim. Estou hospedado em um hotel numa cidade do interior, com vários livros sobre a minha cama. Ouço o Duplo Concerto para cello e orquestra de Brahms em meu notebook. Faz um calor terrível, o que é amenizado pelo ar condiocionado. E a certeza de que muitas vozes falam comigo está comigo. Sendo assim, se você não pode ficar em casa com os seus livros, leve-os com você.


Goiânia/Pontalina - GO
19/02/2012