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quarta-feira, abril 12, 2023

De um comentário político a um colega

 


Não existem governos perfeitos e invulneráveis - ainda mais quando se trata do Brasil. Quando se fala de um governo, penso que a análise deve ser da "forma" e do "conteúdo".  É importante lembrar o que foi o ano de 2013 e o estrago que a Lava Jato provocou na política nos últimos anos. Observe como passamos a lidar com a política. Note que desde o golpe contra a Dilma, os governos foram ruins na forma e no conteúdo. Com relação ao governo Lula 3, há algumas aberrações na forma, mas há coisas necessárias no conteúdo. Quiçá você não concorde com o meu argumento, entretanto não existia outro nome e outro projeto que pudesse desfazer o esfacelamento pelo qual o Brasil passou nos últimos quatros anos.

O radicalismo é uma doença infantil. É importante não medir o atual governo por causa da práxis de alguns radicais. O governo possui boas intenções. Há um quadro com importantes e respeitáveis nomes. Se há erros, é da competência do próprio governo resolver essas pendências. Há um Congresso adverso e imoral. O compromisso do Centrão não é com o Brasil.

No Brasil, existe uma mídia canina, ciosa dos interesses do mercado. No fundo, essa midialona gostaria que o Bolsonaro tivesse vencido o pleito eleitoral do ano passado, pois a lógica segundo eles é: eu não importo com a "forma" - se ele é um não democrata; se ele é limitado, misógino, anti-indigenista, preconceituoso -; o importante é saber se o conteúdo nos privilegia - se continuaremos lucrando; para esses arrivistas, pouco importa se haverá desmantelamento do estado, das leis trabalhistas; se o povo vai ficar mais pobre; se vai comer ou não comer. Em um país como o Brasil, escravocrata e violento por natureza, um governo que carrega o emblema "de popular" não será bem aceito.

Há uma entrevista do Lira Neto no Foro de Teresina que reflete a grandeza e as contradições de Lula. A entrevista procura fazer aproximações entre Lula e Getúlio; e como cada um lidou com as crises políticas que enfrentaram. Não existem nomes mais densos, sagazes e com uma visão política tão ampla na política brasileira quanto os dois. Lula é um estrategista. Confesso que ele começou bem esses quase três meses de governo. Não teria como ser diferente com um Congresso como o que temos e com uma conjuntura tão adversa como a que se mostra.

Penso que a tarefa histórica do Lula 3 é resgatar a política do possível. Lula só venceu a eleição por causa da astúcia política que possui. Esquece-se de que a frente montada por Lula é resultado de uma conciliação política. O objetivo era derrubar a caquistocracia erguida por Bolsonaro e sua trupe. É preciso ter um pouco de paciência. Lidamos, nos últimos quatro anos, como diria Joseph Conrad em “O coração das trevas” com “o horror”.

Impressiona como, no presente, utilizam o udenismo para fazer crítica. É aquela velha fantasmagoria de um moralismo montado contra a corrupção. Às vezes, esses mesmos atores se munem de um discurso que, no fundo, carrega a anomalia queixosa e hipócrita montada por Carlos Lacerda. Note que a beligerância estruturada contra o governo repete os mesmos elementos do passado. Trata-se de uma recorrência trazendo à tona um moralismo requentado, colocando em disputada ‘Estado versus mercado’; ‘capitalismo versus comunismo’; ‘valores cristãos versus imoralidade de esquerda’. Há sempre um maniqueísmo em jogo; uma prática baseada no cancelamento. E, no fundo, essa gente é saudosa da Ditadura, da escravidão, da violência institucional; do desmatamento das políticas públicas; da posse do latifúndio; do mandonismo; da não-democracia.

E, com isso, condena-se um projeto de governo que é amplamente desenvolvimentista e nacionalista. Lula é um dos presidentes mais capitalistas que já governaram o Brasil.  Lira Neto diz que Getúlio costumava questionar: “Por que esses caras não me dão paz? Será que esses tubarões do capital não percebem que eu quero salvar o capital pra eles?”. Penso que o Lula faça os mesmos questionamentos.

Lula não é um disruptivo. É um conciliador. Penso que temos mais a ganhar com ele do que sem ele.


segunda-feira, abril 12, 2021

“Inocência”, de Visconde de Taunay.





Durante o século XIX, alguns escritores deram vasão a uma experiência sertaneja. O Brasil com sua extensão enorme e seu interior ainda pouco explorado promovia um impulso a essas intenções. Procurava-se com isso encontrar a essência do homem brasileiro nos vastos rincões ignorados do país. Vale mencionar que o Brasil era um país que ainda não conhecia o florescimento urbano que somente ocorreria com o deslocamento do eixo econômico para as grandes cidades, principalmente com a industrialização ocorrida a partir de 1930, coincidindo com o fim da República Velha, essencialmente oligárquica e agrária, e os anos do Governo Vargas.

Ainda no século XIX, escritores como Bernardo Guimarães, Franklin Távora, José de Alencar e Visconde Taunay, tentaram descrever essa face ignota do país. Soma-se a isso a estética idealista do romantismo, preocupado com a construção de arquétipos com força representativa.

Nesse sentido, como afirma Alfredo Bosi, Visconde de Taunay (1843-1899) é aquele que “tinha condições de dar ao regionalismo romântico a sua versão mais sóbria”. Essas características saltam de imediato do texto de Taunay. O seu nome sempre me chamou a atenção. Sempre mantive contato com o seu livro mais famoso – “Inocência” – mas sempre me ausentei dele por causa do nome (sic). Julgava que o nome estranho, talvez, evidenciasse uma história enjoativa. Claro, trata-se de um critério tolo – julgar um escritor pelo nome. Taunay tinha ascendência francesa. O seu nome era Alfredo Maria Adriano d'Escragnolle Taunay. Foi político, escritor, sociólogo, engenheiro militar, historiador, músico, professor. Essa plêiade de formações atesta sua estatura intelectual bem como a influência do seu texto.

Participou da Guerra do Paraguai como engenheiro militar, entre os anos de 1864 e 1870. Essa experiência é narrada em “A retirada da Laguna”.

O romance “Inocência” é a sua mais relevante produção artística. O livro é agradável de ser lido. Escrito em 1872, “Inocência” já evidencia as mudanças estéticas por que passava o Romantismo, que marchava em direção ao Realismo e ao Naturalismo.

Taunay procura retratar a história da doce, mas infeliz “Inocência”, que vive na província de Mato Grosso. O escritor procura retratar com rara beleza a natureza do lugar. Isso, por exemplo, se faz sentir no capítulo que abre o livro. Somos bombardeados por uma escrita lapidada, preocupada em fotografar o espaço natural. Em Taunay, já não percebemos as incursões exageradas de Alencar. Taunay é mais “jornalístico”. Talvez, a carreira militar tenha dado a ele esse aspecto mais contido. É, por isso, que Bosi fala em “sobriedade”.
Visconde de Taunay

“Inocência” é um romance em que o verossímil é possível. Não possui um aspecto puramente ideal ou mítico como em Alencar – outra vez.

Como conhecedor das ciências humanas – história e sociologia – Taunay procura retratar os valores e costumes sertanejos. Mas, vale ressaltar que essa característica não tem nada a ver com o naturalismo. Taunay não está preocupado em comprovar uma tese; não torna os seus personagens em meros títeres do meio.

Taunay mescla o romantismo com um enredo carregado de realismo. Observando as características da obra, pode-se afirmar que o livro possui romantismo, realismo, drama e comédia. Os personagens apresentam características e humores bastante variados. Vai desde o comportamento atrapalhado do alemão Meyer ao aspecto rude e inculto de Manecão; do aspecto sombrio de quem se esgueira pelos cantos do anão Tico ao altruísta e apaixonado Cirino; da bondade angélica e amedrontada de Inocência ao rigor conservador de Pereira.

Outro fato importante a ser mencionado é como a figura da mulher é mostrada na obra. Pereira promete a jovem Inocência a Manecão. Vale especular que ela tivesse de 15 a 17 anos. A promessa deveria ser cumprida. A questão da honra prevalecia sobre a vontade individual. Pereira ameaça a própria filha, caso ela não cumpra o acordo e case com Manecão.

O final do livro é shakespereano. O amor impossível entre Inocência e Cirino faz lembrar a história de Romeu e Julieta, uma das histórias mais famosas da literatura.

Vamos, agora, ao quarto livro – “Memorial de Aires”. Já o estamos lendo.

terça-feira, novembro 20, 2018

O moleque Ricardo de José Lins do Rego - algumas impressões

Li há alguns dias o quarto livro do Ciclo da cana de açúcar - O moleque Ricardo. Meu objetivo é fazer a releitura dos cinco livros. Iniciei esta semana Usina, o quinto e último da série - e o maior deles. O moleque Ricardo é uma espécie de digressão dentro do Ciclo. José Lins foca a sua lupa sobre a vida do "moleque da bagaceira", Ricardo. Nos três primeiros livros, Carlos de Melo é o centro da trama. Em Menino de Engenho, vislumbra-se a vida bucólica e repleta de descobertas do neto de José Paulino, o maioral do Engenho Santa Rosa. Em Doidinho, a experiência do engenho muda para a escola em Itabaiana. O engenho aparece como relâmpagos no espaço da memória do jovem Carlos. Em Bangüe, Carlos de Melo volta da Faculdade de Direito do Recife para tomar conta do Santa Rosa, após a morte do avô. Sua fraqueza e inabilidade, colocam-no em posição delicada na administração da propriedade rural. Se levarmos em conta somente os três primeiros livros, Bangüe é o retrato mais poderoso desenhado pela pena do escritor paraibano. 

Em O moleque Ricardo, a narrativa não tem mais curso na vida rural. Dos livros do ciclo é o que mais se engaja numa perspectiva política. A história acontece em Recife. Migra da Paraíba para Pernambuco. Talvez, as impressões tenham sido colhidas por José Lins no período em que estudou Direito na capital pernambucana. José Lins deixa entender que a história de O moleque Ricardo é anterior ao que se dá em Bangüe. Nos acontecimentos políticos que sacodem a narrativa, nota-se a presença de Carlos de Melo. Ricardo e Carlos de Melo se encontram. Miram-se e mantêm uma posição equidistante. Ricardo, o morador de subúrbio; e Carlos de Melo, o herdeiro do senhor de engenho, mas que se dispõe no envolvimento da luta política como um intelectual que tomava causa.

A vida de José Lins enquanto estudante de Direito foi marcada pela estroinice. Todavia, suas viagens pela cidade, fê-lo observar a vida marginal que se brutalizava e resistia às margens do rio Capibaribe; ou nos inúmeros mangues que existem na cidade. Ali a vida dos "homens caranguejos", como chamaria mais tarde Chico Sciense, desenvolver-se-ia com toda luta e resistência em meio à lama e o caos.

O livro é marcado por essas dores, por esses cheiros; pela desejo veemente de contornar a miséria. Ricardo passa a morar em um subúrbio. Trabalha na padaria de um português - Seu Alexandre. Alcança certa tranquilidade com o seu trabalho. Consegue fazer economias. Administrar com destreza o pouco que ganhava na padaria. Aos poucos ele começa a perceber um fluxo, um movimento de contestação. Ricardo saído do Engenho Santa Rosa à procura de melhores condições de vida, percebe que a cidade é o espaço da liberdade. Todavia, é uma liberdade repleta de limites. Na grande propriedade rural "tudo" é do senhor de engenho - animais, terras, homens, árvores etc. Na cidade, há a crença de que há uma liberdade, mas há uma asfixia social baseada no lucro e na propriedade privada dos meios de produção, que transforma tudo em mercadoria. Ricardo era o negro, filho de Mãe Avelina. Descendente de escravos, representa a segmentação da sociedade brasileira. 

O livro escrito em 1935, denunciava a formação social brasileira. Após da decadência da grande propriedade rural e do fim da escravidão, para onde fora o negro? Qual é o seu destino? O que se esperava dele? As palavras as palavras finais do livro denunciam justamente "a apartação social" vivida pelo negro numa sociedade de classes. Ricardo estava sendo levado com os seus companheiros para Fernando de Noronha. Havia participado de uma manifestação e o Estado usava da força para abafar qualquer insurgência social. “[...] Que fizeram eles? Ninguém sabe não! Mataram? Roubaram? Queriam de comer, queriam vestir, queriam viver. E as mulheres? E os meninos? Também chorariam de fome". 

É  o livro de maior ressonância social de José Lins do Rego. Atende bem ao momento histórico em que se vivia - efervescência no cangaço, consolidação de uma burguesia nacional; decadência do agrarismo, principalmente com o café na região Sudeste e a cana de açúcar na região Nordeste; o movimento integralista brasileiro; a tentativa frustrada de um levante comunista. O governo Vargas que recrudesceria em violência, levando ao golpe de estado em 1937. No meio desses eventos, está o negro e sua luta. 

É curioso notar que José Lins cria dois mundos: o mundo da cidade com sua latejante desigualdade e o mundo bom e idílico do engenho. O engenho, a vida rural, como uma espécie de Éden que se perdeu. Alinha-se com o pensamento daquele que foi o preceptor de José Lins do Rego, o pernambucano Gilberto Freyre, que voltara dos Estados Unidos na década anterior e apadrinhara o escritor paraibano. Freyre procurou formar uma sociologia brasileira. Revelar a identidade nacional. Todavia, ao fazer isso, entendeu que o presente deformara o passado. Há uma "saudade implícita" pelo sobrado da Casa Grande na literatura de José Lins do Rêgo, talvez uma aspecto colhido da obra de Freyre. Vale lembrar que Casa Grande & Senzala havia sido escrito em 1933. O moleque Ricardo é de 1935.

A escrita de José Lins do Rego continua, como nos livros anteriores, correndo fácil. Nesse sentido, é um escritor plácido e agradável como as águas do rio Paraíba, tão presente em O menino de engenho. Não há empolações. Rebuscamentos. Exageros. José Lins transmite suas impressões como se estivesse numa conversa com os amigos. Bebemos cada palavra. Sentimos o sabor da linguagem. Percebemos as nuances simples da fala das personagens. E seguimos, atentando para casa paisagem.

sábado, maio 19, 2018

Algumas palavras sobre "A verdade vencerá - o povo sabe por que me condenam", de Luiz Inácio Lula da Silva

Acabei a leitura do livro "A verdade vencerá - o povo sabe por que me condenam", editado pela Boitempo. O livro é resultado de horas de entrevistas de quatro pessoas (Ivana Jinkings, Gilberto Maringoni, Juca Kfouri e Maria Inês Nassif) que dialogam francamente com Luiz Inácio Lula da Silva, uma das figuras mais importantes da história política brasileira. 

Vale mencionar os quatro textos escritos na parte inicial do livro, com destaque para a crônica política de Luis Fernando Veríssimo e o artigo preciso escrito pelo habilidoso Luis Felipe Miguel, professor da Universidade de Brasília. 

Após a leitura do livro, restou-me a impressão (ainda mais forte) de que Lula é uma figura sui generis. Seus inimigos podem não gostar de sua pessoa, mas, devem, no mínimo, respeitar a sua trajetória política e histórica. A entrevista se mostra uma verdadeira aula de como acontece o jogo político. Não há um esquematismo sistemático típico dos intelectuais herméticos. Lula discorre com simplicidade o mundo grande, graúdo, das negociações políticas; dos conchavos, das traições; de como se deve respeitar o seu mais terrível algoz. 

Demonstra uma finesse no tratamento com os adversários. "O conselho que eu dou é não entrar na política. Porque a arte da política é você conversar com os contrários". Talvez, esse respeito não seja dispensado a ele. Afinal, seus algozes são implacáveis. Lula é um exímio construtor de frases. Suas verbalizações conseguem gerar empatia. Isso é um dos seus trunfos, o que o torna popular, querido por boa parcela da população mais pobre, gerando medo nos seus adversários. 

A entrevista toca em temas políticos sensíveis como, por exemplo, a traição de companheiros de partido, como é o caso de Antônio Pallocci. Busca problematizar o que gerou o impedimento de Dilma. A dificuldade que Dilma possuía para dialogar; o fiasco das decisões tomadas por Dilma logo após a vitória eleitoral em 2014. Aquilo que foi possível realizar quando era presidente e os sonhos que alimenta em relação ao país.

Lula se afirma inocente em todas as perguntas e direciona à Lava Jato, a responsabilidade pela criação de provas forjadas para incriminá-lo. Há uma noção muita clara de quem são os responsáveis pela perseguição orquestrada contra a sua pessoa. Lula fala ainda sobre a imagem que o país passou a ter internacionalmente após o seu governo. Os principais líderes do mundo passaram a respeitar o Brasil pela capacidade que Lula tinha de negociar. Senti falta de temas relativos à América Latina. Todavia, torna-se compreensível a ausência desses temas pelo fato de, no momento da entrevista, fevereiro de 2018, a condenação pelo TRF4 e a iminência de sua prisão, serem os temas do momento.

Fui ler na Amazon alguns comentários, tentando entender a percepção de algumas pessoas sobre o livro. Assustei-me com as afirmações. Certamente, o ódio leva as pessoas a perderem a o bom-senso. Aqueles que se dizem liberais no Brasil - entre estes estão os principais perseguidores de Lula - não sabem o que é liberalismo. Lula se mostra mais liberal do que aqueles que assim se autointitulam. Aquela máxima: "Posso não concordar com o que você diz, mas devo defender até a morte o direito de você dizer" não é consdierada. Há xingamentos. Falta de trato. Ausência de respeito à trajetória política. Insinuações de que Lula é ladrão - este um dos argumentos mais baixos e rasteiros que se possa imaginar. 

Aqueles que isso insinuam, não entenderam o livro, não entenderam a aula dada por Lula. Pelo menos cinquenta anos de história política é despejada em sua entrevista, reforçada pelas mais de duzentas referências a personagens e a acontecimentos.

Se Lula fosse uma personagem do mainstream político como os tantos que existem no Brasil, ele não sofreria a perseguição diuturna de que é alvo. Essa perseguição é resultado de um preconceito por tudo aquilo que ele representa - pela sua origem, pela sua militância, pelo fato de ser uma das personagens mais respeitadas no mundo inteiro, por ter realizado um realizado um governo de que os mais pobres têm saudades, por possuir 33 títulos de doutor honoris causa; por ter fundado um partido que possui densidade política e penetração social. 

As elites brasileiras, com os seus braços de poder na mídia, no judiciário, no sistema financeiro e nos vários setores de decisões do estado, sempre se utilizaram de manobras para impedir qualquer tipo de mudança. A condenação de Lula passa por isso. Lula foi condenado e está sendo perseguido pelo fato de ser Lula. Se não tivesse essa capacidade política de mobilização que possui, seu processo prescreveria e ela ainda concorreria cinicamente às eleições com a certeza de que venceria. Não seria molestado pela opinião pública. Não haveria essa estrutura de ódio construída contra a sua pessoa. 

A crítica que percebemos nas falas do ex-presidente se assentam na credulidade exacerbada que possui nas instituições do Estado. Uma crença de que a própria sociedade que incrimina é aquela que vai inocentá-lo. Lula se esquece de dois fatos: (1) O estado moderno é uma instância do poder da burguesia, das elites que comandam o estrato social. Ela se mune construindo um muro por meio das leis e interpretações que as personagens que possuem poder de mando orquestram. Os poderes constituídos (Executivo, Judiciário e Legislativo) são instâncias que tomam decisões políticas, que criam realidades jurídicas incompatíveis com o ideal daquilo que é democracia. A expectativa de democracia no estado burguês vive de conveniências. Os golpes e a capacidade de manipulação das decisões conduzem o processo político, incriminando determinados movimentos ou permitindo a sua existência enquanto esse não oferecer resistência às estruturas de classe da sociedade capitalista. (2) Lula se esquece de que o povo, essa entidade cooptável, manipulável, precisa de uma preparação, de educação política para entender determinados processos. E foi justamente isso que o seu governo não fez. O PT não foi capaz de mobilizar os vários movimentos da sociedade civil para debater determinados temas, que são fundamentais para gerar mudanças nesse país. Se esse fato tivesse acontecido, talvez, a Dilma estivesse terminando o seu segundo mandato e Lula assumisse a presidência, pela terceira vez, permitindo ao Partido a quinta vitória. O PT permitiu que a astúcia de seus opositores fosse maior do que a capacidade de mobilização de sua militância. 

No geral, o livro é muito bom! Vale a leitura. É preciso ler com tranquilidade para perceber a sensibilidade de cada palavra enunciada por Lula. É essa sensibilidade intrínseca que torna o livro valioso. Talvez a verdade triunfe daqui a cinquenta ou cem anos, como hoje se olha pra trás e se entende as dificuldades enfrentadas por Getúlio Vargas, JK ou João Goulart. Daqui a algumas décadas, os livros mostrarão o quanto o Brasil perdeu a chance de avançar socialmente por ter "criminalizado" a figura que tinha condições de realizar isso.