Mostrando postagens com marcador Rubem Alves. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Rubem Alves. Mostrar todas as postagens

domingo, outubro 14, 2018

Cristo denunciou a indiferença, a presunção ressentida e o ódio dos religiosos

Sempre fui um admirador dos grandes sujeitos que foram modelos para a humanidade. Que refletiram como podemos nos tornar humanos mais responsáveis e conhecedores daquilo que somos. Por isso, admiro Sócrates, Confúncio, Buda, Gandhi, Nietzsche, Martin Luther King, São Francisco de Assis, Rubem Alves, Jesus Cristo. 

Cristo, por exemplo, é para mim a quintessência desse mergulho, desse desafio, dessa jornada à procura de uma humanidade que considere o outro. Cristo estabelece uma nova justiça, uma nova ética, uma nova filosofia fundamentada no amor. Ao lermos os quatro evangelhos, não encontramos sistematização de uma doutrina; a dogmática encapsuladora e reducionista dos cristãos atuais. Cristo sempre fugiu dos modelos prontos, criminalizadores, presunçosos, que colocam a aparência acima da essência. Sua única preocupação era: o "eu" só pode está pacificado com o Deus, se ele levar em conta o "tu".

Há inúmeras passagens em que o encontramos ao lado de pessoas que eram tidas como proscritos sociais - prostitutas, cobradores de impostos, glutões, beberrões. Sua fala desmontava os ressentimentos, as compreensões estúpidas de uma religiosidade pouco produtiva, que pouco considerava o ser humano em sua integridade, em sua dignidade. O ódio é o alimento do arrogante, daquele que está cheio de si, que deposita no coração o preconceito separador, assassino.

As eleições deste ano têm me ajudado a consolidar um entendimento: mais Cristo e menos religiosidade. Em determinada passagem do livro de Mateus, Cristo diz algo que acende uma alerta em mim: a mesa de Cristo é mais ampla, larga e inclusiva do que a mesa proposta pela religiosidade obtusa e preconceituosa. Ao ouvir a confissão de fé de um centurião romano, um pária religioso, que não fazia parte da "igreja institucionalizada", conforme o entendimento dos judeus, encontramos uma preciosa lição. "Digo-vos que muitos virão Ocidente e do Oriente e do e tomarão lugares à mesa com Abraão, Isaque e Jacó no reino dos céus". (Mateus. 8.11). Ele estava explicando o quanto a sua presença tirava dos religiosos judeus a primazia do monopólio da fé.

Sempre que encontramos Cristo em um embate nos evangelhos é por causa da religião que ajuda na reprodução do status quo. A fé oficial é cristalizadora, pouco dada ao questionamento, pouco dada à indignação. Não entende que "o homem não foi feito por causa do sábado, mas que o sábado foi feito por causa do homem" (Marcos 2.27). Que o homem e suas necessidades (sejam elas materiais ou existenciais) estão acima de quaisquer realidades.


Há um outro episódio curioso no livro de João, que mostra a impetuosidade de Pedro. Naquele episódio, o famoso apóstolo entedia que a violência, a truculência, a irracionalidade, resolveriam o problema. Os soldados se aproximavam para prender Jesus. Pedro, que representava o voluntarismo, usou a espada afoitamente e cortou a orelha de Malco, um dos auxiliares do sumo sacerdote. Jesus profere a seguinte frase, que encontramos em Mateus: "Embainha a tua espada; pois todos os que lançam mão da espada à espada perecerão". (Mt 26.47-56; Jo 18.1-11). Jesus é amoroso e sábio até mesmo nas situações extremas. Para Jesus, soldado romano bom, não era soldado romano morto. Jesus não era um belicista. Sua revolução acontecia/acontece primeiramente no coração. Os olhos são o espelho da alma.  Os que têm fome e sede de justiça serão saciados, pelo fato de o reino de Deus acontecer primeiro como uma força que modifica o olhar, o coração e a caminhada. 

 A violência está do lado do ressentido e este nunca foi o lugar de Cristo. No episódio em que Cristo fala que "o homem não foi feito por causa do sábado", vemos que os líderes religiosos mais ilustres da época, os fariseus, "conspiravam contra ele, sobre como lhe tirariam a vida". (Mateus 12.14). A justiça sempre será perseguida. A bondade, em alguns momentos, será tida como medida antiquada. O amor não é uma força sempre aquecida. Ele pode esfriar. Ser tido como um gesto desnecessário, piegas. 

Gandhi costumava dizer que se os homens lessem o Sermão do Monte, o mundo seria um lugar diferente. Pois é justamente nesses poucos capítulos do Novo Testamento, que encontramos o a contracultura, a práxis evangélica transformadora. Abaixo, seguem algumas excertos da "verdadeira" mensagem cristã. 

"E Jesus, vendo a multidão, subiu a um monte, e, assentando-se, aproximaram-se dele os seus discípulos;
E, abrindo a sua boca, os ensinava, dizendo:
Bem-aventurados os pobres de espírito, porque deles é o reino dos céus;
Bem-aventurados os que choram, porque eles serão consolados;
Bem-aventurados os mansos, porque eles herdarão a terra;
Bem-aventurados os que têm fome e sede de justiça, porque eles serão fartos;
Bem-aventurados os misericordiosos, porque eles alcançarão misericórdia;
Bem-aventurados os limpos de coração, porque eles verão a Deus;
Bem-aventurados os pacificadores, porque eles serão chamados filhos de Deus;
Bem-aventurados os que sofrem perseguição por causa da justiça, porque deles é o reino dos céus;
Bem-aventurados sois vós, quando vos injuriarem e perseguirem e, mentindo, disserem todo o mal contra vós por minha causa".


Mateus 5:1-11


"Ouvistes que foi dito: Olho por olho, e dente por dente.
Eu, porém, vos digo que não resistais ao mau; mas, se qualquer te bater na face direita, oferece-lhe também a outra;
E, ao que quiser pleitear contigo, e tirar-te a túnica, larga-lhe também a capa;
E, se qualquer te obrigar a caminhar uma milha, vai com ele duas.
Dá a quem te pedir, e não te desvies daquele que quiser que lhe emprestes.
Ouvistes que foi dito: Amarás o teu próximo, e odiarás o teu inimigo.
Eu, porém, vos digo: Amai a vossos inimigos, bendizei os que vos maldizem, fazei bem aos que vos odeiam, e orai pelos que vos maltratam e vos perseguem; para que sejais filhos do vosso Pai que está nos céus;
Porque faz que o seu sol se levante sobre maus e bons, e a chuva desça sobre justos e injustos.
Pois, se amardes os que vos amam, que galardão tereis? Não fazem os publicanos também o mesmo?
E, se saudardes unicamente os vossos irmãos, que fazeis de mais? Não fazem os publicanos também assim?
Sede vós pois perfeitos, como é perfeito o vosso Pai que está nos céus".


Mateus 5:38-48

"A candeia do corpo são os olhos; de sorte que, se os teus olhos forem bons, todo o teu corpo terá luz;
Se, porém, os teus olhos forem maus, o teu corpo será tenebroso. Se, portanto, a luz que em ti há são trevas, quão grandes serão tais trevas!"


Mateus 6:22,23

"Porventura colhem-se uvas dos espinheiros, ou figos dos abrolhos?
Assim, toda a árvore boa produz bons frutos, e toda a árvore má produz frutos maus.
Não pode a árvore boa dar maus frutos; nem a árvore má dar frutos bons.
Toda a árvore que não dá bom fruto corta-se e lança-se no fogo.
Portanto, pelos seus frutos os conhecereis".


Mateus 7:16-20
Ouvistes que foi dito: Olho por olho, e dente por dente.
Eu, porém, vos digo que não resistais ao mau; mas, se qualquer te bater na face direita, oferece-lhe também a outra;
E, ao que quiser pleitear contigo, e tirar-te a túnica, larga-lhe também a capa;
E, se qualquer te obrigar a caminhar uma milha, vai com ele duas.
Dá a quem te pedir, e não te desvies daquele que quiser que lhe emprestes.
Ouvistes que foi dito: Amarás o teu próximo, e odiarás o teu inimigo.
Eu, porém, vos digo: Amai a vossos inimigos, bendizei os que vos maldizem, fazei bem aos que vos odeiam, e orai pelos que vos maltratam e vos perseguem; para que sejais filhos do vosso Pai que está nos céus;
Porque faz que o seu sol se levante sobre maus e bons, e a chuva desça sobre justos e injustos.
Pois, se amardes os que vos amam, que galardão tereis? Não fazem os publicanos também o mesmo?
E, se saudardes unicamente os vossos irmãos, que fazeis de mais? Não fazem os publicanos também assim?
Sede vós pois perfeitos, como é perfeito o vosso Pai que está nos céus.

Mateus 5:38-48


Diante de tantos discursos confusos, encharcados de indiferença, não consigo entender como uma pessoa que se diz cristã, comungue com um discurso de ódio e violência, leia as passagens acima e não faça uma leitura de sua fé. Fé não deve ser entendida como penduricalho eclesiástico, como mera participação em um grupo que pouco contribui para uma relevância social. É pouco frutífera essa disposição conservadora, cristalizada em costumes. A teologia de Cristo era viva, irradiava das necessidades diárias daqueles que se encontravam com Ele. 

A escolha pela realidade duvidosa, por aquilo que assume uma feição de duplicidade, não é cristã. Jesus disse que não se pode servir a dois senhores (Mateus 6.24). Paulo escrevendo aos cristãos em Tessalônica, aconselhou: "Fugi de toda aparência do mal". (1 Tessalonicenses 5.22). Por isso, é-me estranho alguém que se diga cristã, fazer a opção por um discurso destoante da mensagem de Cristo. O amar a Deus só faz sentido, quando se ama o próximo. Ou seja, alguém que olha o céu, necessariamente, precisa voltar o olhar para a terra e assumir uma posição ao lado da paz e da justiça. 

Os judeus esqueceram essa mensagem. Passaram a viver uma religiosidade inócua, que mira o vazio, sem prestar atenção no seu semelhante. Diante de muitos cristãos que se deixam seduzir por um discurso de ódio e indiferença, a minha observação é de que Cristo está correto, e eles, equivocados. 

terça-feira, outubro 24, 2017

A ética dos justos

Havia numa cidade dos Estados Unidos uma igreja batista. Os batistas, como se sabe, são um ramo do cristianismo muito rigoroso nos seus princípios éticos. Havia na mesma cidade uma fábrica de cerveja que, para a igreja batista, era a vanguarda de Satanás. O pastor não poupava a fábrica de cerveja nas suas pregações. Aconteceu, entretanto, que, por razões pouco esclarecidas, a fábrica de cerveja fez uma doação de 500 mil dólares para a dita igreja. Foi um auê. Os membros mais ortodoxos da igreja foram unânimes em denunciar aquela quantia como dinheiro do Diabo e que não poderia ser aceito. Mas, passada a exaltação dos primeiros dias, acalmados os ânimos, os mais ponderados começaram a analisar os benefícios que aquele dinheiro poderia trazer: uma pintura nova para a igreja, um órgão de tubos, jardins mais bonitos, um salão social para festas. Reuniu-se então a igreja em assembléia para a decisão democrática. Depois de muita discussão registrou-se a seguinte decisão no livro de atas: "A Igreja Batista Betel resolve aceitar a oferta de 500 mil dólares feita pela Cervejaria na firme convicção de que o Diabo ficará furioso quando souber que o seu dinheiro vai ser usado para a glória de Deus."

(Extraído do livro O Deus que conheço - Rubem Alves. Verus Editora, pp. 69 e 70

sexta-feira, junho 02, 2017

Um livro há muito desejado

Quando estudei em um seminário teológico, sempre busquei ler o que me vinha à mão. Li principalmente os autores de teologia dogmática. Ou seja, aqueles autores que possuem uma preocupação apologética, que trilham pelos caminhos seguros do não questionamento; que não divergem com o pensamento teológico legado pela tradição - inerrância das escrituras, Cristo como salvador absoluto; divino e humano; Salvador, Messias; somente a graça é capaz de salvar, a trindade etc. São temas basilares, estruturais, que firmam a fé da igreja. Esses dogmas foram consolidados ao longo dos séculos por meio de debates acalorados. 

Por outro lado, havia aqueles autores "perigosos". Se lêssemos, passávamos a sermos olhados pelos colegas e pelos professores com certa preocupação. Estaríamos alimentando questionamentos e indiferença para com a fé ortodoxa? O ateísmo ter-nos-ia tomado de assalto? Estaríamos "esfriando", termo este que significa perder a paixão, até se tornar indiferente para com a fé.

Téologos como Rudolf Bultmann, Karl Barth, Paul Tillich, Emil Brunner, Jürgen Moltmann, Renan, Niebuhr ou Albert Schweitzer se pronunciados poderiam trazer um mal presságio. Tanto é assim que, enquanto estava no seminário, li apenas um opúsculo de Bultmann e outra pequena obra de Tillich. Ler o brasileiro Rubem Alves era tóxico também. Vale fazer uma pequena digressão aqui, pois muitos desses teólogos foram introduzidos no pensamento teológico brasileiro por intermédio de Rubem Alves, quando este estudou nos Estados Unidos nos anos 60 e 70 do século passado. Livros como Teologia de Esperança, Protestantismo e Repressão, O enigma da religião, O que é religião? e Dogmatismo e Tolerância, do grande filósofo e teólogo mineiro foram fundamentais para que eu criasse uma lastro crítico necessário para relativizar algumas construções teológicas tidas como inquebráveis e fundamentais. 

Recordo-me que certa vez encontrei um colega lendo A busca do Jesus Histórico, do alemão Albert Schweitzer. Inquiri o colega sobre o livro. Falou-me do que tratava. Fiquei interessado. Eu já ouvira falar sobre Albert Schweitzer pela caneta de Rubem Alves. Trata-se de um grande humanista, extraordinário organista e amante da música de Johann Sebastian Bach; um intelectual refinado; um homem com uma alma apaixonante; erudito que se radicou na África para cuidar de homens e mulheres doentes. Era um sujeito que conseguia conciliar a erudição do pensamento filosófico-teológico e ao mesmo tempo arregaçar a manga para cuidar do corpo moribundo de sujeitos padecentes. Este fato deu a Albert Schweitzer o Nobel da Paz, em 1953.  A busca do Jesus Histórico é a sua tese de doutoramento escrita no ano de 1899. 

   Albert Schweitzer (1875-1965)

Sempre procurei o livro para ler, mas nunca havia obtido sucesso. Até que no início do mês passado, ao fazer uma busca na internet, encontrei-o no sítio da Saraiva. Não hesitei. Comprei imediatamente. Hoje, demorados mais de vinte dias, recebi-o quando cheguei do trabalho. Fui imediatamente movido pela curiosidade e já bebi algumas páginas da obra de Albert Schweitzer.

O autor alemão nesta obra, centra a sua atenção, por meio de uma espécie de busca arqueológica, do Jesus histórico. Ou seja, o homem real, que talvez tenha vivido na Palestina há dois mil anos atrás. A Igreja sempre se preocupou em retratar o Cristo da fé, divinizado, celestializado e confirmado pela construção do dogma. O dogma cria muros. Suplanta relativizações. Impede os questionamentos. As informações que temos sobre a sua existência são rarefeitas. Não estão solidamente confirmadas em documentos relevantes. E o resultado da investigação de Schweitzer. é acachapante: o Jesus histórico não existe. O que existe é uma figura alimentada pela psicologia, projetada pela nossa própria auto-imagem. O Jesus da fé é diferente do Jesus histórico, pois este é inócuo em sua materialidade, mas aquele é agigantado pela fé, fazendo crescer naquele que crer, um sentimento que renova e transforma a sociedade e a história. 

É começar a leitura imediatamente.


terça-feira, agosto 09, 2016

Sobre o "desfazer" anos - de acordo com Rubem Alves

Rubem Alves, o mineiro sensível de Boa Esperança-MG, sempre foi uma referência delicada para mim. Desde a primeira vez que li o seu texto, nunca mais fui o mesmo. Com ele passei a perceber que existe um gesto invisível, um movimento silencioso, que, às vezes, mora nos interstícios das coisas. É preciso ter humildade para perceber. Ler Rubem Alves é treinar o olhar. É ter a possibilidade de endireitar aquelas ramificações invisíveis que nos ligam ao mundo real e que faz dele "uma metáfora para alguma coisa", evocando a fala do carteiro a Pablo Neruda, no filme O carteiro e o poeta. É, por isso, que nunca deixei de lê-lo. De aprender com a sua pedagogia provocativa, capaz de nos tirar do lugar-comum.  

Pois, recordo-me de um episódio em que li uma das suas crônicas, um exercício que é sempre humanizante. Nessa crônica, ela comentava sobre a possibilidade de "desfazer" anos em seu aniversário. Essa ideia pouco comum, andava na direção contrária à compreensão que, geralmente, as pessoas possuem: de que à medida que o tempo passa, vou "fazendo" anos. Hoje, quando completo mais um ano de vida, bateu-me o desejo de ler mais uma vez esse bonito texto. Achei-o no site da Folha. 

Está abaixo:

Desfiz 75 anos... - por Rubem Alves

As velinhas acesas fincadas no bolo não querem morrer, mas elas vão ser mortas por um sopro que apaga a vida

MINHA FORMAÇÃO filosófica impõe-me o uso preciso das palavras porque as palavras devem revelar o ser. E é assim, usando de forma precisa as palavras, comunico aos meus leitores que ontem, dia 15 de setembro, eu desfiz 75 anos...

Haverá leitores que se apressarão a corrigir meu uso estranho, nunca visto, da palavra "desfazer", atribuindo-o, quem sabe, a um início do mal de Alzheimer. Todo mundo sabe que, para se anunciar um aniversário, o certo é dizer "fiz" tantos anos. No meu caso, "fiz" 75 anos...

Mas o verbo "fazer" sugere algo que aumenta, um crescimento do ser, o artista e o artesão "fazem"...
Mas, que ser aumenta com a passagem do tempo, esse monstro que devora os seus filhos? O que aumenta é o vazio. Esses anos que o aniversariante distraído anuncia como anos que ele fez são, precisamente, os anos que ele desfez, o tempo que já passou, que deixou de ser, os anos que o tempo devorou.

Por isso acho um equívoco filosófico perguntar a alguém: "Quantos anos você tem?". O certo seria perguntar "quantos anos você não tem?". E ela responderia "não tenho 42 anos", "não tenho 28 anos". Porque esse número de anos indica precisamente os anos que ela não tem mais. Nos aniversários, então, a maneira correta de se dirigir ao aniversariante é perguntando-lhe "quantos anos você está desfazendo hoje?".

Com base nessas reflexões filosóficas acho extremamente estranho e mesmo de mau gosto esse costume de o aniversariante soprar as velinhas acessas para que elas se reduzam a um pavio negro retorcido. Aí, nesse momento, todos gritam e riem de alegria e cantam o "Parabéns pra você", em louvor a essa "data querida..."

Bachelard, no seu delicadíssimo livro "A Chama de uma Vela", que nunca será best-seller, nos lembra que uma vela que queima é uma metáfora da existência humana. Há alguma coisa de trágico na vela que queima: para iluminar, ela tem que morrer um pouco. Por isso ela chora, e suas lágrimas escorrem sobre o seu corpo sob a forma de estrias de cera.

Uma vela que se apaga é uma vela que morre. Algumas velas se consomem todas, morrem de pé, têm de morrer porque a cera já se chorou toda. Outras morrem antes da hora -elas não queriam morrer-, mas veio o vento e a chama se foi.

As velinhas acesas fincadas no bolo não querem morrer. Elas vão ser assassinadas por um sopro. O sopro que apaga as velas é o sopro que apaga a vida...

Por isso não entendo os risos, as palmas e a alegria que se segue ao sopro que apaga as velas. Uma vela que se apaga é um sol que se põe, disse Bachelard. E todo pôr-do-sol é triste... Uma vela que se apaga anuncia um crepúsculo.

Por isso eu prefiro um ritual diferente, ritual que é uma invocação. Eu acendo uma vela pedindo aos deuses que me dêem muitos anos a mais de vida, esses anos que se seguirão, que são o único tempo que realmente possuo...

Assim fiz, acendi uma vela, meus amigos à minha volta. Que coisa boa é ter amigos, especialmente quando o crepúsculo e a noite se anunciam!

Acho que a vida humana não se mede nem por batidas cardíacas nem por ondas cerebrais. Somos humanos, permanecemos humanos enquanto estiver acesa em nós a esperança da alegria. Desfeita a esperança da alegria, a vela se apaga e a vida perde o sentido.

sábado, julho 19, 2014

Rubem Alves e o meu aprendizado a respeito do tempo e da vida

  "Poesia é uma qualidade do olhar"/ "O mundo para mim é um instrumento cósmico onde dormem as mais belas melodias". - Rubem Alves

O tempo como agente

Diz Agostinho que "o tempo produz efeitos admiráveis dentro de nós". O tempo possui um cinzel invisível que vai nos esculpindo tanto física quanto espiritualmente. Recordo-me das frases iniciais de Erico Veríssimo em Solo de Clarineta, quando ele diz que "as marcas do tempo estavam impressas no pergaminho do seu rosto". Uma metáfora que define os enunciados do tempo escritos em nós. É trivial. É natural. Mas todos morrem. Já perdi tantas pessoas queridas - meu pai, meu avô materno, minha avó paterna, conhecidos, amigos. E cada novo dia, o movimento irrefreável do rio da vida dobra mais uma curva em sua viagem. O tempo é aliado da morte. É seu companheiro. Os dois caminham de mãos dadas como no filme de Ingmar Bergman. A morte aparece para jogar com a sua vítima. Ele tenta enganá-la. Tenta negociar, mas bastou o tempo para fulminá-lo. Quando ele menos esperava, ela apareceu com sua face fria e o tragou.

A morte nos machuca, pois aqueles a quem ela faz de vítima, sabemos, nunca mais se verá. É um "sequestro", uma violência abrupta, um laceração nas emoções. Uma cisão, um corte, um passar a esponja na existência de cada um de nós. Quem vai não volta. Quando se morre, tudo termina. A expectativa da morte é a realidade mais trágica para o ser humano. 

Hoje, o tempo trouxe consigo a sua companheira e ceifou a vida de uma das figuras responsáveis por um pouco de minha formação ontológica - Rubem Alves. Fiquei sabendo da morte de Rubem Alves no início da tarde de hoje. Há dias eu acompanhava o sofrimento pelo qual ele passava. Enquanto corria hoje no final da tarde, eu ouvia a End of the Road, de Eddie Vedder, que faz parte da trilha sonora do filme Dentro da Natureza  Selvagem, pensei sobre esse "fim da estrada" a qual todos nós chegaremos, enquanto olhava para as nuvens alaranjadas, com feições sanguinolentas. A aragem fria do início da noite produziu reverberações poderosas. Acabei ficando triste.

O tempo da descoberta

Descobri Rubem Alves nos idos de 2002. Estudava em um seminário. E ao conhecer as suas crônicas, impressionei-me com sua sensibilidade. De repente, passei a procurar para ler tudo que dizia respeito a ele. Contudo, percebia que quando falava de Rubem Alves, alguns dos meus colegas seminaristas me encaravam com certa desconfiança. Afinal, entendi o porquê de tanto medo dos meus colegas. Rubem havia sido um seminarista, assim como eu o era; chegou a ser pastor, mas sua liberdade de pensamento e sua forma de "caminhar" acabaram por criar problemas. Em plena Ditadura Militar, a Igreja Presbiteriana do Brasil o denunciou ao serviço de repressão do Regime. Se ele ficasse por aqui, certamente seria preso, torturado e teria um destino incerto. Enfim viajou para os Estados Unidos e lá fez mestrado e doutorado, contribuindo proficuamente para lançar as bases daquilo que se tornou conhecido como Teologia da Libertação. Sua Teologia da Esperança é o embrião que deu feições ao movimento que teria nomes como o peruano Gustavo Gutierrez e o brasileiro Leonardo Boff como ícones. 

O pensamento teológico de Rubem Alves, de certa forma, acabou por me influenciar. Desvinculei-me do dogmatismo da fé quando li Protestantimo e Repressão e Dogmatismo e Tolerância. Estes, acredito, são livros que me marcaram e que inscreveram em mim o discernimento filosófico e estético que tenho sobre a espiritualidade; me tiraram o"cabresto religioso" que estava em meu pescoço e me fazia olhar somente para o chão. Quando li Rubem Alves, pude olhar para o céu e me maravilhar com as cintilações de um azul que nunca enxergara. Os dois livros estão guardados carinhosamente em minha biblioteca e, de vez em quando, pego-os, admiro-os, folhe-os e termino tudo com um grande sorriso.

Passei a perceber que em Rubem Alves se torna fato aquela frase dele: "As palavras têm o poder de fazer acordar os desejos adormecidos dentro do corpo". É como se o corpo fosse uma lápide, um jazigo, onde estão congelados os rios simbólicos. As palavras são sóis capazes para dar vida a esse mundo inóspito. São elas, tão próprias do mundo humano, elementos capazes de fazer morar em nós a faculdade da alegria. A palavra é capaz de fazer ressuscitar o corpo. Ela é a eucaristia vivificadora. O corpo é uma realidade biológica, orgânica, mas o que nos torna humanos é a capacidade de criação dos símbolos. Criamos, pois isso é inerente aos seres humanos. Portanto, esse corpo é o espaço gerador de novas ideias, da capacidade de apreensão do mundo. Ou seja, tudo mora no corpo. A vida e a morte. Os abismos e as montanhas. Os jardins e os pântanos. O céu e o inferno. Os dias e as noites. E para subverter a logicidade da matéria, é necessário treinar o olhar. Rubem costumava repetir uma frase do poeta inglês William Blake: "O tolo ao ver uma árvore, enxerga somente uma árvore; o sábio, por sua vez, ao ver uma árvore, enxerga uma poesia". 

Após entender que existe um jogo simbólico por traz das coisas, transformei isso em uma realidade para os meus devaneios teológicos e espirituais. Rubem costumava apontar para o ritual cristão da santa ceia, dizendo que ali estava "o símbolo de uma ausência" - o pão e o vinho. Observem como ele conseguia fazer poesia com as mínimas coisas. E que o mundo estava repleto de metáforas. "E toda metáfora é um salto sobre o abismo". É esse jogo com a palavra que torna o universo de Rubem Alves tão encantador. Flertar com o seu pensamento é passar a viver com os arco-íris, com os arrebóis mais encarnados, com os jardins mais coloridos, com a sensação de que estamos saboreando as carnes delicadas de um caqui.

O pensamento de Rubem Alves se funde com um dos seus mestres - Nietzsche. Diz o alemão: "Estou convencido de que a arte representa a tarefa realmente metafísica do homem... A existência do muno só se justifica como um fenômeno estético". Acredito que estas palavras definam o que foi e como deve ser compreendido Rubem Alves.

O tempo do real (tempus fugit)

Ao saber da notícia nefanda, fez-se uma noite escura dentro de mim. Fiquei com um mal-estar horrível. É como se eu tivesse perdido alguém muito querido e que vivia comigo todos os dias. Fiquei triste por saber que não teremos textos inéditos; as palestras sempre encantadoras; as palavras embriagadas pelo cheiro de capim gordura, pelos ipês floridos, pelo barulho dos carros de boi, dos mistérios da terra de Riobaldo - Minas Gerais. Rubem nunca se afastou completamente de suas origens. Apesar de viver boa parte de sua vida em Campinas, interior de São Paulo, trazia em sua alma as aprendizagens iniciadas em Boa Esperança-MG - sua cidade natal. É como aquele poema ontológico de Carlos Drummond de Andrade, Confidência do itabirano.

Seu corpo, onde morou tantas poesias, será cremado e possivelmente as cinzas serão atirados ao vento, para que possam polinizar as flores a fim de que elas se tornem mais belas; para que as pintagueiras surjam mais vermelhas e atraentes; para que os flamboyants e ipês surjam como cabeleiras inflamadas a produzir beleza; para que os jardins sejam fecundados e possam se fortalecer. 

Em um país e em um tempo como o nosso, perder Rubem Alves é algo de muita seriedade. Mas ficarão as suas palavras, que virão como revoadas de pássaros e farão morada em mim, em nós... Marcharão numa procissão em direção ao interior de catedrais secretas. Proferirão discursos, declamarão poesias e atestarão com um verso de Manuel de Barros - repetido tantas vezes por ele: "É mais presença em mim aquilo que me falta". 

Obrigado, Rubem! Se eu não tivesse encontrado os seus textos, talvez eu não fosse aquilo que sou. O rio continua a correr e suas águas são sempre novas. Olhemos para as árvores e encontremos poemas.

domingo, maio 25, 2014

Uma reflexão...



"Caminhante, não existem caminhos. Os caminhos se fazem ao caminhar". 
Rubem Alves

É curioso como o tempo nos leva a aceitar determinadas coisas - e a rechaçar outras. Torná-las menos palatáveis.   Eventos que mereçam atenção, projeção de perspectiva. Vivi por quase uma década metido com a religião. Converti-me à fé protestante no final de 1999. Conheci pessoas. Fui a cultos. Direcionei minhas preces ao céu para ter um melancólico silêncio. O cicio perdeu-se no espaço. Caiu da altura para a qual eu o direcionei. E o meu grito é apenas um eco represado dentro de mim.
                Estudei para ser clérigo. Li bastante. Debati com os meus iguais. Enchi-me de romantismo. Realizei prédicas. Instei a tantos quantos achei pelo meu caminho. Quis revelar o fantástico mundo ideal da religião. Descortinar a “salvação” – afinal, vivemos em um mundo de perdidos (aqueles que ainda não aceitaram “a salvação”) e os eleitos remidos (aqueles que foram visitados pela “salvação” e aceitaram-na). Tornei-me “chato” para com alguns que não quiseram dar ouvidos àquilo que eu dizia. Tentava empurrar o meu “entendimento” de garganta abaixo gerando, consequentemente, sequelas indesejáveis nos outros. Quando estamos convictos de algo, não respeitamos as singularidades. E por isso que Nietzsche disse certa vez que “existem determinados pressupostos, certas credulidades, que são demoníacas”. Ou seja, elas fazem mal, pois são mesquinhas, aviltadoras, inquisidoras, geradoras de vítimas por não conseguirem lidar com a diferença.
                Entendem que o mundo está cindido em duas cores: o verde e o roxo, hipoteticamente. Colocam óculos que determinam uma única visão; um víeis preconceituoso e reducionista.  Então se o bem é representado pelo verde, todas as demais cores são nocivas por não serem verdes. Se o roxo é a cor da virtude, tudo aquilo que não tenha essa semelhança, torna-se sem graça e é tratado sem deferência. É daí que brotam os conflitos religiosos.
                O tempo em que vivi em meio ao nicho religioso conheci pessoas de todos os calibres – mansos, eufóricos, fingidos, solidários, gananciosos, arrogantes etc. Toda fauna humana encontradiça em qualquer lugar do planeta.  Minhas leituras, minhas reflexões, fizeram-me refletir sobre determinados fenômenos:

(1) A fé é um fenômeno humano: inquestionavelmente a fé é um fenômeno pertencente apenas ao mundo humano. Se os cavalos tivessem uma fé, os deuses dessa fé teriam uma fisionomia equina. O ser humano criou a religião como uma tentativa de lidar com alguns medos, receios e eventos trágicos que estão longe do seu controle. Fico a pensar no homem da pré-história. Os fenômenos naturais eram eventos não controláveis. Não se pode mandar no sol; na água da chuva; nas estações dos anos. Esse mesmo homem quando sentia a necessidade de buscar aquilo que lhe era necessário para a subsistência, dependia necessariamente dos “humores” da natureza. Por não possuir a previsibilidade científica que atualmente nos é banal, esse mesmo homem precisava invocar um poder capaz de subjugar as forças da natureza.  Ao olhar para o céu numa noite escura, os nossos antepassados deveriam morrer de pavor por perceber um mistério intangível escondido atrás de cada sinal luminoso que brilhava no céu. Afinal, se tudo está aqui e eu não tenho controle sobre isso, existe alguém que possui. Como diz Marcelo Gleiser: “os céus eram vistos como manuscritos sagrados”. E nos “manuscritos” estão escritos os mistérios recônditos de sinais milenares, redigidos por forças inumanas que coordenam o destino de todos os seres. Avançamos enquanto civilização humana. Mudamos a forma como lidamos com a matéria. Subjugamos determinados fenômenos que no passado eram impensáveis. Mas trouxemos conosco, apesar de tudo, determinadas compreensões que são atemporais. E talvez nisso achemos a resposta na assertiva de Pascal: “Esses espaços infinitos nos apavoram”. De certo. O medo da morte, das tragédias, das doenças, da ausência de pessoas queridas, leva-nos a criar uma força que nos acalente, que nos erga de nossas dores, de nossos terrores que nos atormentam. Nesse sentido, a religião constrói um muro em torno de nós para nos trazer consolo. Como diz Rubem Alves: “A religião é um dique construído contra o caos”. Se ela fosse extirpada do planeta muitos indivíduos ficariam loucos, matariam a si mesmos, por se negarem a aceitar tal fato, pois a religião é um fenômeno unicamente dos seres humanos. Nossa existência Planeta Terra é algo imensamente recente. Não vivemos nem uma décima parte daquilo que os dinossauros, por exemplo, viveram no planeta. Mas temos a presunção de formular julgamentos e sistemas que ultimam todas as coisas; que torna toda a realidade explicável pela teoria da lacuna. Deus, por isso, torna-se a “causação” de todo evento; a resposta justificável a todo movimento, força ou circunstância do cosmos. Enquanto estivermos neste planeta, enquanto tivermos a consciência de que estamos conscientes seremos animados por tal diligência.

(2) A espiritualidade está em todo canto: Já que a religião é fenômeno intrínseco ao ser humano; adorno de sua existência, pois desde os tempos ancestrais carregamos tão grande intuição, não podemos negar a espiritualidade. Todavia, não podemos confundir espiritualidade com o fenômeno religioso. A espiritualidade é aroma colhida pela alma, resultante da estética da natureza. Existe, inegavelmente, uma estética na natureza e uma capacidade humana para criar. Agimos assim por sermos seres complexos e que trazemos à existência a beleza. Escrevemos poesias, livros; pintamos belos quadros; compomos músicas encharcadas de delicadeza; construímos determinados objetos que trazem satisfação aos olhos; ouvimos determinados sons que nos emulam o interior; ou simplesmente enxergamos determinados espaços, eventos ou situações produzidas que trazem efeitos incríveis sobre os nossos sentidos.  Assim, a espiritualidade independe de forças religiosas. Ser espiritual é poder fruir um poema; uma voz delicada que faz balançar o nosso coração; uma poesia que nos aquece o interior; a visão de uma planície ou colina que faz erguer a admiração, enchendo os nossos lábios de contentamento e um riso sempiterno. Sou daqueles que acreditam que a espiritualidade está em toda parte e, pode até mesmo, estar dentro do nicho religioso. Todavia, ela não está reservada apenas ao nicho; ela não é fruto privativo de determinadas pessoas. Espiritualidade é sensibilidade. É por isso que Alberto Caieiro, um dos heterônimos de Fernando Pessoa, diz em seu lindo e espiritual O guardador de rebanhos:

(...) Não acredito em Deus porque nunca o vi
Se ele quisesse que eu acreditasse nele,
Sem dúvida que viria falar comigo
E entraria pela minha porta adentro

Dizendo-me, Aqui estou!
(Isto é talvez ridículo aos ouvidos
De quem, por não saber o que é olhar para as coisas,
Não compreende quem fala delas
Com o modo de falar que reparar para elas ensina)

Mas se Deus é as flores e as árvores
E os montes e o sol e o luar,
Então acredito nele,
Então acredito nele toda a hora,
E a minha vida é toda uma oração e uma missa
E uma comunhão com os olhos e pelos ouvidos

Mas se Deus é as árvores e as flores
E os montes e o luar e o sol,
Para que lhe chamo eu Deus?
Chamo-lhe flores e árvores e montes e sol e luar;
Porque, se ele se fez, para eu o ver,
Sol e luar e flores e árvores e montes,
Se ele me aparece como sendo árvores e montes
E luar e o sol e flores,
É que ele quer que eu o conheça
Como árvores e montes e flores e luar e sol

(...) Sejamos simples e calmos,
Como os regatos e as árvores,
E Deus amar-nos-á fazendo de nós
Belos como as árvores e os regatos,
E dar-nos-á verdor na sua primavera,
E um rio aonde ir ter quando acabemos...
E não nos dará mais nada, porque dar-nos mais
Seria tirar-nos mais.

(3) Está em determinado igreja (seita) não me torna uma pessoa necessariamente melhor: Não sinto inveja ou qualquer manifestação de pesar por não estar em uma comunidade, assim como aqueles que estão presos e circunscritos em determinadas geografias religiosas. Em muitas situações as patologias de determinado grupo, ou seja, a psicologia social do grupo é instilada nos membros daquele grupo. Isso acontece com muitas agremiações políticas e outros ajuntamentos humanos. Num dado sentido, está no grupo legitima ou consolida as minhas crenças, pois ali estão pessoas que coadunam com a minha visão de mundo. Assim, dependendo do modo como eu me relaciono com os códigos expressos neste ajuntamento, a transposição desses códigos para o mundo material, para a vida real, pode me tornar em um sujeito limitado e encerrado em meus preconceitos.

(4) A psicologia da fé: a religião é um fenômeno lingüístico, que por sua vez se torna em consciência para aquele que crer. A linguagem é um instrumento de mediação entre o homem e o mundo. É por meio dos signos criados pelo homem ao longo de sua história que esse mesmo homem encontra sentido para as coisas que estão no mundo. Por não contemplarmos a realidade face a face, precisamos de algo que sirva de veículo simbólico que porte as intenções determinadas naquilo que criamos. Para isso utilizamos a linguagem que, também, é um fenômeno complexo no mundo humano. E nesse sentido, determinada linguagem nos conduz a determinadas interpretações. É justamente na interpretação que apreendemos o símbolo que ressignifica o mundo. Ou seja, o mundo e as minhas emoções se abraçam nessa interpretação. E a partir daí que crio minhas preferências e determinado ponto de vista sobre determinado fenômeno, pois interpreto o fenômeno e esse fenômeno ganha carne em minhas emoções, mas isso não se dá diretamente. Acontece por meio de uma interpretação que é inculcada em minha consciência, criando uma estruturação, uma segurança em meu mundo interior. Falar é sempre revelar algo o qual eu já experimentei pela interpretação daquilo que fui, senti, vivenciei. O mundo que defendo é aquele que gira em torno dos meus valores e crenças internalizados. Eu freqüento as coisas e as coisas me freqüentam. Reproduzo e sou reproduzido. Julio Cabrera, filósofo da Universidade de Brasília, em seu livro A ética e suas negações diz que “Se os deuses e demônios da nossa sobrevivência nos aparecem como independentes, é porque nós mesmos lhes demos independência”. Ou seja, a linguagem quando naturalizada tende a não ser questionada. É assim que se explica a psicologia da fé. Chama-se a isso de conversão. Converter-se é mudar o referencial interpretativo. É, por isso, que Paulo, o criador dos “esquemas dogmatizantes”, um dos sujeitos mais habilidosos da história da Igreja, vai dizer que o sujeito que se “converteu” se fez “nova criatura”; que tudo se fez novo e as coisas velhas já passaram.  Pois ele sabia que essa conversão é um processo de reestruturação e reconstrução dos esquemas interpretativos que sustentam determinados valores dos indivíduos. A conversão gera crise por revelar ao sujeito um conjunto terrível de axiomas que levam, quase sempre, o sujeito à crise. Após passar por uma catarse, o sujeito se apresenta a esse novo mundo com uma nova linguagem; com uma nova forma de portar-se; de se relacionar com o mundo, pois os seus referenciais mudaram também. Na verdade, o que muda é a linguagem e seus valores implícitos que acabam por se coadunarem com as emoções do converso. As mudanças ocorrem como fenômeno, primeiramente, emocional e psicológico. Logo em seguida, essa mudança ocorre no modo como articulamos a sociedade e a história. E por isso, que se mata em nome da religião – e que se morre também -, pois se mudou o modo de relação com o mundo. Explica-se ainda o porquê das orações. Quando o crédulo ora, não significa que sua prece está sendo ouvida; representa meramente o fato de que criamos a expectativa de que alguém está a nos ouvir. Essa consciência gera um conforto, um consolo capaz de nos fazer serenar todos os desmazelos existenciais. O que muda não é o mundo ou a história, mas a minha forma de me relacionar com o mundo e com a história. O sujeito crer pelo fato de ser apresentado a ele um panorama trágico e caótico. Após esse abalo, o sujeito “aceita” os novos códigos, a nova cosmovisão, os novos valores que devem servir de óculos para que ele veja o mundo. Paulo quando escreve aos romanos chama esse evento de metanoia (no grego), que significa “mudança de um determinado tipo de racionalidade ou forma de pensar”.  Assim, ao assumir o discurso da fé, estou “agasalhando” em minha interioridade um conjunto de lentes interpretativas que trabalharão em mim os seus efeitos, gerando um novo tipo de consciência sobre os eventos da materialidade. É com esse aparato que passo a julgar o que é bom e o que é mal; o que é pecado e o que é virtude.

(5) Antropologia da fé: para a fé (aqui me refiro à cristã), o homem possui uma antropologia, que é a antropologia da queda. O homem é um ser imperfeito desde o evento do jardim do éden. A maldade que existe no homem não está condicionada a priori por eventos históricos ou sociais. O mal no homem não é um fenômeno que passa a morar nele em decorrência da materialidade como apregoa, por exemplo, Karl Marx. O mal no homem está ligado a um problema ontológico.  Em decorrência disso, só existe uma forma de “reformar” o mundo, aceitando ao Cristo da fé, ao dogma da conversão, que é uma docilização, um funcionalismo operante. Os homens conversos não pertencem a esse mundo. São de outro plano. Como diz Agostinho em suas Confissões: “Criaste-nos para ti e nossa alma vive inquieta enquanto não repousa em ti” (não sei se está correta a frase, já que estou citando de cabeça). Em sentido kieekergaardiano, existir perante Deus é estar destinado à culpa, pois a nossa ontologicidade é maculada. Deus é o sempre santo; e, nós, os seres partidos e finitos. O único remédio é a conversão, ou seja, a mudança matricial da forma de ler e enxergar o mundo. É na vida que se decide a morte, pois aquilo que escolhemos ser, será – peremptoriamente.
                Escolhi escrever essas palavras, pelo fato de hoje ouvir que determinada pessoa mudou o seu comportamento para comigo por eu ter feito algumas afirmações que feriu a sua fé. O sujeito freqüenta uma determinada igreja evangélica – portanto, portadora de determinada linguagem. Segundo ele, eu por ter estudado teologia e ter um conhecimento relativo sobre os fenômenos ditos “sacros” , serei cobrado com contundência no dia do juízo, corroborando com aquilo que está escrito em uma das cartas bíblicas – se não me engano, a carta de Tiago. Eu poderia escrever – algo que talvez eu faça qualquer dia desses – sobre o significado “sagrado” da bíblia, que para mim é um livro humano que narra os eventos religiosos e a compreensão de um povo sobre determinados pressupostos de sua experiência de fé.
                Quero deixar bem claro que sou uma pessoa religiosa – não no sentido ordinário o qual estamos acostumados. Para mim a espiritualidade é um fenômeno capaz de me tornar livre, mais compreensivo, compassivo, sendo entendedor que o outro para ser bom, não precisa aceitar a minha fé. Crença é um fenômeno pessoal. Não devo cindir com as pessoas somente pelo fato delas não crerem naquilo que creio. Não devo ser tão presunçoso a esse ponto. Como diz Rubem Alves, “o Deus dos protestantes é o Deus da causalidade inflexível”. E quando notamos tais coisas, apenas achega-se a nós certeza de que somos seres curiosos. E como dizia Nietzsche mais ou menos com essas palavras: “Criamos o in-criado e acabamos sendo dominados pela nossa própria criação”.  

segunda-feira, julho 01, 2013

Sobre deuses e rezas - por Rubem Alves

Li a crônica abaixo há pouco e me pus a pensar sobre ela. Resolvi, então, compartilhá-la. Está em um dos livros do Rubem Alves cuja leitura estou terminando de realizar - Teologia do Cotidiano - meditações sobre o momento e a eternidade). Como nos bons textos desse mineiro sensível e poeta, a provocação emulada por penas filosóficas suaves, sempre nos cutuca, colocando-nos
numa posição reflexiva.


Sobre deuses e rezas


Perdida no meio dos viajantes que enchiam o aeroporto, ela era uma figura destoante. A roupa largada, os passos pesados, uma sacola de plástico pendurada numa das mãos – esses sinais diziam que ela já não mais ligava para a sua condição de mulher: não se importava em ser bonita. Pensei mesmo que se tratava de uma freira. Seu comportamento era curioso: dirigia-se às pessoas, falava por alguns momentos, e como não lhe prestassem atenção procurava outras com quem falar. Quando vi que ela tinha uma Bíblia na mão compreendi tudo: ela se imaginava possuidora de conhecimentos sobre Deus que os outros não possuíam e tratava de salvar a alma deles.

Meu caminho me obrigou a passar perto dela – e quando olhei para o seu rosto de perto levei um susto: eu o reconheci de outros tempos, quando ela era uma moça bonita que ria e brincava e para quem olhávamos com olhares de cobiça.

Não resisti e chamei alto o seu nome. Ela se espantou, olhou-me com um olhar interrogativo, não me reconheceu. Com razão. Os muitos anos deixam suas marcas no rosto.

– Eu sou o Rubem!

Seu rosto se iluminou pela lembrança, sorriu, e pensei que poderíamos nos assentar e conversar sobre as nossas vidas. Mas sua preocupação com a minha alma não permitia essas perdas de tempo com conversa fiada. E ela tratou de verificar se o meu passaporte para a eternidade estava em ordem:

– Você continua firme na fé!?

– Mas de jeito nenhum. Então você deixou de ler a Bíblia? Pois lá está dito que Deus é espírito, vento impetuoso que sopra em todo lugar, o mesmo vento que ele soprou dentro da gente para que respirássemos, fôssemos leves e pudéssemos voar. Quem está no vento não pode estar firme. Firmes são as pedras, as tartarugas, as âncoras. Você já viu um papagaio firme? Papagaio firme é papagaio no chão, não voa. Pois eu estou mais é como urubu, lá nas alturas, flutuando ao sabor do imprevisível Vento Sagrado, sem firmeza alguma, rodando em largos círculos.

Ela ficou perdida, acho que nunca havia ouvido resposta tão estranha, mudou de tática e tentou pegar a minha alma do outro lado, desatou a falar de Deus, informou-me que ele é maravilhoso etc., etc., etc., como se estivesse no púlpito em celebração de domingo.

Refuguei e disse:

– Acho que quem não está firme em Deus é você. Olha, passei a noite toda respirando, estou respirando desde que acordei, e juro que agora é a primeira vez que penso no ar. Não pensei nem falei no ar porque somos bons amigos. Ele entra e sai do meu corpo quando quer, sem pedir licença. Mas a história seria outra se eu estivesse com asma, os brônquios apertados, o ar sem jeito de entrar, ou, como naquele anúncio antigo do xarope Bromil, o coitado do homem sufocado por uma mordaça, gritando pelo ar que lhe faltava. Por via das dúvidas até andaria com uma garrafa de oxigênio na bagagem, para qualquer emergência.

E continuei:

– Pois Deus é como o ar. Quando a gente está em boas relações com ele não é preciso falar. Mas quando a gente está atacado de asma, então é preciso ficar gritando pelo nome dele. Do jeito como o asmático invoca o ar. Quem fala com Deus o tempo todo é asmático espiritual. E é por isso que andam sempre com Deus engarrafado na Bíblia e outros livros e coisas de função parecida. Só que o vento não pode ser engarrafado...

Aí ela viu que minha alma estava perdida mesmo e, como consolo, fez um sinal de adeus e disse que iria orar muito por mim. Aí eu protestei, implorei que não o fizesse. Disse-lhe que eu tinha medo de que Deus ficasse ofendido. Pois há rezas e orações que são ofensas. É óbvio: se vou lá, bater às portas de Deus, pedindo que ele tenha dó de alguém, eu lhe estou imputando duas imperfeições que, se fosse comigo, me deixariam muito bravo.

Primeiro, estou dizendo que não acredito no amor dele, deve ser meio fraquinho, sem iniciativa, preguiçoso, à espera do meu cutucão. Se eu não der a minha cutucada, Deus não se mexe. E isso não é coisa de ofender Deus? Segundo, estou sugerindo que Ele deve andar meio esquecido, desmemoriado, necessitado de um secretário que lhe lembre suas obrigações. E trato de, diariamente, apresentar-lhe a sua agenda de trabalho. Mas está lá nos salmos e nos evangelhos que Deus sabe tudo antes que a gente fale qualquer coisa. Ora, se a gente fica no falatório é porque não acredita nisso. Não acredito em oração em que a gente fala e Deus escuta. Acredito mesmo é na oração em que a gente fica quieto para ouvir a voz que se faz ouvir no meio do silêncio.

Voltei à minha amiga:

– Veja você. Tive um filho que estudava longe. Eu gostava dele. Ele gostava de mim. De vez em quando a gente se falava ao telefone. E o dinheiro da mesada ia sempre, com telefonema ou sem telefonema. Agora imagine: de repente começo a perceber telefonemas dele três vezes por dia e mensagens por sedex, cartas e telegramas louvando o meu amor, agradecendo a minha generosidade... Você acha que isso me faria feliz? De jeito nenhum. Concluiria que o meu pobre filho havia endoidecido e estava acometido de um terrível medo de que eu o abandonasse. Pois é assim mesmo com Deus: quem fica o dia inteiro atrás dele, com falatório, é porque desconfia dele. Mas o pior é o gosto estético que assim se imputa a Deus. Uma pessoa que gosta de passar o dia inteiro ouvindo os outros repetindo as mesmas coisas, as mesmas palavras, as mesmas rezas, pela eternidade afora, não deve ser muito boa da cabeça. Para mim isso é o inferno. Quem reza demais acha que Deus não funciona bem da cabeça. Acho que ele ficaria mais feliz se, em vez do meu falatório, eu lhe oferecesse uma sonata de Mozart ou um poema da Adélia...

Mas aí o alto-falante chamou o meu vôo, tive de me despedir, e imagino que ela ficou aflita, temerosa de que Deus derrubasse meu avião com um raio. Mal sabia ela que Deus nem mesmo havia ouvido a nossa conversa pois, cansado das doidices dos adultos, ele foge sempre que vê dois deles conversando e se esconde deles, disfarçado de criança.

Extraído do livro Teologia do Cotidiano - meditações sobre o momento e a eternidade. Editora Olho D'Água.