Mostrando postagens com marcador Aluísio Azevedo. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Aluísio Azevedo. Mostrar todas as postagens

sexta-feira, janeiro 26, 2024

Algumas palavras sobre "Luzia-Homem", de Domingos Olímpio

 

                “O mundo e a pobreza estragam a gente”

Domingos Olimpio, em “Luzia-Homem”.

 O romance “Luzia-Homem”, do escritor cearense Domingos Olímpio, foi publicado em 1903, três anos antes da morte do autor. O escritor nasceu em Sobral, no ano de 1850. Estudou em colégios do seu estado até a mudança para o Recife, onde cursou Direito na famosa Faculdade de Direito de Recife, estabelecimento em que vários intelectuais, filhos da aristocracia rural, estudaram. Após se formar, voltou para o Ceará e atuou como promotor. Mudou ainda para Belém-PA e atuou como jornalista, além de exercer a advocacia. Mais tarde, mudou-se em definitivo para o Rio de Janeiro, a capital da recém-inaugurada República. Na Capital, continuou a exercer o ofício de advogado, além da produção copiosa no jornalismo.

No Rio de Janeiro, Olímpio fez amizade com vários intelectuais. Percebeu o mundo político; suas vaidades e arranjos internos. Buscou por duas vezes ingressar na Academia Brasileira de Letras, mas não obteve êxito. À época, Machado de Assis ainda estava vivo. Sua influência se fazia sentir no comando da instituição que ajudara a criar. Na primeira vez que tentou, foi preterido por Euclides da Cunha. O ribombo que “Os Sertões” produziu quando de sua publicação, não deu nenhuma chance a Olímpio. Vale ainda mencionar o fato de Euclides Cunha ser o nome que descreveu o episódio de Canudos, que se tornou um dos fatos mais comentados e propalados dos feitos republicanos.

Na segunda tentativa, Olímpio perdeu a disputa para o filho do escritor José de Alencar. É importante assinalar que, nesta ocasião, Machado de Assis foi imensamente parcial, pois não negou sua preferência por Mário de Alencar. O filho de José de Alencar se tornou acadêmico em 1905, um ano antes da morte de Olímpio. 

“Luzia-Homem” é um romance que nasceu tardiamente. Alfredo Bosi assim se posiciona sobre ele, ao afirmar de que se trata de uma “ingênua e bela história de uma retirante de 77, cujos modos másculos ocultavam sentimentos bem femininos”. Nessa sucinta afirmação do grande professor, encontra-se a chave de interpretação do livro. É necessário explicar que o Ceará passou por uma mítica seca nos anos de 1877 até 1879. A seca foi responsável por fazer surgir uma forte onda em forma de fluxo migratório. Muitos escritores procuraram retratar esse episódio de grande força tétrica. Bosi fala de um “leitmotiv da poesia oral” que muito influenciou as produções da época. O escritor cearense Rodolfo Téofilo escreveu três livros para retratar a catástrofe do ano de 1877 – “A fome” (1890), “Os Brilhantes” (1895) e “O Paroara” (1899). É importante mencionar ainda Manuel de Oliveira Paiva, que escreveu um dos livros mais relevantes sobre a descrição desse período – “Dona Guidinha do Poço”, livro escrito em 1891, mas somente publicado em 1951. Todas essas produções foram escritas sob a influência da estética naturalista.

O romance mais relevante de Domingos Olímpio utiliza elementos do Naturalismo para sustentar o seu eixo temático. Vale relembrar que o Naturalismo é a radicalização do Realismo. Ele transforma os personagens em joguetes do ambiente em que vivem. São impelidos pela pulsão instintual. Em 1903, a escola naturalista já se encontrava em um processo de esgarçamento. O livro mais relevante de Domingos Olímpio é um filho temporão de uma escola literária que já se encontrava em processo de esgotamento. Escritores como Euclides da Cunha, Lima Barreto, Graça Aranha e Monteiro Lobato, apesar de diversos entre si, apresentavam uma nova estética. Olímpio, por sua vez, parece ser caudatário de um período em que as brasas já estavam por se apagar. Ele constrói uma personagem que abriga as características da pureza, das musas idealizadas, mas que é forte, viril, por isso, recebe o epíteto de “Luzia-Homem”.

O vocábulo “homem” aqui funciona como um adjetivo, porquanto serve para caracterizá-la. Ele não a chama de Luzia-Mulher pelo fato de forte. Ou seja, como se a força física fosse apenas um atributo dos homens. Luzia carrega blocos de concreto e tijolos para a construção da cadeia local. Ela é a mulher que realiza atividades que eram impensadas para alguém do sexo feminino. Sua postura é de destemor; de valentia. Ela enfrenta os desafios com denodo e força. Todavia, em outro lugar da obra, verifica-se que ela cosia com esmero, destacando-se na função; e recebendo elogios pela habilidade incomum. Assim, a personagem é um híbrido de força e delicadeza. 

Escritor cearense Domingos Olímpio

Há nela uma suavidade povoada por dúvidas. Ela chora. Pensa a respeito do destino incerto. Angustia-se com a mãe acamada. Rejeita a ideia de se casar com Alexandre, mas não se escusa de ajudá-lo quando ele é preso injustamente. Luzia é desenhada pelo escritor como um animal belo, paradoxalmente, delicado, mas arisco. Em alguns momentos da leitura não deixei de rir do artificialismo da obra; do esquematismo dos escritores do período a fim de enquadrar a criação literária, com o objetivo de impor certos maneirismos cientificistas.

A resolução do conflito entre o malvado soldado Crapiúna e a angélica, mas arredia Luzia acontece de forma trágica. Crapiúna surge como antítese às virtudes de Luzia. O personagem surge como um canalha; um sujeito malvado, que procura conquistar Luzia à força. Ao constatar que não seria aceito pela bela moça, utiliza-se de uma estratégia medonha – matar Luzia; e assim o faz. Crava um punhal no peito da personagem. Esta, por sua vez, arranca-lhe um dos olhos. Luzia cai inevitavelmente morta. Crapiúna despenca de um desfiladeiro.

“Luzia-Homem” é uma obra que carrega consigo uma carga mítica. Ele estrutura a ideia da mulher guerreira. Luzia é uma heroína; encarna a figura da mulher que sofre por ser demasiado bondosa e justa. É um romance que utiliza elementos estéticos que, àquela altura, encontravam-se em processo de erosão. Domingos Olímpio se utiliza de um ideário a respeito do interior do país. Muitos escritores como ele procuraram recriar o interior do país, estruturando personagens que faziam parte de uma fabulação o sobre os indivíduos que viviam em espaços do país a serem descobertos pela ficção. O Brasil do litoral ainda não conhecia o Brasil do interior. Acreditava-se que no interior estava “o homem puro”, que experimentava a vida simples.  Talvez, essa compreensão tenha sido originada no Romantismo.  

Domingos Olímpio não foi um escritor inovador. Afinal, Machado de Assis, nosso expoente máximo do Realismo; e Aluízio Azevedo, nosso expoente máximo do Naturalismo, já haviam escrito obras que evidenciam a grandiloquência do paroxismo de suas respectivas escolas. Olímpio nos brindou com uma deliciosa história repleta de idealizações e artificialismos, mas, por sua vez, muito bem escrita.

               

               

sábado, março 19, 2022

"Om Bom Crioulo", de Adolfo Caminha. Algumas considerações.


 “... a natureza pode mais que a vontade humana”. Adolfo Caminha, em “O bom Crioulo”.

 

            “O Bom Crioulo” foi a primeira obra visitada da série de onze livros de literatura brasileira que elegi para ler ao longo do ano de 2022. Trata-se de livro escrito no ano de 1895, às vésperas do século XX. Adolfo Caminha, nascido no Ceará, no ano de 1867, morreria de forma precoce, aos trinta anos, no ano de 1897. Ou seja, apenas dois após a publicação da polêmica obra.

            Em 1895, o Brasil ainda sentia o calor de dois eventos importantes que, praticamente, definiriam o arranjo social e político do país até o ano de 1930. Em 1888, acontecera a Abolição da escravatura, que havia mudado oficialmente as relações sociais e econômicas no país. Já em 1889, acontecera o golpe das aristocracias rurais e dos militares que pôs fim ao Império. Apesar desses relevantes eventos, o país permanecia eminentemente sob o conservadorismo e o patriarcado. Certos assuntos – entre eles o homossexualismo – permaneciam sob um véu denso de reprovação social. Todavia, o papel da literatura se espraia, ganha contornos eloquentes, justamente nesse sentido, pois o seu compromisso transcende o posicionamento conservador ou não da sociedade.

            Do ponto de vista das produções estéticas, o país havia ultrapassado o fenômeno romântico de Joaquim Manoel de Macedo, Bernardo Guimarães e José de Alencar. Havia o Realismo pondo em alto relevo as contradições do país; revelando a mesquinhez das elites; seu moralismo de fachada; as demandas de um país que precisava se definir. Machado de Assis é o mestre por excelência dessa pujante “denúncia” do Realismo.

            Para além do Realismo, surge também o Naturalismo, que realça ainda mais as cores do mundo real, radicalizando-o. Os intelectuais, munindo-se de teses científicas, haviam criado supostos que consideravam o homem apenas como um joguete dos desejos e pulsões inconscientes. A natureza possuía leis inexpugnáveis, inexoráveis. Sendo assim, os comportamentos dos indivíduos eram determinados pela hereditariedade, pelo meio e o momento em que viviam, aquilo que Alfredo Bosi chama de “fatum”, ou seja, uma força irresistível que determina o destino de cada ser humano.

            Havia um cenário filosófico que estimulava essa compreensão da realidade. Importante mencionar o evolucionismo de Charles Darwin. Há um elemento fisiológico que leva ao realce dos instintos animalescos, fazendo com que o mais forte prevaleça. É muito comum nesse sentido, a importância que o sexo assume nesse debate. O Positivismo e o Determinismo também são correntes filosóficas que influenciaram o Naturalismo enquanto corrente estética. No Brasil, Aluísio Azevedo, Júlio Ribeiro, Domingos Olympio e Adolfo Caminha – entre outros – são nomes importantes da corrente naturalista.

            Em “O bom Crioulo” aparece a figura do ex-escravo Amaro (“amargo”), também conhecido como o “Bom Crioulo”. Importante observar o adjetivo “bom” utilizado pelo narrador. A noção era de que o “crioulo” (negro nascido na América) era, em regra, um sujeito primitivo, dono de um comportamento animalesco; que gozava de um prestígio negativo. Mas, Amaro era “bom”, ou seja, mostrava-se como alguém que quebrava essa regra, o que cria um antagonismo, uma exceção. Ele recebeu essa alcunha por ser alguém forte, comprometido com o trabalho e diligente.  Amaro trabalho em uma corveta, um navio da Marinha. É descomunalmente forte.

            Vale observar que, apesar de os negros terem conseguido a suposta liberdade oficial após a Abolição, ainda viviam numa condição subalterna na sociedade. Havia muitos negros na Marinha. Uma das práticas que gerava muita indignação eram as chibatadas aplicadas nos marinheiros considerados insubmissos. A Revolta da Chibata (1910) foi um desdobramento da indignação dos marinheiros, tendo como protagonista o negro João Cândido. Adolfo Caminha havia sido da Marinha e possuía uma posição contrária à prática das chibatadas. Quem aplicava as chibatadas eram os oficiais brancos que puniam negros e mulatos.

Adolfo Caminha

            Amaro é uma figura apresentada como forte e bom. Todavia, possuía problemas com a bebida. Todas as vezes que bebia, transformava-se em alguém com impulsos incontroláveis. A personagem além dessas características é homossexual. Nesse sentido, a obra ganha uma relevância grandiosa, o que fez com que o seu autor fosse alvo de acerbas críticas. Amaro apaixona-se pelo grumete Aleixo, um adolescente de quinze anos – branco, de cabelos loiros, olhos claros, possivelmente, descendente de europeus. Adolfo Caminha descreve a paixão que Amaro, de trinta anos, alimenta pelo jovem efebo. E, nesse sentido, é oportuno refletir sobre a polêmica de um relacionamento homossexual e inter-racial, de um homem com um adolescente branco e efeminado no final do XIX.

            “O Bom Crioulo” é considerado o primeiro romance da América Latina a tratar da temática homossexual. Na Inglaterra, Oscar Wilde havia escrito, em 1890, “O Retrato de Dorian Gray” que também põe em evidência o tema da sexualidade. O próprio Wilde experimentou na pele a força do conservadorismo. Em 1895, ele foi alvo de três processos por atividades homossexuais, tendo permanecido preso por dois anos (1895-1897), com a pena de trabalhos forçados.

            O romance de Adolfo Caminha tem um desdobramento naturalista. Amaro cumpre o seu destino como não poderia deixar de ser. Seu infortúnio é agudizado pela descoberta da traição de Aleixo com a ex-prostituta D. Carolina. Nota-se aqui a bissexualidade de Aleixo. Após um período doente, Amaro descobre o relacionamento dos dois e empreende uma ação tresloucada. O romance termina sob o signo da tragédia.

            Pessoalmente, posso afirmar de que gostei da leitura do livro. Texto fácil; bom de ser lido. Narrador em terceira pessoa, onisciente. Revela muitos aspectos da vida das metrópoles brasileiras, principalmente a Capital Federal no final do século XIX, assim, por exemplo, como é “O Cortiço”, de Aluísio Azevedo, outro importante romance naturalista. Além disso, lança luz sobre um debate importante. Se até hoje falar de homossexualismo gera polêmica, imagine esse debate sendo feito no final dos século XIX em um país de coronéis e beatos como o Brasil?

sexta-feira, março 05, 2021

"O Cabeleira", de Franklin Távora - algumas impressões

 


Quando entramos em contato com a literatura de José Lins do Rego e lemos o seu “Cangaceiros”, passamos a crer que ali existe algo original. O tema do cangaço é algo – temos a impressão – que nunca foi tratado pela literatura. O estilo caudaloso, que flui de forma desimpedida, é algo que torna a narrativa do escritor paraibano em algo imperdível.

O cangaço é um fenômeno histórico ocorrido no Nordeste brasileiro e que possui uma forte ressonância social. Creem os estudiosos do fenômeno de que se trata de um fenômeno que surgiu em decorrência das graves disparidades sócio-econômicas da região. O delicioso livro Bandidos, de Eric Hobsbawm, expõe no capítulo "O que é banditismo social?", que o fenômeno do banditismo social faz parte de sociedades agrárias e pastoris. Existem determinados elementos que dão vazão para que este tipo de movimento - marginal - se forme. Por exemplo, Hobsbawm diz que em épocas de muita fome, de repressão política, de descalabros variados, existe uma tendência que dá surgimento a esse fenômeno. A violência no mando dos coronéis, aliada a séculos de escravidão, bem como a pobreza de muitos sertanejos, talvez, tenham feito fermentar esse tipo de banditismo tão característico. A violência “dos pequenos” pode ser tão atroz quanto a violência dos grandes.

Pode-se afirmar que o cangaço existiu entre os séculos XVIII até à metade do século XX, durante o Governo Vargas. Os cangaceiros ou bandoleiros como eram chamados andavam em grupos armados, cometendo assaltos, assassinatos, estupros e todo tipo de violência contra aqueles que criassem obstáculos às suas intenções. Eram nômades; conheciam com muita intimidade a geografia árida da caatinga. Esgueiravam-se de maneira habilidosa. Conseguiam, assim, fugir das autoridades. Na vasta região cálida e seca, com uma vegetação cheia de espinhos; solo pedregoso, onde se ocultavam animais peçonhentos, os cangaceiros marchavam com incomum destreza.

Corroborando com isso, Hobsbawn diz: [O banditismo] "floresce em áreas remotas e inacessíveis, tais como montanhas, planícies não cortadas por estradas, áreas pantanosas, florestas ou estuários, com seu labirinto de canais e cursos d'água, e é atraído por rotas comerciais ou estradas importantes, nas quais a locomoção dos viajantes, nesses países pré-industriais, é lenta e difícil". O historiador inglês vai dizer que baste a construção de estradas ou a conexão com as regiões desoladas, onde originou o banditismo, para que este arrefeça, perca a força. Ou seja, a rapidez na comunicação permite ao Estado ações contundentes a fim de exorcizar o fenômeno do banditismo social.


Ao longo do tempo, imprimiu-se no imaginário popular uma noção mais rarefeita do cangaço. Criou-se certo fascínio pelas suas personagens como é o caso típico de Virgulino Ferreira da Silva, o Lampião, conhecido como o “o Rei do  Cangaço”. Esse epíteto potencializa uma imagem positiva dessa personagem. A história intrigante que o acompanha possui inúmeros fatos violentos de pilhagens e mortes cruéis a seus desafetos.

Em 1876, o escritor cearense Franklin Távora, radicado no Pernambuco, escreveu – ou romanceou – a história de José Gomes, conhecido como “o Cabeleira”. Cabeleira é conhecido como um dos primeiros sujeitos a encabeçarem o movimento do banditismo no Nordeste.

Franklin Távora, nascido em Baturité, em 1842, mudou para Pernambuco em 1844. E, a partir daí, a vinculação estabelecida com o estado dar-se-ia por longos anos de sua vida. Ainda muito jovem, ingressou na tradicional e famosa Faculdade de Direito do Recife. Em 1863, conseguiu o diploma de bacharel em direito, tendo feito carreira no direito e no jornalismo.

 O escritor era um intransigente defensor das tradições populares; um nacionalista convicto; alguém que buscava retratar em seu regionalismo eventos que tivessem uma fiel relação com a história. Foi por conta disso, que entrou em uma porfia intelectual com José de Alencar, uma entidade que, àquela época, gozava de enorme prestígio. Para Távora, o regionalismo de Alencar era idealista em excesso. Não era verdadeiro. Alencar falava, segundo ele, daquilo que não conhecia. Um exemplo é a escrita de “O gaúcho”. Segundo Távora, Alencar falava do homem gaúcho sem ter colocado os pés no Rio do Grande do Sul. Esse artificialismo na prosa regionalista de Alencar rendeu bons debates.

Para escrever “O Cabeleira”, Távora toma nota de informações históricas, como se pode perceber no prefácio e posfácio da obra. A atividade romanesca do escritor assenta-se no chão da história. Não surgiu do nada.

Na obra, notamos a preocupação com a geografia; o nome das cidades da Zona da Mata de Pernambuco – Goiana, Santo Antão (minha cidade, hoje, chamada de Vitória de Santo Antão, Glória Goitá, Ipojuca, Limoeiro entre outras. A vegetação também surge. O rio Tapacurá também é mencionado com certa recorrência na obra. Encontramos o trecho com forte aceno histórico:

“Uma tarde Luisinha foi buscar água no rio Tapacurá, que banha a cidade de Vitória, então povoação de Santo Antão, à qual pertencia Glória de Goitá donde era natural o Cabeleira. Santo Antão distingue-se na história pernambucana pela circunstância de lhe estar próximo o Monte das Tabocas no qual se verificou em 3 de agosto de 1645 a batalha que iniciou a insurreição portuguesa contra o domínio holandês, e exercitou direta e decisiva influência no futuro político, comercial, industrial e religioso do Brasil. Esta memorável batalha, depois de seis longas horas de fogo, declarou-se em favor dos nossos primeiros dominadores. Em comemoração deste acontecimento, uma lei provincial de 6 de maio de 1843 erigiu a antiga povoação em cidade a que chamou de Vitória como acima de se vê”. (p.49).

Segundo a história, Cabeleira nasceu em Glória do Goitá, munícipio da Zona da Mata. Era uma criança dócil. Sua mãe era uma mulher de alma sensível e piedosa. Joaquim Gomes, seu pai, era um sujeito cruel, que não possuía qualquer comiseração por quem quer que fosse. Seu desejo era incutir no filho a força dos instintos. Foi assim que procurou incutir no filho hábitos de sadismo e perversidade. A lição veio, incialmente, com o estripamento de animais. Segundo Joaquim Gomes, isso permitiria ao filho nunca se dobrar a ninguém. Afinal, ele estava criando o filho para ser um homem de verdade. Ou como diz o autor: “uma máquina de cometer crimes”. (p.38).

A mãe de José Gomes – Joana - sofria com essas lições atrozes e desumanas. Ela sabia qual era o objetivo do pai. E somente rezava, tentando desfazer aquilo que o pai buscava impingir na alma do filho. Até que Joaquim foge com José. Tira o filho da zona de influência da mãe. É a partir daí que a história de Cabeleira, como era chamada por causa de seus cabelos longos e negros, passou a ganhar contornos daquilo que mais tarde seria.

Nas páginas que seguem, notam-se os feitos do bandido. Os crimes cometidos. As crueldades que se alastravam com o assassinato de crianças, de pessoas idosas ou de quem lhe surgisse no caminho. Associado a mais alguns comparsas, José Gomes passa a ser temido. Sua fama chega até ao Recife.

Os impulsos de Cabeleira são refreados, quando ele se encontra com a Luisinha, uma paixão iniciada na infância. Ela busca arrancar do coração do bandido todas as raízes da maldade. Ele mostra-se obediente. Procura refrear os instintos. E aos poucos tem a sua personalidade transformada.

Franklin Távora (1842-1888)

O romance procura amainar a imagem daquele que é considerado como um criador de um proto-cangaço.  Ele dá mostras de que está arrependido. Sua imagem é realçada como a de um herói – pelo menos essa é a depreensão que fica subentendida da leitura. Diferentemente, de outras figuras do cangaço como Antonio Silvino, cangaceiro paraibano, que iniciou no movimento após presenciar a morte do pai e se envolver em brigas de terra; ou de Lampião, que também foi vítima de violência contra a sua família, Cabeleira é treinado pelo pai para ser o que foi. Há uma espécie de isenção pela culpa por parte do escritor.

Seu estilo é a mescla da objetividade jornalística, com o rigor de uma historiografia que se preocupa em ser fiel a certos eventos. Mas, no bojo dessa característica, nota-se o estofo da prosa romanesca. Seu texto é realista. Mas é diferente do rigor naturalista do texto de Aluísio Azevedo; e diferente também do regionalismo idealista de José de Alencar.  Satisfiz um desejo antigo ao lê-lo.

terça-feira, dezembro 24, 2013

Pedra Bonita, de José Lins do Rego; e algumas memórias

 Terminei na última sexta-feira, a leitura de mais um dos romances do escritor paraibano José Lins do Rego. Minha intenção é ler toda a obra do autor de Menino de Engenho. Talvez, faltem uns quatro ou cinco livros. Tenho tido um êxito considerável. Não tenho seguido um script cronológico. Olho para os volumes disponíveis em minha biblioteca, saco-os e inicio a leitura. Muito simples. Seguindo essa lógica randomizante, o próximo livro a qual lerei será Cangaceiros, de 1953, um dos últimos romances escritos por José Lins; em seguida, pretendo ler Pureza, de 1937, primeiro romance escrito após o término do Ciclo da cana-de-açucar.

A cada livro que termino do escritor paraibano, surge-me uma pergunta: "O que me atrai a José Lins do Rego?". As suas produções são de cunho memorialístico. É estranho a Zé Lins a capacidade de criar a partir de elementos do não vivido, de inovar. As temáticas são recorrentes. Ou seja, aquilo que experimentou, que seus olhos captaram enquanto era moço na Paraíba, nos engenhos de açúcar, transformou-se em bagagem existencial que o seguiu pelo resto da vida. José Lins era um Balzac rural, um descritivista da vida do sertão nordestino. 

Quando penso essas coisas, talvez, encontre um pouco dos motivos que me prendem à sua narrativa. Cresci na zona da mata pernambucana. Vivi lá até os nove anos de idade. E ainda aprisiono dentro de mim as rutilâncias febris da infância: a autoridade dos mais velhos, principalmente do meu pai e do meu avô materno; as brincadeiras com objetos primitivos forjados pela necessidade; os imensos canaviais das terras dos meus avôs; os riachos para as quais eu ia me banhar, ficar horas e horas a fio na água poluta; as árvores variadas e suas estações frutíferas (jaqueiras, mangueiras, jenipapeiros, jambeiros, saputizeiros, cajueiros, ingazeiros, larajeiras etc); os cheiros variados nos invernos imensos; a água que escorria feroz nos meses de maio e junho de cada ano, alargando os fios anêmicos dos regatos; as biqueiras dos telhados que faziam despencar veios arteriais profusos; a sensação de espanto quando ia à cidade; os trabalhadores no corte da cana; a fragrância inconfundível da cana queimada; o barulho do vento na palha dos coqueiros.

Graciliano Ramos e José Lins do Rego
Ou seja, toda aquela planície ensolarada descortinada no texto de José Lins do Rego faz parte de mim. Está contida em galáxias interiores, neste vasto universo do meu ser. Esse cenário abrangente toma conta de mim. Cria conexões. Portas dimensionais são escancaradas e me fio por elas. Posso estabelecer um paralelo comparativo entre Graciliano Ramos e José Lins do Rego. Com relação ao primeiro, entendo que se trata de um dos nossos maiores escritores de todos os tempos. Com relação ao texto, Graciliano era um depurador de palavras. Seu estilo é inconfundível. Seu texto possui as gradações corretas. A pontuação precisa com a finalidade de criar efeitos estéticos únicos. É um texto que caminha com os pés na terra, medindo cada passo para chegar a determinado lugar com bastante precisão e estudo. Admiro isso. Já José Lins é dono de uma prosa "descuidada". Comete atropelos quanto à regência. Em alguns momentos se delonga em excesso em descrições. Em outros, passa-me a impressão de que está cometendo divagações. Todavia, "os pedaços" dessa prosa singular são conectados e temos um texto que produz sensações elétricas. José Lins sabia contar uma história como ninguém. Talvez, em nossa literatura o caso mais parecido seja o escritor gaúcho Erico Veríssimo.

Terminei a leitura de Pedra Bonita, livro escrito em 1938.Trata-se de um livro de temática religiosa. Aborda um elemento vital do imaginário do povo nordestino: a superstição. A história se passa em algum lugar do estado de Pernambuco, pois as referências aludem a isso. Há a citação de cidades como Garanhuns, Limoeiro, Goiana e Recife, cidades pernambucanas. O vilarejo de Açu reconstitui a arquitetura tão rotineira nas cidades interioranas do Brasil: a vida pacata do povo que se reúne embaixo de uma árvore para especular sobre a vida dos outros; a paróquia no centro da cidade; os coronéis que mandam na cidade; os comerciantes; e a gente comum; a devoção exagerada à tradição erguida pela Igreja Católica.

Como protagonistas temos o padre Amâncio e Antônio Bento, cuja história se ligava a ecos de acontecimentos espetaculosos com a cidade de Pedra Bonita.O jovem Antônio Bento havia sido adotado pelo padre. Era intenção do sacerdote torná-lo padre, mas o sacerdote teve suas intenções inviabilizadas em decorrência das dificuldades econômicas. Antônio Bento, assim, torna-se coroinha da paróquia. Passa a assistir o padre nos trabalhos da igreja. Todavia, a maior parte do povo de Açu não gostava do jovem. Ele era discriminado. Sofria com os debiques dos moradores da cidade.

O fato é que ao final da história, Antonio Bento se ver dividido entre ajudar o padre Amâncio, que estava em seu leito de morte, aguardando outro padre para fazer a confissão; ou se juntar aos seus patrícios de Pedra Bonita, que seriam vitimados pelas tropas do Estado que vinham com fúria para alijar do tumulto gerado por mais um frenesi messiânico. 

O livro possui um realismo duro. O Estado parece como força tirana. Os militares batem sumariamente nas pessoas sem que estas possuam direito ao contraditório. Espancam velhos. Buscam à toda força, lançar por terra os cangaceiros que, também, surgem na história como força antitética aos desmandos do governo. Todavia, acabam se constituindo em mais um "flagelo" do sertão, pois defloravam moças, saqueavam os moradores da terra, alastravam pânico e a especulação de medo por onde quer que passassem.

Em dados momentos do texto, os infortúnio do tempo parecem acometer ao personagem Antonio Bento. A realidade parece sufocar a sua existência. Não há saídas. Existe uma espécie de fado do tempo histórico que é maior do que ele. Antonio Bento não tem saídas. Ele parece ser um joguete do destino. O céu está contra ele; os homens estão contra ele; a história está contra ele. Esse neorrealismo com pitadas de naturalismo, liga Pedra Bonita a Zola ou Aluísio de Azevedo, escritores do século XIX. 

Muito bom o livro, embora não seja um dos melhores de José Lins do Rego.

quinta-feira, janeiro 17, 2013

Impressões sobre as 100 primeiras páginas de Usina, de José Lins do Rego


Uma afirmação inicial deve ser feita: sou um fã incondicional daquilo que se convencionou chamar de Modernismo Regionalista, na literatura brasileira. Escritores como José Lins do Rego, Graciliano Ramos, Jorge Amado, Rachel de Queiroz, entre outros fizeram um neorrealismo literário preocupado com as tensões e realidades do Nordeste brasileiro. Utilizaram-se da via aberta pelos modernistas. Compuseram, assim, por meio de uma prosa fluídica, rica, preocupada com as realidades do homem da terra, denunciando as relações de poder, o mando dos coronéis; o processo de submissão, a devoção exagerada, a superstição, o triunfo e a derrocada de alguns processos. Pode-se afirmar, assim, que estes escritores são telúricos. 

Hoje, aqui em Maceió, li aproximadamente 100 páginas do romance Usina, de José Lins do Rêgo, obra escrita em 1936. O livro é conhecido por dar cabo àquilo que o escritor paraibano chamou de Ciclo da cana-de-açucar. O texto é o quinto de uma sequência bem-sucedida de romances escritos por um José Lins completamente inspirado - Menino de Engenho, Doidinho, Bangüe, O moleque Ricardo, respectivamente. É curioso notar que até Usina, os textos de José Lins saíam com uma facilidade, com uma fluência, com uma dinamicidade únicos. Após o último romance de o Ciclo da cana-de-açucar, para muitos críticos e estudiosos da obra de José Lins, há como que um esgotamento na inspiração do escritor. Mais tarde vão surgir outras obras significativas. As principais são Fogo Morto, Riacho Doce, Pedra Bonita e Cangaceiros

Com a leitura de Usina, estou terminando todo o Ciclo. A linguagem de José Lins é simples. Em alguns momentos é perceptível o descuido, quiçá, voluntário das regras gramaticais e outras obviedades da norma crítica. Mas é dessa forma que ele constrói com fidelidade as falas e enseja o regional. O ponto forte de José Lins é a força de sua prosa; a energia que flui; a capacidade de contar uma boa história. O paraibano do Engenho do Pilar não era um escritor genial. Sua prosa não é esculpida artisticamente como a de Graciliano Ramos ou como o mundo de personagens de Jorge Amado, mas, em José Lins, encontramos a verve para uma boa narrativa. Seu texto pode ser comparado a um rio caudaloso, que não se detem em obstáculos. Seguimos o seu curso. Mergulhamos em suas águas, uma maviosidade e uma sensação de embalo nos leva pelo mundo mágico dos canaviais, dos antros do Recife, de Goiana (PE), Itabaiana (PB), Santa Rita (PB), do Engenho Santa Rosa etc. 

O que é relevante apontar nisso tudo é que antes dos regionalistas, o Nordeste não possuía voz. Não era descrito. José de Alencar andou escrevendo alguns romances piegas, numa tentativa de consolidar a literatura "com uma voz verdadeiramente brasileira". O livro que me é lembrado de Alencar é Guerra dos Mascates. Mais tarde, surge o Mulato, de Aluísio Azevedo. A história se passa no Maranhão. Os Sertões, de Euclides da Cunha, é uma das vozes mais fortes na tentativa de deslindar essa omissão. A ótica clínica e jornalística de Euclides da Cunha fez uma análise das mais brilhantes. Mas, foi somente com o movimento literário inaugurado por A Bagaceira (1928), de José Américo de Almeida, que o Nordeste ganhou notoriedade. A denúncia ganhou corpo, se avivou. O restante do Brasil passou a conhecer essa região esquecida. Uma lugar de omissões e desigualdades aberrantes. O Nordeste dos contrários. Dos homens-bichos. O Nordeste dos "homens fortes", como já advertira Euclides da Cunha.

Após a leitura de Usina, farei uma pequena análise do livro. 

Maceió-AL.

sábado, novembro 17, 2012

Germinal, de Émile Zola, algumas reflexões

"A alegria de viver desaparece quando não há mais esperança"
Émile Zola, Germinal, p. 371
 

Pode se afirmar que o século XIX é a idade de ouro do liberalismo. A premissa básica do liberalismo estava fundada na seguinte ideia: "A iniciativa individual é o motor, a mola de toda a atividade válida". Esse entendimento era derivado dos movimentos pró-burguesia fecundados no século XVIII, principalmente com a Revolução Francesa. E o liberalismo (surgido no século XVII) como sistema filósofico representou o sonho de consumação dos intentos da burguesia. Na corrida pela efetivação da "iniciativa individual", havia aqueles que podiam competir, por possuírem os meios de produção, e aqueles que possuíam apenas a força braçal e os instintos de sobrevivência. 

 O Estado como organizador do sistema social como sonhado pelos Iluministas, principalmente por Hobbes, deveria ter a sua presença minimizada. A Segunda Revolução Industrial estava a pleno curso. A invenção da máquina a vapor, as várias ideologias - positivismo, o socialismo, o existencialismo, o darwinismo, o monismo, por exmplo - estavam assentadas num ideal materialista. Ou seja, a ideia de que o mundo e a natureza eram os pontos determinantes a serem conhecidos pelo homem. 

Mas e a literatura possui alguma relação com isso? E respondemos de forma peremptória que sim. A literatura é a transfiguração do mundo. Ela por si se constitui a mistura do mundo real e o mundo possível. Quando o sujeito da literatura cria, não deixa de coniderar a realidade. Mas ele o faz criando uma imitação que gera tensionamentos. Essa imitação é um fundamental para compreender determinados momentos históricos. É por isso que Marx disse em certo momento que aprendeu mais sobre a sociedade francesa do século XIX com Balzac do que com livros técnicos de historiadores e economistas. 

Sendo assim, a complexa e ebuliente sociedade do século XIX pode ser compreendido de maneira "transfigurada" pela literatura. É importante mencionar que além de Zola, outros escritores também se preocuparam em retratar materialmente as desigualdades gestadas pelo capitalismo naquele século. Na Inglaterra, Charles Dickens, foi um importante cronista da vida citadina da Inglaterra industrializada. As ruas repletas de lama; os prostíbulos; a exploração; a infância perdida. Na França, Victor Hugo com Os Miseráveis, pintou um quadro fantástico das relações dos pobres numa sociedade dominada pelos interesses da burguesia. Em Portugal, Eça de Queirós, não se preocupou em retratar o mundo material como Dickens ou Hugo. Preferiu mostrar a hipocrisia que habitava o seio do mundo burguês. E aqui no Brasil, Aluísio Azevedo escreveu dois livros fundamentais,  inspirado por esse movimento vivo então na Europa - O mulato e O cortiço. Ambos os livros são extraordinários. O primeiro por mostrar como o preconceito se constituía em modo de navegação social numa sociedade escravocrata como a nossa; e, o segundo, retratava as condições sub-humanas na qual vivia o povo pobre do Brasil, com todas aquelas doses naturalistas: a promiscuidade, a ausência de educação, os instintos aflorados, a exploração econômica, a dança do corpo. O cortiço está mais próximo de Germinal.

Após essa divagação, queria afirmar que Germinal cuja leitura se concretiza de forma elétrica, é um grande tratado, um documento social. Um libelo contra a sociedade burguesa, assentada na desigualdade. Após ter lido a obra, resolvi assitir ao filme homônimo, lançado em 1993, por Claude Berri. Achei-o convicente. Todavia, o jogo linguístico e a fluência literária como de um cientista de Zola torna Germinal uma leitura indispensável. Em alguns momentos de leitura, eu me vi passeando ao lado de Etienne Lantier, personagem central da obra, pelas ruas feias e cobertas de lama de Montsou.

Germinal foi escrito em 1885 e tornou Émile Zola numa das personalidades mais importantes da literatura universal. De família pobre, Zola passou por muitas dificuldades antes de se estabelecer como um habilidoso cronista. Para escrever Germinal, Zola morou numa comunidade de mineiros durante quase três meses, tempo este em que pode experimentar todas as vicissitudes do triste cotidiano nas regiões interioranas da França. Comeu a comida pobre daqueles homens que viviam como bichos; bebeu água contaminda; percebeu a promiscuidade dos jovens como um apelo ao instinto; dormiu nas casas desadornadas de conforto e sem calefação; desceu aos buracos infames a centenas de metros de profundidade para trabalhar na semi-escudridão, em um ambiente insalubre, pegajoso e que deteriorava a saúde e a vida do trabalhador, como é retratado, por exemplo, na pessoa da personagem Boa-Morte, que vivera cinquenta anos no trabalho inglório. O resultado foi vomitar uma substância preta e a imobilidade demente no final da vida.
Zola ao viver na comunidade dos mineiros colocou em voga o pressuposto básico do naturalista - viver próximo ao fato para narrá-lo com insenção e imparcialidade. Sua função era retratar anatomicamente os eventos sem qualquer moralismo. Era é importante realçar os instintos. Adelgaçar a necessidade da funcionalidade da vida. 

As condições materiais de existência dos mineiros era degradante. Por conta disso, iniciam um movimento grevista sob a liderança de Etienne Lantier. Apoiam-se numa resistência grossa. Organizam-se. Falam na Internacional que era naquele momento uma importante organização internaicional de trabalhadores. Desconhecem as teorias socialistas. O único intento e o desejo de justiça. Queriam fugir da degradação e da opressão. Queriam apenas comer dignamente. Todavia, esse anseio é ocultado pela resistência em atender às aspirações dos mineiros por parte do dono da mina. Zola parece querer mostrar que existem instâncias no sistema. Que todos estão presos, enredados, na teia medonha que aprisiona os envolvidos - dominador e dominados - no jogo de interesse. 

Outro importante recurso utilizado por Zola é colocar em paralelo a burguesia, representado pela comida fácil, o riso mole, a futilidade dos grandes saraus e a situação de desespero do mineiro. Cabe a este viver em condição de penúria. Esse paralelo pode ser verificado na reflexão feita por Etienne: "[...] por que havia tanta miséria de um lado e tanta riqueza de outro? Por que estes [os mineiros] tinham de viver escravizados àqueles [os burgueses], sem a menor esperança de um dia mudar de posição?".

De certa forma essa tese, segue no triste curso da narrativa. A greve iniciada pelos mineiros naufraga. Eles são forçados a voltarem ao trabalho. As necessidades vitais os premem. Submentem-se voluntariamente à tirania. Não conseguem resistir, apesar do ódio. As várias mortes perpetradas pela polícia, braço direito daqueles que estão no poder, desmancha o movimento. A polícia que em sua essência é também formada por homens pobres e comuns, existe para proteger o patrimônio do capitalista. Ou seja, o capitalista, segundo Zola, é cruel em sua sanha, pois alimenta-se do sangue do povo quando explora e blinda-se com o aparelho formado pelo Estado Liberal que protege a propriedade. Todavia, essa proteção é feita pelo povo. 

Etienne vai embora de Montsou. Os mineiros são obrigados a se resignarem com as condições vis de trabalho. E aí não deixei de perceber a tese niilista do livro. Por mais que se tente lutar contra o monstro da opressão, ele possui tentáculos asfixiantes, capazes de dilacerar com sua força qualquer resistência. Resta ao homem pequeno, de existência sofrida resignar-se à indigência até que chegue a morte. O sonho de igualdade é um vislumbre utópico. A ignorância dos pequenos é a arma do ricos. Embora essa tese esteja na obra, o final do livro nos traz uam mensagem de esperança. Enquanto Etienne caminhava pela planície de Montsou, Zola despeja sua pena literária: "Do flanco nutriz brotava a vida, os rebentos desabrochavam em folhas verdes, os campos estremeciam com o brotar da relva. Por todos os lados as sementes cresciam, alongavam-se, furavam a planície, em seu caminho para o calor e a luz. Um transbordamento de seiva escorria sussurrante, o ruído dos germes expandia-se num grane beijo. E ainda, cada vez mais distintamente, como se estivesse mais próximos da superfície, os caompanheiros cavavam. [...] Homens brotavam, um exército negro, vingador, que germinava lentamente nos sulcos da terra, crescendo para as colheitas do século futuro, cuja germinação não tardaria em fazer rebentar a terra".

Fica clara a construção de uma belíssima metáfora, já que o nome germinal estava associado ao calendário da primavera na Revolução Francesa, quando a semente das plantas germinavam. Em um sentido mais lato, germinal é a fecundação, o rebentar de uma transformação social que estava em curso. Zola parece prever os conflitos que estavam sendo fecundados no seio do capitalismo. As desigualdades sociais trariam resultados claros, numa espécie de salto dialético.

O fato é que Germinal é um dos mais importantes livros a tratar de questões sociais. Sua temática ainda está viva. Nas periferias das grandes cidades brasileiras, por exemplo, é possível encontrar famílias como a dos Maheau. Pessoas pobres. Sem instrução; não contempladas por políticas públicas efetivas. Cerceadas do jogo do poder. Iludidas com o ideial de democracia. Democracia e liberdade são termos que aquecem o espírito e geram consolo no Estado burguês. Cria uma ideia de povo que participa das decisões do Estado no suposto jogo democrático. As sementes nunca tiveram tão adormecidas e estéreis.