Mostrando postagens com marcador Citações. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Citações. Mostrar todas as postagens

segunda-feira, agosto 27, 2018

Um comentário interessante sobre Olavo de Carvalho

Assistindo a um vídeo em certo canal do Youtube, cujo objetivo era refutar algumas afirmações de Olavo de Carvalho, um charlatão, embusteiro, metido a filósofo; divulgador de generalizações perigosas, de uma lógica comprometida com o sofismo, resolvi dar uma olhada em alguns comentários. Acabei encontrando uma pérola. Certo visitante deixou um pequeno texto, encimado pelo título: "O mínimo que você precisa saber para não ser Olavo de Carvalho". A afirmação ecoa o título de um livro do bazofioso "intelectual" ("O mínimo que você precisa saber para não ser um idiota"). 

A obra impressionou alguns incautos novidadeiros por aqui. Na verdade, suas olavices* fizeram sucesso por causa do momento político que o país enfrenta, de ascensão de um pensamento conservador e dito liberal - que de liberal mesmo não tem nada. Há hordas a postas para defender o grande Nostradamus do pensamento conservador brasileiro. Ele inclusive é citado no plenário do Congresso Nacional; é guru de candidatos a presidente da República; impressiona setores da obtusa classe média do país. O único lugar onde ele não é citado: a academia, espaço que, segundo ele, só produz preguiça, esquerdismo, analfabetismo funcional e muitos "filhos da puta".

Segue o belo comentário (observe a ironia nas afirmações):

O MÍNIMO QUE VOCÊ PRECISA SABER PARA NÃO SER UM “OLAVO DE CARVALHO” 

- Desonestidade de qualquer gênero, é uma merda. 
- Estuprar a história não mudará a história. 
- Ver o demônio nos outros, naqueles que não pensam como você, não te tornará melhor; ao contrário, fará de você um pervertido irrecuperável. 
- Um palhaço letrado continuará sempre... um palhaço, e entrará no hall do anonimato da história como palhaço, nada mais. 
- Generalização é a filosofia do ignorante que ama ser ignorante; aquele que abdica do raciocínio e do estudo para se tornar o “especialista de tudo o que não conhece”. 
- Mentir continuamente é no final, cair na desgraça de acreditar piamente nas próprias mentiras. 
- Qualquer canalha pode desprezar os pobres; qualquer miserável pode tripudiar o sofrimento humano; qualquer crítico venal pode desqualificar culturas e povos... grandeza humana e intelectual é outra coisa, pertence a um nível muito superior a tudo isso.


* É o nome que é dado às afirmações mirabolantes do astrólogo distribuidor de ódios, cuja imagem refletida da inteligência é a dele mesmo. Olavo não impressiona pelo conhecimento, mas pelo suco histriônico que faz com tudo o que sabe, ao fazer afirmações que achincalham o mundo como ele é. Vive a pregar conspirações - principalmente a comunista, a petista e do Foro de São Paulo, que para ele é a reunião das bestas do apocalipse. Por fim, as olavices são construções verossímeis, que se parecem com o conhecimento do mundo real, mas que,  no fundo, são meras ficções capazes de inebriar e desarticular a inteligência de seres instáveis e impressionáveis por conspirações pueris. 



quarta-feira, abril 04, 2018

Um excerto sobre Graciliano

Durval Muniz de Albuquerque Jr
"O burguês é, para Graciliano, o homem que desperdiça a vida sem saber por quê, que não tem ideias. É um simples explorador feroz, egoísta e cruel, desconfiado de todos. Um homem submetido a uma miséria existencial. Um homem que só concebe as relações sociais como relações de apropriação, apossando-se de terras, homens e mulheres. O ciúme de Paulo Honório é apenas um modo de manifestação do sentimento de propriedade, que procura transformar Madalena numa coisa, num objeto, ao que ela recusa, afirmando sua condição humana. A luta entre a ética da coisificação burguesa e a ética humanista se revela pela própria incompreensão de Paulo Honório em relação à sua esposa. Ele não consegue compreendê-la, também não consegue entender o humanismo, porque este é a sua própria negação. Sua amabilidade com as pessoas é apenas de casca, visto que ele é também a negação do sertanejo pobre; enquanto este é pura autenticidade, ele é tração. Se adquire a "docilidade" do antigo coronel, é apenas para melhor explorar, não está verdadeiramente preocupado em proteger ninguém. Era um novo senhor de escravos, que não oferece aos seus trabalhadores sequer o que se dava antigamente aos negros das senzalas.

Nesta sociedade, o homem pobre continuava sendo uma coisa, quase um animal, tendo de meter a cabeça para dentro do corpo, como cágado, ao ouvir as ordens do patrão. Era como animais tristes, bichos domésticos, que só eram capazes de fúrias boçais, só eram capazes de destilar veneno aprendido na senzala, indo da subserviência à brutalidade. Graciliano parece, continuamente, estar dividido entre a beleza da teoria de mudança do mundo e a feiúra dos homens concretos que teriam de colocá-lo em prática. Esse certo desprezo pelos homens concretos parece só ser aplacado quando estes são levados para o papel, quando são transformados em estética; então ele demonstra a sua vontade de participar dos sofrimentos alheios, de tornar vísivel um mundo de desigualdades que aprendeu a perceber desde a infância, quando uns sentavam nas redes e outros permaneciam de cócoras no alpendre, solidarizando-se com as pessoas, como ele, vítimas de violência e da prepotência dos mais poderosos. (...)"

A invenção do Nordeste. Durval Muniz de Albuquerque Jr., pp. 268 e 269


segunda-feira, fevereiro 19, 2018

Um excerto sobre o tempo, essa matéria que nos molda

"Rachel de Queiroz se preocupa com a dicotomia entre tempo e espaço. Para ela, o tempo, diferentemente do espaço, não tinha estabilidade, não se podia ir e voltar nele. O que se passa no tempo some, anda para longe e não volta nunca. É com profundo pesar que ela constata ser o passado uma substância solúvel, que se dilui dentro da vida, escorre pelos buracos do tempo - águas passadas. Para Rachel, a dimensão do tempo é aflitiva para o homem, pois seus únicos marcos são as lembranças, cujas testemunhas são as pessoas que também passam, também se transformam. 

O homem não tem sobre o tempo nenhum comando, apenas sofre o tempo, sem defesa. O tempo anda no homem, mas este não anda nele. O tempo nos gasta como lixa, nos deforma, nos diminui e nos acrescenta. Os olhos de trinta anos desaparecem, a forma de ver também. Razão por que o espaço é repositório da memória, das marcas do tempo; é a dimensão que, segundo ela, deve proteger o homem dessa sensação de vertigem. O espaço seria a dimensão conservadora da vida". 

A invenção do Nordeste e outras artes. Durval Muniz de Albuquerque Júnior. Editora Cortez. 2011, pp. 97-8.

sábado, janeiro 26, 2013

Conceitos científicos x conceitos míticos




"Todos os termos usados nos livros de ciência, "lei", "necessidade", "ordem" e assim por diante, são realmente não intelectuais, porque pressupõem uma síntese interior, que nós não possuímos. As únicas palavras que sempre me satisfizeram como descrições da natureza são os termos usados nos contos de fada, "sortilégio", "feitiço", "encantamento". Eles expressam a arbitrariedade do fato e do mistério. Uma árvore dá frutos porque é uma árvore MÁGICA. A água corre morro abaixo porque está enfeitiçada. O sol brilha porque está enfeitiçado".

G.K. Chesterton, in Ortodoxia, p. 54