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segunda-feira, setembro 14, 2026

13 motivos para votar em Lula

Texto escrito pelo professor Luis Felipe Miguel

Faltando 21 dias para o primeiro turno, com as revelações sobre o escândalo do Banco Master finalmente vindo todas à tona, o cenário está claro. Temos, de um lado, o presidente Lula, com todas as limitações de sua política de frente ampla e de sua aversão ao enfrentamento. Do outro, Flávio Bolsonaro, como principal representante de um projeto regressivo que aparece também nas figuras de Ronaldo Caiado, de Romeu Zema, de Renan Santos e, com uma roupagem menos agressiva, de Augusto Cury.

Serão Lula e Flávio Bolsonaro que, com certeza quase absoluta, se enfrentarão no segundo turno. Mesmo com toda a exposição das tramas escusas do filho de Jair, o império sobre sua base é tão grande que o derretimento de sua candidatura é muitíssimo improvável.

Por isso, a disputa que se avizinha difícil. E ela terá um profundo impacto no futuro do Brasil. Apresento aqui uma breve relação do que está em jogo na eleição do mês que vem – e que deve orientar o voto de todos nós. Sem triunfalismo lulista, mas com realismo.

1) Democracia

 Quando promulgou, em 1988, a nossa Constituição escrita “com ódio e nojo a ditadura”, Ulysses Guimarães enunciou aquilo que, então, era o consenso mínimo da elite política brasileira. Muitos se esforçaram, com grande sucesso aliás, para impedir qualquer punição pelos crimes cometidos durante o período autoritário. Mas ninguém, nem mesmo nos partidos de direita, se apresentava na esfera pública defendendo uma volta a ele – exceto meia dúzia de generais do pijama, que se julgava que eram politicamente irrelevantes.

Isso mudou no momento da agitação com vistas à deflagração do golpe de 2016. De forma surpreendente, o discurso de defesa da ditadura, da perseguição aos adversários, até mesmo da tortura, ganhou tração e passou a empolgar amplos setores da população.

Podemos e devemos discutir os motivos disso: os limites do nosso experimento democrático, a insuficiência das políticas igualitárias. Ainda assim, a erosão do tabu que impedia a defesa da ditadura representa um grave retrocesso.

Jair Bolsonaro, que passou de figura marginal a líder político de alcance nacional exatamente com este discurso, ocupou todo seu mandato tramando formas de permanecer na presidência mesmo sem autorização do eleitorado. Não apenas estimulou o descrédito nas urnas e perseguiu adversários como também não economizou medidas de força para desvirtuar o resultado – incluindo a tentativa de impedir que eleitores exercessem seu direito. Depois da vitória de Lula, buscou apoio dos chefes militares e mobilizou sua base popular para desferir um golpe, culminando no 8 de janeiro.

A punição aos golpistas foi um dos triunfos que a democracia brasileira teve nos últimos tempos. A vitória de Flávio significará não apenas a reversão dessa punição como também um ataque ainda mais feroz às instituições democráticas. Caso eleito, Flávio fará de tudo para ser o ditador que seu pai não conseguiu ser.

2) Liberdades

O governo do Bolsonaro pai nunca escondeu sua vocação liberticida. Perseguição à imprensa, às universidades e às escolas, à ciência, aos produtores culturais. O filho segue no mesmo caminho. Ditadura – a forma de governo que eles preferem – não combina com liberdade para ninguém.

3) Igualdade

A igualdade é um valor central da democracia e também está no coração de qualquer concepção de sociedade justa. A política dos Bolsonaro, porém, é contrária a todas as formas de promoção da igualdade. Defende vantagens para os mais ricos, recusando a tributação progressiva, a taxação das grandes fortunas, qualquer medida nesta direção. Opera contra os direitos dos trabalhadores, em nome da farsa ultraliberal da autonomia da negociação entre patrões e empregados, o que significa simplesmente se eximir de proteger o lado mais fraco. O discurso fajuto da meritocracia serve de justificativa para ser contra as políticas sociais que garantem condições de vida para os mais pobres.

4) Progresso social

Por isso, por ser visceralmente contra a igualdade, o bolsonarismo é inimigo do progresso social.

Apesar de ter sido obrigado a assumir o discurso contra a violência contra as mulheres, Flávio é aliado da manutenção das hierarquias que as oprimem, defendendo os papéis tradicionais, a família sob dominação masculina, tudo aquilo que alimenta agressões que elas sofrem em nossa sociedade. Poucas das lideranças bolsonaristas se assumem abertamente como racistas, mas a oposição cerrada que fazem contra todas as iniciativas de combate ao racismo deixa claro de que lado estão. Em suma, tudo aquilo que pode contribuir para construir uma sociedade mais justa, dos direitos dos trabalhadores ao combate à homofobia, enfrenta a oposição de Flávio Bolsonaro e de quem está com ele.

Os governos do PT não fizeram tudo o que podiam e deviam. Seu registro é problemático em muitos pontos, a começar pelo tema da legalização do aborto. Mas não há parâmetro de comparação com seus adversários.

5) Soberania

Soberania não é uma palavra vazia, como a extrema-direita tenta fazer crer (vide a propaganda de Flávia dizendo que o que importa é a “soberania da segurança pública”).

Soberania é a possibilidade de que o povo brasileiro decida o melhor caminho para si mesmo. Numa circunstância próxima da normalidade, um candidato presidencial que defendesse a submissão de seu país a uma potência estrangeira teria liquidado sua carreira política. Infelizmente, faz muito tempo que estamos longe de qualquer situação normal.

Jair Bolsonaro transformou o Brasil em chacota mundial. Adotou uma política externa de vassalagem e entregou o que pôde de nossas riquezas para o capital estrangeiro.

O horizonte do bolsonarismo e das elites que o apoiam é extrair do Brasil tudo o que puderem, sem dar nada em troca – e depois ir morar em Miami. Podem se enrolar na bandeira, se pintar de verde e amarelo o quanto puderem, mas nada apaga o fato de que “patriotismo” sem defesa da soberania é fake.

O cenário internacional é intrincado e desafiador, com o aumento da pressão imperialista dos Estados Unidos e o avanço, mais sutil, dos interesses chineses. Se o Brasil quer sonhar com ter uma posição no mundo compatível com aquilo que ele é – um país de dimensões continentais, com a sétima maior população do planeta e enormes riquezas naturais – não pode cair na mão de um capacho de Donald Trump.

6) Meio ambiente

Uma das características da extrema- direita, pelo mundo afora, é negar a gravidade da questão ambiental. Mas, como o noticiário nos lembra dia sim, dia também, o planeta está a caminho do colapso. O Brasil, por sua biodiversidade, pela importância de suas florestas na regulação climática global, é fundamental caso a humanidade deseje garantir um futuro para si mesma.

O registro do governo Lula na questão ambiental é, como em tantas outras áreas, ambíguo. Em muitos pontos, cede à pressão quer dos interesses econômicos, quer de uma ideologia desenvolvimentista que pouco entendeu dos desafios ecológicos atuais. Mas não é um governo negacionista. dá espaço para agenda ambiental e tem abertura para o diálogo. Já o que caracteriza os Bolsonaro é a vontade de, como disse celebremente um ministro de Jair, “passar a boiada”, eliminando qualquer controle sobre latifundiários, madeireiras, a indústria da extração mineral.

Reeleger Lula é uma exigência não só do Brasil, mas do planeta Terra. 

7) Segurança 

A direita gosta de se apresentar como aquela que se preocupa com a segurança pública. Seu discurso é sempre o mesmo: penas mais pesadas, presídios mais bárbaros, polícia mais assassina. Uma receita que é posta em prática há muito tempo e que nunca dá certo.

Ninguém vai negar que o registro dos governos do PT na área está muito abaixo do desejado. Há setores da esquerda que não compreendem a centralidade da pauta da segurança. Há quem romantize a bandidagem. Há outros que reproduzem, nos governos estaduais, o punitivismo brutal e acéfalo da direita.

Porém, é a família Bolsonaro que acumula evidências de ligações com o crime organizado. Flávio Bolsonaro empregou, homenageou e confraternizou com milicianos. São os bolsonaristas que são presos com arsenais de armas em suas casas, quando não trocando tiros com a polícia. São eles também que emperram o projeto de emenda constitucional que permitiria maior envolvimento do governo federal no combate ao crime organizado.

8) Honestidade 

A direita também gosta de se apropriar do discurso sobre a corrupção, mas a verdade é que ela concentra os grandes ladrões do dinheiro público no Brasil. Podemos questionar a leniência com que Lula tratou muitos escândalos em seus governos, por conveniência política, entendendo pragmaticamente que era impossível governar se fazer vista grossa para práticas da nossa elite política, ou por amizade. Mas não existe nenhuma dúvida de que ele é pessoalmente honesto; sua vida foi revirada e não conseguiram mais do que ilações falsas e processos enviesados. Já os Bolsonaro, tanto Jair quanto Flávio, vivem de rolo em rolo, ao longo de toda sua carreira política – ou mesmo antes, se lembramos dos negócios que o capitão fazia no Exército. Se fazia falta alguma prova, o caso do banco Master está aí, com o candidato envolvido até o pescoço nos esquemas do responsável pela maior fraude bancárias de nossa história.

Combater a corrupção é necessário para estabelecer uma disputa política mais sã no Brasil. A corrupção drena recursos de políticas necessárias para a população e também garante que os interesses da classe burguesa e dos ricos em geral sejam privilegiados nos processos decisórios – ela é uma daquelas “falhas estruturais”, que já estão previstas no funcionamento do sistema, ainda que contra suas regras explícitas. Uma presidência de Flávio Bolsonaro é a garantia de que não avançaremos nada nessa direção.

9) Competência

Flavio Bolsonaro passou sua vida à sombra do pai. Deputado por causa do sobrenome, depois senador por causa do sobrenome, agora candidato presidencial por causa do sobrenome, notabilizou-se por escândalos de rachadinhas, homenagens a milicianos e rolos com lojas de chocolate e mansões a preço de banana. Não tem experiência administrativa, nem tem capacidade de liderança e de negociação política. Pior, não agrega ninguém com estas qualidades, uma vez que seu projeto é um projeto de clã, acima de tudo.

Governar um país como o Brasil exige preparo, capacidade de diálogo, liderança. No momento, só Lula reúne estas qualidades.

10) Saúde

O SUS, uma das maiores conquistas do povo brasileiro, nunca foi perfeito. Mas nunca esteve tão más condições quanto no governo de Bolsonaro. É uma mistura de projeto, uma vez que se trata de beneficiar a medicina privada, negacionismo científico, emblematizado pela adesão às teorias da conspiração contra as vacinas, e o desprezo pela vida humana, uma característica marcante da visão de mundo da extrema direita.

O bolsonarismo é diretamente responsável pela morte de centenas de milhares de pessoas, durante a pandemia. Enquanto elas morriam, o presidente da República debochava delas. Aquela imagem – de Jair imitando um doente morrendo pela falta do oxigênio não entregava aos hospitais – devia bastar para que qualquer pessoa rejeitasse a continuidade de seu projeto político.

11) Educação

Os Bolsonaro não têm e não gostam.

12) Alimentação 

Sob Jair Bolsonaro, foi revertida a maior conquista dos governos do PT: tirar o Brasil do mapa da fome. Milhões de brasileiros voltaram a não saber se teriam o que comer. Os índices de desnutrição de crianças e adolescentes dispararam. Não foi um caso: foi o espelhamento das prioridades de seu governo.

No seu terceiro mandato, Lula voltou a priorizar a segurança alimentar. É necessário assegurar que não ocorra nova reversão. Qualquer que seja o modelo de país que nós queiramos construir, não pode ter gente passando fome nele.

13) A vida e o futuro de cada brasileiro


O que está em jogo, em suma, é a vida de cada brasileira e de cada brasileiro, por bem mais do que pelos próximos quatro anos. Nós já vimos a força destrutiva de um governo de extrema-direita, já vimos como é custoso desfazer todo mal que é feito.

Com um novo mandato de Lula, nada estará resolvido. Mas teremos espaço para lutar por uma vida melhor, por um país mais justo, por direitos garantidos para todos.

Já com o Flávio Bolsonaro, vamos sofrer um governo contra o povo e contra o país.

Em suma

A escolha não é nada difícil. Lula é o representante de um conjunto eclético de interesses. No seu próximo mandato, assim como no atual e nos anteriores, nada está garantido, mas há espaço para luta, para pressão, para promover avanços. Já Flávio Bolsonaro encarna um projeto de retrocesso em todas as áreas.

A experiência internacional mostra que, quando a extrema-direita retorna ao poder, é mais destrutiva do que quando vence pela primeira vez. No governo de Jair Bolsonaro, resistimos, aos trancos e barrancos, mas resistimos. No há dúvida de que seu filho virá com uma agenda ainda mais radical de destruição dos sistemas de controles e da autonomia das instituições do Estado. Derrotá-lo é a tarefa necessária, indispensável, prioritária.

Daqui

segunda-feira, setembro 30, 2024

Uma conversa em um grupo do WhatsApp.

 


Participo de um grupo de WhatsApp com dois outros colegas de trabalho. Debatemos questões políticas quase todos os dias. Um dos membros deles possui posições assumidamente antipetistas e antilulistas. Acabei respondendo algo assim. 

Essa notícia veiculada pelo Metrópoles é daquelas que fermentam a indignação da classe média contra o Lula. Assolado pela raiva, pela indignação, pela incapacidade de reconhecer ou assumir qualquer medida positiva do governo, resta ao indivíduo iracundo de classe média, mover turbilhões de indignação contra o presidente perdulário.

Isso me faz lembrar aquela passagem do livro “Dom Casmurro”, do Machado de Assis. Diz o narrador que, após fazer uma pergunta para um verme gordo que encontrou em um texto, obteve a seguinte resposta:

“- Meu senhor - respondeu-me um longo verme gordo - nós não sabemos absolutamente nada dos textos que roemos, nem escolhemos o que roemos, nem amamos ou detestamos o que roemos; nós roemos”.

Esse texto é uma metáfora da disposição que existe contra o Lula. Não se tem absolutamente noção sobre os fundamentos do mundo real. O que existe é apenas a raiva, a indisposição contra o governo. Apenas se odeia. Caso esse tipo de notícia ocorresse com outro nome, não haveria problemas. O problema é que é o Lula. Um presidente nordestino, operário, sindicalista, de origem popular. Sua imagem está sempre associada ao “não pode”, ao “não deveria”. Ou será que, em um Palácio Presidencial, deveriam apenas servir costela ou acém; ou apenas moela de frango? Ou que não há cozinheiros versados nas magias da culinária refinada em uma cozinha de Palácio Presidencial?

São apenas sensaborias argumentativas o que nos sugere essa notícia. Serve apenas para gerar ódio seletivo. Pensa o indignado indivíduo de classe média, assentado sobre a raiva, que se coisas como essas forem abolidas, o mundo será um local mais justo e, como diz o livro de Gênesis, “o espírito de deus vai pairar sobre a face do abismo”.

Meu caro #####, sei que você discorda de tudo que escrevi. Mas é o que penso. Pode dizer que incorri em um “ad hominem”.

quarta-feira, maio 31, 2023

"Vila dos Confins" e os imensos confins do Brasil

 

“O sol caía de ponta, brutal. Entorpecia e queimava tudo. A areia era polvilho de espelho socado no pilão”.

                Mário Palmério

 

Terminei a leitura do terceiro de doze livros de literatura brasileira que pretendo realizar ao longo de 2023. Desta vez, li “Vila dos Confins”, do escritor mineiro Mário Palmério. Importante e reveladora leitura. Palmério foi uma figura bastante curiosa da nossa literatura. Além de autor de – pelo menos - duas importantes obras – “Vila dos Confins” e “Chapadão do Bugre” -, teve uma entusiástica carreira como político e educador. Palmério ainda foi embaixador do Brasil em Assunção, capital do Paraguai, durante o governo de João Goulart. Vale destacar sua intensa atuação como educador. Construiu, em Uberaba, a Cidade Universitária, que leva o nome do escritor, uma honesta homenagem. 

Mário Palmério nasceu em Monte Carmelo, município situado no Triângulo Mineiro, no ano de 1916. Era um grande conhecedor da vegetação, da topografia, dos rios, da fauna e dos costumes da região. Isso se faz notar em “Vila dos Confins”. O escritor mineiro à semelhança do escritor alagoano Graciliano Ramos, estreou já quadragenário na literatura. “Vila dos Confins” como ele mesmo diz, “nasceu relatório, cresceu crônica e acabou romance”. 

O romance “Vila dos Confins” foi publicado no ano de 1956. No que diz respeito às produções regionalistas, parece ser extemporâneo. Vale mencionar que desde à “Bagaceira”, do paraibano José Américo de Almeida, publicado em 1928, passando por uma enormidade de escritores como o já citado Graciliano Ramos, além de José Lins do Rego, Raquel de Queiroz, Jorge Amado, Amando Fontes, dava-se a impressão de que a estética regionalista parecia esgotada. “Vila dos Confins” acabou provocando um forte impacto. Surgiu como uma lufada de vento agradável, produzindo uma curiosidade inquestionável. A escritora cearense Raquel de Queiroz, já consolidada e que, àquela altura, era uma veterana, prefaciou a primeira edição da obra. Ela verbaliza de forma certeira: “A primeira qualidade que me impressionou no escritor Mário Palmério foi este cheiro de terra, que o livro traz, tão autêntico”. Livro com “cheiro de terra” – não se tratava apenas de uma metáfora. Era uma pujante escolha estética por parte do autor. 

“Vila dos Confins” rescende à fragrância das gerais. Escutamos o dialeto do povo. É uma obra cujo enredo tem por finalidade colocar em destaque as disputas políticas em uma cidade recém emancipada, denominada Vila dos Confins. Palmério transforma em literatura a ética que preenche as disputas políticas interioranas. Esse artifício maquiavélico ainda é o “modus operandis” de boa parte das castas políticas do Brasil profundo, do Brasil distante dos centros urbanos; do Brasil dos rincões afastados, dos confins. O Congresso Nacional, as Assembleias Legislativas e as Câmaras Municipais, ainda estão pejadas por gerações de políticos que transmitem um certo jeito de se locupletar da coisa pública. Esses personagens entendem que os cargos decisórios da vida social são um direito de herança. 

Nota-se ainda na obra uma tentativa de colocar em paralelo aspectos da vida social (política) com histórias de pescas, garimpo, caças (natureza), atravessando por uma certa maneira de dizer. O texto de Palmério procura ser fiel ao dialeto do homem da terra. Sua linguagem é caudalosa. Em alguns momentos da leitura, é perceptível algum tipo de mudança repentina do fluxo narrativo. É preciso estar atento para não perder o plano central da história com seus personagens principais em disputa. 

A linguagem de “Vila dos Confins” procura se fixar numa expressividade local, regional. O autor se utiliza de acurados neologismos. Essa estratégia cria um efeito de teor bastante significativo. O vigor da linguagem permite que, em dados momentos, o leitor seja surpreendido pela criatividade do autor. Faz lembrar a beleza da estética de Guimarães Rosa. 

Mário Palmério foi um homem que teve uma sensibilidade enorme para entender o seu meio. Seu texto aponta esse caráter. Nota-se o quanto ele conhecia a personalidade do homem do interior, encurralado por estruturas sociais e políticas, como dizia o crítico Wilson Martins, “burlescas” e “grotescas”. “Burlescas” pela forma provinciana, por uma certa forma de fazer; pela cristalização de certo entendimento; pelo atraso, pela tradição; pelo entendimento que a vida social e política, necessariamente, deveria seguir certo fluxo. E “grotescas” pela força da disputa; pela violência engendrada para que certo padrão, certos resultados permanessem. E, no que diz a isso, o texto de Mário Palmério continua imensamente atual nesse Brasil de imensos confins.

segunda-feira, maio 15, 2023

Uma resposta a partir de uma questão suscitada no WhatsApp


São boas as perguntas. Eu entendo a sua preocupação. Mas, não seria importante analisar o conteúdo daquilo que está sendo julgado?

Você acha que as decisões do Alexandre são meros caprichos jurídicos?

Não acredito que o Randolfe esteja sendo privilegiado pelas decisões do STF. Falar em ditadura do STF é bastante forte. É a retórica usada pelos bolsonaristas. Estamos a falar da instância máxima de decisões jurídicas do país. Com exceção do Kássio Nunes e do André Mendonça, penso que os demais ministros estejam à altura da Corte. Eu acredito que a culpa do STF foi ter se omitido em anos anteriores, quando permitiu que absurdos continuassem a ser praticados. Um exemplo foi a conivência com a existência da lava-jato e o acovardamento diante das notas golpistas de alguns milicos de pijama.

Mais uma vez: o PL é necessário. Condená-lo na integralidade é um erro. O PL não é do Governo atual. Ele está sendo debatido desde 2020; o PL não concede poderes de censura ao Governo. Ele “moraliza” o uso e a forma como as plataformas disseminam informações.

Outra questão importante: um amplo espectro da vida social é regulado por normas. Por exemplo, existem regras de como você deve negociar; regras para construir a sua casa; até que ponto o seu muro deve avançar na calçada; regras de como se deve comercializar alimentos. A forma como você conduzir o seu veículo. Ora, por que não deve haver regras para organizar o uso de um espaço tão imponderável como as redes sociais?

Semana passada, a Revista Piauí fez uma reportagem bastante interessante sobre o número de brasileiros conectados à internet. Os números são avassaladores. Atualmente, 84% dos brasileiros têm acesso à internet (181,9 milhões). Em 2013, eram 102 milhões.  O crescimento em uma década foi de 78%. A quantidade de brasileiros com internet, mas sem saneamento básico equivale à população do Equador. Ou seja, o total chega a 18 milhões de pessoas. Segundo a reportagem, esse valor é duas vezes a população da Áustria.

Dentre os brasileiros conectados, mais de 9 milhões recebem salário inferior a 550 reais e 1,27 milhões não têm acesso à água potável. Os brasileiros gastam tanto tempo na internet quanto ingleses e japoneses somados. Em 2022, um brasileiro médio passou 9 horas e 32 minutos na internet por dia. O brasileiro passa o dobro de horas que um americano no Instagram. Em média, o brasileiro gasta, por mês, 15 horas e 54 minutos. É uma das médias mais altas do mundo. Só perde para os filipinos. São 954 minutos. Lendo uma página por minuto, seria possível ler um livro de 954 páginas em um mês. Seguindo essa matemática, seria possível ler o "Ulisses", de James Joyce ou "O homem sem qualidades", do Robert Musil. No Yutube são 22 horas. No Facebook, 12 horas; no Twiter, 12 horas e 48 minutos.

O caso do WhatApp impressiona. Por mês, os brasileiros ficam 28 horas e 36 minutos. Daria para ler "Guerra e Paz", do Tolstoi (risos). Os franceses ficam em média 5 horas e 30; os australianos, 5 horas e 36; os estadunidenses, 7 horas e 24; os canadenses, 7 horas e 36.

Esses dados comprovam a necessidade de que haja uma legislação para impedir abusos. As crianças, adolescentes e jovens são os alvos preferenciais dessas plataformas. Além disso, existem outras com um potencial de demolição muito maior. No Brasil, não resolvemos os dramáticos gargalos da educação básica, mas quase que conseguimos que a integralidade da população tenha acesso à internet. São as contradições que nos assolam. 

quarta-feira, abril 12, 2023

De um comentário político a um colega

 


Não existem governos perfeitos e invulneráveis - ainda mais quando se trata do Brasil. Quando se fala de um governo, penso que a análise deve ser da "forma" e do "conteúdo".  É importante lembrar o que foi o ano de 2013 e o estrago que a Lava Jato provocou na política nos últimos anos. Observe como passamos a lidar com a política. Note que desde o golpe contra a Dilma, os governos foram ruins na forma e no conteúdo. Com relação ao governo Lula 3, há algumas aberrações na forma, mas há coisas necessárias no conteúdo. Quiçá você não concorde com o meu argumento, entretanto não existia outro nome e outro projeto que pudesse desfazer o esfacelamento pelo qual o Brasil passou nos últimos quatros anos.

O radicalismo é uma doença infantil. É importante não medir o atual governo por causa da práxis de alguns radicais. O governo possui boas intenções. Há um quadro com importantes e respeitáveis nomes. Se há erros, é da competência do próprio governo resolver essas pendências. Há um Congresso adverso e imoral. O compromisso do Centrão não é com o Brasil.

No Brasil, existe uma mídia canina, ciosa dos interesses do mercado. No fundo, essa midialona gostaria que o Bolsonaro tivesse vencido o pleito eleitoral do ano passado, pois a lógica segundo eles é: eu não importo com a "forma" - se ele é um não democrata; se ele é limitado, misógino, anti-indigenista, preconceituoso -; o importante é saber se o conteúdo nos privilegia - se continuaremos lucrando; para esses arrivistas, pouco importa se haverá desmantelamento do estado, das leis trabalhistas; se o povo vai ficar mais pobre; se vai comer ou não comer. Em um país como o Brasil, escravocrata e violento por natureza, um governo que carrega o emblema "de popular" não será bem aceito.

Há uma entrevista do Lira Neto no Foro de Teresina que reflete a grandeza e as contradições de Lula. A entrevista procura fazer aproximações entre Lula e Getúlio; e como cada um lidou com as crises políticas que enfrentaram. Não existem nomes mais densos, sagazes e com uma visão política tão ampla na política brasileira quanto os dois. Lula é um estrategista. Confesso que ele começou bem esses quase três meses de governo. Não teria como ser diferente com um Congresso como o que temos e com uma conjuntura tão adversa como a que se mostra.

Penso que a tarefa histórica do Lula 3 é resgatar a política do possível. Lula só venceu a eleição por causa da astúcia política que possui. Esquece-se de que a frente montada por Lula é resultado de uma conciliação política. O objetivo era derrubar a caquistocracia erguida por Bolsonaro e sua trupe. É preciso ter um pouco de paciência. Lidamos, nos últimos quatro anos, como diria Joseph Conrad em “O coração das trevas” com “o horror”.

Impressiona como, no presente, utilizam o udenismo para fazer crítica. É aquela velha fantasmagoria de um moralismo montado contra a corrupção. Às vezes, esses mesmos atores se munem de um discurso que, no fundo, carrega a anomalia queixosa e hipócrita montada por Carlos Lacerda. Note que a beligerância estruturada contra o governo repete os mesmos elementos do passado. Trata-se de uma recorrência trazendo à tona um moralismo requentado, colocando em disputada ‘Estado versus mercado’; ‘capitalismo versus comunismo’; ‘valores cristãos versus imoralidade de esquerda’. Há sempre um maniqueísmo em jogo; uma prática baseada no cancelamento. E, no fundo, essa gente é saudosa da Ditadura, da escravidão, da violência institucional; do desmatamento das políticas públicas; da posse do latifúndio; do mandonismo; da não-democracia.

E, com isso, condena-se um projeto de governo que é amplamente desenvolvimentista e nacionalista. Lula é um dos presidentes mais capitalistas que já governaram o Brasil.  Lira Neto diz que Getúlio costumava questionar: “Por que esses caras não me dão paz? Será que esses tubarões do capital não percebem que eu quero salvar o capital pra eles?”. Penso que o Lula faça os mesmos questionamentos.

Lula não é um disruptivo. É um conciliador. Penso que temos mais a ganhar com ele do que sem ele.


segunda-feira, agosto 16, 2021

"Nu, de botas", de Antonio Prata e algo mais

           

Sou assinante da Folha, algo sobre o qual, vez ou outra, ponho-me a pensar a respeito. Não é pelo dinheiro que emprego todos os meses. A quantia é módica. Sei que poderia direcionar o valor para uma mídia de esquerda. Sei da posição editorial do Grupo Folha; da canalhice dos interesses pró-mercado e, consequentemente, anti-país. Outra coisa, é o posicionamento político, que contribuiu acintosamente para o Golpe de 2016 e a chegada de Jair Bolsonaro ao poder.

   Acontece que a Folha, ainda, é um jornal que possui um time de colunistas de grande qualidade; jornalistas e escritores – alguns terrivelmente conservadores –, donos de grandes textos. Admiro um texto bem escrito; com aquela qualidade para o singularíssimo. Bem-humorado. Coeso.

Entre esses grandes colunistas está Antônio Prata. Cronista, escritor, jornalista, roteirista. E jovem. Possui apenas 43 anos. Alguém que com essa idade possui um dos textos mais bem escritos do jornalismo brasileiro. É sempre um grande aprendizado lê-lo. Domina os aspectos mais sutis da língua. Coloca a palavra no lugar certo. As sutilezas são ricamente empregadas, criando uma experiência sempre agradável o contato com os seus textos. 

Pois, foi com essa visão primária de alguém que acompanha os seus textos na Folha toda semana, que resolvi lê um dos seus livros. Escolhi “Nu, de botas”. Li-o no Kindle. Leitura rápida. Saborosa.

O livro remonta a infância do escritor. Busca retratar um quadro semi-memorialístico. É algo da grandeza do texto de Luís Fernando Veríssimo ou de um Fernando Sabino. É um texto cuja leitura realizamos de um só fôlego. Os capítulos são curtos. Enfocam os eventos próprios da infância de um sujeito de classe média, que viveu a infância nos anos 80. Estão lá os programas de televisão. A paixão pelos heróis japoneses. O palhaço Bozo, a Vovó Mafalda. A descoberta de coisas próprias da infância. A credulidade exagerada.  À medida que li, dei enormes gargalhadas. Não há como não se encher de uma enorme satisfação com o texto do escritor paulista.

Ao pegar um texto cuja matéria é o campo autobiográfico – ainda mais a infância- corre-se o risco de se tornar banal, piegas; ou quem sabe, irrelevante. Existem inúmeros escritores que escreveram obras-primas incontestáveis – Coetzee, Graciliano Ramos, Pedro Nava. Mas, o livro do Prata possui um outro sabor. É excelente. Vale a leitura!

Abaixo, um vídeo com uma entrevista do escritor, concedida ao médico Drauzio Varela.  

 


sexta-feira, agosto 14, 2020

Paradoxos angulosos


Nas atualizações de notícias que recebo todas as manhãs, alguns jornais veiculam a mais recente pesquisa realizada pelo Datafolha. 

Leio com um pasmo de perplexidade e desânimo. Segundo a Folha de São Paulo: "Aprovação de Bolsonaro sobe e é a melhor desde o início do mandato". A notícia escancara um desses paradoxos angulosos que tornam o Brasil uma estranha mistura de Caverna do Dragão (em que as personagens estão sempre lutando contra seres sobrenaturais e nunca encontram um caminho para sair do labirinto) com um daqueles desenhos japoneses de efeitos especiais sofríveis da década de 1980. Mas, quem dera fosse isso. Haveria pelo menos uma graça nonsense. 

O Brasil não é isso. Dizem os especialistas que analisaram a pesquisa, que o crescimento dos índices de popularidade está relacionado com o apoio das camadas populares. Ou seja, o auxílio emergencial foi responsável pelo soerguimento do apoio ao miliciano. Acredito que seja mais que isso. 

Como negar a gravidade das mais de cem mil pessoas mortas por causa da pandemia e uma ausência de preocupação do governo federal? Até hoje não há um ministro da saúde. Não há uma política de contenção da crise de saúde que assola estados e municípios. São dez mil mortes por semana. Em um mês, os números passam dos quarenta mil. Significa que, daqui a dois meses, o país se aproximará das duzentos mil mortes. Atualmente, são mais de 3 milhões de infectados, levando-se em conta apenas os casos diagnosticados. 

Nota-se a brutalização do discurso negacionista a cada vez que o dito presidente abre a boca. Um exemplo é a defesa peremptória da Cloroquina, como fez ontem, 13/08/2020, numa visita feita ao estado Pará. 

O bolsonarismo é um fenômeno do atraso brasileiro. É o triunfo dos desejos violentos íntimos do nosso atraso. É materialização da estupidez. É a consagração da ignorância. Da bestialização. É o desvelo incontido à indiferença. É a obstinada insistência de amasiamento com a nossa pobreza existencial. É o escancaramento de nossa nossa solidão.

A pergunta surge mais uma vez: como um governo estúpido, com tantas figuras bizarras (Guedes, Damares, Salles, Mendonça etc); um governo anti-ciência, anti-humanismo, anti-civilização, anti-povo, pode viver o seu melhor momento? Em um outro lugar do universo, talvez, isso não acontecesse. Mas, o Brasil, vive na dimensão do inominável e, aqui, tudo pode. 

terça-feira, agosto 04, 2020

Um breve comentário...


Li metade do artigo. A análise do Piketty é certeira. Apesar de todos os erros, ainda penso do alto de minha miopia idealista, que o PT seja o que de mais "sólido", os trabalhadores, intelectuais e todos aqueles que querem um país mais justo, fraterno e democrático, conseguiram construir em 500 anos de violência, mandonismos, saques e mesquinharias das nossas elites. Você pode ser crítico ao partido, mas não pode deixar de ser honesto. 

O que acontece é que, construiu-se uma narrativa perversa, uma espécie de macartismo tropical contra o Partido, neste país em que a classe média não se reconhece como tal. É, por isso, que não tenho nenhuma paciência, quando vejo alguns tipinhos grávidos da mais enfunada ignorância atribuir todas as mazelas do país ao PT. O presente estado de coisas é resultado do movimento dialético da história, que do lado de cá, deixou um rastro de absurdos - violência, desmandos, escravagismo. Imagine uma sociedade em que, há duzentos anos atrás, um negro era considerado como "semovente"; contado entre os animais, tido como bicho, sem nenhuma dignidade. 

E, após a alegada abolição, não houve um acerto de contas com esse fato. Isso, certamente, cria uma sociedade em que não se respeita o ser humano - principalmente, os mais pobres, os mais vulneráveis. Ou que, no massacre de Canudos, 30 mil vidas foram ceifadas sem que o estado brasileiro fizesse qualquer "mea culpa". Um morticínio realizado pelo Exército Brasileiro, que do lado de cá, não existe para proteger a alegada soberania nacional, mas que ataca a própria população. Observe que ao longa da história do Brasil, as Forças Armadas sempre atuaram contra civis. Existem para proteger os interesses de certos grupos. São reacionários por excelência. Ou, como descreve a Daniela Arbex em "O holocausto brasileiro", 60 mil vidas são jogadas, empilhadas numa casa de correção, numa espécie de campo de concentração em Barbacena-MG sob a conivência do estado. 

E, hoje, vivemos como se nada tivesse acontecido. Acredito que 99% do país não sabe o que aconteceu lá entre 1930 e 1980. O problema do Brasil é histórico e a própria sociedade brasileira precisa acertar contas com o seu passado. Ao afirmar isso, é importante salientar que isso passa, principalmente, pelo combate à desigualdade; pelo entendimento de uma sociedade, para dar certo, precisa de justiça social, mas sem o mero assistencialismo, pois isso não subsiste. Os problemas do Brasil são profundos. Estão na sua fundação. Partido ou líder nenhum dará conta do problema sem um pacto para acertar as contas com o atraso - e o nosso atraso não é obra de dias. É um trabalho de séculos de nossas elites ignorantes e mesquinhas. O "impeachment" de Dilma passa por isso; a criminalização dos movimentos sociais e desconstrução do nosso mirrado estado de bem-estar-social passa por isso; e a eleição de um sujeito desprezível como o Bolsonaro é fruto desse histórico melancólico, cinzento e que permanece intocado.

terça-feira, maio 26, 2020

O editorial do Estadão e a canalhice de uma mídia caolha


O editorial do Estadão de hoje é de provocar repulsa. Ele procura criar um paralelo, usa o termo "siameses" para igualar Lula a Bolsonaro. É o cúmulo da canalhice. Lula é um dos estadistas mais respeitados do mundo. Ele não é perfeito. É um homem passível de erros. Mas, impressiona o ódio das elites a tudo o que Lula representa para o país. Lula é o maior líder popular da nossa história.

O Estadão não faz uma "mea culpa". O seu jornalismo parcial e mistificador, criador de discursos que criminalizam a política, ajudaram a eleger o beócio estúpido que ora ocupa o cargo de presidente da República. O texto escancara a visão estreita e mesquinha das elites que mandam no país. É o real sintoma da "práxis" que deforma a realidade, atuando maquiavelicamente contra a possibilidade de um governo que tenha uma preocupação social. Nos mais de 13 anos de governo do PT, o oligopólio midiático - do qual o Estadão faz parte - não foi tratado às turras como acontece agora, durante o governo do esquizoide miliciano que se intitula presidente. Foram responsáveis, com alguns sabujos de redação, pela construção de uma narrativa que envenenou parte da sociedade, fazendo com que os monstros que viviam suas taras no mundo privado, viessem à luz e se sentissem legitimadas pelo traste eleito em 2018 e que leva o país para o abismo.
Segue o texto:

Nascidos um para o outro

Tanto o presidente Jair Bolsonaro como o chefão petista Lula da Silva se associam na mais absoluta falta de escrúpulos, em níveis que fariam até Maquiavel corar

Notas & Informações, O Estado de S.Paulo

26 de maio de 2020 | 03h00


Não há dúvidas. Jair Bolsonaro e Lula da Silva nasceram um para o outro.

Tanto o presidente da República como o chefão petista se associam na mais absoluta falta de escrúpulos, em níveis que fariam até Maquiavel corar. Pois o diplomata florentino que viveu entre os séculos 15 e 16, malgrado tenha descartado a retidão moral absoluta como fator essencial para o bom governo, formulou uma ideia de ética específica para a política, segundo a qual, entre outras regras, o governante jamais deve colocar seus interesses pessoais acima dos interesses do Estado nem agir como se seu poder fosse ilimitado: “O príncipe que pode fazer o que quiser é um louco”, escreveu em sua obra mais conhecida, O Príncipe (1532).

Jair Bolsonaro e Lula da Silva unem-se como siameses. Enxergam o mundo e seu papel nele da mesmíssima perspectiva. Tudo o que fazem diz respeito exclusivamente a seus projetos de poder, nos quais o Estado e o povo deixam de ser o fim último da atividade política e passam a ser meros veículos de suas aspirações totalitárias.

Ambos, Bolsonaro e Lula, só se importam com o sofrimento e a ansiedade da população na exata medida de seus objetivos eleitorais. O petista, por exemplo, declarou recentemente que “ainda bem que a natureza criou esse monstro chamado coronavírus para que as pessoas percebam que apenas o Estado é capaz de dar a solução, somente o Estado pode resolver isso”.

Tão certo de sua inimputabilidade, Lula da Silva nem se preocupou em ao menos aparentar retidão moral, como recomendava Maquiavel aos príncipes de seu tempo, entregando-se à mais vil exploração política do sofrimento causado pela pandemia de covid-19. Lula da Silva é, assim, o anti-Maquiavel: enquanto o florentino elogiou seus conterrâneos por preferirem salvar sua cidade em vez de salvar suas almas, Lula saúda a morte de seus compatriotas como uma espécie de sacrifício religioso em oferenda à estatolatria lulopetista.

Já Bolsonaro, bem a seu estilo, continua a menosprezar os milhares de brasileiros mortos na pandemia, agora com requintes de crueldade. Depois do infame “e daí?”, expressão que usou ao reagir à informação sobre a escalada do número de mortos no Brasil, o presidente da República não viu nenhum problema em fazer piada com a desgraça do país que ele foi eleito para governar. “Quem é de direita toma cloroquina, quem é de esquerda toma Tubaína”, brincou Bolsonaro.

Nem se deve perder tempo procurando graça onde, definitivamente, não há. Diante das dramáticas circunstâncias, só riu da blague bolsonarista quem não nutre nenhuma empatia ou respeito pelo sofrimento dos outros. Para o presidente da República, só os direitistas são dignos de salvação – por meio da cloroquina, que Bolsonaro, baseado em estudos fajutos, quer que os brasileiros tomem para que o País supere rapidamente a pandemia e “volte ao normal”. Já os “esquerdistas” – isto é, todos os que não são bolsonaristas –, que bebam refrigerante.

Bolsonaro e Lula são o resultado mais vistoso da degradação violenta da atividade política, aquela que, na concepção de Maquiavel, deveria almejar a todo custo o bem coletivo. Cada um à sua maneira, um mais truculento, o outro mais dissimulado, o presidente e o petista se consideram fora do alcance das considerações éticas que deveriam moderar o poder e que estão no coração das sociedades democráticas.

Lula trabalha desde sempre para cindir o País – e sua recente celebração do coronavírus pode ser vista como uma espécie de corolário macabro da concepção doentia segundo a qual os brasileiros recalcitrantes, que ainda não aceitam o projeto de Estado autoritário idealizado pelo lulopetismo, devem ser castigados pela natureza para que aprendam de uma vez por todas que Lula sempre tem razão. Bolsonaro faz exatamente o mesmo, e ainda enxovalha publicamente quem se recusa a aceitá-lo como salvador.

O bolsonarismo é um monstrengo antidemocrático que só ganhou vida e ribalta por obra e graça do lulopetismo. A uni-los, a sede de poder absoluto. Mas, como já ensinou Maquiavel, não há poder que dure para sempre.

domingo, maio 24, 2020

"A Queda! As últimas horas de Hitler" e o que nos atinge

Terminei de assistir ao filme "A Queda! As últimas horas de Hitler" (2004). E, quando abro o Facebook, o jornal Metrópoles traz essas patéticas fotos. As cenas do filme ainda estão na minha cabeça. Tento criar um paralelo com aquilo que vivemos. "A Queda" é um filme angustiante; repleto de uma psicologia da morte, do genocídio, da loucura. É doloroso assistir a Magda, esposa de Goebbels, matar as seis filhas envenenadas. Diz ela em outra cena, quando a questionam sobre a possibilidade de deixar as filhas viverem, que 'se o ideal do nacional-socialismo morresse, não haveria futuro'. Ou seja, não haveria mundo possível para as filhas sem o nazismo.

O excelente filme traz o saudoso Bruno Ganz no papel de Hitler. O ditador diz em uma das torturantes cenas do filme algo que me faz pensar sobre a singular demência que habita a cabeça de um tirano. Nota-se o quanto sua ideologia é deletéria: "A vida não perdoa a fraqueza. Esta suposta humanidade não passa de sandices dos padres. A compaixão é um pecado original. A compaixão pelos fracos é traição à natureza".

Fisicamente amofinado, com tremores incessantes nas mãos, com ideias de grandeza que beiravam à ficção, o quadro mental do ditador era deprimente nos últimas semanas antes do suicídio. Mostra-se a lealdade dos seus asseclas. A veneração religiosa à sua pessoa. Ele era tido como um deus. No entendimento dos seus seguidores, nunca falhava. Era o líder que teria uma solução final que reverteria o destino da guerra a favor da Alemanha.

Instado a poupar o povo, ele diz de forma seca, dura, peremptória: "Se o meu próprio povo falhou neste teste, não derramarei uma lágrima por ele. Eles não merecem mais nada. É o destino deles. Eles são os únicos culpados".

Vendo essas pessoas, em pleno domingo, em tempos de pandemia, deixarem as suas casas para apoiarem alguém que já deixou transparecer quais são as suas intenções para o país, deixa-me inquieto com o tipo de psicologia que existe em torno desses movimentos extremos. Estou lendo "O carisma de Hitler", do Laurence Rees; e "Estudos sobre a personalidade autoritária", do Adorno, para tentar entender esse fenômeno psicológico que acomete parte do conjunto da sociedade na direção de certas tendências totalitárias.

Como disse alguém, "Bolsonaro é um Hitler com déficit cognitivo". Sim! Ele já deixou isso muito claro nos 30 anos de vida pública. Quem ainda tinha dúvidas sobre esse fato e tenha usado o bom senso e a razão, as portas da percepção foram abertas com a revelação daquele vídeo grotesco, um simulacro de todo mundo em pânico com uma deprimente pornochanchada lado B.

Dizer que 'seu objetivo era armar o povo', cria conexões com a fala de um tirano, de alguém que deseja fazer um "teste", um experimento social a favor da morte, da guerra civil; de insurgência contra a ordem social. Seu objetivo é criar milícias para se fortalecer. Em sua cabeça, devem existir as mais macabras intenções sobre os seus opositores. Seu mundinho de mediocridade, obscurantismo e necessidade de bajulação não tolera a existência de forças antagônicas. O extremismo é a sua linguagem; o desejo de morte, a sua psicologia.

No final dos anos 90, ele disse que o país só teria jeito quando uns 30 mil fossem mortos; e, caso fosse eleito, daria "um golpe" no outro dia. Mais de 20 mil já morreram em decorrência da COVID-19, mas ele já deixou claro que essa não é a sua guerra. Seu desejo é outro.  Ao afirmar que tem objetivo armar a população para criar hostes, milícias, à semelhança da SS do partido nazista, nota-se que seu plano ainda permanece vivo.

O governo Bolsonaro é um teste para o país: (1) ou sairemos fortalecidos e aprenderemos como sociedade com esses eventos; (2) ou chegaremos ao fundo do poço da indigência e do caos. Pelo que tem acontecido até agora, com as instituições cooperando para o acontecimento da segunda opção, a primeira opção é apenas um devaneio distante, que tremula como uma miragem no deserto do real.