“Tinha nos braços finos uma
menina, neta, bisneta, tataraneta talvez. E essa criança horrorizava. A sua
face esquerda fora arrancada, havia tempos, por um estilhaço de granada; de
sorte que os ossos dos maxilares se destacavam alvíssimos, entre os bordos
vermelhos da ferida já cicatrizada. A face direita sorria. E era apavorante
aquele riso incompleto e dolorosíssimo aformoseando uma face e extinguindo-se
repentinamente na outra, no vácuo de uma gilvaz”.
“Os Sertões” é um colossal livro
produzido por circunstâncias extremadas e pela genialidade de um brasileiro que
conseguiu enxergar o nosso atraso e as nossas injustiças. Concluí, embasbacado,
a leitura do desafiante livro no mês de fevereiro. Somente agora consegui
escrever algumas magras linhas para assinalar as minhas impressões. Havia
tentado em duas ocasiões realizar a leitura da obra; reunir esforços para
finalizar o projeto. Não consegui. Desisti nas primeiras páginas. O livro
escrito por Euclides Cunha exige paciência, disciplina e uma vontade indômita
para vencê-lo. É preciso ficar de pé, com a espinha ereta para encará-lo. Quem
se intimida nas primeiras páginas, acaba por se amofinar e acaba colocando a
obra a um canto.
A sua divisão interna – A terra,
O homem e A luta, respectivamente – parece surgir para impor obstáculos. A primeira parte é repleta por uma linguagem
pejada por dificuldades; por termos técnicos – da geologia, da botânica, da
climatologia. Euclides faz uma escrutinadora varredura pela região nordestina
e, de forma pormenorizada, pela região agreste da Bahia, onde se deu o conflito
entre os rudes sertanejos contra as forças da recém-criada República. Parece um
teste de resistência. Todavia, algo curioso acontece: após nos acostumarmos à
paisagem dura, empertigada, da estética euclidiana, ganhamos um vasto mundo de
belezas, de sinuosidades.
Euclides ao escrever o seu livro
segue um rigoroso método. Formado pelo arrojo acadêmico das ciências do século
XIX, Euclides segue o determinismo taineano. Segundo o filósofo francês Hippolyte Taine,
para se fazer história, era necessário entender o homem à luz de três fatores: o
meio ambiente, a raça e o momento histórico. O método taineano foi
revolucionário. Na França, escritores como Maupassant e Zola foram impregnados
pelo seu pensamento.
Euclides da Cunha teve formação
militar. Era um engenheiro. Seu rigor científico-matemático era imensamente
aguçado. O escritor fazia parte de uma corrente de jovens intelectuais
republicanos. Um agudo observador das transformações políticas do país, mas
assentado numa sólida formação positivista. Euclides também se enveredou pelo
jornalismo. Acompanhou à distância o conflito. Havia, no Centro-Sul, uma série
de miragens sobre o que estava acontecendo no interior do país. Preconceitos.
Caricaturas. Os jornais noticiavam que o grupo de Antonio Conselheiro procurava
reinstalar a Monarquia, o que constituía uma afronta à República; às lideranças
políticas e aristocráticas que haviam destituído o imperador.
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Euclides da Cunha
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Por sua vez, no interior da
Bahia surgira o mal-arranjado arraial, liderado pela misteriosa figura de
Antônio Conselheiro, um andarilho que havia conseguido aglutinar em torno de si
uma massa de sertanejos supersticiosos e necessitados. Nascido no Ceará,
Conselheiro possuía as prerrogativas de profeta para o povo. Sua vida tinha
sido até o estabelecimento em Canudos, uma ciranda de eventos de
desencontrados. Havia exercido diversas profissões. Até que, após descobrir a
traição da sua companheira, decide começar uma marcha messiânica pelos sertões.
Peregrina pelo interior; passa por pequenas e desassistidas cidades. Prega para
as populações incultas. Procura embelezar os cemitérios. Sua mensagem estava repleta
por um messianismo escatológico. Até que se estabelece na fazenda Monte Santo,
às margens do rio Vaza-Barris, na região caatingosa do sertão baiano. Uma massa considerável segue seus enigmáticos
ensinamentos. Euclides afirma em estilo seco como lhe é tão peculiar sobre o
Conselheiro: “E surgia na Bahia o anacoreta sombrio, cabelos crescidos até os
ombros, barba inculta e longa; face escaveirada; olhar fulgurante; monstruoso,
dentro de um hábito azul de brim americano; abordoado ao clássico bastão em que
se apoia o passado tardo dos peregrinos...”
Euclides descreve a biografia de
Conselheiro na segunda parte do livro. É nessa sessão do livro que ele procura
apresentar o sertanejo. É nela que encontramos a famosa frase: “O sertanejo é,
antes de tudo, um forte”. Na segunda parte, Euclides procura levar à frente o
empreendimento taineano abordando a perspectiva de raça, aplicando os
conhecimentos da ciência da época. Segundo ele, o sertanejo estava fadado ao
desaparecimento.
Acontece que o sucesso do arraial contrariou muitos interesses. Afinal de
contas, muitos sertanejos abandonaram fazendas de coronéis mandonistas da
região para acreditar nessa nova Canaã que havia surgido no meio do inclemente
sol da região tórrida. Se não há ninguém para trabalhar, para explorar, o que
fazer? O medo infundado era disseminado. As notícias tumultuadas por uma
cortina de desencontros informativos, criavam especulações variadas tanto
local, como nacionalmente. Havia um solerte perigo naquela chusma de sertanejos
maltrapilhos. Certamente, que poderiam trazer perigo à jovem e promissora
República – era o que diziam com a finalidade de criar um factoide contra os conselheiristas.
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Vista do Arraial
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Três expedições haviam, desde o final do ano de 1896, tentado debelar de
uma vez por todas o Arraial de Canudos. De forma inexplicável, os nordestinos
resistiram bravamente. A tenacidade com
que lutavam demonstrava que os sertanejos estavam dispostos a qualquer custo defender
Canudos. Havia uma crença de que estavam lutando por algo que era sagrado. Caso
não fossem perturbados ou acossados, certamente teriam impelido suas vidas;
plantado suas roças; criado seus filhos e filhas sem nenhuma preocupação com os
destinos da vida política do país. A famosa questão do Conselheiro acerca do
casamento e das novas leis da República, eram mais uma superstição do que uma
causa militante pelos quais se tornava possível lutar.
Acontece que isso serviu de estopim para criar uma comoção nacional em
torno da questão Canudos. Após a derrota da Terceira Expedição e a morte do
generalíssimo Moreira César, o corta cabeças, famoso pela personalidade
sanguínea e a humilhação pela qual passara os soldados, foi responsável por
alargar ainda mais o preconceito da opinião pública do Centro-Sul contra os
mais de vinte mil sertanejos que formavam o tecido humano de Canudos. Os
jornais veiculavam especulações dia e noite. Disseminam preconceitos e
desinformações. O próprio Euclides enquanto estava à distância, tinha a
percepção de que aqueles rudes sertanejos precisavam aprender uma lição dada
pela República. Não era possível que beatos ignorantes comprometessem o
progresso. Como o próprio Euclides afirma: “O sertanejo defendia o lar
invadido, nada mais”.
Euclides segue para Canudos junto com a Quarta Expedição, capitaneada
pelo ardiloso general Arthur Oscar, um veterano de guerra, que fora incumbido
pelo ministro da guerra e pelo presidente da República a fim de que pusesse fim
à cidade “monstruosa”. Euclides chega à Canudos em agosto de 1897, momento em
que o conflito ganhava contornos dramáticos. Os sobreviventes do massacre
estavam esfaimados, feridos, mutilados ou mortos dentro das casas, que haviam
se tornado em jazigos de barro. O escritor ficou por pouco mais de um mês no
ambiente do conflito. Assusta saber que nesse espaço de tempo, ele tenha se
apropriado de impressões tão fundas ao ponto de derramá-las em um livro como
“Os Sertões”, que somente seria escrito cinco anos após o conflito, no interior
de São Paulo.
O cronista enviado pelo O Estado de São Paulo deixou o espaço da guerra
em 3 de outubro de 1897, dois dias antes da derrocada completa de Canudos. Ele
mesmo havia conseguido transitar pelas ruelas estreitas e mal planejadas da
cidade. Um “dédalo desesperador de becos
estreitíssimos”, foi a categórica descrição utilizada por ele após ter
caminhado em meio ao caos de destruição aos quais cidade havia sido submetida.
O escritor presenciou um quadro completamente diferente daquele que era
mostrado pelos órgãos oficiais e pela imprensa da época. Não havia
revolucionários revoltos; um exército disposto a pôr abaixo a República. Muito
pelo contrário. Euclides estava diante de velhos carcomidos pela necessidade.
Crianças feridas. Homens gastos que se equilibravam sofrivelmente, trôpegos,
espreitados pelas tropas federais e pelas aves carniceiras. Nas palavras de
Euclides: “Os feridos chegavam em estado miserando. Prolongavam pelas ruas da
cidade aquela onda repulsiva de trapos e carcaças, que vinham rolando pelas
veredas sertanejas o refluxo repugnante da campanha”.
Na visão de Euclides, a Campanha de Canudos havia mostrado uma face injusta
e covarde da chamada civilização contra os ditos incivilizados, contra os
inviabilizados. No trecho de abertura da obra ele enuncia em três reveladores
parágrafos:
“Aquela campanha lembra um refluxo para o passado.
E, foi, na significação integral da palavra, um crime.
Denunciemo-lo”.
O escritor apresenta assim, no início, a sua posição. Esclarece o que o
leitor vai encontrar pela frente no seu caudaloso e denso texto. Sim. Houve um
crime. Uma das páginas mais bárbaras da história do país. As forças Estado exterminaram
mais de 25 mil brasileiros sob a conivência da letargia de uma sociedade cega e
preconceituosa. De um país que não se conhecia e que continua a não se
conhecer.
“Os Sertões” é uma obra que possui muitos ecos. Pode ser enquadrado, por
causa de seu estilo duro e torrencial sob vários pontos de vista – estudo
historiográfico, antropológico, sociológico etc. É importante apontar que ele
possui a força de uma epopeia. Constitui, assim, a epopeia trágica que representa
as relações que o Estado Brasileiro estabelece com parcelas consideráveis de
seus pobres e desassistidos. O texto euclidiano
é um libelo contra um país violento e ignorante; um país imenso, miscigenado,
conduzido por uma das elites mais mesquinhas do mundo. Um país cujas lideranças
são subservientes aos interesses internacionais, mas que possui um apetite
voraz contra “os de baixo”. Um país que
não se entende; que não ressignifica a própria história.
“Os Sertões” é um livro obrigatório. Certamente, uma das leituras mais
importantes da minha vida.