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segunda-feira, setembro 30, 2024

Uma conversa em um grupo do WhatsApp.

 


Participo de um grupo de WhatsApp com dois outros colegas de trabalho. Debatemos questões políticas quase todos os dias. Um dos membros deles possui posições assumidamente antipetistas e antilulistas. Acabei respondendo algo assim. 

Essa notícia veiculada pelo Metrópoles é daquelas que fermentam a indignação da classe média contra o Lula. Assolado pela raiva, pela indignação, pela incapacidade de reconhecer ou assumir qualquer medida positiva do governo, resta ao indivíduo iracundo de classe média, mover turbilhões de indignação contra o presidente perdulário.

Isso me faz lembrar aquela passagem do livro “Dom Casmurro”, do Machado de Assis. Diz o narrador que, após fazer uma pergunta para um verme gordo que encontrou em um texto, obteve a seguinte resposta:

“- Meu senhor - respondeu-me um longo verme gordo - nós não sabemos absolutamente nada dos textos que roemos, nem escolhemos o que roemos, nem amamos ou detestamos o que roemos; nós roemos”.

Esse texto é uma metáfora da disposição que existe contra o Lula. Não se tem absolutamente noção sobre os fundamentos do mundo real. O que existe é apenas a raiva, a indisposição contra o governo. Apenas se odeia. Caso esse tipo de notícia ocorresse com outro nome, não haveria problemas. O problema é que é o Lula. Um presidente nordestino, operário, sindicalista, de origem popular. Sua imagem está sempre associada ao “não pode”, ao “não deveria”. Ou será que, em um Palácio Presidencial, deveriam apenas servir costela ou acém; ou apenas moela de frango? Ou que não há cozinheiros versados nas magias da culinária refinada em uma cozinha de Palácio Presidencial?

São apenas sensaborias argumentativas o que nos sugere essa notícia. Serve apenas para gerar ódio seletivo. Pensa o indignado indivíduo de classe média, assentado sobre a raiva, que se coisas como essas forem abolidas, o mundo será um local mais justo e, como diz o livro de Gênesis, “o espírito de deus vai pairar sobre a face do abismo”.

Meu caro #####, sei que você discorda de tudo que escrevi. Mas é o que penso. Pode dizer que incorri em um “ad hominem”.

segunda-feira, julho 10, 2023

"Antes do Baile Verde" - algumas breves palavras

 


                Terminei a leitura do livro de contos “Antes do baile verde”, da escritora paulista Lygia Fagundes Telles. Desde que terminei o livro, fui acometido por um grande interesse por outros textos lygianos. Esse desejo é uma forte reverência resultante do contato com a literatura sob medida da autora de “As meninas”.

                Lygia, morta no início do ano de 2022, aos 103 anos de idade, é uma das autoras mais singulares das letras brasileiras do século XX. E, por extensão, pode-se afirmar que também o é da grande literatura do século XX. Seu texto primoroso é feito sob medida. Não há desperdícios. As palavras estão amarradas, urdidas, alinhavadas em feixes de ideias. Em sua escrita, não existem sobras. Tudo é por demais preciso e singelo. A impressão transmitida pela sua escrita é a de que ela sentou à mesa e, em trinta minutos, escreveu - sem qualquer transpiração – aquilo que lemos. Lygia é a elegância. A exuberância.

                Nascida na capital paulista, sua vida representou a quebra de padrões.  Ainda muito jovem – e de beleza física invulgar – ingressou na tradicional Faculdade de Direito do Largo do São Francisco. Dos quase trezentos aprovados no ano em que passou no processo seletivo, apenas seis destemidas mulheres contrastavam a paisagem no rígido ambiente dominado por homens. Em alguns momentos, havia o questionamento por parte de alguns machos, explicitando o que a maioria pensava: “O que vocês estão fazendo aqui?” Tudo parecia ser feito para que as mulheres permanecessem estáticas em espaços de inamovibilidade e invisibilidade. Lygia quebrou esses padrões sendo, por exemplo, casada por duas vezes, passando em concurso público (que lhe deu liberdade econômica) e publicou livros.

                Ainda muito jovem, começou a escrever contos. Orientada por um julgamento implacável, afirmaria mais tarde de que se tratava de textos juvenis, inexperientes, apoucados, que não deveriam distrair o leitor. Para ela, a relação autor/leitor deve ser de respeito, reverência. Antônio Cândido disse algo definitivo a respeito da obra de Lygia. Em sua concepção, a guinada que a levou ao amadurecimento, deslocando-a para a galáxia dos grandes escritores se deu com o lançamento do romance “Ciranda de Pedra”. Os nomes escolhidos para nomear os seus textos também constituem um nível de perfeição – “A estrutura da bolha de sabão”, “As horas nuas”, Seminário dos ratos”, “A disciplina do amor”, “Antes do baile verde”. Os nomes são sinestésicos, esteticamente delicados, capazes de revirarem a imaginação.

                “Antes do baile verde” é uma das obras mais importantes da escritora. Lançado em 1970, o livro reúne 18 preciosos contos, escritos em um período de vinte anos (1949-1969). Alguns desses contos estão entre os escritos mais conhecidos da autora. É caso, por exemplo, do conto que inspirou o livro “Venha ver o por-do-sol”; vale ainda a menção de “Natal na barca” e o “Jardim selvagem”. São criações literárias que transcendem a condição do indivíduo numa sociedade, permeado por eventos psíquicos, a maior parte deles inconscientes, que os conduzem a situações inopinadas, extremas. O texto lygiano capta as fagulhas, os lances indecisos, indivisos, incongruentes; os gestos misteriosos, contidos a priori, mas que acabam se tornando em epifania.

                Lygia sabe explorar os vãos onde estão as emoções das personagens. Ela não faz insinuações grandiloquentes. Sua habilidade se fixa na exploração dos pequenos gestos; para insinuações comedidas. Como afirma o professor Antonio Dimas, Lygia é uma escritora com hábitos felinos. Seus passos são moderados, cautelosos, medidos. Ela acumula detalhes de uma maneira quase imperceptível. Cria camadas de fatos, de contradições, silêncios, medos. Põe tudo diante do leitor e encerra o conto. Como um felino, ela deixa a sua marca com unhas retráteis em nossa imaginação. Uma fisgada breve, leve, mas que nos faz sentir.

Carlos Drummond e Lygia Fagundes - um galáxia de literatura
                Dois dos seus contos mais brilhantes são “O menino” e “Venha ver o pôr-do-sol”.  Os dois possuem os fechos mais surpreendentes e geniais da literatura do século XX. Tudo parece muito singelo, mas estão repletos de crueldade, de desumanidade. De um lado, um ex-namorado abandonado por uma moça de valores fúteis. Ele procura atraí-la para um jazigo. A influência do texto de Edgar Allan Poe é incontestável. Há uma ironia macabra no convite: ver de um cemitério abandonado, o mais lindo pôr-do-sol. “Ficou atento. Nenhum ouvido humano escutaria agora qualquer chamado. Acendeu o cigarro e foi descendo a ladeira. Crianças ao longe brincavam de roda”. Os períodos são curtos. As ações indicam a concretização de um cálculo. Há um movimento, uma ação consciente, um desfecho planejado. A vingança. A retaliação. A desforra. Lygia encerra o conto e abandona o leitor com um fato intrigante e, aparentemente, insolúvel, angustiante. A solidão não é só da personagem. É do leitor também, que se vê recluso por um dilema. O que acontecerá com a mulher dentro daquele jazigo abandonado? As crianças que brincam à distância escutarão os brados agônicos de Raquel? O desejo é de correr até aquele lusco-fusco e arrancá-la daquele espaço lúgubre e, potencialmente, assombrado.

                No conto “O menino”, Lygia faz sucumbir os sonhos mais inocentes de uma criança. A masculinidade juvenil, permeada por emoções edipianas, vai ao chão. É cruel assistir a tudo isso. A sua tentativa de ser mais maduro do que é: “Pô! Homem não usa perfume! ” Para ele, sua mãe é a perfeição. Ele a exibe. Ela é um patrimônio. Seu orgulho. Deseja que os colegas a vejam. Invejem-no. Todavia, a cena que constatou no cinema, foi o suficiente para terminar com as suas fantasias. A volta para casa é a inversão dos sentimentos da ida – “Saiu crianças e voltou homem”.

                Ao encontrar o pai, fica evidente a tristeza. O menino olha-o, na sala, lendo o jornal. “O menino encara-o demoradamente. Aquele era o pai. O pai. Os cabelos grisalhos. Os óculos pesados. O rosto feio e bom”.

                - “Pai... – murmurou, aproximando-se. E repetiu num fio de voz: - Pai...”

                - “Mas, meu filho, que aconteceu? Vamos, diga!”

                - “Nada. Nada”.

                Fechou os olhos para prender as lágrimas. Envolveu o pai num apertado abraço!

                A atitude do narrador é excessivamente fria. Como dito anteriormente, tudo parece frágil, mas está eivado pela própria cruel da própria vida. O mundo não possui as tinturas da alegria da fantasia apenas. Há o lado insuportável da maldade, da feiura.  Até mesmo a heroína, a agente que constitui o modelo mais alto de perfeição para uma criança – sua mãe – pode ser canalha. Atroz. Inclemente. Hedionda.

                Quando se ouve a fala da escritora nas entrevistas que dava, notamos sempre o tom de entusiasmo. Todavia, mesmo com toda essa leveza, com a fala carregada por cintilações de bom-humor, seus textos são rios subterrâneos com o potencial de provocar inundações. Afinal, a vida, no fundo, deve ser isso: uma paisagem ensolarada, com um rio plácido, que pode mudar as características a depender dos humores do tempo.

 

segunda-feira, maio 15, 2023

Uma resposta a partir de uma questão suscitada no WhatsApp


São boas as perguntas. Eu entendo a sua preocupação. Mas, não seria importante analisar o conteúdo daquilo que está sendo julgado?

Você acha que as decisões do Alexandre são meros caprichos jurídicos?

Não acredito que o Randolfe esteja sendo privilegiado pelas decisões do STF. Falar em ditadura do STF é bastante forte. É a retórica usada pelos bolsonaristas. Estamos a falar da instância máxima de decisões jurídicas do país. Com exceção do Kássio Nunes e do André Mendonça, penso que os demais ministros estejam à altura da Corte. Eu acredito que a culpa do STF foi ter se omitido em anos anteriores, quando permitiu que absurdos continuassem a ser praticados. Um exemplo foi a conivência com a existência da lava-jato e o acovardamento diante das notas golpistas de alguns milicos de pijama.

Mais uma vez: o PL é necessário. Condená-lo na integralidade é um erro. O PL não é do Governo atual. Ele está sendo debatido desde 2020; o PL não concede poderes de censura ao Governo. Ele “moraliza” o uso e a forma como as plataformas disseminam informações.

Outra questão importante: um amplo espectro da vida social é regulado por normas. Por exemplo, existem regras de como você deve negociar; regras para construir a sua casa; até que ponto o seu muro deve avançar na calçada; regras de como se deve comercializar alimentos. A forma como você conduzir o seu veículo. Ora, por que não deve haver regras para organizar o uso de um espaço tão imponderável como as redes sociais?

Semana passada, a Revista Piauí fez uma reportagem bastante interessante sobre o número de brasileiros conectados à internet. Os números são avassaladores. Atualmente, 84% dos brasileiros têm acesso à internet (181,9 milhões). Em 2013, eram 102 milhões.  O crescimento em uma década foi de 78%. A quantidade de brasileiros com internet, mas sem saneamento básico equivale à população do Equador. Ou seja, o total chega a 18 milhões de pessoas. Segundo a reportagem, esse valor é duas vezes a população da Áustria.

Dentre os brasileiros conectados, mais de 9 milhões recebem salário inferior a 550 reais e 1,27 milhões não têm acesso à água potável. Os brasileiros gastam tanto tempo na internet quanto ingleses e japoneses somados. Em 2022, um brasileiro médio passou 9 horas e 32 minutos na internet por dia. O brasileiro passa o dobro de horas que um americano no Instagram. Em média, o brasileiro gasta, por mês, 15 horas e 54 minutos. É uma das médias mais altas do mundo. Só perde para os filipinos. São 954 minutos. Lendo uma página por minuto, seria possível ler um livro de 954 páginas em um mês. Seguindo essa matemática, seria possível ler o "Ulisses", de James Joyce ou "O homem sem qualidades", do Robert Musil. No Yutube são 22 horas. No Facebook, 12 horas; no Twiter, 12 horas e 48 minutos.

O caso do WhatApp impressiona. Por mês, os brasileiros ficam 28 horas e 36 minutos. Daria para ler "Guerra e Paz", do Tolstoi (risos). Os franceses ficam em média 5 horas e 30; os australianos, 5 horas e 36; os estadunidenses, 7 horas e 24; os canadenses, 7 horas e 36.

Esses dados comprovam a necessidade de que haja uma legislação para impedir abusos. As crianças, adolescentes e jovens são os alvos preferenciais dessas plataformas. Além disso, existem outras com um potencial de demolição muito maior. No Brasil, não resolvemos os dramáticos gargalos da educação básica, mas quase que conseguimos que a integralidade da população tenha acesso à internet. São as contradições que nos assolam. 

terça-feira, abril 18, 2023

"Latim em pó", de Caetano W. Galindo

 

Terminei o excelente “Latim em pó”, muito bem escrito pelo professor, tradutor, pesquisador, doutor em linguística Caetano W. Galindo. Recordei minhas aulas de linguística e sociolinguística do período em que fiz o curso de letras. Existem muitos livros sobre esse tema escritos por aí. O próprio autor reconhece. Mas, o que o torna especial? Vale mencionar que é um livro cuja maior importância é divulgar o que há de atual em matéria de pesquisa em torno da formação da língua portuguesa falada no Brasil. Outra importante contribuição diz respeito à divulgação de um material com essa relevante temática. Existem mitos diversificados em torno da nossa língua: o primeiro deles é que é uma língua difícil; que é uma língua originada em Portugal. Simplificar dessa forma não explica o fenômeno. Não. Aqui, como expressa Caetano Veloso – lembrado no título do livro – temos uma versão muito diferente daquele idioma surgido na Europa; aqui, nós temos um “latim em pó”.

            A língua portuguesa é a sexta língua mais falada do mundo. O Brasil em especial contribui significativamente para engrossar esse percentual. Existem quase 300 milhões de falantes da língua originada em Portugal. No Brasil, são mais de 220 milhões. Como qualquer língua, o português falado no Brasil possui algumas características. Olavo Bilac, que cunhou a tão famosa expressão “flor do Lácio” para indicar o local de surgimento da língua oficial do Império Romano, deve ser considerado. O português, assim como as demais línguas românicas, foi originado do latim. Todavia, somente esse dado não explica as atuais características do português.

            Houve um momento em que a língua portuguesa não existia. Os primeiros indícios do seu nascimento se deram nos séculos XI e XII. A presença árabe na península Ibérica foi determinante para que a língua também ganhasse características bem próprias.

            Quando os portugueses vieram diretamente para cá, em 1500, o português não foi introduzido de maneira automática como se pensa. O contato com as populações que estavam aqui, seguida pelo comércio de escravos permitiu que surgisse a chamada “língua-geral”. Galindo afirma algo importante sobre o processo de evolução de uma língua: “... o nome dado a uma língua é de certa forma o nome de uma fase histórica de determinado idioma em determinado local”. Nossa língua, por causa de inúmeras absorções, tornou-se muito diferente da variante falada em Portugal.

            O primeiro grande fenômeno linguístico brasileiro foi a chamada “língua-geral”. Em um país em que o tupi era o tronco linguístico predominante, o encontro de diversas línguas promoveu o surgimento de uma língua que, inicialmente, teve uma grande profusão na Colônia. Os jesuítas sistematizaram a língua-geral. Foi amplamente usada para a comunicação com os indígenas.

            A língua-geral, nos séculos XVII e XVIII, possuía mais falantes do que a língua portuguesa. Esta era usada pela burocracia da colônia. Mas, as populações analfabetas e marginalizadas não usavam o idioma da Metrópole. Da língua-geral, surgiu o nheengatu, usado no Nordeste e Norte do país. O nheengatu ainda é falado por populações do extremo da Amazônia. A língua-geral, hoje, é uma língua morta. Perdeu o seu uso, mas deixou marcas na língua portuguesa. Muitos topônimos usados amplamente em nossos dias – Paraná, Amapá, Aricanduva etc – foram assimiladas a partir da língua geral.

            Além da influência indígena, há ainda a presença dos dialetos africanos. Um país estruturado na escravidão de homens e mulheres africanos, certamente recepcionaria inúmeras palavras, expressões, maneirismos linguísticos originados dessas populações. Galindo fala do dominado que conseguiu inserir aspectos de sua cultura sobre o dominador. Sendo assim, no caso brasileiro, não há que se falar em português, mas em “pretoguês”. A versão do português falado por aqui não é mais – apenas – “a flor do Lácio”; o português brasileiro é um “broto africano”, que rebentou fecundamente por aqui. A nossa língua fala da nossa história. Das nossas marcas; dos nossos dilemas; da nossa maneira de ser. Língua é história; é identidade.  


quarta-feira, abril 12, 2023

De um comentário político a um colega

 


Não existem governos perfeitos e invulneráveis - ainda mais quando se trata do Brasil. Quando se fala de um governo, penso que a análise deve ser da "forma" e do "conteúdo".  É importante lembrar o que foi o ano de 2013 e o estrago que a Lava Jato provocou na política nos últimos anos. Observe como passamos a lidar com a política. Note que desde o golpe contra a Dilma, os governos foram ruins na forma e no conteúdo. Com relação ao governo Lula 3, há algumas aberrações na forma, mas há coisas necessárias no conteúdo. Quiçá você não concorde com o meu argumento, entretanto não existia outro nome e outro projeto que pudesse desfazer o esfacelamento pelo qual o Brasil passou nos últimos quatros anos.

O radicalismo é uma doença infantil. É importante não medir o atual governo por causa da práxis de alguns radicais. O governo possui boas intenções. Há um quadro com importantes e respeitáveis nomes. Se há erros, é da competência do próprio governo resolver essas pendências. Há um Congresso adverso e imoral. O compromisso do Centrão não é com o Brasil.

No Brasil, existe uma mídia canina, ciosa dos interesses do mercado. No fundo, essa midialona gostaria que o Bolsonaro tivesse vencido o pleito eleitoral do ano passado, pois a lógica segundo eles é: eu não importo com a "forma" - se ele é um não democrata; se ele é limitado, misógino, anti-indigenista, preconceituoso -; o importante é saber se o conteúdo nos privilegia - se continuaremos lucrando; para esses arrivistas, pouco importa se haverá desmantelamento do estado, das leis trabalhistas; se o povo vai ficar mais pobre; se vai comer ou não comer. Em um país como o Brasil, escravocrata e violento por natureza, um governo que carrega o emblema "de popular" não será bem aceito.

Há uma entrevista do Lira Neto no Foro de Teresina que reflete a grandeza e as contradições de Lula. A entrevista procura fazer aproximações entre Lula e Getúlio; e como cada um lidou com as crises políticas que enfrentaram. Não existem nomes mais densos, sagazes e com uma visão política tão ampla na política brasileira quanto os dois. Lula é um estrategista. Confesso que ele começou bem esses quase três meses de governo. Não teria como ser diferente com um Congresso como o que temos e com uma conjuntura tão adversa como a que se mostra.

Penso que a tarefa histórica do Lula 3 é resgatar a política do possível. Lula só venceu a eleição por causa da astúcia política que possui. Esquece-se de que a frente montada por Lula é resultado de uma conciliação política. O objetivo era derrubar a caquistocracia erguida por Bolsonaro e sua trupe. É preciso ter um pouco de paciência. Lidamos, nos últimos quatro anos, como diria Joseph Conrad em “O coração das trevas” com “o horror”.

Impressiona como, no presente, utilizam o udenismo para fazer crítica. É aquela velha fantasmagoria de um moralismo montado contra a corrupção. Às vezes, esses mesmos atores se munem de um discurso que, no fundo, carrega a anomalia queixosa e hipócrita montada por Carlos Lacerda. Note que a beligerância estruturada contra o governo repete os mesmos elementos do passado. Trata-se de uma recorrência trazendo à tona um moralismo requentado, colocando em disputada ‘Estado versus mercado’; ‘capitalismo versus comunismo’; ‘valores cristãos versus imoralidade de esquerda’. Há sempre um maniqueísmo em jogo; uma prática baseada no cancelamento. E, no fundo, essa gente é saudosa da Ditadura, da escravidão, da violência institucional; do desmatamento das políticas públicas; da posse do latifúndio; do mandonismo; da não-democracia.

E, com isso, condena-se um projeto de governo que é amplamente desenvolvimentista e nacionalista. Lula é um dos presidentes mais capitalistas que já governaram o Brasil.  Lira Neto diz que Getúlio costumava questionar: “Por que esses caras não me dão paz? Será que esses tubarões do capital não percebem que eu quero salvar o capital pra eles?”. Penso que o Lula faça os mesmos questionamentos.

Lula não é um disruptivo. É um conciliador. Penso que temos mais a ganhar com ele do que sem ele.


segunda-feira, março 20, 2023

"Caminhos Cruzados", de Erico Veríssimo

 


                A década de 30 do século XX foi uma das mais ricas para a literatura brasileira. Viveu-se o que se convencionou chamar de Segunda Geração Modernista (1930-1945). A literatura produzida por aqui desenvolveu o seu engajamento. Liberdade para criar e reconhecer as contradições brasileiras ganharam forma. Tanto a poesia quanto a prosa assumiram uma posição de denúncia. Há nomes importantes na poesia – Carlos Drummond de Andrade, Cecília Meireles, Jorge de Lima, Murilo Mendes. Na prosa, também se observa a força, a pujança das narrativas, uma preocupação com a crítica à condição do homem numa sociedade repleta de duros antagonismos.

                No Nordeste, há nomes que impressionam pelo aspecto prolífico da produção. As questões regionais passaram a ganhar visibilidade. A seca, as desigualdades, o jogo político que fazia com o poder pertencesse a certas famílias – as velhas oligarquias, fruto da formação social e econômica do país -, são expostos por Graciliano Ramos, José Lins do Rego, Jorge Amado, Amando Fontes, entre outros.

                Pode-se observar ainda um movimento que tende a revelar os dramas do homem urbano. Os escritores apontavam as lutas do homem da cidade. Suas dissonâncias. Seu mal-estar psicológico. A urbe capitalista é o espaço em que o ser humano encontra-se exposto às ambivalências; à solidão; ao aparente; à angustia. Os gestos não definem um ensaio de definição.

                Erico Veríssimo foi certamente um mestre nesse sentido. “Caminhos cruzados” foi o seu segundo romance, escrito no ano de 1935. Veríssimo à sua maneira, com uma prosa ágil, despojada, dedica atenção aos homens e mulheres da Porto Alegre da primeira metade do século XX. Erico descreve com inconformismo a realidade das vidas humanas embrutecidas ou vulnerabilizadas pela luta no palco social. Ninguém está livre da crise. Seu texto é imensamente humano.

Erico Veríssimo. 

                A paisagem urbana esconde os dilemas. O romance possui vários nichos narrativos, que funcionam como uma novela. Cada capítulo dedica-se a uma personagem. Vamos conhecendo um a um; solidarizamo-nos com um; tomamos aversão a outros. O autor parece apresentar um prédio para alguém que passa pela rua. Ele aponta o seu dedo e vai descrevendo as histórias que povoam cada apartamento. Em alguns deles, notam-se a exuberância, o luxo, a vaidade. Em outros, a singeleza, a humildade, o despojamento. Como diz Antonio Cândido, é como se o escritor dividisse as personagens em dois grupos: o grupo “A”, formado pelos ricos; e o grupo “B”, formado eminentemente pelos pobres.

                Veríssimo denuncia as desigualdades sociais e a indiferença. Em um período sensível da história nacional, que estava na iminência do golpe de Estado de Vargas, não faltou quem visse intenções revolucionárias na pena do escritor.

                O gaúcho, também autor de “Incidente em Antares”, utiliza a técnica do contraponto, segundo ele, apropriada da obra do inglês Aldous Huxley. É curioso perceber como essas personagens diversas e contrastantes se aproximam e se cruzam pela urdidura da vida social. É nesse ponto, que Veríssimo realiza o movimento primoroso do acerto, pois, ao estabelecer essas conexões, ele captura a imagem de uma sociedade inteira.

                O romance gerou escândalos e protestos. Os conservadores ciosos dos valores da família, enxergaram imoralidades. Moacyr Scliar afirma que, quando adolescente, a leitura do livro era terminantemente proibida. Despertou também furor político, pois a obra foi acusada de disseminar o comunismo. Sim. Essa palavra tão incompreendida; tão onipresente no imaginário da classe média brasileira; essa palavra cujo conceito é desconhecido por muitos. 

                 Ao lermos o romance, não notamos nada disso. Observa-se que Erico é habilidoso em realizar uma crítica firme contra um país que invizibiliza parte de sua população. Se Erico suscitou debates, é pelo fato de sua obra está entretecida pelos limites impostos pelo mundo material. As personagens do livro são motivadas pelo sonho, pela esperança, mas têm suas intenções estilhaçadas pelo mundo real. Nada mais atual que isso. E nesse sentido, este romance do autor gaúcho ainda continua dizendo muito.


segunda-feira, fevereiro 13, 2023

O "homo bolsonaricus" e um comentário do professor Luis Felipe Miguel


Semana passada, li um excelente comentário do professor Luis Felipe Miguel em sua página do Facebook sobre o pendor para a perversão de Jair Bolsonaro. O mestre da Univerdade de Brasília apontava para os aspectos atrozes mais que conhecidos do bolsonarismo e do seu líder. O fator Bolsonaro tem feito cientistas políticos, sociólogos, psicólogos - e todos aqueles que desejem entender o que aconteceu com a sociedade brasileira – estudarem o que leva pessoas comuns – pais de família, pessoas comuns e outros nacos sociais graúdos - a se vincularem a um movimento – aquilo que se convencionou chamar de bolsonarismo - que possui um pacote ético declaradamente nocivo à humanidade e ao Planeta. 

Bolsonaro é daquelas pessoas que possui uma força de atração para piorar o seu semelhante. Não há virtudes; apenas o impulso para a delinquência. Que o sujeito que ocupou presidência do país por quatro anos seja assim, não é de se assustar. Ao longo da história, já houve inúmeros indivíduos cuja mesquinhez e a orientação para maldade eram visíveis. O que estarrece, na verdade, é a força de atração que esses sujeitos possuem. Como alguém em sã consciência pode ser arrastado para seguir as pautas tóxicas de um movimento que visa piorar a sociedade em que se vive? Bolsonaro e o bolsonarismo são indefensáveis. Ao se propor tal reflexão, não estamos aqui realizando a defesa deste ou daquele candidato. O que está em jogo é a orientação para maldade de um sujeito que sempre se utilizou de uma retórica favorável ao ódio e à morte.

Após quatro anos de um dos piores governos da história, Bolsonaro quase foi reeleito com 58 milhões de votos. Esse número espanta. Assusta saber que a população brasileira deu mais votos a eles do que ele teve em sua eleição em 2018. Curiosamente, todas as pessoas que se aproximam de Bolsonaro – ou do bolsonarismo – tornaram-se pessoas mais intolerantes e obtusas. Penso que o bolsonarismo já existia antes de Bolsonaro. O que se chama de “bolsonarismo” hoje é o resultado de um miasma pútrido do cadáver da violência e da intolerância de nossa história. O Brasil é um país que nunca privilegiou os direitos humanos. Nunca houve uma defesa das minorias e dos marginalizados. O Estado brasileiro e suas instituições sempre foram violentos. Some-se a isso a má formação educacional. A ignorância histórica e os níveis baixíssimos de cultura geral. O “homo bolsonaricus” é o resultado dessa fórmula terrível.

Segue o comentário do professor Luis Felipe Miguel:

Leio na imprensa que não foram só as carpas. Bolsonaro também matou as emas, dando a elas alimentação inadequada.

É impossível não pensar em Bolsonaro como uma encarnação do mal. Todos os seus afetos são egoístas e destrutivos. É incapaz de empatia, não há registro de um único gesto de solidariedade. Por onde passa, deixa um rastro de devastação.

Alguém que debocha das pessoas que ele mesmo está deixando morrer por falta de oxigênio. Basta isso para descrevê-lo.

Os filósofos discutem se o mal existe. Bolsonaro é um forte argumento a favor.

E o que dizer de dezenas de milhões de pessoas que o viram tal como ele é, porque ele nunca disfarçou (ou então disfarçava sem qualquer empenho), e votaram nele?

Gente que vê um vilão de desenho animado e pensa: “Opa, esse pode ser nosso presidente!”

Sim, o processo de formação das preferências políticas é complexo, ainda mais num ambiente tão saturado de desinformação e de manipulação. Mas não tem antipetismo ou teoria da conspiração que justifique a opção por algo tão aberrante.

Penso que Bolsonaro apela para o que há de ruim em todos nós. Como se demonstrasse que é possível nos livrarmos do fardo do respeito pelo outro, da compaixão, da reciprocidade, da generosidade, para chafurdar no egoísmo mais descarado e mais mesquinho.

É isso é tão atraente para tanta gente, desperta tanta identidade, que estão dispostos a entronizar alguém que represente esse ideal.

Cada voto em Bolsonaro, cada apoio que ele mantém, é um tapa na cara da nossa fé na humanidade.

Leio na imprensa que não foram só as carpas. Bolsonaro também matou as emas, dando a elas alimentação inadequada.

É impossível não pensar em Bolsonaro como uma encarnação do mal. Todos os seus afetos são egoístas e destrutivos. É incapaz de empatia, não há registro de um único gesto de solidariedade. Por onde passa, deixa um rastro de devastação.

Alguém que debocha das pessoas que ele mesmo está deixando morrer por falta de oxigênio. Basta isso para descrevê-lo.

Os filósofos discutem se o mal existe. Bolsonaro é um forte argumento a favor.

E o que dizer de dezenas de milhões de pessoas que o viram tal como ele é, porque ele nunca disfarçou (ou então disfarçava sem qualquer empenho), e votaram nele?

Gente que vê um vilão de desenho animado e pensa: “Opa, esse pode ser nosso presidente!”

Sim, o processo de formação das preferências políticas é complexo, ainda mais num ambiente tão saturado de desinformação e de manipulação. Mas não tem antipetismo ou teoria da conspiração que justifique a opção por algo tão aberrante.

Penso que Bolsonaro apela para o que há de ruim em todos nós. Como se demonstrasse que é possível nos livrarmos do fardo do respeito pelo outro, da compaixão, da reciprocidade, da generosidade, para chafurdar no egoísmo mais descarado e mais mesquinho.

É isso é tão atraente para tanta gente, desperta tanta identidade, que estão dispostos a entronizar alguém que represente esse ideal.

Cada voto em Bolsonaro, cada apoio que ele mantém, é um tapa na cara da nossa fé na humanidade.

 

segunda-feira, dezembro 12, 2022

"Capitães de Areia": algumas palavras

            

Jorge Amado é um dos escritores brasileiros que menos li e que mais eu preciso ler. Com este livro sobre o qual escrevo, é a terceira leitura. Sua vasta obra, repleta de paisagens diversas é um importante afresco sobre uma dimensão do Brasil a partir da Bahia. A ideia daqui para frente é visitar uma obra por ano do autor de “Cacau”, “Mar Morto”, “Suor”, entre tantas outras obras que criaram uma espécie de deslumbrante painel sobre o fascinante povo baiano.

O livro da vez foi “Capitães de Areia”, de 1937. Trata-se de um romance, cujo narrador onisciente nos apresenta um grupo de garotos desamparados. Moradores de um trapiche, próximo a uma praia, o bando sobrevive afoitamente, cometendo pequenos furtos e desafiando as autoridades da capital baiana.

O grupo é chefiado por Pedro Bala, um órfão que lidera o grupo formado por uma dezena de meninos abandonados – há um leitor, um malandro que conquista prostitutas; há o beato, o desejoso pelo cangaço; um coxo, alma mais amarga e vingativa do grupo. Na parte dois da obra, aparece a figura de Dora, uma menina órfã de mãe, que fora vitimada pela bexiga. Inicialmente, há uma hostilidade contra ela, mas, depois, ela passa a ser benquista pelo bando. A adolescente passa a exercer o papel arquetípico da mãe que eles não possuem. Ela é o lado terno, feminino, capaz de mudar o ambiente. Dora inicia um romance com o chefe do grupo, consolidando um relacionamento entre aquele que chefiava os garotos – e a única mulher da comunidade –, um tipo de mãe.

Cena do filme "Capitães de Areia", de Cecília Amado

A obra faz parte da chamada 2ª geração modernista. Está inscrita no romance de 30. Reverbera nela uma forte crítica social. Vale mencionar que o chamado Romance de 30, mobilizou escritores para refletir a respeito de um país que passava por enormes mudanças. Logo após o fim da República Velha (1889-1930), o país inicia um outro período com mudanças políticas, econômicas e sociais. O outrora país agrário e refém das oligarquias regionais – vale mencionar os casos de São Paulo e Minas Gerais que, durante a Primeira República, revezavam-se na escolha dos presidentes do país, naquilo que ficou conhecido como a República do Café com Leite – começa a se industrializar. Novos atores políticos
emergem. O eixo do poder se consolida no Centro-Sul. Getúlio Vargas passará a ser o principal nome da política nacional nos próximos vinte anos.

Mesmo em face dessas transformações, nota-se o quanto o Brasil continuava atrasado em relação às grandes economias capitalistas. Jorge Amado, um baiano, filho de uma tradicional família do estado, entra no debate político, que demonstra de forma realista as chagas sociais de um país que precisa superar os seus problemas; iniciar um novo ciclo; superar os antagonismos.

Amado é o primeiro escritor a dar visibilidade ao papel de jovens adolescentes malandros. Havia um consenso que buscava enquadrar esses jovens como bandidos e marginais desocupados. Isso fica provado em dois momentos do romance: (1) na reportagem que surge no início da obra, trazendo as escusas do diretor do reformatório, defendendo-se das acusações de maus-tratos contra jovens institucionalizados; (2) quando Pedro Bala é apreendido e experimenta a tortura na própria pele numa instituição para menores.

Nota-se, assim, o olhar benevolente e generoso de Amado para a condição desses jovens. Sua tese era a de que garotos eram obrigados a praticar pequenas infrações pelo fato de não possuírem uma estrutura familiar favorável e o Estado não assumir o seu devido papel ante tão grande calamidade. Durante o Estado Novo, período conhecido como a Ditadura de Vargas (1937-1946), mais de 800 exemplares da obra foram queimados em praça pública. Observa-se que a mensagem da obra atingiu em cheio o poder oficial. Aqueles que controlavam o Estado entenderam a poderosa crítica escrita por Jorge Amado.

Jorge Amado


O escritor procura humanizar os garotos desumanizados por suas histórias de vida. Um exemplo é a personagem Sem-Perna. Após ter se inserido em uma família com o objetivo determinado de roubar, fica balançado entre a opção de cumprir as demandas do grupo e ceder aos afetos recebidos pela família que o acolheu. Nota-se, assim, que a principal carência dos meninos era de aceitação e afeto. Para que aquele bando de malandros juvenis pudesse abandonar aquele ciclo de contravenções, era necessário que tivessem algumas de suas carências preenchidas. Apesar da brutalização, da vida clandestina, há a clara tese de que o afeto, a necessidade de um lar, de uma vida segura e com as necessidades primárias atendidas, é um imperativo para todas as pessoas.

O livro possui uma mensagem atemporal. Passados mais de 80 anos da escrita, o país avançou em algumas questões, mas não entendeu a necessidade de proteger integralmente os direitos de crianças e adolescentes. Ainda vigora uma noção punitivista a respeito dos jovens que cometem ilícitos; uma defesa intransigente por certa porção da população brasileira que desconhece a realidade de milhões de brasileiros e brasileiras pobres que vivem nas periferias do país. O combate que evita o cometimento desses atos não é a repressão, mas a existência de políticas públicas que garantam os direitos sociais às famílias mais pobres. Certamente, foi essa a mensagem que atravessa o tempo deixada por Jorge Amado.

segunda-feira, outubro 31, 2022

Jair, o homem pequeno


Segundo reportagem da Folha de São Paulo, Jair Bolsonaro foi dormir cedo após saber que havia sido derrotado nas urnas. As luzes do Palácio da Alvorada apagaram por volta das 22h06. Uma clara metáfora de um dos governos mais ineptos da história da República. Assessores e membros do Governo tentaram dialogar com o presidente. A imprensa queria ouvir as suas palavras. Um único pronunciamento que fosse de reconhecimento da vitória de Lula. Todavia, “o imbrochável” não demonstrou grandeza nem quando perdeu. Esquivou-se em um aceno de orgulho e covardia.

A reportagem da Folha ainda afirma que ele esteve a maior parte do dia com o filho mais velho, o senador Flávio Bolsonaro, implicado no esquema das rachadinhas. Como deve ter estado o seu humor? Como terá falado com a Michelle? Diz um dos capítulos da história que Nero, após ter ateado fogo em Roma, ficou do alto do seu palácio tangendo uma harpa, enquanto a cidade pegava fogo. Após o episódio, dirigiu a culpa do evento aos cristãos. Bolsonaro ateou fogo no Brasil nos últimos quatro anos (outra metáfora) e, à semelhança de Nero, não se responsabilizou. A diferença entre os dois é que Bolsonaro nem para tanger harpas possui talento. É medíocre. É pequeno. A única habilidade da qual é detentor é a da ignomínia.

Muita gente sofreu nos últimos quatro anos. Se ele não foi responsável direto pela pandemia, deve ser imputada a ele a negligência e o desdém com que a tratou. 400 mil vidas poderiam ter sido salvas. Famílias sofreram seus dramas. Como no episódio bíblico dos hebreus no Egito, o anjo da morte visitou milhares de lares brasileiros. A vacina era “o sangue” que deveria nos proteger. Ele não o fez. Retardou o quanto pôde a aquisição. Como o faraó do texto bíblico, riu, escarneceu. Imitou as pessoas que morriam sem ar. À semelhança dos mágicos que buscavam imitar o que estava acontecendo no Egito por meio de ilusionismos para impressionar o faraó, alguns médicos desonestos indicaram remédio sem nenhuma comprovação científica.

Mesmo com alguns desses absurdos, recebeu mais de 50 milhões de votos. Algo que impressiona. Quando votaram em Bolsonaro, em quê essas pessoas estavam votando? Qual a mensagem que fica, mesmo tendo experimentado o que experimentaram nos últimos quatro anos?

Recolheu-se no Palácio. Apagou as luzes o homem pequeno. Talvez, tenha ficado em posição fetal. Talvez, nem tenha conseguido dormir. Como estava o seu humor? Como uma criança mimada, talvez tenha ficado emburrado. Tenha se enchido de melindres. Culpado os outros. E, certamente, não reconhecerá os próprios erros. Não fará uma “mea culpa”. Afinal, o que se faz quando não se sabe tanger uma harpa?

segunda-feira, outubro 03, 2022

A vitória do bolsonarismo e a derrota do Brasil

 

            As eleições de 2022 evidenciaram que o bolsonarismo é um fenômeno consolidado na sociedade brasileira. Milhões de brasileiros decidiram dobrar a aposta e garantir ao atual governo a possibilidade de mais quatro anos de mandato. É simplesmente assustador. Não me refiro apenas à eleição presidencial. O que aconteceu nos estados – principalmente nas regiões do Centro-Sul – nas eleições para governador, senador e deputado federal, é um fenômeno que deixou desolado o indivíduo mais otimista. Em um país "normal", sem as fraturas psíquicas e as contradições que possuímos, Bolsonaro seria fragorosamente enxotado do cargo. 

            Os mais de 50 milhões de votos recebidos por Bolsonaro é um golpe impiedoso na sensatez e na razão. Como explicar algo assim? O governo Bolsonaro é um dos piores da história da República. Qualquer dado que seja estudado demonstra que houve mais retrocessos do que avanços em várias áreas. A gestão da pandemia por si só nos coloca diante de uma tragédia. A falta de humanidade, de simpatia para com milhões de brasileiros que morreram ou que tiveram seus familiares enlutados é indignador; o atraso intencional e sistemático na aquisição das vacinas também estarrece. O movimento antivacina. O incentivo ao uso de medicação equivocada também impressiona. O questionamento absurdo à ciência. O discurso violento. As falas desumanas. A misoginia. O cristianismo de faixada. As intenções destruidoras. O armamento sem precedentes da população brasileira. A retórica golpista. O desrespeito às instituições. O jogo constante que procura impor um olhar de descrédito a tudo aquilo que se refira aos pressupostos da razão. A falência econômica. A inflação. A fome que passou a assustar como um fantasma milhões de brasileiros pobres. O neoliberalismo em seu estilo mais cru. Todo esse repertório de políticas negativas deveria mobilizar o país para uma posição defensiva. 

            Todavia, parece que isso não importa. O brasileiro não parece, simplesmente, fazer um esforço para conectar os fatos. É como se ele ignorasse o quanto significam quatro anos de um novo mandato do atual governo. Com a pujança que conseguiu nas eleições parlamentares, o que ainda nos resta de proteção social e trabalhista na Constituição de 88, será simplesmente atropelado e solapado. A única música que o brasileiro consegue mimetizar é: “Lula não”. “PT nunca mais”. Sem pensar nas consequências da sua escolha.

            O país não está lidando com um indivíduo qualquer. Estamos lidando com um projeto miliciano, que tem por objetivo acabar com as conquistas civilizatórias do país. É a construção de uma ditadura explícita, assim como já se deu na Hungria ou na Turquia.  O bolsonarismo sai forte da eleição; e, o Brasil, enfraquecido.

sábado, junho 11, 2022

Algumas palavras sobre "O encontro marcado", de Fernando Sabino

 
“De tudo ficaram três coisas: a certeza de que ele estava sempre começando, a certeza de que era preciso continuar e a certeza de que seria interrompido antes de terminar. Fazer da interrupção um caminho novo. Fazer da queda um passo de dança, do medo uma escada, do sonho uma ponte, da procura um encontro."  
                                                                                   Fernando Sabino, em "O encontro marcado".

Durante certo tempo, eu alimentei o desejo de realizar a leitura de “O encontro Marcado”, considerada a obra máxima do escritor mineiro Fernando Sabino. Cheguei, certa vez, a iniciá-la. Abandonei-a em seguida. Nascido em 1923, Sabino faz parte de uma geração de intelectuais e escritores brilhantes de Belo Horizonte. Junto com Hélio Pellegrino, Otto Lara Rezende e Paulo Mendes Campos – os quatro ficaram conhecidos extravagantemente como ‘os quatro cavaleiros do apocalipse’ - foram responsáveis por representar os anseios, o vigor, o dinamismo intelectual e a inquietação de espírito de uma geração.

Bem articulado e habilidoso socializador, Sabino desfechou amizades com os principais nomes da literatura brasileira de sua geração. Além do famoso círculo belo-horizontino, ao mudar para o Rio de Janeiro, passou a ter um séquito de respeitáveis relações. É o caso de Vinícius de Morais, Clarice Lispector, Marques Rêbelo entre outros importantes nomes. Além dessas amizades, ainda estabeleceu contatos com outros nomes como o do pernambucano Manuel Bandeira e do paulista Mário de Andrade.

Sabino desde cedo se mostrou detentor de uma capacidade incomum de manipular a palavra – fosse escrevendo ou falando. Quando assistimos a alguma das suas entrevistas (disponíveis no Youtube), fica mais que evidente a fluência fácil das palavras. Seus textos escritos também são marcados por esse estilo incomum. Sabino não era um escritor difícil. Já embebido do mais puro modernismo, seu texto possui o ritmo do jornalismo. Talvez, essa característica seja oriunda da sua carreira anterior à de escritor. Cronista por excelência, antes de ser romancista já possuía dois livros escritos: um de conto e outro de crônicas. O mineiro somente estreou como romancista quando já se encontrava com mais de trinta anos. E foi justamente com “O Encontro Marcado” que isso aconteceu.

Antes de ler o famoso livro de 1956, eu já havia lido outros três livros escritos pelo autor. O primeiro deles foi o divertido “O homem nu”, uma curta novela repleta de nuances cinematográficas. Depois, eu li “O grande mentecapto”, obra que possui uma forte ressonância religiosa. E – para mim – o seu melhor texto: “O menino no espelho”, obra cuja força memorialística nos coloca diante de um problema: ficamos sem saber se aquilo que está descrito é ficção ou puro registro autobiográfico.

Confesso que “O encontro marcado” não imprimiu em mim os mesmos sinais das obras citadas acima. Nota-se, inconfundivelmente, na produção romanesca, uma preocupação com a reflexão filosófica e de funda inquietação existencial. Todavia, não deixei de me sentir incomodado com a tentativa de deixar transparecer certa sofisticação esquemática, talvez, num esforço por imitar os existencialistas franceses. Quero estar enganado sobre isso. Talvez, seja a evidência do lado mais universal daquilo que é abordado na obra.

Nota-se, ainda, na figura da personagem principal – Eduardo Marciano – uma espécie de alter ego do escritor mineiro. O romance é aquilo que se pode chamar de “romance de formação”, porquanto procura descrever os eventos da vida da personagem até a fase adulta. Ou seja, romance de formação é aquele que se preocupa em narrar os eventos que levam ao amadurecimento da personagem principal, seja do ponto de vista biológico, psíquico, emocional, filosófico etc.

No caso em questão, o narrador em terceira pessoa descreve eventos que vão da infância, passando pela adolescência até a fase adulta da vida da personagem. Cada uma dessas fases é marcada por características que, querendo ou não, vão formar aquilo que Eduardo Marciano tornar-se-ia.

Na infância, notamos seu comportamento impulsivo, melindroso; repleto de vontades. Os pais não conseguem dobrar a vontade do garoto. Na adolescência surgem episódios de indisciplina na escola; e com a religião. Na juventude, o namoro repleto de altos e baixos com a filha de um diplomata. A ida para o Rio de Janeiro. O casamento que acabaria em frustração e leva ao adultério por parte dele. Os vícios e a irreprimível boêmia.

Todos esses eventos são construídos com uma prosa ágil, fluídica, dinâmica, como se tivesse a preocupação de contar os fatos como se eles fossem uma representação da passagem do tempo e do acúmulo de experiências e dramas da vida da personagem.




A década de 50 do século XX, apontava uma série de inquietações tanto no Brasil como no mundo. Em 1945, terminara a Segunda Grande Guerra. O mundo havia sido fracionado em duas partes, sendo que um lado ficaria sob influência ideológica dos Estados Unidos (capitalismo) e a outra parte sobre influência da União Soviética (socialismo). Teve início da Guerra Fria, que sempre deixava um receio no ar: a próxima guerra mundial seria nuclear. As duas potências vitoriosas detinham poderosos arsenais nucleares. Como decorrência desse cenário, começou uma aguerrida corrida espacial. Em 1957, a União Soviética enviaria o seu primeiro satélite ao espaço, sendo que, no mesmo ano, a cadela Laika alçaria voo em torno da Terra. Os Estados Unidos, por sua vez, enviariam o seu primeiro artefato espacial no ano de 1958. No Brasil, a década de 50 foi marcada por eventos políticos turbulentos. Primeiro se deu o retorno de Getúlio Vargas ao poder em 1951. Em 1954, houve o seu emblemático suicídio, após uma difamadora campanha contra o seu governo. Em 1955, houve uma tentativa de golpe militar. Em 1956, Juscelino Kubitschek iniciou o seu governo, que buscava modernizar o país e cujo bordão era: “50 anos em 5”.

Era mais que natural que isso gerasse ebulições internas e questionamentos a respeito da própria condição do país e da vida. O livro foi considerado, por conta disso, como “o retrato de uma geração”, porque apontava para os conflitos e o questionamento de certos valores estabelecidos e que pareciam caducar. O mundo estava em mudança. Havia a configuração de uma nova estrutura econômica, com novos atores políticos, o que acabava por gerar consequentes mudanças psíquicas e filosóficas, fazendo-se sentir nos mais jovens.

Além disso, é importante apontar para o fato de “O encontro marcado” problematiza aquilo que é mais caro para os jovens, que é lidar com os próprios desejos diante de cenários incertos. A questão mais séria colocada no livro diz respeito a sobre como amadurecer em um mundo desorientado, caótico, incerto, em rota de mudança.

segunda-feira, maio 23, 2022

Os Sertões, de Euclides da Cunha, algumas breves palavras

 “Tinha nos braços finos uma menina, neta, bisneta, tataraneta talvez. E essa criança horrorizava. A sua face esquerda fora arrancada, havia tempos, por um estilhaço de granada; de sorte que os ossos dos maxilares se destacavam alvíssimos, entre os bordos vermelhos da ferida já cicatrizada. A face direita sorria. E era apavorante aquele riso incompleto e dolorosíssimo aformoseando uma face e extinguindo-se repentinamente na outra, no vácuo de uma gilvaz”.

 

                “Os Sertões” é um colossal livro produzido por circunstâncias extremadas e pela genialidade de um brasileiro que conseguiu enxergar o nosso atraso e as nossas injustiças. Concluí, embasbacado, a leitura do desafiante livro no mês de fevereiro. Somente agora consegui escrever algumas magras linhas para assinalar as minhas impressões. Havia tentado em duas ocasiões realizar a leitura da obra; reunir esforços para finalizar o projeto. Não consegui. Desisti nas primeiras páginas. O livro escrito por Euclides Cunha exige paciência, disciplina e uma vontade indômita para vencê-lo. É preciso ficar de pé, com a espinha ereta para encará-lo. Quem se intimida nas primeiras páginas, acaba por se amofinar e acaba colocando a obra a um canto.

                A sua divisão interna – A terra, O homem e A luta, respectivamente – parece surgir para impor obstáculos.  A primeira parte é repleta por uma linguagem pejada por dificuldades; por termos técnicos – da geologia, da botânica, da climatologia. Euclides faz uma escrutinadora varredura pela região nordestina e, de forma pormenorizada, pela região agreste da Bahia, onde se deu o conflito entre os rudes sertanejos contra as forças da recém-criada República. Parece um teste de resistência. Todavia, algo curioso acontece: após nos acostumarmos à paisagem dura, empertigada, da estética euclidiana, ganhamos um vasto mundo de belezas, de sinuosidades.

                Euclides ao escrever o seu livro segue um rigoroso método. Formado pelo arrojo acadêmico das ciências do século XIX, Euclides segue o determinismo taineano.  Segundo o filósofo francês Hippolyte Taine, para se fazer história, era necessário entender o homem à luz de três fatores: o meio ambiente, a raça e o momento histórico. O método taineano foi revolucionário. Na França, escritores como Maupassant e Zola foram impregnados pelo seu pensamento.

                Euclides da Cunha teve formação militar. Era um engenheiro. Seu rigor científico-matemático era imensamente aguçado. O escritor fazia parte de uma corrente de jovens intelectuais republicanos. Um agudo observador das transformações políticas do país, mas assentado numa sólida formação positivista. Euclides também se enveredou pelo jornalismo. Acompanhou à distância o conflito. Havia, no Centro-Sul, uma série de miragens sobre o que estava acontecendo no interior do país. Preconceitos. Caricaturas. Os jornais noticiavam que o grupo de Antonio Conselheiro procurava reinstalar a Monarquia, o que constituía uma afronta à República; às lideranças políticas e aristocráticas que haviam destituído o imperador.

Euclides da Cunha

                Por sua vez, no interior da Bahia surgira o mal-arranjado arraial, liderado pela misteriosa figura de Antônio Conselheiro, um andarilho que havia conseguido aglutinar em torno de si uma massa de sertanejos supersticiosos e necessitados. Nascido no Ceará, Conselheiro possuía as prerrogativas de profeta para o povo. Sua vida tinha sido até o estabelecimento em Canudos, uma ciranda de eventos de desencontrados. Havia exercido diversas profissões. Até que, após descobrir a traição da sua companheira, decide começar uma marcha messiânica pelos sertões. Peregrina pelo interior; passa por pequenas e desassistidas cidades. Prega para as populações incultas. Procura embelezar os cemitérios. Sua mensagem estava repleta por um messianismo escatológico. Até que se estabelece na fazenda Monte Santo, às margens do rio Vaza-Barris, na região caatingosa do sertão baiano.  Uma massa considerável segue seus enigmáticos ensinamentos. Euclides afirma em estilo seco como lhe é tão peculiar sobre o Conselheiro: “E surgia na Bahia o anacoreta sombrio, cabelos crescidos até os ombros, barba inculta e longa; face escaveirada; olhar fulgurante; monstruoso, dentro de um hábito azul de brim americano; abordoado ao clássico bastão em que se apoia o passado tardo dos peregrinos...”

                Euclides descreve a biografia de Conselheiro na segunda parte do livro. É nessa sessão do livro que ele procura apresentar o sertanejo. É nela que encontramos a famosa frase: “O sertanejo é, antes de tudo, um forte”. Na segunda parte, Euclides procura levar à frente o empreendimento taineano abordando a perspectiva de raça, aplicando os conhecimentos da ciência da época. Segundo ele, o sertanejo estava fadado ao desaparecimento.

Acontece que o sucesso do arraial contrariou muitos interesses. Afinal de contas, muitos sertanejos abandonaram fazendas de coronéis mandonistas da região para acreditar nessa nova Canaã que havia surgido no meio do inclemente sol da região tórrida. Se não há ninguém para trabalhar, para explorar, o que fazer? O medo infundado era disseminado. As notícias tumultuadas por uma cortina de desencontros informativos, criavam especulações variadas tanto local, como nacionalmente. Havia um solerte perigo naquela chusma de sertanejos maltrapilhos. Certamente, que poderiam trazer perigo à jovem e promissora República – era o que diziam com a finalidade de criar um factoide contra os conselheiristas.

Vista do Arraial

Três expedições haviam, desde o final do ano de 1896, tentado debelar de uma vez por todas o Arraial de Canudos. De forma inexplicável, os nordestinos resistiram bravamente.  A tenacidade com que lutavam demonstrava que os sertanejos estavam dispostos a qualquer custo defender Canudos. Havia uma crença de que estavam lutando por algo que era sagrado. Caso não fossem perturbados ou acossados, certamente teriam impelido suas vidas; plantado suas roças; criado seus filhos e filhas sem nenhuma preocupação com os destinos da vida política do país. A famosa questão do Conselheiro acerca do casamento e das novas leis da República, eram mais uma superstição do que uma causa militante pelos quais se tornava possível lutar.

Acontece que isso serviu de estopim para criar uma comoção nacional em torno da questão Canudos. Após a derrota da Terceira Expedição e a morte do generalíssimo Moreira César, o corta cabeças, famoso pela personalidade sanguínea e a humilhação pela qual passara os soldados, foi responsável por alargar ainda mais o preconceito da opinião pública do Centro-Sul contra os mais de vinte mil sertanejos que formavam o tecido humano de Canudos. Os jornais veiculavam especulações dia e noite. Disseminam preconceitos e desinformações. O próprio Euclides enquanto estava à distância, tinha a percepção de que aqueles rudes sertanejos precisavam aprender uma lição dada pela República. Não era possível que beatos ignorantes comprometessem o progresso. Como o próprio Euclides afirma: “O sertanejo defendia o lar invadido, nada mais”.

Euclides segue para Canudos junto com a Quarta Expedição, capitaneada pelo ardiloso general Arthur Oscar, um veterano de guerra, que fora incumbido pelo ministro da guerra e pelo presidente da República a fim de que pusesse fim à cidade “monstruosa”. Euclides chega à Canudos em agosto de 1897, momento em que o conflito ganhava contornos dramáticos. Os sobreviventes do massacre estavam esfaimados, feridos, mutilados ou mortos dentro das casas, que haviam se tornado em jazigos de barro. O escritor ficou por pouco mais de um mês no ambiente do conflito. Assusta saber que nesse espaço de tempo, ele tenha se apropriado de impressões tão fundas ao ponto de derramá-las em um livro como “Os Sertões”, que somente seria escrito cinco anos após o conflito, no interior de São Paulo.

O cronista enviado pelo O Estado de São Paulo deixou o espaço da guerra em 3 de outubro de 1897, dois dias antes da derrocada completa de Canudos. Ele mesmo havia conseguido transitar pelas ruelas estreitas e mal planejadas da cidade.  Um “dédalo desesperador de becos estreitíssimos”, foi a categórica descrição utilizada por ele após ter caminhado em meio ao caos de destruição aos quais cidade havia sido submetida.

O escritor presenciou um quadro completamente diferente daquele que era mostrado pelos órgãos oficiais e pela imprensa da época. Não havia revolucionários revoltos; um exército disposto a pôr abaixo a República. Muito pelo contrário. Euclides estava diante de velhos carcomidos pela necessidade. Crianças feridas. Homens gastos que se equilibravam sofrivelmente, trôpegos, espreitados pelas tropas federais e pelas aves carniceiras. Nas palavras de Euclides: “Os feridos chegavam em estado miserando. Prolongavam pelas ruas da cidade aquela onda repulsiva de trapos e carcaças, que vinham rolando pelas veredas sertanejas o refluxo repugnante da campanha”.

Na visão de Euclides, a Campanha de Canudos havia mostrado uma face injusta e covarde da chamada civilização contra os ditos incivilizados, contra os inviabilizados. No trecho de abertura da obra ele enuncia em três reveladores parágrafos:

“Aquela campanha lembra um refluxo para o passado.

E, foi, na significação integral da palavra, um crime.

Denunciemo-lo”.

O escritor apresenta assim, no início, a sua posição. Esclarece o que o leitor vai encontrar pela frente no seu caudaloso e denso texto. Sim. Houve um crime. Uma das páginas mais bárbaras da história do país. As forças Estado exterminaram mais de 25 mil brasileiros sob a conivência da letargia de uma sociedade cega e preconceituosa. De um país que não se conhecia e que continua a não se conhecer.

“Os Sertões” é uma obra que possui muitos ecos. Pode ser enquadrado, por causa de seu estilo duro e torrencial sob vários pontos de vista – estudo historiográfico, antropológico, sociológico etc. É importante apontar que ele possui a força de uma epopeia. Constitui, assim, a epopeia trágica que representa as relações que o Estado Brasileiro estabelece com parcelas consideráveis de seus pobres e desassistidos.  O texto euclidiano é um libelo contra um país violento e ignorante; um país imenso, miscigenado, conduzido por uma das elites mais mesquinhas do mundo. Um país cujas lideranças são subservientes aos interesses internacionais, mas que possui um apetite voraz contra “os de baixo”.  Um país que não se entende; que não ressignifica a própria história.

“Os Sertões” é um livro obrigatório. Certamente, uma das leituras mais importantes da minha vida.