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segunda-feira, outubro 09, 2023

Carta à vizinha do 303



Boa tarde! Aqui é o vizinho do 301.

Segundo a Constituição de 1988, “a casa é o asilo inviolável do indivíduo”. Nela estruturamos aquilo que chamamos de lar. Expressamos as nossas individualidades. É o nosso espaço privativo por determinação. Colocamos em prática hábitos e costumes que comumente não o fazemos em público.  Sendo assim, ando descalço sem preocupação; fico sem camisa sem o receio de que alguém chame a minha atenção. Estou, afinal, em meu espaço de liberdade, na circunscrição do realizável.

Todavia, há uma limitação a esse asilo de liberdade. Por não viver isolado de relações - em um deserto ou uma ilha – há pessoas que estabelecem conexões com a minha pessoa. Devo respeito a elas. Há certas matérias como sons, fumaças e cheiros variados que não respeitam os limites que demarcam o meu espaço de liberdade.

Ora, por que escrevo tais coisas? Explico-me em seguida:

Somos vizinhos há pelos menos seis anos e sempre mantivemos uma boa relação – polida, amistosa, respeitosa. Já pude observar que a senhora é fumante. E esse é justamente o ponto a que gostaria de chegar.  Eu não fumo e nem tenho o interesse em fazê-lo. Respeito o direito de a senhora fumar. Eu não tenho nada a ver com isso. No entanto, nessa questão reside um problema, pois eu e minha família abominamos o cheiro de cigarro. Fazemos a opção de não fumar, pois somos sabedores do quanto um mísero cigarrinho faz mal à saúde. Além disso, temos um filho pequeno que apresenta, de tempos em tempos, problemas respiratórios.

Costumamos deixar a janela da sala aberta – ainda mais nesses dias quentes – e acabamos sendo violentados pelo cheiro indesejado do cigarro que a senhora “saboreia” em seu “asilo inviolável”. A fumaça do cigarro – que não respeita espaços – acaba tomando a minha casa inteira e eu sou obrigado a fechar, em muitos momentos, a minha janela. Com isso, a minha casa acaba sendo “violada” pelas emanações nauseantes do alcatrão. Imagino que a senhora fume de janelas abertas.

Minha esposa já foi até a síndica. Fez uma reclamação. Pediu uma solução. A síndica não se mostrou firme. Mastigou algumas explicações. Desconversou. Por fim, o problema nos incomoda há muito tempo. Por isso, numa tentativa de resolução do problema, solicito encarecida e respeitosamente que a senhora feche as janelas de seu asilo inviolável quando for fumar a fim de que o meu não seja “violado” pelo cheiro de cigarro.

Cônscio de sua atenção, desejo liberdade e entendimento. 

Obrigado.

domingo, maio 19, 2013

Resposta a uma pergunta...

Texto escrito como resposta elaborada por mim a uma pergunta feita por um colega de seminário (hoje pastor presbiteriano). Fiz algumas modificações para que a impessoalidade pudesse prevalecer:



"Xxxxx, paz e bem para você!

Desculpe por não tê-lo respondido antes. Não ignorei sua mensagem. Apenas quis achar um momento oportuno para tal. Com relação à igreja, de fato, não estou vinculado a nenhuma comunidade - apesar de, acredito, ainda está inserido no rol de membros da Igreja Presbiteriana do Cruzeiro. Não quero passar a ideia de que me tornei mais esclarecido, mais evoluído, mais sofisticado; de que descobri a pólvora da consciência cósmica e espiritual, mas muito daquilo que é pregado pela igreja não preenche mais as minhas necessidades. Atualmente, penso que a Igreja pregue uma dogmática que é mais linguagem do que verdadeira espiritualidade. A Igreja é uma comunidade que prega uma moralidade castrante e reacionária. Suas expressões estão balizadas em um conservadorismo que é resultado do antigo judaísmo. Na verdade, penso que defendamos cegamente aquilo que nos contaram. Nunca fizemos uma investigação verdadeira. Repetimos a história de uma sociedade que conseguiu perpetuar suas crenças. A espiritualidade é uma dimensão inegável do ser humano, mas ela não é privativa de determinado entendimento cultural ou religioso. Continuo desejoso da verdadeira espiritualidade, mas a espiritualidade dos monges medievais - São Boaventura, Santa Tereza de Ávila, Santo Agostinho, São Jerônimo, São João da Cruz... que para mim são modelos de uma verdadeira espiritualidade. Sinto-me desconfortável quando vou à Igreja e escuto discursos "grávidos" de uma moralidade que reivindica exclusividade da verdade. A verdade não é algo que alguns homens tenham e, outros, não. Muito pelo contrário, acredito que exista uma diversidade de compreensões, pois todas as verdades são verdades do Uno. Reivindicar a exclusividade da verdade é uma violência contra as leis que regem a natureza. Na natureza, não encontramos "o um", encontramos "o muito". A verdadeira espiritualidade é aquela que  liberta para viver aquilo que é típico e característico do ser humano: a capacidade de ser humano plenamente. A espiritualidade deve impulsionar o sujeito a viver uma humanização verdadeira na história. Penso que a Igreja só está aberta a dialogar com aquele sujeito que verbalize a mesma linguagem. O diferente não entra na Igreja. É necessário que ele se "converta". Conversão (essa palavra!) quer dizer um "modus operandi" que se coaduna com a récita da comunidade.

Peço perdão se fui agressivo com as palavras e agradeço as suas orações. Isso demonstra o quanto praticas uma espiritualidade diferenciada. Alguns podem me criticar. Você, pelo contrário, tenta me entender.

Abraço forte!

P.S. Se quiseres conversar, é só chamar".