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sábado, abril 18, 2020

Três textos e uma ideia





V - Há metafísica bastante em não pensar em nada.

V

Há metafísica bastante em não pensar em nada.

O que penso eu do Mundo?
Sei lá o que penso do Mundo!
Se eu adoecesse pensaria nisso.

Que ideia tenho eu das coisas?
Que opinião tenho sobre as causas e os efeitos?
Que tenho eu meditado sobre Deus e a alma
E sobre a criação do Mundo?
Não sei. Para mim pensar nisso é fechar os olhos
E não pensar. É correr as cortinas
Da minha janela (mas ela não tem cortinas).

O mistério das coisas? Sei lá o que é mistério!
O único mistério é haver quem pense no mistério.
Quem está ao sol e fecha os olhos,
Começa a não saber o que é o Sol
E a pensar muitas coisas cheias de calor.
Mas abre os olhos e vê o Sol,
E já não pode pensar em nada,
Porque a luz do Sol vale mais que os pensamentos
De todos os filósofos e de todos os poetas.
A luz do Sol não sabe o que faz
E por isso não erra e é comum e boa.

Metafísica? Que metafísica têm aquelas árvores
A de serem verdes e copadas e de terem ramos
E a de dar fruto na sua hora, o que não nos faz pensar,
A nós, que não sabemos dar por elas.
Mas que melhor metafísica que a delas,
Que é a de não saber para que vivem
Nem saber que o não sabem?

«Constituição íntima das coisas»...
«Sentido íntimo do Universo»...
Tudo isto é falso, tudo isto não quer dizer nada.
É incrível que se possa pensar em coisas dessas.
É como pensar em razões e fins
Quando o começo da manhã está raiando, e pelos lados das árvores
Um vago ouro lustroso vai perdendo a escuridão.

Pensar no sentido íntimo das coisas
É acrescentado, como pensar na saúde
Ou levar um copo à água das fontes.

O único sentido íntimo das coisas
É elas não terem sentido íntimo nenhum.

Não acredito em Deus porque nunca o vi.
Se ele quisesse que eu acreditasse nele,
Sem dúvida que viria falar comigo
E entraria pela minha porta dentro
Dizendo-me, Aqui estou!

(Isto é talvez ridículo aos ouvidos
De quem, por não saber o que é olhar para as coisas,
Não compreende quem fala delas
Com o modo de falar que reparar para elas ensina.)

Mas se Deus é as flores e as árvores
E os montes e sol e o luar,
Então acredito nele,
Então acredito nele a toda a hora,
E a minha vida é toda uma oração e uma missa,
E uma comunhão com os olhos e pelos ouvidos.

Mas se Deus é as árvores e as flores
E os montes e o luar e o sol,
Para que lhe chamo eu Deus?
Chamo-lhe flores e árvores e montes e sol e luar;
Porque, se ele se fez, para eu o ver,
Sol e luar e flores e árvores e montes,
Se ele me aparece como sendo árvores e montes
E luar e sol e flores,
É que ele quer que eu o conheça
Como árvores e montes e flores e luar e sol.

E por isso eu obedeço-lhe,
(Que mais sei eu de Deus que Deus de si próprio?),
Obedeço-lhe a viver, espontaneamente,
Como quem abre os olhos e vê,
E chamo-lhe luar e sol e flores e árvores e montes,
E amo-o sem pensar nele,
E penso-o vendo e ouvindo,
E ando com ele a toda a hora.

Alberto Caiero, um dos heterônimos de Fernando Pessoa. Daqui

terça-feira, agosto 21, 2018

segunda-feira, fevereiro 05, 2018

Enquanto isso... no andar de cima

O Brasil não é um país sério. Disso todo mundo está careca de saber. Acontecem coisas por aqui que seriam impensáveis em qualquer parte do mundo. Um dos problemas mais sérios do brasileiro é que ele não se leva a sério. Esse "ceticismo de vira-latas" é um mal que nos assola, que vai nos consumindo. Vejam, por exemplo, a charge abaixo. Ela vivica nosso raquitismo, nosso mandonismo diário e como o jogo político dos mandatários do país é realizado. E como disse certa vez Darcy Ribeiro 'as elites brasileiras estão entre as mais atrasadas e ranzinzas do mundo'. Há comicidade, mas também há uma tragicidade latente nisso tudo. 


quinta-feira, janeiro 30, 2014

Uma citação de Emil Cioran e três tirinhas de "Um sábado qualquer"

Já deixei aqui por várias vezes a minha posição - que acredito ser tergiversante - sobre a religião institucional. Simplesmente, não ponho "a minha fé" naquilo que os fiéis chamam de deus ou outra força qualquer. É uma discussão pífia, um ramerrão insuportável, o debate sobre a existência ou não existência de deus. Vejo determinadas manifestações religiosas com profundo asco. É tudo tão infantil e desmesurado. Uma violência simbólica. Um sonho, um abraçar o escuro e, que no fim, resulta numa expectativa de estabilidade espiritual, que não é nada em si.

Hoje me chegou o Breviário da Decomposição - um dos três livros que comprei desse autor -, do escritor franco-romeno Cioran.  No primeiro capítulo intitulado "Genealogia do Fanatismo", encontramos as seguintes palavras:

"Em si mesma, toda ideia é neutra ou deveria sê-lo; mas o homem a anima, projeta nela suas chamas e suas demências; impura, transformada em crença, insere-se no tempo, toma forma de acontecimento: a passagem da lógica à epilepsia está consumada... Assim nascem as ideologias, as doutrinas e as farsas sangrentas. Idólatras por instinto, convertemos em incondicionados os objetos de nossos sonhos e nossos interesses. A história não passa de um desfile de falsos. Absolutos, uma sucessão de templos elevados a pretextos, um aviltamento do espírito ante o Improvável. Mesmo quando se afasta da religião, o homem permanece submetido a ela; esgotando-se em forjar simulacros de deuses, adota-os depois febrilmente: sua necessidade de ficção, de mitologia, triunfa sobre evidência e o ridículo. Sua capacidade de adorar é responsável por todos os crimes: o que ama indevidamente um deus obriga os outros a amá-lo, na espera de exterminá-los se se recusam. A história não passa de um desfile". São palavras de resplandecência nietzscheneana. Aliás, Cioran era um ardoroso leitor de Nietzsche. Mais que crítica destruidora, a afirmação do filósofo nos alerta para o niilismo anti-humano da religião.

O propósito deste post, deixando de lado o clima infenso, é compartilhar as três tiras ácidas abaixo, que explicam mais do que qualquer estudo antropológico e filosófico o processo hegemônico de dominação da religião cristã. As três suscitam de forma cômica e inteligente um debate relevante. Por que o deus judaico-cristão é o único deus? Por que o cristianismo é a religião que possui mais fiéis no mundo? As tirinhas foram tiradas da página Um sábado qualquer, do Facebook. As três são geniais!

















quarta-feira, janeiro 23, 2013

Reflexões sobre a sociedade do espetáculo


"A servidão moderna é uma escravidão voluntária, consentida pela multidão de escravos que se arrastam pela face da terra. Eles mesmos compram as mercadorias que os escravizam cada vez mais. Eles mesmos procuram um trabalho cada vez mais alienante que se lhes outorga se demonstram estar suficientemente domados. Eles mesmos escolhem os mestres a quem deverão servir".


"Neste estreito e escuro espaço onde vive, o escravo acumula as mercadorias, que, segundo as mensagens publicitárias onipresentes, deverão lhe trazer a felicidade e a plenitude. Mas quanto mais acumula mercadorias, mais se afasta dele, a possibilidade de ter acesso, um dia, à felicidade".

"A mercadoria, ideológica na essência, priva do seu trabalho quem a produz, e despoja de sua vida, que a consome".

"Todas estas mercadorias, destruídas massivamente num curto lapso de tempo, modifica profundamente as relações humanas. Se serve por um lado para isolar o homem um pouco mais dos seu semelhantes, por outro para difundir as mensagens dominantes do sistema. As coisas que possuímos, acabam nos possuindo".

A pilhagem dos recursos do planeta. A Abundante produção de energia ou de mercadorias. Os resíduos e os despejos do consumo ostentoso hipotecam as possibilidades de sobrevivência da nossa terra e das espécies que a povoam. Mas para dar passagem ao capitalismo selvagem, o crescimento não deverá parar jamais. Há que se produzir, produzir e voltar a produzir cada vez mais".

"Para entrar na ciranda do consumo frenético, tem que ter dinheiro. E para tê-lo, tem que trabalhar. Quer dizer, "vender-se". O sistema dominante fez do trabalho seu principal valor. E os escravos devem trabalhar
cada vez mais para pagar a crédito sua vida miserável".

"Se esgotam no trabalho, perdem com ele a maior parte de sua força vital e tem que suportar as piores humilhações. Passam toda sua vida fazendo uma atividade extenuante e monótona para benefício de poucos.  A tensão do desemprego moderno tem como propósito assustá-los e fazê-los agradecer sem parar à generosidade do poder. Que fariam sem essa tortura, que é o trabalho? São estas atividades alienantes, as que nos apresentam como um liberação. Que mesquinhez e que desprezo. Sempre pressionados pelo cronômetro ou pela campainha, cada gesto dos escravos está calculado para aumentar a produtividade. A organização científica do trabalho constitui a essência da disposição dos trabalhadores. Do fruto de seu trabalho, e do tempo que passam na produção automática das mercadorias e dos serviços. A atividade do trabalhador confunde-se com a de uma máquina nas fábricas, ou com de um computador nos escritórios. O tempo pago não se recupera jamais. Desta maneira cada empregado está ligado a um trabalho repetitivo, seja intelectual ou físico. É um especialista em sua área de produção. Esta especialização se reproduz em escala planetária no marco da divisão internacional do trabalho. Se concebe no ocidente, se produz na Ásia, e se morre na África".

À medida que o sistema de produção coloniza todos os setores da vida, o escravo moderno, não satisfeito
com sua servidão no trabalho, segue desperdiçando seu tempo nas atividades de dispersão e férias planejadas. Nenhum momento de sua vida escapa da influência do sistema. Cada instante de sua vida foi invadido. É um escravo do tempo completo".

"O melhor de sua vida escorre pelos seus dedos, mas ele continua porque tem o costume de obedecer sempre. A obediência se converteu na sua segunda natureza. Obedece sem saber porquê, simplesmente porque sabe que deve obedecer. Obedecer, produzir e consumir. Aí está a tríade que domina a sua vida. Obedece a seus pais, seus professores, seus patrões, seus proprietários e seus negociantes. Obedece a lei e as forças de ordem. Obedece todos os poderes, porque não sabe fazer outra coisa. Não há nada que o assuste mais que a desobediência. Porque a desobediência é o risco, a aventura, a mudança. Assim como uma criança que entra em pânico quando perde de vista seus pais, o escravo moderno sente-se desorientado sem o poder que o criou.".

"O escravo moderno está convencido de que não existe alternativa para a organização do mundo presente. Se resignou a esta vida porque pensa que não pode haver outra. É aí onde reside a força da dominação presente. Fazer crer que este sistema, que colonizou toda a superfície da Terra, é o final da história. Convenceu a classe dominada que adaptar-se à sua ideologia equivale a adaptar-se ao mundo tal como é e tal como sempre foi. Sonhar com outro mundo converteu-se num crime condenando unissonamente pela mídia e por todos os poderes". 

Frente à devastação do mundo real, é necessário para o sistema colonizar a consciência dos escravos. É por isso que o sistema dominante decidiu se focar na dissuasão que desde a idade mais nova, cumpre o papel
preponderante na formação dos escravos. Eles devem esquecer sua condição servil, sua pressão e sua vida miserável. Basta conter essa multidão hipnótica conectadas as telas que acompanham sua vida cotidiana. Eles disfarçam sua insatisfação permanente com o reflexo manipulado de uma vida sonhada, cheia de dinheiro, de glória e de aventura". 

"Há imagens para tudo e para todos. Essas imagens levam em si a mensagem ideológica da sociedade moderna e servem de instrumento de unificação e de propaganda. Multiplicam-se à medida que o homem é
tirado de seu mundo e de sua vida".

"Há imagens para todas as idades e para todas as classes sociais. Os escravos modernos confundem essas imagens com a cultura e, às vezes, com a arte". 

"A imagem segue sendo a forma de comunicação mais direta e mais eficaz. Constrói modelos, embrutece as massas, mente, cria frustrações e infunde a ideologia mercantil. Trata-se, pois, uma vez mais e como sempre
do mesmo objetivo: vender, modelos de vida ou produtos, comportamentos ou mercadorias". 

"Enquanto os imperadores da Roma Antiga compravam a submissão do povo com pão e circo, atualmente é com diversões e um consumo cego com que se compra o silêncio dos escravos".

"O sistema dominante se define então pela onipresença de sua ideologia mercantil. Ocupa de vez todos os espaços e todos os setores da vida. Não declaram mais do que a necessidade de produzir, vender, consumir, acumular. Reduziu todas as relações humanas a medíocres relações mercantis. E considera que nosso planeta é uma simples mercadoria".

Do documentário francês A Servidão Voluntária, de 2009. 

segunda-feira, setembro 05, 2011

"A Flora Brasiliense", por Angeli

Apenas um pequeno adendo ao post anterior. Lembrei dessa brilhante charge do Angeli. É uma explicação mais que científica do "fenômeno brasileiro".