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sexta-feira, janeiro 26, 2018

O engenho de Zé Lins (2007) - Documentário

Há muito que buscava assistir a esse documentário. Após muito procurar, quase não acreditei quando o achei. 

O engenho de Zé Lins (2007)
Direção: Vladimir de Carvalho

domingo, julho 27, 2014

"Esquerda e Direita" por Ariano Suassuna

O texto abaixo me deu uma grande alegria quando eu o li. Acredito que Ariano Suassuna, que era um grande socialista, tenha conseguido colocar de forma poética, filosófica e teológica o porquê da existência das concepções de "esquerda" e das concepções de "direita". Penso que as pessoas que alegam a não existência dessa dicotomia, queiram justamente camuflar essa distinção para que a miséria e a injustiça continuem a grassar na sociedade. A desigualdade ou a construção do campo esquerda-direita se deu no dia em que alguém disse "isso aqui é meu". A partir desse momento, o mundo passou a ser habitado por aqueles que detêm certa propriedade e aqueles que não possuem a propriedade. 

O mundo está crivado por essa diferença. E enquanto ela existir, faz-se necessário lutar pela justiça, pela equidade. É isso que justifica a defesa pelo social. As regras da sociedade de classe dizem: "Todos devem correr mil metros". E todos querem correr os mil metros para sobreviver. O problema é que algumas pessoas vão de cavalo e, outras, vão andando. Ou seja, não preciso dizer quem vai se dar melhor nessa competição. A própria bíblia está repleta de personagens que estiveram do "lado esquerdo do fronte", a defender a justiça e dignidade dos mais fracos. É só abrir em qualquer um dos livros proféticos. 

Abaixo, o texto. Excelente!

Esquerda e Direita

Não concordo com a afirmação, hoje muito comum, de que não mais existem esquerda e direita. Acho até que quem diz isso normalmente é de direita.

Talvez eu pense assim porque mantenho, ainda hoje, uma visão religiosa do mundo e do homem, visão que, muito moço, alguns mestres me ajudaram a encontrar. Entre eles, talvez os mais importantes tenham sido Dostoiévski e aquela grande mulher que foi santa Teresa de Ávila.

Como consequência, também minha visão política tem substrato religioso. Olhando para o futuro, acredito que enquanto houver um desvalido, enquanto perdurar a injustiça com os infortunados de qualquer natureza, teremos que pensar e repensar a história em termos de esquerda e direita.

Temos também que olhar para trás e constatar que Herodes e Pilatos eram de direita, enquanto o Cristo e são João Batista eram de esquerda. Judas inicialmente era da esquerda. Traiu e passou para o outro lado: o de Barrabás, aquele criminoso que, com apoio da direita e do povo por ela enganado, na primeira grande “assembléia geral” da história moderna, ganhou contra o Cristo uma eleição decisiva.

De esquerda eram também os apóstolos que estabeleceram a primeira comunidade cristã, em bases muito parecidas com as do pré-socialismo organizado em Canudos por Antônio Conselheiro. Para demonstrar isso, basta comparar o texto de são Lucas, nos “Atos dos Apóstolos”, com o de Euclydes da Cunha em “Os Sertões”. Escreve o primeiro: “Ninguém considerava exclusivamente seu o que possuía, mas tudo entre eles era comum. Não havia entre eles necessitado algum. Os que possuíam terras e casas, vendiam-nas, traziam os valores das vendas e os depunham aos pés dos apóstolos. Distribuía-se, então, a cada um, segundo a sua necessidade”. Afirma o segundo, sobre o pré-socialismo dos seguidores de Antônio Conselheiro: “A propriedade tornou-se-lhes uma forma exagerada do coletivismo tribal dos beduínos: apropriação pessoal apenas de objetos móveis e das casas, comunidade absoluta da terra, das pastagens, dos rebanhos e dos escassos produtos das culturas, cujos donos recebiam exígua quota parte, revertendo o resto para a companhia” (isto é, para a comunidade).

Concluo recordando que, no Brasil atual, outra maneira fácil de manter clara a distinção é a seguinte: quem é de esquerda, luta para manter a soberania nacional e é socialista; quem é de direita, é entreguista e capitalista. Quem, na sua visão do social, coloca a ênfase na justiça, é de esquerda. Quem a coloca na eficácia e no lucro, é de direita.

Daqui

domingo, fevereiro 16, 2014

Uma crônica inacabada sobre minha viagem a Pernambuco


"Ter pátria é ter razão para chorar"
Mia Couto

Decidi visitar a terra onde nasci. Hesitei por alguns dias. A dúvida surgiu, pois fiquei a pensar sobre qual seria o meio que utilizaria. Divaguei. Decidi, por fim, ir de ônibus. A decisão surgiu após uma caminhada. Fui a uma agência próxima de minha casa e comprei o bilhete. 36 horas na estrada, aboletado em um meio de transporte gerador de cansaço. A questão: "por que ir de ônibus?" Essa era a indagação feita pela minha esposa. Queria reviver momentos. Puxar os nacos adormecidos de experiências vividas de quando eu era criança. Peguei uma rota impensável e estúpida. 

               
Saí de Brasília, no sábado, dia 11 de janeiro, às 14 horas, com destino a Picos, cidade do estado do Piauí. Minha intenção era enxergar as entranhas de um Brasil esquecido, de um Brasil que vive imerso na letargia; queria visualizar a tessitura de uma porção do nosso país que não surge nas novelas da Rede Globo. Premeditei essas intenções pretensas e assim aconteceu.  
                 
O grande desafio de se viajar por muitas horas de ônibus é o cansaço resultante. A posição cacete. As minudências da letargia. As paradas em enxovias repugnantes. Banheiros fétidos. Comida ruim. Tratamento ordinário, dispensado por funcionários mal preparados. Acostumados a lidar com atropelos à clientela, olham-nos como se fôssemos bichos insignificantes que precisam de um favor.
                 
Foto tirada por mim em uma das cidades do Piauí
O Brasil é um país assentado em contrastes. É curioso perceber o Centro-Sul tão desenvolvido e o Nordeste tão atrasado, tão fincado em ignorância e superstições variadas. Há dez anos atrás fiz essa mesma viagem. Naquela ocasião, fiquei por 21 dias no município de Santa Luz, no Piauí, e de lá fui para Pernambuco. Dessa vez, passei pelos mesmos locais que passei daquela vez. Pouca coisa mudou. O ponto positivo está no fato de que as rodovias federais estão em ótimo estado. De Brasília, até a minha cidade, percorrendo mais de dois mil quilômetros, passando por cinco estados - Distrito Federal, Goiás, Bahia, Piauí e Pernambuco – tudo na mais perfeita qualidade. Penso que tenha sido resultado do PAC (Programa de Aceleração do Crescimento) dos governos Lula/Dilma. Todavia, observando como espectador comum, não divisei grandes mudanças na miudeza dos vários municípios pelos quais passei. Tudo na mais intacta inamovibilidade. Há, assim, uma homogeneidade no ontem e no hoje.
                 
Foto tirada por mim da região one fui criado
O Nordeste continua encimado em seu atraso interiorano. Fiquei impressionado com o Piauí. Cidades tacanhas, vilarejos incipientes; o chão gretado; a vegetação rala; rios mortiços; poços de água de um amarelo esverdeado a maior parte do caminho. Ao passar pelo interior de Pernambuco, tentei fazer uma malabarismo mental para arranjar um pensamento de como o povo consegue viver em região tão falta de oportunidades e recursos. Os homens da região vivem zonzos sem terem o que fazer. O brasileiro do Centro-Sul rico, alijado nas esteiras do progresso, antes de criticar as políticas sociais do governo, deveria visitar o interior do Brasil e sair do lugar comum. Existe uma ignorância do brasileiro com relação ao seu próprio país. Não conhecemos satisfatoriamente quem de fato somos e como a nossa história de saques e vilipêndios foi construída. Assim, penso que um dos exercícios mais éticos e cidadãos, de cada brasileiro, deveria ser conhecer o seu país antes de embarcar para a Disney ou Miami.
                 
Somos iludidos com o presente. Fazemos uma crítica sem critérios e sem conhecimento de causa. Nossa história foi construída em meio à violência. O interior do Brasil ainda nos faz lembrar uma Rússia czarista; uma sociedade firmada em compreensões medievais, alicerçada em tradições de outros tempos. Como tudo isso ocorreu? Por meio da violência e da rapinagem econômica. Quando me vem à mente a frase tão conhecida de Euclides da Cunha, autor de Os Sertões - “O sertanejo é antes de tudo um forte” -, passo a ser entendedor do que ele tentou exprimir em sentido amplo. Daqui de onde estou escrevendo essas linhas magras, excessivamente magras, contemplo um sujeito com uma enxada trabalhando no sol inclemente das dez e meia da manhã. Ou seja, o sertanejo arenga, cisma, desfere golpes contra a vida, numa tentativa de sobrevivência. A sua briga com a enxada é uma metáfora da própria existência. O Nordeste já foi a região mais rica do nosso país. Enquanto produzia cana-de-açúcar, sua importância econômica transferiu-se para outro lugar do país.
                
 A mídia cisma em mostrar o Nordeste do litoral, aquele que o mesmo Euclides da Cunha disse que havia uma separação do outro Nordeste do interior. Já estive nesses “dois nordestes” e é nítida a apartação criada pelo capitalismo.
                
Foto tirada do local onde brinquei boa parte de minha infância. A ressonância de tudo isso ainda vive dentro de mim.
 O outro dia assisti a uma palestra de Ariano Suassuna e uma fala dele me chamou atenção. Disse ele que é possível encontrar a Idade Média no Nordeste. Pude atestar isso em dois momentos: (1) enquanto atravessava o interior de Pernambuco e o interior do Piauí (mais naquele do que neste), constatei que cada cidade tem a imagem de um santo ou um padroeiro. Ou seja, existe uma forte resiliência do sertanejo à vontade do sobrenatural. A vontade divina é uma força geradora de temor. O sertanejo leva a sua existência conforme “deus quer”. O catolicismo colocou as suas garras no imaginário do povo e expeliu o veneno de uma superstição medieval, que domina e tangencia a interpretação do mundo. A religião forte balança a vontade do sertanejo. Em nome dela, ele faz romarias; recita falas; declama rezas a fim de amortecer os maus augúrios de um deus carrasco e cheio de dengos. (2) as cantigas. Ontem, enquanto ia para a cidade, tomei uma lotação e fui ouvindo a voz do povo com o propósito de me abeberar das ressonâncias sonoras dos pernambucanos. Na condução, alguém cantava uma espécie de canto triste, melodramático, um repente de dor, que falava de amores não realizados; o tema da melodia tratava de um sujeito que morria por ingerir álcool em excesso por causa de uma paixão não correspondida.
(...)

Escrito e não finalizado, dia 15 de janeiro, no Sítio dos Melos, região pertencente ao município de Vitória de Santo Antão, minha cidade natal, Pernambuco.

P.S. Outro dia encontrei um colega que há muito não via. Ele me indagou sobre as minhas férias. Quando contei sobre a viagem que fizera, ele disse que isso é coisa de pessoal de "esquerda", não deixei de dar uma boa risada.