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terça-feira, junho 11, 2024

Anton Bruckner e a imensidão

 


                Em 2024, o mundo e o Universo comemorarão os duzentos anos do nascimento do compositor austríaco Anton Bruckner. Falar o nome de Bruckner por si só já é um grande acontecimento. A vida do compositor foi repleta de curiosas ocorrências. Há relatos que o descrevem como uma pessoa ingênua e insegura; dono de uma personalidade com aspectos infantilizados. Oriundo do interior da Áustria, Bruckner era o que convencionamos chamar de caipira, de homem provinciano. Possuía hábitos incomuns. Alimentava superstições. Quem o observava – e muitos foram os seus detratores – não conseguia ligar as suas densas reflexões em forma de música, ao homem simples, de aspectos bonachões.

                Embora com uma personalidade tão excêntrica, Bruckner compôs obras que traduzem o infinito. Foi um compositor eminentemente religioso. Compôs sinfonias, missas, motetos, etc. Suas missas estão entre as obras mais bonitas para o gênero. O Seu Te Deum impressiona pelo rigor e pela grandiloquência barroca de sua estrutura.  Suas obras possuem um forte aroma espiritual.

Bruckner era um católico devoto. Alguém que levava a sério as exigências de seu credo. Como era um homem inseguro, precisava ter convicções firmes e orientadas. O compositor pode ser colocado na tradição de Bach, de Palestrina, de Victória, de Ockhegem, de Lassus ou de Josquim des Près, no que diz respeito à forte evocação religiosa de sua obra. Nota-se que Bruckner elevou o conceito de sinfonia e, por isso, é considerado um dos maiores compositores desse gênero de todos os tempos.

                A sinfonia em Bruckner é uma forma de acessar a eternidade ou de trazer o transcendente à Terra. Ela passa a expressar grandes reflexões como já havia feito Beethoven, ou como, em sua época, fazia Brahms; e, mais tarde, faria Mahler ou Shostakovich, reputados como grandes sinfonistas. A força de suas reflexões suscita os mais elevados sentimentos, as mais ideais reflexões. Alguém afirmou que as sinfonias do compositor são enormes catedrais barrocas. São ricas em detalhes, repletas de minudências; de delicados pormenores que impressionam o observador atento. Nunca se apreende todos os detalhes numa primeira observação. É preciso parar, ouvir mais de uma vez; observar os contrastes; a força simbólica das evocações; as metáforas transcendentes que provocam uma sensação de pequenez diante do imenso, do grandioso. Esse aspecto de suas sinfonias provocou muitas incompreensões no período em que foram escritas. Seus críticos eram implacáveis, pois não entendiam os efeitos estéticos do compositor. Afirmavam que os trabalhos eram longos, cansativos e sem intencionalidade. 

                Em certo momento da minha vida, já tive dificuldades com a música do compositor austríaco. Todavia, entendo que não estava à altura dos efeitos caudalosos de suas reflexões. Se hoje consigo fruir a beleza de suas composições é por que passei por um processo de evolução. Hoje, eu percebo o quão prodigioso é ter a oportunidade de ouvir uma das suas sinfonias. Para o ouvinte pouco afeito à linguagem do compositor, não é fácil apreender numa só audição os intricados detalhes de suas galáxias em forma de sinfonia. Bruckner só se torna prazeroso a partir do momento que ouvimos outros compositores e, a partir daí, procuramo-lo. O compositor não é admitido na primeira audição para ouvintes iniciantes. 

Todavia, quando se descobre a beleza de sua música, é como se todos os mistérios da vida fossem explicados, simplificados, exatificados; como se todas as feiuras e misérias morais fossem abolidas; todas as injustiças e ignorâncias fossem justificadas.

                Nietzsche disse certa vez que Bizet o tornava em “um melhor filósofo”. O filósofo alemão mencionava isso quando escutava a ópera “Carmen” do compositor francês. Eu, seguindo a mesma lógica, a mesma percepção de Nietzsche, posso afirmar (sem nenhuma pretensão, claro) que Bruckner me torna um melhor ser humano. O compositor consegue abrir para mim dimensões intraduzíveis da beleza que abarca a existência como um todo. Bruckner é capaz de beatificar a vida; de torná-la mais suscetível ao espírito, à transcendência, ao senso do que é sublime.

Abaixo, um vídeo em espanhol, que fala sobre o aspecto sublime e metafísico da música de Bruckner:

sábado, março 02, 2019

Algumas palavras sobre "Green Book - o guia"

               Assisti, no último sábado, ao filme Green Book – O guia, que traz dois nomes já conhecidos do cinema – o experiente Viggo Mortensen (de O Senhor dos Anéis e Capitão Fantástico) e o talentoso Mahershala Ali (de Moonlight). O filme possui elementos de comédia, mas o que prepondera é o drama. A obra coloca como tema central o racismo, a cultura erudita, a transformação que as relações construtivas proporcionam e a amizade improvável entre um italiano de personalidade sanguínea e um pianista de música erudita. 

                Tony Lip ou simplesmente Tony Vallelonga (Viggo Mortensen) é um segurança, o  cão-de-chácara de uma boate. Neste lugar, ele é implacável com os espertinhos e bêbados inconsequentes. Quando o seu local de trabalho passa por uma reforma, ele fica sem ter o que fazer. Precisa arrumar dinheiro para sustentar a família. Com isso, surge a oportunidade de se tornar o motorista de um pianista pelo Sul dos Estados Unidos.  O primeiro contato que Lip estabelece com Don Shirley (Mahershala Ali) não é dos melhores. Todavia, por conta das inúmeras recomendações, Don acaba por contratá-lo. 

Lip é o homem certo, mas é o antípoda de Don Shirley. O músico é um sujeito sofisticado. Possui as credenciais de um intelectual. Domina as leis combinatórias da língua. Possui a postura e a galhardia de uma cultura conseguida com treino. Lip fica impressionada com as sutilezas, com a elegância de Shirley enquanto este executa uma obra musical. Don o repreende em diversas ocasiões por conta dos pequenos atos – pegar algo indevido, agir de maneira truculenta, fumar incessantemente etc. 

Ao viajar pelo Sul dos Estados Unidos, no período em que o país enfrentava o dilema com leis e costumes que criavam abismos entre negros e brancos, nota-se o quanto a relação dos dois se torna mais próxima. Shirley enfrenta as agruras de ser negro com um treinamento superior. Uma das suas frases no filme é emblemática: “Um negro só vive tranquilo quando é famoso”. Apesar de ser um sujeito com dotes, com um estofo cultural que o colocava acima de muitas pessoas do mundo dos brancos, Shirley é estigmatizado pela questão racial. Sua cor é um muro, um impeditivo, um estorvo para que o seu fluxo social seja completo. No Sul dos Estados Unidos, os negros são tratados como párias. Não basta saber tocar Chopin, Rachmaninov ou Shostakovich. Por ser negro, Shirley é visto como alguém inferior, tolerado apenas pelas suas habilidades. Fora disso, ele é meramente decorativo.
Essa condição se acentua, quando Shirley tem que tocar em um clube. Em um primeiro momento, Shirley pede para ir ao banheiro.  Ele é proibido de usar o banheiro das pessoas brancas. Uma estrutura ordinária de madeira afastada do prédio é o lugar reservado para os negros. Shirley prefere voltar ao hotel a usar aquele espaço incipiente e vexatório. Em outro momento, o músico é obrigado a comer em local afastado do salão, onde todos os frequentadores do clube estavam. Havia uma tradição ali que impedia que pessoas como Shirley ocupassem o espaço para comer. Lip e Shirley decidem deixar o lugar. 

A questão do racismo, apesar de estar presente no filme, é tratada de forma superficial, de modo moderado. Mas, entendemos qual o propósito de tudo aquilo. Há fatos absurdos que determinam a relação entre os homens; que criam obstáculos para que os homens se aproximem, se relacionem, vivam em harmonia. Os obstáculos são criados para separar os homens. Para criar relações entre seres suposta superiores e seres inferiores, seja por uma questão econômica, racial, sexual, religiosa ou qualquer outro muro criado para segregar.

O filme deixa implícita a ideia de como uma amizade verdadeira pode melhorar os elementos relacionados. Lip muda em muitos aspectos por causa de Don Shirley. Mas o próprio Shirley também é sensibilizado pela relação com Lip. Ou seja, a amizade tem essa capacidade de criar empatia, de “afetar” dialogicamente as pessoas envolvidas. Green Book é um filme agradável. A experiência de vê-lo é positiva.
               

quarta-feira, julho 20, 2016

"As sinfonias da guerra" - documentário sobre Shostakovich

Shostakovich é uma das minhas paixões. Não tenho como negá-lo. Desde a primeira vez que eu o escutei, fiquei com uma sensação de que havia sido atropelado. Que um mecanismo de proporções colossais havia atravessado a minha corrente sanguínea. Era a Sinfonia No. 11, conhecida como "O ano de 1905", em referência ao evento que se deu em frente ao Palácio de Inverno do czar, o soberano com poderes divinos que governava a Rússia. Na ocasião, centenas de pessoas, a gente comum (soldados, camponeses, operários, mulheres, religiosos etc) havia ido lá para protestar. Todavia, os soldados que faziam a guarda e a segurança do Palácio abriram fogo contra a multidão a mando do soberano. Houve um embate. O motor bélico e combativo do povo russo fez com os trabalhadores resistissem. 

Shostakovich colocou esses humores biliosos na obra. Há marchas. Recuos. Avanços. Tambores. Uma sensação de que foices revoluteiam no ar procurando o oponente. O drama é imenso. Os soldados armados fazem os corpos caírem ao chão. Ao final, Shostakovich ainda sugere que aquele embate havia sido o prenúncio para algo que aconteceria doze anos mais tarde, durante a Revolução Russa. O czar havia conseguido uma vitória temporária. Quando escutei o trabalho fiquei impressionado com essas características tão marcantes. Mais tarde, escutei a Sinfonia no. 5. Pronto! Estava firmada a paixão. Pesquisando na internet há muito tempo atrás eu encontrei esse documentário. Não havia legendas para ele. Mesmo assim, enfrentei-o até o final. Olhando alguns vídeos no Youtube acabei por achá-lo. Fora a mensagem anti-stalinista que surge no documentário, as informações são profícuas. Mostra como Shostakovich sofreu com a repressão stalinista, tendo alguns dos seus trabalhos censurados, como é o caso de sua ópera Lady Macbeth de Mtsenk. No documentário, Valery Gergiev rege as obras de Shosta. Vale conferir!

P.S. Após ter incorporado o vídeo, ele não pôde ser exibido. Segue o link.


sábado, janeiro 04, 2014

Tudo russo.

Dmitri Shostakovich
Adoro a força marcial das obras dos compositores russos - principalmente de Tchaikovsky e da inquietação existencial de Shostakovich. Há uma angústia, uma senso trágico nesses trabalhos; uma evocação da desolação; um flerte macabro com a dor; um cinzel que estilhaça a esperança e desfralda a bandeira da agonia. Tudo urdido por meio da força. A orquestra a avolumar o paroxismo dos saracoteios espasmódicos da desolação. Afinal, de onde vem esse vagido de agonia? É só observar essa desolação, esse dia escuro nas obras de Shostakovich, Tchaikovsky, Korsakov ou Glazunov. Quando não há a angústia, existe a força; quando não existe a força, existe um devaneio impregnado de aflição. E, às vezes, as tudo está vincado, justaposto, abraçado.

Piotr Ilitch Tchaikovsky

É só observar, por exemplo, a força presente na Marcha Eslava, de Tchaikovsky; ou na fúria irônica e cínica do Concerto para cello de Shostakovich; ou ainda na beleza trágica da Abertura Romeu e Julieta, Tchaikovsky; ou na desolação acabrunhante do Concerto para violino, Shostakovich. Obras não faltam - as sinfonias e os quartetos de cordas de Shostakovich; a maravilhosa Sinfonia Patética de Tchaikovsky; as obras ululantes de melancolia de Glazunov; a energia metalizada de Rymsky-Korsakov etc

E isso não está presente apenas na música. Está espargido na literatura - Dostoiévsky, Tolstói, Gogol, Maikovsky, etc.Mas isso já é outra história.

Adora a alma russa.

Tchaikovsky, Marche Slave Op.31 Evgeni Svetlanov


Tchaikovsky, Romeo e Juliet, Gergiev, London Symphony Orchestra

Shostakovich: Cello Concerto n.1 op.107 - Mischa Maisky - 1st mvt.

David Oistrakh "Violin Concerto No 1" Shostakovich